Teatro – Beije Minha Lápide (2014)

beije-minha-lapide_2014.jpgA nova peça de Jô Bilac – Beije Minha Lápide – é um primor de montagem. Dirigida por Bel Garcia, a trama gira em torno do escritor Bala, que ousa romper as regras literalmente ao quebrar a parede de vidro que protege o túmulo de Oscar Wilde dos beijos dos fãs no cemitério Pére Lachaise em Paris.

beije-minha-lapide_teatroNa prisão, o confronto com a filha, a advogada e o policial irão misturar conflitos reais com os delírios literários do célebre e polêmico escritor.

O texto, apesar de complexo e denso, flui fácil e mantém interesse até o fim por conta do elenco talentoso e bem dirigido encabeçado pelo veterano Marco Nanini e por sábias incursões de humor elegante e mordaz que aliviam o drama.

A cenografia, ainda que prejudicada pelo restrito espaço do teatro dos Correios, é uma feliz coadjuvante do excelente trabalho dos atores com um cubo transparente central que representa o cárcere, criando belos efeitos etéreos de luz e projeções que só intensificam a força dos diálogos e monólogos.

Muita coisa interessante é citada explicitamente e nas entrelinhas ao longo de cerca de 80 minutos de espetáculo. Relaxe, mas assista atento e com a mente aberta, pois afinal, como é dito na peça: “O diabo mora nos detalhes.

Por Carlos Henry.

Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive. 2013)

amantes-eternos_2013O novo filme de Jim Jarmusch, “Amantes Eternos“, retrata o cotidiano de um sofisticado casal de vampiros do século XXI. Tão modernos a ponto de viver em continentes separados, Adam (Tom Hiddleston) em Detroit – U.S.A. e Eve (Tilda Swinton) em Tangier – Marrocos.

Amantes-Eternos_Tom-Hiddleston_e_Tilda-Swinton Ele é músico recluso com tendência à depressão e nostalgia e ela muito mais antenada com a tecnologia atual, diferenças ajustadas por conta de uma inteligência assombrosa. Esse pequeno desequilíbrio de evolução no tempo, natural de quem vive muito, não atrapalha a comunicação frequente de ambos e quando a saudade aperta, viajam de primeira classe com uma maleta de mão lotada de… livros. Sim, eles são inteligentes, ricos e elegantes, vestem-se com estilo e bebem sangue em taças como o melhor vinho. Preocupados com as mazelas do século, preferem ter “fornecedores” seguros do líquido vital a arriscar uma provável contaminação. Vivem assim o torpor ocioso dessa rotina lânguida e modorrenta até o momento em que recebem a visita da irmã mais nova de Eve, a espevitada Ava (Mia Wasikowska), que já havia causado problemas no passado por conta de sua jovial irresponsabilidade.

Amantes-Eternos_Mia-Wasikowska_e_John-HurtA escolha acertadíssima dos atores, sobretudo Tom Hiddleston e Tilda Swinton fazendo o enigmático casal, é o ponto alto da obra que tem ainda Mia Wasikowska e John Hurt completando o elenco. Também destaca-se a primorosa direção de arte, tão cirurgicamente detalhista que enche os olhos harmonizando sempre com o visual extravagante dos personagens (Os cabelos ressequidos e armados dos vampiros estão geniais). Tudo embalado por uma música envolvente (que inclui um divertido clip de Soul Dracula dos anos 70) permanecendo na mente mesmo após o filme e uma fotografia esmerada que valoriza enquadramentos belíssimos como as estranhas posições em que dormem as criaturas ou a visão bucólica e pitoresca da rua em que vive Eve, na exótica Tangier. Exalta a essência do tempo baseada no conhecimento e sabedoria como bem maior em diálogos cheios de nuances e um amontoado de imagens misteriosas que lançam suspeitas lúgubres a um suposto envolvimento de Shakespeare ou Kafka com uma longevidade vampiresca.

Assim como Adam e Eve, o filme “Fome de Viver” (1993) de Ridley Scott finalmente acaba de encontrar um par à altura para juntos serem cultuados eternamente.

