Série: Gotham (2014-). Uma Nova Ótica Lançada Sobre um Conteúdo Aparentemente Inesgotável

Gotham_seriePor: Cristian Oliveira Bruno.
Batman_KaneQuando adapta-se uma cosmologia tão rica e tão famosa quanto a do Batman, icônico personagem de Bob Kane, se faz necessário manter uma cautela toda especial no que diz respeito às alterações que serão feitas tanto na cronologia quanto na concepção dos personagens. No caso do super-herói em questão, tudo é mais complicado ainda, pois quase não há o que já não tenha sido feito. O tom mais cartunesco já fora ditado e orquestrado com maestria por Tim Burton em seus Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992). A atmosfera mais sombria e pesada a qual parece ter sido a versão definitiva dada ao personagem nos anos 80, com O Cavaleiro das Trevas, do Deus dos quadrinhos Frank Miller – a melhor série já feita sobre o Homem-Morcego – foi recente elevada a um outro estágio com a consagrada trilogia de Christopher Nolan (Batman Begins [2005], The Dark Knight [2008] e The Dark Night Rises [2012]). Mesmo a inocência e a fantasia dos primeiros exemplares dos quadrinhos teve sua vez entre 1966 e 1968, com uma série de TV contendo 60 episódios da dupla dinâmica. Assim sendo, o que de novo e diferente o produtor Bruno Heller (The Mentalist [2008-2015]) e o diretor e produtor executivo Danny Cannon (O Juiz [1995]; Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado [1998]) poderiam apresentar em mais uma adaptação para a TV? A resposta veio com o título da série: Gotham.

Gotham_01Voltando pelo menos 15 anos no tempo, a proposta desta vez é apresentar uma nova ótica e lançar o olhar sobre a cidade, ao invés de seu mais ilustre residente, e mostrar como uma cidade tão corrupta e dominada pelo crime chegou ao ponto de precisar de um justiceiro mascarado para manter a ordem. E isso é o mais interessante em Gotham. Mais do que acompanhar os primeiros passos e a origem de vários personagens do universo dos quadrinhos (alguns famosos, outros nem tanto), a série se baseia no fato de que ainda não há um justiceiro mascarado para defender Gotham. E com a polícia, a justiça e o próprio prefeito Aubrey James (Richard Kind) e o comissário Loeb (Peter Scolari) nas mãos dos dois chefões das famílias mafiosas que controlam todo o crime da cidade, Carmine Falcone (John Doman) e Salvatore Maroni (David Zayas), cabe ao ainda jovem detetive James Gordon (Ben McKenzie) assumir o papel de paladino solitário da justiça. E quando eu digo solitário, não é força de expressão. Embora com o passar do tempo Gordon vá adquirindo aliados em sua inspiradora jornada de combate ao crime mais do que organizado, até um certo ponto dela ele se vê abandonado por seus companheiros, chefe e seu parceiro Harvey Bullock (Donal Logue).

gotham_02O plot da série é o assassinato de Thomas e Martha Wayne e a promessa feita por Gordon ao pequeno Bruce Wayne (David Mazouz) – retratado aqui aos 12 anos – de encontrar o responsável. A partir desse momento, Gordon adentra de vez no submundo e começa a entender como a cidade funciona. Não é que todos os seus habitantes sejam corruptos, mas todos têm família e jamais arriscariam oporem-se a Falcone ou Maroni. Essa faceta de uma Gotham dominada por figuras poderosas, mas sem super-poderes acaba por tornar-se, naturalmente, o segmento mais interessante da série. Não que a relação tutor/serviçal/pai entre Alfred Pennyworth (Sean Portwee) e seu determinado protegido não seja deveras comovente, ou que a luta da ambígua e maliciosa Selina Kyle (Carmen Bicondova) para sobreviver nas ruas não tenha seus momentos – embora seja a ramificação mais trôpega do programa -, mas é no núcleo criminoso que encontram-se os melhores personagens, situações e conflitos mais tensos e interessantes.

