Livro: Crônicas Vampirescas: A Rainha dos Condenados – Anne Rice

Após dois inacreditáveis sucessos literários com “Entrevista Com o Vampiro” e “Vampiro Lestat”, Anne Rice encerra em A Rainha dos Condenados talvez seu trabalho mais bem sucedido, a trilogia principal de As Crônicas Vampirescas (título sugestivamente jovem, ao contrário dos temas abordados, então não se deixe levar por ele). É inquestionável a colaboração dessa autora para a escrita contemporânea no uso de metáforas a fim de conquistar o público pela inteligência e, simultaneamente, incorporar sua visão crítica “afiada” sobre a sociedade. Ela não só reformulou as características dos vampiros, como também criou um épico cuja complexidade até hoje influencia novos personagens da mesma safra.

Observação: Sempre que indico um dos livros das Crônicas Vampirescas para alguém, alerto para que possua bastante cautela durante a leitura porque a autora é muito feliz na exploração de seus argumentos. Logo, se você for uma pessoa muito influenciável, preconceituosa ou receosa, aconselho que não leia. Temas como ateísmo, psicopatia, depressão, guerra e sexualidade sempre estão presentes.

Em A Rainha dos Condenados, Rice atinge o ápice de sua trilogia.  Se nas suas obras anteriores havia explorado demasiadamente o ateísmo como fonte de perguntas, as quais perseguem o ser humano pelo menos uma vez na vida, nesse procura pôr em julgamento a existência do homem na Terra. Akasha é uma das personagens mais intrigantes de toda a saga. Por ser a primeira da raça, é a criatura mais poderosa de todos os vampiros e, caso seja destruída, todos os outros também irão, então nenhum sanguessuga, pelo menos em sã consciência, tenta isso (excetuando-se alguns suicidas citados na trama, esses pereceram junto com milhões do planeta no momento em que Akasha foi ferida). Porém, o mais interessante de sua história é que a personagem permaneceu imóvel durante séculos apenas observando os seres humanos através da mente dos sofredores

Ilustração de Akasha, feita por um fã, mas igual à descrição do livro.

Ilustração de Akasha, feita por um fã, mas igual à descrição do livro.

Akasha pode ser a representação da justiça temível por todos. Nas crônicas de Rice, quanto mais antigo for o vampiro, mais ele consegue ler a mente dos seres humanos a largas distâncias. Por ser a mais antiga, ela podia escutar as vozes de todos os seres humanos em sua mente. Portanto, passou séculos escutando pedidos de socorro de pessoas passando fome, sendo agredidas, estupradas e assassinadas. Isso justifica seus pensamentos inflexíveis. Ela desperta com o intuito de acabar com as guerras e promover a paz, mas com derramamento de sangue. Por ter presenciado mentalmente tantos sofrimentos de mulheres, sua decisão inicial é quase extinguir os homens do planeta, deixando apenas um a cada cem mulheres (passando o controle da população para elas). Isso, obviamente, é confrontado por Lestat e os vampiros mais velhos que terão, após anos de matanças por prazer e sobrevivência, que defender os seres humanos. Mas nem os vampiros escaparam de seu juízo, Akasha percorreu o mundo matando todos, exceto aqueles por quem seu amante (Lestat) tinha consideração e os anciãos, os quais não poderiam ser destruídos por ela.

Apesar de ter uma solução estúpida para acabar com o sofrimento humano, é através de Akasha que Rice faz uma crítica ao feminismo, será mesmo que um mundo constituído apenas por mulheres terminaria com as guerras ou elas (as mulheres) também precisam dos homens para coexistirem? A rainha se contradiz em suas teorias ao necessitar urgentemente da companhia de Lestat como companheiro. Todavia, apesar da resposta parecer óbvia em nossas mentes ao lermos a proposta, Anne Rice constrói uma personagem que sabe lidar bem com as palavras e, quando estamos lendo, ficamos aturdidos ao tentar imaginar mais argumentos além daqueles utilizados por Lestat para convencer a Rainha (Akasha sempre consegue calar seus ouvintes com boa argumentação). E é aí que notamos o grande talento da autora em discursos, afinal o livro também pode ser uma aula sobre as formas de se portar num debate. Mas, partindo para o lado mais metafórico, Akasha representa a perda de controle por parte daqueles que possuem poder para governar, mas não o sabem aplicar com sabedoria, apenas com conhecimentos defasados.

Em sua vida humana de rainha do Egito, ficou assustada ao saber que os deuses não existem e, por isso, tem a necessidade urgente de tornar-se uma forma de expressão daquilo em que mais confiava para então viver em paz com sua consciência. Dessa forma também estará enquadrando seu círculo social à sua época. Dito isso, dá para imaginar a corrente de metáforas que essa personagem carrega. Os costumes de seu tempo já estão alterados e, assim como ocorre com outros vampiros, há algo em sua mente sufocando-a por notar que mundo não é mais o mesmo e o povo não reza para Ísis, identidade assumida por ela após tornar-se vampira.

