Histórias Cruzadas (The Help. 2011). E a ajuda veio!

Abrindo um parêntese antes de analisar o filme. É que esse eu assisti no Festival do Rio 2011 – exibido como Vidas Cruzadas, mas que ao entrar no circuito comercial já virá como “Histórias Cruzadas“. Entre tantos a escolher… lembrei que uma amiga de blog, a Joyce, Blog Arte Amiga já o tinha citado. Então vi e amei! Valeu pela dica! Gostei tanto do filme que não entendi que só entraria no circuito comercial já quase Fevereiro de 2012. Pois uma data bem apropriada seria em 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Mas vá lá saber em como escolhem a data de exibição de um Filme no Brasil. Ainda mais esse que teve uma boa aceitação, de público e críticos, nos Estados Unidos; e da minha parte também. O filme é excelente! Até por conta disso eu resolvi deixar para publicar o meu texto já com ele em exibição. Incentivando assim a outros mais que não deixem de assitir. Agora sim, entrando no filme.

Histórias Cruzadas” traz como pano de fundo: de um lado as donas de casas e do outro as empregadas domésticas. Mas não se trata de uma luta de classe, e sim por mais dignidade e respeito entre elas. De imediato, há entre elas toda uma barreira de racismo. Herança de uma cultura escravagista. Num período de apenas algumas décadas passadas. Ambientadas em terras sulistas, mais precisamente no Mississipi. Como grande diferencial o filme traz um retrato 3×4 desses universos femininos. Mulheres iguais na essência, mas diferentes por forças das circunstâncias. O que estaria por trás, ou melhor, o que estaria de dentro dessas casas. Algo Histórico, mas focando mesmo na vida dessas mulheres. Num período bem marcante para todas. Onde se o saldo foi ruim para a elite local, veio quase como uma redenção para a classe espezinhada.

As tais donas de casas parecem terem saídos daquela escola em “O Sorriso de Monalisa”. Graduadas com mérito em: racismo, preconceito, futilidade, falta de amor visceral pelos próprios filhos. Delegando também às domésticas a criação dos filhos. Se tem como o grande vilão a segregação racial, tem como a personificação disso aquela que se auto proclamou a líder do grupo: a Hilly (Bryce Dallas Howard). Sua vilania é do tamanho e medida para aquilo que recebeu.

Se em “Domésticas – O Filme” temos uma prévia do grau do tratamento que muitas serviçais recebem das suas patroas, imaginem o que passavam na década de 60, Sul dos Estados Unidos. Época em que os Direitos Civis aos cidadãos negros tentavam entrar nesse território ainda com um tipo de milícia muito, mas muito cruel: a Kur Kurx Klan. Se por trás dessas máscaras estavam os maridos dessas patroas, o mais indicado seria que essas serviçais se calassem. Afinal, quem iriam socorrê-las?

_Coragem algumas vezes pula uma geração. Obrigada por trazer de volta à nossa família.”

A ajuda veio. Entre aquelas jovens brancas, uma resolveu ser a porta-voz das serviçais negras. Essa, nem o “casar e ter filhos” estava em seus planos. Seu sonho era ser jornalista com vôos em se tornar uma grande escritora. Da dona de uma Editora de Livros (Personagem de Mary Steenburgen) recebe uma importante dica. Que ganhasse experiência, não apenas no escrever, mas também em observar o entorno. Com isso teria o que dizer e como dizer. Essa jovem é Skeeter, personagem de Emma Stone. Se em “Amor a Toda Prova” ela não fez a diferença, em “Histórias Cruzadas” ela mostrou que está no caminho certo. Eu gostei da atuação dela.

Skeeter ao voltar para casa após se formar em jornalismo tenta se enquadrar na vida social local com as antigas colegas do colegial. Mas de imediato já destoa das demais por procurar um emprego em vez de um futuro marido. Conseguindo uma vaga no jornal local. Mas de algo que não tinha a menor aptidão. A vaga é para uma Coluna sobre Dúvidas e Sugestões em Trabalhos Domésticos. Parecia até piada, mas foi isso que a levou a se aproximar mais das serviçais. De uma em especial: Aibileen. E é por ela que conheceremos toda essa história. Eu comecei esse artigo com a Skeeter para então chegar na ligação entre as duas.

Aibileen é interpretada pela Viola Davis. Que está excelente! Por ela que temos também o porque do título original: “The Help“. Uma cena linda que foi menosprezada ao escolherem o título aqui no Brasil. Pois “Histórias Cruzadas” não faz jus as súplicas de Aibileen em suas conversas diárias com Deus. Escrevia tudo o que passava, o que percebia, o que ficava sabendo… Palavras muito mais fervorosas que qualquer oração. Skeeter na realidade foi quase uma ghost writer de Aibileen. Fora um salvo conduto num mundo onde ainda os brancos imperavam. Mas ela também teve uma história para contar no tal livro.

A cena de Aibileen escrevendo essas cartas para Deus, emociona. Até por algo sofrido, e muito especial. E pelo todo, me fizeram lembrar também da música do Gilberto Gil, “Se Eu Quiser Falar com Deus“. Aibileen mais que a Skeeter trazia em si o dom de escrever. O talento pode até vir de um aperfeiçoamento, de estudos, mas o dom é algo inato. Como também, só o fato de transcrever para o papel os sentimentos sofridos, já é um modo de exorcizá-los.

E é seguindo esse elo entre Fé e Realidade que ficamos conhecendo as histórias também das outras serviçais. Claro que todas essas histórias se cruzavam. Afinal todas elas, patroas e empregadas, moravam na mesma cidade, mesmo que em condados separados pela segregação racial.

O filme é longo, mas em nenhum momento perde o ritmo. Pois a atenção se mantém até por querer conhecer todas as demais histórias. As demais vidas. Saber da reação de todas quando o livro é publicado. Vibrar pela irreverência de Minny, personagem da Octavia Spencer. Minny é uma empregada que não deixará barato as injustiças que sofrera até então. Como também em soltar um palavrão na cena onde uma das amigas da mãe (Allison Janney) de Skeeter a obriga fazer, e até pelo motivo que a outra viu como afronta. Em se solidarizar com uma outra branca excluída pelas demais, a Celia, personagem de Jessica Chastain. A dupla Minny e Celia é uma comédia! Não tem como não se encantar com elas. Ri junto com a personagem da Sissy Spacek numa certa cena. E muito mais!

