Desvendando A Vida de Pi: Breve Análise Sobre O Lado Sombrio da História

Richard Parker contra Pi: Um Conflito Interno

Olá pessoal, após alguns meses sem postar, estou de volta. Dessa vez falarei sobre o best-seller A Vida de Pi (The Life of Pi) do autor canadense Yann Martel, livro que estava passando quase despercebido pelo Brasil antes da adaptação cinematográfica feita pelo diretor Ang Lee. A campanha de divulgação do filme promete algo aparentemente infantil com o cartaz de um rapaz acompanhado de um tigre digital, entretanto essa é uma história bastante adulta e deve ser vista como tal. Minha proposta é analisar a obra procurando decifrar os reais significados dessa trajetória que buscou apoio na Psicanálise e saiu vitoriosa como uma das melhores metáforas sobre o confronto do ser humano contra seus impulsos de crueldade. Afinal, o livro explora a motivação do homem perante a solidão ao demonstrar de forma impressionante a importância da religião para alguns, não somente como aspecto cultural (afinal são abordadas várias religiões), mas como um meio de autocontrole.

Contronto para domar o tigre

Jamais se tratou de apenas domar o tigre

O confronto do rapaz com o Tigre se dá de uma forma extremamente simbólica. Na verdade, o tigre representa a parte cruel do ser humano, com quem Pi terá que lutar até o fim se quiser manter-se vivo. Essa salvação pode ser compreendida metaforicamente, literalmente e religiosamente. Como ele está num bote apenas com o tigre, será necessário domar os impulsos ferozes do animal para evitar sua própria morte. Na verdade, ele não procura matar o animal, apenas busca uma convivência pacífica com o mesmo. Utilizando uma abordagem semelhante a vários filmes como Cisne Negro, X-Men 3 (a indomável Jean Grey/Fênix Negra) ou Senhor dos Anéis (o Gollum), onde o personagem não sobrevive sem seu lado sombrio. Isso faz sentido ao notarmos a inclinação assassina despertada em Pi através da luta pela sobrevivência, se ele quiser continuar a ser a pessoa alegre de antes precisará combater esse instinto e domá-lo. Caso contrário, o tigre matará o rapaz, tornando-se o único no bote, representação do próprio Pi composto por duas personalidades. Por isso, sou totalmente contra o filme ter ganhado  o título brasileiro “Aventuras de Pi”, pois esse confronto se dará eternamente no personagem narrador, apesar do mesmo constantemente tentar manter suas tendências violentas (despertadas pelo trauma no bote) adormecidas.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: valorização do aspecto cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: demonstração dela na diversidade cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A salvação esperada por Pi, além da literal (no caso, seria a chegada em terra), também pode ser vista pela religiosidade do rapaz. Ele gostaria de ser muçulmano, hindu e cristão simultaneamente. Isso pode indicar um possível desespero do mesmo ao tentar controlar de todas as formas sua personalidade, caracterizada pelo tigre. Na embarcação, um dos atos mais repetidos pelo menino é o da oração, é óbvio a tendência das pessoas em orar numa situação tão trágica quanto a dele. Entretanto após analisar o final, compreendemos que Pi não é alguém confiável. Ele pode moldar os fatos conforme for sua vontade, não havia testemunhas e Richard Parker pode ser meramente uma projeção sua, não existindo fisicamente a não ser através de Pi. Portanto, é inútil questionar se a trama prova ou não a existência de Deus, pois basta salientar o foco do importante ser Pi manter suas “tendências assassinas” quietas, nem que para isso precise crer piamente em algo totalmente distinto de seus paradigmas (sua família não era adepta ao cristianismo). Ele provou, sim, que somente sua fé conseguiu fazê-lo viver com a consciência limpa, o suficiente para seguir em frente normalmente independente de seus crimes passados.

A paixão de Pi pelos animais não é incomum, ele projeta através de cada um no bote alguém que participou dos eventos pós-naufrágio. Isso se deve ao antropomorfismo expressado por sua consideração pelos habitantes do zoológico de seu pai desde a infância. Várias discussões são relatadas no livro a respeito do estabelecimento e até alguns excelentes argumentos sobre manter ou não animais no zoológico. A preocupação do autor demonstra ser um pedido de respeito aos animais. São exploradas várias questões bastante interessantes sobre o comportamento deles. A maioria das pessoas não atenta para esses detalhes, todavia isso enriquece demais a narrativa antes de fornecer um panorama mais reflexivo do papel de Pi ao lidar com eles.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

Quanto à ilha, essa é a parte mais genial. Admito que só compreendi melhor após a adaptação cinematográfica, pois ocorre a revelação da mesma estar em formato de homem. A ilha também expressa as circunstâncias mentais do protagonista. Ela é antropofágica, tal qual Pi precisou ser a fim de sobreviver. Entretanto se ele continuasse nela, ou seja, caso o rapaz continuasse a se alimentar de tal forma (o ato de ingerir carne é ainda pior para ele se levarmos em conta sua família vegetariana), morreria. Isso faz alusão à banalização da violência. O corpo continuaria vivo, entretanto Pi estaria se enganando e deixando sua crueldade aflorar até dominá-lo. Nesses momentos, os suricatos representam a alienação mental do rapaz, por isso sequer se defendiam do tigre, pois estavam ocupados demais aceitando as comidas. Percebam o seguinte: se Pi continuasse na ilha, Richard Parker também estaria. O tigre alimentava-se dos animais da mesma. Se Pi é a ilha, os suricatos são os resquícios de sua inocência. Eles seriam devorados pelo tigre, que possuiria todo o controle sobre o território. Além disso, a ilha acabaria matando Pi, logo o corpo (a ilha) extinguiria qualquer vestígio de humanidade (representada por Pi) do local.

A Vida de Pi é uma trama carregada de significados ocultos e merece ser apreciado nos mínimos detalhes, tornando-se bastante ampla quando ocorre análise da abordagem sobre a psicopatia do personagem central. Caso alguém deseje comprar o livro pela capa colorida, alerto se tratar de uma história adulta com um desfecho surpreendente, apesar de assustador para quem se acostumou com a afeição do rapaz pelo tigre. O próprio é uma excelente metáfora para a crueldade humana e a beleza aterradora que há na perda de controle (por isso o rapaz elogia tanto a aparência majestosa e enganosa do tigre). A adaptação cinematográfica foi ótima, porém perdeu muito de sua força no desfecho, onde ironicamente suprimiram bastante da real violência ocorrida com o protagonista ao longo da história, afinal não houve a utilização de imagens para tanto, o que considero imperdoável ao se tratar de uma adaptação visual tão feliz de um livro rico em interpretações. Para finalizar, tal qual o livro e filme perguntam: “depois dessa história, em quê você prefere acreditar?”

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

Ensaio Sobre A Cegueira. “O Pior Cego É Aquele Que Não Quer Ver”

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Essa é a frase de abertura para o livro “Ensaio Sobre A Cegueira”. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago comprovou ser um dos maiores autores modernos ao criar uma trama repleta de críticas sociais e um retrato da sociedade contemporânea, colocando o homem à prova de sua civilidade num tempo onde as pessoas temem até mesmo voltar a enxergar, no sentido literal (por conta da epidemia da cegueira branca) e metafórico. Apesar de já ter sido amplamente analisado por vários críticos, nunca é tarde para mais uma exploração.

