O Mercado de Notícias (2014)

o-mercado-de-noticias_posterJorge-Furtado_DiretorPor: Fernando Nogueira da Costa.
Assisti, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, o documentário – O Mercado de Notícias – sobre jornalismo e democracia dirigido por Jorge Furtado. O filme traz os depoimentos de treze importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática de sua profissão, o futuro do jornalismo e também sobre casos recentes da política brasileira.

O surgimento do jornalismo, no século 17, é apresentado pelo humor da peça “O Mercado de Notícias“, escrita pelo dramaturgo inglês Ben Jonson em 1625. Trechos da comédia de Jonson, montada e encenada para a produção do filme, revelam sua espantosa visão crítica, capaz de perceber na imprensa de notícias, recém-nascida, uma invenção de grande poder e grandes riscos.

O Mercado de Notícias é composto por três blocos:
1- a encenação da peça de Ben Jonson,
2- entrevistas com os 13 jornalistas e
3- mini documentários que ilustram os temas debatidos.

o-mercado-de-noticias_03Jorge Furtado estudava medicina quando largou a faculdade para cursar jornalismo. Depois abandonou a profissão para fazer cinema. Segundo o diretor, ele tinha uma dívida com o jornalismo e recentemente sentiu vontade de discutir a imprensa. Pesquisando sobre o assunto, ele descobriu uma peça de 1625, escrita por Ben Jonson. No Brasil, a peça nunca havia sido encenada e não tinha tradução. Jorge Furtado e a professora Liziane Kugland traduziram a peça e o diretor enviou o material para 13 jornalistas que ele admirava o trabalho: Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, José Roberto de Toledo, Leandro Fortes, Luis Nassif, Mauricio Dias, Mino Carta, Paulo Moreira Leite, Raimundo Pereira, Renata Lo Prete.

o-mercado-de-noticias_jornalistasBOB FERNANDES: “Não conheço nenhum caso recente de censura do Estado, que tanto temem. E eu conheço, e qualquer jornalista conhece, centenas de casos de censura feita pelos dono do meio de comunicação. Como é que as pessoas não dizem isso com todas as letras?

CRISTIANA LÔBO: “Eu tenho que conversar com o que vem me contar a notícia e com aquele que corre pra não contar a notícia. O nosso desafio é esse, ter os dois lados e conseguir contar o enredo o mais próximo da realidade possível.”

FERNANDO RODRIGUES: “O bom jornalismo vai sobreviver. Sempre que há uma demanda na sociedade para produto de qualidade, para um bom jornalismo. Não importa a plataforma onde ele esteja. Vai surgir algo novo onde as técnicas do bom jornalismo vão prevalecer.”

JANIO DE FREITAS: “Eu tenho uma esperança, que não é grande, de que as pessoas se deem conta de que o jornalismo depende dos jornalistas.”

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO: “As empresas jornalísticas precisam entender que não vendem informação. Elas vendem credibilidade. Quando você compra o jornal, a revista, assiste o telejornal ou o portal na internet, você tá indo atrás de alguém que você possa acreditar.”

LEANDRO FORTES: “Todo mundo que te passa informação tem o interesse. Não existe fonte sem interesse. O que você precisa fazer é filtrar esses interesses, é saber se o interesse de quem passa é convergente com o interesse público.”

LUIS NASSIF: “Muita informação sem estar organizada, estruturada e hierarquizada, não é nada. Então o papel do jornalista é pegar aquele monte de informação, aquela montanha de informação, organizar, estruturar e dar uma lógica.”

MAURÍCIO DIAS: “O jornalismo brasileiro tem uma neurose: ele não se aceita como agente político. Aí ele se refugia, de uma maneira geral, naquela história da isenção da imparcialidade e que expressa o interesse da sociedade.”

MINO CARTA: “O que há de ser um jornalista? Esse homem que conta a verdade factual. Não é? Para garantir a sobrevivência humana. É uma questão de sobrevivência do homem. A defesa da verdade.”

