Mommy (2014)

mommy_2014xavier-dolan_cineastaXavier Dolan tem pouco mais de vinte anos e já conseguiu fazer uma obra-prima: Trata-se da direção do pungente filme Mommy que foge dos padrões chorosos e piegas já conhecidos ao contar a conturbada relação de Diane (Anne Dorval) com o filho problemático Steve (Antoine-Olivier Pilon) que ela defende e ama como uma verdadeira leoa.

Steve acaba de ser expulso da escola por conta do seu gênio incontrolável e agressivo. Diane o acolhe e acaba perdendo o emprego com problemas relacionados com o filho adolescente. Viúva e desamparada, é obrigada a fazer faxina e enfrentar novas crises de violência. A enigmática vizinha Kyla (Suzanne Clément) está disposta a ajudar e tudo parece entrar nos eixos até que surgem novas dificuldades.

mommy-2014_anne-dorval_e_antoine-olivier-pilonAlém de um roteiro primoroso e um elenco de primeira, Xavier lançou mão de um recurso que alguns diretores já começam a explorar: A maleabilidade da própria tela para expressar emoções. No caso, o mundo de Steve se mostra oprimido num formato de película curto e apertado que pode causar estranheza ao espectador, para se expandir em poucos e precisos momentos até chegar à tela larga padrão que representa a liberdade que o rebelde jovem precisa atingir para superar seus conflitos. Tudo colorido e amparado por uma trilha sonora deliciosa que inclui “On Ne Change Pas” cantada por Celine Dion num belo e antológico momento de descontração e “Born to Die” de Lana Del Rey nos créditos finais deste que pode ser considerado um dos melhores filmes do ano.

Carlos Henry

Teatro: O Homem Elefante (2014)

peca_o-homem-elefante_2014A história de John Merrick, um jovem com terrível deformação que viveu no século XIX, foi mundialmente conhecida quando foi levada às telas do cinema pelo magnífico trabalho de David Lynch. O menino foi apresentado em freak shows, após ter sido abandonado pela mãe que supostamente foi atacada por um elefante quando estava grávida. Esta versão teatral de “O Homem Elefante” tem texto de Bernard Pomerance impregnado do tom solene típico dos tablados e boa direção de Cibele Forjaz e Wagner Antonio. A encenação no teatro Oi Futuro do Flamengo é curiosa e fluente, mas peca pela ousadia. Há muita movimentação de palco, o que obriga a maioria dos telespectadores mal acomodados em almofadas no chão a se contorcerem para tentar acompanhar os personagens. Neste caso, a peça deveria sofrer alguns cortes, pois o resultado final após duas horas pode ser tão doloroso quanto o sofrimento de Merrick.

Tecnicamente, o trabalho tem muitos méritos como a iluminação precisa e criativa, bem como um cenário bem planejado cheio de elementos cênicos caprichados e um belo figurino. Apesar do já citado desconforto, o roteiro prende a atenção especialmente por conta do bom time de atores. Regina França se desdobra em vários papéis até encarnar a Sra. Kendal, uma atriz que consegue nortear o miserável destino do homem elefante com sua ternura e amizade. Davi de Carvalho está correto como o jovem médico Dr. Traves e Daniel Carvalho Faria exagera, mas brilha em alguns momentos desempenhando o showman Ross, que acumula a função de vilão e mestre de cerimônias.

Vandré Silveira ganhou o difícil encargo de protagonizar o espetáculo e o fez com dignidade e talento. Sua apresentação é vigorosa, alternando notável expressão corporal e vocal com coreografias difíceis e corajosas que exigem força física, nudez total, desprendimento e exatidão de movimentos. Mas sinceramente, acho que os atores deveriam moderar nas tatuagens, ainda que na maior parte do tempo, dá quase para esquecer que é um jovem malhado e tatuado na pele de um ser que tanto sofreu pelas deformidades. É a magia do teatro.

