Curta: Ilha Das Flores (1989)

Por Sara Lasi.

O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser Livre. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”

Podem me chamar de idealista, romântica, sentimentalóide, tola, sonhadora, mas eu creio numa coisa: o Capitalismo rouba a Liberdade das pessoas. Liberdade no seu conceito mais puro e desejado, que traz intrínseco todas as causas e consequências que o estado nos expõe.

Então, aqui e agora, você terá a ‘liberdade’ de achar que estou falando besteira, mas mesmo que discorde de mim, ou até concorde (é mesmo?!), assista este curta e deixe-se conduzir pela lógica simples, que tão inteligente e ironicamente ele expõe, sobre o funcionamento da sociedade de consumo, que em muitos momentos chega a ser tão podre quanto o lixo que produz.

Ainda dentro do tema trouxe algo sobre a teoria da indústria cultural, para reflexão e apreciação de quem gostou desse Curta:

Os meios de comunicação de massa (veículos da indústria cultural) nos prometem, através da publicidade e da propaganda, colocar a felicidade imediatamente em nossas mãos, por meio da compra de alguma mercadoria: seja ela um CD, um calçado, uma roupa, um comportamento, um carro, uma bebida, um estilo etc. A mídia nos promete e nos oferece essa felicidade em instantes. O público, infantilizado, procura avidamente satisfazer seus desejos. Uma vez que nos tornamos passivos, acríticos, deixamos de distinguir a ficção da realidade, nos infantilizamos e, por isso, nos julgamos incapazes, incompetentes para decidirmos sobre nossas próprias vidas etc. Uma vez que não nos julgamos preparados para pensar, e desejamos ouvir dos especialistas da mídia o que devemos fazer, sentimo-nos intimidados e aceitamos todos os produtos (em formas de publicidade e propaganda) que a mídia nos impõe.” (http://www.urutagua.uem.br//005/14soc_barbosa.htm)

Ilha das Flores“, criado há mais de 20 anos, mas extremamente atual. Não deixem de assistir, é muito, muito bom!!

ILHA DAS FLORES – curta metragem
Brasil – 1989 – Direção: Jorge Furtado – Elenco: Paulo José (narração) e Ciça Reckziegel (D. Anete).

Grandes Cineastas: KAR WAI WONG

Por Roberto Souza.

Muitas vezes os cinéfilos lamentam não contar mais com os grandes diretores do passado. Mais de uma geração de mestres passou, parecendo não haver seguidores à altura de suas lições e segredos. Há quem chame isso de saudosismo. Outros apenas encaram como uma constatação óbvia e inevitável que o cinema atual parece ter se desvirtuado, saído dos trilhos ao desprezar às experiências anteriores em favor de efeitos e artificialismos. Mas nem tudo está perdido, pois a capacidade de renovação felizmente continua no cerne de qualquer manifestação artística. É o caso do chinês Kar Wai Wong, cuja filmografia vem se constituindo num dos alicerces do cinema moderno, com uma sólida carreira que já acumula quinze filmes.

Nascido em 1956, Wong viveu em Shanghai porém, aos cinco anos, sua mãe emigrou para Hong-Kong, abandonando o pai e outros dois filhos, levando-o junto na empreitada. Sem falar o dialeto local, o cantonês, até os 13 anos, sua infância foi solitária e difícil. Nessa época começou a demonstrar uma inclinação pela arte, em especial pelo desenho, mas logo seu foco era outro. Aos 24 anos, após se formar como desenhista gráfico, o ingresso num curso de preparação para roteiristas mudou o rumo de sua vida. As imagens que o fascinaram tanto na juventude agora podiam ter movimento. As idealizações e sonhos dos anos de solidão, a necessidade de compartilhar e comunicar, inibida por tanto tempo, estava prestes a ganhar forma cinematográfica.

