O Novíssimo Testamento (2015). Voos um Tantinho Mais Profundos.

o-novissimo-testamento_2015o-novissimo-testamento_2015_00Por: Carlos Henry.
Deus (Benoît Poelvoorde) existe, vive num universo paralelo em Bruxelas, é casado com uma idiota que ele detesta (Yolande Moreau), bem como os filhos JC (David Murgia) – que não vive na mesma casa -, e a filha adolescente problemática Ea (Pili Groyne). A garota não concorda com as atitudes do pai, enfiado o dia inteiro num salão onde num computador se ocupa em criar leis para azucrinar a humanidade, e após uma das brigas, se vinga liberando uma informação perigosa para toda a raça humana: A data e horário exatos de suas mortes. Em seguida, foge orientado por JC através de um código pela máquina de lavar roupa. Deus, desesperado com o controle adquirido pelas suas criações, vai atrás da filha, determinada a reescrever o testamento com a ajuda de seis novos apóstolos.

Se fosse uma produção americana, “Le tout Nouveau Testament” seria mais uma comédia amalucada provavelmente estrelada por Jim Carrey. Mas dirigido pelo belga Jaco Van Dormael, o roteiro surreal, alça voos um tantinho mais profundos, sem perder a graça. Os tons coloridos e a presença sempre bem-vinda de Catherine Deneuve (Com seu hilário parceiro gorilão) como uma das apóstolas que vão sendo aos poucos acrescentados à Santa Ceia de Da Vinci, não garantem a indicação do filme a uma determinada audiência de religiosos ferrenhos. Já os de mente aberta certamente vão aproveitar belos e engraçados momentos repleto de soluções criativas até o desfecho bacana, ainda que algo feminista demais.

O Novíssimo Testamento (Le Tout Nouveau Testament. 2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Anomalisa (2015). A Globalização Padronizando Comportamentos

Anomalisa_2015_cartazPor: Carlos Henry.
Charlie Kaufman é um roteirista de temas soturnos recheados de personagens de almas atormentadas e mentes confusas como em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “Quero ser John Malkovich”. Em parceria com Duke Johnson criou mais um provável cult: A animação em stop motion com bonequinhos “Anomalisa”.

anomalisa_2015_cenaO personagem principal é o triste e quase frio Michael Stone que voa para Cincinnati para uma palestra como autor de livro de autoajuda. Curiosamente, todas as vozes e expressões das pessoas ao seu redor são as mesmas. Síndrome de Fregoli ou padronização de comportamento ditado pelo mundo? O filme não entrega, mas desfila situações típicas de uma globalização desenfreada embaladas num humor negro e sutil. A única que foge à regra de uniformidade é a simplória Lisa que a princípio arrebata o coração de Stone, tornando-se imediatamente diferenciada inclusive na voz para nortear o marasmo da monótona vida do autor.

As músicas Lakmé de Delibes e “Girls just wanna have fun” da Cindy Lauper pintam em cores pouco vibrantes a trama sombria e desconfortável que não é própria para menores. O enigmático título é uma aglutinação do nome da personagem de Lisa com a palavra brasileira anomalia, citada no livro de Stone como referência à suposta aberração de um país da América Latina que fala português. Ou seja, é um filme difícil, de reflexões incomuns no gênero, que poderia até ser considerado uma animação noir de indiscutível qualidade.

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte final

california-2015_de-marina-personPor: Carlos Henry.
CALIFÓRNIA de Marina Person pode ser considerada uma comédia de adolescentes. E das boas, por conta de um afinado elenco juvenil embalado por deliciosos hits (David Bowie, New Order e muitos nacionais, todos muito bem inseridos nas cenas, especialmente o final com “The Caterpillar” do The Cure.) dos anos 80 quando a ação se desenrola. Estela (Clara Gallo) vive sua difícil passagem pela puberdade ancorada na figura de seu idolatrado tio Carlos (Caio Blat, perfeito no papel) que vive na Califórnia e exerce influência mágica na menina criada por pais caretas. Os planos de conhecerem juntos o badalado estado americano são interrompidos pela volta inesperada de Carlos ao Brasil que chega magro e debilitado por conta de uma terrível e ainda desconhecida doença que começava a se espalhar pelo mundo naquela época. O engenhoso roteiro insere o complexo personagem de Caio Horowicz no momento certo. Ele é o menino mais estranho da escola. Sua posição de bissexual avançado irá amedrontar e fascinar a menina afligida pelos hormônios da idade, mas cercada de justificados preconceitos. “Se você for gay, você vai pegar Aids!” adverte Estela ao novo pretendente, ignorante como a maioria da população diante de uma praga nova e misteriosa. Apesar do que é abordado, o tom do filme é leve, ameno e muito divertido em sua maior parte, especialmente por conta do elenco de meninas e da pequena, mas sempre preciosa participação de Gilda (Trabalhar Cansa) Nomacce como uma empregada afeita a simpatias mágicas.