Por: Carlos Henry.

Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive. 2013). Reino Unido. Direção e Roteiro: Jim Jarmusch. Elenco: Tom Hiddleston, Tilda Swinton, Mia Wasikowska, John Hurt. Gênero: Drama, Romance, Terror.

BERNARDES (2013)

Sergio-Bernades_documentarioNum momento de caos urbano na cidade do Rio de Janeiro, a lembrança da obra e projetos do arquiteto Sergio Bernardes soa providencial. Com a memória resgatada por parentes próximos e estudiosos, a imagem injustamente esquecida do profissional se materializa com ares de gênio bom vivant com ideias tão quiméricas quanto oportunas como bairros verticais, um porto canal ligando as baías, além de uma intrincada ligação do Brasil através dos rios. Ele acreditava que o Rio do futuro tinha posição estratégica global em todos os sentidos, mas infelizmente, seus delírios não saíram do papel.

Seu temperamento inquieto e inconsequente o impulsionava a seguir em frente, sem medir os estragos, como quando abandona a esposa no dia de aniversário de casamento de 25 anos para uma viagem repentina, ou no momento em que fecha as portas do estúdio de trabalho por conta dos excessos em planos sem conclusão.

Sergio-Bernades_documentario_02Em início de carreira nos anos 50, foi rico e famoso como seus contemporâneos Oscar Niemeyer e Lucio Costa, mas caiu no esquecimento a partir de suas ligações com o regime militar. Seu legado inclui obras como o pavilhão de São Cristóvão, O Hotel Tambaú em João Pessoa e a premiada casa da urbanista Lota Macedo, um primor de arquitetura integrada à natureza em Petrópolis.

Apesar de Thiago Bernardes, neto de Sergio, notoriamente não ser a pessoa mais adequada para conduzir as entrevistas, a sua devoção à figura do avô confere um tom respeitoso ao documentário disfarçando qualquer eventual deslize. Nada que tire o brilho, humor (as expressões e reações incrédulas dos alunos e ouvintes do arquiteto são impagáveis.) e sarcasmo sempre presentes que se encaixam com perfeição à personalidade espirituosa, imprevisível e divertida do homenageado. Neste caminho, a decisão da direção de Paulo de Barros e Gustavo Gama Rodrigues em incluir o fabuloso caso do ladrão que invade a residência de Bernardes em alguma época, contada por diferentes ângulos, não poderia ser mais feliz para compor um desfecho perfeito num filme sobre alguém cujo trabalho merecia ser revisitado.

Carlos Henry

Jersey Boys – Em Busca da Música (2014)

JERSEY-BOYS_atores-e-diretoresÉ fácil entender o insucesso do novo filme de Clint Eastwood. O público e a crítica internacional certamente esperavam uma adaptação típica de um musical da Broadway, no caso: “Jersey Boys” sobre a trajetória de Frankie Valli e seu grupo “Four Seasons”.

O roteiro concentra-se nos personagens de Valli (John Lloyd Young) e Tommy DeVito (Vincent Piazza) como amigos, sendo o primeiro o vocalista principal e responsável pelo sucesso estrondoso do grupo e o segundo o amável vilão que toma as rédeas do conjunto e os conduz ao declínio e até à prisão com sua notável irresponsabilidade. Outro personagem curioso é o de Christopher Walken que imprimiu ternura e sensibilidade à figura de Gyp DeCarlo, um chefe do crime organizado que se afeiçoa ao trabalho dos jovens músicos e acaba interferindo em vários momentos no caminho tortuoso da fama dos talentosos rapazes.

Com a sabedoria de uma carreira sólida, Clint optou pelo caminho mais difícil com atores pouco conhecidos e uma narrativa saudosista e estranha ao gênero. O resultado é um cinemão emocionante capaz de tocar até mesmo os menos familiarizados com a música do conjunto que arrebatou plateias na década de 60.

