A crítica da crítica que não aconteceu com “O som ao redor”

o-som-ao-redor_2012Por Fabio Montarroios.
Parece que quando algo extraordinário acontece, há uma leve tendência a soterrar essa coisa com uma avalanche de elogios. Sim, desaparece a crítica, a tentativa e o exercício de compreensão e até mesmo a remota tentativa de avaliar é eliminada. Está sendo assim com o filme “O som ao redor” e, diga-se logo, não achei o filme ruim. Não mesmo! Bem ao contrário: gostei do filme. Mas é este o limite de um amador, de um não profissional: gostar ou não. O exercício da crítica, da crítica de cinema em especial, deveria ser do de ir além desse critério que é raso o bastante para demover pessoas de uma tarde preguiçosa que se gasta esticado no sofá vendo qualquer coisa na TV para ir até a um cinema (um dos poucos que esteja exibindo este filme ou qualquer outro filme nacional do tipo) assistir a algo que preste.

kleber-mendonca-filho_cineastaBom, mas parece que houve não um consenso geral em relação ao filme (com raríssimas exceções e aqui aponto uma delas: http://www.blogdoims.com.br/ims/o-som-ao-redor-e-a-primavera-pernambucana/)... O que me parece ter acontecido é uma desistência irrestrita de avaliar o filme propriamente. Houve cotações apenas (todas no máximo)… De todo modo, um exemplo – e poderia dizer um exemplo extremo – da anulação da crítica é esta entrevista com o diretor do filme, Kleber Mendonça, realizada pelo canal Globo News para o programa Starte: http://globotv.globo.com/globo-news/starte/t/todos-os-videos/v/diretor-kleber-mendonca-filho-desenvolve-criticas-sociais-em-seus-filmes/2416377/

O texto introdutório parece abrir as portas para o maior cineasta de todos os tempos. Felizmente o desprendimento do diretor anula não só isso, mas também a impressão geral que se poderia ter de um homem que está sendo mais lambido que picolé Chicabom na promoção! A entrevista tem um mérito: colher o depoimento do diretor que, ao refazer as perguntas, apresenta a essencia de seu trabalho e, repare bem, é apenas ele (e aquelas exceções que comentei no começo) que está de fato avaliando o filme… Aliás, ele diz estar filmando algo bem óbvio e, tenho certeza, ele não entende o porquê desse auê todo em torno do filme, mas, imagino, ele presuma que tudo isso se deva, principalmente, ao fato do fetichismo em relação ao pensamento estrageiro: especialmente o americano e mais especialmente ainda ao do jornal New York Times.

Som-ao-Redor_01O fato do filme ter sido citado pelo jornal como um dos melhores do ano de 2012 é legal, claro. Dá visibilidade internacional ao filme, pois em outros países também se leva em consideração o que diz o New York Times, mas, aqui no Brasil, isto parece ser demasiadamente superestimado, fazendo com que não seja necessário ou mesmo prudente, pensar o contrário. “Ora, se o filme foi eleito um dos melhores do ano pelo NYT, por que diabos eu iria na contra mão?”, devem ter cogitado boa parte da crítica. Se o NYT carimbou o filme, pronto! Nas palavras da apresentadora do programa Starte temos o seguinte: “(…) na verdade [o filme] nem parece ficção. O filme é uma radiografia da sociedade brasileira”.

Uma cena eu comento, pois é, sem dúvida, muito boa, mas, como o próprio diretor diria, óbvia, a da reunião de condômino. Não vou estragar a cena, mas quando uma das moradoras reclama que está recebendo sua revista aberta (sinal de que está sendo lida pelo porteiro) e diz que esta revista é a “Veja”, dei gargalhadas! A “Veja” representa uma fração da sociedade que, não só a meu ver, sintetiza todo um anseio: a modernização de uma sociedade escangalhada, ou seja, algo que nunca acontecerá e isto, meus caros, outros filmes nacionais já disseram de modo direto (“Cronicamente inviável” e “Amarelo manga”, podem exemplificar)  e indireto (“Cão sem dono” e “O invasor”, em mais dois exemplos). E aqui, em termos de exemplos, pode-se voltar no tempo ou avançar: o que se pode dizer de “São Paulo SA” ou dos filmes excelentes que figuram nas mostras e umas duas ou três reles semanas em algumas poucas salas de cinema?