gotham_03Com um elenco bastante regular e em sua maioria experiente, os personagens acabam ganhando uma roupagem diferenciada e uma cara própria, embora não abandonem os aspectos e traços mais fortes pelos quais ficaram mundialmente conhecidos. Ben McKenzie (do seriado OC e de 88 Minutos) compõe um Jim Gordon intenso e forte, com uma segurança e uma presença em cena muito boas, mostrando o quanto evoluiu com o passar dos anos. Sua parceira inicial, Erin Richards – que interpreta Barbara Keen, primeiro par romântico de seu personagem na trama – não está tão mau, mas carece de uma química maior com o protagonista. Falha esta corrigida absurdamente com a inserção da personagem da Dra. Leslie “Lee” Thompson, interpretada pela brasileira Morena Baccarin (do seriado V – Invasores), cônjuge do ator, tornando a interação entre ambos algo natural, e isso reflete-se na tela. Também destaca-se neste quesito, sem a menor sombra de dúvidas, Oswald Cobblepot, o Pinguim, de Robin Taylor Lord, tão afetado e tresloucado quanto ameaçador e doentio. Taylor Lord vive a dolorosa saga de ascensão daquele que será o futuro Rei do crime da cidade. Donal Logue recebe uma tarefa ao mesmo tempo motivadora e arriscada ao viver o Det. Bullock como um dos protagonistas, já que o personagem não havia ganhado tanto destaque até aqui fora dos quadrinhos – olhe lá uma rápida aparição no primeiro filme de Tim Burton – e sempre fora retratado como policial corrupto e desonesto, com o perdão da redundância. Aqui, Bullock ganha um novo ponto de vista e é retratado não apenas como um mau policial, como alguém que viveu a vida inteira em Gotham e conhece aquela cidade e como ela funciona, sabendo jogar de acordo com suas regras. O choque de personalidades com Gordon faz com que Bullock passe de um obstáculo para ser o primeiro aliado de Gordon – e um importante aliado, pois Bullock conhece o crime da cidade.

gotham_os-viloesCriada especialmente para a série, Fish Mooney (interpretada com muita ferocidade e ímpeto por Jada Pinkett Smith) não só possui um papel importantíssimo na trama, tanto no andamento desta quanto na formação de background de demais personagens, e com certeza agradou (ou agradará) grande parte dos fãs – embora o desfecho dado a ela não seja dos mais agradáveis, ou mesmo bem pensados, provavelmente sua relação com seu fiel capanga Butch Gilzean (Drew Powell) promete arrebanhar muitos fãs para a dupla. Vários outros personagens tradicionais nas páginas das revistas da DC Comics dão as caras por aqui, sendo que alguns são bastante conhecidos do público, como Harvey Dent (Nicholas D’Agosto) – o Duas-Caras -, Edward Nygma (Cory Michael Smith) – O Charada -, Victor Szasz (ANthony Carrigan), Dr. Francis Dulmacher (Colm Feore) – o Mestre dos Bonecos -, Dr. Gerald Crane (Julian Sands) – criador do gás alucinógeno usado por seu filho Jonatan, o futuro Espantalho – e outros mais conhecidos apenas pelos mais familiarizados com o universo Batman, como Jack Buchinski (Christopher Heyendahl) – o Eletrocutador -, a policial Renee Montoya (Carmen Cartagena), Richard Sionis (Todd Stashwick) – o Máscara Negra -, Aaron Helzinger (Kevin McCormick) – o Amígdala, vilão muito semelhante e freqüentemente confundido com Bane – e Larissa Diaz (Lesley-Ann Brandt) – a Cobra venenosa.

gotham_04Mas dois vilões destacam-se neste paraíso dos “Batmanáticos“, cada um a sua maneira. O primeiro deles é Jerome Valeska (Cammeron Monaghan) que, mesmo sem ser oficialmente apresentado como tal, trata-se da versão do seriado para o maior inimigo do Homem-Morcego: o Coringa. O episódio onde o vilão aparece não é um dos melhores da temporada, mas Monaghan destaca-se no diálogo final quando a referência ao coringa é feita, em uma atuação muito boa. O outro é apresentado apenas no episódio 19 (e mantém-se ate o episódio 21, penúltimo da temporada – tendo sido especulado também na segunda temporada, embora fique claro e óbvio que isso não ocorrerá). Jason Solinski, o “Ogro” (Milo Ventimiglia), surge como o principal vilão da série até então, oferecendo sensação de risco real para os mocinhos. O Ogro é aquele com quem todo policial da cidade tem medo de mexer. Gordon também, mas isso não o faz recuar. Esse ponto da trama é um dos pontos altos da série e poderia ser, inclusive, o desfecho (não que o episódio 22 não seja satisfatório, mas o 21 é ainda melhor.

