Série: Under the Dome (2013/)

Under-the-Dome_seriePor Rafael Munhos.

Durante as férias forçadas do Programa do Jô, a Globo resolveu investir em séries aparentemente conhecidas pelo grande público para tapar buraco nas madrugadas. Depois de uma bem sucedida terceira temporada de Revenge, fora da grade, a emissora decidiu colocar no ar uma das séries mais complexas que assisti: Under The Dome.

under-the-dome_01Stephen King tem trabalhos magníficos no cinema e na TV, mas pode-se dizer que chupou limão quando criou o roteiro desta série. Considerada como ficção-científica, Under The Dome tem uma temática bastante interessante, mas é complicada demais do início ao fim. O enredo gira em torno da pacata Chester´s Mill, que vira de cabeça para baixo quando uma redoma invisível cobre a cidade do resto do planeta. A partir daí só restam as perguntas. De onde surgiu a redoma? Como os moradores vão reagir a prisão? Quem está por trás disso? Os questionamentos são bem vindos, o problema é a falta de resposta durante os treze episódios da série tornando a trama totalmente confusa.

Além das complicadas histórias, grande parte das atuações são razoáveis. A começar pelo galã Barbie (Mike Vogel), o forasteiro chega para arrasar o coração da jornalista Julia (Rachelle Lafreve), mas mesmo seguindo a linha bom moço, tem caráter duvidoso e esconde alguns segredos. Apesar de boa aparência, a atuação de Vogel é precária como de um ator que está sempre nervoso em cena. Já Nathalie Martinez, a policial Linda, não consegue passar segurança e impor respeito com sua irritante voz rouca a uma formiga, quem dirá para uma cidade tumultuada. Já o vilão da história coube para Dean Norris. O intérprete do todo poderoso Big Jim não é das piores, mas suas caretas o deixam mais para comediante do Zorra Total.

Under the Dome_02Calma pessoal, Under The Dome leva crédito em algumas questões. Se o elenco adulto deixa a desejar, os jovens são bem mais convincentes. Alexander Roch faz do seu problemático Júnior um dos personagens mais interessantes da trama. Apaixonado pela bela Angie (Britt Robertson), o filho de Big Jim apresenta uma extrema psicopatia que deixa qualquer um doido. Qualquer semelhança é mera coincidência com Laerte da novela Em Família. Se Junior é obsessivo, Joe (Colin Ford) e Norrie (Mackenzie Lintz) foram um casal juvenil aparentemente estável e bonito. A aproximação é em torno de uma força oculta, a qual só será revelada nos capítulos mais adiante.

Embora complexa, Under The Dome merece ser assistida. Os grandes mistérios em torno da redoma conseguem nos fazer cada vez mais fiel ao suspense, deixando qualquer grande falha para trás, além disso os efeitos especiais são excepcionalmente bem construídas. Só para constar, a segunda temporada já estreou nos EUA.

Por Rafael Munhos.

Curiosidade: No Brasil a série é exibida em duas emissoras, e em cada uma recebeu um título diferente. Na Rede Globo é exibida com o título Under the Dome – Prisão Invisível, já na TNT o título da série é O Domo.

Curta: LILA (2014). Reencontrando o Colorido da Vida…

Lila irá ajudá-lo a reencontrar o colorido da vida

Lila irá ajudá-lo a reencontrar o colorido da vida

Por Luz de Luma.

A vida está borocoxó?
Podia ser melhor!

Lila é um personagem de um curta-metragem lírico e poético que completa uma espécie de trilogia que começou em 2008 com “Um conto de amor em Stop Motion” (uma jovem sonha com o que ela acabou desenhado no papel) e, em 2011 com “A sombra de azul” (um jovem descobre sua inspiração no voo das borboletas). Todos os três filmes estão cheios de sentimentos de esperança e otimismo, e retratam um mundo no qual a vida e a fantasia se tornam apenas um. Lila é uma conclusão fascinante para uma trilogia temática, mesmo involuntária, que sugere que pode haver um pouco de Lila em todos nós.

Lila Visualizando laços sutis de amor...