Uma das reflexões que o filme deixa é de que ainda há muitas dessas histórias nos dias atuais. Sob a égide de: cada um no seu lugar. Uma certa hierarquia dentro do campo profissional por certo há de se aceitar. Mas sem humilhações, nem constrangimentos com os subalternos. Na intimidade de uma casa, assim como numa empresa, precisa que haja um bom relacionamento entre todos para que tudo funcione bem. Do contrário, é uma ladeira abaixo até a falência familiar. Então a égide seria em valorizar quem realiza de fato as funções essenciais. É preciso respeito mútuo entre todos. E tirando o lado empregatício há de se pesar também o carinho que se recebe desses que em muitas das vezes terminam como sendo um membro “da família”.

Histórias Cruzadas” também deixa outras questões. Uma delas seriam com os homens. Em porque de terem sido ora passivos demais, noutras até violentos demais em meio a toda essa trama. Se eles são o que são por também serem produtos desse meio? Mas como citei, são reflexões após o filme. As máscaras deles não foram retiradas. O filme é delas!

Até pelas performances dos atores, destacando também a Direção e o Roteiro de Tate Taylor. Não li o livro de Kathryn Stockett, o qual o filme foi baseado, mesmo assim a história foi muito bem contada.

Então é isso! Entre emoções, risos e lágrimas, o filme entrou para a minha memória afetiva. De querer rever.

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Dente Canino (Dogtooth / Kynodontas. 2009)

Imagem“Dogtooth” explora as características da evolução da educação familiar – quando um casal decide fechar seus filhos ao mundo de um modo geral. Psicologicamente perturbador, este filme tem uma abordagem quase documental para analisar a educação mal concebida e os danos na vida dos três filhos do casal.

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Os três adolescentes sem nome vivem trancados em casa, e sendo educados no sistema “home school”-  onde os pais promovem uma educação  fora do sistema tradicional, e acrescentam uma instrução moral de acordo com suas respectivas crenças. Em muitas cenas, esses adolescentes escutam a mãe dá-lhes palavras do vocabulário do dia:  ”mar” é uma poltrona de couro;  “telefone” significa saleiro; “zumbis” significa flor amarela e “b*ceta” significa luz grande. Protegido pelos pais, os adolescentes só estarão prontos para explorar o mundo exterior quando seus dentes incisivos (referencia ao dente canino) cairem.

Ocupando o seu tempo jogando jogos de resistência controlada pelo pai, os jovens tem um único contato com o mundo exterior, quando recebem a visita de Christina (Anna Kalaitzidou), que trabalha na empresa do pai. Ela entra na casa para satisfazer os desejos sexuais do filho do casal, o qual, logo como a cantora Sandy, se encanta com o prazer anal, e frustra Christina ao não querer “desfrutar” mais de sua vagina. A moça, em seguida, contamina o ambiente estéril da casa com influências externas. Se conhecimento pode ser perigoso, aqui fica mais claro, diante da reação da filha mais velha do casal, em querer explorar o mundo exterior.

O cineasta Giorgos Lanthimos foi agraciado com o premio  “Un Certain Regard” em 2009 no Festival de Cannes, e chegou a receber uma inesperada, mas justa indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado, mas perdeu o premio para o drama a la telenovela “In a Better World” (2010). Lanthimos me envolveu instantaneamente com sua narrativa, simplesmente porque me senti solto neste mundo louco que ele criou – em vez de fazer uso de “voice over” para guiar a história, ele  nos coloca dentro das emoções dos personagens, evitando os ”reaction shots“,  isto é, não temos “close-ups” da emoção expressa pelos atores, mas o efeito é sentido!. Lanthimos também faz um belo uso da cultura pop para nos dar uma conexão com a história; enquanto o uso de sexo, incesto e violência, agita as nossas emoções.

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Os atores não atuam, mas vivem as suas personagens. Nem notei que o filme era falado em grego, de tão fascinado, e chocado com as cenas, principalmente vendo um pai encorajar os membros de sua família a ficarem de quatro e latirem como cães em seu quintal. Não achei engraçado, mas me encontrei intrigado como tal experiência afetaria os personagens mais tarde na história.

Não me importei tanto com o humor negro do filme, e nem foi por isso, que ja revi “Dogtooth” por 2 vezes, mas porque Lanthimos traça um olhar sobre o quão suscetíveis nós seres humanos somos quando somos condicionados a um passo em falso na educação de uma criança e como isso pode causar sérios danos.

Nota 10

Os Descendentes (The Descendants, 2011)

Muito mais que os prêmios conquistados até aqui, dois nomes me fizeram ver “Os Descendentes“: o do protagonista – George Clooney -, e o do Diretor Alexander Payne. Clooney por pertencer a uma seleta lista de que estando nos créditos, tendo oportunidade, eu assisto o filme independente da trama. Payne por ter me conquistado com “Sideways – Entre Umas e Outras“. Ele sabe trazer à tona um momento relevante na vida de um homem maduro. Universos masculinos com sensibilidade. Contextos bem diferentes de ambos os filmes. Pois num, a parada para essa revisão fora por livre escolha. Já nesse aqui, foi o destino que lhe trouxe. Meus Aplausos a Alexander Payne por mais esse trabalho!

Os Estados Unidos é um país de contrastes. Que chegam a ser paradoxais em alguns casos. Em “Os Descendentes” temos um deles na trama principal. Está até no título do filme. Perfeito, aliás! Fala da criação: como educar os filhos. De um lado há pais que, mesmo abastados, mesmo ciente de que um dia seus filhos herdarão tudo, incentivam que ainda jovens trabalhem em períodos de férias. Muitos começam entregando jornais de porta em porta, ainda na pré-adolescência. Fazem isso para que comecem a dar valor ao dinheiro conquistado pelo próprio trabalho. O personagem de George Clooney, Matt King, teve um pai assim. Embora tenha herdado um Fundo por Terras deixadas por gerações passadas, e que o deixaria viver com luxo e mordomias, foi cada vez mais vivendo dos próprios rendimentos como advogado.