Após seis anos trabalhando como fazedor de roteiros, começou a dirigir filmes publicitários e clipes musicais. Sua primeira chance nos longametragens veio em 1988, ao rodar WONG GOK KA MOON (inédito no Brasil), segundo a crítica internacional uma estimulante mistura de paixão e crime emoldurada pelos neons de Hong-Kong. Logo no seu segundo filme, DIAS SELVAGENS (A Fei Jing Juen), de 1991, o exorcismo de velhas inseguranças se faz presente: um rapaz descobre que não foi criado por sua mãe biológica, enquanto fica indeciso também pelo amor de duas mulheres. A sobrevivência e instabilidade das relações sentimentais ganham seu primeiro capítulo, sob um estilo visualmente suntuoso, com uma busca pelo apuro visual através da iluminação.

A evolução gritante de filme para filme culminou com a obra-prima AMOR À FLOR DA PELE (Fa Yeung Nin Wa), de 2000, onde dois vizinhos descobrem que seus respectivos cônjuges mantém um caso, iniciando também um relacionamento romântico, temperado pelo choque entre a solidão e o desejo. Com técnica impecável, tudo é tratado com extrema sutileza: imagens lentas, o ritmo da música, a suavidade da iluminação, o sexo apenas sugerido e não explícito, deixando a intensidade por conta das emoções latentes no interior do casal, numa atmosfera onírica e melancólica. Esse domínio consciente da forma em função do conteúdo, essa maneira de pensar as soluções visuais como contraponto à narrativa, revelam um artista maduro e capaz de manipular os instrumentos que o cinema oferece. O reconhecimento veio através de uma enxurrada de 31 prêmios internacionais, em diversos festivais e mostras.

Embora creditado como roteirista de quase todos os seus filmes, sabe-se que isso não passa de uma convenção, pois Wong não se utiliza de roteiros e sim de uma idéia inicial que desenvolve no curso das filmagens. Segundo ele, seu estilo fragmentado de contar uma história é influenciado pelo romance The Buenos Aires Affair, do escritor argentino Manuel Puig, que adaptou às telas, em 1997, como FELIZES JUNTOS (Chun Gwong Cha Sit), se tornando até hoje por este trabalho o único chinês a receber um prêmio de direção no Festival de Cannes. Era uma questão de tempo surgirem os convites internacionais.

Em 2007, rodou UM BEIJO ROUBADO (My Blueberry Nights), seu primeiro filme em língua inglesa, contando com Jude Law e Norah Jones no papéis principais. Mais que uma mistura de drama e romance, é um delicado e tocante estudo sobre as distâncias amorosas e os possíveis caminhos para superá-las. Muitos o acusaram de fazer concessões ao mercado americano no tratamento açucarado do enredo, transformando-o num road-movie tipicamente ianque. No entanto, aqueles que realmente enxergam a profundeza e não a superfície, notarão que todos os traços artísticos e humanos típicos das suas principais obras estão presentes.

O que demonstra que na filmografia de Kar Wai Wong nada se perde, tudo se recria, tudo se transforma.

Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança (2011)

Por Giovanni COBRA.

Filho do capeta. Padre mulato de olhos verdes. Mãe bonita, sarada e brigona. Pai é o diabo em pessoa. Capanga malvado que depois se transforma em um albino apodrecido. Sacerdote canastrão careca que não largou o ar de “highlander”. E ele, ele, meu antigo ídolo, Nicholas Cage, como o atormentado ex-motoqueiro de acrobacias, o Johnny Blaze, que ao se irritar se transforma no demoníaco Motoqueiro Fantasma!

Parece que vai dar jogo, pois o visual está caprichado, a mudança para o formato em chamas é muito bem feita e até a moto segue o padrão.Então, o que há de errado? Além da infame peruca de Nicholas Cage? Um sujeito que fez “Feitiço da Lua”, “Despedida em Las Vegas”, “O Senhor da Guerra” e agora se mete em mais uma roubada dessas?

Primeiro, a moto não é uma Harley. Pecado mortal moto diferente e o mesmo barulho milenar das grandes choppers. Respeito a V-Max, mas não dá! Outra coisa; se é para rodar nos arredores da Romênia, porque não aproveitou mais o Lago Vidraru ou então o Castelo Hunyad? E ficou meio que paradão em Bucareste?

