Tubarão (Jaws. 1975)

tubarão-1975_capaFoi-se o tempo em que o cinema produzia obras memoráveis com o poder de arrastar filas quilométricas aos cinemas e ser o assunto principal da cidade a ponto de causar comoção e pânico em multidões e até afastá-las das praias por conta de um roteiro engenhoso. A década de 70 produziu um punhado dessas pérolas e “Tubarão” foi com “O exorcista” um exemplo dos mais significativos. A começar pelo maravilhoso cartaz icônico pintado à mão baseado numa exposição do Museu de História Natural de Nova Iorque, que é reconhecido de longe até hoje.

Steven-Spielberg_Tubarao-1975Steven Spielberg ainda era um jovem desconhecido, inexperiente e ousado quando topou dirigir a aterrorizante novela de Peter Benchley “JAWS”, um projeto dificílimo de ser levado às telas, especialmente numa época ainda sem os efeitos digitais mirabolantes que hoje tornam tudo possível. Foi preciso construir um complexo tubarão mecânico para dar vida ao roteiro sobre um monstro que aterrorizou o balneário fictício de Amity. Problemas técnicos sérios fizeram com que o gigantesco peixe teimasse em não funcionar na maior parte do tempo.

Provavelmente essa dificuldade principal foi o maior trunfo do diretor, que sabiamente decidiu mudar o esquema inicial, optando por mostrar o bicho pouquíssimas vezes revelando-o completamente somente na parte final. Isso criou um suspense indescritível, exemplificado na antológica sequência de abertura, quando acontece o primeiro ataque mortal à noite. A fórmula mágica acabou sendo utilizada à exaustão a partir do sucesso de “JAWS” em toda sorte de filmes de terror sobre monstros aquáticos.

tubarao-1975_Roy-ScheiderNo entanto, “Tubarão” permanece impactante até hoje, se assistido com o olhar de quase quatro décadas atrás, quando a tecnologia cinematográfica ainda engatinhava e os recursos eram basicamente mecânicos e artesanais. Na verdade esse é o grande charme da obra, amparada por uma equipe extraordinária, onde se destaca o elenco talentoso, a direção criativa e vigorosa, a montagem exata e perfeita de Verna Fields, e claro, a música tribal de John Williams, até hoje associada àquele peixe predador. Um clássico.

Por Carlos Henry.

O Último Elvis (El Último Elvis. 2012)

o-ultimo-elvis_2012_posterArmando Bo estreia na direção num filme de qualidade veterana. Trafega num clima de melancolia e reflexão através do personagem Carlos Gutiérrez (John McInerny) que passa sua vida a limpo após um acidente com a mulher e filha Lisa Marie (Margarita Lopez). Sua obsessão extrema é o mito Elvis Presley, de onde extrai sua razão de existência e sustento, pois trabalha como cover do cantor em clubes e bares de pouca categoria.

o-ultimo-elvis_2012_01Curiosíssimo, o paralelo político que o filme sugere com o desencanto, a desesperança e a confusão social e individual provocados pelo panorama atual da Argentina devastada pelo governo de Cristina Kirchner. O resultado da crise aparece nos clones decadentes de Barbra Streisand, John Lennon, Kiss, Madonna e claro, o próprio Elvis representado pelo excelente ator John Mclnerny, numa composição acertada e emocionante, sobretudo quando interpreta com paixão, vários dos sucessos do lendário cantor como “Suspicious Mind” e “You’re Always on my Mind”.

A obra alcança o grau de genialidade em seu epílogo na mansão onde viveu o verdadeiro Elvis em Graceland – Memphis, Tenessee. É lá que Carlos procura um sentido derradeiro para sua triste trajetória baseada num ícone.

Por Carlos Henry.

O Último Elvis (El Último Elvis. 2012). Argentina. Diretor: Armando Bo. Elenco: John McInerny, Griselda Siciliani, Margarita Lopez, Rocío Rodríguez Presedo, Corina Romero. Gênero: Drama. Duração: 91 minutos. Classificação: 10 anos.