Mas se você está pensando que o livro é apenas sobre isso, está muito enganado(a). Uma das façanhas mais admiráveis da autora é a de criar mitologias. Anne recria, através de descrições minuciosas, o Império Egípcio, dando mais realidade aos seus personagens. E a leitura é tão convincente que não é de admirar o surgimento de dúvidas a respeito da veracidade das informações contidas no livro. O contexto histórico narrado pela autora muitas vezes é fictício, mas é tão bem descrito que passamos a acreditar que aqueles costumes realmente fizeram parte de uma cultura em determinado momento. O segredo para isso é que Anne mescla elementos reais com fictícios de maneira surpreendente, afinal ela é fiel aos princípios da trama e aos leitores, não deixando escapar muitas evidências de algo inventado por mera distração, a impressão deixada demonstra uma base crítica contínua, excluindo a percepção ágil de um acontecimento ridiculamente impossível.

Apesar de, na época em que escreveu o livro, Rice ser atéia, ela evita ofender qualquer religião. Uma demonstração disso é que tudo na história é retratado como misterioso. Alguns personagens passam por situações em contato com o além, porém jamais é revelado o que ocorre após a morte. E é essa dúvida sobre o outro lado que impede os vampiros do suicídio, pois eles temem o castigo ou sofrimento eterno.  Visto isso, Rice decide utilizar alguns conhecimentos históricos para criar uma origem coerente, mesmo que fictícia, para os vampiros.  Fazendo um misto de todas as crenças apresentadas em sua mitologia, ela apresenta a mais assustadora criação dos vampiros. Não desejo estragar a surpresa para aqueles que pretendem ler, porém acrescento para não aguardarem algo leve, pois mesmo a trama sendo carregada de críticas sociais, há vários momentos de puro terror.

Sobre o romance amoroso de Armand, acredito que seja desnecessário comentar algo a respeito da sexualidade dos vampiros, visto que quem leu as obras anteriores não se surpreenderá com o rumo tomado por alguns personagens nesse desfecho. Isso pode ser melhor trabalhado numa possível análise sobre o primeiro livro. O único problema de continuidade que notei nesse livro foi a permanência da humanidade de Louis. Sei que ele continuou bastante humano no término do filme Entrevista Com O Vampiro, porém isso não ocorre na primeira obra, Louis torna-se frio no fim do livro, mas em A Rainha dos Condenados permanece sensível ao sofrimento alheio, sinceramente essa característica pode ser responsável pela superficialidade da personagem nessa terceira crônica.

Admito que fui ler A Rainha dos Condenados receoso de uma possível perda de qualidade na trama por conta das duas obras anteriores terem sido tão bem sucedidas e explorarem o universo vampiresco de forma bem ampla. Anne Rice nos surpreende a cada momento e a história nunca desacelera, como em Entrevista Com o Vampiro. Rice nos traz vários questionamentos sobre a crueldade do ser humano na terra e confirma o fato de seus vampiros serem tão cruéis quanto a humanidade consegue ser. Rice criou as obras definitivas sobre vampiros e, caso você não acredite, vá ler sem arrependimentos e apagando a  péssima adaptação cinematográfica da memória. Digo isso porque nenhum outro autor conseguiu explorar tão bem o psicológico dos vampiros de forma reflexiva abrangente sem esquecer os elementos fundamentais das criaturas, apesar de John Ajvide Lindqvist, de Deixe Ela Entrar, chegar bem perto.

Leitores e cinéfilos, passem longe desse filme.

Dossiê: trechos do livro (lançado pela editora Rocco). Tradução de Eliana Sabino.

Diálogo de Armand: “Nesta época de agora existe uma horrível solidão. Não, escute. Naquela época morávamos seis ou sete em cada quarto, quando eu ainda era um dos vivos. As ruas das cidades eram mares humanos; e agora, nestes prédios altos, almas ignorantes vivem em luxuosa privacidade, contemplando através de uma televisão o mundo distante onde se beija e se toca.”

Diálogo da Rainha dos Condenados (Akasha): “Este pode ser considerado um dos séculos mais sangrentos da história da raça humana. De que revoluções você está falando, se milhões de pessoas foram exterminadas por uma pequena nação européia por causa do capricho  de um louco, e cidades inteiras foram destruídas por bombas? E os filhos dos países desérticos do Oriente combatem outros filhos em nome de um Deus antigo e déspota!  As mulheres do mundo inteiro jogam os frutos de seus ventres no esgoto. Os gritos dos famintos são ensurdecedores, porém não são ouvidos pelos ricos que se divertem em suas cidadelas tecnológicas; as doenças grassam entre os famintos de continentes inteiros, enquanto os doentes em hospitais milionários gastam a fortuna do mundo em refinamentos cosméticos e na promessa de vida eterna através de pílulas.  – Riu baixinho.  – Alguma vez os gritos dos moribundos soaram assim tão fortes aos ouvidos daqueles que podem ouvi-los? Alguma vez derramou-se mais sangue?”