Segundo, quando vai se modificar, precisa daquele tanto de caretas? Em vez de sofrimento, ficou trash demais… E o roteiro? Não é meio ilógico o capeta ficar sempre distante do maior rival e não enfrentá-lo, nem que seja em uma luta final? Afinal bandido bom é bandido que mete medo, não? Aliás, nem o sujeito brancão ficou amedrontador, parece mais um roqueiro meio que datado.

Terceiro, já que o negócio é ação, capricha nas cenas. Bota fogo nelas! Uma das poucas que formam uma sequência adequada é cuspir bala depois da metralhada. Ficou bom. De resto as inúmeras possibilidades que uma moto oferece e o poder do Motoqueiro juntos, ficaram muito aquém.

Diante desse quadro tentei apreciar as locações na Turquia, onde estive o ano passado. A Capadócia é daquele jeito mesmo e andar de balão lá é show. Também o pequeno flash de Pamukkalé é legal. E no fundo o padre é o personagem mais interessante, pois além de saber apreciar um bom vinho, toca bem a moto, sem firulas e fala grosso quando necessário.

O final é muito fraco, decepcionante, até. Fico bestificado ao ver Nicholas se meter num troço desses, que só não é pior do que o filme original porque não tem jeito.

O que há de bom: motos, alguma coisa das estradas da Romênia e o visual da Turquia
O que há de ruim: desrespeito ao personagem suas origens, sua moto e tudo o mais
O que prestar atenção: tem hora que ele rejeita a maldição, depois a aceita e até a quer de volta
A cena do filme: a mijada

Cotação: filme regular (@@@)

A Corrente do Bem (2000). A Conta que Muda o Mundo (Cinema, Educação e Rede Social)

Por José Antonio Klaes Roig, do Blog Educa Tube.

Estava zapeando canais de TV, de noite, quando eis que paro justamente na cena acima do filme A Corrente do Bem, que já havia assistido tempo atrás, mas não com o enfoque educacional. Dessa feita, percebi o quanto é possível trabalhar cinema, educação e redes sociais através desta cena ou do filme como um todo.

A conta que pode mudar o mundo é bem simples, como na cena demonstra, mas para se atingir o resultado satisfatório requer que acreditemos no que pregamos, sejamos pais ou educadores…

Nós somos o elo de uma corrente e podemos dar continuidade ou quebrá-la, com nossas ações… Como educadores, temos ou deveríamos ter a consciência, como disse alguém certa vez, que não educamos para o Hoje, e sim para o Amanhã… Não ensinamos uma turma, mas uma geração! E como blogueiros educacionais não temos a dimensão de nossas ações no mundo real, a não ser quando alguém deixa algum comentário… Mas se socializamos nossa prática, divulgamos ações, atividades, projetos relevantes nossos, da escola e/ou de outros colegas, estamos ampliando a corrente e mostrando ao mundo virtual, o que a grande mídia desconhece ou não mostra no horário nobre…

A corrente do bem é pensar, não apenas em ações imediatas com resultados instantâneos, mas ações a médio e longo prazo, que sejam aplicáveis, sustentáveis e significativas… Mas pra isso, é preciso saber mediar o tempo, o espaço, os recursos, sujeitos e agentes envolvidos neste processo… Planejar tudo isso é preciso… Boas ações não se mantém com apenas boas intenções…

A corrente do bem não é criar grandes projetos – muitos mirabolantes e pouco executáveis – para concorrer a premiações, mas fazer coisas simples, autênticas e de uma praticidade que motive outros a também seguirem o exemplo, e ai, por si só, o reconhecimento virá…

E cada vez mais, num mundo cheio de estímulos visuais, para se envolver o aluno é preciso conhecer esse novo mundo do jovem… que é bombardeado por todo tipo de coisa, sem o devido acompanhamento dos pais… E a corrente do bem precisa necessariamente iniciar na família, continuar na escola e seguir nos demais ambientes sociais… precisamos ser o exemplo do que queremos propor.