A Caça (Jagten. 2012)

a-caca_2012_posterDepois da joia rara “Festa de Família”presenteada aos cinéfilos no final do século passado pelo cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, o diretor retorna com uma nova obra-prima poderosa e arrebatadora, após uma escorregadela perdoável em Hollywood.

Em “A Caça”, Thomas volta a falar de um tema tabu: A pedofilia, que neste caso ultrapassa as paredes do castelo no tumultuado jantar familiar do filme que o consagrou e invade uma pequena comunidade, atingindo em cheio um professor de jardim de infância (Mads Mikkelsen), aparentemente vítima da imaginação de uma menina, a pequena Klara, uma de suas alunas e filha do melhor amigo. O mal-entendido cria um sentimento de revolta e ódio na população, interrompendo a rotina do lugar.

a-caca_2012_01O mundo masculino ligado por forte amizade e pela caça abre e fecha um roteiro habilmente desenvolvido e orquestrado numa tensão crescente e cercada de dúvidas e insinuações que conduzem a um desfecho aberto e necessário, pois as discussões sobre o tema não acabam e acompanham o espectador por um longo tempo. Mas o que assombra é a qualidade do elenco, sobretudo os atores mirins: Lasse Fogelstrøm no papel de Marcus, o filho sofrido e amoroso e Annika Wedderkopp na difícil e precisa atuação de Klara, uma menina perturbada e confusa por conta do que sente pelo professor e vê precocemente através do irmão mais velho.

Sem o rigor do “dogma 95” (movimento criado por Thomas e Lars Von Triers que se baseia no cinema mais puro e sem artifícios), mas lançando mão dos seus melhores preceitos, o diretor, conseguiu desta forma, um apuro técnico invejável sem os exageros da máquina cinematográfica. Afinal, uma bela fotografia, montagem eficaz, alguma música e uma câmera mais estável não fazem mal a ninguém. Sem falar que desta vez, o seu nome pôde ser creditado. Ele merece.

A Caça (Jagten. 2012). Dinamarca.
Diretor: Thomas Vinterberg.
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm.
Gênero: Drama.
Duração: 115 minutos.
Classificação: 14 anos

Killer Joe – Matador de Aluguel (2011)

Killer-Joe-Matador-de-Aluguel_2011Diante de uma dívida atroz, um jovem traficante de drogas propõe à família decadente, desajustada e desunida que a própria mãe seja morta para ganhar e repartir o dinheiro do seguro em nome da irmã Dottie, que apesar de levemente perturbada, destaca-se dos demais pela delicadeza e sensibilidade. O matador de aluguel e detetive da polícia Joe é chamado nesse ambiente cruel para fazer o trabalho sujo e depara-se com uma situação nova e inesperada.

Faz muito tempo que William Friedkin não faz coisa que preste. Depois de pérolas e clássicos como “O Exorcista” “Operação França” e “Parceiros da Noite”, o diretor desandou a carreira com atrocidades do quilate de “Jade” e “Possuídos”. Curiosamente, o mesmo Tracy Letts que escreveu esta última bobagem citada (Bugs) é também o autor da peça e do roteiro que originou Killer Joe.

No mesmo caminho, William também começa a acertar a mão neste século, com esta adaptação muito bem sucedida que nos remete aos filmes sanguinolentos de vingança dos anos 80 ou mesmo aos atuais exageros Tarantinescos. Na verdade, Joe Killer é bem mais do que isso, com um roteiro ágil, interessante, apurado, sem buracos e, melhor de tudo, fácil de acompanhar. Para desenvolver a estória, William optou por uma direção seca e sem novidades com ênfase aos ótimos personagens defendidos por um elenco afiado, onde todos se destacam, especialmente a doce Juno (Dottie) Temple e o atlético e frio Matthew (Joe) McConaughey, exibindo os talentos e os corpos para deleite da plateia. Gina Gershon também fica peladinha e brilha como Sharla, a madrasta sem escrúpulos. Emile Hirsch é Chris, o pequeno delinquente e Thomas Haden Church interpreta Ansel, o patriarca que completa uma linhagem apodrecida e desmoronada.