Autor portugês José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura

Sinopse: Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma “treva branca” que logo se espalha incontrolavelmente pelo país. Resguardados em quarentena, os cegos de uma cidade vão se descobrir reduzidos à essência humana. Ensaio Sobre A Cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. “Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.” E, de fato, o que se verá é uma redução da humanidade às necessidades de afetos mais básicas, um progressivo obscurecimento e correspondente iluminação das qualidades e dos terrores do homem. (E das mulheres, de maneira especial).

Umas das características mais marcantes da obra é a ausência de nomes aos personagens. O objetivo disso é aproximar-nos ainda mais da narrativa, num mundo cego, não há estética e as pessoas conhecem as outras pelo que elas são e suas idéias representantes dos telespectadores. O exemplo mais óbvio é o da rapariga com óculos escuros, os mais preconceituosos questionariam o fato dela, uma prostituta, ser participante do grupo central da trama, entretanto isso só serve para nos provar o quanto questões morais nada significam quando o ser humano busca sobrevivência e apoio dos outros. Nessa história, as roupas em vários momentos se tornam impensáveis, embora a boa educação para com os outros seja indispensável. A ausência de travessões também é algo bem notável, os diálogos correm de maneira misturada aos eventos, sempre traçando a impressão de algo pessoal no estilo do autor, forçando o leitor a prestar mais atenção nas palavras de todos.

A mulher do médico é a mais fascinante do enredo. Ao contrário do ditado “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”, ela é quem mais sofre. Internada no manicômio juntamente com cegos, sente a culpa por guardar o segredo de sua visão e não poder ajudar a todos, afinal ela se tornaria escrava deles caso o fizesse. Várias questões são debatidas aqui, da responsabilidade à justificativa de assassinato. Ela vai além de qualquer herói fictício, não consegue evitar ser estuprada ou passar fome, mas é a primeira a compreender o significado da cegueira branca. Jamais é justificada a razão dela não ter ficado cega, todavia é possível deduzir a importância de alguém assim para nos fazer compreender a situação. Há uma parte especial onde um escritor, sabendo do segredo da mulher do médico, diz para ela não se deixar perder (entendo isso como uma homenagem de José Saramago aos autores, pessoas capazes de gritar ao mundo o que ninguém consegue). Em outro momento, a mulher espanta um grupo de cegos gritando a palavra “Ressurgirá”, isso é um verdadeiro tapa no rosto dos que possuem medo do ressurgimento da visão, ou seja, da falta de alienação. Havia quem gostasse de ser “cego”.

A cegueira, acima de tudo, é uma metáfora para a hipocrisia da sociedade, orgulhosa de seus aparentes bons modos. Uma situação que evidencia tal afirmação ocorre através da camarata dos malvados. Em momento algum é sugerido esse local ser habitado por bandidos, porém só havia homens no mesmo. A dominação imposta por eles ao estocarem toda a comida do manicômio em troca de algo demonstra a existência de pessoas munidas de crueldade mesmo em situações onde todos são iguais, nos fazendo refletir um pouco sobre a veracidade da teoria da vingança social, principalmente com a absurda presença de um cego de nascença, o qual ajuda consideravelmente o rei do bando de estupradores.

Nem mesmo a igreja escapa às críticas sociais. Em determinado momento, a mulher do médico entra numa igreja católica e se depara com todas as imagens de santos com os olhos vendados por pedaços de pano branco. Isso gera inúmeras discussões, afinal há a possibilidade de alguém ter feito tal ato por piedade, os santos talvez não merecessem observar a podridão do mundo atual, ou como demonstração da aparente cegueira observada, até mesmo, na religião, uma maneira de dizer que até os santos talvez estejam pouco se importando com o absurdo da sociedade. Cada personagem apresenta uma opinião diferente do acontecimento, dessa forma o autor mostra seu respeito pelo leitor por não ignorar possíveis interpretações distintas do conteúdo apresentado.

Apresentando comportamentos extremamente realistas ao longo da narrativa, José Saramago constrói uma metáfora afiada sobre o comportamento humano através de uma visão aguçada de responsabilidade, seja governamental ou pessoal. O tempo todo questionando até quando as pessoas aceitarão estar cegas aos problemas sociais. Ao colocar um país inteiro com a cegueira, ele molda um retrato do quanto o homem ainda é capaz para sentir orgulho, mesmo em situações onde a ajuda do próximo é indispensável e os direitos são iguais, porque sempre haverá um “rei da camarata dos malvados” e pessoas dispostas a segui-lo, resta saber até quando os outros fingirão a ausência das consequências pela falta de humanidade para com as camadas menos favorecidas.

A mulher do médico é a única capaz de guiar os cegos. Cena do filme Ensaio Sobre A Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles e inspirado no livro de mesmo nome.

Em 2008, fora lançada a adaptação cinematográfica da obra. Dirigida por Fernando Meirelles (Cidade De Deus) e estrelada por Julianne Moore numa performance arrebatadora, o roteiro possui argumentos, certas vezes, mais extensos que a obra de Saramago, revelando-se uma homenagem admirável e corajosa ao romance. Além de uma continuação, do mesmo autor, intitulada Ensaio Sobre A Lucidez. Porém não aconselho assistir ao filme sem ler o livro, pois dessa forma você, leitor (a) dessa resenha, estaria perdendo a oportunidade de conhecer por completo uma das metáforas mais bem trabalhadas sobre a sociedade contemporânea. Não tenho receios de dizer: esse livro é simplesmente OBRIGATÓRIO para quem gosta de ler.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs).

Livro “TARÂNTULA” de Thierry Jonquet

Pessoal, sei que já foram feitas análises sobre o filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. Entretanto o que será discutido agora é o livro de Thierry Jonquet. Apesar de focar na relação do médico Richard Lafargue e sua aparente esposa, Ève, tal qual a adaptação cinematográfica (com nomes trocados). O romance possui caminhos totalmente diferentes do longa-metragem, fornecendo personagens com atitudes distintas, porém ligados pelo mesmo segredo. Mesmo assim, o livro de Jonquet consegue, surpreendentemente, escrever uma história sobre a crueldade humana, algo mais distante do ambiente romântico do filme e próximo de “Laranja Mecânica”. Numa história envolvente onde todos possuem culpa, o autor “dá a cara a tapa” sem receios de mostrar as doenças do mundo real, evitando suavizar o lado da mocinha como o roteiro da película de Almodóvar.

Sinopse: O cirurgião plástico renomado (Richard Lafargue) e a bela mulher prisioneira de suas vontades (Ève), a adolescente que se automutila em um hospício (Viviane), o jovem acorrentado no porão obscuro depois de uma perseguição implacável (Vincent), o assaltante fugitivo condenado pelo próprio rosto (Alex). Um erro fatal do passado reúne esses personagens na mesma teia, no romance mais aclamado pelo público e crítica do autor francês Thierry Jonquet. Adaptado livremente ao cinema com o nome A Pele Que Habito sob a condução do famoso diretor espanhol Pedro Almodóvar.