PAULO MOREIRA LEITE: “Quando o jornalismo só quer confirmar suas próprias convicções, é um jornalismo feito com base em preconceitos. Os piores caras do mundo foram os caras que só queriam confirmar seus preconceitos.”

RAIMUNDO PEREIRA: “Esse negócio de você buscar o novo tem um mistério. Porque na aparência, tem milhares de novidades todos os dias, em todos os cantos. Cabe ao jornalista selecionar e ver aquilo que realmente é novo, aquilo que reorganiza o passado.”

RENATA LO PRETE: “O jornalista vê, escuta e conta. E se não vê com atenção e não escuta de fato, contar fica muito difícil.”

o-mercado-de-noticias_02Ao assistir o filme, impressiona como a peça escrita há 400 anos é tão atual trazendo temas que ainda hoje são debatidos, como o sensacionalismo, o antijornalismo e interesses econômicos. Há também o paralelo entre a tecnologia, já que Ben Jonson escreveu sua obra em meio a revolução da invenção da imprensa e atualmente o jornalismo vive a revolução digital.

Entre a encenação da peça e as entrevistas, há pequenos documentários em que o cineasta faz um trabalho jornalístico apontando falhas jornalísticas recentes. Com bom humor, ele relembra casos escandalosos de manipulação de falsas notícias, dando argumentos para os que denunciam o PIG: Partido da Imprensa Golpista. Eu prefiro dizer que a “grande” imprensa brasileira dá apenas um PIO: Partido da Imprensa Oposicionista.

o-mercado-de-noticias_04Em março de 2004, o jornal Folha de S. Paulo publica na capa de sua edição de domingo (07.03.2004), sob o título “Decoração burocrata”, uma reportagem informando que um valioso “desenho do pintor espanhol” Pablo Picasso “passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição do governo federal”, dividindo sua “moldura com restos de inseto”. Na foto, além da reprodução do supostamente valioso desenho, um retrato do Presidente Lula. O sentido da matéria é claro: os novos ocupantes do governo federal não reconhecem e não sabem lidar com o valor da arte. A notícia do suposto descaso com tão valiosa obra aparece em vários jornais, revistas e sites, no Brasil e no exterior. A observação atenta de alguns leitores logo deixa evidente que se trata de uma “barriga”: o tal desenho de Picasso é, na verdade, de uma reprodução fotográfica, sem nenhum valor. Os jornais são alertados de seu erro, mas nenhum desmente a informação. Em dezembro de 2005, o “Picasso do INSS” está outra vez na capa da Folha de São Paulo (29.12.2005) e também na do Estado de S. Paulo: um incêndio destruiu parte do prédio do INSS mas, para alívio de todos e apesar do descaso dos órgãos públicos, o “valioso” Picasso foi salvo das chamas. Mais uma vez os jornais são alertados por leitores de que se trata de uma reprodução sem valor, mas nada noticiam. As reportagens que tentam esclarecer os fatos só fazem aumentar a confusão. Detalhe: o supostamente valioso desenho de Picasso foi dado ao INSS como pagamento de uma dívida. Em quanto foi avaliado? E por quem?

o-mercado-de-noticias_05Em novembro de 2008, no pior momento da crise financeira, uma matéria da Agência Estado, amplamente repercutida por vários jornais, tinha a seguinte manchete: “Governo ‘ensina’ a fazer caipirinha no Diário Oficial”. O fato, como a leitura atenta da própria notícia deixa claro, é que o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial através de uma Instrução Normativa (I.N.), como é sua obrigação, as especificações técnicas de uma bebida, assim como faz de todas as bebidas e alimentos disponíveis no mercado. É obrigação do Ministério agir assim, em defesa do consumidor: trata-se da composição e ingredientes de um produto comercializado, exportado. Não são – como afirma a matéria – “dicas” do Ministério, que teria resolvido “às vésperas do fim de semana”, “ensinar aos apreciadores de bebidas alcoólicas a preparar uma autêntica caipirinha”. A Agência Estado sabe, mas não resiste à piada fácil que reforça preconceitos contra o governo Lula.

