Desvendando A Vida de Pi: Breve Análise Sobre O Lado Sombrio da História

Richard Parker contra Pi: Um Conflito Interno

Olá pessoal, após alguns meses sem postar, estou de volta. Dessa vez falarei sobre o best-seller A Vida de Pi (The Life of Pi) do autor canadense Yann Martel, livro que estava passando quase despercebido pelo Brasil antes da adaptação cinematográfica feita pelo diretor Ang Lee. A campanha de divulgação do filme promete algo aparentemente infantil com o cartaz de um rapaz acompanhado de um tigre digital, entretanto essa é uma história bastante adulta e deve ser vista como tal. Minha proposta é analisar a obra procurando decifrar os reais significados dessa trajetória que buscou apoio na Psicanálise e saiu vitoriosa como uma das melhores metáforas sobre o confronto do ser humano contra seus impulsos de crueldade. Afinal, o livro explora a motivação do homem perante a solidão ao demonstrar de forma impressionante a importância da religião para alguns, não somente como aspecto cultural (afinal são abordadas várias religiões), mas como um meio de autocontrole.

Contronto para domar o tigre

Jamais se tratou de apenas domar o tigre

O confronto do rapaz com o Tigre se dá de uma forma extremamente simbólica. Na verdade, o tigre representa a parte cruel do ser humano, com quem Pi terá que lutar até o fim se quiser manter-se vivo. Essa salvação pode ser compreendida metaforicamente, literalmente e religiosamente. Como ele está num bote apenas com o tigre, será necessário domar os impulsos ferozes do animal para evitar sua própria morte. Na verdade, ele não procura matar o animal, apenas busca uma convivência pacífica com o mesmo. Utilizando uma abordagem semelhante a vários filmes como Cisne Negro, X-Men 3 (a indomável Jean Grey/Fênix Negra) ou Senhor dos Anéis (o Gollum), onde o personagem não sobrevive sem seu lado sombrio. Isso faz sentido ao notarmos a inclinação assassina despertada em Pi através da luta pela sobrevivência, se ele quiser continuar a ser a pessoa alegre de antes precisará combater esse instinto e domá-lo. Caso contrário, o tigre matará o rapaz, tornando-se o único no bote, representação do próprio Pi composto por duas personalidades. Por isso, sou totalmente contra o filme ter ganhado  o título brasileiro “Aventuras de Pi”, pois esse confronto se dará eternamente no personagem narrador, apesar do mesmo constantemente tentar manter suas tendências violentas (despertadas pelo trauma no bote) adormecidas.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: valorização do aspecto cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: demonstração dela na diversidade cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A salvação esperada por Pi, além da literal (no caso, seria a chegada em terra), também pode ser vista pela religiosidade do rapaz. Ele gostaria de ser muçulmano, hindu e cristão simultaneamente. Isso pode indicar um possível desespero do mesmo ao tentar controlar de todas as formas sua personalidade, caracterizada pelo tigre. Na embarcação, um dos atos mais repetidos pelo menino é o da oração, é óbvio a tendência das pessoas em orar numa situação tão trágica quanto a dele. Entretanto após analisar o final, compreendemos que Pi não é alguém confiável. Ele pode moldar os fatos conforme for sua vontade, não havia testemunhas e Richard Parker pode ser meramente uma projeção sua, não existindo fisicamente a não ser através de Pi. Portanto, é inútil questionar se a trama prova ou não a existência de Deus, pois basta salientar o foco do importante ser Pi manter suas “tendências assassinas” quietas, nem que para isso precise crer piamente em algo totalmente distinto de seus paradigmas (sua família não era adepta ao cristianismo). Ele provou, sim, que somente sua fé conseguiu fazê-lo viver com a consciência limpa, o suficiente para seguir em frente normalmente independente de seus crimes passados.