A pedagogia do exemplo tem que começar sempre por nós, eis a conta que pode mudar o mundo, a começar pelo nosso próprio…

Aprendi com meu pai, que pintava sempre as mesmas paisagens, mas nunca os quadros eram iguais um ao outro, haviam tons e detalhes únicos em cada um… Assim deveria ser o ato de educar, repetir-se enquanto artista sem ser uma repetição da mesma obra… Múltiplos olhares sobre a mesma paisagem humana…

Disse César Coll: “Tão importante quanto o que se ensina e se aprende é como se ensina e como se aprende“. Metodologia e didática adequadas áquele tempo e espaço propostos dão significado à prática escolar, que precisa promover significação para o aluno… Afinal, como declarou Carl Rogers: “Os educadores precisam compreender que ajudar as pessoas a se tornarem pessoas é muito mais importante do que ajudá-las a tornarem-se matemáticas, poliglotas ou coisa que o valha.” Educar para o mundo e para a vida, antes mesmo que para o trabalho… O sentido da vida é justamente buscar um sentido, um significado para a existência, dentro de uma corrente, de uma rede social…

A Corrente do Bem (Pay It Forward. 2000).

Incêndios (Incendies. 2010)

Por: Lidiana Batista.

Drama canadense dirigido por Dennis Villeneuve e estrelado por Rémy Girard, Lubna Azabal e Mohamed Majd.

A história de dois irmãos gêmeos tentando realizar o desejo da mãe após sua morte. No testamento, Narwal Marwan diz que quer ser enterrada nua, sem caixão, sem lápide e nem funeral. “Nenhuma lápide será colocada para aqueles que não cumprem suas promessas“. E diz ainda que Jeanne deveria encontrar o pai, e Simon o irmão desaparecido. Para cumprirem a missão designada pela mãe, ambos vão parar na Palestina, inciando assim uma investigação sobre suas vidas e sobre a mãe.

Primeiramente devo dizer que tive de refletir muito para escrever sobre este filme. Sabem aqueles filmes que quando terminam, você olha os créditos finais e mesmo assim não consegue se desligar? Incêndios fez isso comigo. Um excelente drama sobre verdade, força, perdão e obstinação.

E todos esses adjetivos não cabem somente ao filme, mas a uma mulher: Narwal Marwan, que teve a audácia de enfrentar a família para viver um amor, teve de doar seu filho e prometer a si mesma que jamais desistiria de encontrá-lo.

Enquanto os gêmeos caminham pelas áridas paisagens do oriente médio procurando pistas sobre o pai e o irmão, a história da mãe vai sendo contada. Não há como não sentir admiração por essa personagem que consegue forças para superar a perda de um filho, se envolver em uma guerrilha e viver 15 anos em uma prisão sendo torturada constantemente. Esta, é “a mulher que canta”.

Aos poucos os mistérios vão sendo desvendados, e a cada pergunta respondida, uma surpresa para os irmãos e para o espectador que assiste tudo admirado, fascinado e louco para saber quem é a misteriosa Narwal Marwan.

Narwal Marwan é sem dúvida alguma uma heroína como há muito tempo não via. Sua história de vida é apaixonante, e o diretor conseguiu transmitir isso com muita competência! A força da mulher que sonha, que não teme, que canta e encanta.

Incêndios queima a alma com a verdade, com o passado ignorado, com a crueldade e injustiça expostas para serem digeridas pelos protagonistas e pelo espectador.

Jeanne, um mais um pode ser um?

Fatal (Elegy. 2008)

Por: Lidiana Batista.

“Fatal”, baseado na obra do escritor Philip Roth e dirigido pela cineasta espanhola Isabel Coixet, diretora de outras películas como: “Minha vida sem mim“, “A vida secreta das palavras“, conta a história de David Kepesh, brilhantemente interpretado pelo ator Ben Kingsley.

David é um renomado professor universitário, crítico de arte e que sente seu ego inflado por saber que é objeto de desejo de suas alunas (necessidade de autoafirmação). Toda essa confiança cai por terra no dia em que ele conhece Consuela Castillo (Penélope Cruz, que quando bem dirigida consegue convencer), uma jovem segura de si, inteligente e bonita.

Eis que o professor de meia idade se vê envolvido com a jovem quase 30 anos mais jovem. David se torna inseguro não só pela idade, mas porque ele sabia que aquele relacionamento chegaria ao fim, já que ele não conseguia manter uma relação estável com nenhuma mulher.