No dia 20 de outubro de 2010, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial brasileira, a campanha eleitoral foi marcada por um incidente. O candidato de oposição, José Serra, interrompeu sua agenda para ser submetido a uma tomografia e a exames clínicos. O motivo: uma suposta agressão por militantes governistas, amplamente divulgada nos veículos de comunicação, nas redes sociais e no programa de televisão do candidato. Foram muitas as tentativas, nos telejornais e nas redes sociais, de provar que algum objeto pesado realmente atingira o candidato, nenhuma com sucesso. O fato é que, poucos minutos antes da suposta agressão, o candidato foi atingido por uma bolinha de papel. Este fato foi documentado por, pelo menos, cinco câmeras de televisão. A imprensa, que tanto discutiu a agressão que ninguém viu, nunca se interessou por investigar quem foi o homem que, diante de cinco câmeras de tevê, jogou a bolinha de papel em José Serra.

o-mercado-de-noticias_01No final de 2011, o ministro dos esportes Orlando Silva foi vítima de uma tentativa de “assassinato de reputação”. A imprensa deu grande repercussão aos gastos do ministro com seu cartão corporativo. Ele foi acusado de gastar indevidamente R$ 8,30 na compra de uma tapioca. Logo a seguir, a revista Veja estampou em sua capa (e cartazes em bancas) a “informação” de que o “ministro recebia dinheiro na garagem” do ministério, dinheiro de propina. A afirmação era baseada exclusivamente nas declarações de um homem que foi preso, acusado de desviar mais de um milhão de reais de um programa educacional destinado aos alunos de escolas públicas. Este homem disse ao repórter da revista que “por um dos operadores do esquema” – isto é, um dos acusados e presos por desviar dinheiro das crianças carentes de Brasília – ele “soube na ocasião que o ministro recebia dinheiro na garagem.” Sete dias depois, o mesmo homem negou ter qualquer prova contra o ministro. Cinco dias depois, Orlando Silva deixa o Ministério para poder se defender das denúncias. Em junho de 2012 o ex-ministro foi inocentado pela Comissão de Ética da Presidência da República por absoluta falta de provas. O denunciante, a única fonte da grave acusação da capa da revista contra o ministro, foi preso várias vezes, antes da denúncia, em 2011, por corrupção, invasão de prédio público, agressão e ofensa racial, e dois anos depois, em 2013, por receptação de material roubado.

No debate que aconteceu após a pré-estreia do filme na unidade Augusta de São Paulo, Jorge Furtado comentou ser mais otimista com relação ao assunto do que seus entrevistados. Segundo o diretor, hoje mais do que nunca precisamos de jornalistas e sobre a questão da internet interferir na atividade ele é categórico, “Tecnologia transforma, mas não determina”.

Na conversa, ele também comentou sobre o site do filme — http://www.omercadodenoticias.com.br/ — que segue sendo atualizado e onde serão disponibilizadas as entrevistas na íntegra. Segundo Jorge Furtado, este é um filme para ampliar a discussão. O Mercado de Notícias está em cartaz em várias unidades do Espaço Itaú de Cinema.

Série: The Walking Dead (2010 / )

the-walking-dead_serie-de-tvThe-Walking-Dead_Rick-GrimesPor Rafael Munhoz.
Os fãs mais fissurados por The Walking Dead, como eu, já podem começar a fazer contagem regressiva para o retorno da série. Faltam menos de dois meses para a estreia da quinta temporada de uma das séries mais comentadas do gênero. Tudo bem que ainda falta tempo para dia 12 de outubro, mas a expectativa em torno das histórias de Rick Grimes (Andrew Lincoln) e sua turma nos levam a várias imaginações sobre o que está por vir.