A paixão de Pi pelos animais não é incomum, ele projeta através de cada um no bote alguém que participou dos eventos pós-naufrágio. Isso se deve ao antropomorfismo expressado por sua consideração pelos habitantes do zoológico de seu pai desde a infância. Várias discussões são relatadas no livro a respeito do estabelecimento e até alguns excelentes argumentos sobre manter ou não animais no zoológico. A preocupação do autor demonstra ser um pedido de respeito aos animais. São exploradas várias questões bastante interessantes sobre o comportamento deles. A maioria das pessoas não atenta para esses detalhes, todavia isso enriquece demais a narrativa antes de fornecer um panorama mais reflexivo do papel de Pi ao lidar com eles.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

Quanto à ilha, essa é a parte mais genial. Admito que só compreendi melhor após a adaptação cinematográfica, pois ocorre a revelação da mesma estar em formato de homem. A ilha também expressa as circunstâncias mentais do protagonista. Ela é antropofágica, tal qual Pi precisou ser a fim de sobreviver. Entretanto se ele continuasse nela, ou seja, caso o rapaz continuasse a se alimentar de tal forma (o ato de ingerir carne é ainda pior para ele se levarmos em conta sua família vegetariana), morreria. Isso faz alusão à banalização da violência. O corpo continuaria vivo, entretanto Pi estaria se enganando e deixando sua crueldade aflorar até dominá-lo. Nesses momentos, os suricatos representam a alienação mental do rapaz, por isso sequer se defendiam do tigre, pois estavam ocupados demais aceitando as comidas. Percebam o seguinte: se Pi continuasse na ilha, Richard Parker também estaria. O tigre alimentava-se dos animais da mesma. Se Pi é a ilha, os suricatos são os resquícios de sua inocência. Eles seriam devorados pelo tigre, que possuiria todo o controle sobre o território. Além disso, a ilha acabaria matando Pi, logo o corpo (a ilha) extinguiria qualquer vestígio de humanidade (representada por Pi) do local.

A Vida de Pi é uma trama carregada de significados ocultos e merece ser apreciado nos mínimos detalhes, tornando-se bastante ampla quando ocorre análise da abordagem sobre a psicopatia do personagem central. Caso alguém deseje comprar o livro pela capa colorida, alerto se tratar de uma história adulta com um desfecho surpreendente, apesar de assustador para quem se acostumou com a afeição do rapaz pelo tigre. O próprio é uma excelente metáfora para a crueldade humana e a beleza aterradora que há na perda de controle (por isso o rapaz elogia tanto a aparência majestosa e enganosa do tigre). A adaptação cinematográfica foi ótima, porém perdeu muito de sua força no desfecho, onde ironicamente suprimiram bastante da real violência ocorrida com o protagonista ao longo da história, afinal não houve a utilização de imagens para tanto, o que considero imperdoável ao se tratar de uma adaptação visual tão feliz de um livro rico em interpretações. Para finalizar, tal qual o livro e filme perguntam: “depois dessa história, em quê você prefere acreditar?”

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

Ensaio Sobre A Cegueira. “O Pior Cego É Aquele Que Não Quer Ver”

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Essa é a frase de abertura para o livro “Ensaio Sobre A Cegueira”. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago comprovou ser um dos maiores autores modernos ao criar uma trama repleta de críticas sociais e um retrato da sociedade contemporânea, colocando o homem à prova de sua civilidade num tempo onde as pessoas temem até mesmo voltar a enxergar, no sentido literal (por conta da epidemia da cegueira branca) e metafórico. Apesar de já ter sido amplamente analisado por vários críticos, nunca é tarde para mais uma exploração.

Sinopse: Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma “treva branca” que logo se espalha incontrolavelmente pelo país. Resguardados em quarentena, os cegos de uma cidade vão se descobrir reduzidos à essência humana.

Ensaio Sobre A Cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. “Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.” E, de fato, o que se verá é uma redução da humanidade às necessidades de afetos mais básicas, um progressivo obscurecimento e correspondente iluminação das qualidades e dos terrores do homem. (E das mulheres, de maneira especial).

Autor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura

Umas das características mais marcantes da obra é a ausência de nomes aos personagens. O objetivo disso é aproximar-nos ainda mais da narrativa, num mundo cego, não há estética e as pessoas conhecem as outras pelo que elas são e suas idéias representantes dos telespectadores. O exemplo mais óbvio é o da rapariga com óculos escuros, os mais preconceituosos questionariam o fato dela, uma prostituta, ser participante do grupo central da trama, entretanto isso só serve para nos provar o quanto questões morais nada significam quando o ser humano busca sobrevivência e apoio dos outros. Nessa história, as roupas em vários momentos se tornam impensáveis, embora a boa educação para com os outros seja indispensável. A ausência de travessões também é algo bem notável, os diálogos correm de maneira misturada aos eventos, sempre traçando a impressão de algo pessoal no estilo do autor, forçando o leitor a prestar mais atenção nas palavras de todos.