As Donas da Noite (Wir sind die Nacht, 2010). Uma das Melhores Transformações em Vampiro

Depois de um bom tempo de sumiço, decidi voltar aqui e comentar um filme novo a que assisti, chama-se As Donas da Noite. Pois é, a primeira vez que vi o cartaz imaginei: mais um filme independente ruim lançado por aquelas distribuidoras humildes. Mas não se enganem, esse parece ser um longa que está passando despercebido pelos cinéfilos. É claro que é uma abordagem mais pop do mito, porém o interessante é até que ponto a história se arrisca a reaproveitar as características clássicas das criaturas num ambiente de modernidade, sem se limitar a sustos ou personagens muito estereotipados.

As diferenças começam logo a partir da nacionalidade, o longa é da Alemanha e apresenta atrizes de talento. Nina Hoss pode não estar no auge de sua beleza, mas continua com seu charme e dá mais segurança à personagem, tornando-a, antes de tudo, uma empresária.  Karoline Herfurth (que fez uma participação bastante sensorial e marcante em “Perfume: A História de Um Assassino” como a primeira vítima de Grenouille) abre mão da beleza e passa boa parte do tempo mais feia que Macabéa (personagem de A Hora da Estrela), até ocorrer sua transformação.

Lena antes e após a transformação

Quem me conhece, sabe que sou fascinado por filmes de vampiros, mas na descrição de vários livros a transformação ocorre de maneira estética muito significativa, não é simplesmente alterar a cor dos olhos ou tornar a pele mais pálida, o vampiro precisar ser muito mais atraente comparando a sua forma humana, entretanto mantendo traços que nos façam recordá-la. Até hoje, o pó-de-arroz foi a maneira mais utilizada para retratar o humano após a transição, algo que sempre considerei muito esquisito, afinal não era para o vampiro parecer um metrossexual (como acontece em alguns filmes teens crepusculares). Isso tudo é consertado nesse filme. A transformação apresentada nele propõe que o vampiro não deve ser tão diferente dos humanos, só mais belos que sua forma antes da transformação.  As cenas em que as mudanças ocorrem em Lena inicialmente são dolorosas, mas o resultado final, que ocorre numa banheira, mostra de forma bela a transformação da jovem, alterando toda sua aparência com alguns efeitos especiais sutis.

Falando em efeitos especiais, não vá esperando um show de imagens porque os efeitos são apenas suficientes para a execução das cenas, há partes em que é óbvio o baixo orçamento (como a luz do dia entrando nos cenários), porém isso não estraga a diversão, afinal o importante é o roteiro. Esse apresenta quatro personagens centrais totalmente diferentes. Louise (Nina Hoss), como já foi dito, tem uma postura de mulher independente, com “ar” de empresária. Lena (Karoline Herfurth), a protagonista, já é mais recatada, sempre demonstrando timidez, exceto quando é necessário tomar medidas drásticas. Antes da transformação, Lena era uma menina marginalizada que vivia de pequenos furtos, logo sabe reagir. Charlotte (Jennifer Ulrich) representa os vampiros mais clássicos e intelectuais, admiradores de música erudita e que sofrem pela passagem do tempo, ela é extremamente calada e cruel, mas possui um passado triste por ter abandonado o marido e a filha pequena ao ser transformada por Louise, provavelmente à força. Nora (Anna Fischer) é o alívio cômico da trama, a mais louca de todas, muito engraçada , porém sem conteúdo.

Louise e Charlotte (superior) - Lena e Nora (inferior)

Como de praxe, os vampiros possuem extrema ligação com o sexo. As Donas da Noite retorna com alguns temas feministas e uma personagem lésbica. A questão é que a homossexualidade já vem sendo explorada de maneira metafórica em alguns filmes de vampiro, portanto não é de surpreender que haja uma certa discussão nesse longa. Louise se apaixona por Lena, mas Lena não demonstra qualquer interesse. Um outro ponto é a ausência de vampiros homens, num certo diálogo as vampiras explicam que estão extintos pela falta de cuidado e confusões com humanos, enquanto outros foram assassinados por suas próprias parceiras. Se analisarmos bem, a maioria dos vampiros mostrados nos filmes acabam sendo exterminados, então é compreensível essa explicação para embates com humanos. Pelo que podemos notar, essas vampiras representam a liberdade feminina, mas o longa também serve como mensagem, pois esse tipo de sociedade exclusivamente feminina não dura muito tempo. A busca pelo prazer continua tendo importância crucial na trama, afinal vampiros sempre representaram uma promessa de uma vida regada a sexo. Num dos diálogos, Nora afirma que elas podem fazer o que quiserem porque não engordam, engravidam ou ficam viciadas. Elas são donas de uma casa noturna, por isso o título As Donas da Noite.

Após várias versões de vampiros, finalmente um filme contemporâneo que consegue mesclar as características clássicas a uma trama simples que não ofende a inteligência, sendo suficiente para uma boa diversão e, o que não podia faltar, uma ótima trilha sonora. Ressaltando que não há ausência de sangue, algo raro em novas abordagens pops das criaturas. Só nos resta torcer para que os Estados Unidos não façam uma refilmagem, isso não é necessário pelo fato de que o longa-metragem, tal qual a versão sueca de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, foi feito aos moldes de Hollywood.

Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

CLIQUE NO GIF ACIMA PARA VER A CURTA ANIMAÇÃO PREPARADA PARA VOCÊS.

Olá, pessoal. Hoje farei uma crítica que já planejo há um bom tempo, entretanto preferi esperar para que o filme estreasse nos cinemas brasileiros para que as pessoas que lessem tivessem a oportunidade de assistir. Quem leu meu post sobre Adaptações Cinematográficas de Livros deve lembrar que citei esse filme como sendo uma das adaptações mais diferentes que já assisti. Quando digo diferente não é no sentido de não haver fidelidade para com o livro, e sim do longa não ofender o romance, mas apresentar uma visão bastante particular da trama. Taxado como polêmico, assustador e surpreendente. “Precisamos Falar Sobre o Kevin está chocando o público, vocês devem estar perguntando o porquê disso. E é simplesmente por que tudo aquilo é algo bastante realista e não há nada mais assustador no cinema do que nós acreditarmos que aquilo mostrado nas telas pode acontecer na realidade. O relacionamento de amor e ódio de uma mãe com o filho, possivelmente, psicopata é algo que realmente instiga as pessoas. Numa das cenas geniais, Kevin comenta em tv aberta o fato do público televisivo dar tanta atenção aos psicopatas, afinal será mesmo que as pessoas não gostam de ouvir esse tipo de coisa? essa é uma das sugestões polêmicas que a história coloca.

Best-Seller de Lionel Shriver

O livro de Lionel Shriver foi recusado por muitas editoras e quando finalmente foi aceito, virou sucesso. A trama acompanha a história de uma mãe, Eva (Tilda Swinton), que sofre as conseqüências dos atos de seu filho Kevin (Ezra Miller), já preso por cometer uma chacina na escola. Como se não bastasse ser julgada e perder todo o dinheiro no tribunal, acusada de negligência materna, Eva tem que suportar diariamente o preconceito nas ruas, as pessoas acreditam que a revolta do rapaz possa ter vindo de falhas maternas. Então ela faz uma recapitulação, narrando tudo para Franklin (John C. Reilly), seu marido que a deixou levando a filha pequena. A partir daí acompanhamos do nascimento de Kevin até a data do massacre, sempre alternando entre o presente e as memórias de Eva. Quando tudo começa, ficamos espantados com a relação entre os dois. Kevin não era uma criança fácil e sempre fez questão de expôr sua natureza fria utilizando a mãe como alvo. Eva também não fica muito atrás, seus pensamentos de raiva pelo menino nos deixam na dúvida se realmente seus atos influenciaram no que Kevin se tornou. E é aí que surgem nossas dúvidas. Por que Kevin fez aquilo? Será que sua monstruosidade é justificável pelo elo fraco com a mãe? Eva é ou não culpada? Kevin sempre foi psicopata? Eva estaria paranóica desde que a criança nasceu ou é verdade que o tempo todo notara as inclinações assassinas do filho?

Momentos tensos

As respostas para as perguntas acima são bastante relativas, o que faz com que cada pessoa saia da sala de cinema com um filme diferente na cabeça. Acredito que a monstruosidade do rapaz seja tamanha que ficará bastante constrangedor para alguém defendê-lo, no livro até o advogado se sente desconfortável pela reação de Eva. Ela tenta “permanecer de pé”, evita chorar na frente dos outros, o que faz com que a maioria pense que é uma mulher fria. Eva guarda a culpa para si mesma, o que torna tudo tão doloroso. Ela sente que precisa ser castigada pelo que seu filho fez, por isso não se zanga com a reação violenta das pessoas. Cabe a nós sabermos se ela realmente influenciou.  Quando chegamos ao final da trama, temos uma revelação que mudará todo o jogo. O assustador final é inevitável e alerto para que as pessoas estejam preparadas para a indignação.

Falando em indignação, estou profundamente decepcionado com a Academia do Oscar que não indicou Tilda Swinton como Melhor Atriz, mas indicou Rooney Mara. Não que a novata não mostre talento, mas quem assiste a “Precisamos Falar Sobre o Kevin” sabe muito bem que aquele talvez tenha sido o papel da vida de Tilda. Ela se entregou completamente para o papel, não assisti a nenhuma atuação tão surpreendente durante todo o ano. Logo é natural que a credibilidade do Oscar caia no meu conceito. John C. Reilly não tem quase nada a ver com a aparência do Franklin do livro. Apesar dele não ter muitos diálogos, só sua imagem é suficiente para o associarmos com um pai preocupado e que tenta simplesmente acreditar que seu filho é normal. Kevin se transforma na presença do pai, o que faz com que Eva sempre seja julgada como exagerada pelo marido.

A água como a vida aparentemente calma de Eva, até Kevin acabar com tudo com apenas um toque.