Dê a seus filhos dinheiro para fazerem algo, mas não o bastante para não fazerem nada.”

Grande parte dessa herança de família eram terras ainda virgens, em Kuai, Havaí. Num ponto super privilegiado entre serras e o mar. Com matas nativas. Um lugar belíssimo, que algum político cobiçou sim, ao criar a lei que tiraria a perpertuidade delas. Bem, o filme não foca essa relevância até Histórica: “Quem é o verdadeiro dono da terra?” Mas face a especulação imobiliária, e manter um latifúndio com também o intuito de preservar a natureza local, é um caso também a pensar. Muito embora, além de Matt e dois ou três primos, todos os outros queriam a venda de tudo, e o mais breve possível. Já que diferentes de Matt viveram só do dinheiro do tal Fundo. E sem o menor controle, estavam à beira da falência. Entre eles, o primo Hugh (Beau Bridges). Um grande canditado a futuro calo na jornada de Matt.

Mas essa iminente falência era problema deles, dos primos, e não de Matt. Pois esse, como já citei, um acidente do destino bateu a sua porta. Sua esposa, Elizabeth (Patricia Hastie), após um acidente no mar, entrara em coma. E pelos médicos: irreversível. Matt era um workaholic. O que o deixava ausente de casa. Mas também da vida da esposa, como das filhas Alexandra (Shailene Woodley) e Scottie (Amara Miller).

Às vezes as trombadas do destino não vem sozinha, vem com mais coisas. É que Matt descobre que a mulher o traía, e que só não o abandonou, porque o tal carinha, Brian Speer (Matthew Lillard) era casado, e nem cogitava se separar da esposa, Julie (Judy Greer).

Ah sim! Ainda é responsabilizado do acidente, pelo sogro, Scott (Robert Forster). Esse condenava Matt por não ter dado todo o luxo que poderia dar a Elizabeth. Na cabeça dele, se ela tivesse grana a rodo, viveria em shoppings, e longe dos esportes radicais.

Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” (Simone de Beauvoir)

Matt, como depositário mor, tinha poucos dias para então assinar a venda das terras. Paralelo a isso, tentar se aproximar das filhas. Deixar de ser o pai omisso. Também tentar explicar a filha caçula que iriam desligar os aparelhos que mantinham a mãe viva. Digerir a descoberta de ter sido traído, e pela desculpa por ter sido um marido ausente. Também aceitar o fato que a Alexandra já era uma moça, e que agora poderia se enamorar de um cara como o Sid (Nick Krause). Como também de se entrosar com ele. Enfim, dar um novo rumo a vida.

O filme é muito bom, dentro de tudo a que se propos mostrar. Em se tratando do Havai, dá para imaginar paisagens deslumbrantes. A Trilha Sonora segue a cultura local. Houve química entre os atores. O final traz a assinatura do Payne. Quem viu Sideways irá sacar. Bem, eu saquei e sorri. Vale o ser visto! Mas não me deixou com vontade de revê-lo.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Os Descendentes (The Descendants, 2011). EUA. Diretor: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash, baseados na obra de Kaui Hart Hemmings. +Elenco. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 117 minutos. Classificação: 14 anos.

PRÊMIOS:
- Vencedor do Globo de Ouro 2012 de Melhor Filme – Drama e Melhor Ator (Drama) para George Clooney.
- Melhor filme de 2011 pela Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles.

Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

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Olá, pessoal. Hoje farei uma crítica que já planejo há um bom tempo, entretanto preferi esperar para que o filme estreasse nos cinemas brasileiros para que as pessoas que lessem tivessem a oportunidade de assistir. Quem leu meu post sobre Adaptações Cinematográficas de Livros deve lembrar que citei esse filme como sendo uma das adaptações mais diferentes que já assisti. Quando digo diferente não é no sentido de não haver fidelidade para com o livro, e sim do longa não ofender o romance, mas apresentar uma visão bastante particular da trama. Taxado como polêmico, assustador e surpreendente. “Precisamos Falar Sobre o Kevin está chocando o público, vocês devem estar perguntando o porquê disso. E é simplesmente por que tudo aquilo é algo bastante realista e não há nada mais assustador no cinema do que nós acreditarmos que aquilo mostrado nas telas pode acontecer na realidade. O relacionamento de amor e ódio de uma mãe com o filho, possivelmente, psicopata é algo que realmente instiga as pessoas. Numa das cenas geniais, Kevin comenta em tv aberta o fato do público televisivo dar tanta atenção aos psicopatas, afinal será mesmo que as pessoas não gostam de ouvir esse tipo de coisa? essa é uma das sugestões polêmicas que a história coloca.

Best-Seller de Lionel Shriver

O livro de Lionel Shriver foi recusado por muitas editoras e quando finalmente foi aceito, virou sucesso. A trama acompanha a história de uma mãe, Eva (Tilda Swinton), que sofre as conseqüências dos atos de seu filho Kevin (Ezra Miller), já preso por cometer uma chacina na escola. Como se não bastasse ser julgada e perder todo o dinheiro no tribunal, acusada de negligência materna, Eva tem que suportar diariamente o preconceito nas ruas, as pessoas acreditam que a revolta do rapaz possa ter vindo de falhas maternas. Então ela faz uma recapitulação, narrando tudo para Franklin (John C. Reilly), seu marido que a deixou levando a filha pequena. A partir daí acompanhamos do nascimento de Kevin até a data do massacre, sempre alternando entre o presente e as memórias de Eva. Quando tudo começa, ficamos espantados com a relação entre os dois. Kevin não era uma criança fácil e sempre fez questão de expôr sua natureza fria utilizando a mãe como alvo. Eva também não fica muito atrás, seus pensamentos de raiva pelo menino nos deixam na dúvida se realmente seus atos influenciaram no que Kevin se tornou. E é aí que surgem nossas dúvidas. Por que Kevin fez aquilo? Será que sua monstruosidade é justificável pelo elo fraco com a mãe? Eva é ou não culpada? Kevin sempre foi psicopata? Eva estaria paranóica desde que a criança nasceu ou é verdade que o tempo todo notara as inclinações assassinas do filho?