gotham_06Mas a própria Gotham City é a principal personagem da série. Todo personagem da cosmologia criada por Bob Kane, de Bruce Wayne à Mr. Freeze, é composto com base em traumas, seja a perda de um ente querido ou a sensação de impotência perante as situações enfrentadas diariamente. E Gotham está repleta de traumas os todos os cantos. Traumas e mitos. Em Gotham qualquer um pode ser o que quiser. Heróis e vilões usam máscaras visíveis, enquanto a alta sociedade usa máscaras políticas e diplomáticas. Por isso o Bandido do Capuz Vermelho representa mais do que um simples elemento daquela sociedade, mas também um sentimento. Gotham resume o sonho americano de ser a terra das oportunidades. Qualquer um pode ser rei em Gotham, basta tomar o que é seu por direito. Mesmo que não seja seu de direito. E a maneira como Heller e Cannon retratam esteticamente a atemporalidade da mística cidade é curioso. Há celulares e computadores, o que nos põe imediatamente nos dias de hoje. Os carros são das décadas de 60, 70 e 80 e os prédios e as ruas remetem aos anos 30 e 40. Sabemos que Gordon lutou recentemente em uma guerra, mas não sabemos qual foi. Nada é dito sobre o que ocorre além das fronteiras da cidade. Quem é o presidente, de onde vêm as pessoas de fora e tudo mais que não envolva Gotham permanece um mistério. Gotham é uma cidade que existe apenas no imaginário e está sempre em constante formação e Cannon e Heller nos permitem preencher estas lacunas, cada um a nosso modo.

gotham_05A primeira temporada, apesar do caráter experimental, foi melhor do que o esperado. Sofre alguma irregularidade com relação ao ritmo e a consistência – coisa mais do que comum em séries sem um diretor fixo -, mas no fim das contas Heller e Cannon seguram bem as pontas e trilharam um belíssimo caminho para ser expandido nas próximas temporadas já anunciadas. Foi muito bom ver que ainda há o que explorar – com dignidade – de um universo já tão esmiuçado no decorrer dos anos. Este que vos escreve é fã do herói em questão e confessa sem vergonha que estava desesperançoso com esta série, mas fiquei bastante satisfeito com o resultado final desta primeira temporada e a recomendo sem medo para os fãs de Batman e até mesmo para os não fãs, dada a boa distribuição dos núcleos.

Avaliação Geral da Primeira Temporada: 7,5.

Série: Gotham (2014 – )
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Série: Jornadas nas Estrelas (1966/1969). E o Futuro Imperfeito

jornadas-nas-estrelas_seriePor Morvan Bliasby.
jornadas-nas-estrelas_Kirk-e-UhuraJornadas nas Estrelas, o seriado que encantou, desde a década de 1960, até os dias atuais, toda uma geração de fãs (não, não se refere aos Trekkers; eu disse fãs, sem o ‘nático’.) inovou em tudo, ou quase. Foi a primeira série a apresentar, principalmente para a sociedade estadunidense, reconhecidamente refratária, a possibilidade de coexistência de pessoas, humanas ou não, e até de haver interação e romance entre estas. Foi a primeira vez, por exemplo, que um homem australoide beijou uma mulher afrodescendente, clara e ostensivamente (a tevê estadunidense já havia ensaiado esta ousada cena, com a desculpa de esbarros, para não irritar os sulistas, reconhecidamente etnicistas) no episódio Plato´s Stepchildren (Enteados de Platão, literalmente) entre o Capitão James T. Kirk (William Shatner) e a Tenente Nyota Uhura (Nichelle Nichols).

jornadas-nas-estrelas_alimentacao-e-lixoJornadas nas Estrelas inovou em quase tudo, reitere-se. Para início de conversa, deixou Malthus falando sozinho, ao resolver o problema alimentar, pelo menos na Enterprise e onde a Federação aparecesse. Nada que as pesquisas em agrobiologia não já o fizessem, mas os sintetizadores de alimentos da Enterprise resolviam também o problema da limpeza e da reciclagem dos utensílios. O melhor de dois ou mais mundos, não?