Kleber Mendonça, com seu estilo e sua edição matadora, seguem essa linha quase invisível de um cinema autoral que é soterrado por bobagens de todos os países, mas que se coaduna com o melhor da produção mundial. Basta frequentar qualquer mostra de cinema ou uma sala de com programação voltada para os bons filmes. A propósito, o próprio diretor fazia seções especiais na Casa Joaquim Nabuco e garantia a muitos jovens e interessados uma programação de cinema de qualidade, da qual, não tenho dúvidas, ele foi beneficiado. Ou vai me dizer que o personagem principal de Mendonça, João, não lembra os personagens de Antonioni?

Mas aí que está o ponto: a chancela do New York Times, principalmente quando reverbera da forma como reverberou por aqui, parece servir de desestímulo a crítica. Daí, pensar que o filme é incriticável é um passo e fazer do diretor um Glauber Rocha é um pulo.

Por se tratar de um filme nacional recomendo que seja assistido, pois o cinema feito aqui, particularmente esse cinema autoral, sofre de constante indiferença. E, asseguro aos senhores, se não fosse essa repercussão, o que não tiraria de modo algum a qualidade do filme, muitos de nós não teríamos tido conhecimento dele e de sua representatividade na filmografia brasileira. O filme de Mendonça é mais um que ajuda a entender a realidade, claro, mas não é isso que estão dizendo dele não… Aproveita a ida ao cinema (se é que o filme ainda está passando) e faça você mesmo a sua crítica.

Uma Reflexão Silenciosa: “As Quatro Voltas” (2010)

as-quatro-voltas_2010Por Eduardo Carvalho.

Um pastor. Uma cabra. Uma árvore. Um punhado de carvão. Protagonistas silenciosos de suas estórias. Sem uma única linha de diálogos, o diretor italiano Michelangelo Frammartino faz de “As Quatro Voltas” uma experiência única no cinema contemporâneo. Na quietude da paisagem de uma velha vila do sul da Itália, o silêncio intima o espectador a ficar atento às imagens quase documentais projetadas na tela, corriqueiras caso houvesse uma mínima troca de palavras entre o velho pastor e uma mulher que varre o chão da igreja local. Mas são tais imagens que narram os fatos; se há uma tensão que perpassa todo o filme, esta advém da ausência de um texto – uma narração em off, que fosse – que apontasse para uma estrutura dramática convencional, e da mais banal utilização do elemento visual como fio condutor da narrativa.

as-quatro-voltas_02Mas tal banalidade é apenas aparente. Com doses de humor – a gag envolvendo uma caminhonete desgovernada e uma cerca – e de drama – a cabra que se perde do rebanho –, o diretor conta quatro estórias sobre o início e o fim da existência, e das relações entre os seres. O homem não é apartado da natureza; o ser humano é apenas e tão somente mais um componente finito dentro de todo um processo, igualado aos demais, tão importante e tão insignificante quanto os demais. Frammartino mostra, com a sutileza de sua arte, que a morte de um homem tem o mesmo peso de uma árvore derrubada. E isto sem recorrer a qualquer tentativa barata de persuasão ideológica.

as-quatro-voltas_00Paradoxalmente, “As Quatro Voltas” é um filme visual que simplesmente não explora o visual, ao menos no sentido convencional. Qualquer documentário do National Geographic se utiliza das imagens, com todos os recursos de uma super câmera lenta e de zooms inacreditáveis, de modo sensacional. Se o espectador por acaso lembrar-se da utilização de imagens e silêncios por Stanley Kubrick na primeira parte de “2001”, o filme de Frammartino é quase uma antítese. O prólogo de “Uma Odisseia No Espaço”, denominado “A Aurora do Homem”, faz uso de imagens espetaculares em seus grandes planos, oferecendo um quadro de contemplação aos olhos do espectador. Porém, com cada um de seus enquadramentos precisos e muito bem fotografados, “As Quatro Voltas” propõe um trabalho contínuo de pura reflexão, dada a aridez de cada cena. Se há algum ponto de convergência possível entre as duas obras, é um certo teor místico-religioso presente, onde a natureza (o divino?)  se mostra como o ordenador por trás de cada evento da vida, seja ele decisivo na história humana, seja no cotidiano de uma vila italiana ignorada pelo caos de um mundo urbano.

Michelangelo Frammartino faz um cinema na contramão do cinema, estimulando o sentido da visão sem nenhuma artificialidade. Como se não bastasse, não é complacente e nem crítico da raça humana. Apenas coloca-a no seu devido lugar.