Uma das coisas interessantes do livro é propor metáforas sobre zoomorfismo. O título Tarântula faz referência ao apelido dado por Ève ao seu seqüestrador, numa analogia da aranha envolver sua presa e, dessa forma, torturá-la na espera pelo pior. Além disso, a civilidade humana é posta a prova quando Vincent passa longos dias sem comer ou conversar com alguém, de maneira a ser comparado a um cachorro de estimação quando Lafargue chega, trazendo presentes e outros agrados. O sexo é retratado da forma mais cruel possível com a prostituição, criando um horrível pesadelo masculino relacionado a estupro consensual.

Já li algumas opiniões comparando a história a um Frankenstein moderno, todavia, até então, não entendia o porquê da trama lembrar-me tanto A Bela E A Fera. O item em comum com o conto-de-fadas é a Síndrome de Estocolmo, onde a vítima, numa tentativa inconsciente de autoproteção, busca uma maneira de se identificar com o raptor ou conquistar a simpatia do mesmo. Isso é uma das coisas mais angustiantes, afinal após tudo feito a Ève, ela continua tentando se aproximar do doutor, não da forma interesseira mostrada no filme, mas impulsivamente. O médico também se sente atraído, na verdade isso é ainda mais polêmico pela sugestão de que ele seja homossexual. É algo sem resposta e ofuscado pela atuação de Antonio Banderas, mas na obra de Jonquet fica no ar com a desconfiança momentânea de Vincent, fisicamente fraco demais para analisar melhor a situação. A saída do longa-metragem para essa suspeita foi fazer Vera (Ève, na literatura) com o rosto da esposa do doutor. Mas há outras peculiaridades semelhantes ao conto mencionado, o doutor a mantém presa, porém com o tempo passa a ser afetuoso, apesar do sofrimento imposto por ela a Viviane (filha de  Lafargue). Portanto, essa história  é mais próxima de uma versão ultraviolenta e sombria de A Bela E A Fera.

Tarântula e suas semelhanças macabras com A Bela E A Fera devido ao Complexo de Estocolmo, onde a vítima busca afeiçoar-se ao sequestrador, e as circunstâncias que levam o médico a aproximar-se da refém por solidão, culpa, piedade, irresistível beleza da moça, etc.

Ève não é santa ou inocente na história original, na realidade ela é capaz de tocar “The Man I Love” ao piano só para irritar Lafargue e abrir as pernas provocando o desejo proibido sentido por ele, o qual evita até tocá-la por conta do segredo. Mesmo tendo razões gigantes para torturar a “esposa”, Tarântula consegue ser perverso. O simples ato de prostituí-la e observar o ato é horrível, mas tudo é confrontado quando sabemos a identidade da mulher. Honestamente, li o livro após assistir ao filme e esse conflito de opiniões é bastante evidenciado. Afinal, o médico está certo ou não impondo sua tortura? a humanidade existente no homem deve ser ignorada, mesmo havendo motivos suficientes para fazer alguém culpado sofrer? Cabe ao médico condenar Vincent ao sofrimento até o fim da vida?

Nesse ponto descobrimos o porquê do título ser justamente Tarântula, o personagem chave é Lafargue, uma vítima tentando se vingar e sendo confrontado com sua natureza: tenta fazer durar seu ódio, mas a piedade na consciência é pesada, ainda precisa controlar seu desejo pela aparência de Ève, sente orgulho de sua criação e não pode usufruir dela por dogmas unidos ao passado sombrio.  Após esse texto, consegue-se descrever o livro em uma palavra: desafiador. Tudo isso condensado em apenas 150 páginas, provando algo esquecido por alguns autores: estimar qualidade ao invés de quantidade. Não focando apenas na questão de manter a identidade sexual da pessoa, o livro vai bem além dos temas do filme, explorando o sentimento de punição aos limites com um resultado intrigante através de reviravoltas inusitadas onde o conflito de humanidade e castigo é debatido sem o temor de não agradar um público acostumado a distinguir personagens bons de maus.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

O Segredo da Cabana (The Cabin in the Woods, 2012)

Quanto mais ansiamos pelo fim de filmes clichês com um grupo de adolescentes curtindo as férias, surgem mais exemplares do gênero. Porém, dessa vez, a proposta é diferente, O Segredo da Cabana possui uma idéia interessante: fazer uma sátira das produções hollywoodianas de assassinos seriais, criticando a falta de originalidade e preferência pela previsibilidade. Contendo uma série de reviravoltas e segredos, a trama não se contenta em apenas mostrar os jovens morrendo, pois também representa de forma bem humorada a platéia mais convencional, criando um filme de humor negro cujo resultado não é tão bem sucedido quanto outros títulos (Zumbilândia, Pânico 4), mas acerta em não deixar o telespectador descansar por gerar uma enorme curiosidade sobre o desfecho e cumprir a promessa de pôr todos os monstros, de forma coerente, numa mesma trama.

A história é simples, um grupo de estudantes da faculdade planeja passar um fim de semana divertido numa horrível cabana isolada no interior e inexistente, até mesmo, nos satélites. Ao tentarem cumprir os famosos clichês de adolescentes de filmes de terror, libertam uma maldição e começam a ser atacados em situações típicas, até se darem conta de que estão sendo monitorados e, ainda por cima, possuem suas atitudes manipuladas numa suspeita versão sangrenta e cômica de um Big Brother onde as regras derivam de clássicos como Sexta-Feira 13 ou A Hora do Pesadelo.

Personagens centrais: o estudioso, o atleta, a virgem, o tolo e a vadia.

Com o passar dos anos, os jovens começaram a ser mais exigentes quanto a roteiros. O Segredo da Cabana parece ter sido criado justamente para esse público. Os clichês, atualmente, são tão conhecidos que já não são bem recebidos pela platéia. Pensando nisso o filme aposta numa abordagem totalmente crítica das grandes indústrias cinematográficas. Os adolescentes do filme estão em situações previsíveis, porém não se conformam com isso. A empresa do “Reality Show” aponta para antigas patrocinadoras assíduas de slasher movies. Várias metáforas bem óbvias são apontadas e, apesar de se situar na atualidade, a história é obviamente baseada nas décadas anteriores, com jovens sendo massacrados à moda antiga para seguir as regras impostas pelos clichês. Talvez por isso não consiga nos surpreender tanto, afinal a metalinguagem é algo bastante usado nos longas de terror recentes. O erro foi ser lançado tardiamente, se houvesse sido feito pelo menos há uns 10 anos poderia ser mais notável, todavia esse tipo de crítica aos antigos já não surte um efeito tão grande de surpresa.

Quando os personagens revoltam-se contra seus destinos clichês. “Somos marionetes” diz o tolo.

Mesmo tendo como base elementos da metalinguagem já simpatizantes com o público (A Hora do Pesadelo 7, Série Pânico, Todo Mundo Em Pânico, Deu A Louca Nos Monstros), o filme ainda aposta no terror e não deixa de ser interessante. Já citei acima, é impossível não ficarmos curiosos. O erro mais evidente só vem na cena final, onde quem já viu “Paul: O Fugitivo” terá uma impressão de plágio. Apesar de homenagear bastante o gênero, no fundo é inegável nosso cansaço ao assistir aos adolescentes de nossa geração e, se não fossem as hilariantes piadas, a sessão não seria tão divertida. No término, só permanecemos com um filme inteligente de comédia na mente, mas isso já vale o ingresso.