Inovou na medicina, na tecnologia em rádio-transmissão (os comunicadores, mesmo os trambolhos da série original, são o protótipo do sistema de codificação do celular de Hedy Lamarr e dos nossos, claro).

jornadas-nas-estrelas_federacao

Uma das maiores abordagens utópicas de Jornadas nas Estrelas talvez venha a ser a possibilidade de haver paz e colaboração entre raças, não restringindo mais o problema da intolerância à espécie humana. Vulcanos, klingons, cardassianos, romulanos, vidianos, ferengui, talaxianos, todos, um a um, acabariam por se filiar à Federação dos Planetas Unidos (uma versão bem abrangente, ecumênica, sincrética, até, da Organização das Nações Unidas — se só há uma raça, aqui, a humana, então, a Federação haveria de comportar as outras espécies inteligentes dos Universos. Um bom recado aos intolerantes humanos contemporâneos). No caso dos vulcanos, malgrado seu passado violento, a aliança com a Federação pareceu mais natural, apesar disto, mas, no caso dos klingons, eles só se aliaram à Federação após ter, em um dos filmes da franquia, seu mundo iminentemente destruído, caso não recorressem à aliança; de qualquer modo, é pouco crível que uma raça beligerante e de hierarquia vertical, os klingons, consiga construir naves espaciais. É uma licença poética da franquia, sem dúvida.

Registre-se o fato de ser a Capitã[o] Janeway a primeira mulher a comandar uma nave. Há mulheres em altos postos na Federação, humanas ou não. Mas só em Jornadas nas Estrelas – Voyager, há uma capitã.

A série e os filmes da franquia pouco a pouco foram deixando ‘recados’ para as suas diversas gerações. Estes falam em tolerância, paz, avidez por descobertas, divulgação, tendo sempre como foco a Primeira Diretriz, que parece ser o mais próximo do conceito da autodeterminação das raças.

jornadas-nas-estrelas_simbolosMas há um aspecto na franquia que causa questionamentos: existe um irrecorrível apelo marcial, apesar das mensagens subliminares de paz e de congraçamento entre raças de todos os universos. Há muito símbolos náuticos na série, bem mais do que aquela saudação fúnebre, sempre que um corpo é ejetado da nave, e em toda a franquia, até aqui, mas não se discuta isso. Mais e além.

Para uma franquia que sobrepujou o preconceito étnico, pregou a paz universal, erradicou a cobiça, o dinheiro, o comércio como simplesmente fonte de lucros (a Federação comercia, mas, nota-se, claramente, numa abordagem de intercâmbio cultural, exceto, por eles claro, com os Ferengui), faz alianças com raças extremamente belicosas, como os hyrogens, ou os romulanos, etc., a inexpugnável tutela militar parece incoerente e muito mal explicada. Seria esta a verdadeira distopia conceitual de Jornadas nas Estrelas, nosso futuro imperfeito? A Federação não encontrou meios de organização civis, só há a saída pela via militar? Todas as raças elencadas, durante toda a marca Jornadas, parecem ter a tutela militar como forma irrecorrível de organização.

Seria intencional, esta “marciogonia”, seria fruto da inspiração de seus roteiristas, medo de propor temas espinhosos, como a verdadeira democracia, sem protetores e sem salvadores, de propor um “indo além”, no caso, uma sociedade anárquica, autorregulada, por estarem inseridos numa sociedade, como a estadunidense, refratária a qualquer ideia que possa redundar em comunismo, em superação de Governos e de tutores?

jornadas-nas-estrelas_personagensSão muitas perguntas. Nenhuma resposta, por ora. E o leitor, o que pensa? Param aí, as inovações de Jornadas nas Estrelas? Ou Mad Max, Ellysium e outros distópicos têm razão, o futuro é sombrio, ou seja, só nos resta sermos tutelados ou rebelados? Gostaria de ouvir o que você pensa, sobre isso.