A produtora Gale Anne Hurd divulgou novidades sobre o quinto ano da série. Se você ainda não leu, veja as curiosidades:

the-walking-dead_quinta-temporada

- A quinta temporada se inicia de onde o quarto ano parou, ou seja, sem salto temporal.
– O novo ano vai sair da floresta rumo a cenários mais urbanos.
– Nem todos estão de acordo com a jornada rumo a Washington — afinal, temos os otimistas, os pessimistas e aqueles que acreditam que voltar ao cenário urbano é perigoso demais.
– Segundo Hurd, não devemos nos preocupar com Carol, apesar de a personagem não ter aparecido tanto no trailer promocional.
– Não teremos muito romance para Daryl. Segundo a produtora, “existem pessoas que querem que ele fique com a Carol, outros que ele se envolva com Beth. Não importa o que façamos, acredito que não faremos todos felizes”.
– Teremos dois arcos novamente. “Existem finais distintos naturais para narrativas em particular que serão revelados durante o episódio final antes da pausa e recomeçam na estreia do ano que vem”.
– Mais uma vez, teremos personagens separados uns dos outros. Dessa forma, ainda veremos episódios em que grupos diferentes são revelados e outros em que haverá foco apenas em poucas pessoas.
– Sobre as mortes: “Não seria The Walking Dead sem algumas lágrimas”.

Vamos aguardar!!!

CuriosidadesThe Walking Dead, série de televisão norte-americana. Aventura, Drama e Terror num mundo pós-apocalíptico. Desenvolvida por Frank Darabont. Baseada na série de quadrinhos de mesmo nome por Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard.

SinopseA série é protagonizada por Andrew Lincoln, que interpreta Rick Grimes, um vice-xerife que acorda de um coma e descobre-se em um mundo pós-apocalíptico dominado por zumbis. Ele sai em busca de sua família e encontra muitos outros sobreviventes, ao longo do caminho. O título da série refere-se aos sobreviventes, e não os zumbis.

Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society. 1989)

sociedade-dos-poetas-mortosPor Gabiandre.
Honestamente, não sei como começar essa post. A morte de Robin Williams pegou à mim e a todos de surpresa. Muitos blogs e sites que acompanho já prestaram suas homenagens e eu, como fã, não poderia ficar de fora. Sua carreira e inegável talento já foram temas para muitos posts, por isso, o meu será uma tanto quanto diferente. A minha singela homenagem é sobre algo que Robin nos deixou, como um presente dado a alguém especial.

sociedade-dos-poetas-mortos_01A ‘Sociedade dos Poetas Mortos‘ é, sem dúvidas, o filme mais surpreendente que eu já vi. Um daqueles capazes de mudar vidas, sabe? Eu assisti esse filme pela primeira vez na escola, em uma dessas aulas em que nossos professores nos obrigam a assistir filmes e fazer relatórios. Imagino que saibam o que acontece durante essas aulas… As pessoas dormem, escutam músicas, fofocam sobre o gatinho novo na escola e quando chegam em casa procuram qualquer resumo e lá começa o “ctrl+c e ctrl+v”. Simples assim. Porém, naquele dia em especial, nada disso aconteceu. Pelo menos não comigo.

O filme conta a história de Welton Academy, uma tradicional escola para homens, onde o tratamento é rígido e são impostas muitas regras. É importante lembrar que o filme passa-se em 1959, portanto o perfil dos alunos é de jovens submissos aos professores e a seus pais, que decidem o futuro dos filhos. Porém, muita coisa muda com a chegada do novo professor de literatura (Robin Williams), um ex aluno, que faz com que seus alunos não simplesmente absorvam o conhecimento, mas que busquem e questionem-o.

sociedade-dos-poetas-mortos_03Com os novos métodos implantados pelo professor Keating, nos quais ensinava aos alunos à amar e pensar Carpe diem (aproveite o dia) os alunos começam a mudar seu comportamento. Quando acham o antigo anuário do professor descobrem a Sociedade dos Poetas Mortos, um grupo de amigos que se reuniam a noite em uma caverna para declamar poesias e refletirem sobre elas. Então, liderados por Neil (Robert Sean Leonard), um dos alunos de Keating, criam uma nova sociedade. A partir daí estes alunos começam a expressar suas opiniões, vivem intensamente suas vontades e lutam por seus objetivos.