E aproveitei os intervalos do Festival e as férias para apreciar o que estava no circuito.

perdido-em-marte_2015O diretor Ridley Scott continua desapontando. Seu último longa PERDIDO EM MARTE (The Martian) é uma ficção científica apática e excessivamente técnica que poderia interessar somente aos aspirantes a astronautas. O personagem de Matt Damon é considerado morto numa missão em marte e deixado abandonado no planeta inóspito. O que deveria ser uma situação tensa acaba virando plataforma para uma série de piadas nem tão engraçadas. A trilha sonora calcada em hits da Disco Music seria um (forçado) atrativo à parte, não fosse detonada o tempo todo como se fosse mau gosto apreciar aquele gênero de música. Descartável.

a-travessia_2015A TRAVESSIA (The Walk) de Robert Zemeckis assombra com imagens estonteantes em 3D na tela gigante do Imax para contar a história verdadeira do Francês Philippe Petit que decide atravessar através de um cabo de aço as célebres torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque pouco antes de serem concluídas as obras finais nos anos 70. Não aconselhável para quem sofre de vertigem. Philippe sofreu pena leve pela inesquecível façanha ilegal e acabou ganhando passe livre para o terraço de observação da torre. O passe teve sua data de validação alterada de um dia definido para duração indeterminada. Infelizmente o trágico curso da história não permitiu que o célebre equilibrista usufruísse da regalia para sempre.

love-3d_filmeLOVE 3D do cultuado diretor do chocante “IrreversívelGaspar Noe é uma grata surpresa. Execrado pelos exibidores ultraconservadores deste país de mente curta, é ao contrario do que possa parecer é um filme de muita qualidade. Narra a obsessão sexual de um homem casado pela jovem Electra, uma antiga namorada que desaparece sem deixar vestígios. A paixão doentia confundida com amor esgota o rapaz física e mentalmente vista em notáveis mudanças ao longo da narrativa. Como é que a esta altura do campeonato, em pleno século vinte e um, numa terra infestada de sujeira, miséria e corrupção, alguém por aqui pode ousar se indignar com um punhado de cenas de sexo explícito (Penetração do ponto de vista do interior da vagina e um orgasmo masculino em direção à tela são as cenas mais comentadas) totalmente inseridas no contexto de um roteiro bem elaborado? A pornografia está nos jornais que hoje em dia não têm censura.

A-Colina-EscarlateA COLINA ESCARLATE de Guillermo del Toro é a grande decepção que fecha o festival. Tantos clichês que talvez funcionassem numa paródia de Mel Brooks – Arranca risos da plateia com a suposta intenção de assustar lançando mão de fantasmas toscos, gráficos e falsos, rangidos e “sustinhos” para lá de batidos. A-velha-perversa-do-retrato-que deve-esconder-um-segredo, O-jovem-que-divide-um-terrível-mistério-com-a-irmã-estranhíssima e a-menina-idiota-que-vai-morar-na-mansão assombrada-apesar-dos-avisos-da-mãe-morta são algumas das sandices óbvias do inacreditável roteiro. Como é que a talentosa Mia (Amantes Eternos) Wasikowska foi se embrenhar nesta patuscada? E o Senhor Del Toro que já realizou obras-primas como “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo” também perdeu a mão? Assustadoramente ruim. Como dizia um crítico que tinha um programa sobre cinema na TV nos anos 70: Fujam do cinema que estiver “levando”!

[Continuação daqui.]