Momentos tensos

As respostas para as perguntas acima são bastante relativas, o que faz com que cada pessoa saia da sala de cinema com um filme diferente na cabeça. Acredito que a monstruosidade do rapaz seja tamanha que ficará bastante constrangedor para alguém defendê-lo, no livro até o advogado se sente desconfortável pela reação de Eva. Ela tenta “permanecer de pé”, evita chorar na frente dos outros, o que faz com que a maioria pense que é uma mulher fria. Eva guarda a culpa para si mesma, o que torna tudo tão doloroso. Ela sente que precisa ser castigada pelo que seu filho fez, por isso não se zanga com a reação violenta das pessoas. Cabe a nós sabermos se ela realmente influenciou.  Quando chegamos ao final da trama, temos uma revelação que mudará todo o jogo. O assustador final é inevitável e alerto para que as pessoas estejam preparadas para a indignação.

Falando em indignação, estou profundamente decepcionado com a Academia do Oscar que não indicou Tilda Swinton como Melhor Atriz, mas indicou Rooney Mara. Não que a novata não mostre talento, mas quem assiste a “Precisamos Falar Sobre o Kevin” sabe muito bem que aquele talvez tenha sido o papel da vida de Tilda. Ela se entregou completamente para o papel, não assisti a nenhuma atuação tão surpreendente durante todo o ano. Logo é natural que a credibilidade do Oscar caia no meu conceito. John C. Reilly não tem quase nada a ver com a aparência do Franklin do livro. Apesar dele não ter muitos diálogos, só sua imagem é suficiente para o associarmos com um pai preocupado e que tenta simplesmente acreditar que seu filho é normal. Kevin se transforma na presença do pai, o que faz com que Eva sempre seja julgada como exagerada pelo marido.

A água como a vida aparentemente calma de Eva, até Kevin acabar com tudo com apenas um toque.

Ezra Miller parece que vem se preparando involuntariamente para Kevin através de outros papéis. Após interpretar um garoto com possíveis tendências psicopatas em outro filme de Cannes (Depois das Aulas), o jovem agora pode ser conhecido como o bad boy de Hollywood. A participação de Ezra como Kevin não é longa, porém marcante. Quem rouba a cena como Kevin é o ator mirim Jasper Newell, que provavelmente conseguiu a proeza de despertar a vontade de todas as mães, na platéia, de lhe dar uma bela surra.

Ela percebeu as tendências do filho desde o princípio

O defeito do filme é em alguns momentos deixar escapar a semelhança de Kevin com outros monstrinhos do cinema. É inevitável não lembrar de Damien de A Profecia. A diferença de Kevin para Damien é que o filho de Eva é praticamente uma abordagem nova sobre a psicopatia. Se em A Profecia, o menino não tinha um bom elo com a mãe por ser o anticristo, em Kevin a situação é explorada sem receio. A realidade é que muitas mães sofrem por não conseguirem ter uma boa ligação com seus filhos (exemplo disso é a depressão pós-parto), isso sempre foi visto de maneira assustadora pela sociedade, mas é algo que acontece. Em A Profecia, isso foi transformado numa fantasia onde a desculpa pela falta de vínculo materno ocorre pela criança não ser o filho verdadeiro do casal e, sim, do diabo. O que torna “Precisamos Falar Sobre o Kevin” tão assustador é justamente o fato de não haver fantasias. Kevin não é adotado e não é o anticristo. Eva teve muita dificuldade em gostar da criança no princípio, porque para ela aquele bebê significava a perda da independência. Nós sabemos que a criança sente quando isso acontece, o problema é a reação de Kevin. Quando a mãe tenta se aproximar dele, ele sempre recua e não deixa uma oportunidade de machucar a mãe passar em branco.

Eva imaginando o afogamento do filho

Há uma situação que talvez alguns não entendam completamente no filme, porém que fica bastante claro no livro. A cena em que Eva quebra o braço de Kevin num acesso de fúria pelo que o menino faz. O menino estava com um leve sorriso no rosto quando isso aconteceu. Kevin não contou para ninguém o feito da mãe. O que nos deixa intrigados é o porquê dele fazer isso. Ao mesmo tempo que Kevin mantém segredo, ele utiliza isso como arma para “aprontar” sem que a mãe o delate, senão ele conta sobre o braço. Mas, como todas as atitudes de Kevin têm dois lados da moeda. É possível também que ele não tenha contado para ninguém porque, como Eva cita no livro, aquele foi o único momento em que ele pôde se identificar com a mãe, pois se sua natureza era violenta ele buscava alguém com quem se identificar, e é terrível sua alegria quando a mãe demonstra raiva. Parece uma maneira de “atiçar” Eva como desculpa para também ver o lado obscuro de outra pessoa. Em uma das partes do livro, Kevin na escolinha convence uma menina com doença de pele a descascar a pele ruim (até sair sangue), como se desejasse libertá-la daquele incômodo ou fazê-la se machucar. Não há limites para as crueldades do menino até a adolescência, poucos notam sua verdadeira face, mas suas atitudes sempre possuem duas possibilidades. E o mesmo jamais demonstra culpa.

Kevin sente culpa?

Sobre o conteúdo, não é fácil para algumas pessoas ler os diálogos cruéis do livro. Por isso algumas coisas foram suavizadas no filme. Um exemplo são as visitas de Eva a Kevin, onde no romance há uma troca de farpas de deixar qualquer pessoa horrorizada com tamanha crueldade do filho e as respostas terríveis da mãe. No longa isso não aconteceu, deixando o silêncio tomar conta das cenas como uma forma de expressar a dificuldade que Eva possui ao ter de visitar o filho. No final da leitura e da projeção percebemos o porquê dela odiar o filho em tantos momentos. Mas não se assuste, você (leitor dessa crítica). Apesar do filme revelar que não há limites para a crueldade humana, também coloca a ausência de barreiras para o amor de uma mãe. Eva continua vendo Kevin porque ainda tem a esperança de que um filho que a ama esteja ali dentro. “Precisamos Falar Sobre o Kevin” prova isso da maneira mais realista possível. Enquanto assistimos a esse filme é importante ficar claro a quantidade de mulheres que estão passando por esse sofrimento de culpa ao presenciar a prisão do filho. A verdadeira pergunta que deixo aqui é: Será justo julgá-las sempre negativamente?