A razão pela qual me apaixonei por esse filme é que, muito embora, a história seja datada há muitos anos, ainda é possível encontrar partes do enredo nos dias atuais. É claro que de forma menos rígida, muitos jovens ainda são submissos e até desvalorizados pelas autoridades, sejam essas seus pais ou professores.

sociedade-dos-poetas-mortos_02Outro fator bem real nos dias de hoje é o impacto que um professor pode causar na vida de um aluno, tanto positiva quanto negativamente. Pessoalmente, tive uma professora de literatura, a mesma que me fez assistir o filme, que teve uma grande importância na minha formação não só acadêmica, mas também pessoal. E grande parte disso teve incio com esse filme! Dar voz aos jovens é como dar-lhes asas para que possam voar e ser livres. Tudo que nós, jovens, queremos é sermos ouvidos.

Para finalizar gostaria de agradecer à Robin por esse e muitos outros legados que nos deixou aqui na terra. E também à todos os professores e outros profissionais que conseguem, com poucas atitudes, contribuir para o futuro da humanidade. E se você ainda não viu esse filme, corre para ver, vale super a pena! E por ultimo, desejo à todos que aproveitem o dia.carpe-diem

Philomena (2013). “Eu não abandonei meu filho.”

philomena_2013Por Pedro H. S. Lubschinski.
A história narrada pelo jornalista Martin Sixsmith em seu livro, The Lost Child of Philomena Lee (que por aqui recebeu o extenso título Philomena: uma Mãe, Seu Filho e uma Busca Que Durou Cinquenta Anos), nasceu para ganhar as telas de cinema. É uma daquelas histórias que, de tão incríveis, só poderiam ter ocorrido do lado de cá, na vida real. A Philomena (Judi Dench) do título é uma senhora de idade que 50 anos depois de ter seu filho pequeno tirado à força dela e colocado para adoção no convento em que vivia, decide procurá-lo com o auxilio do jornalista Martin (Steve Coogan), com quem embarca para os Estados Unidos onde a criança cresceu ao lado dos pais adotivos.

philomena-2013_stephen-frearsO grande mérito da produção dirigida por Stephen Frears se encontra na abordagem adotada pelo roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope, que contrariando toda a dramaticidade presente na jornada de Martin e Philomena, opta por rechear o longa com um bem-vindo tom de leveza e comédia, que acaba por tornar o longa muito mais eficiente do que seria caso se enveredasse por um dramalhão barra-pesada. Assim, podemos acompanhar a relação entre a personagem-título e Martin ser estabelecida com calma e de maneira gradual, sem apelar para cenas que busquem emocionar o espectador com o drama de sua protagonista. Assim, por contraste, quando finalmente a obra de Frears assume sua dramaticidade, o choque que essas cenas proporcionam se torna maior, resultando em emoção genuína para a narrativa.

E já que mencionei a relação entre a dupla de protagonistas, é inegável que são esses dois personagens tão distantes em personalidade, mas próximos a partir do estabelecimento de um objetivo em comum, a grande força de Philomena. Encarnado com um preciso tom ácido por Steve Coogan (o nome não é coincidência, ele também assina o roteiro), Martin é um homem cínico e incrédulo. Jornalista que há pouco tempo possuía prestigio e um belo cargo em uma grande emissora, o personagem agora surge como um homem deprimido em função de sua demissão injusta e forçado a explorar uma “história de interesse humano”, algo que tanto repudiara em outros momentos. Assim, é interessante como ao longo da projeção Martin se vê mais próximo do drama de Philomena, indo de um jornalista interessado em sua história a um amigo que em um momento de particular desespero não se inibe em abraçar aquela mulher que chora em sua frente. Não que o filme – e aqui reside mais um grande acerto do roteiro – tente nos fazer aceitar que o personagem é mudado pela personagem de Judi Dench. O filme apenas estabelece uma ligação entre aquelas figuras, mas jamais tenta mudar as personalidades dispares que se mantém até o fim da produção.