A mulher do médico é a mais fascinante do enredo. Ao contrário do ditado “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”, ela é quem mais sofre. Internada no manicômio juntamente com cegos, sente a culpa por guardar o segredo de sua visão e não poder ajudar a todos, afinal ela se tornaria escrava deles caso o fizesse. Várias questões são debatidas aqui, da responsabilidade à justificativa de assassinato. Ela vai além de qualquer herói fictício, não consegue evitar ser estuprada ou passar fome, mas é a primeira a compreender o significado da cegueira branca. Jamais é justificada a razão dela não ter ficado cega, todavia é possível deduzir a importância de alguém assim para nos fazer compreender a situação. Há uma parte especial onde um escritor, sabendo do segredo da mulher do médico, diz para ela não se deixar perder (entendo isso como uma homenagem de José Saramago aos autores, pessoas capazes de gritar ao mundo o que ninguém consegue). Em outro momento, a mulher espanta um grupo de cegos gritando a palavra “Ressurgirá”, isso é um verdadeiro tapa no rosto dos que possuem medo do ressurgimento da visão, ou seja, da falta de alienação. Havia quem gostasse de ser “cego”.

A cegueira, acima de tudo, é uma metáfora para a hipocrisia da sociedade, orgulhosa de seus aparentes bons modos. Uma situação que evidencia tal afirmação ocorre através da camarata dos malvados. Em momento algum é sugerido esse local ser habitado por bandidos, porém só havia homens no mesmo. A dominação imposta por eles ao estocarem toda a comida do manicômio em troca de algo demonstra a existência de pessoas munidas de crueldade mesmo em situações onde todos são iguais, nos fazendo refletir um pouco sobre a veracidade da teoria da vingança social, principalmente com a absurda presença de um cego de nascença, o qual ajuda consideravelmente o rei do bando de estupradores.

Nem mesmo a igreja escapa às críticas sociais. Em determinado momento, a mulher do médico entra numa igreja católica e se depara com todas as imagens de santos com os olhos vendados por pedaços de pano branco. Isso gera inúmeras discussões, afinal há a possibilidade de alguém ter feito tal ato por piedade, os santos talvez não merecessem observar a podridão do mundo atual, ou como demonstração da aparente cegueira observada, até mesmo, na religião, uma maneira de dizer que até os santos talvez estejam pouco se importando com o absurdo da sociedade. Cada personagem apresenta uma opinião diferente do acontecimento, dessa forma o autor mostra seu respeito pelo leitor por não ignorar possíveis interpretações distintas do conteúdo apresentado.

Apresentando comportamentos extremamente realistas ao longo da narrativa, José Saramago constrói uma metáfora afiada sobre o comportamento humano através de uma visão aguçada de responsabilidade, seja governamental ou pessoal. O tempo todo questionando até quando as pessoas aceitarão estar cegas aos problemas sociais. Ao colocar um país inteiro com a cegueira, ele molda um retrato do quanto o homem ainda é capaz para sentir orgulho, mesmo em situações onde a ajuda do próximo é indispensável e os direitos são iguais, porque sempre haverá um “rei da camarata dos malvados” e pessoas dispostas a segui-lo, resta saber até quando os outros fingirão a ausência das consequências pela falta de humanidade para com as camadas menos favorecidas.

A mulher do médico é a única capaz de guiar os cegos. Cena do filme Ensaio Sobre A Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles e inspirado no livro de mesmo nome.

Em 2008, fora lançada a adaptação cinematográfica da obra. Dirigida por Fernando Meirelles (Cidade De Deus) e estrelada por Julianne Moore numa performance arrebatadora, o roteiro possui argumentos, certas vezes, mais extensos que a obra de Saramago, revelando-se uma homenagem admirável e corajosa ao romance.

Há também uma continuação, do mesmo autor, intitulada Ensaio Sobre A Lucidez.

Agora, não aconselho assistir ao filme sem ler o livro, pois dessa forma você, leitor (a) dessa resenha, estaria perdendo a oportunidade de conhecer por completo uma das metáforas mais bem trabalhadas sobre a sociedade contemporânea.