IMDb – As Quatro Voltas.

“NO” (2012). E a Derrota das Velhas Ideologias

no-2012_posterPor Eduardo Carvalho.
NO 01Em sua “retomada” nos anos 90, o cinema brasileiro parece ter perdido muito de sua veia política. A extensa variedade de ofertas – filmes históricos, comédias, dramas com crítica social, policiais, documentários musicais – não privilegiaria hoje obras como “Terra em Transe” ou “Pra Frente Brasil” (talvez com exceção do documentário “Marighella”, de 2011). Em vista de tal lacuna – e pelo fato de muita gente ter saudades da ditadura militar -, ver “No” já seria imprescindível. O longa de Pablo Larrain aborda o período em 1988 no Chile, em que o ditador Augusto Pinochet, sob pressões internacionais, convocou um plebiscito para legitimar sua permanência no poder. Assim, a oposição, constituída por uma esquerda dividida, inicia uma campanha pelo “Não” a Pinochet; o governo, certo de manter o ditador no cargo de uma forma ou outra, começa uma indolente campanha pelo “Sim”.

NO 03Mas a simples sinopse não faz jus ao filme. A escolha de Larrain em centrar o desenvolvimento da narrativa na campanha publicitária, e não propriamente no embate político, é um dos grandes achados da obra (na verdade, baseada numa peça inédita, El Plebiscito). René Saavedra (Gael Garcia Bernal) é um publicitário e filho de exilado que, ao ser contatado pela esquerda, aceita colaborar com a criação da campanha do “Não”. Por sua vez, o chefe de Saavedra, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), simpatizante da ditadura e com contatos na alta cúpula, passa a chefiar a campanha governista. Aos poucos, a princípio sem deixar-se levar pelas paixões políticas ou pela pressão do chefe e rival, Saavedra adere à campanha, insistindo em um tom alegre e festivo da mesma, como se tratasse de uma mera conta publicitária da Coca-Cola ou do MacDonald’s, certo de que teria melhores resultados. Insatisfeita com a decisão de Saavedra, a qual contraria por completo a seriedade do tema e suas ambições, a oposição paulatinamente torna-se simpática à insistência do publicitário, à medida que a campanha vai ganhando pontos junto à população. Quando o governo acorda, já é tarde, e vale-se da truculência para intimidar os virtuais vencedores. Ao final, é mostrado como a vitória do “Não” abriu caminho para a derrocada do regime de Pinochet.

NO_2012O maniqueísmo passa longe de “No”, quase um paradoxo, já que trata de uma “simples” escolha entre duas (o)posições. Seria fácil criar uma identificação do espectador calcada nessa ou naquela escolha política, em um herói e um vilão excessivamente estereotipados e/ou ideologicamente bem definidos. Mas não; o diretor se vale de outros artifícios para conseguir seu intento. Como componente visual, auxiliando o mergulho da plateia no clima da época, Larrain inseriu cenas reais dos filmes publicitários, além de filmar no formato utilizado nos anos 80 com uma câmera utilizada naquele período, arrematada no site Ebay, de forma a não haver quase distinção entre real e ficcional. E Bernal e Castro – este, com menor tempo de projeção na tela – criam dois profissionais de publicidade cheios de ambiguidade, pragmatismo, e fiéis a uma outra ideologia que não a das partes envolvidas: para eles, o capitalismo, acima de tudo. Alguns críticos perguntaram: vitória da esquerda ou do marketing? A História, bem como a conclusão do filme, parece mostrar que é a lógica da linguagem da publicidade que prevalece e vence, e não uma simples crença no certo ou no errado. Inequívoco sinal dos tempos.

NO (2012). Chile. Direção: Pablo Larraín. Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Luis Gnecco, Marcial Tagle, Diego Muñoz, Manuela Oyarzún, Jaime Vadell. Gênero: Drama. Duração: 110 minutos.

A Viagem (Cloud Atlas. 2012)

a-viagem_2012Por José Bautzer Fusca.

( Sinto que algo importante aconteceu comigo. Nossas vidas não nos pertencem, estamos conectados a outras vidas, no passado, no presente e no futuro. )

Um filme pode ser importante por seu lugar na história do cinema, por sua linguagem cinematográfica, pela boa condução do seu diretor, pela boa fotografia, por um bom roteiro, por ter origem em um bom texto literário, ou porque por razões subjetivas tocou nossa emoção e intelecto.