Ezra Miller parece que vem se preparando involuntariamente para Kevin através de outros papéis. Após interpretar um garoto com possíveis tendências psicopatas em outro filme de Cannes (Depois das Aulas), o jovem agora pode ser conhecido como o bad boy de Hollywood. A participação de Ezra como Kevin não é longa, porém marcante. Quem rouba a cena como Kevin é o ator mirim Jasper Newell, que provavelmente conseguiu a proeza de despertar a vontade de todas as mães, na platéia, de lhe dar uma bela surra.

Ela percebeu as tendências do filho desde o princípio

O defeito do filme é em alguns momentos deixar escapar a semelhança de Kevin com outros monstrinhos do cinema. É inevitável não lembrar de Damien de A Profecia. A diferença de Kevin para Damien é que o filho de Eva é praticamente uma abordagem nova sobre a psicopatia. Se em A Profecia, o menino não tinha um bom elo com a mãe por ser o anticristo, em Kevin a situação é explorada sem receio. A realidade é que muitas mães sofrem por não conseguirem ter uma boa ligação com seus filhos (exemplo disso é a depressão pós-parto), isso sempre foi visto de maneira assustadora pela sociedade, mas é algo que acontece. Em A Profecia, isso foi transformado numa fantasia onde a desculpa pela falta de vínculo materno ocorre pela criança não ser o filho verdadeiro do casal e, sim, do diabo. O que torna “Precisamos Falar Sobre o Kevin” tão assustador é justamente o fato de não haver fantasias. Kevin não é adotado e não é o anticristo. Eva teve muita dificuldade em gostar da criança no princípio, porque para ela aquele bebê significava a perda da independência. Nós sabemos que a criança sente quando isso acontece, o problema é a reação de Kevin. Quando a mãe tenta se aproximar dele, ele sempre recua e não deixa uma oportunidade de machucar a mãe passar em branco.

Eva imaginando o afogamento do filho

Há uma situação que talvez alguns não entendam completamente no filme, porém que fica bastante claro no livro. A cena em que Eva quebra o braço de Kevin num acesso de fúria pelo que o menino faz. O menino estava com um leve sorriso no rosto quando isso aconteceu. Kevin não contou para ninguém o feito da mãe. O que nos deixa intrigados é o porquê dele fazer isso. Ao mesmo tempo que Kevin mantém segredo, ele utiliza isso como arma para “aprontar” sem que a mãe o delate, senão ele conta sobre o braço. Mas, como todas as atitudes de Kevin têm dois lados da moeda. É possível também que ele não tenha contado para ninguém porque, como Eva cita no livro, aquele foi o único momento em que ele pôde se identificar com a mãe, pois se sua natureza era violenta ele buscava alguém com quem se identificar, e é terrível sua alegria quando a mãe demonstra raiva. Parece uma maneira de “atiçar” Eva como desculpa para também ver o lado obscuro de outra pessoa. Em uma das partes do livro, Kevin na escolinha convence uma menina com doença de pele a descascar a pele ruim (até sair sangue), como se desejasse libertá-la daquele incômodo ou fazê-la se machucar. Não há limites para as crueldades do menino até a adolescência, poucos notam sua verdadeira face, mas suas atitudes sempre possuem duas possibilidades. E o mesmo jamais demonstra culpa.

Kevin sente culpa?

Sobre o conteúdo, não é fácil para algumas pessoas ler os diálogos cruéis do livro. Por isso algumas coisas foram suavizadas no filme. Um exemplo são as visitas de Eva a Kevin, onde no romance há uma troca de farpas de deixar qualquer pessoa horrorizada com tamanha crueldade do filho e as respostas terríveis da mãe. No longa isso não aconteceu, deixando o silêncio tomar conta das cenas como uma forma de expressar a dificuldade que Eva possui ao ter de visitar o filho. No final da leitura e da projeção percebemos o porquê dela odiar o filho em tantos momentos. Mas não se assuste, você (leitor dessa crítica). Apesar do filme revelar que não há limites para a crueldade humana, também coloca a ausência de barreiras para o amor de uma mãe. Eva continua vendo Kevin porque ainda tem a esperança de que um filho que a ama esteja ali dentro. “Precisamos Falar Sobre o Kevin” prova isso da maneira mais realista possível. Enquanto assistimos a esse filme é importante ficar claro a quantidade de mulheres que estão passando por esse sofrimento de culpa ao presenciar a prisão do filho. A verdadeira pergunta que deixo aqui é: Será justo julgá-las sempre negativamente?

Tilda Swinton na cena mais emocionante, a da descoberta. Digna de Oscar.

“Se Enloquecer Não Se Apaixone” (It’s Kind of a Funny Story, 2010)

Apesar dos títulos ruins (tanto o original “It’s  Kind of a Funny Story” quanto a pavorosa tradução brasileira), “Se Enlouquecer Não Se Apaixone” não é comédia, é um drama que mescla um pouco de alívio cômico nas cenas. Lançado direto em DVD no Brasil, está chamando a atenção de algumas pessoas. Com um tema que tinha tudo para dar certo (depressão adolescente), se ele seguisse uma linha mais séria aproveitando o excelente elenco, poderia ser salvo. Um romance entre um casal suicida que se conhece numa clínica. Mas a falta de foco e o provável medo da previsibilidade fizeram com que caísse nas armadilhas cinematográficas contemporâneas.

