Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011)

Desprezando o tom clássico de uma biografia tradicional, José Henrique Fonseca criou um filme irretocável, quando optou por tratar da vida do jogador Heleno de Freitas realçando o lado cinematográfico da estória. Realçou o ídolo e mito enfatizando o lado perfeccionista do personagem que por vezes justifica sua arrogância e violência em limites extremos sem enfatizar sua origem nobre ou apelar sem critérios para o seu conhecido e voraz apetite sexual.

O trabalho extraordinário de Rodrigo Santoro, no melhor papel de sua carreira até então, ajuda a amalgamar talentos quem incluem um roteiro preciso recheado de diálogos e falas inteligentes, o elenco de qualidade, montagem e música (ópera e canções famosas) perfeitas além de uma maquiagem notável entre vários outros méritos na obra.

O resultado calcado na atmosfera glamorosa dos anos 40 é esplêndido, sobretudo por conta da acertada decisão de realizar a bela e delicada foto em preto e branco que valorizou o lado poético do personagem em closes impressionantes e sequências granuladas emocionantes, dentre os quais vale destacar a pungente discussão dos doentes no sanatório e a briga das crianças fãs na praia.

No final, o personagem precocemente devastado pelo éter e pela sífilis, mantem a altivez honrando o apelido de “Gilda”, uma alusão ao célebre papel sedutor de Rita Hayworth. Pelo menos no mundo do cinema, parece que em telas distintas e não menos clássicas, nunca haverá mesmo uma mulher como Gilda ou um homem como Heleno.

Carlos Henry

P.S.: Detesto futebol e não sou fã do Rodrigo Santoro.

Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011). Brasil. Direção: José Henrique Fonseca. Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Othon Bastos, Herson Capri, Angie Cepeda, Erom Cordeiro, Orã Figueiredo, Henrique Juliano, Duda Ribeiro. Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança, Fernando Castets. Fotografia: Walter Carvalho. Gênero: Biografia, Drama. Duração: 116 minutos. Inspirado no livro Nunca Houve um Homem como Heleno, do jornalista Marcos Eduardo Neves.

L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância (2011)

A película “L’Apollonide – Souvenirs de la maison close” de Bertrand Bonello que se passa num prostíbulo francês de luxo na chegada do século XX não é definitivamente um filme para todos. Apesar da beleza plástica extraordinária sustentada por uma produção de arte incontestável, o roteiro, sem grandes surpresas ou reviravoltas, tem um ritmo lento e uma minuciosa construção de personagens que afastam os espectadores de hoje, ávidos por soluções rápidas e sequências vertiginosas de velocidade estonteante.

Com o olhar de quem aprecia uma obra de arte, o filme pode ser saboreado como uma peça rara recheada da nudez renascentista de mulheres aprisionadas num claustro erótico comandado pelo dinheiro e poder masculinos. No meio da rotina triste do estabelecimento há um punhado de cenas, que congeladas e impressas se transformariam rapidamente em pinturas memoráveis.

A melancolia que impregna o trabalho daquelas mulheres é sintetizada no sorriso rasgado à força e nas lágrimas de sêmen de uma das personagens num conjunto de imagens tão chocantes quanto comoventes e que dificilmente serão esquecidas.

Sob o olhar lânguido da pantera que visita o local, o sofrimento de doenças, violência e preconceito desta classe estigmatizada atinge os dias de hoje numa transição de tempo brilhantemente solucionada no desfecho deste filme singular.

Por Carlos Henry.

L’Apollonide – Os Amores Da Casa De Tolerância (L’Apollonide – Souvenirs de la Maison Close. 2011). França. Direção e Roteiro: Bertrand Bonello. Elenco: Hafsia Herzi (Samira), Céline Sallette (Clotilde), Jasmine Trinca (Julie), Adele Haenel (Léa), Alice Barnole (Madeleine), Iliana Zabeth (Pauline), Noémie Lvovsky (Marie-France), Xavier Beauvois, Louis-Do de Lencquesaing, Esther Garrel, Jacques Nolot. Gênero: Drama. Duração: 122 minutos. Censura: 16 anos.

O Artista (The Artist. 2011)

Pela primeira vez em muito tempo, há o risco de a estatueta mais concorrida do mundo do cinema ir parar em mãos realmente merecidas no quesito melhor filme.