A trama engenhosa corre fluente em meio a muitas cenas de ultra violência com toques de humor nigérrimo, nudez sem pudores e sexo pesado que inclui uma inacreditável e desconcertante felação à base de frango frito da KFC.

Se a ousadia da produção como um todo é o ponto alto do filme, o desfecho aberto pode frustrar um pouco parte da audiência, ávida por um justo e completo acerto de contas. Ainda assim, “Killer Joe – Matador de Aluguel“é um filmaço e merece ser visto.

HITCHCOCK (2012)

hitchcock_2012_cartazO filme “Hitchcook” de Sacha Gervasi tem acertadamente pouco do livro homônimo de Stepehen Rebello que deu origem a esta obra. Enquanto Stephen esmiúça detalhes técnicos e curiosos dos bastidores do filme “Psicose”, Sacha trabalha em cima de um roteiro deliciosamente cinematográfico sobre o mesmo tema.

Por exemplo, as cifras e contabilidades de uma produção tumultuada são substituídas por insinuações de traição de Alma, esposa do diretor e por perseguições delirantes do assassino em série Ed Gein, que inspirou Robert Bloch a escrever a novela de terror que arrebatou Hitch. Também dá ênfase à figura de Alma, transformando-a num personagem feminino fortíssimo, defendido com brilhantismo por Helen Mirren. As figuras de Leigh e Perkins, estrelas de “Psycho” estão perfeitas com as caracterizações de Scarlett Johansson e James D’Arcy respectivamente, dentro do visual agradável do final dos anos 50. A cena antológica do assassinato no chuveiro tem pouco destaque, o que não chega a frustrar, num filme rico em diálogos inteligentes e bons momentos para os fãs do diretor e de “Psicose”.

Se por conta de uma notória dessemelhança ou uma maquiagem ineficaz, o ator Anthony Hopkins não conseguiu a aparência ideal para o papel título, tudo é compensado com uma atuação impressionante e habilidosa onde ele atinge o tom debochado, divertido, inseguro e por vezes cruel do mestre do suspense, que não poderia mesmo ter sido uma pessoa ordinária.

Por Carlos Henry.

O Som ao Redor (2012)

o-som-ao-redor_2012Em meio a enxurrada de filmes medíocres e grosseiros que infesta o cenário do cinema nacional em busca de bilheteria certa nos últimos tempos, “O Som ao Redor” surpreende especialmente por ter um diretor novato: O talentoso Kleber Mendonça Filho.

o-som-ao-redor_cenaÉ uma obra incomum, aclamada internacionalmente, repleta de insinuações e um suspense quase insuportável de algo terrível que nunca acontece. A trama é simples: Gira em torno de um poderoso “Senhor de Engenho” que expande seus negócios no ramo imobiliário em uma área urbana elitizada de Recife, marcando sua influência despótica naquela região onde se concentra a ação do filme. Os personagens, encarnados por atores desconhecidos, começam a desfilar suas características cercados por condomínios gigantes e uma superpopulação incômoda que inclui uma porção mais carente. Uns convivem pacificamente com seus supostos opressores, a classe mais rica; outros agem com mais agressividade. Este jogo sutil de camadas sociais conflituosas permeia todo o roteiro e norteia a trama a um confronto hierárquico representado por um violento acerto de contas num desfecho dúbio, impactante e original.

De um lado a força do dinheiro, acima de tudo, ignorando ameaças como o aviso de tubarões à beira-mar; do outro, um povo oprimido que não titubeia em reprimir por pequenos delitos mas teme um menino delinquente por conta de sua posição social. A tensão constante gerada pelas diferenças e pela densidade demográfica recheia a obra com latidos de um cão vizinho que incomoda, crianças que ajudam a mãe a relaxar, mulheres que se engalfinham sem razão específica, empregadas que se rebelam, encontros furtivos de casais na casa alheia (com direito a um susto hitchcockiano) e num cinema abandonado (Uma sequência antológica de rara beleza). Tudo realizado com uma sensibilidade cinematográfica impressionante.