Cidade dos Anjos (1998). Um dos Mais Belos Romances do Cinema

cidade-dos-anjos-1998_cartazPor Cristian Oliveira Bruno.

Você já amou alguém em sua vida? Não falo de se apaixonar, pois nos apaixonamos todos os dias por coisas diferentes e, muitas vezes, essa paixão dilui-se com o passar do tempo. Falo de amar de verdade. Do fundo da alma. Sentir algo que você não sabe explicar. Um sentimento capaz de deixar sua vida e sua existência completamente desorientada, sem rumo. Falo de não pensar duas vezes antes de abandonar tudo o que você sempre desejou e buscou na sua vida e fazer os mais indizíveis sacrifícios em nome desse sentimento. Tudo isso só para poder estar com a pessoa amada, mesmo que “estar” não signifique “ficar” com esta pessoa.

cidade-dos-anjos-1998_01Se a resposta for ‘sim’, você entenderá e gostará de Cidade dos Anjos (City of Angels, 1998). Se a resposta for ‘não’, você pode até achar insólita a estória de Seth (Nicolas Cage), um anjo do reino de Deus disposto a tornar-se mortal e abandonar a eternidade para ficar com a Dr. Meggie Rice (Meg Ryan), mas você ainda irá gostar do filme.

O porquê de tanta certeza? Não sei. Mas o fato é que Cidade dos Anjos é um filme muito bom puramente como cinema. O diretor Brad Silberling (Gasparzinho; Desventuras em Série) realiza seu único trabalho maduro e sério (embora Um Astro em Minha Vida seja um bom filme também), mas o faz com grande competência e esmero, e nos entrega um romance agradável e singelo. Bonito, acima de tudo.

A trilha sonora é ótima, com destaque para a canção “Iris“, da banda Goo Goo Dolls, que embalou muitos corações apaixonados na época. O visual gótico dos anjos dá um charme especial ao filme. Nicolas Cage ainda levava sua carreira a sério e Meg Ryan não compromete em nada o filme, além de contarmos com o excelente Andre Braugher (Duets; O Nevoeiro) no elenco.

cidade-dos-anjos-1998_02O simples roteiro (esmiuçado em apenas duas linhas logo acima) apresenta os elementos básicos do gênero: dois seres apaixonados e uma barreira aparentemente intransponível entre os dois, que exigirá um sacrifício hercúleo para ficarem juntos. O ritmo dado pelo diretor ao filme é muito bom, distribuindo os atos pelos 115 minutos do filme de maneira com que este não nos canse nos momentos em que deveria prender nossa atenção. Mesmo assim, alguns furos chamam a atenção, como Sr. Messinger (Dennis Franz) deixa o hospital para dar uma volta pela cidade com Seth – afinal, como ninguém viu um homem em vestes pós-operatórias zanzando por aí – e a relativa naturalidade com que Meggie encara a situação de se apaixonar por um anjo, mas nada muito fora do contexto.

cidade-dos-anjos-1998_03Mesmo determinado, Seth se encontra em dúvida, em um dilema. Como deixar a eternidade para um inseguro salto para o desconhecido? Seth acaba descobrindo que ser humano livre é mais difícil do que viver toda a eternidade sob os dogmas de uma doutrina celestial. Como anjo, Seth poderia ver de perto toda a transformação do universo e da humanidade, mas sem nunca poder senti-la na pele, na alma. Caindo na terra, viveria apenas mais algumas décadas, mas teria algo que a imortalidade jamais poderia lhe conceder: uma vida. Uma vida feita de momentos para recordar, motivos para lamentar e um amor para viver.

A tragédia anunciada parece, num primeiro instante, tornar a jornada de Seth desastrosa. Mas, na verdade, dá todo o sentido às escolhas que fez. Seth entendeu que as maiores dádivas concedidas por Deus estão ao nosso redor. Descrevê-las, observá-las e presenciá-las não são o mesmo que senti-las. E isso é passado com muita eficiência pela direção.

