Intriga Internacional (North By Northwest. 1959)

Não dá para falar sobre Sir Alfred Hitchcock sem mencionar o seu rótulo: Mestre do Suspense. Ele mesmo gostava de ser chamado assim. Uma vez disse que se um dia ele fizesse uma versão de Cinderela, todos iriam procurar por um corpo na carruagem. Nem precisa ser cinéfilo para ter esbarrado com uma obra sua, sendo que muitos dos seus filmes possuem cenas que estão carimbadas na galeria das mais famosas de todos os tempos.

Intriga Internacional (North By Northwest no original) é um destes filmes. Porém consegue a façanha de ir um pouquinho mais além: possui mais de uma cena armazenada neste hall. Antes da análise, segue um pequeno pedaço para vocês apreciarem ou relembrarem:

Ataque do avião pulverizador – http://youtu.be/ETl_rr0SMFI
Perseguição no monte Rushmore – http://youtu.be/Ahd38-eclaI

A mescla das duas cenas é a capa da edição comemorativa de 50 anos do filme onde, graças aos avanços da tecnologia, podemos assistir estes clássicos como se fossem filmes lançados ainda agora – devido ao tratamento de alto nível na restauração para as novas mídias.

Este filme é um dos melhores trabalhos de Hitchcock! Se contextualizarmos com o seu tempo, se torna ainda melhor. É uma história de espionagem e contraespionagem, onde o protagonista é apenas vítima do todo, porém descobrimos que ele era parte do todo sem que soubesse. Além destes ingredientes, temos um que eu particularmente gosto muito: a sobreposição da realidade – ou melhor, o lançamento do homem num universo fictício que acaba por se tornar provisoriamente o verdadeiro.

Roger O. Thornhill é um homem elétrico e vibrante. Publicitário bem sucedido, de uma personalidade muito interessante, observamos que este é o típico menino que nunca cresceu. Com dois divórcios em seu currículo, Thornhill tem uma dependência moral de sua mãe semelhante a uma criança. Esta semelhança também condiz com suas atitudes: o protagonista nunca hesita em arriscar – como se não tivesse medo de nada.

De uma hora para outra ele é raptado e sua realidade é abruptamente alterada: chegando ao de entrega, os raptores se referem ao protagonista como George Kaplan, no qual acreditam ser um agente detentor de informações muito importantes. Logo, os raptores tentam fazer um acordo com Kaplan, que imediatamente nega e diz se tratar de um engano. Claro que eles não acreditam e logo Thornhill/Kaplan é jurado de morte.

Ele consegue fugir do cativeiro. Porém acaba por se envolver num acidente que o levará para a cadeia. Ele tenta argumentar o que aconteceu, mas tudo parece tão fantasioso que nem sua mãe acredita em si. Ainda assim, a polícia resolve investigar o suposto cativeiro, mas ao chegar ao local nada é como parece: nenhuma evidência do que foi dito por Thornhill/Kaplan é encontrada – logo, ele continua sendo um criminoso falastrão.

Por si só, Thornhill decide investigar quem é Kaplan e por que estão em cima dele. Porém observa que para ter sucesso, precisa se travestir de Kaplan e assim o faz, assumindo uma espécie de dupla personalidade. Logo, o misto de Thornhill e Kaplan irá se envolver numa bola de neve gigantesca, onde agências do governo, polícia e criminosos estarão todos envolvidos consigo no cerne do enredo.

Enfim, é um daqueles filmes obrigatórios que ninguém deve deixar de ver, que seria responsável por influenciar uma das maiores franquias do cinema de todos os tempos: o espião 007. Sim, em Intriga Internacional muitos dos elementos apresentados seriam utilizados nos filmes vindouros de James Bond (inclusive um quase remake da cena mais inesquecível do filme – aquela que se encontra no primeiro vídeo que eu coloquei logo no início desta resenha).

Sob a batuta de Hitchcock (que aparece na primeira do filme) e com atuações impecáveis da linda Eva Marie Saint e do inigualável Cary Grant – que, por sinal, recusou o convite para interpretar Bond – Intriga Internacional é um filme para ver, rever e recomendar!

