O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)

O-Conto-da-Princesa-Kaguya_2013Por: Carlos Henry.
Mais uma vez, o Estúdio Ghibli brinda sua audiência com uma pérola rara. Dirigido por Isao Takahata, “O Conto da Princesa Kaguya” segue a mesma linha dos trabalhos do estúdio exaltando a supremacia da natureza, que como em “Meu amigo Totoro” coloca os bens materiais num último plano.

Singelamente artesanal, “Kaguyahime no Monogatari” tem movimentos e sequências que muito impressionam. A apurada técnica manual, que não tem medo de mostrar a textura e as pinceladas da ilustração, acrescenta mais poesia, um humor muito peculiar e certa verossimilhança à fantástica história do conhecido conto japonês:

Um casal de pobres camponeses acha um pequeno ser dentro de um bambu que eles acreditam ser uma princesinha e portanto se esforçam para transformá-la numa, sem se darem conta que estariam assim, afastando-a da felicidade na sua simples missão na Terra.

Com raros recursos digitais, o trabalho de desenhar cada quadro levou cerca de 8 anos para ser completado e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. A julgar pela assombrosa beleza dos últimos momentos do filme no fabuloso resgate de Kaguya reunindo música e emoção numa apoteose onírica, o esforço realmente valeu a pena.

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Últimas Conversas (2014), de Eduardo Coutinho

ultimas-conversas_de-eduardo-coutinho_2014Por Carlos Henry.
Em complemento ao notável filme de Carlos Nader, surge mais esta relíquia, Últimas Conversas, fruto dos últimos trabalhos de Eduardo Coutinho. No caso, esta obra inacabada devido à morte repentina do cineasta, conta com a já conhecida e impecável montagem de Jordana Berg e uma versão final e definitiva assinada por João Moreira Salles.

eduardo-coutinho_ultimas-conversasO feliz resultado é mais um tributo ao genial processo criativo do documentarista, neste caso, visivelmente contrariado com um projeto envolvendo estudantes adolescentes. A proposta inicial de Coutinho era rodar um filme com crianças, mas a ideia foi alterada por questões jurídicas. Este conflito e insatisfação com o rumo do projeto aparecem no início do filme e tornam o entrevistador bem mais falante, irônico e cáustico do que o habitual tornando a obra um pouco diferente de sua filmografia.

Ainda que visivelmente incomodado com o trabalho, o cineasta abusa do seu já conhecido “bom mau humor” para tentar arrancar pérolas dos adolescentes com quem conversa. Afinal acaba conseguindo a fórceps algumas lágrimas, revelações, depoimentos confusos próprios da idade, silêncios curiosos e até uma surpreendente interpretação da música “Listen to Your Heart” da banda Roxette.

ultimas-conversas_2014A crise de Coutinho parece chegar ao final quando surge a menina Luiza de apenas seis anos que parece iluminar o estúdio com sua graça e espontaneidade. Espirituoso como sempre, ele conduz a última entrevista bem mais satisfeito, certo de que faria um trabalho muito melhor se pudesse ter realizado um filme somente com crianças como tinha imaginado no início. Exalta a divertida interpretação que Luíza confere a Deus e abraça a menina que parecia muito à vontade naquela altura a ponto de voltar para se despedir com uma mesura típica da classe alta. Todos se divertem inclusive a plateia. Naquele momento, o artista deve ter imaginado que poderia voltar com a ideia original das crianças num futuro próximo. Infelizmente não deu tempo.

Eduardo Coutinho, 7 de Outubro (2015)

eduardo-coutinho-7-de-outubro_2015A data do título foi o dia em que Carlos Nader entrevistou o genial cineasta Eduardo Coutinho, poucos meses antes de ser assassinado provavelmente pelo próprio filho esquizofrênico, no início de 2014. Nader não é exatamente um entrevistador à altura do célebre entrevistado, mas a riqueza do material falado pontuado de excelentes cenas extraídas da obra de Eduardo transforma o filme num delicioso jogo de palavras e imagens. Sem perceber, realizou uma homenagem impecável.