Cidade dos Anjos continua sendo um dos grandes romances do cinema, mesmo 16 anos após seu lançamento, e ainda hoje é capaz de emocionar, ou pelo menos, agradar em um nível bem acima da média.

Avaliação: 08.

Cidade dos Anjos (City of Angels. 1998)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Magnólia (1999). Um Complexo Mosaico da Vida Cotidiana

magnolia-1999_cartazmagnolia-1999_01Por: Cristian Oliveira Bruno.

Uma vez montado, o quebra-cabeças de P.T. Anderson forma uma das mais belas pinturas sobre a difícil vida cotidiana, tão em voga no final do século passado.

Linda Partridge (Julianne Moore) é uma mulher que se casou por puro interesse financeiro com Earl (Jason Roboards), um milionário idoso consumido pelo câncer. Sentindo-se culpada e cada vez mais apaixonada pelo marido, Linda está entregue aos antidepressivos e contrata o enfermeiro Phill Pharma (Phillip Seymour Hoffman) para tomar conta de seu marido moribundo enquanto tenta cancelar o testamento que lhe coloca como única herdeira de toda a fortuna de Earl. Phill, tentando realizar o último desejo de seu paciente, tenta contatar Frank Mackey (Tom Cruise) o único filho de Earl, com quem ele não fala há anos. Frank é um astro do universo masculino escrevendo livros de auto-ajuda e palestrando para homens fracassados sobre ‘como dominar as vaginas’. Enquanto isso, Jim Kurring (John C. Reilly) é um religioso policial que faz sua patrulha rotineira pelas ruas do vale que acaba atendendo a um chamado de perturbação da paz. Na residência, conhece e inicia um flerte com Claudia (Melora Watters), uma drogada traumatizada que odeia seu pai, Jimmy Gator (Phillip Baker Hall) com todas as forças. Jimmy é apresentador de um programa de perguntas e respostas com crianças prodígio na TV, que esconde estar com câncer e tenta reaproximar-se de sua filha que o acusa de ter abusado dela quando criança. Stanley Spector (Jeremy Blackman)é um dos garoto prodígio estrela do programa de Jimmy, explorado pelo pai que parece esquecer-se de que trata-se de um garoto apenas e não uma máquina. No meio disso tudo, Donnie Smith (William H. Macy) ficou famoso quando criança ao participar do programa de Jimmy, mas agora luta para se auto-firmar e para assumir sua sexualidade”.

magnolia-1999_03Por esta ‘pequena’ sinopse acima, nota-se que tão difícil quanto acompanhar Magnólia (1999) é mostrar-se indiferente com a obra-prima de Paul Thomas Anderson. Exímio conhecedor e estudioso de cinema, o diretor é pertencente a uma casta cada vez mais escassa de cineastas que ainda põem o cinema e a arte em primeiro lugar. O que por vezes pode aparentar arrogância, aos meus olhos é pura e simplesmente uma demonstração de respeito para com o espectador. P.T. Anderson não apenas quer, mas exige que nos entreguemos por completo ao filme e o acompanhemos com atenção quase letárgica para assimilar ao máximo os pormenores desta magnífica e esplendorosa alegoria.

magnolia-1999_cartazAcompanhando um único dia da vida de dez personagens, cujas estórias encontrar-se-ão entrelaçadas em determinado ponto (daí a associação fantástica com as flores do título, inseridas cirurgicamente ao fundo de cenas aparentemente despretensiosas, como se cada vida e cada história fosse uma pétala que em determinado ponto se unem para formar algo muito mais complexo e bonito), o excelente roteiro de Anderson é transposto para a tela de forma brilhante em uma narrativa extremamente atípica e nada convencional. Todo aquele arsenal de jogadas e macetes cinematográficos demonstradas em Boogie Nights (1997) agora seriam elevadas à máxima potência e detalhadamente trabalhadas em 3h e 10 minutos de filme. E os artifícios empregados pelo diretor para evitar que seu filme acabe por se tornar cansativo e desinteressante (afinal não é todo mundo que tem paciência para acompanhar um filme de três horas sem uma gota de ação sequer), já que exige uma dose cavalar de boa vontade por parte do espectador, são tão amplos e ricos que chega a ser até ultrajante tentar identificá-los e enumerá-los. Mas, talvez o mais perceptível de todos seja o tempo que Anderson desprende para cada personagem e estória paralela. Quando uma das subtramas começa a tornar-se prolongada demais, Magnólia corta de imediato para aquela que a mais tempo abandonada pelo filme, obrigando você não só a tentar remontar aquele estória na memória, como também a prestar uma enorme atenção ao que está por vir. E este ciclo repete-se incessantemente até o final, quando alguns dos personagens se cruzaram. Mas também se faz necessário citar o excelente ‘clipe’ inserido no início do longa apresentando rápida, porém certeiramente cada personagem e seu universo, num momento interessante momento de instante de inspiração narrativa – bem como alguns belos planos-seqüência bem elaborados ao longo da obra.