David vive essa paixão. Sua vida encontra-se em total desiquilíbrio, ele teme um futuro com Consuela, sente que esta envelhecendo, e segundo ele mesmo diz: “Consuela tem toda a vida pela frente.” E ele não?

Apesar do filme mostrar toda a insegurança de David, o que para o expectador é bastante compreensível, compreendemos também o lado de Consuela. Jovem, linda e quer viver essa paixão, a diferença de idade nunca foi um obstáculo para ela, pelo contrário, ao lado de David, ela se sente segura, se sente amada.

Então, o que impediria esse romance? Bem, David tem um caso puramente sexual com uma mulher há mais de 20 anos. Ela é seu alicerce, é ela quem oferece o equilíbrio que David necessita, ela traz a segurança para o homem que precisa se autoafirmar o tempo todo.

Em outro momento do filme, este equilíbrio também é demonstrado quando George (Denis Hopper), melhor amigo de David, e que foi infiel a vida inteira, adoece e se vê sob os cuidados da esposa traída. Será isso então que os homens precisam? Alguém que não coloque em xeque seus sentimentos, desempenho sexual, suas vidas perfeitamente planejadas? E a mulher? Do que ela precisa?

A relação com o filho é algo delicado. O filho, um homem já feito, casado, médico, culpa o pai por ter abandonado o lar. Essa relação foi pouco explorada porque não fica claro se David tentou realmente uma aproximação com o filho. A grande questão, é que quando o rapaz questiona esse abandono, David é categórico: “fui honesto”. E de fato o foi, foi honesto com sua ex-mulher e consigo mesmo. Mas fica a pergunta: estaria ele sendo honesto com Consuela e com seus sentimentos? Se escondendo atrás da insegurança e do medo de envelhecer?

Um outro ponto que pode ser discutido é sobre a beleza da mulher. “As mulheres bonitas são invisíveis”. E são mesmo! Vistas como objetos sexuais, alguém para se passar uma noite e depois se gabar com os amigos, ninguém sabe como são solitárias, que choram à noite, e que são também apreciadoras da arte (no caso de Consuela).

Esses são apenas alguns pontos que podem ser discutidos, vale ressaltar que cinema é algo subjetivo e talvez essas questões levantadas podem ter passado despercebidas para quem já assistiu. No entanto, fica a dica para quem gosta de refletir sobre o medo de amar, a fraqueza do ser humano e sua insegurança.

O Bullying nos Cinemas

Por: Lidiana Batista.