O resultado é assombroso e ajuda a entender a mente fértil do documentarista que conseguia arrancar depoimentos surpreendentes de seus entrevistados. Seu pensamento veloz produz uma fala atropelada e recheada de palavrões. Libera citações preciosas como “O Passado contado é muito mais interessante do que realmente aconteceu. É extraordinariamente acrescentado, enfeitado, épico.” Filosofa com eloquência, humor e alguma impaciência senil que o autoriza até a arriscar uma piada no meio de tudo: A bicha acorda feliz, abre a janela e cumprimenta: – Bom dia, sol! O astro responde: Bom dia, viado! Prá puta que pariu…

jogo-de-cenaSua bela filmografia inclui clássicos premiados como “Cabra Marcado para morrer”, “Edifício Master”, “Babilônia 2000” (Personagens humildes de uma comunidade no Rio na passagem de ano de 1999 para 2000), “Santo Forte” (Lembro que uma das vezes que falei com Coutinho, perguntei sobre o porquê desse impressionante filme sobre o sincretismo religioso nunca ter saído em DVD – Ele respondeu que o copião estava nos Estados Unidos – Creio que ele não gostava de viajar muito por conta do vício do cigarro.) e a obra-prima: “Jogo de Cena”, provavelmente, o único filme com atores profissionais famosos. Curiosamente, encontrei uma das entrevistadas mais interessantes do “Jogo” no bar do teatro Rival – Uma mulher de temperamento oscilante que se emocionava com o filme da Disney “Procurando Nemo” por conta de problemas de relacionamento com a filha. Sua história pungente foi interpretada por Marília Pêra no intrincado “Jogo de Cena”. Neste dia que a reconheci, ela parecia alegre, mas quase a levei às lágrimas quando toquei no delicado assunto maternal. Numa segunda vez que a vi no metrô, não tive coragem de falar. Parecia triste demais.

Coutinho admite que apreciava o precário, o inacabado, o imperfeito, mas a verdade é que conseguia extrair beleza, emoção e poesia daquilo que parecia tosco e rude à primeira vista, fazendo seu trabalho com o cuidado de quem lapida uma pedra rara.

Eduardo Coutinho, 7 de Outubro (2015). Brasil
Direção: Carlos Nader
Com: Eduardo Coutinho
Gênero: Documentário
Duração: 72 minutos.

Mommy (2014)

mommy_2014xavier-dolan_cineastaXavier Dolan tem pouco mais de vinte anos e já conseguiu fazer uma obra-prima: Trata-se da direção do pungente filme Mommy que foge dos padrões chorosos e piegas já conhecidos ao contar a conturbada relação de Diane (Anne Dorval) com o filho problemático Steve (Antoine-Olivier Pilon) que ela defende e ama como uma verdadeira leoa.

Steve acaba de ser expulso da escola por conta do seu gênio incontrolável e agressivo. Diane o acolhe e acaba perdendo o emprego com problemas relacionados com o filho adolescente. Viúva e desamparada, é obrigada a fazer faxina e enfrentar novas crises de violência. A enigmática vizinha Kyla (Suzanne Clément) está disposta a ajudar e tudo parece entrar nos eixos até que surgem novas dificuldades.

mommy-2014_anne-dorval_e_antoine-olivier-pilonAlém de um roteiro primoroso e um elenco de primeira, Xavier lançou mão de um recurso que alguns diretores já começam a explorar: A maleabilidade da própria tela para expressar emoções. No caso, o mundo de Steve se mostra oprimido num formato de película curto e apertado que pode causar estranheza ao espectador, para se expandir em poucos e precisos momentos até chegar à tela larga padrão que representa a liberdade que o rebelde jovem precisa atingir para superar seus conflitos. Tudo colorido e amparado por uma trilha sonora deliciosa que inclui “On Ne Change Pas” cantada por Celine Dion num belo e antológico momento de descontração e “Born to Die” de Lana Del Rey nos créditos finais deste que pode ser considerado um dos melhores filmes do ano.

