Adaptações de Metáforas: A supressão e modelação dos fatos

[Parte 1: Adaptação Quadro a Quadro - Ser igual não é sinônimo de sucesso.]

Um livro que imaginava ser infilmável era Perfume: A História de Um Assassino. Cheio de metáforas e trama praticamente poética, não acreditava que um diretor conseguisse imprimir em cena todo aquele sentimento inebriante de um homem em êxtase por sentir um aroma, além do fato de haver descrições abstratas demais para alguém adaptar aquele livro para meras imagens. Felizmente, o diretor Tom Tykwer conseguiu isso de maneira fantástica. Achou um ator (Ben Whishaw) que imprimiu piedade, curiosidade, ingenuidade e até mesmo crueldade só com o olhar. Para personagens tão calados quanto Jean-Baptiste Grenouille, é importante achar alguém com uma presença que denuncie de cara quem é aquele. É como o Darth Vader, só de vê-lo já sabemos que é vilão, enquanto Grenouille é o protagonista sofredor meio psicopata.

O problema de Perfume, em questão de adaptação, foi ter caído na armadilha de mudar e acrescentar os fatos para dar emoção. Ele poderia ser uma história artística e metafórica como o livro, mas o filme optou por perseguições e diálogos de vingança para destacar a participação de Alan Rickman. A história original não se tratava apenas do perfume, e sim, o quanto o aroma influencia inconscientemente as pessoas, um assunto muito interessante no livro que não foi o centro da trama no filme.

A identificação de uma mensagem por imagens é algo muito importante quando se está trabalhando com metáforas, o silêncio evidencia que há algo chamando atenção ali. Por isso o costume de algumas pessoas acharem que todo filme silencioso é super inteligente. Alguns diretores até se aproveitam do silêncio para passar uma imagem melhor da história de seu filme. Mas não podemos esquecer os diretores que realmente fazem valer a promessa de alguma mensagem.

O exemplo que vou citar é de um filme que eu sinceramente achava que fosse virar cult, provavelmente ele abusou demais de metáforas. Chama-se “Os Famosos e os Duendes da Morte”, um livro com mais metáforas do que você pode imaginar (o autor às vezes nem termina as frases para nos forçar a imaginar e nos identificarmos com o que o personagem narrador quer dizer). A adaptação cinematográfica é extremamente sensorial. A câmera foca nas folhas, nos olhos dos atores, nos sorrisos, como uma tentativa de aproximar o telespectador do mundinho frio e melancólico do rapaz. O filme e o livro aparentam ser meio emo de tão dramática que é a cidadezinha aos olhos do protagonista adolescente, mas eu cito aqui porque o longa teve bastante participação criativa do autor e conseguiu um resultado artístico que poucos diretores têm coragem de mostrar nas telas. É uma prova do nível onde os filmes podem chegar se decidirem mesmo seguir a essência do livro.

Por Alexandre Cavalcante da Silva (Alex).

[Parte 3: Mudanças São Bem-Vindas... Às Vezes.]

[Comentários, no texto inicial: Adaptação de Livros para Cinema - Uma Questão de Fidelidade?]