philomena_2013_01Da mesma forma, a protagonista é devidamente desenvolvida pelo roteiro, surgindo como uma senhora simpática e de bem com a vida – “você é um em um milhão” é seu bordão ao conversar com alguém -, Philomena logo vai revelando marcas de sua tragédia pessoal que não poderíamos supor em um primeiro momento, substituindo seu sorriso marcante por uma expressão fechada e a decepção de que talvez seu filho que tanto procurou, jamais tenha ao menos pensado na existência dela. Além disso, é interessante a relação da personagem com sua própria fé, já que foi num local onde o amor à Deus e ao próximo deveria ser celebrado onde ela sofreu sua grande perda, o que a leva em determinado momento deixar de se confessar, como se percebesse que nem tudo o que um dia lhe disseram ser errado é realmente pecado, algo que, no entanto, não a impede de desculpar uma mulher que tanto lhe causou dor por não querer viver o resto de sua vida com raiva. E agarrando com talento inegável toda a complexidade da protagonista, temos a excelente Judi Dench, que utiliza cada ruga e linha de expressão de seu rosto para entregar uma atuação emocionante.

philomena_2013_02O texto a seguir contém spoiler.
Mas se elogiei à exaustão o roteiro no que diz respeito ao desenvolvimento de seus personagens e das relações entre eles, devo dizer que o texto não está isento de deslizes. Tudo parece fácil demais para a dupla de protagonistas quando eles chegam aos Estados Unidos – toda informação chega facilmente nas mãos deles, as pessoas abrem a vida do filho de Philomena sem questionar a possibilidade dela não ser realmente mão de quem procura e, quando convém uma pequena ameaça ao roteiro, o companheiro do filho de Philomena se faz de difícil em cooperar com sua busca, apenas para ser convencido facilmente pela velhinha. Da mesma forma, a filha da personagem de Judi Dench é esquecida pelo filme, não surgindo nem ao menos para ligar para a mãe preocupada com a viagem que lhe faz atravessar o oceano.

Dirigido com sutileza por Stephen Frears, Philomena apresenta, no entanto, um deslize que acaba por sabotar uma importante cena de seu terceiro ato: a inserção de flashes de vídeos com o filho da protagonista ao longo da projeção castra boa parte da emoção do momento em que a personagem finalmente assiste os tais vídeos. Por outro lado, é digna de aplausos a coragem da produção em retratar o “lado feio” da Igreja e da profissão de jornalista: da segunda, o filme critica, ainda que de maneira discreta, a posição de jornalistas e editores que alheios ao sofrimento de diversas pessoas busca apenas a noticia em acontecimentos trágicos, ignorando os sentimentos dos envolvidos. E da primeira, denuncia e critica as atrocidades cometidas ao longo dos anos com pessoas que tiveram como único erro expressar os próprios sentimentos – e ver Martin questionar a certa altura “por que Deus nos daria desejo sexual se fosse pecado” é algo que serviria para tantas outras questões que algumas partes mais conservadoras da Igreja insistem em atribuir como pecado, negando a própria natureza do amor defendido pelo mesmo Deus que utilizam para oprimir.

Equilibrando-se muito bem entre os extremos do drama e da comédia e oferecendo no caminho uma obra agradável de assistir, Philomena surpreende – ao menos me surpreendeu, já que não esperava nada do filme – ao se revelar uma obra que, se não está entre as melhores do ano, ao menos é um bom filme recheado de qualidades.