O filme que irei indicar é importante porque é fruto de um excelente texto literário, que deu origem a um ótimo roteiro, que por sua vez propiciou uma obra cinematográfica revolucionária ao usar diretores diferentes em trabalho independente para diferentes segmentos da obra final. Conseguindo ser a fina ourivesaria poética de uma preciosa equação: A vida diante da eternidade.

Cloud Atlas, cognominado A Viagem, no Brasil, é um filme rico em conteúdo e requer atenção aos detalhes para revelar-se ao intelecto como a obra prima que seu roteiro é. Em uma estória fragmentada e diluída ao longo de centenas de anos, no passado e no imaginário futuro, com o artifício literário de uma marca de nascença na pele dos personagens protagonistas de seis diferentes estórias, identifica-se um personagem inter-temporal que vivencia cada um destes personagens, unificando e dando sentido as diferentes estórias fragmentas e diluídas no tempo.

O autor da obra homônima – DAVID MITCHELL – que inspira o roteiro previne o expectador no monologo que abre o texto/filme: que na boca de diferentes personagens, diluídos no tempo, ha uma única voz que as une em uma só.

Autores como Carlos Castaneda são literalmente citados e implicitamente discutidos nesse rico roteiro, que expõe uma visão poética do eterno retorno, cujo conceito é explicitado em insights, premonições e dejavus dos personagens. Algo comum na experiência existencial de todos nós, ou de alguns de nós. Tocante, quando a personagem jornalista Luisa Rey reconhece a sinfonia Cloud Atlas, composta pelo desconhecido músico Robert Frobisher, sua persona, na vida imediatamente anterior.

Este mundo possui uma ordem natural, e aqueles que tentam subvertê-la não se dão bem.”

O que esta obra sugere é que nascemos para subverter esta ordem explicita da natureza – os fracos são a carne dos fortes – por uma outra, apenas implícita: O amor é a maior força na construção da vida, e não reconhece fracos ou fortes.

Se você quer um entretenimento que o emocione e excite seu intelecto, este é a obra de arte que fará isso.

A Mulher Canhota (Die Linkshändige Frau. 1978)

a-mulher-canhota_1978Por Kauan Amora.
É verdade que nossa sociedade vive em uma ditadura da felicidade, onde todos aparentemente são felizes e sabem exatamente o que isso significa, o que nos qualifica ensinar ao próximo o que é ser feliz, e empurrar goela abaixo todos os nossos parâmetros e regras que ninguém pode deixar de seguir.

A Mulher Canhota nos apresenta uma Alemanha pós-guerra, triste, gélida, desconsoladora e que nos convida ao afastamento humano aliás, me arrisco a dizer que o lugar funciona como personagem coadjuvante da história, já que esta sempre se apresenta como um local desconfortável, suas ruas têm sempre pouquíssimas pessoas e sua paisagem para ser estar em um constante estado de depressão, traduzindo o estado de espírito de sua personagem principal, como por exemplo, um bosque que se apresenta com suas árvores cortadas, logo depois da fatídica decisão.

O filme é baseado no livro de Peter Handke, e conta a história de Marianne, mulher inteligente e de meia idade, que por um motivo desconhecido resolve mandar o marido sair de casa e resolve viver sozinha com seu filho ainda pequeno, abrindo mão da família, do conforto financeiro para viver uma vida sozinha e por vezes solitária.

O fato é que nunca descobrimos por parte de Marianne porque esta se separou do marido, já que este se revela um homem ideal, trabalhador, fiel e preocupado com a família. Ela toma a decisão e sequer se dá o trabalho de justificá-la. O diretor Peter Handke, parece sempre nos instigar a descobrir o motivo, mas sem nunca dar pistas ou conclusões suficientes para que possamos fazê-lo, o que só aumenta mais o interesse Parece que Marianne resolveu se desafiar e desafiar as pessoas próximas de que é capaz de levar uma vida sozinha, mas não solitária, embora todos ao seu redor achem um absurdo sua decisão e tentem a todo o momento convencê-la de voltar atrás, e esta se mostra irredutível.

Marianne lança a mão de uma vida segura, confortável e aparentemente feliz para viver sozinha em uma casa imensa, perambulando nas ruas de sua cidade, vivenciando a sua vida consigo mesma.