 

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios – 2012

Olá, pessoal. A crítica de hoje é a respeito de um lançamento nacional bem recebido pela crítica do país nesse ano: Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios. Ganhador de vários festivais, o filme é inspirado no livro título de Marçal Aquino e dirigido por Beto Brant com Renato Ciasca, narra a história de Cauby, um fotógrafo bem sucedido residente no interior do Pará. Ele se apaixona por Lavínia, uma mulher sensual e imprevisível, esposa de um pastor local. Em meio à luta de garimpeiros contra uma Mineradora, o casal vive um momento de entrega completa, cada um explorando o ser do outro na descrição para as telas de experiências sensoriais. Entretanto, após ler a obra e assistir ao longa-metragem, o que aparentava ser uma profunda reflexão sobre as sensações de um romance, transforma-se numa das obras mais superestimadas, com direito a idealização deveras machista da mulher, resoluções ridículas de dificuldades encontradas pelas personagens, aparente preconceito contra pessoas interioranas e apelo intelectual.

Camila Pitanta no auge de seu talento

O foco da trama está em Lavínia, idealizada por Cauby, o qual passa boa parte de seus encontros fotografando-a. A promessa do roteiro é fazer-nos apreciá-la aos olhos do protagonista, mas isso não ocorre. Camila Pitanga foi escolhida para dar vida a ela. Na melhor atuação de sua carreira e nos deixando de queixos caídos pelo nível de entrega à ficção, a atriz tem um desempenho maravilhoso, todavia não estamos prestando atenção à Lavínia e, sim, à sua intérprete, detalhe dotado de uma enorme diferença. O problema está na imbecil oscilação comportamental da personagem. Já citei isso nesse site antes, alguns autores utilizam uma espécie de estratégia a fim de tornar sua dama literária totalmente distinta de qualquer outra mulher real, isso ocorre através de atos imprevisíveis com alternâncias repentinas de humor, ações estranhas compensadas pela grande beleza da amada ou bondade revelada. Com Lavínia, a apelação vai além e parte para sua trajetória de vida, criando um passado turbulento e extremamente exagerado causador de pena para despertar uma fagulha de interesse no telespectador.

Cauby em sua idealização forçada

Com nossa visão crítica “esfumaçada” pela narração obsessiva de Cauby em convencer-nos dos motivos que o levam a estar apaixonado, só na adaptação cinematográfica despertamos para os principais elementos com falhas, pois acompanhamos o romance de longe. A amada de Cauby sofre de uma inconstância incômoda, desde seu nascimento já está no fundo do poço e seu amante só nos serve de exemplo para isso por ela estar abandonando sua única chance de recuperação, o pastor. Há momentos de pura histeria, onde Lavínia aparenta ser doente mental, mas para Cauby está tudo muito bem. Em várias partes do longa, o casal faz uso de drogas como se a intenção fosse nos provar o quanto sentiam-se livres. No livro, é revelado um pedófilo assassinado por um morador local, o qual descobriu envolvimento do filho com o aliciador. Todos da cidade comemoram a saída do pai (que matou o pedófilo) da cadeia, apenas Cauby está triste, como se Marçal Aquino nos quisesse provar o quanto seu protagonista possui humildade diante dos outros. Sem falar na parte onde o amante flagra Lavínia lavando sua louça sem avisar, ao questioná-la ela afirma “Eu gosto”.

Optando por um estilo mais alternativo, o longa-metragem é cansativamente lento, acompanhando a febre mundial do estilo “feito para festival”, cujo resultado nem sempre é satisfatório e cria a ilusão de possível inteligência quando, na verdade, é apenas mais uma trama simplória com recursos óbvios de apelação. No elenco só podemos destacar a estonteante e incrivelmente talentosa Camila Pitanga (a atriz merece aplausos em pé) e ZéCarlos Machado como o pastor Ernani, a atuação de Gustavo Machado como Cauby é decepcionante.  Sem fazer bom proveito do contexto histórico, o clímax não consegue construir uma ponte coerente entre os problemas do casal central e a crise do garimpo, provocando um desfecho péssimo onde a vilania e ameaça ao romance foram se apoiar covardemente sobre os ombros das pessoas retratadas no interior. Honestamente, se esse tipo de história constituir a nova fase do Cinema Nacional, então não haverá avanço.

Nos bastidores, Camila Pitanga lê a obra de Marçal Aquino. Ela merece mais do que isso.

BATMAN: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012)

Inteligente, impressionante e original são as palavras que não conseguem sair de minha mente após assistir ao novo filme de Christopher Nolan. Após anos de espera, finalmente sai a conclusão de uma das melhores trilogias dos últimos tempos e, arrisco dizer, a melhor de qualquer adaptação dos quadrinhos. Perdendo um pouco mais o lado noturno e macabro apresentado pelo Coringa em “O Cavaleiro das Trevas”, o novo Batman consegue explorar de forma assustadora o terrorismo, o qual tanto consagrou o longa-metragem anterior pelas excelentes cenas de ação. Com mais personagens saídos das revistas, com certeza cumpriu a promessa de ser excelente e vai além de qualquer tentativa de arrecadar lucro, pois não abandona a inteligência de seus anteriores e finalmente podemos dizer que um herói chegou no limite de sua capacidade.

Sinopse: Oito anos após a morte de Harvey Dent, a cidade de Gotham City está pacificada e não precisa mais do Batman. A situação faz com que Bruce Wayne (Christian Bale) se torne um homem recluso em sua mansão, convivendo apenas com o mordomo Alfred (Michael Caine). Um dia, em meio a uma festa realizada na Mansão Wayne, uma das garçonetes contratadas rouba um colar de grande valor sentimental. Ao investigar a moça, descobre que se trata de uma ladra experiente chamada Selina Kyle (Anne Hathaway). Arriscando impedir os atentados de um terrorista chamado Bane (Tom Hardy), Batman se vê sozinho e é obrigado a assistir a ruína da cidade juntamente com a fuga de todos os prisioneiros, armados por Bane. Ele vê em Selina uma aliada, porém nem seus maiores esforços talvez consigam impedir a tragédia iminente reservada ao herói.

Bane: finalmente um vilão realmente pronto para massacrar Batman

Honestamente, não sei como outras pessoas reagiram ao vilão Bane, entretanto só consegui sentir repulsa pelo mesmo. Não sei se isso é por conta de já ter sido vítima de assalto, mas meu desdém só serve para comprovar o quanto Nolan subiu em meu conceito. Após “O Cavaleiro das Trevas”, o Coringa virou um ícone pop tão conhecido quanto nos quadrinhos e sua imagem vive sendo vendida por aí. A questão é Bane ser carta nova e sua participação no terceiro longa da franquia é tão impressionante que provavelmente não cativará tão rápido a admiração da platéia pelas atitudes frias, algo extremamente raro atualmente ao haver tantas pessoas fantasiadas de vilões. Isso é algo bom, pois demonstra o alto nível do novo inimigo de Batman, fechando a trilogia com “chave de ouro”.

A Mulher-Gato mais fiel, porém não tão marcante.