Lila Visualizando laços sutis de amor…

A música é uma composição exclusiva do talentoso Sandy Lavallart e o filme é do inquieto escritor, diretor, ilustrador e animador Carlos Lascano. No papel de Lila, está a atriz Alma Garcia que se presta muito bem ao personagem que sonha, imagina e com a sua delicada arte de desenhar, tenta mudar o que vê e deixa tudo mais colorido e amoroso.

Uma história bonita, com ar naif em que a menina lembra Amélie: “não pode resignar-se a aceitar a realidade tão plana como ela percebe” (Carlos Lascano). Metáfora visual estendida sobre como as pessoas podem ajudar os outros através de pequenos atos de bondade. Existem apenas dois olhares sobre a vida e fazemos a escolha, a cada dia, sobre como respondemos aos desafios, vitórias e tudo mais. Podemos optar por permitir decepções para que apodreçam e sejam classificadas como injustas, portanto, abrimos mão do controle, ou então, encontramos aceitação e inspiração através desses desafios.

Lila-2014_Curta_02Pense em quando rotulamos algo na nossa vida como “injusto”. Isso é uma ladeira escorregadia e leva a desculpas e contorna o poder que todos nós temos sobre as nossas próprias vidas. Resiliência e audácia – é o que o desafio deve nos dar.

Mas o que um vídeo docinho tem a ver com desafio? Oras, pense em um comportamento contrário ao de Lila e que muitos possuem. Pense em um simples olhar que procura por defeitos… A vida pode lhe dar socos e você pretende dar socos de volta? É gastar energia com nada. Te convido a embarcar numa viagem mais feliz!

Dormi e sonhei que a vida era alegria. Acordei e vi que a vida era serviço. Eu agi e eis que o serviço era alegria.” (Rabindranath Tagore)

À Procura do Amor (Enough Said. 2013)

a-procura-do-amor_2013_capaPor Pedro H. S. Lubschinski.

a-procura-do-amor_diretora-nicole-holofcener_e-atoresIsso vai soar bobo, mas você partiu meu coração e eu estou velho demais pra essa merda.”

À Procura do Amor é um filme sobre pessoas comuns, como eu, você ou alguma pessoa que conheça. Da mesma forma, as situações vividas por essas pessoas não fogem dessa banalidade: uma adolescente acaba de ser aceita na universidade; marido e mulher vivem o dilema em torno da demissão de uma empregada; e o casal protagonista, divorciados de meia-idade que se conhecem e começam uma relação. Não existe nada de espetacular acontecendo nessa produção de Nicole Holofcener. Por outro lado, por trás de todo esse viés de normalidade, existe algo mágico acontecendo: a vida, ora embalada pela doce música de um riso, ora amargurada por um choro salgado.

Assim, não espere ao longo da narrativa cenas marcantes e frases de efeito. As situações vistas aqui podem até vir a tornarem-se marcadas em sua memória, mas isso será muito mais pela empatia com os personagens do que por alguma abordagem inovadora. Albert (James Gandolfini) e Eva (Julia Louis-Dreyfus) são “gente como a gente”: quando percebem estar se apaixonando mal conseguem esconder o nervosismo ao lado do companheiro, o medo de tropeçar nas palavras que faz hesitar durante a fala e aquela ânsia em finalmente beijar os lábios que estão ao seu lado, finalmente libertando-se de um desejo ainda temeroso de não ser retribuído. Da mesma forma, quando os dois embarcam na primeira transa, muito antes de se preocupar com o prazer daquele ato ou com tornar tudo romantizado e inesquecível: o que preocupa é não deixar o parceiro ver as gordurinhas sobressalentes e arriscar um término pela falta de boa forma. Poderiam ser mais humanos que isso?

a-procura-do-amor_2013_02Os textos a seguir contém spoilers.
Mas me precipito. Antes de falar das figuras que habitam esse À Procura do Amor, vamos às devidas apresentações: Eva é uma massagista que está divorciada há alguns anos e convive com a proximidade da partida da filha para a faculdade. Em uma festa ela conhece o divertido – e não atraente, como diz em um primeiro momento – Albert, que tal qual ela, é divorciado e logo verá a filha viajar para a universidade. Logo eles passam a sair juntos e se interessar um pelo outro, descobrindo-se, finalmente, apaixonados. Porém, logo eles enfrentarão um complicador nessa relação, já que na mesma festa Eva conheceu e se tornou massagista e amiga de Marianne (Catherine Keener), que logo começa a revelar diversos detalhes não-agradáveis sobre o ex-marido – e que logo a protagonista descobre ser Albert.