Dentre as várias manifestações artísticas que possuímos, o cinema é a que mais consegue atingir um número maior de pessoas independente do nível social, religião, raça ou sexo. Por ser o mais popular, em termos de acessibilidade, o cinema pode ser visto como entretenimento, fonte de reflexão ou ambos.
Sabe-se que fatos da vida real inspiram roteiristas a criarem suas películas e no caso do Bullying não é diferente, pois foram analisados dois filmes com esta temática: Tiros em Columbine de Michael Moore, 2002 e Bang, Bang! Você morreu! de Guy Ferland 2002, pelo fato de que, no primeiro trata-se de um documentário sobre o massacre ocorrido na Columbine High School, na cidade de Littleton, Colorado, e o segundo por ser baseado em uma peça homônima que mostra de forma explícita o Bullying nas escolas americanas.
O documentário do cineasta Michael Moore, lançado em 2002, investiga o que motivou dois jovens do ensino médio, Erick Harris com 18 anos e Dylan Klebold de 17 anos, a entrarem armados no colégio e assassinarem 12 estudantes, 01 professor, deixarem mais de 20 pessoas feridas e suicidarem-se em seguida. Moore investigou tão a fundo o caso que o documentário mostra de forma explícita como é fácil conseguir uma arma nos Estados Unidos e como funciona a cultura bélica americana.
No decorrer da película ele também entrevista alunos que estudavam e que presenciaram o massacre, inclusive o roqueiro Marlyn Manson, que foi considerado bode expiatório já que os dois jovens em questão ouviam suas músicas.  Manson ficou dois anos sem poder ir ao estado do Colorado. Em entrevista presente no documentário, Michael Moore pergunta a Manson o que ele falaria para os estudantes de Columbine. O músico categoricamente responde: “Eu não diria nada. Eu apenas os ouviria. Coisa que certamente ninguém nunca fez.”
Moore também entrevista o criador do desenho South Park, Matt Stone que estudou na mesma escola onde ocorreu o massacre. Stone aborda os maus tratos que ele sofreu no colégio e os que os dois jovens também sofreram, pois segundo as investigações, Erick e Dylan eram constantemente humilhados e excluídos pelos colegas. Stone diz:
“Você acredita na escola e nos alunos, mas os professores, conselheiros e diretores não cooperam. Eles nos obrigam a ir bem na escola dizendo: ‘se fracassar agora, será um fracassado para sempre’. Todos chamavam Erick e Dylan de bichas. Eles pensavam: ‘ se sou bicha agora, serei para sempre’.
Quem dera alguém tivesse dito a eles: ‘Cara o colegial não é o fim. Falta um ano, um ano e meio. Você ainda vai morar sozinho’. Já na sexta série eles começam a martelar na sua cabeça: ‘Não erre, pois se errar, morrerá pobre e sozinho’. E você pensa: ‘ o que serei agora, serei para sempre’. É totalmente o contrário, muitos maus alunos se dão bem depois. Se tivessem falado com eles, isso não teria acontecido.”
É fato que Michael Moore é sensacionalista, pelo menos para mim. No entanto, o documentário é bastante pertinente para se trabalhar em sala de aula sobretudo com alunos do ensino médio.
Já em Bang, Bang! Você Morreu!, dirigido por Guy Ferland de 2002, é baseado na peça homônima do escritor americano William Mastrosimone lançada em 1999, e que coincidentemente ou não, foi encenada pela primeira vez em Oregon, onze dias antes do massacre de Columbine.
O filme conta a história de Trevor Adams, um jovem estudante do ensino médio, considerado bom aluno, e que após ter sido arremessado em uma lixeira, por alguns integrantes do time de futebol americano da escola, muda seu comportamento e decide fabricar uma bomba ameaçando explodir um dos prédios da escola. Apesar da bobam ser de mentira, isso causou pânico generalizado na cidade.
Trevor passa então a ser descriminado por colegas, professores, vizinhança e até mesmo pelos pais. A única pessoa que o apoiava era o professor de cinema e tetro Sr. Duncan, que propõe aos alunos encenarem a peça “Bang, Bang! Você morreu!”. No entanto, a peça não é bem vista pela comunidade, simplesmente pelo fato de o título remeter a um ato de violência e também porque o professor queria que Trevor fosse o protagonista, ou seja, o assassino.
O que a maioria dos professores não entendia, é que o objetivo do professor era fazer com que Trevor se encontrasse no personagem e descobrisse os reais motivos que o levaram a cometer a ameaça, mas principalmente, descobrisse os reais motivos que não o permitiram com que ele fosse adiante. A comunidade em geral acreditava que Trevor ao encenar a peça, poderia efetivamente se tornar um assassino, tal qual o personagem Josh da peça.
Em uma das cenas, é mostrado aos gestores da escola um vídeo feito por Trevor em que ele diz: “um empurrãozinho diante dos outros garotos, é algo muito relevante…especialmente quando você sabe que vai acontecer todos os dias. Você fica quase aliviado quando acontece…”

Vale ressaltar que em termos técnicos, ambos os filmes não apresentam mega produções e no caso de Bang, Bang! Você morreu! Nenhuma atuação é relevante. Mas fica a dica para professores interessados em discutir o tema com os alunos, pois tanto o documentário quanto o filme, trazem reflexões que podem ser debatidas em sala de aula.
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Tiranossauro (Tyrannosaur. 2011)

Por: Celo Silva.