De todas as vilãs, Selina Kyle sempre foi minha preferida. A responsabilidade para com a personagem era bem maior que a de Bane, afinal ela, tal qual Batman, carrega símbolos bastante evidentes na cultura pop, por exemplo independência feminina e sensualidade. Talvez uma das dificuldades do roteiro fosse inserir a personagem. Eles optaram pela mesma estratégia que a do Coringa, não contar sua origem (levando em conta a enorme quantidade de atualizações que ela já teve nas revistas) e apenas colocar a gata no jogo por ser de seu interesse e não uma coincidência. Porém surge o desafio de criar um relacionamento com Batman num tempo curto e com coerência, o diretor não decepciona e em poucos minutos não vemos dificuldade de vir os dois flertando como ocorre habitualmente nas revistas. Entretanto o casal perde a complexidade pela falta de conflito de valores. Sentimos falta disso no longa de Nolan, mas possivelmente tenha sido suavizado para acabar com o clichê ladra-policial tão bem explorado em todas as produções com a presença de Selina.

Onde foi parar a preciosa complexidade da relação entre Batman e Mulher-Gato?

Falando em revistas, nesse filme Nolan opta novamente por seguir a perspectiva de “O Longo Dia das Bruxas“ (talvez a segunda melhor história do morcego nos quadrinhos, pelo realismo e história complexa). No meu caso, não sou tão apreciador da Mulher-Gato apresentada nessa obra porque não me conformo em vê-la sendo apenas um pivô. Algumas cenas do filme denunciam que a gata está ali apenas para substituir o interesse romântico chato (Rachel Dawes nos filmes anteriores) do herói e isso é quase imperdoável, pois vai contra o propósito da própria criação da personagem, uma mulher que não aceita ser controlada ou dependente. Mas a proposta era criar uma Mulher-Gato mais realista e moderna, nisso eles acertam em cheio. Nós compreendemos a dificuldade de respeitar tudo da personagem, afinal havia muitas tramas paralelas, mas como fã aguardava mais atenção a ela, que não merecia ser uma coadjuvante, embora de luxo. O que não me leva a ignorar a grande performance de Anne Hathaway, com certeza a melhor adaptação da Mulher-Gato até hoje e finalmente o retorno da elegância, algo perdido em suas últimas aparições.

Para compensar a falta de complexidade do romance, há inúmeras cenas de ação espetaculares. A nova Mulher-Gato é bastante flexível e deixa água na boca para assistir a novos combates após presenciarmos seus maravilhosos golpes com saltos. Nesse caso, contentamo-nos com uma abordagem mais moderna da ladra, onde ela está sensual ao pilotar a moto de Batman, além da idéia dos óculos se transformarem em orelhas de gato ser genial. As lutas com Bane são capazes de deixar a platéia nervosa pela força do vilão ser superior à do oponente. Além das cenas de um Bat aéreo sendo perseguido por mísseis ao tentar destruir um tanque.

Cenas de ação incríveis

Para não soltar spoiles demais, evitarei dizer os nomes originais das novas personagens vindas dos quadrinhos com identidades secretas no longa, só me arrisco afirmar o auto nível do roteiro ao conseguir a proeza de adaptá-las ao universo realista de Nolan, realmente as idéias utilizadas foram brilhantes e você não questiona o fato dos mesmos serem derivados das revistas. A inclusão deles na trama não incomoda suas ausências nos dois primeiros capítulos da trilogia, pois com o desenrolar percebemos que estão no momento certo de serem apresentados. A única ressalva é quanto à escolha de Marion Cotillard, a atriz já havia aparecido no tão famoso “A Origem” e já bastava Joseph Gordon Levitt (numa ótima performance) também ter vindo de lá com o diretor, portanto vê-la em mais um sucesso de Nolan ficou cansativo.

Marion Cotillard e Joseph Gordon Levitt completam o elenco com personagens saídos das revistas em quadrinhos.

Batman encerra de forma bem sucedida uma das melhores adaptações de quadrinhos, suas abordagens quase sempre fazem jus à fama dos personagens e é emocionante assistir ao desfecho dessa saga, lembrando que talvez demore para surgir um exemplar superior. Com uma trilha sonora inovadora e emocionante, as cenas de ação são totalmente ligadas à trama central, evitando entretenimento acerebrado. Anne Hathaway está interpretando muito bem e não me impressionaria caso fosse indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, ela rouba a cena facilmente e o mais irritante é nossa vontade de vê-la mais vezes no filme. Tom Hardy dá vida a um Bane assustadoramente perigoso, fazendo com que sequer lembremos da diferença entre o ator e o monstro gigante das revistas. Dessa vez optando por adaptar uma parte quase esquecida do extenso universo do herói com personagens interessantes, Nolan novamente faz uma sequência totalmente superior ao primeiro longa e lança um dos melhores filmes do ano, o qual com certeza não fica inadequado ao ser chamado de épico moderno.

PROMETHEUS – 2012

O que você faria se pudesse descobrir a origem da humanidade e estivesse frente a frente com o seu criador? Essa é a pergunta inicial proposta por Prometheus, talvez um dos maiores filmes de ficção científica dos últimos anos. Após confrontar o homem com o terror do desconhecido em “Alien: O Oitavo Passageiro” (utilizando metáforas sobre estupro, bem como a polêmica questão do aborto) e refletir de maneira surpreendente sobre as responsabilidades do criador em “Blade Runner: Caçador de Andróides”, o diretor Ridley Scott decidiu mesclar os melhores de sua carreira, entregando um longa onde os personagens enfrentam suas crenças para aceitarem a verdade sobre a criação e, acima de tudo, sua consequência: destruição.

Sinopse:Em 2089, um grupo de exploradores descobre um mapa através de desenhos arqueológicos datados há milênios por civilizações de épocas distintas e partes mais diferentes do globo. A partir daí fazem uma viagem espacial a fim de identificar os possíveis Engenheiros/deuses criadores da humanidade, porém ao buscarem a revelação dos segredos acabam alterando o curso natural da história, podendo desencadear o fim da raça humana ao confrontar seu Criador.

Cenários de tirar o fôlego

Os temas aqui desenvolvidos ultrapassam séculos e já haviam sido destacados no livro “Seriam Os Deuses Astronautas?”, entretanto talvez jamais houvera no cinema um filme (sem ser documentário) dedicado inteiramente à essa teoria. Em entrevista, Ridley Scott comentara “Prometheus” como um “2001: Uma Odisséia no Espaço” com asteróides. Concordo com ele, porém o maior erro do lançamento de Scott talvez seja a ausência de um clima singelo. “O Oitavo Passageiro” e “Odisséia no Espaço” possuem o mistério como fonte inteligente de suspense, todavia seu novo trabalho peca ao tornar-se quase exclusivamente ficção científica, desagradando os fãs da série do xenomorfo. Mas isso pode ser explicado justamente pelo fato de “Prometheus” preocupar-se em revelar os mistérios da humanidade, um assunto necessariamente amplo a fim de obter resultado coerente (pelo menos no universo criado por ele) e aceitação do público.