* Para título de curiosidade, o protagonista se apresenta como Roger O. Thornhill. Uma mulher lhe pergunta o que significa o “O” no meio nome e ele responde “nada”. De uma forma inteligente, polêmica e irônica, Hitchcock está dando uma espetada no seu ex-produtor David O. Selznick.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno. 2006)

Todo conto de fadas, sob a minha ótica, é um tanto quanto macabro. São intrigas, assassinatos, personagens complexas e muitas vezes irresolvíveis. Quase sempre temos tortura psicológica tão extrema que somente a realização de um sonho extremo pode livrar a personagem desta condição. Geralmente, nestes contos, a salvação se dá na figura do príncipe encantado – elemento valente, heroico, que nada teme e que nada sofre.

Na história de O Labirinto do Fauno não há príncipe encantado, visto que a história é a salvação para todos os males. Além disto, em vez dos desenhos com traçado ricos em cores, aqui o ambiente é triste e sombrio. Neste cenário, é a figura da menina Ofélia que traz alguma coisa de esperança. O Labirinto do Fauno é o conto de fadas idealizado pela protagonista mirim para oferecer-lhe uma saída para um mundo aparentemente sem solução.

O filme se passa no final da ditatura de Franco, na Espanha em 1944. Alguns remanescentes fascistas continuam a alojar em montanhas, escondidos da resistência civil, que aos poucos vão limpando a Espanha. Carmem está grávida do Capitão Vidal, fascista duro e onipotente – homem este que não agrada nem um pouco à Ofélia, filha apenas de Carmem, cujo pai havia morrido anos antes.

A partir deste ponto contém spoilers, ou seja, alguns trechos poderão conter partes da trama e isto poderá estragar o seu prazer, caso ainda não tenha assistido o filme.

Próxima de ganhar o bebe, o Capitão Vidal obriga aos seus subordinados a trazer a mulher e Ofélia para a montanha onde eles estão alojados, viagem está que desgasta totalmente a mulher, de modo que ela fica muito doente.
Diante de um cenário novo e assustador, Ofélia – que é leitora assídua dos contos de fadas – passa a fantasiar a respeito de uma fada que lhe leva para um Labirinto onde lá encontra um Fauno que lhe explica que ela era, na verdade, a princesa do mundo subterrâneo, a qual o seu pai lhe esperava há muito tempo. Para conseguir abrir o portal que levariam os de volta ao seu mundo, ela precisava cumprir algumas missões.
Na verdade a história é um subterfúgio para as coisas que Ofélia iria realizar. Era o ponto de fuga que a menina idealizou. Paralelamente a estas missões, a maldade do Capitão Vidal, por trás de um cenário de guerra e constante tensão, faz com que a menina simplesmente se esconda em sua própria história.
O final é muito comovente, pois da maneira como ela criou a sua história, Ofélia conseguiu enfrentar todos os seus desafios com bravura. Finalmente ela consegue abrir o portal e passar para o mundo subterrâneo, onde lá será feliz para sempre.

Guilherme Del Toro criou sua obra prima com este filme, que ganhou mais de 70 prêmios pelo mundo afora, incluindo três oscars. O Labirinto de Fauno é uma belíssima história, um conto sinistro sob a nossa realidade contada sob a perspectiva das fadas.

Louca Obsessão (Misery. 1990)

É incrível como os filmes baseados nas histórias de Stephen King que não são do seu gênero mais conhecido, o horror, são de uma qualidade impressionante. Temos vários exemplos, como “A Espera de Um Milagre”, “O Aprendiz”, “Um Sonho de Liberdade”, “Eclipse Total” e “Louca Obsessão” – todos excelentes e sem precisar valer-se de criaturas ou demônios da escuridão.

Os dois últimos desta lista foram interpretados pela magnifica Kathy Bates, sendo que neste último sua interpretação foi tão suprema que lhe valeu o Oscar de melhor atriz, além de um Globo de Ouro. Também não é para menos: o que Bates faz em “Louca Obsessão” é semelhante ao que Jack Nicholson faz em “O Iluminado” – uma aula de variações de expressões que traduzem perfeitamente o sentimento da personagem, que varia da tranquilidade para a insanidade em questão de poucos segundos.

A história não tem nada de mais: um escritor famoso por uma série de livros envolvendo uma personagem chamada Misery deseja escrever o último episódio. Ao se retirar com o manuscrito, acaba por se envolver em um acidente de carro num local distante.