Não tenho receios de dizer: esse livro é simplesmente OBRIGATÓRIO para quem gosta de ler.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs).

Livro “TARÂNTULA” de Thierry Jonquet

Pessoal, sei que já foram feitas análises sobre o filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. Entretanto o que será discutido agora é o livro de Thierry Jonquet. Apesar de focar na relação do médico Richard Lafargue e sua aparente esposa, Ève, tal qual a adaptação cinematográfica (com nomes trocados). O romance possui caminhos totalmente diferentes do longa-metragem, fornecendo personagens com atitudes distintas, porém ligados pelo mesmo segredo. Mesmo assim, o livro de Jonquet consegue, surpreendentemente, escrever uma história sobre a crueldade humana, algo mais distante do ambiente romântico do filme e próximo de “Laranja Mecânica”. Numa história envolvente onde todos possuem culpa, o autor “dá a cara a tapa” sem receios de mostrar as doenças do mundo real, evitando suavizar o lado da mocinha como o roteiro da película de Almodóvar.

Sinopse: O cirurgião plástico renomado (Richard Lafargue) e a bela mulher prisioneira de suas vontades (Ève), a adolescente que se automutila em um hospício (Viviane), o jovem acorrentado no porão obscuro depois de uma perseguição implacável (Vincent), o assaltante fugitivo condenado pelo próprio rosto (Alex). Um erro fatal do passado reúne esses personagens na mesma teia, no romance mais aclamado pelo público e crítica do autor francês Thierry Jonquet. Adaptado livremente ao cinema com o nome A Pele Que Habito sob a condução do famoso diretor espanhol Pedro Almodóvar.

Uma das coisas interessantes do livro é propor metáforas sobre zoomorfismo. O título Tarântula faz referência ao apelido dado por Ève ao seu seqüestrador, numa analogia da aranha envolver sua presa e, dessa forma, torturá-la na espera pelo pior. Além disso, a civilidade humana é posta a prova quando Vincent passa longos dias sem comer ou conversar com alguém, de maneira a ser comparado a um cachorro de estimação quando Lafargue chega, trazendo presentes e outros agrados. O sexo é retratado da forma mais cruel possível com a prostituição, criando um horrível pesadelo masculino relacionado a estupro consensual.

Já li algumas opiniões comparando a história a um Frankenstein moderno, todavia, até então, não entendia o porquê da trama lembrar-me tanto A Bela E A Fera. O item em comum com o conto-de-fadas é a Síndrome de Estocolmo, onde a vítima, numa tentativa inconsciente de autoproteção, busca uma maneira de se identificar com o raptor ou conquistar a simpatia do mesmo. Isso é uma das coisas mais angustiantes, afinal após tudo feito a Ève, ela continua tentando se aproximar do doutor, não da forma interesseira mostrada no filme, mas impulsivamente. O médico também se sente atraído, na verdade isso é ainda mais polêmico pela sugestão de que ele seja homossexual. É algo sem resposta e ofuscado pela atuação de Antonio Banderas, mas na obra de Jonquet fica no ar com a desconfiança momentânea de Vincent, fisicamente fraco demais para analisar melhor a situação. A saída do longa-metragem para essa suspeita foi fazer Vera (Ève, na literatura) com o rosto da esposa do doutor. Mas há outras peculiaridades semelhantes ao conto mencionado, o doutor a mantém presa, porém com o tempo passa a ser afetuoso, apesar do sofrimento imposto por ela a Viviane (filha de  Lafargue). Portanto, essa história  é mais próxima de uma versão ultraviolenta e sombria de A Bela E A Fera.

Tarântula e suas semelhanças macabras com A Bela E A Fera devido ao Complexo de Estocolmo, onde a vítima busca afeiçoar-se ao sequestrador, e as circunstâncias que levam o médico a aproximar-se da refém por solidão, culpa, piedade, irresistível beleza da moça, etc.