O Artista” (The Artist) de Michel Hazanavicius é uma obra extraordinária. A começar pela escolha do astro principal Jean Dujardin para viver George Valentin, um ator da década de vinte que sofre com a chegada do cinema falado que elege novas estrelas como Peppy Miller (A não menos talentosa Bérénice Bejo). Jean tem um frescor inédito que oscila habilmente entre o charme irresistível e a pantomima divertida que o personagem exige em momentos de humor e melodrama divididos graciosamente com o esperto cãozinho Uggie. Este importante momento de transição já suscitou trabalhos históricos na sétima arte como “Singing in the Rain” e “Sunset Boulevard”. “O Artista” também deve se transformar num clássico inesquecível do mesmo porte.

Quem não se incomodar com o ritmo apropriadamente lento em vários momentos, a ausência de diálogos e cor e o superado formato três por quatro da tela, vai aproveitar um punhado de cenas geniais e antológicas como aquela em que Peppy brinca com o terno pendurado de George. De quebra, uma trilha sonora saborosa que embala uma atmosfera lúdica, ingênua e de puro deleite absolutamente adequada ao ritmo gentil de uma película totalmente desprovida do envolvimento frenético virtual dos dias de hoje. Na última parte, a sala de projeção traduz uma emocionante e explícita homenagem a Fred Astaire e Ginger Rogers numa sequência arrebatadora.

Desligue (completamente) o celular e mergulhe no mundo maravilhoso deste filme único e sedutor.

Faça-me Feliz (Fais-Moi Plaisir, 2009)

Faça-me Feliz! Quem tentar achar coerência precisa no estranho roteiro do ator/diretor Emmanuel Mouret para esta comédia dramática escrita por ele mesmo poderá se frustrar. No entanto, se o espectador relaxar e deixar-se levar por uma narrativa incomum em tons de fábula sobre um homem sensível que viveria uma noite de traição permitida pela companheira, experimentará um filme bastante diferente com direito a muitas risadas e uma dose de reflexão.

O ritmo da narrativa é tortuoso, mas ganha vigor justamente no encontro de Jean-Jacques com uma mulher desconhecida e algo desequilibrada que ele descobre ser filha do Presidente da República. Uma festa tão bizarra e improvável quanto o próprio relacionamento é pretexto para que eles se conheçam e pano de fundo para situações hilariantes e esquisitas que só terminam na casa da empregada do Presidente que também tem uma família extraordinária composta de várias irmãs tão belas quanto perversas e travessas. Neste ponto, a produção merece destaque com objetos de decoração memoráveis como as peças de arte de gosto duvidoso e uma mobília de banheiro absurda desprovida de funcionalidade. A trilha sonora, que mescla sons de instrumentos de outras épocas, bem como o figurino extravagante e intemporal ajudam a compor um clima surreal muito curioso reforçado pelo próprio personagem principal atrapalhado, ingênuo e carente.

Muita gente já bebeu da água do brilhante filme de Martin Scorsese “After Hours”, inclusive o recente nacional “Amanhã nunca mais” de Tadeu Jungle com Lázaro Ramos, mas certamente a inesgotável fórmula de que tudo pode acontecer numa noite encontrou no filme de Emmanuel um de seus rebentos mais criativos.

Teatro: Cabaret

O palco do teatro Procópio Ferreira na Rua Augusta em São Paulo transforma-se no enfumaçado Kit Kat Club envolto em irresistível atmosfera decadente de uma Berlin dos anos 30 graças à eficiente solução de integrar mesinhas com parte da plateia ao cenário. O recurso já havia sido utilizado em montagens como aquela off-Broadway no final do século passado no lendário Studio 54 em Nova Iorque.

Trata-se do musical “Cabaret” de Harold Prince imortalizado por Liza Minelli no famoso filme de Bob Fosse. Cláudia Raia é a estrela desta produção memorável interpretando a inglesa Sally Bowles, a prostituta-cantora sonhadora do lugar que se envolve com o escritor americano Cliff Bradshaw (O pálido, mas competente Guilherme Magon que substitui Gianecchini originalmente escalado, afastado para tratar um linfoma) no período de ascensão do nazismo antes da guerra. A versão brasileira de Miguel Falabella com direção geral de José Possi Neto está irretocável.