Não sei se alguém se lembra daquele comercial televisivo onde o narrador grita “você quase conseguiu”. Pois é, esta é a exata sensação que tive após conferir esse filme. Falar da depressão adolescente não é coisa fácil, talvez a palavra depressão choque algumas pessoas, estou me referindo àquela solidão que toma o jovem de vez em quando.  A verdade é que muitos adolescentes passam por isso, sem muita explicação eles se sentem sozinhos seja por não ter ninguém com quem namorar, seja pela ausência de amizade (familiar ou externa).  Esse é um tema excelente para ser tratado com objetividade

Sinopse: Craig, 16 de anos de idade (Keir Gilchrist), estressado com as demandas de ser um adolescente, se interna em uma clínica de saúde mental. Lá ele descobre que a ala dos menores está fechado – e se encontra preso na enfermaria adulta. Um dos pacientes, Bobby (Zach Galifianakis), logo se torna o mentor e protegido de Craig. Craig também é atraído à outra paciente de 16 anos, Noelle (Emma Roberts). Com uma estadia mínima de cinco dias imposta nele, Craig é sustentado por amizades de dentro e fora da clínica enquanto ele aprende mais sobre a vida, o amor, e as pressões do amadurecimento.

O elenco inteiro é excelente, Keir Gilchrist se encaixa perfeitamente no papel do garoto inteligente tímido e deprimido enquanto Zach Galifianakis (de “Se Beber, Não Case”) dá um show de interpretação em várias cenas, dessa vez seu papel tem uma boa carga dramática. o problema está no roteiro. A falta de foco dele é de dar nos nervos, num momento sugere uma exploração sobre depressão adolescente e no outro um romance teen com pitadas indie e descobertas sobre a vida. O problema maior é que nessa indecisão não se resolveu nada do enredo, ele acabou sendo simplista e aparentemente escrito para ludibriar as pessoas com alguns diálogos inteligentes. O longa começa com a tentativa de nos identificarmos com o personagem central e sua tristeza por estar apaixonado pela namorada de seu melhor amigo (bom, pelo menos é o que ele diz, mas todos algum dia na vida têm um amigo daquele). Essa tentativa é frustrada porque Craig não demonstra estar pensando todo tempo na garota, logo não é pretexto para sua depressão e muito menos para uma internação.

A partir daí começamos a tentar compreender o porquê dele dizer estar desse jeito, mas não surgem muitas respostas. O final do filme tenta dar uma cura para o rapaz, entretanto seria essa a cura para a paixão pela garota? A resposta é NÃO, então percebemos que a paixonite não foi responsável. E surge um dos melhores diálogos do filme ( imagem abaixo). Craig não sabe a causa de sua depressão, ele apenas sente. Isso é bem compreensível no mundo corrido que nós estamos, o estresse da rotina do trabalho e escola pode derrubar alguém se a pessoa não tiver cuidado. E é aí que o roteiro perde o foco, a causa da depressão do jovem é uma excelente mensagem para os adultos da pressão que alguns estudantes adolescentes passam. Mas a falta de luz sobre o tema quase o apagou da trama quando, repentinamente, surge um romance teen.

"Às vezes eu queria ter uma resposta de por que estou deprimido. Como se meu pai me batesse ou como se eu tivesse sofrido abuso sexual. Mas meus problemas são menos dramáticos do que isso".

Emma Roberts consegue nos cativar rapidamente, ela tem uma beleza simpática o suficiente para adquirir nossa confiança em segundos. Mas a personagem dela, Noelle, está alegre demais para uma garota com tendências suicidas. E não é apenas no figurino de modelo que eles erraram. A paleta de cores é viva e alegre, retirando qualquer sensação de tristeza, afinal isso poderia afastar um público sensível e geraria menos lucro. Há momentos de confraternização entre eles (até aí tudo bem), tem uma cena musical (e o filme vai descendo a ladeira), o jovem fica querido e começa a fazer mudanças no lugar e após um tempo esquecemos que ali é uma clínica psiquiátrica. O resultado é que o longa ficou com aparência de Sessão da Tarde (a atual, antes até que passava coisa boa).

Cena parecida com a de "500 Days of Summer"

“Se Enloquecer Não Se Apaixone” é um filme que oscila sem o menor cuidado entre os gêneros, o drama não é explorado suficientemente para salvá-lo, a comédia atrapalha qualquer identificação com o personagem, o romance foi mal trabalhado (a aproximação do casal não convence). E alguns diálogos inteligentes ainda conseguem destacá-lo de outros filmes teens. A proposta inicial parecia tentar agradar um público mais geral, no entanto a exigência por algum obstáculo no romance (que poderia muito ter sido a depressão) quase deteriora o potencial que o longa possuía de algo diferente. Alguns podem até sugerir que o objetivo era entretenimento cômico. Se for isso, ele até consegue alguns momentos agradáveis (como os da imagem abaixo), mas nada que o torne marcante ou acima de outras comédias que souberam focar num só tema ou trabalhar todos com cuidado. Na busca por uma solução mais rápida e teen, o final nos decepciona pelo vazio, fazendo com que seja mais um filme esquecível. Um desperdício de talento de um elenco tão bem escalado.