Nas mãos de Nicole Holofcener, que assina o roteiro e a direção da obra, À Procura do Amor se torna um dos filmes mais agridoces do ano. Rimos com seu casal de protagonistas que tanto valor dá ao riso ao lado da pessoa amada – não são poucos os momentos em que os personagens dizem se sentir bem por rir ao lado do parceiro -, mas também sentimos o gosto amargo que o desgaste das pequenas coisas inflige ao cotidiano daquelas duas figuras. Dito isso, por mais leves e simpáticos – ou exatamente em função disso – que sejam os personagens e situações do longa, não deixamos de sentir o peso que determinadas ações despertam, assim, ver Albert em certo ponto se esforçando para deixar sair as palavras que iniciam esse texto é algo dolorido para os dois personagens principais e para o espectador, que precisa ver aquele sujeito com quem se afeiçoou dizer uma frase que impacta não pela intenção de causar o impacto, mas por revelar um sujeito de prosa simples que faz da própria dor um pequeno lapso de poesia.

a-procura-do-amor-2013_julia-louis-dreyfus-e-james-gandolfiniConduzido com mão leve por Holofcener, que jamais tenta chamar a atenção para sua câmera, À Procura do Amor valoriza os diálogos e os atores que os encenam, sendo assim, é uma enorme vantagem contar com dois atores em tamanha sintonia como Louis-Dreyfus e Gandolfini. A primeira prova que há lugar para seu talento também na telona – vale lembrar que a atriz é colecionadora de elogios e prêmios pela participação em três seriados de comédia: Seinfeld, The New Adventures of Old Christine e Vice -, equilibrando com precisão comédia e drama em uma personagem que, muito em função do carisma gigantesco da atriz, logo ganha toda a empatia e torcida do espectador. Já Gandolfini, aqui em seu último papel no cinema, já que veio a falecer pouco tempo antes da estreia da produção, oferece um belíssimo canto de cisne em um desempenho brilhante, que pode ser menosprezado por o ator não se entregar a muletas dramáticas em um papel à primeira vista simples. Basta olhar atentamente para perceber o quanto Gandolfini valoriza os pequenos gestos e expressões na pele de Albert, da timidez palpável do sujeito nos primeiros encontros às pequenas pontadas de decepção que tomam seu rosto em diversos momentos, passando pelo excepcional trabalho vocal do ator, que utiliza sua pesada respiração como forma de evidenciar os sentimentos do personagem ao espectador. Uma performance bonita e recheada de carisma, que merecia muito mais reconhecimento ao longo da temporada de premiações – e digo isso sem em momento algum me deixar levar pela morte do ator, já que considero seu trabalho aqui muito superior ao de Bradley Cooper e Barkhad Abdi.

Derrapando por vezes em uma ocasional quebra de ritmo e na falta de desenvolvimento dos personagens coadjuvantes – Marianne parece viver apenas para reclamar do ex-marido; a relação de Chloe (Tavi Gevinson) e a mãe encontra uma resolução abrupta e insatisfatória; o casal de amigos de Eva, Sarah (Toni Collette) e Will (Ben Falcone), acaba jamais ganhando a empatia desejada do espectador -, À Procura do Amor é um filme leve e despretensioso, mas que ao seu término deixa o espectador se sentindo bem e com um gostinho de “quero mais”, ansiando por mais tempo ao lado dos simpáticos protagonistas que acompanhara ao longo dos poucos mais de noventa minutos de projeção.

Por Pedro H. S. Lubschinski.

Malévola (Maleficent. 2014).

malevola-2014
Malévola – A Amargura do Feminino

De forma geral, o filme trata da iniciação feminina frustrada da protagonista. Débutant, em francês, quer dizer iniciante, e corresponde à tradicional festa de comemoração de quinze anos de uma jovem. Em países europeus, essa festa, uma espécie de rito de iniciação, caracterizava o momento em que a adolescente era, pela primeira vez, apresentada como mulher à sociedade, e onde possíveis pretendentes também compareciam. Apesar do filme referir-se à idade de 16 anos, o conto original da Bela Adormecida indica a idade de 15 anos, que é a do Début.