Annie Wilkes, uma moradora das redondezas, socorre o escritor, que está bem debilitado, e passa a cuidar dele. Quando acorda, ele se encontra na cara de Wilkes, que se apresenta como enfermeira e fã número de sua personagem Misery. Devido à tempestade de neve que está caindo, ela fica impossibilitada de leva-lo para o hospital, então resolve trata-lo ali mesmo.

Tudo parecem flores para o escritor, que até então vinha sendo muitíssimo bem tratado até que Wilkes lhe faz um respeitoso pedido: que pudesse ler o manuscrito de Misery. Como forma de gratidão, o escritor consente sem nem imaginar os problemas que isto iria lhe trazer.

Logo nos primeiros capítulos, Wilkes fica possessa com o vocabulário chulo de Misery, porém quando ela descobre que a protagonista morre no final do livro é que a mulher se converte numa figura pior que o próprio diabo: tem início o terror psicológico e a tortura física que irá impor ao seu convidado.

Com momentos extremamente tensos e aterrorizantes, provenientes de situações inesperadas, “Louca Obsessão” tem um resultado muito acima da média do gênero, fruto dos diálogos bem construídos somados com as interpretações magistrais de Bates e de James Caan. Outro filme imperdível que não pode ficar de fora.

Cisne Negro (Black Swan. 2010)

Não esperava outra coisa, que não fosse excelente, de um diretor do gabarito de Darren Aronofsky. Ainda muito jovem este é um dos iluminados do cinema, visto que desde Pi – seu filme de estreia – todos os seus trabalhos são clássicos do novo cinema (a título de curiosidade, no IMDB, seu pior filme tem a nota 7.4).

Logo já sabia que o filme seria algo melhor do que temos nos habituados a averiguar no cenário atual – onde remakes e continuações persistem num cinema que está ficando sem criatividade e a beira da falência. O que eu não sabia é que Cisne Negro era a principal obra de Aronofsky até o momento, candidato à melhor filme dos últimos anos.

Aronofsky demonstra ter habilidade de sobra para retratar os homens e seus demônios, parece conhecer como ninguém a loucura presente em cada um de nós, o grito contido na garganta e as consequências do sentimento reprimido. Como diria Gabriel Garcia Marques – “todo escritor sempre escreve o mesmo livro”, neste caso este diretor sempre dirige o mesmo filme, explorando cada vez mais a angústia do homem presente no mundo, assim como doenças da alma e do coração.

Uma breve sinopse: Cisne Negro é uma história que mostra a expectativa e o esforço da bailarina Nina em busca da apresentação perfeita para a estreia da nova montagem de O Lago dos Cisnes, balé composto em quatro partes pelo russo Tchaikovsky. Nina, já com 28 anos, sempre treinou arduamente para o papel principal, e agora que é selecionada, exerce uma enorme pressão em torno de si mesma.

Esta pressão faz com que Nina se torne uma mulher atormentada, perturbada e com mania de perseguição, que passa a ver coisas e imaginar situações que se confundem com o nível real. Logo Nina passa da breve pressão para ataques constantes de psicose e delírio pré-loucura. De certo modo, lembra muito o declínio de Raskólnikov, protagonista de Crime e Castigo, obra clássica de Fiódor Dostoiévski – tenho lá minhas dúvidas se o filme não foi influenciado pela literatura do escritor russo (coincidência ou não, existe um filme brasileiro chamado Nina que é baseado em Crime e Castigo).

O Cisne Negro permite uma série de análises complexas nos seus diferentes atos. É um filme que traz algumas fendas de reflexão que nos autorizam a mergulhar por horas em suas diretrizes distintas. Entre estes pontos podemos destacar a relação entre Nina e sua mãe, uma mulher protecionista que abdicou de sua carreira de bailarina, para cuidar de Nina – fruto de um relacionamento do que podemos classificar como “Uma Noite e Nada Mais”.

Nina pode ser vista como uma consequência de sua mãe (e não como uma filha ou uma cria): Nina é a oportunidade de sua mãe vingar-se como a continuidade da carreira de bailarina que foi “obrigada” a abandonar. Além disto, Nina é sempre vista como uma menina por sua mãe – o quarto decorado como uma menina de 12 anos, mais as regras e deveres impostos a protagonista, causam uma repressão e uma espécie de fúria contida, que traz graves sequelas posteriores.