Tilda Swinton na cena mais emocionante, a da descoberta. Digna de Oscar.

Tão Forte e Tão Perto (Extremenly Loud and Incredibly Close, 2011)

ImagemEm junho passado, uma amiga minha do Brasil, veio me visitar, e ela muito me falou do escritor Jonathan Safran Foer, em especial do livro, “Extremely Loud, Incredibly Close.” Logo dei uma pesquisa, e fiquei a saber que o director de “The Hours (2002) Stephen Daldry estava dirigindo a versão do livro para o cinema.

Ela me encorajou a ler o livro, e até cheguei a ler algumas paginas, mas não me envolvi pela leitura, e resolvi esperar para ver o filme. O enredo é sobre um menino que busca por uma fechadura por toda cidade de Nova York. Ao achar uma chave nos pertences do pai, ele acredita que seu pai – que morreu nos ataques de 11 de setembro de 2001 – propositadamente lhe deixou o objeto. O enredo muito me fez lembrar de “Hugo” de Martin Scorsese, pois temos em “Extremely Loud, Incredibly Close”,  um menino inteligente e bonitinho, um pai falecido e um mistério.

ImagemUm ano depois dos ataques de 11 de setembro, Oskar Schell (Thomas Horn) ainda sofre com morte de seu pai, Thomas (Tom Hanks). Oskar e sua mãe, Linda (Sandra Bullock), ainda vivem em Nova York, em frente ao prédio onde vive a avó do menino.

ImagemPara quem perdeu um ente querido, sabe como é dificil largar os pertences do morto – é uma das coisas mais difíceis de fazer.  E por tal, é facil sofrer e sentir a dor de Oskar, principalmente quando ele fica escutando a voz do pai. Nada de errado em ser um filme emocionalmente devastador – drama tem que ser emocionante  e achei que Daldry sabesse conduzir isso, mas..-

Entre um choro aqui e ali, Oskar decide resolver o mistério deixado por seu pai, envolvendo a chave, os nova-iorquinos com sobrenomes Black (todos os 472 que vivem na cidade!), a voz do pai deixada na secretária eletrônica e um  pandeiro. Assim começa as aventuras de Oskar.

Três coisas que achei problematicas no filme:

1- Mesmo que Hanks tenha um tempo limitado no filme, ele desempenha um personagem tão idealizado como “o melhor pai que já viveu no mundo”, que me pareceu falso, enquanto a mãe de Bullock parece tão negligente que, quando a explicação plausível para a sua longa ausência é justificado, eu me perguntei: que tipo de mãe deixaria o seu filho de 11 anos sozinho numa cidade grande como Nova York, e ser também acompanhado por um idoso estranho?. Quando o filme me deu a resposta para a tal atitude da mãe, desejei que tivesse um pandeiro para jogar na cara dela!.

2- Apesar de Oskar achar que a chave vai trazê-lo para mais perto de seu falecido pai, nunca que se pode acreditar por um momento que a essência da trama fosse para uma aventura no estilo “ o que vale é jornada, e não o destino” que terá o menino. A estrutura do filme não me prendeu – a busca de Oskar por respostas- suas idas de um endereço para outro.

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3- Nem quero criticar o ator Thomas Horn, pois esse é seu primeiro filme, e ele mostra ter potencial para ser um bom ator, mas o seu personagem, me fez lembrar da Mattie (Hailee Steinfeld) de “True Grit” (2010). Horn decorou muito bem os dialogos que tinha que decorar. O menino é o narrador do filme, e se sabe dos seus pensamentos e decisões privadas antes de ocorrer ação, por examplo: ele mente muito! Mas o roteirista  Eric Roth e Daldry exagera ao fazer uso de voice- over, pois todas as vezes que Oskar mente, vem aquela  justificativa como se os outros personagens acreditassem na mentira deleCompreendo que Oskar é um menino assustado, chocado pela morte do pai, mas o seu comportamento, e atitudes de  superioridade chega a irritar. Que prazer alguem poderia ter em ter a companhia de um menino tão arrogante?. Quando ele é acompanhado pelo velho (Max von Sydow), ficamos a saber que o misterioso senhor é incapaz de falar – isso significa que o garoto vai falar ainda mais. Fala tanto que me deu vontade de gritar : “Shut the F* up” !.  Desde “True Grit” – com aquela menina falante e irritante, vivida pela gracinha da Steinfeld-, que eu não tinha visto um personagem tão chato quanto Oskar.

Menos ruim, mas não perfeito :

ImagemMax Von Sydow até poderia ter roubado o show para si, se a sua personagem tivesse sido bem desenvolvida e bem conduzida, pois as cenas mais interessantes do filme, são as que ele aparece. A química entre ele e Horn é bastante vaga, e quando Von Sydow sai de cena, a alma do filme vai junto!. Sou um grande admirador desse veterano ator, especialmente por causa de sua grande expressividade, e esforço, e fico triste que ele ganhe uma indicação ao Oscar por um papel tão superficial.

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Faz um tempinho que venho escutano a trilha que Alexandre Desplat escreveu para o filme. Particularmente achei esse o seu melhor trabalho entre as trilhas que ele escreveu para 5 filmes diferentes em 2011. Mas quando ouvi as suas musicas emoldurando a fotografia de Chris Mendes (com uso de edge blur em algumas cenas) senti que Nova York nunca pareceu um lugar tão monótono e nada maravilhoso. A trilha sonora  é linda, mas não achei que case com o filme!.

No geral, “Tão Forte e Tão Perto “ é decente tecnicamente, mas esperava algo mais emocionalmente envolvente e um pouco menos manipulador. Eu certamente não queria sair do cinema como sai depois de “United 93” (2006), totalmente devastado pelo ocorrido em 11 de setembro, mas pelo menos os produtores deveriam ter  - extremamente -,  se preocupado mais com o mundo de Oskar do que ter investido – incrivelmente-, em tudo, pensando no Oscar!.

Nota 5,0

P.S.: Para minha surpresa, “Tão Forte e Tão Perto “ foi indicado para melhor filme, e melhor coadjuvante para Von Sydow. Indigna consideração!.

50% (50/50, 2011)

“50/50” é engraçado e dramático e talvez não venha agradar a todos, mas é um filme muito sincero. Particularmente, não me senti manipulado para sofrer com o drama do personagem principal, e por tal, que amei esse filme.

