Mudanças São Bem-Vindas… Às Vezes

[Parte 2: Adaptações de Metáforas – A Supressão e Modelação dos Fatos.]

Muitos diretores não respeitam a essência da obra original, um livro não se trata apenas de acontecimentos, há um esforço para despertar a reação desejada no leitor, para que ele se importe com as personagens. No cinema é a mesma coisa, para que seja feita uma boa adaptação, é necessário conter a essência do livro. E é difícil transmitir essa essência, o roteiro deve ser cuidadosamente revisado e pensado a fim de cortar apenas o que não é importante. Um bom exemplo de mudanças é o polêmico Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess.

Nos bastidores, Kubrick só vivia com uma cópia do livro cheia de anotações e marcações. Quem leu sabe muito bem a linguagem teatral que o diretor optou por usar na adaptação. O livro é ultra violento, o filme é fraco se comparado ao nível de violência descrita nas páginas. Mas Kubrick entendeu muito bem a verdadeira mensagem da trama: política. Todo o livro era uma abordagem da hipocrisia e absurdos de uma sociedade futurística, a política está no centro de toda a história. Kubrick deu ênfase às críticas políticas sem esquecer a violência, só amenizando um pouco dela, mas ele sabia o quanto era importante que ela fosse mostrada para que nós sentíssemos indignação (pelo menos é o que as pessoas deveriam sentir) com a marginalização dos jovens e um projeto do governo impedindo o livre arbítrio mental. O filme de Kubrick conseguiu equilibrar as coisas colocando apenas o que era útil na tela para capturar a essência do livro. Ele modificou alguns detalhes, porém não ao ponto da proposta inicial da história ser dissolvida.

Infelizmente, há casos em que a modificação é tão grande que não vale a pena assistir ao filme depois de ler o livro (como, por exemplo, A Rainha dos Condenados, que condenou a série de Anne Rice no cinema).

O Retrato de Dorian Gray (nossa, vão me condenar por eu elogiar essa versão de 2009), mas ele mantém a essência do livro sobre a parte maligna do ser humano, má-influência e o narcisismo. O problema está na escolha do ator para interpretar Dorian (Ben Barnes), que está canastrão e tem uma aparência totalmente diferente do personagem literário, para não dizer comum demais para o papel. Houve uma adaptação de 1945 com diálogos tirados diretamente do livro, é enfadonha e limitada (mudaram muito da trama e fizeram a história perder a essência por não sabermos o que Dorian tanto fazia de tão errado, provavelmente censura). A versão de 2009 cria um clímax inexistente no livro, mas nem por isso deixa de passar a mensagem essencial. Então, contribuições são bem vindas, desde que não se altere a trama a ponto da história perder o objetivo de reflexão.

Agora quero lembrar de uma adaptação bem contraditória: Drácula de Bram Stoker (dirigido por Francis Ford Coppola). Os fãs do livro de Stoker tendem a não gostar do filme, mas esse é um dos casos mais raros onde o filme torna-se um clássico sem ser fiel ao livro. É óbvio que até agora ele é o mais fiel ao livro (levando em conta outras adaptações clássicas no preto-e-branco sem quase nada a ver com o livro), mas aquele romantismo entre Mina e o Conde Vlad jamais existiu nas páginas da obra de Stoker. Entretanto, é inegável que os dois tenham alcançado o status de clássicos distintos. Isso só foi possível com a criatividade de Coppola, que, apesar de ter acrescentado muita coisa, leu o livro com os atores de forma que houve bastantes homenagens ao original com aprimoramentos para que a versão cinematográfica agradasse a um público novo sem ofender o do livro.

Outro caso muito estranho é o de Entrevista com o Vampiro (filme de Neil Jordan baseado no livro de Anne Rice), que hoje em dia é um clássico na literatura e no cinema. Uma péssima adaptação do livro, mas que cativou o público que não conhecia nada. Antes de ler o livro eu até apreciava mais o filme de Jordan, porém após a leitura percebi o quão grandiosa é a história para aquele roteiro medíocre da própria autora. Esse foi um caso de sorte, muita sorte. Começando pelo elenco estelar (incluindo a ótima Kirsten Dunst interpretando Cláudia, uma mulher no corpo de uma criança imortal).

Entrevista Com o Vampiro é um daqueles filmes corridos, a duração é curta demais pra tanta coisa. Nós tínhamos que conhecer Louis (Brad Pitt) sofrendo, então substituíram toda a história dele com seus conhecidos e inventaram uma esposa falecida: pronto, agora o público pode ter pena dele. Acontece que a história criada por Anne Rice é muito superior a um vampiro chorão, é uma verdadeira saga de ânsia por respostas, há muito de religião ali, são os verdadeiros medos da humanidade, medo da morte e de passar uma eternidade sozinho. Tudo isso não coube no roteiro e ficou aquele longa-metragem que prometeu um épico e não cumpriu. No fim das contas, é um filme mediano que não soube aproveitar quase nada do que a história tinha a oferecer. A sorte do filme vem de alguns diálogos, Rice realmente é talentosa e só algumas frases foram suficientes para desbancar quase 90% dos outros filmes de vampiro, até hoje ele está entre os 5 primeiros lugares, vive em 1º lugar no top 10 vampiresco de muitos sites.

Eu falei lá em cima que fazer um filme lento de uma história movimentada é imperdoável. Bom, depende a pessoa. A última vez que vi uma coisa dessas acontecendo foi com o livro Precisamos Falar Sobre o Kevin, que ainda estreará no Brasil. É incrível como a diretora Lynne Ramsay imaginou a versão cinematográfica sem diálogos. O recurso que ela utilizou foi o fato de que a protagonista quase não entrava em contato com ninguém, então foi uma estratégia para nos identificarmos e sabermos a dor que ela está passando. Essa foi uma das adaptações mais diferentes que já vi, o sofrimento descrito nas palavras da protagonista do livro se projetam num silêncio mórbido durante todo o filme. De fato, não foi necessária narração para perceber o quanto toda a história é cruel, todo o sofrimento de culpa de uma mãe com o filho assassino.

Bom, pessoal, depois de tantos exemplos diferentes dá para notar que é uma questão de sorte um bom diretor adaptar os livros que gostamos. Algumas adaptações mudam um pouco as coisas, porém conseguem preservar a essência que a história original transmitia, e é isso que importa. É péssimo quando algumas cenas que tanto aguardamos para ver no cinema não são filmadas, mas devemos sempre lembrar que o livro ainda estará disponível para que possamos imaginá-las de nossa maneira.

Enquanto isso, quando assistirmos a uma adaptação péssima, o jeito é apagar da memória para que não esqueçamos o quanto o livro é bom, pois na leitura somos todos diretores da história e não precisamos nos preocupar com estúdios ou convenções limitando o que deve ser exibido ou alterado.

Abraço.
E até a próxima.
Por Alexandre Cavalcante da Silva (Alex).

[Comentários, no texto inicial: Adaptação de Livros para Cinema – Uma Questão de Fidelidade?]