Certos filmes mexem tanto com o íntimo do espectador que fica difícil traçar um panorama sobre ele, talvez por temer não conseguir ter propriedade para expressar os reais sentimentos que sente pela obra. “Tiranossauro” flerta com elementos de dramas tradicionais, mas assim não deve ser considerado. Transcende um alinhamento clássico, apostando em certa ousadia na hora de tratar de assuntos difíceis e delicados de maneira pouco usual. Aqui, os personagens não são rasos como na maioria dos dramas atuais. Por isso, talvez, cada vez mais esses tipos de obras vem sendo apontadas como independentes. Entende-se por “filme independente” aquele que foge de propostas comerciais da indústria cinematográfica, valendo-se da expressão artística de seu realizador. Bem, se a última sentença é fato, é inevitável não dizer que o excelente Tiranossauro seja um filme que se enquadre nessa alcunha.

Até pelo caráter de estréia na direção de longas do ator inglês Paddy Considine, fica difícil não afirmar o seu trabalho como indie, mas mesmo para um tipo de realização da onde tem surgido com freqüência bons exemplares de cinema, Considine consegue fazer um filme muito acima da média. Daqueles que crescem na memória afetiva de quem tem o prazer de apreciá-lo. Como é o seu primeiro filme, o qual também roteiriza, não dá para afirmar assim um estilo totalmente autoral para o cinema de Considine, mas empolga perceber que um bom diretor está se formando.

A trama de Tiranossauro gira em torno de Joseph (Peter Mulan), um agressivo homem que vive de apostas em jogos, de bebedeira e confusões na vizinhança. Um dia desses, ele conhece Hannah (Olívia Colman), uma mulher dona de um brechó que o ajuda após uma incursão em sua rotina auto-destrutiva. Apesar de aparentemente diferentes, um disfuncional vinculo entre eles se forma. Os dois parecem ser bem opostos, mas tem algo em comum. Talvez seja a amargura, a decepção, a ausência de perspectivas ou mesmo a falta de amparo e amor.

Porém, mesmo com suas possivelmente nuances que poderiam conduzir para cenas climáticas que enobreceriam de forma edificante os personagens, não esperem de Tiranossauro algo altamente nobre. Sim, existe nobreza nos personagens, mas ela surge de uma maneira transviada, baseada em alguma esperança de que tudo pode ser diferente; até ingênua, como em certo momento Joseph cita na explanação do porque do titulo atípico do filme.

Tiranossauro é daquelas obras que fazem o sangue fervilhar de tantas situações limites, até porque a maioria delas pode surgir na vida de qualquer um. A raiva e tristeza estão presentes em quase todos os momentos, mas Considine não preza por elucidar beleza desses fatos. A intenção é ser o mais cru e cruel possível, fazendo o espectador sentir na pele o que Joseph e Hannah estão passando. Joseph não lida bem com a doença terminal de seu melhor amigo, Hannah sofre com a perversidade do marido. Joseph tem que lidar com as injustiças cometidas contra um garoto que é seu vizinho, Hannah tem medo até de voltar para a casa. Eles amarguram e padecem, e muito, é verdade, mas são daqueles que não se refutam a tomar atitudes, mesmo que extremistas, mas nesses atos, acabam cada vez mais por se aproximarem um do outro.

O trabalho de direção de Considine deve ser mesmo louvado, Tiranossauro também tem seus bonitos travellings, além de editar com naturalidade seqüências tensas e violentas com outras puramente sentimentais, cheias de angustias e aflições. Exemplo claro disso é na explosiva cena que culmina com Hannah implorando para que Joseph a abrace. Verdade seja dita, as atuações de Peter Mulan e Olívia Colman são algo fora do comum. Os dois atores estão soberbos defendendo seus personagens e são a força motriz para que essa maravilhosa obra engrene e ganhe força, fazendo o espectador terminar a sessão com a boca seca e a pulsação acelerada.

Tiranossauro é o tipo de filme que precisa ser visto, porque cinema também serve para representar e discutir a alma do ser humano, mesmo sendo em suas falhas e temores, e como sempre procuramos por um recomeço.

Borderline: Além dos Limites (2008)

Por: Lidiana Batista.

Filme canadense da diretora Lyne Charlebois realizado no ano de 2008, estrelado pela fantástica atriz Isabelle Blais, conta a história de Kiki, uma jovem mulher que aos 30 anos de idade tenta encontrar um equilíbrio para sua vida. Com a mãe internada em um hospital psiquiátrico e avó doente, Kiki tem flashbacks de sua infância e adolescência sempre regada à bebida e sexo. E diante do caos que se encontra, precisa ainda terminar seu romance, cujo orientador é também seu amante.