Carlos Henry

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes. 2014)

relatos-selvagens_cartazUm momento de fúria pode poupar décadas no divã do analista. Mas extravasar sem pensar aquela raiva contida pelas regras da civilidade pode causar sérias conseqüências.

relatos-selvagens-2014Neste caso, na hora de botar para quebrar, melhor assistir antes o excelente e divertido filme argentino de Damián Szifron: Relatos Salvages que reúne seis historinhas sobre as reações humanas em situações limite. O prólogo, um dos melhores dos últimos tempos já anuncia um filme extraordinário, quando um grupo de pessoas percebe que estão no mesmo voo com algo em comum: Todos conhecem um tal Pasternak em situações tão diversas quanto desagradáveis. Outro curta hilário versa sobre os efeitos de um veneno de rato já vencido no organismo de uma criatura não grata. Não falta um Road movie quando dois sujeitos de pavio curto se digladiam com seus carros no meio do nada. Ricardo Darin surge no episódio cujo entrave é a burocracia exagerada tão conhecida também no nosso país repleto de filas, guichês e funcionários mal treinados e arrogantes. Há uma sequência inteligente, mas que destoa das demais por ser um tantinho arrastada, sobre um pai rico que quer livrar o filho da cadeia a qualquer custo. Nada que comprometa o filme que fecha brilhantemente com uma festa de casamento que tinha tudo para ser perfeita, não fosse a infeliz decisão do noivo de convidar uma de suas amantes parra o evento.

Curiosamente, o filme preenche (sem nenhum dano) em parte essa lacuna animalesca e instintiva que a maioria dos seres vivos têm quando pressionados ou feridos.

Carlos Henry

TRINTA (2012). E o Brasil Conheceu um Gênio!

trinta-2012_cartazPor: Carlos Henry.
trinta_cena-do-filmeO filme de Paulo Machline sobre a trajetória do carnavalesco Joãosinho Trinta poderia ganhar tons de um documentário chato, não fosse a feliz opção do diretor em pinçar o importante episódio da tumultuada estreia solo do artista no Salgueiro quando já havia deixado o corpo de baile do Teatro Municipal para se dedicar ao carnaval. O foco do roteiro é a preparação do inesquecível e premiado enredo “O Rei da França na Ilha da Assombração (In credo em Cruz)” no ano de 1974. Enfrentando todo tipo de percalços e preconceitos, Joãosinho revolucionou o espetáculo das Escolas de Samba, consagrando-se como o mais importante artista da área.

Concentrando-se neste episódio decisivo, o diretor conseguiu satisfazer a curiosidade do espectador, sem se perder em muitas histórias, personagens ou detalhes irrelevantes, dando ênfase ao frenético ritmo dos bastidores da festa, com direito à magia e mistério na participação de Léa Garcia como Nha Zita, humor no ambiente tumultuado do barracão representado pelo personagem Calça Larga (Fabricio Boliveira) e suspense na dose certa na pele do antagonista Tião interpretado pelo sempre visceral Milhem Cortaz.

Matheus-Joaosinho_filmeApesar de não contar a história completa do artista, nem ousar mostrar muito da festa propriamente dita, o que certamente encareceria horrores a produção, Machline traça com competência um perfil abrangente de Trinta, destacando a força criativa que enxergava o desfile como uma verdadeira ópera numa analogia genial que mudou o conceito das Escolas de Samba. Infelizmente, de lá para cá, exageraram a dose na avenida, transformando tudo num exagerado show de efeitos especiais com pouco samba de verdade, sensualidade e brasilidade.

Matheus Nachtergaele compôs o papel principal com maestria assombrosa, sobretudo na difícil cena em que tem uma inesperada e providencial explosão nervosa em torno de um punhado de ajudantes atabalhoados neste filme tão belo e empolgante quanto um desfile de carnaval à moda antiga.

Teatro: Chacrinha, O Musical (2014)

Chacrinha-O-Musical_Teatro-Joao-Caetano_RJ-14nov14Por: Carlos Henry.
Na direção, brilha o nome de Andrucha Waddington que já havia provado o talento em filmes bem feitos como “Casa de Areia” e “Gêmeas”. O roteiro é assinado por outro nome famoso: Pedro Bial, cuja figura esteja impossível de desassociar a um detestável programa de “Reality show” na TV a esta altura, mas que também criou boas obras para o cinema como “Outras Estórias” e “Jorge Mautner, o Filho do Holocausto”. O tema é a vida de Abelardo Barbosa, o mais famoso apresentador de programas de auditório da TV brasileira, mais conhecido como Chacrinha, que também virou sinônimo de anarquia e festa. O projeto foi transformar a vida deste ícone que lançou e promoveu um monte de artistas até os anos 80, num musical – uma boa ideia, visto que o gênero vem atingindo considerável qualidade no cenário nacional. Para arrematar, o papel título coube ao excelente ator Stepan Nercessian, um artista nato de inegável talento.