magnolia-1999_chuva-de-saposP.T. Anderson permite-se uma liberdade poética genial em alguns pontos chave, mais evidentes linda na montagem onde todos os personagens cantam a mesma canção e depois seguem as cenas de onde elas pararam e na enigmática e controversa chuva de sapos. E essa liberdade reflete diretamente no talentosíssimo elenco magistralmente dirigido por Anderson, onde todos recebem personagens riquíssimos com histórias densas e emocionantes. Isso faz com que nenhuma passagem seja gratuita ou desinteressante, pois afinal, nos identificamos seus defeitos e nos importamos com cada um deles. Impressionante como Anderson compreende que os defeitos de seus personagens são aquilo que mais nos aproxima deles, ao invés de depor contra eles. Desse modo, ao acompanharmos um filho proferindo palavras duras e cheias de ódio para seu pai no leito de morte do mesmo, não sentimos raiva dele, mas sim tristeza, pois reconhecemos ali uma intensa mágoa e uma desilusão quase mortífera em seu olhar (e o fato de ele pronunciar as frases “eu espero que você sofra muito, pois eu te odeio” e “não morra, por favor, não morra” nos dá a dimensão do real estado conflitante do personagem).

Magnólia é daqueles filmes que não é pra qualquer um. Acompanhá-lo exige mais de nós e em alguns momentos exige demais. No entanto, apreciá-lo é uma das mais magnificamente prazerosas experiências que o cinema nos proporcionou nas últimas décadas. Quem se dispor a assisti-lo, ficará maravilhado com forma como todas as subtramas se conectam perfeitamente para formar um complexo mosaico da vida cotidiana atual. Magnólia não fácil, não é simples e não é para qualquer um. É simplesmente magnífico!!! Nota 9;5.

Magnólia (1999).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

RoboCop (2014). Uma Análise Retrô

robocop-2014_cartazRobocopsPor Ivan Anderson.
Lançado em 2014 para se tornar um grande blockbuster do cinema, RoboCop 2014 se tornou um filme controverso e gerou grandes discussões a respeito das comparações com o filme cult de 1987. Com direção do brasileiro José Padilha, a releitura do policial do futuro, apesar de ser um bom filme, decepcionou os maiores fãs da série principalmente pela leveza com a qual o policial biônico Alex Murphy passou a encarar os criminosos no século 21.

RoboCop em sua versão original era uma verdadeira máquina de aniquilar vagabundos, segundo a linguagem oitentista: aquele tira que atira primeiro e faz as perguntas depois, o que tornava muito divertidas e únicas cada uma das suas empreitadas contra o crime. O bandido não pensava duas vezes em tentar ceifar a vida do policial, então o robô atuava conforme a demanda, se posso assim dizer.

robocop-2014_02Em sua versão moderna, além de ser mais polido e atender a atual visão global de que o bandido (mesmo com toda a crueldade) é ser humano também, o novo policial do futuro começou torcendo o nariz dos fãs quando sua principal arma, antes uma beretta modificada, tornou-se um teaser para eletrocutar os foras da lei. O que também assustou os fãs foi o novo design de seu corpo, agora negro, o que gerou muitas comparações com Batman e até com o vilão McGaren, do seriado japonês Jaspion. (A blindagem prata também utilizada no filme ficou fantástica.)

robocop-2014_03Mas o longa tem também seus pontos positivos: a inovação tecnológica pela qual o protagonista passa, e explanações sobre a forma como a parte humana é alimentada, e fundida à máquina deixam um ar de satisfação grande aos expectadores mais curiosos e também aos mais críticos. A forma como a armadura é trocada, fazendo de Murphy uma espécie refil, ficou muito interessante e obviamente atuações como as de Michael keaton, Abbie Cornish, Gary Oldman e Samuel L. Jackson sempre brilham muito. Não deixando de lado, é claro, Joel Kinnaman, que encarnou muito bem o papel do primeiro ciborgue do mundo.