Carlos Henry

Teatro: O Homem Elefante (2014)

peca_o-homem-elefante_2014A história de John Merrick, um jovem com terrível deformação que viveu no século XIX, foi mundialmente conhecida quando foi levada às telas do cinema pelo magnífico trabalho de David Lynch. O menino foi apresentado em freak shows, após ter sido abandonado pela mãe que supostamente foi atacada por um elefante quando estava grávida. Esta versão teatral de “O Homem Elefante” tem texto de Bernard Pomerance impregnado do tom solene típico dos tablados e boa direção de Cibele Forjaz e Wagner Antonio. A encenação no teatro Oi Futuro do Flamengo é curiosa e fluente, mas peca pela ousadia. Há muita movimentação de palco, o que obriga a maioria dos telespectadores mal acomodados em almofadas no chão a se contorcerem para tentar acompanhar os personagens. Neste caso, a peça deveria sofrer alguns cortes, pois o resultado final após duas horas pode ser tão doloroso quanto o sofrimento de Merrick.

Tecnicamente, o trabalho tem muitos méritos como a iluminação precisa e criativa, bem como um cenário bem planejado cheio de elementos cênicos caprichados e um belo figurino. Apesar do já citado desconforto, o roteiro prende a atenção especialmente por conta do bom time de atores. Regina França se desdobra em vários papéis até encarnar a Sra. Kendal, uma atriz que consegue nortear o miserável destino do homem elefante com sua ternura e amizade. Davi de Carvalho está correto como o jovem médico Dr. Traves e Daniel Carvalho Faria exagera, mas brilha em alguns momentos desempenhando o showman Ross, que acumula a função de vilão e mestre de cerimônias.

Vandré Silveira ganhou o difícil encargo de protagonizar o espetáculo e o fez com dignidade e talento. Sua apresentação é vigorosa, alternando notável expressão corporal e vocal com coreografias difíceis e corajosas que exigem força física, nudez total, desprendimento e exatidão de movimentos. Mas sinceramente, acho que os atores deveriam moderar nas tatuagens, ainda que na maior parte do tempo, dá quase para esquecer que é um jovem malhado e tatuado na pele de um ser que tanto sofreu pelas deformidades. É a magia do teatro.

Carlos Henry

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes. 2014)

relatos-selvagens_cartazUm momento de fúria pode poupar décadas no divã do analista. Mas extravasar sem pensar aquela raiva contida pelas regras da civilidade pode causar sérias conseqüências.

relatos-selvagens-2014Neste caso, na hora de botar para quebrar, melhor assistir antes o excelente e divertido filme argentino de Damián Szifron: Relatos Salvages que reúne seis historinhas sobre as reações humanas em situações limite. O prólogo, um dos melhores dos últimos tempos já anuncia um filme extraordinário, quando um grupo de pessoas percebe que estão no mesmo voo com algo em comum: Todos conhecem um tal Pasternak em situações tão diversas quanto desagradáveis. Outro curta hilário versa sobre os efeitos de um veneno de rato já vencido no organismo de uma criatura não grata. Não falta um Road movie quando dois sujeitos de pavio curto se digladiam com seus carros no meio do nada. Ricardo Darin surge no episódio cujo entrave é a burocracia exagerada tão conhecida também no nosso país repleto de filas, guichês e funcionários mal treinados e arrogantes. Há uma sequência inteligente, mas que destoa das demais por ser um tantinho arrastada, sobre um pai rico que quer livrar o filho da cadeia a qualquer custo. Nada que comprometa o filme que fecha brilhantemente com uma festa de casamento que tinha tudo para ser perfeita, não fosse a infeliz decisão do noivo de convidar uma de suas amantes parra o evento.

Curiosamente, o filme preenche (sem nenhum dano) em parte essa lacuna animalesca e instintiva que a maioria dos seres vivos têm quando pressionados ou feridos.

Carlos Henry