Seria uma injustiça não mencionar a trilha sonora especialíssima e o som direto que dá o tom e nomeia o filme, enchendo a sala com barulhos de carro, animais, crianças, máquinas e ruídos da cidade superpovoada insinuando um perigo iminente e sem hora marcada.

É talento indiscutível, com sotaque nordestino.
Carlos Henry.

Jorge Mautner – O Filho do Holocausto (2012)

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pedro-bialPedro Bial já havia provado sua inclinação e talento para o cinema no subestimado “Outras Estórias” (1999) onde ousou adaptar João Guimarães Rosa com bastante competência.

Desiludido com o prejuízo causado pelo seu primeiro projeto, Bial esqueceu a sétima arte e sua figura ficou indubitavelmente relacionada a um insuportável programa de televisão, um execrável reality show que nunca termina devido a uma audiência, que sem qualquer razão aparente, pouco declina. Isso não impede que ele tenha seus méritos.

Felizmente na era digital, os orçamentos tornaram-se razoáveis e Bial uniu-se a Heitor D’alincourt para homenagear um artista importantíssimo no cenário da música popular brasileira. Baseado num livro autobiográfico homônimo, com um título que remete ao período e situação de nascimento do autor, os diretores traçam com maestria um panorama completo, curioso e sobretudo divertido sobre o cantor, escritor e compositor Jorge Mautner.

jorge-mautner_nelson-jacobinaFilho de pais europeus refugiados da guerra, Mautner nasce no Brasil em 1941 e revive estórias curiosas quando é apresentado ao candomblé pela babá, nas ocasiões em que nutre um sentimento divergente pelo padrasto que apesar de ser amoroso, era nazista ou ao criar a ideologia do “Kaos”. Por conta de um comportamento considerado subversivo e provocador, é preso, exilado, e nos anos 70 se aproxima de Caetano Veloso, Gilberto Gil, iniciando parceria com o músico Nelson Jacobina. Este encontro de amigos famosos, intimista e informal é recriado em estúdio e é um dos momentos mais saborosos do filme. Tudo entremeado por números musicais vigorosos e cheios de humor do artista em várias ocasiões como “Maracatu atômico”, “Vampiro”, “Encantador de Serpentes” e “Guzzi Muzzy” dentre muitas.

jorge-mautner_e-a-filha-amoraSomente a sua conversa com a filha Amora Mautner, hoje diretora da Rede Globo (e do megassucesso, a novela “Avenida Brasil”) já valeria o ingresso. Amora contesta o belo nome, baseado em amor e não na fruta; o hábito do pai de andar nu ou buscá-la numa escola tradicional de sunga (embora ressalte que era um corpo atlético) ou dos prêmios em pecúnia por cada livro lido (uma excelente dica aos pais) além da psicanálise precoce ainda criança. A entrevista é fluente e dinâmica com um sentimento verdadeiro cheio de gratidão entre pai e filha que salta da tela.

O filme é assim: Pura música e emoção.
Carlos Henry

Prisão de Cristal (Tras el cristal. 1987)

prisao-de-cristal_1987Prisão de Cristal é uma curiosa e desconhecida película espanhola de 1987 de A. Villaronga. Talvez, sem se dar conta, o diretor realizou um interessante e pesado noir fantástico nos moldes dos melhores suspenses de décadas passadas.

in-the-glass-cage-3O trunfo do filme está na inusitada situação principal, que incomoda ainda mais pela sua aterradora plausibilidade. A ação gira em torno do ex – médico nazista Dr. Klaus, sobrevivente de um suicídio frustrante após uma vida de sádicos experimentos homoeróticos com meninos no período da guerra. Numa última ação com uma de suas vítimas, ele se joga do telhado de uma construção. Paralisado por conta da queda, o médico está completamente dependente de sua mulher Griselda (A sempre ótima Marisa Paredes) e sua pequena filha Rena, obrigadas a monitorarem um enorme pulmão de aço e vidro, onde Klaus está confinado para sempre. Logo surge o jovem Ângelo, sob o disfarce de enfermeiro que supostamente iria ajudar a cuidar do doente, mas que desencadeará uma série de sentimentos doentios e mudanças de personalidade, inclusive na menina Rena, transtornada com as revelações do passado sombrio do pai.