Este relacionamento complexo entre mãe e filha corrobora ainda mais com minha teoria: nunca um escritor explorou tão bem a conturbada relação entre pais e filhos do que Dostoiéski, ilustrada tão perfeitamente em Os Irmãos Karamazov. Inclusive o ápice do delírio chega a um notável grau de semelhança entre o Cisne Negro e o livro. Deveras, os traços de influência estão lá, como se fossem easter eggs para os apreciadores do escritor russo.

Outro ponto de destaque é a conversão da menina ingênua, que é uma abstração do cisne branco, para a menina perversa, que nada mais é do que o cisne negro tão almejado. De fato, o cisne branco tem uma apresentação impecável, perfeita, onde devido aos traços inocentes da personalidade de Nina, não há dificuldade em preservar o papel. Entretanto o cisne negro peca em excesso: o cisne negro está muito distante de Nina e acaba por influenciar a sua apresentação.

Para que ela consiga chegar ao seu objetivo, há uma série de iniciativas provenientes principalmente de Thomas Leroy – o diretor da montagem – que tenta despertar o espírito malvado em Nina tão necessário para encarnar a personagem obscura do balé. Este dualidade entre o negro e branco desperta constantes desequilíbrios na protagonista, que chega a ter acessos esquizofrênicos durante boa parte do filme.

Por fim, não menos importante, é o relacionamento entre Nina e Lily, uma colega do balé que é personificação do próprio cisne negro. Lily é substituta direta de Nina, que vê em sua colega uma ameaça para o seu papel, o que acalenta ainda mais a pressão exercida por si mesma. Lily é o Gral de Nina, objeto de perseguição e obsessão. É para lá que Nina deve caminhar se quiser se tornar o cisne negro perfeito.

É neste clima que o filme se desenvolve. Não irei citar nenhum caso em específico para não diminuir a experiência daqueles que irão assistir. Entretanto é interessante guardar estes pontos em sua mente para que se possa criar uma posterior reflexão dissertativa, visto que possibilidades não faltam. Ademais, outros pontos, que não os apresentados neste texto, podem ser explorados. O filme é quase inesgotável.

Portanto Clint Eastwood que se cuide, pois está chegando Darren Aronofsky, um diretor da nova safra que ainda trará outras preciosas iguarias para o nosso cinema. Arrisco-me a dizer que no futuro ele será considerado o melhor de todos os tempos. Se continuar neste ritmo, o que eu disse não será nenhuma adivinhação, mas um fator lógico a ser considerado.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

O Monstro (Il Mostro, 1994)

“Um serial killer está à solta e o paisagista e pintor de letreiros Loris, um caloteiro de primeira e artista de segunda que vive fugindo do proprietário de seu apartamento para não pagar o aluguel, é o principal suspeito. Isso graças a seu péssimo hábito de ser surpreendido em situações comprometedoras.

Jessica, uma policial à paisana, é incumbida pelo excêntrico psicanalista policial, Taccone, de seguir Loris e adquirir provas para efetuar sua prisão. Mas as coisas não saem como planejado… Você vai morrer de tanto rir.”

Esta é a sinopse de O Monstro, filme escrito, dirigido e protagonizado pelo cineasta italiano Roberto Benigni, que em 1997 ficaria internacionalmente conhecido pelo brilhante A Vida é Bela – vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Acompanhado de sua inseparável musa (a esposa Nicoletta Braschi) Benigni desenha, em minha opinião, um dos melhores filmes de comédias desde Charles Chaplin. Poucos filmes do gênero fazem parte de minha estante, e este é um deles.

Sua interpretação é impecável, marcante e inigualável. Benigni é uma espécie de Mr. Bean agregado com aquele exagero característico que é peculiar dos cidadãos italianos: articulados, sotaque cantarolado e descontraídos. De fato, os filmes de Benigni sempre ascendem a estes atributos, amplificando em níveis estratosféricos de modo que o humor seja imbatível.

Esta comédia não é aquela pastelona, nem se trata de besteirol, mas sim de um humor sútil e inteligente dado ao roteiro suave idealizado por Benigni, que cria situações cômicas no cotidiano comum de um malandro nato – que é personificado por Lori, nosso anti-herói que se envolve em tantas confusões que acaba se tornando o principal suspeito referente a um assassino em série que estava fazendo vítimas na redondeza.