No primeiros minutos, vemos Adam (Joseph Gordon-Levitt), um jovem aparentemente saudável, o qual tem um bom emprego, uma namorada linda e toda a sua vida pela frente. Mas, depois, ele recebe uma má notícia – tem um raro tipo de câncer na medula, e suas chances de sobreviver é de apenas 50%.

Honestamente, não existe nada de inovador esse filme, mas o diretor Jonathan Levine conseguiu equilibrar comédia e drama de uma forma muito bacana. E, realmente gostei de como os personagens olham para o câncer – um aspecto interessante ao tratar dos relacionamentos pessoais de Adam. Por mais que o filme seja sobre câncer e a luta do jovem contra a doença, eu achei que o filme busca explorar o efeito que uma doença como essa pode causar nas pessoas que amam Adam, e como elas querem ou não sabem lidar com a nova realidade dele – pois cada pessoa tem suas próprias, diferentes maneiras de reagir.

Seth Rogen é engraçado e igualmente irritante como o amigo arrogante de Adam – e politicamente incorreto quando sugere ao amigo a usar a sua doença para ganhar a simpatia das mulheres. A namorada de Adam- interpretada pela linda Bryce Dallas Howard-, encontra o  câncer do namorado como um obstáculo no relacionamente deles. Me comovi com fragilidade que Dallas Howard imponhe ao personagem, no limite entre a menina mimada, infiel, e mesmo assim infeliz por não saber como lidar com  doença do namorado. Outro ponto positivo é o relacionamente entre Adam e sua mãe(Angelica Huston). Como já cuida do marido doente, Adam resolve de uma forma bem egoista, ignorar os telefonemas da mãe, e assim não preocupá-la mais. Quem gosta de ver a sua mãe sofrendo?

Atores:

Sempre achei o Gordon- Levitt um grande ator – uma espécie de Juliette Binoche de calças. Sua força dramática está justamente no olhar, nas nuances da sua expressão facial, que vai de um sorriso sincero até num olhar triste. Talvez outro ator exagerasse nos detalhes que fazem Adam um personagem tão humano. Gordon-Levitt usa a sua delicadeza, e se o Oscar fosse justo, e não uma politicagem barata, ele deveria estar entre os indicados este ano.

A melhor cena:

Anjelica Huston tem um papel pequeno, mas a presença dela é tão marcante, que adoraria vê-la no Oscar também, mas-. A cena quando ela diz: “I only smothered him because I love him” – “Eu apenas o sufoquei porque o amo”,  me fez chorar durante e depois que sai da sala de cinema. Não é só a pessoa doente que sofre, e essa é uma cena que foca a linha do núcleo emocional do filme.

O que não gostei:

Katie (Anna Kendrick), a terapeuta que ajuda Adam. Eu não senti nenhuma química entre Kendrick e Gordon-Levitt. Achei que ela foi uma escolha errada para o papel, pois faz as mesmas caras e bocas da sua personagem em “Up in the Air” (2009). Muito mais interessante e terapêuticas são as presenças de Phillip Baker Hall e Matt Frewer como os dois pacientes com câncer que Adam conhece no hospital.

50/50 é muito bem escrito, dirigido, e interpretado, e prova que as vezes quando as coisas andam muito mal, doe menos quando nós começamos a rir.

Nota 8,5.

P.S.: O filme é vagamente baseado na vida do roteirista Will Reiser. Seth Rogen é um dos produtores do filme.

Late Bloomers – O Amor não tem Fim (2011). Ou, Envelhecer é um Recomeçar

De dois universos tão distintos, ela vem conquistando um lugar num topo de ainda na quase totalidade ocupado por homens. Assim, sendo eu também uma mulher, começo citando a Diretora, e também Roteirista, Julie Gavras. À ela meus Parabéns por ambos seus filmes. No primeiro que eu vi, o “A Culpa é do Fidel” (2006), traz a mudança de uma menininha ao ver que seu mundinho crescera, entendendo que vivemos numa sociedade não tão perfeita, ou não como todos nós desejamos. Já nesse segundo que eu assisto, “Late Bloomers – O Amor não tem Fim“, Julie Gavras já traz um casal entrando na velhice, onde além de ainda não ser uma sociedade perfeita, agora está jovem demais “em produtos”, e meio que excluindo os bem mais velhos “naturalmentes”.

Não sei se vale como um consolo, como a lei da compensação. É que se chegamos nessa fase da vida: é por continuarmos vivos! Pelo fato de sobrevivermos a violência urbana, também. Mas a trama desse filme traz essa longevidade como pano de fundo, ora pela própria natureza, ora pelos avanços da ciência. Como também esse filme não nos mostra isso de forma didática. Muito embora seria até válido. É que como temos um casal de protagonistas, de uma união já na casa dos trinta, o plano central foca o que vem com essa fase. A vida sexual também mudará, e em que?

É nisso que o título internacional sugere: um florescer para esse novo tempo. Uma descoberta, mesmo que tardia, de que ainda tem muita coisa para se fazer, viver… É o sentido da vida: seguir em frente. Agregando novos valores, abdicando de outros. Olhando-se no espelho: dizendo um “Olá!” para essa pessoa a princípio estranha, mas que até por conta disso, está ciente de que ainda é capaz de surpreender também a si mesmo. Que ainda tem muita tesão pela vida. Ou, como no subtítulo dado no Brasil: que se tem amor, não terá um fim. Será um recomeço. Já o título no original em francês pontua que esses 60 anos teve 3 fases de 20. Para esse casal a dos 40 aos 60 ficara curta demais. Ou, nem fizeram planos para esses 20 que teriam à frente. Com o susto, tiveram que passar a limpo esses quase 60 anos. Com isso, teriam que fazer individualmente também.