Quem já conhece a série Alien sabe da escolha obrigatória do personagem central ser mulher. Isso se deve às inúmeras metáforas contidas nas tramas, afinal todas as histórias passadas nesse universo fictício preservam as mensagens de independência feminina, principalmente no que diz respeito ao aborto (analisado como libertação da repressão imposta pela sociedade, representada pela Empresa patrocinadora das viagens espaciais cuja preferência sempre é pelo feto alienígena, tornando o corpo estuprado da mãe inteiramente descartável). A sofredora da vez é a sueca Noomi Rapace. A atriz já havia mostrado todo seu talento na versão original de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” e agora vive sua primeira protagonista hollywoodiana em “Prometheus”, tal qual Sigourney Weaver em Alien. Honestamente, talvez não houvesse escolha melhor. Rapace provavelmente é uma melhores atrizes da atualidade, sua atuação sempre é surpreendentemente natural e a aparência comum auxilia ao distanciá-la dos estereótipos estéticos do cinema, aproximando-a mais da personagem por ainda ser desconhecida de grande parte do público. Sua personagem vive um dos momentos mais perturbadores do filme, o qual provavelmente será inesquecível às mulheres da platéia.

Noomi Rapace sofre em Prometheus

Para quem aguarda um épico, não sairá decepcionado quanto aos cenários, é bastante notável o empenho da direção de arte (as filmagens ocorreram em várias partes do mundo), portanto os cenários e paisagens são de tirar o fôlego. A única ressalva que faço é quanto à aparência dos engenheiros. Quem viu Watchmen, só precisa imaginar um Dr. Manhattan cinza, sem brilho, cujos olhos são completamente negros. Mas é aí que surge uma ironia MUITO interessante. (Se você não leu a obra-prima Watchmen e tiver interesse, por favor pare de ler esse parágrafo) Ao final da revista em quadrinhos, o Dr. Manhattan (um físico atingido por radiação que o faz adquirir poderes de um Deus) vai embora da Terra após afirmar que talvez irá tentar criar uma nova forma de vida em outro planeta. Nós sabemos que ele pode se multiplicar e possivelmente originar vida humana pela matéria, os engenheiros de Prometheus são todos iguais e fazem a humanidade, logo qualquer semelhança será mera coincidência?

Respectivamente, Dr. Manhattan (Watchmen) e Engenheiro (Prometheus). Seria o Dr. Manhattan um engenheiro?

Uma das características mais aterrorizantes de Alien são as criaturas. Apesar de se passar no mesmo universo que o filme de 1979, nós estamos falando de um parente próximo, portanto Prometheus mostrará espécies distintas, todavia com as mesmas referências. Nesse caso, a aparência dos monstros sempre é inspirada nos órgãos reprodutores humanos, por isso “O Oitavo Passageiro” contém simbologia para o estupro e aborto (lembrando aquela garra que infiltra sua semente no corpo da pessoa, a qual servirá de receptáculo involuntário para o monstro), logo esse lançamento segue a tradição com os mesmos significados, porém inovando na estética grotesca.

Com inúmeras referências, Prometheus desbanca vários exemplares desse ano com sua versatilidade. O andróide interpretado por Michael Fassbender (outra estrela em ascenção) é um dos personagens mais interessantes (ele é cinéfilo, além de tudo), promovendo diálogos inteligentes. Em um momento, é comparado a Pinócchio (o boneco que queria ser de verdade). Talvez não despreze inteiramente a raça humana, mas sua decepção de reconhecer o propósito de sua criação faz referência direta ao momento pelo qual os humanos da história estão passando, encontrando seu criador.

O fato do encontro dos astronautas com os Engenheiros poder desencadear o fim da humanidade é plausível no cinema. Se refletirmos sobre outras ficções como “Planeta dos Macacos” e “2001: Uma Odisséia no Espaço”, onde o ser humano encontra a própria destruição nos seus avanços tecnológicos e na ousadia da curiosidade. Os personagens de Prometheus desafiam suas próprias limitações humanas ao enfrentar os engenheiros, rendendo referências incríveis à famosa cena “filho pródigo versus criador” de Blade Runner. Após anos, finalmente podemos dizer que Ridley Scott voltou para casa e, na época atual, é sempre bom tornar a ter surpresas no cinema. Desejo uma ótima seção legendada (pois a dublagem brasileira desse ficou medonha) para todos.

Poder Sem Limites (Chronicle, 2012)

Após várias adaptações de revistas em quadrinhos, já é um hábito comum Hollywood trazer para as telas histórias de pessoas com poderes usando fantasias. Christopher Nolan apresentou uma versão mais realista de Batman em sua trilogia e não fez feio, porém é interessante analisar até que ponto Poder Sem Limites consegue se tornar interessante com elementos fantasiosos, mas sem ofender a realidade. Mesmo sendo um filme de super-heróis, consegue explorar de maneira eficiente cada um dos personagens sem precisar abrir mão de uma premissa simples: três amigos adquirem poderes após entrarem em contato com alguma estrutura, aparentemente, alienígena implantada abaixo do solo, a partir daí descobrem a facilidade para a perda de controle. Parece mais uma dessas histórias teens bobas para arrecadar lucros quando, na realidade, é bem convincente e cativa rápido os telespectadores, tudo isso sem usar capas ou fantasias.

Sinopse:Poder sem Limites é um filme de super-herói, criado e contado sob a perspectiva de um garoto de 17 anos, por meio de sua câmera. Todos sonham em ter superpoderes, mas o que acontece quando não se está preparado para lidar com eles? Neste filme, três adolescentes comuns, repentinamente, são capazes de fazer coisas que nunca imaginaram ser possível. No início, eles se divertem, mas quando as pegadinhas tornam-se perigosas e os problemas pessoais acabam atingindo grau elevado, surge o caos.

Você só conhece uma pessoa ao dar poder a ela

Andrew (Dane Dehaan) é praticamente o protagonista e nos surpreende ao fazer referência involuntária a outros personagens do cinema, por exemplo a Dra. Jean Grey/Fênix, Carrie: A Estranha e  Homem-Aranha+Venom. Apesar de pegar emprestado um pouco desses personagens, isso não estraga o andamento da história. É interessante notar o quanto esse estereótipo chama atenção do público, a perda de controle sempre conquista a platéia. Provavelmente isso possui uma explicação mais bem elaborada no ramo da Psicologia (fazendo referência ao id), mas quem melhor do que os heróis para demonstrarem isso? Andrew é o mais poderoso do trio e, justamente, o mais perigoso por infringir as normas, logo rouba a cena e deixa os outros dois protagonistas apenas observarem sua trajetória até o desfecho.

Quando soube que o filme fora gravado no estilo documental, rapidamente perdi o interesse. Pensara ser apelação, porém aqui não é utilizado de maneira ruim, afinal não é agradável perder uma cena importante por conta de um retardado fugindo com a câmera (a exemplo de Atividade Paranormal, Bruxa de Blair, O Caçador de Trolls, etc). Na maioria das vezes, algum personagem corre com a filmadora porque precisa manter o clima de tensão ou para esconder os efeitos especiais de baixo orçamento, de qualquer maneira é para tornar o longa mais realista. Poder Sem Limites é um excelente exemplo ao lidar bem com a câmera sem se ausentar nas cenas importantes, tornou a filmagem mais interessante e não tem a imagem ruim dos filmes recentes de mesmo estilo, tudo é bastante nítido. É compreensível o fato de trabalhar no estilo documental a fim de tornar a trama mais realista, Andrew filma para si e não por precisar documentar pensando na fama após os acontecimentos e, acredite, isso faz bastante diferença quando compreendemos a solidão do mesmo.