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte II

os-irmaos-lobo_2015Por: Carlos Henry.
OS IRMÃOS LOBO” (The Wolfpack) de Crystal Moselle é um documentário que narra a bizarra saga de sete crianças que crescem presas num apartamento imundo e decadente em Manhattan. O único contato com o exterior permitido pelo pai seria os filmes na TV. Portanto as criaturas se desenvolvem cercadas de criatividade cinematográfica, encenando diálogos de filmes que viram ao longo da prisão domiciliar. O que soa estranho na narrativa é que não há maiores conflitos quando os meninos de longos cabelos se rebelam quando chega a puberdade e alcançam o mundo exterior sem grande estardalhaço. Um deles exclama: “Parece 3D!” A praia de Coney Island é um dos primeiros locais que visitam numa sequência relativamente tocante. No fim, percebe-se que o que eles querem mesmo é fazer cinema, o que dilui o objeto principal do documentário que deveria ser tenso e emocionante.

H_2014_de-Rania-Attieh_posterH“. de Rania Attieh é uma obra estranhíssima e bizarra. A começar pelo título que se refere ao nome de Helena. Há duas delas na história. Elas vivem em Troia, Nova Iorque, numa clara alusão à clássica tragédia grega. Uma tem cerca de 70 anos, vive uma rotina cotidiana com o marido e cuida de uma boneca hiper-realista como se fosse uma criança de verdade. A outra é jovem e faz uma dupla de sucesso com o parceiro no mundo das artes enquanto prepara-se para ter um bebê. Um meteorito atinge a região e deflagra uma série de acontecimentos muito estranhos mudando o destino de todos. O filme pouco explica. Prefere sugerir muito em sequências belas e misteriosas, entre sons ininteligíveis criando um clima de crescente agonia, bem na linha do excelente “Sob a Pele”. A enigmática figura equina que surge ao longo dos capítulos entra em mutação no final numa cena realmente perturbadora. Para ver muitas vezes, interpretar, concluir e discordar como num filme de David Lynch. Uma delícia.

The-Nightmare_2015_posterOutro filme muito perturbador foi certamente o horripilante documentário “O PESADELO – PARALISIA DO SONO” (The Nightmare) de Rodney Ascher que já havia provado o seu talento tentando decifrar o que havia de oculto no clássico filme “O Iluminado” de Kubrick em “Quarto 237” que também causou aflição no outro Festival. Neste novo trabalho, Rodney entrevista várias pessoas que têm os mesmos sintomas. São acometidas por brutal paralisia quando entram em certo estágio do sono e se tornam impotentes diante das presenças que começam a surgir na escuridão. Um ataque de extraterrestres ou obsessão espiritual? A conclusão é do espectador que deve evitar assisti-lo quando a noite cair.

a-floresta-que-se-move_2015Ana Paula Arósio ressurgiu após longo hiato das telas, linda como nunca na exibição de “A FLORESTA QUE SE MOVE” de Vinicius Cimbra no cinema Odeon. O veterano Nelson Xavier também estava presente, contente com o fato de ter sido finalmente convidado para um papel de rico. E o fez brilhantemente. O filme que pode ser considerado um noir que flerta com os gêneros terror gore, suspense e policial é uma excelente adaptação de Macbeth de Shakespeare para os dias atuais. Uma bordadeira vidente (Juliana Carneiro da Cunha) prevê o poder meteórico para Elias, um alto executivo de banco. Incentivado pela mulher ambiciosa, os dois decidem eliminar pessoas para que se cumpra a profecia. O primeiro alvo é Heitor (Nelson Xavier), o presidente do banco, um homem bondoso e sensível que adora as Bachianas de Villa-Lobos. A partir daí, o rastro de sangue derramado espalhará a loucura, o remorso e os fantasmas no caminho dos dois. Neste trabalho extraordinário, destacam-se o mosaico de locações (Brasil, Uruguai, Escócia, Berlim) que confere uma atmosfera mágica e indeterminada à obra, bem como o elenco perfeito com destaque até nas pequenas participações como a de Emiliano Queiroz como um porteiro hilário, irônico e articulado. Imperdível.

as-fabulas-negras_posterAS FÁBULAS NEGRAS” é um terror nacional B gore que não deve ser levado tão a sério. Une o talento do veterano José Mojica Marins (Zé do Caixão) com outros novos diretores do gênero. O resultado por vezes amador e tosco diverte e evidencia um esforço constante em acertar. A decisão de inserir um grupo de crianças fantasiadas na mata como elo de ligação entre os contos ajuda muito no clima soturno pretendido. O episódio da loira no banheiro é decerto o melhor elaborado e bem montado com segurança na direção A velha que faz a diretora do pensionato de garotas está impagável. Mojica também se destaca como um exorcista de araque e aproveita para lançar a sua sempre esperada e “temida” praga no final.