Ève não é santa ou inocente na história original, na realidade ela é capaz de tocar “The Man I Love” ao piano só para irritar Lafargue e abrir as pernas provocando o desejo proibido sentido por ele, o qual evita até tocá-la por conta do segredo. Mesmo tendo razões gigantes para torturar a “esposa”, Tarântula consegue ser perverso. O simples ato de prostituí-la e observar o ato é horrível, mas tudo é confrontado quando sabemos a identidade da mulher. Honestamente, li o livro após assistir ao filme e esse conflito de opiniões é bastante evidenciado. Afinal, o médico está certo ou não impondo sua tortura? a humanidade existente no homem deve ser ignorada, mesmo havendo motivos suficientes para fazer alguém culpado sofrer? Cabe ao médico condenar Vincent ao sofrimento até o fim da vida?

Nesse ponto descobrimos o porquê do título ser justamente Tarântula, o personagem chave é Lafargue, uma vítima tentando se vingar e sendo confrontado com sua natureza: tenta fazer durar seu ódio, mas a piedade na consciência é pesada, ainda precisa controlar seu desejo pela aparência de Ève, sente orgulho de sua criação e não pode usufruir dela por dogmas unidos ao passado sombrio.  Após esse texto, consegue-se descrever o livro em uma palavra: desafiador. Tudo isso condensado em apenas 150 páginas, provando algo esquecido por alguns autores: estimar qualidade ao invés de quantidade. Não focando apenas na questão de manter a identidade sexual da pessoa, o livro vai bem além dos temas do filme, explorando o sentimento de punição aos limites com um resultado intrigante através de reviravoltas inusitadas onde o conflito de humanidade e castigo é debatido sem o temor de não agradar um público acostumado a distinguir personagens bons de maus.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

O Segredo da Cabana (The Cabin in the Woods, 2012)

Quanto mais ansiamos pelo fim de filmes clichês com um grupo de adolescentes curtindo as férias, surgem mais exemplares do gênero. Porém, dessa vez, a proposta é diferente, O Segredo da Cabana possui uma idéia interessante: fazer uma sátira das produções hollywoodianas de assassinos seriais, criticando a falta de originalidade e preferência pela previsibilidade. Contendo uma série de reviravoltas e segredos, a trama não se contenta em apenas mostrar os jovens morrendo, pois também representa de forma bem humorada a platéia mais convencional, criando um filme de humor negro cujo resultado não é tão bem sucedido quanto outros títulos (Zumbilândia, Pânico 4), mas acerta em não deixar o telespectador descansar por gerar uma enorme curiosidade sobre o desfecho e cumprir a promessa de pôr todos os monstros, de forma coerente, numa mesma trama.

A história é simples, um grupo de estudantes da faculdade planeja passar um fim de semana divertido numa horrível cabana isolada no interior e inexistente, até mesmo, nos satélites. Ao tentarem cumprir os famosos clichês de adolescentes de filmes de terror, libertam uma maldição e começam a ser atacados em situações típicas, até se darem conta de que estão sendo monitorados e, ainda por cima, possuem suas atitudes manipuladas numa suspeita versão sangrenta e cômica de um Big Brother onde as regras derivam de clássicos como Sexta-Feira 13 ou A Hora do Pesadelo.

Personagens centrais: o estudioso, o atleta, a virgem, o tolo e a vadia.

Com o passar dos anos, os jovens começaram a ser mais exigentes quanto a roteiros. O Segredo da Cabana parece ter sido criado justamente para esse público. Os clichês, atualmente, são tão conhecidos que já não são bem recebidos pela platéia. Pensando nisso o filme aposta numa abordagem totalmente crítica das grandes indústrias cinematográficas. Os adolescentes do filme estão em situações previsíveis, porém não se conformam com isso. A empresa do “Reality Show” aponta para antigas patrocinadoras assíduas de slasher movies. Várias metáforas bem óbvias são apontadas e, apesar de se situar na atualidade, a história é obviamente baseada nas décadas anteriores, com jovens sendo massacrados à moda antiga para seguir as regras impostas pelos clichês. Talvez por isso não consiga nos surpreender tanto, afinal a metalinguagem é algo bastante usado nos longas de terror recentes. O erro foi ser lançado tardiamente, se houvesse sido feito pelo menos há uns 10 anos poderia ser mais notável, todavia esse tipo de crítica aos antigos já não surte um efeito tão grande de surpresa.

Quando os personagens revoltam-se contra seus destinos clichês. “Somos marionetes” diz o tolo.

Mesmo tendo como base elementos da metalinguagem já simpatizantes com o público (A Hora do Pesadelo 7, Série Pânico, Todo Mundo Em Pânico, Deu A Louca Nos Monstros), o filme ainda aposta no terror e não deixa de ser interessante. Já citei acima, é impossível não ficarmos curiosos. O erro mais evidente só vem na cena final, onde quem já viu “Paul: O Fugitivo” terá uma impressão de plágio. Apesar de homenagear bastante o gênero, no fundo é inegável nosso cansaço ao assistir aos adolescentes de nossa geração e, se não fossem as hilariantes piadas, a sessão não seria tão divertida. No término, só permanecemos com um filme inteligente de comédia na mente, mas isso já vale o ingresso.

 

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios – 2012

Olá, pessoal. A crítica de hoje é a respeito de um lançamento nacional bem recebido pela crítica do país nesse ano: Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios. Ganhador de vários festivais, o filme é inspirado no livro título de Marçal Aquino e dirigido por Beto Brant com Renato Ciasca, narra a história de Cauby, um fotógrafo bem sucedido residente no interior do Pará. Ele se apaixona por Lavínia, uma mulher sensual e imprevisível, esposa de um pastor local. Em meio à luta de garimpeiros contra uma Mineradora, o casal vive um momento de entrega completa, cada um explorando o ser do outro na descrição para as telas de experiências sensoriais. Entretanto, após ler a obra e assistir ao longa-metragem, o que aparentava ser uma profunda reflexão sobre as sensações de um romance, transforma-se numa das obras mais superestimadas, com direito a idealização deveras machista da mulher, resoluções ridículas de dificuldades encontradas pelas personagens, aparente preconceito contra pessoas interioranas e apelo intelectual.

Camila Pitanta no auge de seu talento

O foco da trama está em Lavínia, idealizada por Cauby, o qual passa boa parte de seus encontros fotografando-a. A promessa do roteiro é fazer-nos apreciá-la aos olhos do protagonista, mas isso não ocorre. Camila Pitanga foi escolhida para dar vida a ela. Na melhor atuação de sua carreira e nos deixando de queixos caídos pelo nível de entrega à ficção, a atriz tem um desempenho maravilhoso, todavia não estamos prestando atenção à Lavínia e, sim, à sua intérprete, detalhe dotado de uma enorme diferença. O problema está na imbecil oscilação comportamental da personagem. Já citei isso nesse site antes, alguns autores utilizam uma espécie de estratégia a fim de tornar sua dama literária totalmente distinta de qualquer outra mulher real, isso ocorre através de atos imprevisíveis com alternâncias repentinas de humor, ações estranhas compensadas pela grande beleza da amada ou bondade revelada. Com Lavínia, a apelação vai além e parte para sua trajetória de vida, criando um passado turbulento e extremamente exagerado causador de pena para despertar uma fagulha de interesse no telespectador.

Cauby em sua idealização forçada

Com nossa visão crítica “esfumaçada” pela narração obsessiva de Cauby em convencer-nos dos motivos que o levam a estar apaixonado, só na adaptação cinematográfica despertamos para os principais elementos com falhas, pois acompanhamos o romance de longe. A amada de Cauby sofre de uma inconstância incômoda, desde seu nascimento já está no fundo do poço e seu amante só nos serve de exemplo para isso por ela estar abandonando sua única chance de recuperação, o pastor. Há momentos de pura histeria, onde Lavínia aparenta ser doente mental, mas para Cauby está tudo muito bem. Em várias partes do longa, o casal faz uso de drogas como se a intenção fosse nos provar o quanto sentiam-se livres. No livro, é revelado um pedófilo assassinado por um morador local, o qual descobriu envolvimento do filho com o aliciador. Todos da cidade comemoram a saída do pai (que matou o pedófilo) da cadeia, apenas Cauby está triste, como se Marçal Aquino nos quisesse provar o quanto seu protagonista possui humildade diante dos outros. Sem falar na parte onde o amante flagra Lavínia lavando sua louça sem avisar, ao questioná-la ela afirma “Eu gosto”.

Optando por um estilo mais alternativo, o longa-metragem é cansativamente lento, acompanhando a febre mundial do estilo “feito para festival”, cujo resultado nem sempre é satisfatório e cria a ilusão de possível inteligência quando, na verdade, é apenas mais uma trama simplória com recursos óbvios de apelação. No elenco só podemos destacar a estonteante e incrivelmente talentosa Camila Pitanga (a atriz merece aplausos em pé) e ZéCarlos Machado como o pastor Ernani, a atuação de Gustavo Machado como Cauby é decepcionante.  Sem fazer bom proveito do contexto histórico, o clímax não consegue construir uma ponte coerente entre os problemas do casal central e a crise do garimpo, provocando um desfecho péssimo onde a vilania e ameaça ao romance foram se apoiar covardemente sobre os ombros das pessoas retratadas no interior. Honestamente, se esse tipo de história constituir a nova fase do Cinema Nacional, então não haverá avanço.

Nos bastidores, Camila Pitanga lê a obra de Marçal Aquino. Ela merece mais do que isso.

BATMAN: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012)

Inteligente, impressionante e original são as palavras que não conseguem sair de minha mente após assistir ao novo filme de Christopher Nolan. Após anos de espera, finalmente sai a conclusão de uma das melhores trilogias dos últimos tempos e, arrisco dizer, a melhor de qualquer adaptação dos quadrinhos. Perdendo um pouco mais o lado noturno e macabro apresentado pelo Coringa em “O Cavaleiro das Trevas”, o novo Batman consegue explorar de forma assustadora o terrorismo, o qual tanto consagrou o longa-metragem anterior pelas excelentes cenas de ação. Com mais personagens saídos das revistas, com certeza cumpriu a promessa de ser excelente e vai além de qualquer tentativa de arrecadar lucro, pois não abandona a inteligência de seus anteriores e finalmente podemos dizer que um herói chegou no limite de sua capacidade.

Sinopse: Oito anos após a morte de Harvey Dent, a cidade de Gotham City está pacificada e não precisa mais do Batman. A situação faz com que Bruce Wayne (Christian Bale) se torne um homem recluso em sua mansão, convivendo apenas com o mordomo Alfred (Michael Caine). Um dia, em meio a uma festa realizada na Mansão Wayne, uma das garçonetes contratadas rouba um colar de grande valor sentimental. Ao investigar a moça, descobre que se trata de uma ladra experiente chamada Selina Kyle (Anne Hathaway). Arriscando impedir os atentados de um terrorista chamado Bane (Tom Hardy), Batman se vê sozinho e é obrigado a assistir a ruína da cidade juntamente com a fuga de todos os prisioneiros, armados por Bane. Ele vê em Selina uma aliada, porém nem seus maiores esforços talvez consigam impedir a tragédia iminente reservada ao herói.

Bane: finalmente um vilão realmente pronto para massacrar Batman

Honestamente, não sei como outras pessoas reagiram ao vilão Bane, entretanto só consegui sentir repulsa pelo mesmo. Não sei se isso é por conta de já ter sido vítima de assalto, mas meu desdém só serve para comprovar o quanto Nolan subiu em meu conceito. Após “O Cavaleiro das Trevas”, o Coringa virou um ícone pop tão conhecido quanto nos quadrinhos e sua imagem vive sendo vendida por aí. A questão é Bane ser carta nova e sua participação no terceiro longa da franquia é tão impressionante que provavelmente não cativará tão rápido a admiração da platéia pelas atitudes frias, algo extremamente raro atualmente ao haver tantas pessoas fantasiadas de vilões. Isso é algo bom, pois demonstra o alto nível do novo inimigo de Batman, fechando a trilogia com “chave de ouro”.

A Mulher-Gato mais fiel, porém não tão marcante.

De todas as vilãs, Selina Kyle sempre foi minha preferida. A responsabilidade para com a personagem era bem maior que a de Bane, afinal ela, tal qual Batman, carrega símbolos bastante evidentes na cultura pop, por exemplo independência feminina e sensualidade. Talvez uma das dificuldades do roteiro fosse inserir a personagem. Eles optaram pela mesma estratégia que a do Coringa, não contar sua origem (levando em conta a enorme quantidade de atualizações que ela já teve nas revistas) e apenas colocar a gata no jogo por ser de seu interesse e não uma coincidência. Porém surge o desafio de criar um relacionamento com Batman num tempo curto e com coerência, o diretor não decepciona e em poucos minutos não vemos dificuldade de vir os dois flertando como ocorre habitualmente nas revistas. Entretanto o casal perde a complexidade pela falta de conflito de valores. Sentimos falta disso no longa de Nolan, mas possivelmente tenha sido suavizado para acabar com o clichê ladra-policial tão bem explorado em todas as produções com a presença de Selina.

Onde foi parar a preciosa complexidade da relação entre Batman e Mulher-Gato?

Falando em revistas, nesse filme Nolan opta novamente por seguir a perspectiva de “O Longo Dia das Bruxas“ (talvez a segunda melhor história do morcego nos quadrinhos, pelo realismo e história complexa). No meu caso, não sou tão apreciador da Mulher-Gato apresentada nessa obra porque não me conformo em vê-la sendo apenas um pivô. Algumas cenas do filme denunciam que a gata está ali apenas para substituir o interesse romântico chato (Rachel Dawes nos filmes anteriores) do herói e isso é quase imperdoável, pois vai contra o propósito da própria criação da personagem, uma mulher que não aceita ser controlada ou dependente. Mas a proposta era criar uma Mulher-Gato mais realista e moderna, nisso eles acertam em cheio. Nós compreendemos a dificuldade de respeitar tudo da personagem, afinal havia muitas tramas paralelas, mas como fã aguardava mais atenção a ela, que não merecia ser uma coadjuvante, embora de luxo. O que não me leva a ignorar a grande performance de Anne Hathaway, com certeza a melhor adaptação da Mulher-Gato até hoje e finalmente o retorno da elegância, algo perdido em suas últimas aparições.

Para compensar a falta de complexidade do romance, há inúmeras cenas de ação espetaculares. A nova Mulher-Gato é bastante flexível e deixa água na boca para assistir a novos combates após presenciarmos seus maravilhosos golpes com saltos. Nesse caso, contentamo-nos com uma abordagem mais moderna da ladra, onde ela está sensual ao pilotar a moto de Batman, além da idéia dos óculos se transformarem em orelhas de gato ser genial. As lutas com Bane são capazes de deixar a platéia nervosa pela força do vilão ser superior à do oponente. Além das cenas de um Bat aéreo sendo perseguido por mísseis ao tentar destruir um tanque.

Cenas de ação incríveis

Para não soltar spoiles demais, evitarei dizer os nomes originais das novas personagens vindas dos quadrinhos com identidades secretas no longa, só me arrisco afirmar o auto nível do roteiro ao conseguir a proeza de adaptá-las ao universo realista de Nolan, realmente as idéias utilizadas foram brilhantes e você não questiona o fato dos mesmos serem derivados das revistas. A inclusão deles na trama não incomoda suas ausências nos dois primeiros capítulos da trilogia, pois com o desenrolar percebemos que estão no momento certo de serem apresentados. A única ressalva é quanto à escolha de Marion Cotillard, a atriz já havia aparecido no tão famoso “A Origem” e já bastava Joseph Gordon Levitt (numa ótima performance) também ter vindo de lá com o diretor, portanto vê-la em mais um sucesso de Nolan ficou cansativo.

Marion Cotillard e Joseph Gordon Levitt completam o elenco com personagens saídos das revistas em quadrinhos.

Batman encerra de forma bem sucedida uma das melhores adaptações de quadrinhos, suas abordagens quase sempre fazem jus à fama dos personagens e é emocionante assistir ao desfecho dessa saga, lembrando que talvez demore para surgir um exemplar superior. Com uma trilha sonora inovadora e emocionante, as cenas de ação são totalmente ligadas à trama central, evitando entretenimento acerebrado. Anne Hathaway está interpretando muito bem e não me impressionaria caso fosse indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, ela rouba a cena facilmente e o mais irritante é nossa vontade de vê-la mais vezes no filme. Tom Hardy dá vida a um Bane assustadoramente perigoso, fazendo com que sequer lembremos da diferença entre o ator e o monstro gigante das revistas. Dessa vez optando por adaptar uma parte quase esquecida do extenso universo do herói com personagens interessantes, Nolan novamente faz uma sequência totalmente superior ao primeiro longa e lança um dos melhores filmes do ano, o qual com certeza não fica inadequado ao ser chamado de épico moderno.