Outra coisa que ajuda a tornar o filme melhor é o humor natural dos personagens. Já estava farto de assistir àquelas cenas onde os heróis saem se divertindo ao descobrir seus poderes, talvez os diretores pensem ser importante mantê-las no longa por conta da história, todavia não há graça nelas (geralmente, as sensações de euforia do heróis não são compartilhadas pela platéia). Em Poder Sem Limites finalmente os personagens conseguem alcançar a simpatia do público ao “pregar peças” nas pessoas através de seus poderes e, quando percebemos, já estamos rindo com eles. Os efeitos especiais são bons e um dos poderes compatíveis entre eles é voar (algo quase sempre evitado para evitar o surrealismo, aqui está muito bem empregado).

Os anseios da adolescência são bem colocados, mas sem irritar por conta da variedade de exemplares já existentes voltados para esse público, logo as cenas são curtas e diretas, apesar de essenciais para o clímax. Ao que tudo indica já estão trabalhando numa continuação e só resta torcer para ser tão boa quanto o original (mesmo crendo ser difícil levando em conta a ótima abordagem já trabalhada nesse primeiro), mais fácil é aguardar para outros longas de super-heróis também inovarem. Poder Sem Limites provou que não é necessário ser uma adaptação dos quadrinhos para agradar, as ferramentas para um bom roteiro estão no cotidiano, basta originalidade para saber montá-las, mesmo já sendo usadas em outras histórias, e a maneira de torná-la realista depende do quanto estamos envolvidos com a trama sem atentar para deslizes ficcionais comuns, fazendo surgir um excelente entretenimento. Com certeza, foi uma ótima maneira do diretor Josh Trank iniciar sua carreira.

Léolo – Porque Eu Sonho (Léolo, 1992)

A infância pode parecer um período alegre e cativante para muitos dos que preferem lembrar apenas os momentos bons, porém talvez alguns saibam o quanto esse período pode ser difícil. Léolo justamente nos faz recordar a gama de emoções que uma criança pode sentir com acontecimentos avaliados pelos adultos como simplistas. A observação ao seu redor, a descoberta do prazer, a leitura como escape da solidão, o primeiro amor, a culpa, surras, bebidas alcoólicas, iniciação sexual. Os assuntos ali abordados referem-se à vida de um menino comum em plena década de 1980, onde os tabus estavam em alta e as crianças não possuíam acesso a todo tipo de informação e, muito menos, os adultos estavam dispostos a conversar com seus filhos sobre determinados assuntos. Entretanto, apesar de conter tantas denúncias, Léolo pode ser considerado um filme nostálgico sobre a imaginação, o protagonista viaja pelos seus sonhos e, assim, escapa da realidade suja do mundo. Além disso, nós, telespectadores, espiamos por uma fresta os improvisos de uma geração sem internet. Se atualmente as crianças vivem solitárias trancadas em apartamentos, só podemos concluir que naquela época, sim, havia aventuras.

Sinopse: Um pai obcecado com a saúde dos intestinos da família, um irmão cujos exercícios de musculação mal conseguem esconder seu medo das pessoas, duas irmãs que passam cada vez mais tempo em uma enfermaria psiquiátrica, e um avô, o responsável pelo fracasso genético da família. Léolo, o personagem principal, é cada vez mais afundado nessa insanidade. Mas através da liberdade e da imaginação, consegue viver uma vida dentro de si mesmo. Vencedor de vários prêmios, é uma obra-prima poética e um dos filmes mais emblemáticos da década de 90.

“Porque eu sonho, eu não sou”. Essa é frase mais marcante do protagonista e a razão disso é a busca pela identidade. Léolo (interpretado pelo ator mirim Maxime Collin numa excelente atuação) possui uma vida miserável e é através dos sonhos que consegue se vir diferente da condição doente de sua família. Um exemplo disso é a própria origem contada pelo menino, ninguém pode derivar de um tomate, mas ele sonhou com isso a fim de recusar até, certo ponto, sua origem genética. O menino culpa o avô pelo desequilíbrio psicológico da família e é aí onde nós temos uma das cenas mais sinceras, ele tenta matar o avô. Nesse ato observamos toda a descrença do menino no futuro da família possuindo um parentesco com um homem tão vil e que, ainda por cima, possui relações com a garota de quem Léolo gosta. Mesmo que isso ocorresse apenas na imaginação do garoto (informação errônea pois a médica chega a conversar com ele sobre isso), demonstraria a competição sexual existente no universo masculino quando os gostos coincidem por uma mesma mulher.

Porque eu sonho, eu não sou.

O trauma é explorado de forma magistral na trama através do irmão de Léolo, um halterofilista, o qual não consegue superar seu medo de apanhar novamente de outro rapaz, agressor do mesmo na juventude. Em conseqüência, ele não possui bom rendimento na escola e é considerado anormal pela instituição. De fato, Léolo parece ser o mais normal de todos, afinal herdara a força psicológica da mãe, entretanto isso não o torna imune à esquizofrenia e à depressão genética da mesma, logo há certos momentos onde temos certas dúvidas sobre a saúde mental do mesmo, mas jamais é esquecido o fato dele ser apenas uma criança sonhadora e normal como qualquer outra.

Naquele dia, eu entendi o medo que vive em nosso mais profundo ser. E que uma montanha de músculos ou uma centena de soldados poderiam não fazer nenhuma diferença.

A leitura tem uma homenagem profunda no enredo, Léolo começa a narrar sua vida, lida somente pelo recolhedor do lixo (nosso narrador), um verdadeiro Dom Quixote, lendo cartas e livros jogados fora pelas pessoas e influenciando o rapaz a sonhar para escapar daquele lugar. É o único a dar atenção ao que o menino está sentindo, nem os professores importavam-se, deixando os alunos na dúvida quanto às mudanças no corpo. Há uma cena bem inteligente onde Léolo afirma não saber o nome daquilo entre suas pernas. O despertar para a sexualidade do menino é gradativa, observando sua vizinha seminua pela brecha da porta até possuir revistas em mãos, lembrando bastante o livro Complexo de Portnoy, porém com traços surrealistas. Podemos encontrar diversas referências à Psicanálise, tudo sem muitos floreios ou meras mensagens, ela está no cerne de todo o roteiro e, até hoje, é utilizada como instrumento de estudo do filme.

Não é surpresa para ninguém o fato da obra atualmente ser considerada Cult, uma prova de sua genialidade é que não é fácil esquecê-la. Talvez nós, que assistimos, passaremos dias e dias recordando o cotidiano de Léolo, pois o longa é, sem dúvida nenhuma, uma volta à infância com direito ao seu lado obscuro. Numa época onde os filmes com crianças (a exemplo de O Labirinto do Fauno, Hugo Cabret e Onde Vivem Os Montros) possuem a promessa de tocar as pessoas  surge Léolo, um ótimo exemplar sobre a infância masculina, sem apelar para metáforas Hollywoodianas de vampiros, monstros ou qualquer coisa que acabe afastando a pessoa da realidade crua que é o período da infância, recheado de alegrias e tristezas, afinal é o período onde estamos conhecendo o mundo sem o atrevimento adolescente ou a falta de tempo dos adultos, uma fase onde a reflexão é quase proibida para certos assuntos e, por isso, tão curiosa. As cenas ao som de “You Can’t Always Get What You Want” são emocionantes e expressam toda a melancolia da puberdade e o descobrimento dos vícios de uma nova geração perdida num mundo sombrio, mas disposta a se jogar sem pudor no mesmo. Minha última opinião, para encerrar, é de que o filme talvez seja uma oportunidade única de uma das experiências mais marcantes do cinema, merecendo portanto ser mais divulgado.