Cláudia está perfeita e linda, no auge de sua forma física e profissional (44 anos) dançando como nunca com um entourage belo e talentoso valorizado pelos figurinos sensuais e espetaculares de Fabio Namatame baseados em lingerie. O mestre de cerimônias é vivido pelo vigoroso Jarbas Homem de Mello com voz poderosa e presença de cena impressionante sustentando números musicais realçados com a coreografia criativa de Alonso Barros e a boa tradução de Falabella destacando momentos inesquecíveis como “Willkommen”, “Mein Heir”, “Two Ladies” e “Money, Money (Grana)” com Cláudia ostentando 20 mil pedras de cristais Swarovski. Vale lembrar as emocionantes interpretações solo de “Maybe This time” e do hino nazista “Tomorrow Belongs to me” bem como sua reprise em coral. Ao contrário de Jarbas, que construiu um personagem forte e bastante diferente, mas não menos brilhante do genial Joel Grey nas telas, Cláudia dá o tom cinematográfico reproduzindo gestos, olhares e tons sem imitar, como já havia feito no memorável “Sweet Charity” quando mixou habilmente as composições de Giuletta Masina e Shirley Maclaine.

Bob Fosse certamente aprovaria o conjunto da obra lamentando talvez o fato de que a magnífica orquestra está oculta na concepção deste show privando a plateia de um charme visual que faz alguma falta mesmo em meio a tanta beleza.

Um senão insignificante num trabalho maravilhoso que deve ser obrigatoriamente prestigiado pelos amantes da boa arte, deixando aquele gostinho de quero mais quando a atriz canta a famosa música “Cabaret” no final.

Carlos Henry, em Nov-2011.

Teatro: O REI E EU

O famoso musical “O Rei e Eu” de Rodgers & Hammerstein invade o Teatro Alfa em São Paulo inundando os palcos com o encantamento e a magia da conhecida estória de Anna Leonowens, uma inglesa que é contratada para ser professora dos inúmeros filhos de Mongkut (Rama IV), Rei de Sião (Tailândia) no século 19. Evidentemente, assim como aconteceu com o relato verídico de “A Noviça Rebelde”, na vida real não foi bem assim. O choque cultural oriente/ocidente que ocorre até hoje, provavelmente foi bem mais traumático e menos engraçado do que o mostrado nas telas, livros e palcos desde que foi romanceado por Margaret Landon em 1944. Prova disso é que até chegar a esta irretocável versão brasileira de Cláudio Botelho, “O Rei e Eu” nunca foi bem recebido naquela região da Ásia, talvez por equívocos de interpretação de um povo notavelmente carinhoso mas ainda austero e tradicional.

Desde os primeiros acordes da maravilhosa orquestra regida por Vânia Pajares até surgirem as primeiras falas no navio rumo a Bangkok, o espectador é irreversivelmente seduzido por um conjunto primoroso de talentos que emociona pelo apuro técnico e visual. Sem perder ritmo, a peça corre fluente alternando momentos de humor preciso, exuberância e música de qualidade com figurinos caprichadíssimos, objetos de cena, detalhes, cenários e painéis suntuosos de fazer perder o fôlego.

Todas as cenas são costuradas engenhosamente de modo a prender completamente a atenção na trama mesmo em momentos delicados e perigosos como a genial encenação oriental de “A Cabana do Pai Tomás” habilmente inserida no meio do espetáculo para provar que o Rei não é bárbaro.

Cláudia Netto como Anna e Tuca Andrada como o Rei dispensam apresentações e estão simplesmente perfeitos bem como o belo e numeroso elenco infantil talentosíssimo que está impecável. Luciana Bueno empresta sua formação lírica à personagem de Lady Thiang numa composição inesquecível.

Na verdade, não há quem destoe em toda a equipe desta genial montagem sem ressalvas e recheada de superlativos magistralmente dirigida por Jorge Takla.

Por estes e tantos outros pontos positivos, “O Rei e Eu” é fortemente recomendado.

Carlos Henry, 01-06-2010.