[Continuação daqui.] [Continua aqui.]

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte I

festival-do-rio-2015Por: Carlos Henry.
cine-odeon_rio-de-janeiroO Festival do Rio foi mais discreto esse ano, decerto por conta da crise, sem grandes convidados internacionais e com uma programação morna e sem grandes destaques. Neste ínterim, a película vira artigo raro em extinção dando lugar ao indefectível DCP (Digital Cinema Package) que dependendo da sala de projeção pode ocasionar uma imagem pálida, sem vida e provavelmente pior do que a sua tela de TV. Curiosamente esse processo de transição ocorreu rapidamente e sem estardalhaço e, portanto foi o sistema padrão adotado nas exibições do Festival. As noites de gala continuaram sendo no Cinépolis Lagoon de difícil acesso na Lagoa. No entanto, os artistas e a produção prestigiaram os animados encontros de cinema no antológico cinema Odeon no centro.

As pré-estreias nacionais que escaparam da febre da comédia barata, grosseira e fácil que assola o mercado brasileiro chamaram a atenção e resolvi conferir.

boi-neon_2014BOI NEON de Gabriel Mascaro onde o ótimo Juliano Cazarré mostra o seu talento na pele de Iremar, um calejado e bruto ajudante de vaqueiro, num evento de arena onde aquele universo aparentemente simples oculta uma rede relativamente violenta que movimenta muito dinheiro. O filme introspectivo e de ritmo lento desvenda o cotidiano da Vaquejada desvendando sonhos aparentemente díspares como o de Iremar em ser estilista trabalhando nas horas vagas em sua pequena máquina de costura. Maeve (O Som ao Redor) Jinkings faz parte desta endurecida equipe de bastidores dividindo seu tempo entre o trabalho, suas performances à noite vestida como um cavalo numa roupa desenhada e manufaturada por Iremar (A cena filmada para uma plateia de vaqueiros reais dá o tom surreal à obra.), os cuidados com a filha curiosa e rebelde e os desejos sexuais naturais de mulher. Vinicius de Oliveira, a descoberta mirim de Central do Brasil tornou-se um ótimo profissional e faz uma participação notável no longa. O filme não teme a exposição dos corpos nus e a fisiologia humana que por vezes pode parecer chocante, quase pornográfica, o que exige coragem e ousadia dos atores. Afinal, masturbar um cavalo não é para qualquer um. Extraordinário, mas definitivamente nada popular.

jonas_2015JONAS de Lô Politi conta com o menino Jesuíta (Tatuagem) Barbosa que está cada vez melhor. Infelizmente sua atuação neste filme está um pouco exagerada na angústia e ansiedade. Um tom mais contido certamente daria um resultado melhor. O filme parte de ideia boa com interessante utilização de nomes próprios para narrar um evento de suspense acontecido no carnaval. A ação se desenvolve a partir de um sequestro que acontece por conta de um acidente provocado pela paixão de Jonas pela filha da patroa de sua mãe (Apesar do pequeno papel de empregada, Luciana Costa, como sempre, “Ó pai Ó” consegue dar muita graça ao seu personagem). A situação foge de controle e o rapaz decide esconder a moça no carro alegórico mais importante da Escola de Samba que os dois pertencem, uma imensa baleia azul. Uma evidente referência bíblica. Prende a atenção, mas com mais habilidade poderia vir a ser um clássico.

nise-o-coracao-da-loucura_2015NISE – O CORAÇÃO DA LOUCURA de Roberto Berliner é um bom filme ordinário fadado ao sucesso por conta de ser estrelado por uma super global, a atriz Glória Pires. Ela encarna uma personagem real, a doutora Nise da Silveira que se recusa a adotar os tratamentos tradicionais do século passado na cura dos pacientes esquizofrênicos que ela prefere chamar de clientes. Ao invés dais radicais lobotomias e eletro-choques, Nise incentiva os doentes a exorcizarem suas neuras através da arte, criando um estúdio improvisado dentro do Hospital decadente de Engenho de Dentro. Os trabalhos ficam tão bons que exposições são organizadas enquanto o grupo de ditos loucos começa a melhorar. No entanto, as inovações não são bem recebidas pela direção da instituição formada por homens. O filme prende a atenção com seu roteiro correto e linear, mas é contido e comportado como uma produção de TV. Destaques para os “loucos” Simone Mazzer e Flavio Bauraqui. Não ultrapassa a marca de regular.