Hoje, tomar uma decisão como essa parece loucura, já que vivemos em uma sociedade normativa que estabeleceu regras que servem como manuais de como sermos felizes, especialmente para as mulheres, que desde cedo são educadas para serem boas esposas, donas de casa e mães. Aqueles que abdicarem dessa ideia são loucos e não têm a menor chance de serem felizes.

O roteiro parece ser criado ao acaso, onde depois da decisão de sua protagonista nada mais acontece, não possui ação dramática, é como se estivéssemos testemunhando uma vida acontecendo livremente sob os nossos olhos, Marianne vai sendo levada pelo espaço e pelo tempo, imóvel e desinteressada de mudar de vida.

No final das contas, A Mulher Canhota aparentemente conta a história de uma mulher que resolveu se questionar esses valores rígidos e não foi em busca da felicidade, mas atrás de si mesma, seguindo um caminho completamente diferente das outras (daí o nome A Mulher Canhota). Ao longo da projeção acompanhamos Marianne vivendo momentos de extrema alegria, como passear com seu filho ou mesmo com seu pai, e momentos de extrema solidão, ao chorar sozinha durante a noite olhando a paisagem lá fora. O que prova que tanto as pessoas casadas, com famílias perfeitas e construídas quanto as pessoas sozinhas, que vivem por si mesmas, tem seus momentos de alegria e tristeza e que esses valores são apenas reflexos de uma sociedade fria, autoritária e que não se reconhece, nem a si mesma e nem o seu lugar no mundo. Marianne é um anti-heroína.

Sinédoque, Nova Iorque (Synecdoche, New York. 2008)

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Por Kauan Amora.

Sinédoque, NY” é um filme pessimista e realista sobre os fracassos de uma ou de todas as vidas. Passamos a vida inteira ouvindo frases de auto-ajuda como “Todo mundo é protagonista de sua própria história“, e em um certo momento do filme, seu protagonista chega a repetir essa frase, mas só para logo em seguida testemunharmos de que essa não é bem a verdade, haja vista que a vida do diretor teatral Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) parece criar vontade própria e excluí-lo de tudo, assim como fizeram todas as mulheres que o conheceram, até ele se tornar um mero boneco que exerce atividades diárias banais ao som de uma voz que sai de sua cabeça lhe dizendo tudo o que fazer.

Synecdoche_Charlie-KaufmanAlém de ter escrito o roteiro, Charlie Kaufman também estréia na direção e parece bem intencionado em brincar com todas as frases de efeito que costumamos ouvir durante nossas vidas, como: “A vida é um palco“. Em Sinédoque NY, a vida é um palco mesmo, literalmente. Caden Cotard é homenageado com um prêmio que lhe proporciona um orçamento enorme para realizar o espetáculo teatral de sua carreira, de grande magnitude, desde então Caden passa anos tentando realizar a grande obra de sua vida, a sua vida. Tudo se torna tão grande, mas tão grande, que aos palcos sua criação começa a tomar-lhe conta, é tudo muito megalomaníaco, o que cria uma linda ironia ao descobrirmos que sua ex-mulher Adele Lack (Catherine Keener) é uma artista que trabalha com pinturas em miniaturas, que as pessoas só conseguem vê-las completamente usando um óculos microscópico, o que revela a absurda discordância dos dois artistas, tanto na vida profissional quanto na vida amorosa.

O primeiro filme escrito por Kaufman que assisti foi “Adaptação“, há muitos anos, e lembro de ter amado a experiência justamente pela forma sutil como ele trata seus personagens, logo depois vi “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças“, e foi outra experiência inigualávelmente bela. Desde então, pensei que Kaufman não pudesse se superar, mas estava absurdamente errado, em Sinédoque NY, ele não só se supera como cria uma outra obra-prima. É um filme completamente autoral, é feito por Kaufman para Kaufman, talvez isso seja o mais incrível na obra, o exercício catártico de um grande escritor, agora também diretor.

Sinédoque NY não é mais um filme, é um evento cinematográfico. Apesar de ter um elenco formidável, desde Catherine Keener (uma das melhores atrizes da cena independente americana) até Philip Seymour Hoffman, passando por Diane Wiest, o filme não é de nenhum deles. Ao acabar temos a sensação de ter presenciado um ato egoísta, é um filme de Kaufman, por Kaufman, para Kaufman, o que só engrandece a obra. Sinédoque NY é obrigatório, lírico, uma aula de cinema e teatro.

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010Por Norma Emiliano.

A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe”. Allá Bozarth-Campbell

A morte de um filho, principalmente jovem, bem como a da mãe quando se é criança, provoca sentimentos ambivalentes, nos quais a culpa, a raiva, o desalento constroem muros, isolando as pessoas até de si mesmo.

O filme Corações Perdidos cruza as vidas de um casal (Lois e Doug), que perdera sua filha adolescente, e de uma jovem órfã (Allison) que perdera a mãe desde os cinco anos.

O silêncio impera entre o casal que não fala da morte e de nada que os incomode; na casa, o quarto da filha mantém-se intacto sinalizando a negação da morte. Alisson vaga solitária pela vida sem amor a si própria, trabalhando como strip, sujeitando-se à prostituição.

Na trama, Lois, após a morte da filha, fica deprimida, não consegue sair de casa e sua relação com Doug é distante e conturbada. Ele vive uma relação extraconjugal, e a morte abrupta da amante o deixa sem direção. Porém, quando viaja à negócios, seu encontro com Allison lhe desperta os cuidados paternos e ele abandona a esposa.

Lois tenta superar seu pânico e vai ao encontro do marido e acaba também se envolvendo com as questões de Alison. No desenrolar do roteiro, Allison fará com que o casal lembre-se do real motivo que os uniu e sua relação com eles transforma suas vidas.

O luto é inevitável; superar a dor da perda é um processo cujo tempo é subjetivo, pois cada pessoa tem um “tempo emocional”. No filme os personagens encontram-se aprisionados à negação, “dormência emocional”. O cruzamento das histórias (casal e jovem prostituta) dispara o movimento para cura através da quebra do silêncio, da recuperação da autoestima e da mudança de hábitos.

O Tempo de Cada Um (Personal Velocity, 2002)

O Tempo de Cada Um_2002A simplicidade da lágrima que corre pelo rosto de uma mulher que, de repente, descobre que a vida que ela possui e muitos julgam perfeita, já não é mais o bastante. Greta Herskowitz (Parker Posey) parece sempre estranhar o mundo e as pessoas a sua volta com um olhar de curiosidade e por vezes indiferença, ela parece se descobrir cada vez mais e se surpreender com suas ações, o problema é que o resultado nem sempre é bom. Para ela, é irônico o fato de se descobrir humana e portanto, suscetível aos mesmos erros que seu pai cometeu no passado e que ela tanto detestava.

É sobre isso o filme de Rebecca Miller, sobre a auto-generosidade de nos descobrirmos humanos e sobre as eternas e cegas buscas por uma felicidade que outrora nos disseram que existe, mas que parece escapar sempre que chegamos mais perto.

Rebecca Miller possui um olhar atento, aguçado e honesto com suas personagens que pertencem ao livro de contos que ela mesma escreveu e que são levadas para as telas do cinema como extrema dedicação e competência de atrizes respeitadas como Kyra Sedgwick, Parker Posey e Fairuza Balk.

Assisti “O tempo de cada um” pela primeira vez em 2007 e desde então se tornou o filme que me abriu as portas ao cinema americano independente e francamente, desde então descobri pérolas tão valiosas quanto o filme de Rebecca Miller. Cassavetes estaria orgulhoso.

Por Kauan Amora.

Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987)

atracao-fatalO cinema recentemente assumiu uma posição importante não só no ramo do entretenimento, mas também na dimensão social dos assuntos que são discutidos, porém durante a produção seus responsáveis não têm a mínima ideia de como ele vai ser recebido pelo público, uma prova disso é o filme de Adrian Lyne, Atração Fatal (1987).

Que Glenn Close é motivo para assistir qualquer filme que tenha seu nome na ficha técnica, qualquer cinéfilo que se preze sabe, porém, aqui, ela não é o único motivo para descobrir o filme, seu excelente roteiro e forma como ele é conduzido com extrema segurança por Lyne, são outros motivos suficientes para dar uma olhada.

O filme foi lançado na década de 1980 e toca em diversos assuntos como relação extra-conjugal e família, mas tem um assunto que seus produtores jamais poderiam imaginar que iria chamar tanta atenção, o feminismo. O fato é que o filme traz à tona a realidade da mulher americana independente profissionalmente e solteira em uma época onde as mulheres lutava de forma fervorosa pelos seus direitos em todas as áreas. Só que retratar o tipo de mulher que acabei de citar acima, como uma desequilibrada e psicótica, não agradou nada as fervorosas feministas, levando o discurso em questão a nível nacional, transformando o filme em um célebre exemplar de discussão social.