Série de Tv: Nip/Tuck – Estética

O que você não gosta em si mesmo?

Essa é a primeira pergunta que Nip/Tuck faz. Afinal, o quanto a beleza é importante para você?

Fenômeno de audiência nos Estados Unidos (pelo menos nas primeiras temporadas) e exibida durante a madrugada no SBT, se Nip/Tuck não for a série mais polêmica já feita, então deve estar entre as dez dessa classificação. Estamos falando de um verdadeiro desfile de temas pesados que engloba, dentre tantos exemplos, ética, violência, pedofilia, estupro, psicopatia, homossexualismo, corrupção, drogas, suicídio, divórcio, pornografia, preconceito racial, críticas à igreja e, é claro, o que não poderia faltar, Estética (que não por acaso, é o nome da série no Brasil, escolha perfeita).

Cada episódio é um paciente diferente, mas não dá para se referir a Nip/Tuck como uma série médica do tipo House. Cada paciente aqui sofre de algo muito mais do que externo, o que querem operar realmente são seus egos, querem transformá-los em algo que admirem, o que na maioria das pessoas remete à beleza e aproximação do próximo. A estética se faz bastante presente, pois tudo gira em torno de aceitação social, logo a aparência física é o alvo principal de críticas da série.

A premissa em torno de dois cirurgiões plásticos bem requisitados de Miami, Sean McNamara (Dylan Walsh) e Christian Troy (Julian McMahon). Eles são sócios numa clínica chamada McNamara/Troy, onde operam pacientes, até mesmo, gratuitamente (dependendo da situação). Além de sócios, Sean e Christian são melhores amigos. Christian é quase parte da família, apesar de ter se envolvido com Julia (Joely Richardson), esposa de Sean, na faculdade. Sean e Julia têm um problemático filho adolescente, Matt (John Hensley), que não por acaso se entende melhor com Christian. A vida dos pacientes sempre afeta a vida social dos sócios, gerando situações em que haverá muito mais do que apenas ética para discutir. Christian usa seu charme para seduzir o máximo de mulheres que conseguir, enquanto Sean precisa lidar com os problemas da família e se salvar com Christian de alguns problemas sérios que acabam entrando ao longo dos episódios.

É claro que algumas instituições voltadas para a educação televisiva já tentaram fechar a série pela quantidade de temas polêmicos. Mas dentre todas as séries de sucesso por aí, talvez essa seja a que as pessoas mais precisem ver, para aprenderem a enxergar as coisas sob outro ângulo, sem muita alienação. Cada episódio apresentado poderia gerar uma quantidade transbordante de matérias nesse site, pois são carregados de mensagens sociais que precisam ser alertadas. Se quiserem exemplos mais objetivos, leiam o parágrafo abaixo (que há spoiler).

Logo nos primeiros episódios nos deparamos com uma situações assustadoras, um homem fugindo de seu país tentando mudar seu rosto para não ser preso por ter estuprado uma menina de 5 anos. Os cirurgiões não sabiam da verdade e fizeram a cirurgia (já que também estavam fazendo por um preço bem mais alto do que o justo), após isso somos apresentados ao pai da criança, que ameaça Sean e Christian de contar para a polícia. Em troca eles terão de operar mulheres vindas de outro país transportando drogas dentro de implantes de silicone. Essas jovens foram enganadas pelo traficante, que prometia uma carreira de modelo para elas nos EUA. Se Sean e Christian contarem a verdade para a polícia podem ser presos e jamais operar novamente, se permanecerem quietos terão que abraçar a corrupção. Julia, com praticamente 40 anos, está tentando voltar à faculdade (que largara na época por conta da primeira gravidez), lá fará amizade com um jovem que a desejará. Matt está passando pela experiência da perda da virgindade e quer fazer uma circuncisão antes que aconteça, porém descobre que sua namorada é lésbica.

O debate de Nip/Tuck vai além de qualquer questão clichê. Se você já conhece a série, sabe do que estou falando. Há certas coisas tão abomináveis que ela denuncia que nos deixa indignados só de lembrar, como por exemplo a clitoridectomia (ainda há mulheres que sofrem de castração genital por obrigação religiosa). Mas são coisas que precisam ser mostradas para que no futuro não aconteçam novamente.

Se há telespectadores que assistem a série por conta dos temas sérios, também há aqueles que são atraídos por conta da sensualidade dela. Em relação ao sexo, ela não se limita ao expor a vida sexual dos personagens. Aqui não há conflitos prolongados de adolescentes (Matt serve para isso, mas não é o protagonista e seus problemas têm argumentos, ao contrário de algumas séries teens que não quero citar), logo o sexo é descompromissado e puramente por prazer, sem aquele estardalhaço de triângulos amorosos que estão na moda. O drama da série vai muito além de com quem o personagem está dormindo, as questões sociais não cessam, o que mantém a pessoa sempre refletindo sobre as críticas.