Mesmo quem não ligar o nome à pessoa, vai ser difícil deixar de reconhecer canções belíssimas como “Can’t take my eyes off you”, “Sherry”, “Working my way back to you”, “My eyes adore you” e “December ’63 (What a night)”. Esta última fecha a obra com chave de ouro resgatando todo o glamour que Clint evitou ao longo da trama num grand finale inesquecível. Afinal, é difícil lembrar de outra música tão contagiante.

Carlos Henry

OLHO NU (2014). O Ney Matogrosso dos Palcos e da Vida.

ney_matogrossoO documentário de Joel Pizzini sobre a trajetória do prolífico artista Ney Matogrosso, foge aos padrões comuns. Para começar, não há depoimentos de outras pessoas sobre o cantor, salvo um ou outro pequeno comentário sempre sem legendas ou marcações de tempo, que parece não ter importância alguma na narrativa habilmente fragmentada. É o próprio Ney quem fala de si mesmo o tempo todo. Ele critica e analisa suas imagens de arquivo e falas do passado com a autoridade de seus mais de setenta anos.

ney-matogrossoControversamente à sua aparente sisudez, Ney aparece despudorado, com roupas e maquiagem extravagantes que o tornaram famoso, ou completamente nu, integrado a uma natureza selvagem de lagos, matas e bichos que diz fazer parte, como sintetiza a bela imagem do imenso caracol que lhe acaricia o rosto. É curioso assisti-lo falando afirmações conhecidas como quando diz que não acha o próprio corpo bonito, mas usa como se fosse. E até acreditam. Complementa.

A narrativa recheada de trechos de letras que ele já cantou e comentários quase sempre muito sérios e fortes ilustra uma vasta produção musical de qualidade, incluindo as músicas do lendário grupo Secos & Molhados com cenas inéditas do antológico show no Maracanãzinho nos anos 70.

Nem mesmo as suas eventuais e desastrosas declarações políticas, sob a justificativa de uma suposta subversão congênita, conseguem arranhar uma carreira íntegra, rica e bela que o filme consegue registrar em cada fotograma. Ney é vencedor e sua força não teme as rugas ou a morte, como na cena que mostra Paulete e Cazuza numa reunião e se pergunta por que não foi embora na leva de uma doença que matou tantos amigos nos anos 80. Às vezes, mais de um funeral por dia, lembra entristecido na condição de sobrevivente.

Como já cantou tantas vezes com seu sangue latino: O que me importa é não estar vencido.

Carlos Henry.

Gata Velha Ainda Mia (2013)

Gata-Velha-Ainda-Mia_filmeRegina Duarte tem a chance de escapar mais uma vez do estigma de “namoradinha do Brasil” que ainda a persegue desde quando estreou na televisão na década de 60.

Neste engenhoso e tenso trabalho de Rafael Primot, Regina encarna a velha escritora ranzinza, Gloria Polk, que não escreve faz tempo. Nessa pausa com as letras, ganha a vida como cozinheira, mas resolve retomar um antigo personagem na forma de um novo livro. O problema é que não sabe como definir o desfecho do romance. Sua mente já perturbada confunde ficção e realidade quando a jovem Carol (Bárbara Paz) chega para entrevistá-la.

gilda-nomacce_em-gata-velha-ainda-miaO encontro das duas suscita uma discussão interessante num embate de gerações cheio de ideias divergentes. Num dos diálogos, a escritora Gloria Polk responde porque gente velha acumula tanto cacareco. Ela explica que os bibelôs agem como alavanca para acionar a memória senil. Complementa que os jovens estão cada vez mais impessoais por não saberem preservar a textura do passado. Digitalizam, editam, deletam, mas não retêm. Essa contenda difícil de concluir é habilmente interrompida pela chegada do bizarro personagem Dida (Gilda Nomacce), uma vizinha estranha e intrometida que começa a dar uma nuance soturna à trama.

Ainda que precise de um ou outro pequeno ajuste, especialmente em sua segunda parte, quando o roteiro ganha tons mais pesados, o filme tem o mérito da ousadia, quando flerta deliciosamente com os gêneros noir e terror, raros no Brasil.

Carlos henry