chacrinha-o-musical_stepan-nercessianOs ingredientes pareciam conduzir a uma receita infalível, mas na hora de finalizar, talvez pelo excesso de alguns ingredientes e falta de outros, o resultado não foi dos melhores. A aridez do nordeste, região que o artista nasceu, não justifica a (longa) primeira parte da peça ter aquele tom monocórdio amparado por cenários estilizados pintados em tintas econômicas. Outro problema é ausência de vozes realmente extraordinárias no time de cantores, a ponto de Stepan, que não é cantor, conseguir se nivelar no meio das canções com o restante do elenco em resultados que oscilam entre o aceitável e o sofrível com direito a alguns acordes desafinados que a orquestra somente correta não conseguiu disfarçar. A falha é nítida num primeiro medley musical que parece não terminar. A coisa piora quando um ou outro artista arrisca um solo. Há muitos momentos desperdiçados como “secos e molhados” que surge como se fosse um único cantor.

Apesar do corte abrupto no espaço de tempo entre um programa de rádio mequetrefe de começo de carreira até uma sofisticada aparição na televisão, o segundo ato abre já num cenário exuberante do famoso programa de auditório anunciando melhores momentos e animando a plateia. O visual é colorido e detalhado reproduzindo o clima de bagunça do cassino e da discoteca do bufão Chacrinha. Infelizmente, os problemas básicos da produção evidentes no primeiro ato começam a deteriorar os bons efeitos do início do segundo, fechando num nível que pouco consegue ultrapassar três estrelas.

Chacrinha-O-Musical_Chacretes_Teatro-Joao-Caetano_RJ-14nov14Para quem estava na plateia em estreia aberta ao público, uma grata surpresa numa cena que não voltará a acontecer em outras apresentações: Sob o olhar de Pedro Bial, a chacrete (Como eram chamadas as dançarinas do apresentador) mais famosa do programa, Rita Cadillac, que estava assistindo a peça, é chamada ao tablado junto com Russo, um histriônico assistente de palco que trabalhou o tempo todo com Abelardo. Stepan, incorporado no personagem, simulou brincadeiras típicas da época levando Rita às lágrimas e aos risos quando pediu que a voluptuosa artista dançasse sensualmente a “pantera” diante de um Russo emocionado.

Chacrinha morreu em 1988 e certamente nunca será esquecido. Embora até agora não tivesse acontecido uma obra que homenageasse o velho guerreiro em sua plenitude, ainda há tempo. É como ele mesmo dizia: O programa só acaba quando termina.

Carlos Henry

Panorama do Festival do Rio 2014 – parte V – Documentário: Peter de Rome: Vovô do Pornô Gay (2014)

peter-de-romePeter de Rome: Vovô do Pornô Gay” é mais um documentário fraco da mostra. Dirigido por Ethan Reid, a verborreia convida o espectador ao sono mais profundo para acordar somente nas poucas e válidas cenas de sexo explícito.

Na década de 60/70, o cineasta inglês Peter de Rome corajosamente realizou dezenas de filmes pornográficos gays quando a homossexualidade ainda era crime. Os filmes, sem grande qualidade técnica, possuíam notável valor criativo a ponto de chamarem a atenção do artista Andy Warhol e serem restaurados e catalogados pelo British Film Institute.

As sequências com homens negros, a visita ao estúdio do célebre realizador de filmes gay Kristen (Carnaval in Rio) Bjorn e os detalhes inacreditáveis das filmagens de sexo real (underground) dentro de um vagão de metrô lotado merecem destaque.

Infelizmente, o clima hedonista que reina nas cenas de sexo e nas locações em Fire Island é prejudicado com longas entrevistas de pouco conteúdo, o que não leva a recomendar o filme.

Por: Carlos Henry.