A iniciação feminina e o baile de debutante.

A iniciação feminina e o baile de debutante.

No entanto, o processo de tornar-se mulher, para Malévola, foi frustrado: seus sonhos, expressos na sua vitalidade e na exuberância do reino dos Moors, dão lugar a uma profunda depressão, que torna tudo escuro e pesado. Essa fase negra de Malévola corresponde aos cem anos de sono que ela impõe a Aurora, que personifica, para a fada má, o despertar de sua consciência feminina, mesmo que sem a participação de seu contraponto masculino, que antes era figurado por Stephan.

Os chifres de Malévola possivelmente fazem referência ao aspecto masculino da fada, que não só é potencial, mas que chega a confrontar figuras masculinas exteriores, na forma do rei humano e de Stephan, que representam um lado masculino extremo, exacerbado, sem nenhum equilíbrio compensatório.

malevola e aurora

Malévola se envolve de novo com seu lado criança.

Algo que me chamou muito a atenção foi o fato de o pai de Aurora mandar a filha para longe de si com a finalidade de protegê-la. Parece ser uma atitude típica de homens que, querendo proteger o aspecto feminino, associado à figura da esposa e da filha, acaba isolando-o e isentando-o de qualquer relacionamento. É o que se observa em homens que, principalmente nos séculos passados, mantiveram relacionamentos sexuais com prostitutas, deixando a esposa para interações mais “puras” ou “santificadas”. Nota-se que Stephan, além da crueldade de vender o coração de uma mulher, isolou-se da filha e da esposa, a quem não atenta nem na hora da morte. Ele parece se preocupar inteiramente com a disputa de poder com Malévola, o que denuncia um forte complexo materno negativo. O homem projeta a mãe supercontroladora em todas as mulheres e procura dominá-las ou isolá-las. A fada má constitui sua própria alma (representada também pela esposa e pela filha), a quem impõe a clausura de uma grande cerca de espinhos. Nesse aspecto, a leitura do conto do ponto de vista da psicologia masculina é totalmente válida.

Entretanto, o contato de Malévola com seu lado criança (Aurora), sepultado pela presunção e pela ambição do novo rei, acaba por descongelar seu coração endurecido. Se esta não pôde despertar seu lado feminino pelo amor a outro homem, devido à decepção, ela se redimirá tornando-se mãe. Aurora é como se fosse mesmo filha da fada e do rei, ainda que por adoção. Uma filha que herda a maldição da mãe, mas que prenuncia seu despertar. O filme parece retratar um fato muito comum hoje em dia: quantas mulheres não acabam se iniciando na vida adulta tornando-se primeiramente mães solteiras, devido à frustração de um amor, ou por não conseguir confiar em um, pela falta de um modelo masculino. Observe-se que nem Malévola, nem o rei Stephan, quando meninos, tinham pais vivos.

As três Fadas Madrinhas e Aurora.

As três Fadas Madrinhas e Aurora.

O único relacionamento que a fada tem com o masculino é através do corvo Diaval. Esta interação não evolui para algo mais profundo, mas pelo menos o faz até o ponto de ele ganhar certa autonomia, quando insiste para que a fada prepare o príncipe para que beije Aurora e a desafia a transformá-lo em verme ou pombo, pois não mais se importa. Por outro lado, é típica a superficialidade das personalidades das fadas madrinhas, boazinhas, santinhas, mas totalmente inexperientes, sem nenhum dote para a lida diária do lar, ao contrário de Malévola, que praticamente cria Aurora. O mesmo desenvolvimento ocorre com Nina, personagem do filme “Cisne Negro”, que precisa conscientizar seu lado sombrio para representar com brilhantismo a peça do mesmo nome. Isso denuncia um aspecto importante para o desenvolvimento da personalidade: ninguém se torna grande da noite para o dia, ou por simples magia. As maiores personalidades sofreram muito e foram forjadas no embate interno de qualidades e defeitos, de aspectos luminosos e tenebrosos. Parafraseando Jung, as grandes alturas só são atingidas a custa da mesma proporção de enraizamento em lugares mais profundos no solo.