No fim das contas e apesar dos percalços RoboCop 2014 ainda vale o ingresso, principalmente por abordar de forma mais intensa o drama de um homem preso dentro de uma máquina, e pelas já citadas impecáveis atuações do glorioso elenco.

RoboCop (2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works. 2009)

Tudo-Pode-dar-Certo_2009

Por: Roberto Vonnegut.

Woody Allen no set de filmagem

Woody Allen no set de filmagem

Como é bom rever o Woody Allen de antigamente: disfarçado por trás de um personagem verborrágico, metido a besta, rabugento e absurdamente engraçado – em Nova Iorque, evidentemente – Allen dispara sua metralhadora contra conservadores, religiosos, intelectuais, a lista completa.

O filme Whatever works (aqui [*] lançado como Tudo pode dar certo) é um novo com um roteiro envelhecido em tonéis de carvalho: Zero Mostel, que deveria interpretar Boris Yellnikoff, morreu em 1977, então Allen guardou o roteiro desde aquela época. Deve ter atualizado aqui e ali, mas manteve a centelha criativa dos seus roteiros da época (Annie Hall, Sleeper, Tudo que você queria saber…), com frases espertas e surpreendentes.

larry_davidBoa parte do mérito do filme fica com Larry David: o criador de Seinfeld se mostra perfeito como o velho gênio ranzinza que despreza a falta de visão do resto da humanidade – afinal, ele é um dos poucos capazes de enxergar tudo – nas palavras dele, see the whole picture.

Tudo-Pode-dar-Certo_2009_01Três coisas me animaram a ver o filme: duas já citei – a direção de Allen e a presença de Larry David. A terceira é que os créditos incluem Patricia Clarkson: uma excelente atriz que sabe escolher os filmes em que atua [**]. E neste Whatever works Patricia mostra o que sabe em um papel nada convencional, uma personagem que surge do nada no meio do filme e rouba a cena.

O filme lembra Annie Hall (Noivo neurótico, noiva nervosa) pelo eixo da trama: Boris, o alter-ego de Allen, conhece uma mulher menos dotada: a sulista Melody Celestine, numa atuação surpreendente de Evan Rachel Woods [***], e se mete a “educá-la”. Mas também traz um gostinho de A Rosa Púrpura do Cairo ao brincar com a tela do cinema – mais não digo pra não estragar a surpresa.

Resta torcer para que o Woody Allen remexa mais nas suas gavetas.
[*] o nome em português não é péssimo, mas é bem ruim. A ideia do filme não é que tudo pode dar certo – você consegue imaginar Woody Allen pensando assim? Whatever works pode ser traduzido meio ao pé da letra como ‘qualquer coisa que funcione’ – note o tempo verbal. Melhor ainda seria traduzir por ‘qualquer coisa que dê certo’, ou que ‘valha a pena’.

[**] há décadas Patricia Clarkson foi a Sra. Ness em Os intocáveis. Mais recentemente, coleciona filmes memoráveis: o charmoso O agente da estação, Dogville, o interessantíssimo Boa noite e boa sorte, o originalíssimo Lars and the real girl e o último de Allen, Vicky Cristina Barcelona. Sem contar Ilha do Medo de Scorcese em que ela faz um papel chave. A contragosto cito ainda Elegy (Fatal), um filme mediano em que ela está ótima.

[***] Evan Rachel Woods ganhou de Allen as melhores falas do filme, e usa com timing certo e sotaque convincente, especialmente ao falar seu sobrenome. O melhor momento para mim foi quando ela soltou um ‘because why?’, praticamente equivalente por estas bandas a um ‘por causa de que?’.