O Advogado do Viado (The Advocate for Fagdom) de Angélique Bosio não é um bom documentário mas abre um olhar para o bizarro e ousado trabalho de Bruce Labruce, autor dos explícitos “The Raspberry Reich” e “Hustler White”. John Water e Gus Van Sant colorem a arrastada sequência de depoimentos.
Alien Lésbica Solteira Procura (Codependent Lesbian Space Alien Seeks Same) de Madeleine Olnek é inacreditavelmente ruim e por ser concebido originalmente para ser um trash acaba por ter momentos engraçados e inusitados como a alienígena que passeia de chapeuzinho e tudo pela bucólica Coney Island.
A Árvore do Amor (Shanzha Shu Zhi Lian) de Zhang Yimou tem como pano de fundo a revolução cultural da China contando a chorosa e singela estória de amor de um jovem e casto casal separado por questões políticas no severo regime de Mao Tsé-Tung além de uma grave doença que arrebata o belo Sun.
Beleza (Skoonheid) de Oliver Hermanus relata os tormentos do abrutalhado e confuso François que se fica obcecado pelo filho de um velho amigo. O que poderia ser a “Morte em Veneza” dos tempos atuais se transforma num filme tão cruel que chega a ser desagradável com um estupro assustador e uma desconfortável cena de sexo grupal masculino que quebram o ritmo lento do filme prejudicado pela mão pesada do diretor.
Coney Island – O Último Verão (Coney Island (last Summer) de Marion Naccache não rende em suas imagens desinteressantes de um lugar tão decadente quanto encantador. Eu mesmo tenho em casa cenas registradas bem mais vibrantes de quando lá estive no final do século.
Inquietos (Restless) confirma Gus Van sant como um dos melhores diretores da atualidade. A delicadíssima estória de Annabel e Enoch que se encontram em funerais de desconhecidos por terem diferentes relações com a questão da morte rende uma paixão inesperada. O conforto emocionante que o filme dá a um tema que facilmente trilharia pelo caminho da pieguice surpreende. É Harold and Maude talentosamente revisitados na pele de Mia (que em momentos lembra a Farrow jovem) Wasikowska e Henry Hooper em um roteiro novo e encantador.
Contágio (Contagion) de Steven Soderbergh remete aos filmes-catástrofe dos anos 70 pelo clima assustador e elenco estelar (Matt Damon, Kate Winslet, Jude Law, Marion Cotillard e Gwyneth Paltrow) enfrentando um vírus fatal que se espalha rapidamente a partir de uma viagem a Hong Kong. Antecipei-me e já tinha visto em Nova Iorque, mas vou ver de novo quando estrear.
Estivemos Aqui (We were here) de David Weissman começa com imagens de homens lindos e atraentes na São Francisco hedonista dos anos 70, cujo quadro muda rapidamente para um cenário de terror com a chegada de uma terrível doença que se instala até os dias de hoje. Triste e chocante até as lágrimas. As pausas embargadas e sofridas causadas pelas lembranças de um sobrevivente sugerem uma dor que nunca cicatrizará.
Shark Night 3D de David R. Ellis não merece qualquer crédito. É ruim de doer. Assisti também em Nova Iorque antes do festival. Fujam mais do que qualquer barbatana na praia.
Funkytown de Daniel Roby revive a era disco em Montreal quando o Canadá passa pelo Movimento Separatista de Quebec (há uma relação curiosa com o nosso “A Novela das 8”), mas o povo quer mesmo é se divertir no clube Starlight ao som dos hits da época. Um divertimento à parte foi assistir a película lá em cima na bucólica Santa Teresa com Paula. Comemos pastel de costela no famoso Mineiro e nos integramos ao clima intimista do lugar com direito a uma platéia “descolada”, regulagem personalizada do ar condicionado e observações engraçadas no banheiro improvisado (não jogue papel no vaso-risco de explosão!) e ótima projeção na sala mínima.
Martha Marcy May Marlene de Sean Durkin evoca as angústias do que uma experiência traumática pode provocar na mente humana a ponto de confundir o que se viveu com ilusões assustadoras. Este é o dilema de Martha, afastada após um período vivido numa seita religiosa cujo líder abusava das mulheres. Quando retorna à sociedade, ela enfrenta dificuldades de readaptação com o mundo real.
Capitães de Areia de Cecilia Amado é uma feliz adaptação do conhecido livro do avô Jorge. O elenco infantil é ágil e encantador e dá graça e vida ao bando de meninos delinquentes na Salvador dos anos 50 devastada pela miséria e varíola. O charme, a promiscuidade e o humor do grupo deslizam fácil num roteiro fluente que prende a atenção desde o início.
A Novela das Oito de Odilon Rocha teve sessão glamorosa no Odeon com o excelente elenco que inclui Claudia Ohana, Vanessa Giacomo e Mateus Solano (em tórrida cena homoerótica). A novela em questão é Dancin’ Days que em 1978 ameniza os efeitos do final da ditadura no Brasil. A trama é engenhosa e rende bons momentos com algumas quedas de ritmo, mas muita música boa da época incluindo a inesquecível abertura da novela com as frenéticas e o hit “A noite vai chegar” da ótima Lady Zu.
Teus Olhos Meus de Caio Sóh tem uma dupla de atores promissora: Emilio Dantas e Remo Rocha além dos veteranos Roberto Bomtempo e Paloma Duarte no apoio. Mas o roteiro batido, uma direção inexperiente e uma montagem quase desastrosa não salvam o filme de um amadorismo insustentável que pode interessar somente a um público gay específico.
Xica da Silva do Cacá Diegues foi um grande sucesso na década de 70 contando a estória da escrava que vira amante do contratador João Fernandes, incumbido pela coroa portuguesa de investigar as riquezas das Minas Gerais no século XVIII. A cópia restaurada rendeu uma sessão no Odeon com presença da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, do diretor e da própria Zezé Motta, bela como sempre. Não sei se cometi uma gafe quando inadvertidamente comentei com Wilson que o filme era bom, mas mal dirigido sem perceber a carequinha do Cacá Diegues que havia mudado de lugar e estava sentado logo a minha frente ao lado da ministra. Se ouviu o comentário, nunca vou saber.
Por Carlos Henry.
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