Malévola, inicialmente, se identifica com seu lado sombrio, pois rejeita a sua identidade de moça bela e boa, a qual foi vilmente desprezada por Stephan. Mas percebe a necessidade de relativizar também sua sombra, e assim passa a ter disponíveis os dois modos de ser: a boa e a má, para usar de acordo com as circunstâncias, sem se identificar inteiramente com uma ou com a outra.

Phillip_e_Aurora_MalevolaO final do filme é trágico para Stephan. O embate com uma pessoa que alcança maior integridade e maturidade só pode finalizar com a vitória desta, ainda mais quando chega ao ponto de recuperar as próprias asas, antes presas do antigo captor. Quando a rigidez pessoal alcança um nível extremo, só a morte pode compensar esse tipo de existência, que, aliás, equivale em vários aspectos às qualidades daquela. Aurora une então os reinos humano e sobrenatural, consciente e inconsciente. E ainda aponta para um promissor relacionamento com o aspecto masculino, representado pelo príncipe Philip.

(Leia mais a respeito: “A Bela Adormecida – a iniciação ao feminino“; e “A origem do Eu“)

Por Charles Alberto Resende.

A Imigrante (The Immigrant. 2013)

A-Imigrante-2013_posterPor Francisco Bandeira.
O Diretor James Gray volta a falar de família, fé e amor neste seu novo longa. Usando seu modo aparentemente “fora de moda” de contar histórias, o cineasta se mostra preocupado com os detalhes, impondo um ritmo deliberado, mantendo seu foco na polonesa Ewa Cybulski (Marion Cotillard), uma polonesa infeliz recém-chegada nos EUA, que aprende logo de cara como é difícil alcançar o tão desejado sonho americano. É um trabalho muito inteligente e maduro, onde Gray consegue extrair certo otimismo de algo tão frio e melancólico como “A Imigrante”.

a-imigrante-2013_02O cineasta construiu sua carreira em Nova York, explorando o submundo do crime contemporâneo, em filmes como “Fuga Para Odessa” (Little Odessa), seu primeiro longa-metragem. E logo se torna uma surpresa ele voltar no tempo (cerca de 90 anos) para realizar seu novo projeto. Mantendo-se contido nos paralelos de seu filme para modernos feudos políticos da América (controle de fronteiras, política de imigração), Gray sempre está mais interessado nas pessoas do que em mensagens, indo atrás de algo muito mais íntimo.

O filme conta a história de uma imigrante, Ewa Cybulski (Marion Cotillard), que tenta embarcar nos EUA juntamente com sua irmã, Magda (Angela Sarafyan), que está doente e precisa ficar em quarentena por seis meses em Ellis Island. Ao receber ajuda de Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), a mulher é levada a uma vida de burlesco, vaudeville e prostituição. Ao conhecer o deslumbrante Orlando (Jeremy Renner), Ewa ver uma nova esperança de encontrar sua irmã e ir à busca de uma vida melhor na América.

a-imigrante-2013_03Um dos pontos fortes da obra é sem dúvida o domínio da mise-en-scène de Gray, sua enorme segurança na condução de seus filmes, na composição dos planos, no posicionamento de sua câmera e a facilidade com que ele faz a transição de uma cena para outra. Os trajes e cenários, juntamente da belíssima fotografia de Darius Khondji, são extremamente ricos e marcantes, lembrando filmes como “Era Uma Vez na América” e “Sindicato de Ladrões”, qualidades que o colocam na tradição do classicismo de Hollywood.