Série: Sessão de terapia (2012 / )

sessão-de-terapia_theoPor Leandro Salgentelli.

sessao-de-terapia_selton-melloGeralmente quando temos algum problema emocional ou físico, recorremos a alguns mediadores de respostas. Fazemos isso na boa intenção de buscar algo, uma segunda visão da qual muitas vezes nós mesmos não conseguimos ver. Buscamos essa ajuda através de Deus, religiões, médicos ou psicanálise. Uma analise é feita da nossa própria jornada. Confessamos nossos traumas, medos, segredos, em busca de uma alternativa ou uma intenção para compreensão. Não é à toa que acompanho a série “Sessão de terapia”, dirigido por Selton Mello, protagonizado por Zécarlos Machado interpretando o Psicanalista Dr. Theo Cecatto, que, agora, no inicio de agosto iniciará a 3º Temporada no canal GNT. Estar confinado e saber o que acontece com pessoas aparentemente lúcidas — uma ambição, eu diria.

Sentado no divã é como fazer uma confissão, é rasgar o peito e se abrir de tal maneira que muitas vezes nem nós mesmos não compreendemos o fato daquilo que estamos falando. É por isso que muitas pessoas logo após a primeira sessão numa mais voltam. O medo que toma ao olhar para si mesmo é a sensação de loucura.

Tenho vários amigos que afirmam a dizer que jamais passaria com um analista para saber de uma teoria da qual já sabem e que, segundo eles, encontrar o terapeuta na rua, o mesmo que sabe de sua vida toda: “Não, obrigado. Terapia é para loucos”. E, em contrapartida, sabemos que o valor de uma sessão não é lá muito associável com o nosso bolso. Terapia fica para outra vida. Mas, como sou fã de psicanálise e de tudo aquilo que me faz refletir sobre algo, sento na primeira cadeira e não perco o espetáculo.

Algumas pessoas passam anos fazendo analise, abrindo e fechando feridas. Numa busca de curar a alma das aflições que vamos tendo ao longo do tempo. Não há um tempo determinado para ficarmos pronto e ganhar alta desse processo introspectivo. Não sabemos se é um ano, dois; três, 8. A análise buscar e rebuscar a essência de nós mesmos. O processo é lento, mas transgressor.

sessão-de-terapia_agenda-theoSessão de Terapia, caso você ainda não tenha acompanhado, mostra como somos nós ao se abrir, como é complicado falar de si mesmo e como é difícil encarar algumas verdades sobre quem somos e por que somos. Já dizia os psicanalíticos: tudo há uma resposta. Ou seja, tudo há uma explicação, no fundo, no introspectivo, o quebra-cabeça se encaixa.

A mulher que diz que não tem magoa de ninguém, no fundo ela apenas está camuflando a verdade sobre si mesma. O homem blindado, no fundo ele simplesmente tem medo de demonstrar o seu lado frágil. Quem diz que nunca magoou ninguém, porque de alguma forma nunca se exaltou, no fundo não percebeu que silêncio demais também machuca. Quem tem bondade excessiva, tem maldade escondida.

O homem que é muito controlador, no fundo tem medo do desequilíbrio. A mulher que é muito medrosa, no fundo continua sendo aquela criança teimosa. O homem que tem muita certeza, no fundo tem medo da dúvida. A mulher que se apegou a tristeza, no fundo ela apenas está justificando sua existência.

Pois é, somos um abismo. Somos um oceano de sentimentos cheio de fúria, a nossa dor fala, e fala alto. Se a gente desse espaço para o introspectivo e mergulhasse no fundo de dentro de nós, enxergando de outra forma as causas que nos aconteceram e deixasse vir à tona toda verdade, veríamos a cura para dor existencial. E se a gente percebesse que nunca estaremos prontos, que sempre haverá outras frustrações, deduzo que nem precisaria de terapia. Mas como disse Freud, há um bom tempo atrás: Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos.

Sessão de Terapia. Brasil. Direção: Selton Mello. Início 2012. Baseada na Serie israelita BeTipul, do psicanalista Hagai Levi; e na versão americana da série, In Treatment. A 3ª Temporada (2014) conta com roteiros originais, uma vez que a a Série original teve apenas duas temporadas.