Porque eu me imaginava mais forte. Porque fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente” (Clarice Lispector)

Mary (Isabella Rossellini) foi quem primeiro se deu conta da nova fase que chegara. Por conta de um lapso de memória: esquecera em como foi parar num quarto de motel com o marido. Ele, Adam (William Hurt), leva na esportiva a preocupação dela. Na verdade, ele nem se tocou. Mas fatos no transcorrer daquele dia, no seu trabalho, o fará repensar. Não em sua vida particular. Pois isso, na cabeça dele estava tudo indo bem. A questão era o impasse que a sua vida profissional se apresentava. Estava diante de uma encruzilhada. De um lado: aceitar um projeto que o sócio com dinheiro, Richard (Simon Callow, de “Quatro Casamentos E Um Funeral”, 1994.) queria muito que a Firma deles fizessem. Só que Adam, não apenas não queria aceitar, como tal projeto o faria pensar na velhice 24 horas por dia. Ele odiou até as novas mudanças que Mary fez na casa. Como as barras na banheira do quarto do casal. Só que sem perceber se apoiou numa para entrar na banheira. Não se trata de um spoiler porque a cena foi escolhida como cartaz do filme. O outro lado a escolher. Fora uma descoberta por acaso: ouviu sem querer a conversa de um grupo da Firma. E se o destino colocou na sua frente, não resistiria muito aquela tentação.

O projeto proposto por Richard, seria uma nova Flórida. Um Balneário para a turma da terceira idade, e rica, viverem, mas que atraísse também o desejo dos mais jovens. Com isso, ele teria que visitar asilos, conversar com muitos idosos… Mary até facilita um encontro desses. Leva um grupo do qual sua grande amiga Charlotte (Joanna Lumley) pertencia: Panteras Grises (Gris = de cabelos grisalhos. Uma entidade em defesa dos Direitos dos da Terceira Idade). Bem, o tiro saiu pela culatra. Por algo que uma delas falou sobre um Projeto do Adam. Fora um trabalho que lhe rendeu fama internacionalmente. Mas fez Adam perceber que ficou deitado nessa fama por muito tempo.

Já o outro projeto seria além de trabalhar com um grupo de arquitetos bem jovens, em dar uma cara nova a algo velho: uma arquitetura nova para um grande Museu. Algo que chamasse mais a atenção do que a Pirâmide do Louvre. Pois é, mesmo que, a grosso modo, um museu seja lembrado por guardar coisas velhas, essa arquitetura futurista teria encabeçando o nome dele. E isso era tentador também. Como também por quem estava à frente do grupo: uma jovem e cheia de gás Maya (Arta Dobroshi).

Acontece que para esse projeto Adam teria que captar patrocínio e isso ele nunca soube fazer. Como também ficou ciente que só o seu nome não valia mais para os jovens à frente de outras empresas. Ficara mal acostumado até com os cuidados da esposa durante a vida de casados.

Então, acabei falando mais dele em primeiro lugar do que dos conflitos existenciais da Mary. Mas viram o porque: o acorda dele veio pelo o que ele conquistara até então. Com a Mary não. Ela que vivera até então pela e para a Família, se vê perdida. Se sente invísivel, ou sentia-se antes de conhecer Peter (Hugo Speer), o dono da academia onde fora nadar. Pois procurando por um médico, ele receitara ginástica e também fazer um trabalho voluntariado. Além, pasmem! De que um dos remédios que receitara anteriormente, trazia esse efeito colateral: lapso de memória.

Se de um lado a ciência ajuda na longevidade de muitos, por outro também pode causar, ou acelerar novos danos. É como um aviso a uma medicação em excesso. Mas o filme também nos mostra, o quanto ela, a ciência, pode ser uma boa companheira. Tanto para Richard. Como para a mãe de Mary, Nora (Doreen Mantle). Nora me fez lembrar de Elsa, do filme “Elsa e Fred – Um Amor de Paixão“, também pelo jeito de aproveitar a vida. Meio clichê, mas quando se chega numa fase da vida, pode ser vista como: o primeiro dia do resto da nossa vida. Então, o melhor é vivenciá-lo como sendo o primeiro, sempre.

O primeiro “Acorda!” que Nora dá, é em específico para Mary. Depois, subjetivamente, traz dois, mas ao casal. Numa sociedade atual, tão mais afeita com o status, com aquilo que se tem, essas cenas nos mostra os reais valores. Charlotte também, ao seu jeito, tentou mostrar um deles a Mary. Até Richard, de um jeito torto, levou Adam também descobrir um deles. Os três filhos do casal – Giulia (Kate Ashfield), James (Aidan McArdle) e Benjamin (Luke Treadaway) -, bem que teram ajudar nessa. Mas talvez por deixarem certos ressentimentos aflorarem, tal ajuda veio como coadjuvante da de Nora, a avó deles.

Entre coisas do passado e do presente… o filme traz um merchan daqueles que se diz: “Que Excelente Sacada!” O Red Bull aqui ficará memorável!

É um filme que se vê com brilhos nos olhos. Uma história, e com atores mostrando todas as marcas do tempo numa cara sem maquiagem, seria algo que não interessaria Hollywood. Nem muito menos ao público bem jovem. O que é uma pena! Já que as reflexões os levariam a não carregarem bagagens inúteis em suas vidas futuras. O filme é um aprendizado sim, mas como já citei o faz sem didatismo. Mostra um envelhecer com respeito, elegância, e cheio de charme. Isabella Rossellini continua belíssima em vésperas de também completar 60 anos na vida real, e William Hurt adquiriu uma beleza ímpar com o sabor do tempo. A Trilha sonora também veio a somar a esse excelente filme. A música tema do filme é contagiante! Dá vontade de sair dançando. Lembra uma Banda da Lousianna, Mississipi. Não achei um vídeo com ela, então deixo o trailer. Não deixem de ver também esse filme.

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Late Bloomers – O Amor não tem Fim (2011). França, Bélgica, Inglaterra. Direção e Roteiro: Julie Gravas. Gênero: Drama, Romance. Duração: 95 minutos.

Série de Tv: CHAVES

Chaves” é um seriado que conquistou o Brasil, se tornando um símbolo da TV mundial, uma produção televisa que é transmitida de uma geração para a outro.

Em seu contexto encontramos uma linguagem simples e totalmente cotidiana. O produtor se preocupa em resgatar a simplicidade da criança com a parte humorada dos adultos; transformado “Chaves” em um seriado de maior sucesso de todos os tempos. Os personagens são irreverente e cada um deles além do grande astro Chaves, tornaram personagens que todo mundo conhece e já deu boas risadas com os mesmo.