in-the-glass-cage-4Embora seja um filme essencialmente desagradável e perturbador, a obra mantém o espectador atento e tenso desde a abertura recheada de imagens e desenhos das atrocidades da guerra até o final impactante de visual apurado e assombroso. A violência da estória é executada com tal habilidade e elegância, que chega a transformar a sordidez do tema numa obra de inesperada beleza. Como é um roteiro cheio de nuances e com personagens muito ricos, mereceria uma remake nas mãos de um diretor de mesmo talento, capaz de explorar os vários caminhos da trama.

Por Carlos Henry.

Madonna – MDNA TOUR in Rio (2012)

madonna-mdna-2012MDNA é o nome do último álbum de Madonna e também intitula a nona turnê mundial que ela traz ao Brasil. A referência às letras do pseudônimo de Marie Louise Ciccone pode ser facilmente confundida com o componente ativo da droga “ecstasy” que é o MDMA. Madonna nunca para de gerar polêmica. É disso que ela sobrevive. E também de muita competência e disciplina.

Ameaça de chuva, uma apresentação morna de DJs brasileiros e um longo atraso deixaram a multidão de quase 70 mil pessoas bastante impaciente. Pouco depois das 23h, a irritação no Parque dos Atletas (RJ) é magicamente dissipada com os primeiros acordes do canto gregoriano do grupo Kalakan que abre o maior espetáculo já produzido para um artista solo. Dava para sentir uma impressionante e rara qualidade de som ecoando no espaço aberto. O clima agora era de expectativa e festa.

MDNA TOUR 02dez12 the crossA ópera pop (formato de encenação com músicas e roteiro criado por Madonna nos anos 90 e vastamente copiado) começa com uma belíssima catedral esfumaçada projetada em altíssima definição e com a perspectiva cuidadosamente planejada dando uma ilusão estonteante da coisa real. O soar do sino e o balanço do imenso incensório espalhando a fumaça anuncia a jornada da escuridão para a luz. Uma verdadeira descida aos infernos de uma pecadora até alcançar a redenção. O canto religioso continua até Madonna partir o confessionário de vidro com um rifle e sair cantando “Girl Gone Wild” numa apresentação à altura da abertura grandiloquente com sua trupe de bailarinos exímios.

O show continua com “Revolver” e “Gang Bang” numa atuação violenta em cenário de hotel quando Madonna se “defende” de um dos dançarinos que invade o quarto numa briga violenta magnificamente coreografada que acaba em morte. Tarantino puro. Seguem a animadas “Papa Don’t Preach” e “Hung Up”. Entre interlúdios magníficos são exibidos trechos de sucessos antigos e imagens de outras épocas da cantora. Madonna aparece vestida como chefe de torcida (majorette), com bastão, pompoms, um grupo de “cheerleaders” e tudo para dar um recadinho debochado à suposta rival Lady Gaga quando canta “Express Yourself” mixada com “Born This Way” (acusada de plágio por ser muito parecida com a primeira) e seguida de “She’s not me”.

MDNA TOUR 02dez12 the son Rocco RitchieSem deixar a plateia esfriar em nenhum momento continua com a apresentação arrebatadora de “Give Me All Your Luvin”. Neste momento, uma banda flutuante vestida no mesmo estilo surge entre o cenário, marchando suspensa no ar tocando instrumentos de percussão enquanto a dança continua no palco numa composição inacreditável. A ótima “Turn up the Radio” é cantada com Madonna na guitarra e “Open your heart” conta com a participação tribal do trio Kalakan. Neste instante, o filho adolescente da estrela, Rocco Ritchie dança vigorosamente com ela remetendo a um dos clips mais bonitos já feitos.