Desde o princípio já sabemos que Lori não tem nada a ver com isto – simplesmente está sempre no local e na hora errada. Entretanto é esta fórmula que faz desta uma das grandes comédias: no ponto de vista das outras personagens, é quase impossível pensar que Lori não seja de fato o criminoso, afinal todas as situações levam os a esta conclusão. As cenas são hilárias, com diálogos excelentes, visto que as personagens são quase todas excêntricas e carismáticas.

Do ponto de vista de interpretação, este filme é uma aula de atuação. Para quem está iniciando sua carreira como ator, seja no teatro, seja no cinema, não deveria deixar de ver este filme por nada. De fato, ele é quase um laboratório para aquilo que veríamos três anos depois em A Vida é Bela. Os outros atores do filme também estão à altura do filme – não vou falar de Nicoletta Braschi, que interpreta a policial disfarçada que se aproxima de Lori para servir de isca numa operação, afinal seu papel propositalmente é não ofuscar o cintilante mestre.

Temos aí um filme completo, com começo, meio e fim, entretenimento de alto nível que, assim como certas séries, não cansamos de ver: uma, duas, três, quatro, cinco vezes, enfim, independente da quantidade de vezes que assistirmos, não tiramos a expressão de riso do rosto. Filme que eu recomendo para todos que eu conheço, logo não poderia deixar de recomendar neste blog.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei (2008)

Desde os fabulosos Os Imperdoáveis e Tombstone eu não havia encontrado mais nada no gênero Western que me chamasse a atenção. Estes dois são clássicos do cinema que estão para além de qualquer suspeita, afinal existe uma grandiosa história por trás de intocável elenco. Nada poderia ser melhor.

Nem mesmo Onde os fracos não tem vez (o fajuto ganhador do Oscar de Melhor – argh! – Filme) e nem mesmo o excelente O Assassinato de Jesse James conseguiram repetir a façanha destes dois citados acima.

Porém recentemente conferi um hit que conseguiu saciar a minha sede do estilo. Trata-se do magnífico Appaloosa – Cidade Sem Lei, filme que repete a fórmula de sucesso dos clássicos: excelente roteiro aliado a um excelente elenco.

Neste caso temos um ingrediente especial: um dos meus atores prediletos do cinema assina o roteiro, a direção e ainda atua como personagem principal! Este cara é Ed Harris e os louros são todos para si, devido ao imenso risco de fracassar ao assumir tudo sozinho.

Se o filme não fosse bom, a imagem de Ed Harris poderia ser prejudicada, mas não: tudo funciona perfeitamente bem!

Na companhia de Ed Harris, ainda temos Viggo Mortensen – representado pelo seu fiel escudeiro Everett -, Renée Zellweger, como a senhora que mexe com os brios do mocinho, e o estupendo Jeremy Irons, como o vilão da história.

Coloque estes quatro cidadãos no liquidificador, bata e veja o que sai: uma bebida com um sabor inesquecível. Assim é Appaloosa, um grande momento do cinema.

Appaloosa é uma cidade tomada pelos bandidos e constituem uma terra sem lei. Virgil e Everett formam uma destemida dupla que está habituada a este tipo de situação e que são contratados para restabelecer a ordem.

A dupla chega a lembrar de dois personagens clássicos de Miguel de Cervantes: Dom Quixote e Sancho Pança, e desconfio que ambos tenham sido verdadeiramente inspirados pelo livro do espanhol.

Agora o triunfo do filme reside nos irreverentes diálogos. É uma provocação sem fim que lhe deixa tenso em diversos momentos. Se tivesse que comparar com a televisão, Virgil é como um Dr. House versão Bang-Bang. Imagine só então o que vem por aí! Recomendado!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

A Ilha: Uma Prisão Sem Grades (Boot Camp, 2008)

Neste final-de-semana assisti a um filme que não chega a ser sensacional, porém é chocante. Se não fosse os dizeres “Este filme é baseado em fatos reais” talvez passaria despercebido por mim. Entretanto, após chegar ao término, fui investigar mais a fundo e descobri que coisas muito piores do que as relatadas no filme acontecem ainda hoje.

O filme se chama Boot Camp (que pode ser traduzido como Acampamento de Recuperação em português) e segundo o site Choveu ele sairá por aqui, a partir do dia 16/07/2008, direto em DVD, com o nome de A Ilha – Uma Prisão sem Grades.