Teatro: CATS

O lendário musical da Broadway de Andrew Lloyd Webber envolvendo um bando de gatos retardados é famoso pela chatura apesar da inexplicável longevidade. Mesmo sem ter assistido as montagens do exterior, acredito não ser culpa da equipe brasileira a razão do desastre completo que assombra a temporada do teatro Abril em São Paulo, até porque a direção cênica foi importada dos Estados Unidos na figura de Richard Stafford em parceria com Miguel Briamonte.

A trama (?) é idiota e as músicas são monótonas, tudo agravado pela versão equivocada de Toquinho que tenta sem sucesso inserir alguma coerência numa confusa reunião de felinos sem pé nem cabeça. Para completar, o que o elenco canta em coro é sempre ininteligível bem como parte das falas. Não há orquestra é o único cenário (algo próximo do tosco) não é alterado em nenhum momento dos dois intermináveis atos que eventualmente acordam a plateia assustada com explosões, brilhos e focos de luz muito desagradáveis. Para afastar os inevitáveis bocejos e cochilos, o jeito é tocar a conhecida canção “Memories” à exaustão, conseguindo torná-la insuportável nos últimos momentos para quem conseguir resistir até o final. A música eternizada por Barbra Streisend é também devidamente destruída por uma letra estranha e uma interpretação exagerada de Paula Lima.

Quem quiser, pode subir ao palco no intervalo e conferir de perto um gato horrendo que lembra o Chewbacca do STAR WARS. Inacreditavelmente, há quem goste e aplauda o espetáculo surreal de erros consecutivos, talvez por respeito a alguns bons profissionais envolvidos, especialmente os atores que até se esforçam em manter alguma dignidade em cena. Há também a questão do preço: A entrada é injustificadamente cara para um resultado enfadonho, cansativo e tão sem qualidade. Um caso de polícia.

Por estas e outras inúmeras razões CATS deve ser fortemente evitado.

Carlos Henry, 01-06-2010.
Sinopse: “Meia-noite. Nenhum som no beco. Luzes de um carro rasgam a paisagem escurecida da noite e revelam momentaneamente a imagem de um felino correndo. Um por um, gatos curiosos emergem. É a noite especial deles, quando a tribo Jellicle Cats se reúne para escolher seus melhores. O líder do grupo, o sábio e benevolente Old Deuteronomy, anunciará qual deles irá para um lugar especial chamado “Heavyside Layer”, onde poderá renascer para uma nova “vida Jellicle”. Só um dos gatos não compartilha da euforia do grupo: a triste Grizabella (Paula Lima), que abandonou os companheiros anos antes para explorar o mundo lá fora e agora é desprezada por sua escolha.” Cats.
Alguns dos integrantes do elenco: Paula Lima (Grizabella), Saulo Vasconcelos (Old Deuteronomy), Julio Mancini (Munkustrap), Cleto Bacic (Rum Tum Tugger), Natacha Travassos (Victoria).

Michael, de Markus Schleinzer. (Festival do Rio 2011 – parte 3)

Continuando… Michael (2011) do austríaco Markus Schleinzer pode ser considerado um dos melhores filmes do Festival do Rio 2011 para quem não teme os temas fortes.

O personagem título é um homem de rotina comum, mas que mantém cativo o pequeno Wolfgang de apenas 10 anos vivido pelo extraordinário David Rauchenberger. Trancafiado no porão, o menino é submetido a uma rotina de abusos sexuais e oscila entre a ternura, o sofrimento silencioso e impotente diante de uma força maior e a agressividade inútil de um animalzinho selvagem.

Desenha e escreve cartas que nunca chegarão até seus pais verdadeiros, participa de sessões maníacas de limpeza detalhada, é capaz de demonstrar apatia diante de uma repetição de um diálogo chocante de filme de terror proferido pelo seu algoz e participar passivamente de rotinas e passeios que sugerem uma relação paternal e natural, mas reage ferozmente diante de situações mais corriqueiras.

É o ensaio de sua tentativa de libertação que deixa um impactante final aberto (as pessoas costumam detestar finais abertos) ao som da singela e ordinária: “Sunny” disco hit de Boney M. que exemplifica a aparente simplicidade de um monstro. Quando o ótimo ator Michael Fuith cantarola a canção, simboliza esta horripilante e aterradora faceta de alguns criminosos que passam por pessoas comuns.

Por Carlos Henry.

Filmes de Terror em 2011 (Festival do Rio 2011 – parte 2)

Continuando… Em paralelo ao Festival do Rio 2011 coloquei em dia os Filmes de Terror.