  • Meu conselho para quem for assistir: deixem de lado abordagens cinematográficas conhecidas e sempre positivas ou ingênuas da infância. Relembrem através de Léolo o que, de fato, representa esse momento.

“Porque eu sonho, eu não sou. Porque eu sonho. Eu sonho. Porque à noite eu me entrego a meus sonhos. Antes que me reste o dia. Porque eu não amo. Porque eu tinha medo de amar, eu não sonho mais. Eu não sonho mais.”

CLUBE DA LUTA (Fight Club) – 1999

Após saber da raridade dessa obra, escrita por Chuck Palahniuk e esgotada há anos no mercado brasileiro, fiquei curioso, porém minha decisão definitiva de comprar o romance veio mesmo após ler a seguinte frase: CONSIDERADO UM CLÁSSICO MODERNO DESDE SUA PUBLICAÇÃO EM 1996. Li o livro e “corri” para assistir ao filme, só posso dizer que a mescla do excelente roteiro, fidelíssimo ao livro, com a visão aguçada de David Fincher para transpor palavras em uma linguagem visual impressionante foi uma das parcerias mais bem sucedidas para algo fictício dessas últimas décadas. Quem leu antes de conferir a adaptação deve compreender minha opinião e os que só assistiram sabem da genialidade da história.

Imagine seu cotidiano com insônia, tédio e cansaço constantes. Essa era a vida dele.

O protagonista (Edward Norton), personagem-narrador, é um executivo jovem que trabalha como investigador de seguros, mora confortavelmente, mas ele está ficando cada vez mais insatisfeito com sua vida medíocre. Para piorar ele está enfrentando uma terrível crise de insônia, até que encontra uma cura inusitada ao frequentar grupos de auto-ajuda a fim de chorar com pena dos pacientes doentes e dormir tranquilamente depois. Nesses encontros ele passa a conviver com a excêntrica Marla Singer (Helena Bonham Carter). Após seu apartamento (uma verdadeira amostra de consumismo derivado do tédio) ser destruído, ele acaba indo morar com o recente e curioso amigo marginal Tyler Durden (Brad Pitt no melhor papel de sua carreira), com quem acaba criando o Clube da Luta, um grupo secreto para extravasar suas angústias e tensões através de violentos combates corporais. Com o tempo as cidades vão aderindo à idéia do Clube da Luta, até os pontos de vista de Tyler e o protagonista entrarem em conflito ao mesmo tempo em que a sociedade passa por ataques de um grupo terrorista liderado por Tyler em busca de ideal.

Tyler: Eu quero que você me acerte o mais forte que puder.

A trama fala sobre o lado natural e o animalesco do ser humano, criticando o consumismo e a perda da autonomia das personalidades das pessoas diante de uma sociedade montada através de regras, mantendo as pessoas alienadas com os avanços tecnológicos e cada vez mais distantes de suas próprias personalidades. O Clube da Luta é mais do que apenas uma estranha maneira de diversão. Talvez não tenha ficado bastante claro no filme o objetivo da criação de Tyler. Com o clube, os homens descarregariam seus problemas na luta a fim de finalmente não terem receio de enfrentar os problemas no dia seguinte. Segundo Tyler, a sociedade está escravizada pelo medo e só o caos poderá libertá-la.

Contra o quê você está lutando?

Mesmo apanhando, os participantes acabavam por livrar-se de um fardo: estética e insegurança. Atualmente, todos têm medo de sofrer algo fisicamente, no Clube da Luta os homens não tinham mais nada a perder após a briga, encerrada, por regra, apenas após chegar ao limite (oponente inconsciente ou pedindo para parar, algo requerido sempre após muita brutalidade). A autodestruição é um dos temas mais recorrentes no livro de Chuck, as personagens sempre tentavam chegar ao fundo do poço, pois só assim poderiam renascer e conseguir mudar. O importante é compreender o fato do sacrifício físico, sem morte, ser encarado positivamente por representar algo essencial para o renascimento, logo os lutadores não se importavam com machucados.

O suicídio é apresentado como a má aceitação da pessoa consigo mesma. Tyler, sendo o melhor amigo do protagonista, é o seu oposto e, simultaneamente, seu maior rival por representar tudo aquilo que ele deseja ser e não pode pelas regras da sociedade. Se não há espaço para Tyler no mundo do protagonista, na sociedade, os dois entrarão num conflito interminável, onde não haverá opção de salvação longe da coexistência. Tyler representa o desprezo sentido pelo protagonista, cuja crença é a de que sem ordem não haverá civilização, pela imposição da repressão através da religião e da sociedade. O grande plano de Tyler é provocar mudanças no mundo ao erradicar o medo (explicado no parágrafo acima com a criação do clube) e organizar um exército de ataque aos principais meios de prisão do homem moderno, destruindo lojas de computadores e prédios bancários.

O sabão é um símbolo muito importante. Sendo feito à base de gordura humana, representa o sacrifício para se obter um resultado eficaz. A crítica pode ser analisada pelo fato da gordura partir do lixo de clínicas de estética e servir como cosméticos para socialites, logo é um ciclo onde as próprias pessoas se aproveitarão do resultado. Tyler vende os sabões e estes servem para limpar, e é esse seu ideal, limpar a sociedade de seu mal através de sua própria sujeira, representada pelos seguidores do Clube da Luta (encarados como marginais se as lutas fossem expostas ao público).

Tyler: Você não é seu emprego, nem quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco, nem o carro que dirige, nem o que tem dentro da sua carteira, nem as calças que veste. Você não é especial.

O filme opta por um final diferente e errôneo do livro, cuja conclusão possui muito mais a ver com a trama desenvolvida. Porém os dois completam-se, ocorrendo algo semelhante ao tão famoso Laranja Mecânica (onde o filme é bem mais famoso que o livro, alavancado pela excelente adaptação). Essa união de um talentoso escritor e um diretor brilhante só poderia resultar numa coisa: clássico. Por isso, discordo da frase em destaque no primeiro parágrafo, para mim ele só foi considerado clássico desde 1999, ano de lançamento do longa-metragem. Edward Norton, Brad Pitt (cuja interpretação está quase à altura do Coringa de Heath Ledger) e Helena Bonham Carter estavam no ápice de suas carreiras e tão inspirados quanto Fincher, eles aparentam nascer para esses papéis, resultando numa experiência com inteligência surpreendente e bastante humor, cumprindo o objetivo do autor ao escrever a história: proporcionar um entretenimento eficaz e inteligente com uma leitura leve de forma que não consigamos nos desprender das páginas, sucesso esse também ocorrido longa, onde piscar representa perder parte do espetáculo.