Segue a Sinopse:

Boot Camp é um thriller psicológico sobre um grupo de jovens rebeldes que são enviadas para uma casa de reabilitação em um remoto campo das Ilhas Fiji. Mas o que seus pais acreditam ser uma respeitosa e artística instituição de luxo em um lugar calmo e perto da natureza se torna uma prisão onde esses jovens são levados a um pesadelo. E é neste verdadeiro campo de batalha que eles serão submetidos a diversos abusos e lavagens cerebrais. Submetidos as situações extremas e com a sanidade mental ameaçada, estes jovens deverão enfrentar o diretor militarista e sua utópica visão de ordem, para conseguirem escapar.

O filme é um show de tortura psicológica e física, e assemelha-se bastante ao que acontece nos campos militares, com uma exceção: os torturados são crianças enviadas pelos próprios pais na espectativa que os filhos aprendam a lhes obedecer. Para eles pararem de serem torturados, precisam torturar os outros. Só assim podem subir de nível,  numa espécie de hierarquia onde quanto mais alta, mais direito a regalias.

Enfim, só vendo o filme para se sentir chocado ao ver crianças, que muitas vezes não cometem nem ao menos um crime, sendo enviadas para verdadeiros campos de concentração. Porém eu, em minha ingenunidade, achei que o filme era exagerado e o inicio que dizia que “Este filme é baseado em fatos reais. Há atualmente mais de 20.000 acampamentos de recuperação ou com regras similares ao chamado Amor Duro, abrigando milhares de crianças no mundo. Eles operam virtualmente sem nenhuma regulamentação ou fiscalização do governo.” fazia parte da estratégia de instigar a curiosidade do público. Porém, no fim, os produtores do filme insistem na questão e complementam os dizeres iniciais com os seguintes: “Desde o começo do movimento Amor Duro de reabilitação em 1970, centenas de milhares de crianças têm sido enviadas para programas iguais ou similares a este. Tem sido relatados mais de 40 mortes nos acampamentos. Não há estatísticas de quantas vidas têm sido irreparavelmente danificadas.”

Fiquei com isto na cabeça, muito incomodado pela possibilidade do real, e fui investigar a veracidade dos eventos demonstrados. Segundo o wikipedia, Boot Camps fazem parte do sistema de correção de jovens que cometeram o primeiro delito como substituição ao tradicional sistema de carceragem no EUA, ainda que diversos países adotem sistemas semelhantes. O modelo deste tipo de punição é baseado nos mesmos moldes de campos de recrutamento militares e o objetivo é fazer com que eles sejam re-educados, aprendam a obedecer regras e respeitar hierarquias para serem re-inseridos na sociedade. O tempo de tratamento varia entre 90 e 180 dias e caso o programa não seja completado, o jovem volta para o sistema tradicional de punição e é encarcerado. Estes campos de recuperação podem ser empresas privadas ou do próprio governo.

Neste caso, temos uma espécie de Febem paulista, porém com regras mais rígidas para os criminosos de primeira viagem, o que, em teoria, seria válido como forma de tentativa, pois assim estes jovens não retornariam a cometer outros crimes quando voltassem para as ruas. A punição segue o príncipio de agir antes, ainda que com certo rigor,  do que tentar fazer alguma coisa quando não tiver mais o que fazer. O problema é que no comando destes lugarem estão homens, e sabemos que o poder corrompe os homens, então surgem episódios como a do garoto Martin Lee Anderson, que no início de 2006 teve um colapso e faleceu enquanto era obrigado a continuar correndo mesmo sem aguentar e visivelmente fatigado, durante um exercício. Vídeos flagaram toda a ação e a negligência em atender o garoto mesmo após ele estar esparramado no chão – demoraram cerca de 20 minutos para chamarem o socorro médico. No julgamento pela morte de Anderson, todos os envolvidos foram inocentados. Toda a ação, vídeos e afins podem ser acessadas no site oficial do menino, para isto, clique aqui.

Porém, embora exista polêmica, assim como no tratamento da Febem, não era exatamente isto que eu vi no filme. O que eu vi foram jovens enviados para campos de recuperação privados apenas com o consentimento dos pais. Estaria os criadores do filme equivocados?