O Festival do Rio selecionou uma série de filmes sobre a cidade do Rio de Janeiro em comemoração ao aniversário de 450 anos:

sao-sebastiao-do-rio-de-janeiro-a-formacao-de-uma-cidade_de-juliana-de-carvalhoSÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO, A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE de Juliana de Carvalho é uma curiosa coleção de fatos e imagens raras que ajudam a desvendar o crescimento de uma cidade, passando pelas mudanças arquitetônicas dos primórdios de sua fundação até os dias de hoje.

o-rio-por-eles_2015O RIO POR ELES de Ernesto Rodrigues exibe a cidade vista sob o olhar estrangeiro nem sempre muito preciso. A imagem equivocada do Rio por vezes soa divertida, preconceituosa, racista ou falsa, sem deixar de ser um arquivo rico e precioso de uma época onde ainda havia muita elegância na Guanabara. Tragédias como o incêndio do circo em Niterói na década de 60 ou do Edifício Astoria também são relembradas por equipes de outros países.

cronica-da-destruicaoCRÔNICA DA DEMOLIÇÃO de Eduardo Ades tenta entender sem sucesso a destruição do Palácio Monroe, construído no início do século vinte para abrigar o pavilhão do Brasil na Exposição Universal em Saint Louis EUA. Em seguida foi desmontado e reconstruído no centro do Rio vindo a se tornar sede do Senado Federal. Aparentemente, a bela construção foi alvo de uma modernização descuidada na ditadura dos anos 70 comparada no documentário por uma “eugenia nazista” que via no prédio antiquado um entrave ao curso natural do desenvolvimento da cidade. O filme é fraco no sentido de ser mal montado, mas exibe interessantes imagens da demolição em si. Hoje no lugar restam um chafariz seco e um lucrativo estacionamento.

 

Alguns filmes de curta-metragem são até melhores que a atração principal:

projeto-beirutePROJETO BEIRUTE de Anna Azevedo passeia pelo animado Saara, o grande bazar do Rio. A colorida mistura de culturas e línguas é coroada com uma belíssima dança do ventre em grupo no meio da rua num desfecho impressionante de ver e ouvir.

cumieira_de-diego-benevidesCUMIEIRA de Diego Benevides apresenta o trabalho duro dos operários numa grande obra até o merecido descanso no terraço da construção.

pele-de-passaro_de-carla-peltierPELE DE PÁSSARO de Clara Peltier persegue Tuane Rocha, uma exuberante destaque no carnaval que revela um cotidiano para lá de corriqueiro. Por trás dos adereços e maquiagem exagerada, tudo o que ela precisa é cuidar da filha.

solte-os-bichos-de-uma-vez_de-marcelo-goulartSOLTE OS BICHOS DE UMA VEZ de Marcelo Goulart também agarra o tema da festa de Momo. Os tradicionais e às vezes assustadores grupos de bate-bolas, cujas fantasias foram trazidas pelos portugueses na época colonial, faz parte do imaginário suburbano do carnaval carioca.

[Continua aqui.]

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)

O-Conto-da-Princesa-Kaguya_2013Por: Carlos Henry.
Mais uma vez, o Estúdio Ghibli brinda sua audiência com uma pérola rara. Dirigido por Isao Takahata, “O Conto da Princesa Kaguya” segue a mesma linha dos trabalhos do estúdio exaltando a supremacia da natureza, que como em “Meu amigo Totoro” coloca os bens materiais num último plano.

Singelamente artesanal, “Kaguyahime no Monogatari” tem movimentos e sequências que muito impressionam. A apurada técnica manual, que não tem medo de mostrar a textura e as pinceladas da ilustração, acrescenta mais poesia, um humor muito peculiar e certa verossimilhança à fantástica história do conhecido conto japonês:

Um casal de pobres camponeses acha um pequeno ser dentro de um bambu que eles acreditam ser uma princesinha e portanto se esforçam para transformá-la numa, sem se darem conta que estariam assim, afastando-a da felicidade na sua simples missão na Terra.

Com raros recursos digitais, o trabalho de desenhar cada quadro levou cerca de 8 anos para ser completado e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. A julgar pela assombrosa beleza dos últimos momentos do filme no fabuloso resgate de Kaguya reunindo música e emoção numa apoteose onírica, o esforço realmente valeu a pena.

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.