O seriado tornou-se um elemento que faz parte da cultura de um país. Os personagens são mexicanos, mas a sua identidade após anos no Brasil se tornou brasileira. O seriado invade as nossas casas há mais de 20 anos e durante todos estes anos nos divertimos e descontraímos como este humor incomparável e totalmente original.

A série nos mostra como clareza que não precisamos ir além para conquistar o sucesso e sim trabalhar com o simples, com o cotidiano, com o mundo a nossa volta.

A mistura perfeita de talento, humor e cotidiano fez do seriado um sucesso no Brasil e no mundo. Tal feito só foi possível graças à magnífica junção entre os grandes atores mexicanos que dão vida ao seriado e promove o seu sucesso durante todos estes anos.

Os idealizadores do seriado podem ser considerados gênio de uma produção televisiva que deveria ser imortalizada em um filme que provavelmente se tornaria o maior campeão de bilheterias de todos os tempos.

Eternamente lembraremos de Chiquinha, Kiko, Seu Madruga, Dona Crotildes (a bruxa do 71),  Seu Barriga, Dona Florida, Girafales, Chaves… Personagens que marcaram várias gerações e que marcará inúmeras outras.

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

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“Beginners” é um belo filme sobre amor, perda, vida, família, amizades e um cachorro falante (com uso de legendas). O roteirista e diretor Mike Mills me surpreendeu, fazendo um filme que tem um pouco de Woody Allen, com estrutura de filmes como “(500) Days of Summer” (2009), e, gastando apenas 3,5 milhões de dolares.

O filme começa com uma montagem de imagens narrado por Oliver (o sempre talentoso Ewan McGregor), um artista comercial que acaba de perder seu pai (Christopher Plummer). Com fotos diante dos nossos olhos, indo e voltando entre 1955 e 2003, a narrativa cresce e encanta, pois em poucos minuto, eu senti que conhecia Oliver e seus pais por anos.

Para quem é? 

ImagemPara quem gosta de um filme leve, e bem humano, “Beginners” é um aqueles filmes que encantam, e  não apenas por seu teor gay – o pai de Oliver sai do armário, quatro anos antes de sua morte. A mudança no estilo de vida do seu pai veio como um choque, mas sentimentos também a honestidade da relação entre Oliver e o seu pai.

Atores:

Provavelmente, Plummer vai levar o Oscar de melhor coadjuvante, e ele merece, mas seu personagem teria metade da humanidade que tem se ele não tivesse um parceiro de cena tão maravilhoso quanto McGregor. Achei que o filme é “quase” todo astro de “Moulin Rouge!” (2001).

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Na fase depressiva da sua personagem, Oliver conhece uma jovem atriz vivida por linda Melanie Laurent. Há uma atração instantânea entre eles, mas na cabeça de Oliver – por causa de sua melancolia – a relação parece encontrar barreiras. Entre as cenas de monólogo interior, Mike Mills brilha num truque narrativo, acrescando legendas entre o dialogo entre Oliver e o seu cachorro. Essa ferramenta apenas aumenta a forca dramatica de McGregor, que nos dar ainda mais introspecção no processo de pensamento de Oliver e suas decisões privadas.

Bem, o filme ilustra que a vida move rapidamente, e que cada um de nós temos que nos certificar que tevemos viver a vida ao máximo e nos cercarmos de pessoas que que nos ama, e amá-las de volta. E nos faz lembrar que a cada dia é um novo dia, e uma nova vida- sendo assim, posso dizer que somos todos iniciantes, certo?

Nota 9,0

2 Coelhos (2011)

Por Alex Ginatto.

Enfim uma esperança renovada de que “Tropa de Elite” não será a única coisa diferente que veremos no cinema brasileiro nos próximos anos. “2 Coelhos” é inteligente, rápido, ofegante, engraçado e muito mais.

Fiquei sabendo há poucos dias do filme e minha única referência era o trailer, cheio de ação hollywoodiana, grafismos integrados e cenas no melhor estilo americano. Tudo isso me levou a ir a uma sala de cinema na estreia, com apenas mais 6 pessoas na plateia, mas com um sentimento enrustido de que iria me decepcionar: “Devem ter colocado tudo de melhor do filme já no trailer…”, como já me ocorreu com dezenas de filmes.

Grato engano…excelente filme, efeitos que nunca imaginaria ver em um filme brasileiro, tantos e tão bem feitos que às vezes dava a impressão de exagero, mas esse é o ponto: o filme não é monótono, não tem um ritmo apenas, é um vai-e-vem de sequências, frequências e loucuras das melhores possíveis!

Além disso, o roteiro do plano de Edgar, o protagonista de Fernando Alves Pinto, é bem criativo, surpreendente, assim como sua atuação. Alessandra Negrini linda e louca, como sempre, dá um toque especial à personagem Julia.

O plano de Edgar fica exposto apenas na última parte do filme, é explicado por Julia de uma forma descontraída (acho até que não era necessário explicar, tornando o filme um pouco mais confuso e deixando aquela neura de “vou ter que ver novamente!”).

Não vou dar grandes detalhes para não gerar spoilers, mas o plano e o roteiro principal envolvem cerca de 7 pessoas, a maioria sem sabe o que está acontecendo. Envolve dinheiro, vingança, poder, corrupção e amor, muito amor. Lindas cenas das “viagens” de Julia, com uma música de comercial de banco, daquelas que mexem com nossa alma.

O filme ainda dá umas cutucadas em todos os brasileiros, desde os corruptos, passando por personalidades fúteis criadas pela TV (o mais legal é ler as notinhas do rodapé do jornal que passa na TV durante a notícia de certa explosão, quebra totalmente o clima “in a good way”), e chegando a nós, maioria, que estamos acostumados e relaxados com os problemas do nosso país, mesmo sabendo que eles existem (um pouco do que foi feito em “Tropa de Elite 2″).

Enfim, veja! E recomende, espalhe sua opinião!

Se você é fã do estilo de Quentin Tarantino ou Guy Ritchie, deve correr para o cinema!
Nota 8.

“2 Coelhos”. 2011. Brasil
Direção e Roteiro: Afonso Poyart
Elenco: Fernando Alves Pinto, Alessandra Negrini, Caco Ciocler
Trailer: