Pelo Malo (2013)

pelo-malo_2013_cartazNossa magnífica poetisa e atriz Elisa Lucinda não gosta do termo “cabelo ruim”, porque afinal, como ela bem diz: ele, o pobre cabelo, nunca fez mal a ninguém. Mas no caso do nome traduzido desse surpreendente filme de Mariana Rondon, o título – Pelo Malo – não poderia ser mais adequado. Sob a ingênua pretensão do menino Junior (excelente escolha do ator-mirim Samuel Lange) de ter suas madeixas alisadas simplesmente para aparecer bem na foto da escolinha, a diretora desenvolve um poderoso drama familiar que transborda com habilidade para o terreno político-social.

Pelo Malo Mariana RondonAmparada por um elenco sensível o suficiente para trabalhar num roteiro cheio de nuances, Mariana orquestra com precisão os conflitos e pechas naturais de Marta (Samantha Castillo), uma mãe que luta sozinha para criar os filhos numa favela vertical em Caracas. Ignorante, protetora e instintiva, ela teme pela masculinidade do filhinho que simplesmente quer ter cabelos lisos para ficar parecido com um cantor. O menino tem como cúmplice de suas aspirações a avó que o treina e veste, bem como uma amiguinha espirituosa que almeja ganhar um concurso de beleza apesar do perfil pouco indicado. No incompreendido universo infantil, a única saída para a dolorosa miséria seria a fuga desesperada para uma utópica fama instantânea através de imagens retocadas grosseiramente pelo fotógrafo do lugar.

Tudo se passa numa Venezuela que agoniza junto com o Presidente Hugo Chávez, mas bem que “Pelo Malo” poderia perfeitamente se encaixar no Brasil, não somente por uma conhecidíssima canção eternizada por Wilson Simonal que permeia a trama, mas também pelos graves problemas de desequilíbrio social que os países têm em comum.
Por Carlos Henry.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Hoje eu quero Voltar Sozinho_2014À primeira vista, o cartaz pode parecer um caça-níquel “teen” amparado no sucesso do excelente e premiado curta-metragem quase homônimo que foi tanto sucesso faz algum tempo com o mesmo diretor (Daniel Ribeiro) e trio de jovens atores (Tess Amorim, Guilherme lobo e Fabio Audi).

Hoje eu quero voltar sozinho- pré estreia 04abr14 Odeon - os atores Tess Amorim Guilherme lobo e Fabio Audi.

Hoje eu quero voltar sozinho – Pré estreia em 04 abr 14 no Odeon – os atores Tess Amorim Guilherme lobo e Fabio Audi.

Mas ao longo do filme, fica claro que o curta “Eu não quero voltar sozinho” merecia o desenvolvimento que sofreu para encorpar e transformar-se em um longa-metragem amadurecido e extremamente confiante em todos os aspectos, o que justifica o título resoluto.

Sem pieguice ou excessos, “Hoje eu quero voltar sozinho” se baseia na fórmula original de seu notável embrião, quando expõe os medos, decepções e incertezas de um adolescente cego diante dos sentimentos novos que a vida lhe apresenta de forma leve e natural, mas recheado de emoção, euforia  e reviravoltas próprias da juventude. O humor do filme é muito especial e preciso, pontuando e ajudando a digerir as angústias de uma deficiência física e de uma sexualidade complexa reunidas no personagem de Leonardo (Guilherme Lobo). Destaca-se também uma apurada trilha sonora que flerta com o melhor do popular e do clássico incluindo uma bela peça de Schubert que já foi sabiamente usada no Cult “Fome de Viver” de Tony Scott.

hoje-eu-quero-voltar-sozinhoPara preencher os quase 100 minutos, a figura protetora dos pais e da avó (A veterana Selma Egrei, estrela dos filmes de Walter Hugo Khouri) foi acrescentada ao jovem triângulo original (Leo, Giovana e Gabriel), bem como um curioso grupo de “bullying” na escola que acaba por contribuir para um desfecho positivo e espirituoso à trama engenhosamente roteirizada, dirigida e interpretada. Cabe lembrar que se trata de uma equipe relativamente novata, mas genuinamente talentosa.

Carlos Henry

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014). Brasil. Direção e Roteiro: Daniel Ribeiro. Elenco: Ghilherme Lobo (Leonardo), Fábio Audi (Gabriel), Tess Amorim (Giovana), Selma Egrei (Maria), Eucir de Souza (Carlos), Isabela Guasco (Karina), Júlio Machado (Professor), Victor Filgueiras (Guilherme), Naruna Costa (Professora), Lúcia Romano (Laura). Gênero: Drama, Romance. Duração: 95 minutos. Continuidade do curta-metragem ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’.

Curiosidade: O título original do filme seria ‘Todas as Coisas Mais Simples’, mas não daria a ligação necessária para o curta-metragem ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’ lançado em 2010 pelo o mesmo diretor. Então chegaram a um consenso levando em conta os conflitos do personagem Leonardo originando o atual nome do filme.

A Imagem que Falta (L’Image Manquante. 2013)

a-imagem-que-falta-2013_posterL’image Manquante” é um pungente relato de uma época avassaladora para o Camboja sob o olhar simplificado e lúdico de uma criança, testemunha de um genocídio histórico nos anos setenta.

Rithy Panh era apenas um menino quando o regime do Khmer Vermelho aproveita a esteira da guerra do Vietnã para criar uma cruel reestruturação de engenharia social, sob a liderança do cínico revolucionário Pol Pot. O partido secreto denominado “Angkar” acaba por escravizar, torturar e dizimar a população disfarçada numa suposta política igualitária de justiça plena.

É um documentário realizado de forma diferente, pois lança mão de um cuidadoso e singelo artesanato em argila para tentar suprir as imagens que faltam no quebra-cabeça de um acontecimento aterrorizante. O diretor Rithy Panh após sobreviver àquele massacre assistindo a morte lenta de sua família e amigos, resolve contar a triste estória do seu povo mesclando bonequinhos de barro e imagens reais da época.

O resultado é assombroso, por conta de uma memória vívida e dolorida que pode ser ainda mais impactante do que qualquer registro visual que porventura tenha se perdido.

Carlos Henry

Branca de Neve (Blancanieves .2012)

O famoso conto dos irmãos Grimm, Branca de Neves, já foi exaustivamente adaptado para o cinema, popularizada desde o clássico de Walt Disney que tratou de amenizar os traços adultos e fortes da trama.

Nesta fabulosa versão espanhola de Pablo Berger, o roteiro é a grande estrela. O filme é impregnado de beleza, suspense, humor e lirismo numa releitura de notável criatividade em cima da conhecida história.

A trama ambientada no universo das touradas e flamenco na Andaluzia de 1920 refere-se à famosa princesa Branca de Neve como uma personagem de contos de fadas, o que cria um tempero a mais na fantástica história de Carmen (Macarena Garcia), filha de um renomado toureiro que morre, deixando a menina aos cuidados da perversa e oportunista madrasta enfermeira Encarna (Maribel Verdú). Cansada dos maus-tratos, Carmen foge e encontra no caminho um grupo de anões toureiros que a incentivam a retomar o ofício do pai com seu talento nato. A teia de acontecimentos já familiares a todos assume caminhos surpreendentes à medida que tudo se desenrola culminando num desfecho tão emocionante quanto inesperado.

O elenco também é digno de nota, destacando as personagens principais já citadas e a composição de Sergio Dorado para o doce e apaixonado anão Rafita. Excelentes também a direção de arte e a trilha sonora recheada de cenários deslumbrantes e sons inesquecíveis.

A comparação com o filme “O Artista” de Michel Hazanavicius da mesma época é inevitável por conta da mesma estética cinematográfica adotada que nos remete ao cinema mudo com a belíssima fotografia em preto e branco na tela três por quatro.

A infeliz analogia com “O Artista” desfavorece a obra no que tange à originalidade, mas não tira nem um pouco do seu brilho e valor.

Carlos Henry

A Grande Beleza (La grande bellezza. 2013)

A-Grande-Beleza_2013_cartazDifícil ficar impassível diante do filme “La Grande Bellezza” de Paolo Sorrentino, assim como é difícil acompanhá-lo. É uma obra complexa e que convém ser vista mais de uma vez. Intensamente belo como o título, desfila imagens de Roma de tirar o fôlego até os créditos finais. Remete a Fellini quando evoca a religião em quase todos os momentos da estória, mas de uma forma bem menos satírica ou debochada, ainda que cheia de humor.