Como sempre faço ao terminar de assistir qualquer filme, fui avaliar o mesmo no imdb e dei nota 8 de 10 possíveis. Ao ler a parte de discussões do filme, vi dois tópicos que me chamaram a atenção: Este filme é realmente inspirado em fatos reais? e Estes lugares existem. O primero levanta uma questão que estava dentro de mim e o segundo responde.

Para sintetizar a discussão, a resposta é sim, caros amigos, estes lugares existem até os dias hoje. Tem preço, endereço, telefone, fotos, vídeos e depoimentos de quem passou por lá. No próprio imdb existem relatos de quem teve parentes e conhecidos colocados nestes lugares e a coisa parece ser bem pior do que as demonstradas no filme. Um membro relata que a sua ex-namorada foi agredida e molestada por funcionários. Um destes lugares é conhecido como Tranquility Bay, que é o local que inspirou o filme. Se trata de uma ilha isolada na Jamaica que, segundo o próprio site da empresa, a especialização é no tratamento de jovens e adolescentes problemáticos, entre 11 e 19 anos de idade.

Na web, estão centenas de artigos e depoimentos denunciando os maus tratos e abusos desta instituição, onde caminha a própria Besta e a Crueldade entre as crianças. Os pais pagam até o equivalente a R$ 5000,00 por mês para terem os seus filhos tratados nestes campos e muitas vezes não sabem o que acontecem por lá, visto que ligações e visitas são geralmente proibidas.

Alguns depoimentos podem ser conferidos através de movimentos como o TBfight.com e o cafety.org, que lutam pelo fim destes tipos de instituições. É barbaridade o que acontece. São recorrentes cenas de abuso, estupro, tortura psicológica e agressão física. Uma garota chegou a ficar três meses sem poder falar com alguém, isolada num quarto. As vezes são obrigados a comer uma “comida estranha”, que eles mesmo não sabem distinguir e são horríveis. Um garoto apanhava de chinelo e ficou sem as suas medicações – sendo que ele tinha sérios problemas para respirar.

Veja algumas fotos do local encontradas na web:

Numa discussão, os próprios pais relatam os abusos e demonstram arrependimento ao terem optado em colocar os seus filhos nestes locais. Um deles diz que assim que ele ficou sabendo que seu filho era mal tratado, ele o transferiu para um outro local. Então um outro participante da discussão disse: “Por acaso o problema não seriam vocês, pais que colocam os seus filhos em verdadeiras prisões?”. A resposta é comovente: “Não diga isto! Quando você for pai você irá entender o que é querer fazer de tudo para que seu filho ande por vias normais e as medidas desesperadas que muitas vezes tomamos. Jamais deixamos de amar os nossos filhos!”.

Estes são os fatos. A verdade nua e crua sem maiores detalhes ou ornamentos. Para mim, uma coisa que parecia somente ficção mostrou que a realidade é pior do que qualquer filme, por pior que seja. Sim, vivemos numa comunidade de monstros que querem ganhar dinheiro a qualquer custo moral ou ético, sem se importar em ferir valores, histórias ou tradições que um ser humano possa ter.

Pois estes Boot Camps são apenas empresas que visam o dinheiro e desprezam totalmente o homem, os tratando como lixos, com nojo e repugnância, como se fossem insetos miseráveis.

Quanto mais eu vejo, mais eu sinto vontade de desistir de tentar mudar alguma coisa. É duro, porém, devemos continuar. O caminho é a luta e a persistência,  só assim poderemos nos manter seres íntegros e que respeitam o direito e as escolhas dos outros.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

Battle for Haditha (A Batalha de Haditha, 2007)

Neste final-de-semana assisti ao filme “Battle of Haditha“, que veio a calhar num momento propício à discussão realizada no YouTube, no Orkut e em outros canais a respeito do documentário Fitna. Embora não haja uma aproximação direta do filme com o documentário, podemos estabelecer algumas relações interessantes, principalmente no que se refere à injustiça que os muçulmanos sofrem em relação aos atos terroristas de grupos isolados.

Como sinopse, o filme recria os acontecimentos do dia 19 de Novembro de 2005, onde um grupo de “Marines” das forças armadas nortes americanas assassinaram 24 pessoas, entre mulheres, homens e crianças, após terem um veículo atacado por uma bomba que foi acionada por uma célula terrorista na cidade de Haditha, no Iraque.