O diretor também volta a construir um triângulo amoroso tão complexo e profundo quanto em seu trabalho anterior, “Amantes” (Two Lovers). Aqui, representado por Bruno, um homem que promete ajudar Ewa, mas logo mostra sua verdadeira faceta, impondo seu poder sobre ela, incitando-a a se prostituir como forma de ganhar dinheiro para liberar sua irmã, que está prestes a ser deportada. Desesperada, a moça sucumbe à vida mundana, o que realmente abala um pouco a sua fé. Desacreditada, a moça ver uma nova esperança com a chegada de Orlando (Jeremy Renner), um mágico repleto de carisma, alegria em viver e primo de Bruno. Encantado com Ewa, o gentil rapaz logo se comove com a situação dela e resolve ajudá-la a fugir de lá, mas seu primo não tem o menor interesse de deixar isso acontecer, o que se deve a “maldição” de ter se apaixonado por aquela bela mulher.

a-imigrante-2013_01O elenco escolhido por James Gray também é maravilhoso: Joaquin Phoenix mostra o motivo de ser considerado um dos melhores interpretes de sua geração, fazendo de seu Bruno a figura mais trágica da obra. Se uma hora pensamos que ele é um homem realmente frio, sem escrúpulos e que só quer tirar benefício de qualquer situação, logo vemos no olhar do ator e nas atitudes elaboradas pelo roteiro, que seus sentimentos por Ewa são realmente verdadeiros e nunca questionamos isso. Jeremy Renner transforma seu Orlando no símbolo de esperança daquele lugar. Desde sua primeira cena, aonde o mágico chega trazendo um pouco alegria ao local (neste caso, a fotografia com cores fortes torna-se fundamental), de seu olhar simples e otimista, sempre com um sorriso no rosto, seu personagem chega devolvendo à Ewa sua fé que estava abalada, demonstrando a moça que há uma saída e que ele pode ser a solução para seus problemas. Seus confrontos com Bruno mostram isso à mulher que cada vez mais ver a possibilidade de buscar sua irmã e ir atrás de seus sonhos. Mas o grande destaque do elenco é mesmo a bela Marion Cotillard, num desempenho simplesmente magistral.

Escapando das armadilhas e exageros do gênero, a atriz entrega uma atuação fascinante, desde o seu olhar devastado até o leque de nuances que sua personagem exige, especialmente quando o filme se transforma em um estudo de personagem extremamente complexo e tocante. A intensidade do filme vem através de um olhar mais atencioso do cineasta sobre Ewa, de sua inocência inicial até o desenvolvimento de uma figura mais dura, na mudança de seu olhar (antes espantado com aquele “novo mundo” até tornar-se frio diante de sua desilusão), quando a mesma vai aprendendo o que é necessário para sobreviver na terra de falsas oportunidades.

a-imigrante-2013_04Outro ponto alto da produção, os diálogos são perfeitos, nos fazendo entender a gama de sentimentos dos personagens: em alguns momentos estão repletos de melancolia, em outros são esperançosos ou cortantes (em determinado momento, Ewa diz a Bruno: ‘Eu amo dinheiro, mas eu não te amo… Eu não me amo!‘). O melodrama está na indignação moral de Cotillard, na sua culpa católica (a cena do confessionário é memorável, fazendo lembrar um pouco de Maria Falconetti em “A Paixão de Joana d’Arc”) e no seu próprio sacrifício por sua irmã. É nela que o peso é todo jogado: na vergonha da família (ao se tornar prostituta e ser rejeitada por seus próprios parentes) e na personificação de discórdia (sendo apontada como responsável pelas desavenças entre Bruno e Orlando).

Os trechos a seguir contém spoiler.

Após muitas discussões, brigas que resultam em tragédia, resultando em uma conveniente “união”, pela ânsia de sobreviver, em busca de algo melhor na vida. E após uma fuga da polícia, onde o personagem de Phoenix funciona quase como um anti-herói (o sujeito é espancado e tem seu dinheiro extorquido pelos homens da lei), onde culmina numa cena poderosa de seu embate, onde acaba caindo na afeição de Ewa. E, ao abrir mão da mulher que ama por querer que ela tenha uma vida melhor, Bruno mostra que encontrou a redenção justamente em sua maior maldição.

E o belíssimo plano final orquestrado por Gray serve para nos lembrar da enorme ambiguidade de sua obra: Ewa e sua irmã estão no barco, naquela paisagem fria, porém em um caminho iluminado com destino à terra de sonhos e esperanças, enquanto Bruno vai caminhando por um lugar dourado (simbolizando a chama que se acendeu em seu coração), aonde vai desaparecendo aos poucos na escuridão, pois ali vagava apenas um homem perdido em sua própria desolação.

Por Francisco Bandeira.

Livro: O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter), de Russell Banks

o-doce-amanha_livro-de-russell-banksPor: Gilberto Ortega Jr.
Como sempre, na hora de escolher um livro minhas manias não faltam se por um lado ‘O Doce Amanhã‘ não é um livro com titulo esdrúxulo, eu acabei o escolhendo por um outro simples motivo, o forte conteúdo psicológico que o livro poderia ter, afinal toda fatalidade gera pensamento sobre ela, e outras possíveis temáticas; como quem tem culpa, como reagir, é possível superar, dentre tantos outros.

o-doce-amanha_filmeEm uma cidade do interior do estado de Nova York, Dolores Driscoll como sempre faz apanha todas as vinte crianças no seu ônibus escolar, mas no meio do caminho acontece um acidente de ônibus e todas as crianças morrem apenas Dolores e uma única menina sobrevive, Nicole Burnell, que fica paralítica, além disso, com a tragédia surge na cidade o advogado Ilmo.sr. Mitchell Stephens (como ele mesmo gosta de ser chamado), a intenção dele é representar as famílias das crianças em um processo, mas o mais interessante é que nem ele sabe contra quem, em especifico, se dirigira este processo, em um determinado momento do seu relato na trama ele diz que faz isso não por caridade ou beneficência, mas somente porque realmente gosta deste tipo de processos.

Há dentro do livro quatro vozes narrativas envolvidas de alguma forma no acidente, Dolores Driscoll, Nicole Burnell, Billy Ansel e Mitchell Stephens.
– Dolores é a motorista do ônibus, mãe de dois filhos e casada com Abbot que após sofrer um derrame fica com um lado do corpo paralisado e passa a mostrar dificuldades na fala, ela mantém uma dependência muito grande com seu marido, parece que ele funciona como um cérebro para os dois.
– Nicole é uma garota normal, bonita e um pouco popular, trabalhava de babá, ela sofria abuso sexual do seu pai, após o acidente ela fica paraplégica, mas passa a viver em um mundo só seu, não que ela fique louca, é que aparentemente a personagem descobre sua “vida interna”, outro fator com que faça que ela saia pouco é que a irrita o fato de as pessoas terem pena dela.
– Billy Ansel é um veterano do Vietnã, tem um posto de gasolina, onde constantemente emprega outros veteranos. Ele já é um personagem bem pra baixo, pela morte da mulher, quando os filhos morrem basicamente ele fica sem motivos para viver, e acaba se tornando uma espécie de zumbi, alcoólico, ele também é visto como um cidadão modelo da cidade.
– O Sr. Stephens é aparentemente um grande advogado, que tem uma filha com constantes problemas com drogas, e gosta dos processos de fatalidade.

The Sweet Hereafter_bookO que eu mais gosto no livro do Russel Banks é o fato do que não foi feito à trama de uma história que podia ter explorado a veia sanguinária, a questão da culpa, que em minha opinião: buscar culpas em fatalidade é se comportar como cachorro que corre atrás do rabo. A grande temática do livro não é uma tragédia, mas sim a vida como fica após a tragédia, o legal é que o autor não entope o leitor desta vida pós-acidente, na verdade ele pega o acidente como gancho para fazer sondagens sobre a vida em uma cidade pequena, com pequenos comentários dos narradores sobre a vida alheia, é como se o acidente fosse um motivo qualquer para ele focar a vida naquela cidadezinha, e isso ele faz com minuciosas descrições da cidade e de quem vive lá, o estilo fluido e leve engana o leitor, que acredita que qualidade do livro se mede em dificuldade na leitura, outro detalhe que muito me impressionou foi que não há um caos ou pânico na cidade após o acidente, talvez ele esteja lá, mas como o fato é mostrado através de pensamentos lúcidos fica uma grande coerência.

Para quem tem medo de este sem um livro pesadão ele não é, pelo contrário como o título faz menção é como se todos acordassem em um doce amanhã, de certa forma melhores e mais serenos, apesar da deliciosa melancolia que envolve o livro. E assim este livro se torna um dos melhores que li em 2012.

Curiosidade: Em 1997, o Diretor Atom Egoyan fez um filme do livro de Russel Banks.