Logo na primeira cena já ficamos apaixonados por Isabelle Blais e sua Kiki. Uma mulher inteligente, sagaz, de humor mórbido tentando se descobrir o tempo todo. Os diálogos são envolventes e inteligentes, e creio que Isabelle Blais merecia uma premiação por sua excelente atuação.

Faz frio durante todo o filme. Kiki caminha com seu cachorro na neve, e é como se sua alma fosse tão fria quanto o próprio clima, e a impressão que temos é a de que Kiki quer a todo custo fugir desse caos, sempre quis, até mesmo na adolescência quando se entregou à bebida e ao sexo desregrado na esperança de esquecer quem era.

Diferente de “Garota Interrompida”, cujo personagem de Winona Rider é diagnosticado com Transtorno de Personalidade Borderline, o filme pouco fala sobre o assunto, ou quase nada. O único momento em que o transtorno é retratado é em um pequeno diálogo entre Winona e sua enfermeira, quando enfim ela consegue entender o que se passa.

Em Borderline: Sem Limites é diferente. Em momento algum vemos a palavra “borderline”, e nem é preciso. O comportamento de Kiki já denuncia uma personalidade que esta sempre nos extremos, na borda dos sentimentos, na fronteira.

Suas angústias e seu drama são tão intensos, que as cenas de sexo e nudez ficam em segundo plano, embora sejam importantes para o enredo do filme, o que queremos mesmo é saber o que se acontece com Kiki, suas reações, seus pensamentos, sua essência.

Filme altamente recomendável para borderlines, parentes e amigos de borderlines e para aqueles que buscam incessantemente o autoconhecimento.

Segue o trailler:

- Olá, meu nome é Kiki.
E não sou flor que se cheire.
Desculpe, farei direito.
Olá, meu nome é Kiki.
Sou uma viciada em sexo e dependente afetiva.
- Olá, Kiki.

-Sou viciada em tudo relacionado ao amor.
Eu realmente não sei o que dizer mais.
Hoje percebi que minha única relação estável é com Claude Viau,
meu cachorro.
Não façam mau juízo.
Não “fiz” com meu cachorro.
Minha relação com meu cachorro
é puramente platônica.
Claude Viau é um garoto que amei
dos 12 aos 15 anos.
Meu primeiro amor.
Eu lhe escrevi centenas de cartas, que nunca enviei.
Nos dia em que ele finalmente falou comigo,
eu o dispensei.

-Grande começo.
-É estranho.
Quando alguém me ama,
e…
Eu deveria me sentir bem,
confortável, eu acabo fugindo.
E…
quando me magoa,
Eu agarro.
É como se tivesse que machucar.

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011)

Por Alex Ginatto.
Pude assistir ontem a este surpreendente filme. De início acho que fui um pouco preconceituoso por se tratar de um filme iraniano, mas o enredo se aplica a qualquer lugar do mundo, talvez se focarmos um pouco menos na religião.

Realmente conseguimos sentir a aflição de todos os lados:
-o marido orgulhoso que não quer que a esposa se vá, mas também não diz isso a ela;
-a esposa, preocupada com o futuro de sua filha, querendo sair do país, mas não suportando a ideia de que o marido não concorde com ela;
-a filha em uma época complicada, diante da separação dos pais, se vendo como objeto de disputa;
-o senhor que não pode vencer o corpo e mente desgastados pela doença;
-o casal mais pobre entre a religião e o dinheiro devido aos credores.

O filme se mostrou muito maior do que se imagina pelo título e acho que a ideia do diretor ao finalizar sem um lado é justamente focar no todo e não somente na separação do casal.

Tudo o que acontece durante o filme é fruto de mentiras e decisões precipitadas iniciadas pela saída de Simin de sua casa. Ou seja, a separação é o início de tudo, e o filme termina com a certeza de que o que fica pendente durante todo o seu desenrolar, ao contrário do que parece, tem um fim, se concretiza.

Não sei se para rever, mas para se pensar e aplicar em nossas vidas.

Excelente filme!
Nota 8.