A interpretação dos atores é excelente, de uma qualidade quase inédita na TV. Cada um combina naturalmente com seu personagem. Além deles há sempre a participação de alguma estrela por temporada. Já passaram por lá Alanis Morissette, Famke Janssen, Rhona Mitra, Brooke Shields, etc. E o mais interessante é que não são meras participações, elas interpretam personagens coerentes que realmente têm a ver com a história. Por exemplo, Famke Janssen rouba a cena como Ava Moore, uma das personagens mais marcantes de toda a série.

Uma das características mais importantes da série são as cirurgias plásticas. Previamente aviso para quem for assistir que é melhor se preparar para o sangue, pois eles mostram a maior parte das cirurgias ao som de alguma música legal (pois é, a trilha sonora também está de parabéns, há muita coisa boa ali). Entretanto isso até chega a ser bacana, o público poderá conferir o que realmente acontece numa mesa de cirurgia, assim vê se “vale a pena” passar por aquilo apenas por estética.

Antes de concluir, queria relembrar o fiasco de uma novela da Record (Metamorphoses) que apostou nas cirurgias plásticas na época em que Nip/Tuck estava no auge. E olha que tinha até a incrível Zezé Motta no elenco, nem ela salvou.

Nip/Tuck foi criada por Ryan Murphy (atual criador de The American Horror Story). Indicada a vários Emmys e vencedora do Globo de Ouro na categoria de Melhor Série Dramática, do Emmy de Melhor Maquiagem para Série/minissérie/filme, do Saturn Awards de Melhor Ator para Julian McMahon, etc.

Por Alexandre Cavalcante da Silva (Alex).

Adaptação de Livros para Cinema: Uma Questão de Fidelidade?

Por Alexandre Cavalcante da Silva (Alex).

Olá, pessoal! Estamos começando um ano novo que provavelmente virá com novas adaptações de livros. Já faz um tempo que quero escrever algo sobre o tema, afinal como leitor o que não falta é decepção na sala de cinema. Você vai assistir a um filme esperando ansiosamente durante meses para a estréia daquela adaptação de um dos seus livros preferidos e quando termina a sessão vem a sensação de “podia ter sido bem melhor”. Infelizmente nós temos que aceitar que adaptar um filme não é uma tarefa fácil. Um diretor é, antes de qualquer coisa, alguém comum que tem uma visão específica de como quer que seu trabalho fique, a diferença é que ele está preparando algo para um público extenso. E para ele passar no teste, deve agradar tanto os fãs da obra literária quanto um público novo que desconheça a história. Isso pode gerar resultados satisfatórios para o segundo grupo mencionado, mas detestável para quem leu a obra original.

Pode parecer fácil imaginar ser diretor para quem está lendo o livro, mas na hora de elaborar um roteiro ainda há aquela preocupação de convencer os estúdios de que a trama valerá a pena ser filmada e que tem potencial para o sucesso. E lá vai aquela mania de mexer na história a fim de torná-la mais emocionante. Em alguns casos até é aceitável uma mudança, porém em outros o roteiro fica medonho e não agrada nem leitores e nem o público desconhecido. Mas eu, sinceramente, gostaria de dizer para alguns leitores abrirem os olhos e perceberem que alguns resultados não são tão ruins.

Alguns livros são descritos apenas por metáforas, algo muito difícil de expressar através de imagens, só com muita sutileza e cautela, pois o filme pode ficar lento demais, uma coisa que não ocorre tanto na leitura por estarmos o tempo todo refletindo sobre o que o autor quis passar. Em algumas situações, o livro tem muita emoção e nas telas fazem algo super lento (putz, imperdoável). E há exemplos em que o filme é idêntico ao livro, mas não tem brilho ou personalidade. Outros que fazem algo totalmente diferente da obra literária, entretanto triunfam. E ainda tem aqueles diretores que conseguem a proeza de fazer um filme ótimo de um livro péssimo (meus parabéns a esses). Não podemos deixar de citar os raríssimos casos em que tanto o livro quanto o filme agradam aos fãs do livro e adquirem novos fãs no cinema.

Antes de continuar, gostaria de incluir nesse texto as famosas HQs (Histórias em Quadrinhos). Com o mercado de adaptações Marvel e DC crescendo, há aquelas adaptações que merecem muito destaque como veremos no decorrer do texto.

Eu poderia digitar incontáveis linhas só descrevendo tipos de adaptações, sucessos e fracassos, porém imagino que a melhor maneira de demonstrar o que quero dizer é através de exemplos. Abaixo analisarei a proposta de algumas adaptações famosas (só algumas das que li). Infelizmente “Senhor dos Anéis” não está no meio, mas quero citá-lo neste parágrafo como uma das maiores vitórias baseadas em livros por ter filmes tão bons e recriar um universo literário com tanto empenho.

Parte 1: Adaptação Quadro A Quadro: Ser igual não é sinônimo de sucesso.
Parte 2: Adaptações de Metáforas: A supressão e modelação dos fatos.
Parte 3: Mudanças São Bem-Vindas… Às Vezes.