Se você quiser saber o que aconteceu com mais detalhes, clique aqui e leia o artigo públicado sobre o episódio no Wikipedia, em todo o caso irei comentar a respeito nas próximas linhas. Ou seja, contém Spoilers sobre a trama do filme, que não é um suspense, apenas reconta acontecimentos reais.

Logo no início, vemos um homem andando pelas ruas do Iraque. De repente ele observa um grupo linchando um homem no chão. Com ar de reprovação, ele entra em sua casa e desabafa com sua mulher: “Estes loucos da Al-Qaeda acabaram de matar o professor de inglês!”.

Claro está que a intenção do diretor é mostrar que nem mesmo os muçulmanos aprovam as atitudes destes grupos extremistas que se dizem muçulmanos fundamentalistas. Ou seja, não é possível relacionar religião com terrorismo.

Numa outra fala, um muçulmano diz: “Meu medo é que surja alguém pior do que Saddam Hussein”. Mais uma vez vemos que não são todos que concordavam com o regime do antigo ditador.

Numa fala, um soldado americano diz: “Este povo é hostil. Ou seja, caso necessário, não hesitem em atirar numa mulher ou criança, porque basta que o seu marido morra que elas virão para cima de você com armas nas mãos.” Isto me lembra uma série de comentários a respeito do Fitna que eu ando lendo em diversos fóruns. As pessoas consideram todas culpadas, apenas por adotar uma crença diferente daquelas que estão julgando.

O ataque ao comboio dos Marines foi uma estratégia de um grupo terrorista. Eles colocaram uma bomba na estrada que seria acionada através de um celular. Dois terroristas vigiavam a estrada buscando o melhor momento para ativar os explosivos. Porém, de frente para a estrada, haviam diversas casas com moradores que não tinham nada a ver com os terroristas.

Durante a passagem de um comboio do exército norte-americano, o dispositivo é acionado e um dos veículos explodem. Resultado: uma morte e dois feridos. O responsável pela operação, ordenou que os responsáveis fossem encontrados. Logo de cara, eles chacinaram cinco pessoas que estavam dentro de um carro que estava passando por ali no momento. Depois começaram a invadir as casas e a chacinar quem estava pela frente, ainda que ninguém tivesse nem mesmo a oportunidade de falar. Enquanto isto os terroristas filmavam tudo as escondidas, posteriormente este vídeo seria divulgado entre os iraquianos para inflar moradores comuns a aderirem à causa terrorista (que promove a matança com o intuito de destruir o “inimigo”). No vídeo, uma menininha com o rosto ferido diz que seus país e seus irmãos foram assassinados e que ela odeia os americanos.

Nem preciso ir adiante, mas veja que os terroristas que dali surgiriam são produtos do próprio meio. Aqueles terroristas seriam fábricados pelo próprio governo dos Estados Unidos da América, e todos os atos provenientes dali, deveriam ser responsabilidade dos mesmos. Pessoas comuns, algumas estavam em festa, morreram sem saber o porque.

E ainda tem gente que continua a defender o exterminio dos islâmicos. Afinal, neste caso, a culpa é de quem? O importante é: os muçulmanos são muçulmanos, os terroristas são terroristas. São coisas distintas. Se calhou de alguns terroristas serem muçulmanos não tem nada a ver. Alguns deles poderiam ser corinthianos, palmeirenses, flamenguistas, grêmistas, e ainda assim deveríamos combater somente os terroristas, e não os torcedores. Devemos combater este mal, e não a religião.

Será que é tão difícil assim?

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

Nina (2004)

Este filme brasileiro, do cineasta Hélio Dhalia, que posteriormente nos trouxe uma outra obra muito interessante (O Cheiro do Ralo), traz em sua história uma livre adaptação do mais famoso romance de Fiódor DostoiévskiCrime e Castigo. Contextualizada com os dias atuais, num ambiente alternativo e underground paulista, Nina é a contraparte de Rodion Raskolnikov, uma jovem excêntrica e miserável que mal tem dinheiro para comer, muito menos para pagar o aluguel do quarto a qual vive. Com o atraso no pagamento, a velha mesquinha, proprietária do imóvel, a pressiona de todas as maneiras, chegando, inclusive, a racionar a comida de Nina, além de cobrar juros exorbitantes para cada dia que o pagamento deixa de ocorrer.

Nina, numa situação desesperadora, com fome, vivendo na miséria das ruas paulistas, utiliza-se de todos os recursos para adquirir algum dinheiro. