Winter Sleep (Kis uykusu. 2014)

Winter Sleep 01Por: Eduardo Carvalho.
No meio da Capadócia, um ex-ator de teatro é proprietário de um hotel, além de dono de metade das casas do vilarejo. Enquanto exerce seu poder, entre conflitos com os inquilinos, com a irmã e a jovem esposa, Aydin escreve artigos para sua coluna em um jornal local, e prepara uma grande obra sobre a história do teatro turco.

Winter Sleep 02A sinopse de “Winter Sleep” não diz muita coisa. No entanto, as próximas 3h16m de projeção, iniciadas com um zoom que adentra a cabeça do protagonista, irão mostrar o que se passa com esse homem. Sujeito arrogante em sua pretensa intelectualidade, esta o torna, em sua própria ótica, superior aos demais à sua volta. Assim, Aydin julga ter o direito de desprezar e espezinhar os outros, com os quais, aliás, mal se relaciona diretamente; é com os fãs de sua coluna, que reverenciam a ele e a seus textos, que ele encontra combustível para sua prepotência. Em uma das longas conversas que trava com sua irmã Necla, onde ela aponta a insignificância do alcance do jornal local, ele diz algo como: “Eu sei que o palácio é pequeno. Mas, ainda assim, por que não ser rei ali?”. Nos embates com Necla e a esposa Nihal, Aydin poderia ter algum lampejo de consciência. Mas não; quando confrontado, ele demonstra claramente sua vileza e mesquinhez, deixando cair o verniz de bondade. Ao tentar tirar de Nihal a única coisa que a mulher pode realizar fora de sua órbita, ele tenta convencê-la – ou a si mesmo – de sua preocupação com o bem-estar da esposa. Inutilmente.

Além da clara qualidade do texto, que fez alguns lembrarem de Tchekov, o trabalho de Nuri Bilge Ceylan tem um elenco afiadíssimo e um trabalho de fotografia à altura. Haluk Bilginer faz seu protagonista longe do overacting típico de Hollywood, com extrema contenção e sutileza nos gestos e sinais que desmascaram o personagem, como o risinho de escárnio. Melisa Sözen tem grandes momentos com o protagonista e com o professor, com a intensidade própria da ingenuidade de sua Nihal. Os planos mais fechados e escurecidos contribuem para a densidade da obra, em um ótimo trabalho em conjunto com o texto.

Winter Sleep 03Um protagonista como Aydin ou a duração do filme seriam fatores para dificultar a aceitação de “Winter Sleep”. Mas Ceylan não fez concessões. O tempo provou que estava certo; levou a Palma de Ouro de 2014. É o reconhecimento mais do que justo desse extenso painel sobre a predileção pelo intelecto ante o contato humano e as relações de afeto, retratando esse homem que escolheu a solidão decorrente de sua triste vaidade.

p.s: Visto na 38ª Mostra Internacional de Cinema. Ainda sem data para entrar no circuito comercial..

RELATOS SELVAGENS (2014). Rindo da Própria Desgraça!

relatos-selvagens-2014_cartazPor Eduardo Carvalho.
A vida contemporânea pode deixar a todos com os nervos à flor da pele. Problemas financeiros, emocionais, uma crise no casamento. O descaso do serviço público com o cidadão. Um xingamento aqui e ali, no meio do trânsito das grandes cidades.

Em cima de situações cotidianas, que a princípio poderiam ocorrer com qualquer um, Damián Szifron escreveu e dirigiu as seis estórias que compõem “Relatos Selvagens”. Estrondoso sucesso na Argentina, exagerando cada situação a ponto de deixá-la à beira do inverossímil, o filme faz rir de pequenas tragédias do dia-a-dia que tomam proporções absurdas, por conta da reação explosiva de cada protagonista. E o faz de forma engraçadíssima.

relatos-selvagens-2014_01O prólogo, que se apresenta como um encontro casual num avião, revela-se um maquiavélico plano de vingança do verdadeiro protagonista – que não aparece, mas apenas citado –, um músico erudito fracassado. Em seguida, uma garçonete hesita em executar sua vingança contra o responsável pela morte de seu pai, numa lanchonete largada à beira de uma estrada. O terceiro episódio é um bizarro embate digno de “Encurralado”, de Steven Spielberg, onde um simples xingamento na estrada leva a um duelo entre os motoristas de um Audi último tipo e de um sedã caindo aos pedaços, ao som de um hit romântico dos anos 80. O episódio com Ricardo Darin mostra mais um homem comum, de temperamento explosivo, que se vê às voltas com a burocracia do trânsito, perdendo a paciência e a razão, ao utilizar suas habilidades para se vingar do sistema – o personagem é perito em implosões. O penúltimo episódio, o único com final verdadeiramente trágico e não menos irônico, mostra uma família abastada tentando livrar o filho, que atropelou uma grávida, das garras da justiça, com um jogo de corrupção. Por fim, a última estória mostra uma festa de casamento explodindo de ressentimentos, violência, sexo e sangue, todos misturados no bolo dos noivos.

A simples sinopse de cada estória não é o bastante para revelar o tom mordaz e hilariante que Szifron imprimiu à obra como um todo. O único elemento que liga as estórias é a barbárie, e é o elo que basta. Cada protagonista teve seu ataque de nervos almodovariano – não por acaso, o diretor espanhol e seu irmão produzem o filme –, perdendo absolutamente o controle de suas ações, pois sente que perdeu o controle de sua vida. De modo planejado ou passional, cada um deles expressa o rancor de vítima que é de uma sociedade em crise, econômica e de valores, onde o menor fator pode transformar-se na gota d’água que irá gerar uma discussão, uma briga, um homicídio.

A montanha russa de emoções com que Damián Szifron lança os espectadores de “Relatos Selvagens” une o nonsense do Monty Python à brutalidade de Quentin Tarantino para retratar, de forma terrivelmente engraçada, os absurdos de que o homem do século XXI é capaz em um dia absolutamente normal.

“Miss Violence” (2013). Ou a Crise e os Demônios

Miss Violence_2013Por: Eduardo Carvalho.
Miss Violence_01Festa de aniversário: Angeliki está fazendo 11 anos. Cara amarrada, ela posa para fotos com a família, dança com o avô. Quando todos se distraem, Angeliki vai à janela da sala. Põe uma, as duas pernas no parapeito. Sorri levemente para a câmera. E salta.

A abertura de “Miss Violence” norteia o que se verá dali em diante. Uma família grega decai lentamente, afetada pela crise econômica que atinge o país. Tal motivo levará cada personagem/membro da família a fazer qualquer coisa por dinheiro. Omissões e perversões surgem em adultos e adolescentes, e concentradas, a princípio, na figura do avô (Themis Panou), que comanda a família com tamanha rigidez, a ponto de fazer com que todos reajam à tragédia como se fosse nada.

O angustiante desenrolar da trama, em um lento crescendo habilmente criado pela direção de Alexandros Avranas, vai descortinando o que levou Angeliki à morte. Uma estranha falta de afeto, uma apatia. A partir de determinado momento, vemos que há um quase nada de noção de moral, e torna-se fácil deduzir as monstruosidades que cercam aquela família. Ainda assim, a sequência em que o avô leva a neta para tomar sorvete é um chute certeiro no estômago.

Miss Violence_02Pode se discutir o que levou os personagens a tal degradação. A questão financeira é o real motivo, ou serve como pretexto para que cada um revele seus demônios? Para muitas pessoas, a pressão social, na busca da manutenção do status – ou apenas da sobrevivência – é suficiente para que se abra mão de seus valores. Vivendo em um capitalismo em crise, cada homem estipula seu preço; basta chegar o momento propício para que ele se ponha à prova. Angeliki preferiu perder a vida a sujeitar-se ao que lhe estava reservado. Por paradoxal que pareça para alguns, a adolescente teve a única atitude que mostra algum senso de ética e decência.

Assim como a sequencia inicial, a situação de uma sociedade que se esfacela por conta da crise está presente como um fantasma ao longo de toda a projeção. A burocracia acompanha todo o luto, luto este que, no entanto, nunca acontece. A rotina familiar, ao menos na sua superfície, parece não se abalar com o ocorrido. A fotografia opaca dos planos estáticos acentua toda a frieza, e apenas engrandece o sentimento incômodo gerado no espectador. O elenco é impecável: além de Panou, Eleni Roussinou faz a mãe de Angeliki, nunca conseguindo expressar a tristeza na sua totalidade ante a mão de ferro de seu pai. A avó, feita por Reni Pitakki, surge como figura sinistra em meio ao silêncio entrecortado por poucas falas, guardando a última surpresa ao final.

Vencedor do Leão de Prata em Veneza em 2013 e de outros prêmios por outros festivais, “Miss Violence” é uma obra polêmica a que ninguém fica indiferente, deixando o espectador a pensar o que esperar do ser humano.

O Profeta (Un Prophète. 2009)

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Por Roberto Vonnegut.
O Profeta conta uma estória simples de forma magistral.

Malik el Djebena (excelente atuação de Tahar Rahim) tem um dia quase rotineiro: ele acaba de ser mandado mais uma vez para trás das grades. O detalhe é o “quase” – como ele agora é maior de idade, desta vez ele é mandado para a penitenciária central em algum lugar no sul da França. E com convite para ficar alguns anos por lá.

Nenhuma cena que se passe antes da prisão nos conta do passado de Malik, mas os detalhes como roupas e marcas no corpo nos contam tudo o que precisamos saber. A prisão que “acolhe” Malik se situa em uma França em transformação, e nos seis anos de sua pena ele vê a penitenciária mudando.

o-profeta_filmeComo o personagem Jamal de Slumdog Millionaire, Malik tem uma qualidade: ele é maleável, sujeita-se sem reclamar às pancadas que recebe da vida. Mas ao contrário do inocente indiano que aceitava a miséria como parte da vida e cujo final feliz era simplesmente destino “it is written” (ou não), Malik aprende rapidamente e assume a responsabilidade pelo seu futuro. Ele rapidamente descobre que sobreviver na prisão envolve troca de favores – e cabe a ele matar um prisioneiro para ser protegido pela facção inimiga. O Profeta mostra, assim, como um personagem pode agarrar uma oportunidade desde que esteja realmente interessado em se aproveitar dela, custe o que custar. Um dos méritos do diretor Jacques Audiard é mostrar claramente o quanto custa.

Gostei muito do filme. A narrativa praticamente linear é enriquecida pelo mais manjado truque de Shakespeare: nada melhor do que um fantasma (ou um bobo da corte) na hora certa. O fantasma de O Profeta aparece pouco, mas é decisivo para a trama – mesmo sendo totalmente desnecessário. Poucos roteiros conseguem trazer um fantasma tão conciso e relevante.

O filme tem cenas memoráveis. Flashes que mostram os pequenos trambiques e a vida na carceragem, os sapatos na sala de visita por exemplo. A sequência que mais me marcou foi a primeira viagem de avião de Malik – sensacional, especialmente na cena em que ele passa pela inspeção do aeroporto. É um detalhe que vale por mil palavras.

E olha que nem falei da trilha sonora, que para muitos vai soar inesperada em um filme francês.

O Mercado de Notícias (2014)

o-mercado-de-noticias_posterJorge-Furtado_DiretorPor: Fernando Nogueira da Costa.
Assisti, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, o documentário – O Mercado de Notícias – sobre jornalismo e democracia dirigido por Jorge Furtado. O filme traz os depoimentos de treze importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática de sua profissão, o futuro do jornalismo e também sobre casos recentes da política brasileira.

O surgimento do jornalismo, no século 17, é apresentado pelo humor da peça “O Mercado de Notícias“, escrita pelo dramaturgo inglês Ben Jonson em 1625. Trechos da comédia de Jonson, montada e encenada para a produção do filme, revelam sua espantosa visão crítica, capaz de perceber na imprensa de notícias, recém-nascida, uma invenção de grande poder e grandes riscos.

O Mercado de Notícias é composto por três blocos:
1- a encenação da peça de Ben Jonson,
2- entrevistas com os 13 jornalistas e
3- mini documentários que ilustram os temas debatidos.

o-mercado-de-noticias_03Jorge Furtado estudava medicina quando largou a faculdade para cursar jornalismo. Depois abandonou a profissão para fazer cinema. Segundo o diretor, ele tinha uma dívida com o jornalismo e recentemente sentiu vontade de discutir a imprensa. Pesquisando sobre o assunto, ele descobriu uma peça de 1625, escrita por Ben Jonson. No Brasil, a peça nunca havia sido encenada e não tinha tradução. Jorge Furtado e a professora Liziane Kugland traduziram a peça e o diretor enviou o material para 13 jornalistas que ele admirava o trabalho: Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, José Roberto de Toledo, Leandro Fortes, Luis Nassif, Mauricio Dias, Mino Carta, Paulo Moreira Leite, Raimundo Pereira, Renata Lo Prete.

o-mercado-de-noticias_jornalistasBOB FERNANDES: “Não conheço nenhum caso recente de censura do Estado, que tanto temem. E eu conheço, e qualquer jornalista conhece, centenas de casos de censura feita pelos dono do meio de comunicação. Como é que as pessoas não dizem isso com todas as letras?

CRISTIANA LÔBO: “Eu tenho que conversar com o que vem me contar a notícia e com aquele que corre pra não contar a notícia. O nosso desafio é esse, ter os dois lados e conseguir contar o enredo o mais próximo da realidade possível.”

FERNANDO RODRIGUES: “O bom jornalismo vai sobreviver. Sempre que há uma demanda na sociedade para produto de qualidade, para um bom jornalismo. Não importa a plataforma onde ele esteja. Vai surgir algo novo onde as técnicas do bom jornalismo vão prevalecer.”

JANIO DE FREITAS: “Eu tenho uma esperança, que não é grande, de que as pessoas se deem conta de que o jornalismo depende dos jornalistas.”

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO: “As empresas jornalísticas precisam entender que não vendem informação. Elas vendem credibilidade. Quando você compra o jornal, a revista, assiste o telejornal ou o portal na internet, você tá indo atrás de alguém que você possa acreditar.”

LEANDRO FORTES: “Todo mundo que te passa informação tem o interesse. Não existe fonte sem interesse. O que você precisa fazer é filtrar esses interesses, é saber se o interesse de quem passa é convergente com o interesse público.”

LUIS NASSIF: “Muita informação sem estar organizada, estruturada e hierarquizada, não é nada. Então o papel do jornalista é pegar aquele monte de informação, aquela montanha de informação, organizar, estruturar e dar uma lógica.”

MAURÍCIO DIAS: “O jornalismo brasileiro tem uma neurose: ele não se aceita como agente político. Aí ele se refugia, de uma maneira geral, naquela história da isenção da imparcialidade e que expressa o interesse da sociedade.”

MINO CARTA: “O que há de ser um jornalista? Esse homem que conta a verdade factual. Não é? Para garantir a sobrevivência humana. É uma questão de sobrevivência do homem. A defesa da verdade.”

PAULO MOREIRA LEITE: “Quando o jornalismo só quer confirmar suas próprias convicções, é um jornalismo feito com base em preconceitos. Os piores caras do mundo foram os caras que só queriam confirmar seus preconceitos.”

RAIMUNDO PEREIRA: “Esse negócio de você buscar o novo tem um mistério. Porque na aparência, tem milhares de novidades todos os dias, em todos os cantos. Cabe ao jornalista selecionar e ver aquilo que realmente é novo, aquilo que reorganiza o passado.”

RENATA LO PRETE: “O jornalista vê, escuta e conta. E se não vê com atenção e não escuta de fato, contar fica muito difícil.”

o-mercado-de-noticias_02Ao assistir o filme, impressiona como a peça escrita há 400 anos é tão atual trazendo temas que ainda hoje são debatidos, como o sensacionalismo, o antijornalismo e interesses econômicos. Há também o paralelo entre a tecnologia, já que Ben Jonson escreveu sua obra em meio a revolução da invenção da imprensa e atualmente o jornalismo vive a revolução digital.

Entre a encenação da peça e as entrevistas, há pequenos documentários em que o cineasta faz um trabalho jornalístico apontando falhas jornalísticas recentes. Com bom humor, ele relembra casos escandalosos de manipulação de falsas notícias, dando argumentos para os que denunciam o PIG: Partido da Imprensa Golpista. Eu prefiro dizer que a “grande” imprensa brasileira dá apenas um PIO: Partido da Imprensa Oposicionista.

o-mercado-de-noticias_04Em março de 2004, o jornal Folha de S. Paulo publica na capa de sua edição de domingo (07.03.2004), sob o título “Decoração burocrata”, uma reportagem informando que um valioso “desenho do pintor espanhol” Pablo Picasso “passa os dias debaixo de luzes fluorescentes e em meio à papelada de uma repartição do governo federal”, dividindo sua “moldura com restos de inseto”. Na foto, além da reprodução do supostamente valioso desenho, um retrato do Presidente Lula. O sentido da matéria é claro: os novos ocupantes do governo federal não reconhecem e não sabem lidar com o valor da arte. A notícia do suposto descaso com tão valiosa obra aparece em vários jornais, revistas e sites, no Brasil e no exterior. A observação atenta de alguns leitores logo deixa evidente que se trata de uma “barriga”: o tal desenho de Picasso é, na verdade, de uma reprodução fotográfica, sem nenhum valor. Os jornais são alertados de seu erro, mas nenhum desmente a informação. Em dezembro de 2005, o “Picasso do INSS” está outra vez na capa da Folha de São Paulo (29.12.2005) e também na do Estado de S. Paulo: um incêndio destruiu parte do prédio do INSS mas, para alívio de todos e apesar do descaso dos órgãos públicos, o “valioso” Picasso foi salvo das chamas. Mais uma vez os jornais são alertados por leitores de que se trata de uma reprodução sem valor, mas nada noticiam. As reportagens que tentam esclarecer os fatos só fazem aumentar a confusão. Detalhe: o supostamente valioso desenho de Picasso foi dado ao INSS como pagamento de uma dívida. Em quanto foi avaliado? E por quem?

o-mercado-de-noticias_05Em novembro de 2008, no pior momento da crise financeira, uma matéria da Agência Estado, amplamente repercutida por vários jornais, tinha a seguinte manchete: “Governo ‘ensina’ a fazer caipirinha no Diário Oficial”. O fato, como a leitura atenta da própria notícia deixa claro, é que o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial através de uma Instrução Normativa (I.N.), como é sua obrigação, as especificações técnicas de uma bebida, assim como faz de todas as bebidas e alimentos disponíveis no mercado. É obrigação do Ministério agir assim, em defesa do consumidor: trata-se da composição e ingredientes de um produto comercializado, exportado. Não são – como afirma a matéria – “dicas” do Ministério, que teria resolvido “às vésperas do fim de semana”, “ensinar aos apreciadores de bebidas alcoólicas a preparar uma autêntica caipirinha”. A Agência Estado sabe, mas não resiste à piada fácil que reforça preconceitos contra o governo Lula.

No dia 20 de outubro de 2010, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial brasileira, a campanha eleitoral foi marcada por um incidente. O candidato de oposição, José Serra, interrompeu sua agenda para ser submetido a uma tomografia e a exames clínicos. O motivo: uma suposta agressão por militantes governistas, amplamente divulgada nos veículos de comunicação, nas redes sociais e no programa de televisão do candidato. Foram muitas as tentativas, nos telejornais e nas redes sociais, de provar que algum objeto pesado realmente atingira o candidato, nenhuma com sucesso. O fato é que, poucos minutos antes da suposta agressão, o candidato foi atingido por uma bolinha de papel. Este fato foi documentado por, pelo menos, cinco câmeras de televisão. A imprensa, que tanto discutiu a agressão que ninguém viu, nunca se interessou por investigar quem foi o homem que, diante de cinco câmeras de tevê, jogou a bolinha de papel em José Serra.

o-mercado-de-noticias_01No final de 2011, o ministro dos esportes Orlando Silva foi vítima de uma tentativa de “assassinato de reputação”. A imprensa deu grande repercussão aos gastos do ministro com seu cartão corporativo. Ele foi acusado de gastar indevidamente R$ 8,30 na compra de uma tapioca. Logo a seguir, a revista Veja estampou em sua capa (e cartazes em bancas) a “informação” de que o “ministro recebia dinheiro na garagem” do ministério, dinheiro de propina. A afirmação era baseada exclusivamente nas declarações de um homem que foi preso, acusado de desviar mais de um milhão de reais de um programa educacional destinado aos alunos de escolas públicas. Este homem disse ao repórter da revista que “por um dos operadores do esquema” – isto é, um dos acusados e presos por desviar dinheiro das crianças carentes de Brasília – ele “soube na ocasião que o ministro recebia dinheiro na garagem.” Sete dias depois, o mesmo homem negou ter qualquer prova contra o ministro. Cinco dias depois, Orlando Silva deixa o Ministério para poder se defender das denúncias. Em junho de 2012 o ex-ministro foi inocentado pela Comissão de Ética da Presidência da República por absoluta falta de provas. O denunciante, a única fonte da grave acusação da capa da revista contra o ministro, foi preso várias vezes, antes da denúncia, em 2011, por corrupção, invasão de prédio público, agressão e ofensa racial, e dois anos depois, em 2013, por receptação de material roubado.

No debate que aconteceu após a pré-estreia do filme na unidade Augusta de São Paulo, Jorge Furtado comentou ser mais otimista com relação ao assunto do que seus entrevistados. Segundo o diretor, hoje mais do que nunca precisamos de jornalistas e sobre a questão da internet interferir na atividade ele é categórico, “Tecnologia transforma, mas não determina”.

Na conversa, ele também comentou sobre o site do filme — http://www.omercadodenoticias.com.br/ — que segue sendo atualizado e onde serão disponibilizadas as entrevistas na íntegra. Segundo Jorge Furtado, este é um filme para ampliar a discussão. O Mercado de Notícias está em cartaz em várias unidades do Espaço Itaú de Cinema.