O ponto central é um figurão da alta sociedade italiana cujo desencanto aos 65 anos é amparado em festas repletas de bizarrices e situações decadentes acompanhadas por um séquito não menos incomum (Sua editora, por exemplo, é uma anã bem resolvida com seu tamanho). Ele é jornalista e procura motivação para voltar a escrever. Sua personalidade é ácida, mas compreensiva. Consegue enxergar tudo com sensibilidade e sarcasmo, o que cria passagens fantásticas como quando visita os monumentos de Roma (Marforio), ou nas ricas conversas com a empregada ou com a “santa” madre que ele tenta entrevistar. A suposta santa-freira acredita ter poderes, dorme no chão, só come raízes e fala com os pássaros. Ela é protegida por um estranho cardeal metido a chefe de cozinha que já foi exorcista e aspira ao cargo papal.

O ponto chave da procura incessante da grande beleza pelo protagonista parece estar na sequência do mágico que frustra o desejo do rico escritor quando pede para desaparecer como a girafa da cena. A resposta é reveladora: “- Você acha que se eu soubesse de fato fazer alguém sumir, estaria aqui fazendo essas bobagens? É só um truque.”

A mais provável resposta dessa busca é que a grande beleza é ilusória, inconclusiva, não existe. Mas também pode estar numa peça maluca onde a artista corre nua para bater num muro, na criança que se esfrega de tinta colorida numa enorme tela diante de uma plateia extasiada, na exposição de fotos de cada dia da vida de um homem desde os quatorze anos até sua maturidade, na inocência do primeiro amor ou na beleza interior da freira que abdica de tudo para virar santa. O espectador escolhe.

Teatro: “Orgulhosa Demais, Frágil Demais” e “Callas”

Maria-Callas-e-Marilyn-Monroe_reais-e-personagens-teatraisAs duas peças têm um ponto em comum. Foram escritas pelo excelente Fernando Duarte que sabe mesmo como escrever para teatro, especialmente quando o tema gira em torno de personalidades polêmicas. “Orgulhosa Demais, Frágil Demais” dirigida por Sandra Pêra parte por base de um encontro inusitado entre as divas Maria Callas e Marilyn Monroe no camarim do Madison Square Garden NY na antológica festa do 45º aniversário do então presidente dos EUA John Kennedy em 19 de maio de 1962, quando Monroe fez a inesquecível performance de um sexy “Parabéns para você”.

A suposta conversa entre as duas rende um texto delicioso recheado de curiosidades e fofocas sobre elas e o meio artístico de que faziam parte. Rita Elmôr na pele da cantora lírica hermética e temperamental está simplesmente genial, liderando o choque de personalidades distintas das duas estrelas onde Samara Felippo como uma Monroe abusada e liberal não faz feio em nenhum momento. A peça é muito divertida e bem produzida.

Maria-Callas_real-e-personagem-teatralCallas” é obviamente sobre a cantora de ópera mais famosa que já existiu. O recurso cênico de uma entrevista reveladora às vésperas da morte da cantora em 16 de setembro de 1977 resulta num texto riquíssimo com fatos reveladores como o filho que teve com o amado Aristóteles Onássis, nascido e morto em completo segredo a pedido do magnata. O texto aqui continua sendo a grande estrela do espetáculo, visto que Silvia Pfeifer está nitidamente insegura com a responsabilidade de um grande papel. A direção firme de Marília Pêra, uma produção e figurinos caprichados e o bom desempenho de seu par Cassio Reis como o jornalista e amigo íntimo John Adams ajudam, mas não salvam o resultado de uma apresentação morna, ainda que correta.

Sugeri ao simpático e talentoso escritor Fernando Duarte na noite da pré estreia de “Callas” que ele completasse a obra com um texto curto (As duas peças têm cerca de apenas uma hora) exclusivo sobre Marilyn Monroe para fechar uma bela trilogia sobre duas artistas inesquecíveis. Ele gostou da ideia e disse que ia anotar. Quem sabe?