A delicada balada “Masterpiece” é cantada com trechos no telão do filme “W.E.” que ela dirigiu e foi injustamente mal recebido pela crítica e público. Uma discreta seção erótica é iniciada com “Justify My Love” e “Vogue” com os seios da diva adornados com o famoso sutiã de cone da turnê de “Blond Ambition”, mas com cenas bem mais suaves do que outrora, condizentes com seus 54 anos (16//AGO/1958). Ela já é uma senhora, mas está em plena forma, bela como sempre e arrisca um discreto strip-tease após versões muito boas e sensuais de “Candy shop”, “Erótica” e “Human Nature”. Diria até que ela está cantando melhor que quando da última vez no Brasil em 2008. Sim, ela canta de verdade, entre espelhos que se movimentam no palco, removendo peças de roupa pela passarela em forma de “V” até dedicar a próxima canção a todas as “periguetes” do mundo. Trata-se de “Like a Virgin” cantada numa variação intimista ao piano enquanto ela revela a tatuagem de mentira nas costas: “PIRIGUETE” numa homenagem carinhosíssima à conhecida gíria brasileira. Descabelada e decomposta como uma dançarina de cabaré, Madonna termina o número pedindo dinheiro. Os súditos obedecem e ela recolhe, submissa, os dólares e reais jogados no chão após ter a cinturinha apertada com um colete por um bailarino sem camisa até ficar sem ar. A plateia também está sem fôlego quando o número termina com ela e o pianista sumindo no palco mágico.

MDNA TOUR 02dez12 the looksNo último bloco há uma assombrosa colagem de imagens fortes políticas do panorama atual ilustrando “Nobody Knows Me”. Destaque para os jovens mortos vítimas de “bullying” no telão com exibição de um esporte novo da moda, o “slackline” feito com malabarismos em cordas esticadas. Ela já havia lembrado ao público sobre a necessidade de mudança individual para a promoção da paz no mundo num belo discurso. Já vestida num deslumbrante modelo incrustado de cristais Swarovski, o espetáculo continua com as dançantes “I’m addicted” e “I’m Sinner” do último álbum enquanto surfistas de trem se equilibram em vagões que percorrem trilhos na Índia numa ilusão de movimento estonteante. O palco modifica-se com cubos coloridos em movimento e muitas luzes numa atmosfera feérica preparando-se para o grande final. O perdão da pecadora chega afinal através do emocionante coral de igreja entoando o sucesso “Like a Prayer” com a plateia inteira em uníssono. No ecoar dos sinos, Madonna retorna para fechar a megaprodução com “Celebration” mixada com trechos de outros hits numa grande festa com a trupe inteira.

E acabou! Nem adianta espernear! Como todos sabem, os shows da rainha são meticulosamente projetados sem espaço para o BIS. E precisa?

Carlos Henry.

Curta: Amores Passageiros (2012)

A grande surpresa do “Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro 2012” foi “Amores Passageiros” de Augusto Canini, também em película. Uma estória de amor fantástica com um elenco encabeçado pelo veterano Osmar Prado.

Um homem solitário trabalha nos esgotos subterrâneos de Porto Alegre e acha o corpo de uma jovem belíssima no meio dos detritos. Decide levá-la para casa como se fosse viva, mas sua rotina que ganha tons de felicidade com a macabra companhia é interrompida pela reclamação da vizinha incomodada com o mau cheiro do apartamento. Quando a polícia é acionada, inicia-se uma perseguição enlouquecida pelos dutos subterrâneos até o rio onde o corpo é atirado.

No final, o homem arrepende-se do ato e decide resgatar a “amada”. Absolutamente bem conduzido num clima de suspense e realismo, os 23 minutos poderiam facilmente desenvolver-se num longa-metragem inesquecível.

Osmar Prado e o produtor que estavam na plateia contaram que o filme tem a chance de concorrer ao Oscar na categoria. Mais do que merece.

[Continuação de CURTA CINEMA 2012 RIO DE JANEIRO]

Por Carlos Henry.