Trabalhar Cansa de Juliana Rojas e Marco Dutra é a primeira incursão nacional no horror psicológico e uma grata surpresa. Helena é uma dona de casa que resolve ajudar o marido desempregado se empenhando na gerência de um pequeno mercado. Deixando de lado a suposta e pretensiosa metáfora acerca de temas relacionados à mecânica do trabalho e a complexa dicotomia: patrão/empregado, o filme causa tensão sem apelar para os recursos do susto fácil. Os atores estão ótimos e a direção segura.

Ainda em Manhattan, aproveitei o mau tempo para conferir A Hora do Espanto (Fright Night) de Craig Gillespie, refilmagem digna do clássico dos anos 80 ainda que com doses bem menos equilibradas de humor, tensão, erotismo (quase não existe neste) e drama. A bocarra apavorante surge desta vem em três dimensões, mas fora o artifício da técnica 3D e a participação de Toni Collette, o longa tem pouco a acrescentar.

Não Tenha Medo do Escuro (Don’t be afraid of the dark) de Troy Nixey com a assinatura de Guillermo del Toro na produção e roteiro tem como cenário uma mansão incrível assombrada por criaturinhas malignas. A menininha (Claro que tem uma criança) é chatinha no início, mas depois dá para torcer por ela ao invés dos “gremlins”.

Premonição 5 (Final Destination 5) de Steven Quale que após o opaco Final destination 4, consegue ganhar o gás dos primeiros da série com aquelas cenas impactantes de catástrofe, no caso um acidente horripilante na ponte. As mortes também são apavorantes como na cena da ginástica olímpica e da cirurgia de miopia.

Já no Brasil, assisti Atividade Paranormal 3 (Paranormal activity 3) de henry Joost e Ariel Schulman que é seguramente o melhor e mais assustador da sequência. A fórmula é a mesma: Ruídos e movimentos tão sem justificativa plausível como o fato de filmar tudo sem parar na casa assombrada. No entanto, o ritmo deste é ágil e os fatos encaixam com mais coerência além de cenas que realmente apavoram. Capenga, mas imperdível para os fãs do terror.

Por Carlos Henry.

Um Panorama do Festival do Rio 2011 – parte 1

O Advogado do Viado (The Advocate for Fagdom) de Angélique Bosio não é um bom documentário mas abre um olhar para o bizarro e ousado trabalho de Bruce Labruce, autor dos explícitos “The Raspberry Reich” e “Hustler White”. John Water e Gus Van Sant colorem a arrastada sequência de depoimentos.

Alien Lésbica Solteira Procura (Codependent Lesbian Space Alien Seeks Same) de Madeleine Olnek é inacreditavelmente ruim e por ser concebido originalmente para ser um trash acaba por ter momentos engraçados e inusitados como a alienígena que passeia de chapeuzinho e tudo pela bucólica Coney Island.

A Árvore do Amor (Shanzha Shu Zhi Lian) de Zhang Yimou tem como pano de fundo a revolução cultural da China contando a chorosa e singela estória de amor de um jovem e casto casal separado por questões políticas no severo regime de Mao Tsé-Tung além de uma grave doença que arrebata o belo Sun.

Beleza (Skoonheid) de Oliver Hermanus relata os tormentos do abrutalhado e confuso François que se fica obcecado pelo filho de um velho amigo. O que poderia ser a “Morte em Veneza” dos tempos atuais se transforma num filme tão cruel que chega a ser desagradável com um estupro assustador e uma desconfortável cena de sexo grupal masculino que quebram o ritmo lento do filme prejudicado pela mão pesada do diretor.

Coney Island – O Último Verão (Coney Island (last Summer) de Marion Naccache não rende em suas imagens desinteressantes de um lugar tão decadente quanto encantador. Eu mesmo tenho em casa cenas registradas bem mais vibrantes de quando lá estive no final do século.

Inquietos (Restless) confirma Gus Van sant como um dos melhores diretores da atualidade. A delicadíssima estória de Annabel e Enoch que se encontram em funerais de desconhecidos por terem diferentes relações com a questão da morte rende uma paixão inesperada. O conforto emocionante que o filme dá a um tema que facilmente trilharia pelo caminho da pieguice surpreende. É Harold and Maude talentosamente revisitados na pele de Mia (que em momentos lembra a Farrow jovem) Wasikowska e Henry Hooper em um roteiro novo e encantador.