Comentado tanto por sociólogos quanto por psicanalistas, o filme surge como um belo exemplo do cinema como prática social, espaço aberto para trazer à tona tabus engessados por uma sociedade ainda pouco evoluída quando o assunto é a categoria Mulher.

Só para finalizar, Glenn Closse é extremamente hábil ao não transformar Alex Forrest em uma vilã sem escrúpulos. Em todo momento vemos a personagem como alguém completamente alheia aos atos cruéis que comete, ciente de que aquilo é para o bem de todos, o que reforça ainda mais o seu desequilíbrio psicológico. No fundo, Alex Forrest não chega nem perto de ser o exemplo da mulher contemporânea como todos afirmavam cheios de medo, mas é uma mulher única, que representa somente a natureza cruel de alguém que recebeu pouca atenção na vida.

Por Kauan Amora

Apocalipse Now (1979)

apocalipse-nowSão duas versões: uma de 1979 e outra, chamada “Redux”, que significa revisitado. Recomendo que vejam ambas, necessariamente nesta ordem. Filmado nas Filipinas, por um elenco estelar, encabeçado por Martin Sheen, Robert Duval e Marlon Brando, com uma “pontinha” de Harrison Ford e a mais jovem aparição de Laurence Fishburn (aos 14 anos) no cinema. O roteiro é simples, o capitão Willard (Martin) deve subir o Rio Nung –que desconheço – e eliminar o Coronel Kurtz, que aparentemente ficou louco.

Mas enquanto o cenário adentra nas entranhas da floresta do Vietnam até o Camboja, os personagens mergulham em si mesmos numa trip sem volta. De reflexão, questionamentos e experiências e vivências pra lá de surreais. Não é um filme sobre a Guerra Americana (assim que ela é chamada lá) e sim é a Guerra do Vietnam.

apocalypse-now_01Barulho de helicóptero, os famosos Huei, misturado com ventilador. Aquele suor preguento e constante de Saigon, agora chamada de Ho Chi Min, e o som do “The Doors” ao fundo. Somente esta cena, já vale o filme. Diz a lenda que Martin Sheen machucou de verdade, pois estava mesmo alcoolizado.

Você surfa? Coronel Bill Kilgore ataca uma vila somente para isso e nem consulta as marés… Sua frase totalmente incorreta politicamente: “- Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã.” O vento causado pela convecção do bombardeio inverte o sentido das ondas. Não há sentido algum no que ele faz.  Impressionante o laranja estourado da fotografia com os helicópteros em silhueta e com a música de Wagner (poderia ser outro?). Vale ressaltar que agente laranja é um desfolhante e napalm é um veículo incendiário composto por ácidos naftémico e palmítico, daí o nome, juntado com gasolina gelificada.

Martin-Sheen_Apocalypse-NowO barco sobe o rio, composto por um condutor bem militar, dois garotos (o negro e o surfista), um chefe de cozinha e o capitão. A cada crise, um surto. A presença do tigre é só uma metáfora. Assim como o inocente barco cheio de comida e a mocinha sentada em cima do barril, escondendo o seu filhotinho de cão. O odor acre da morte contamina à todos e se espalha, a loucura; é epidêmica.

Há tempo para cada personagem se desenvolver e deixar-nos. Enquanto isso se choca cada vez mais o espectador ao ver que o capitão admira o coronel, pelo menos na teoria. Vamos ver na prática. O diálogo com os franceses é tenso, e verdadeiro. Estudiosos da guerra, sabem disso. Um muito sobre nada em lugar nenhum.

Marlon-Brando_Apocalypse-NowFinalmente o encontro com o mítico coronel, interpretado pelo não menos espetacular Marlon Brando. Está nas sombras, careca e barrigudo. Mas não tem jeito, é magnético, esse ator. O desenrolar beira o sublime, o poético. Sair d’água daquele modo é antológico. Filme vai terminar, você já sabe. Os homens fazem as guerras e as mulheres e as crianças é que sofrem.

O que há de bom: elenco antológico, roteiro denso e profundo, lições complexas

O que há de ruim: necessário rever repetidas vezes

O que prestar atenção: as cenas das playmates revelam que antes de tudo, elas são tão ou mais solitárias do que os soldados

A cena do filme: helicópteros, sejam voando, em formação, parados, transmitindo e servindo de abrigo e motel.

Cotação: filme excelente (@@@@@)

Giovanni COBRA