Por Fabio Montarroios.
Parece que quando algo extraordinário acontece, há uma leve tendência a soterrar essa coisa com uma avalanche de elogios. Sim, desaparece a crítica, a tentativa e o exercício de compreensão e até mesmo a remota tentativa de avaliar é eliminada. Está sendo assim com o filme “O som ao redor” e, diga-se logo, não achei o filme ruim. Não mesmo! Bem ao contrário: gostei do filme. Mas é este o limite de um amador, de um não profissional: gostar ou não. O exercício da crítica, da crítica de cinema em especial, deveria ser do de ir além desse critério que é raso o bastante para demover pessoas de uma tarde preguiçosa que se gasta esticado no sofá vendo qualquer coisa na TV para ir até a um cinema (um dos poucos que esteja exibindo este filme ou qualquer outro filme nacional do tipo) assistir a algo que preste.
Bom, mas parece que houve não um consenso geral em relação ao filme (com raríssimas exceções e aqui aponto uma delas: http://www.blogdoims.com.br/ims/o-som-ao-redor-e-a-primavera-pernambucana/)... O que me parece ter acontecido é uma desistência irrestrita de avaliar o filme propriamente. Houve cotações apenas (todas no máximo)… De todo modo, um exemplo – e poderia dizer um exemplo extremo – da anulação da crítica é esta entrevista com o diretor do filme, Kleber Mendonça, realizada pelo canal Globo News para o programa Starte: http://globotv.globo.com/globo-news/starte/t/todos-os-videos/v/diretor-kleber-mendonca-filho-desenvolve-criticas-sociais-em-seus-filmes/2416377/
O texto introdutório parece abrir as portas para o maior cineasta de todos os tempos. Felizmente o desprendimento do diretor anula não só isso, mas também a impressão geral que se poderia ter de um homem que está sendo mais lambido que picolé Chicabom na promoção! A entrevista tem um mérito: colher o depoimento do diretor que, ao refazer as perguntas, apresenta a essencia de seu trabalho e, repare bem, é apenas ele (e aquelas exceções que comentei no começo) que está de fato avaliando o filme… Aliás, ele diz estar filmando algo bem óbvio e, tenho certeza, ele não entende o porquê desse auê todo em torno do filme, mas, imagino, ele presuma que tudo isso se deva, principalmente, ao fato do fetichismo em relação ao pensamento estrageiro: especialmente o americano e mais especialmente ainda ao do jornal New York Times.
O fato do filme ter sido citado pelo jornal como um dos melhores do ano de 2012 é legal, claro. Dá visibilidade internacional ao filme, pois em outros países também se leva em consideração o que diz o New York Times, mas, aqui no Brasil, isto parece ser demasiadamente superestimado, fazendo com que não seja necessário ou mesmo prudente, pensar o contrário. “Ora, se o filme foi eleito um dos melhores do ano pelo NYT, por que diabos eu iria na contra mão?”, devem ter cogitado boa parte da crítica. Se o NYT carimbou o filme, pronto! Nas palavras da apresentadora do programa Starte temos o seguinte: “(…) na verdade [o filme] nem parece ficção. O filme é uma radiografia da sociedade brasileira”.
Uma cena eu comento, pois é, sem dúvida, muito boa, mas, como o próprio diretor diria, óbvia, a da reunião de condômino. Não vou estragar a cena, mas quando uma das moradoras reclama que está recebendo sua revista aberta (sinal de que está sendo lida pelo porteiro) e diz que esta revista é a “Veja”, dei gargalhadas! A “Veja” representa uma fração da sociedade que, não só a meu ver, sintetiza todo um anseio: a modernização de uma sociedade escangalhada, ou seja, algo que nunca acontecerá e isto, meus caros, outros filmes nacionais já disseram de modo direto (“Cronicamente inviável” e “Amarelo manga”, podem exemplificar) e indireto (“Cão sem dono” e “O invasor”, em mais dois exemplos). E aqui, em termos de exemplos, pode-se voltar no tempo ou avançar: o que se pode dizer de “São Paulo SA” ou dos filmes excelentes que figuram nas mostras e umas duas ou três reles semanas em algumas poucas salas de cinema?
Kleber Mendonça, com seu estilo e sua edição matadora, seguem essa linha quase invisível de um cinema autoral que é soterrado por bobagens de todos os países, mas que se coaduna com o melhor da produção mundial. Basta frequentar qualquer mostra de cinema ou uma sala de com programação voltada para os bons filmes. A propósito, o próprio diretor fazia seções especiais na Casa Joaquim Nabuco e garantia a muitos jovens e interessados uma programação de cinema de qualidade, da qual, não tenho dúvidas, ele foi beneficiado. Ou vai me dizer que o personagem principal de Mendonça, João, não lembra os personagens de Antonioni?
Mas aí que está o ponto: a chancela do New York Times, principalmente quando reverbera da forma como reverberou por aqui, parece servir de desestímulo a crítica. Daí, pensar que o filme é incriticável é um passo e fazer do diretor um Glauber Rocha é um pulo.
Por se tratar de um filme nacional recomendo que seja assistido, pois o cinema feito aqui, particularmente esse cinema autoral, sofre de constante indiferença. E, asseguro aos senhores, se não fosse essa repercussão, o que não tiraria de modo algum a qualidade do filme, muitos de nós não teríamos tido conhecimento dele e de sua representatividade na filmografia brasileira. O filme de Mendonça é mais um que ajuda a entender a realidade, claro, mas não é isso que estão dizendo dele não… Aproveita a ida ao cinema (se é que o filme ainda está passando) e faça você mesmo a sua crítica.

