Contágio (Contagion) de Steven Soderbergh remete aos filmes-catástrofe dos anos 70 pelo clima assustador e elenco estelar (Matt Damon, Kate Winslet, Jude Law, Marion Cotillard e Gwyneth Paltrow) enfrentando um vírus fatal que se espalha rapidamente a partir de uma viagem a Hong Kong. Antecipei-me e já tinha visto em Nova Iorque, mas vou ver de novo quando estrear.

Estivemos Aqui (We were here) de David Weissman começa com imagens de homens lindos e atraentes na São Francisco hedonista dos anos 70, cujo quadro muda rapidamente para um cenário de terror com a chegada de uma terrível doença que se instala até os dias de hoje. Triste e chocante até as lágrimas. As pausas embargadas e sofridas causadas pelas lembranças de um sobrevivente sugerem uma dor que nunca cicatrizará.

Shark Night 3D de David R. Ellis não merece qualquer crédito. É ruim de doer. Assisti também em Nova Iorque antes do festival. Fujam mais do que qualquer barbatana na praia.

Funkytown de Daniel Roby revive a era disco em Montreal quando o Canadá passa pelo Movimento Separatista de Quebec (há uma relação curiosa com o nosso “A Novela das 8”), mas o povo quer mesmo é se divertir no clube Starlight ao som dos hits da época. Um divertimento à parte foi assistir a película lá em cima na bucólica Santa Teresa com Paula. Comemos pastel de costela no famoso Mineiro e nos integramos ao clima intimista do lugar com direito a uma platéia “descolada”, regulagem personalizada do ar condicionado e observações engraçadas no banheiro improvisado (não jogue papel no vaso-risco de explosão!) e ótima projeção na sala mínima.

Martha Marcy May Marlene de Sean Durkin evoca as angústias do que uma experiência traumática pode provocar na mente humana a ponto de confundir o que se viveu com ilusões assustadoras. Este é o dilema de Martha, afastada após um período vivido numa seita religiosa cujo líder abusava das mulheres. Quando retorna à sociedade, ela enfrenta dificuldades de readaptação com o mundo real.

Capitães de Areia de Cecilia Amado é uma feliz adaptação do conhecido livro do avô Jorge. O elenco infantil é ágil e encantador e dá graça e vida ao bando de meninos delinquentes na Salvador dos anos 50 devastada pela miséria e varíola. O charme, a promiscuidade e o humor do grupo deslizam fácil num roteiro fluente que prende a atenção desde o início.

A Novela das Oito de Odilon Rocha teve sessão glamorosa no Odeon com o excelente elenco que inclui Claudia Ohana, Vanessa Giacomo e Mateus Solano (em tórrida cena homoerótica). A novela em questão é Dancin’ Days que em 1978 ameniza os efeitos do final da ditadura no Brasil. A trama é engenhosa e rende bons momentos com algumas quedas de ritmo, mas muita música boa da época incluindo a inesquecível abertura da novela com as frenéticas e o hit “A noite vai chegar” da ótima Lady Zu.

Teus Olhos Meus de Caio Sóh tem uma dupla de atores promissora: Emilio Dantas e Remo Rocha além dos veteranos Roberto Bomtempo e Paloma Duarte no apoio. Mas o roteiro batido, uma direção inexperiente e uma montagem quase desastrosa não salvam o filme de um amadorismo insustentável que pode interessar somente a um público gay específico.

Xica da Silva do Cacá Diegues foi um grande sucesso na década de 70 contando a estória da escrava que vira amante do contratador João Fernandes, incumbido pela coroa portuguesa de investigar as riquezas das Minas Gerais no século XVIII. A cópia restaurada rendeu uma sessão no Odeon com presença da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, do diretor e da própria Zezé Motta, bela como sempre. Não sei se cometi uma gafe quando inadvertidamente comentei com Wilson que o filme era bom, mas mal dirigido sem perceber a carequinha do Cacá Diegues que havia mudado de lugar e estava sentado logo a minha frente ao lado da ministra. Se ouviu o comentário, nunca vou saber.

Por Carlos Henry.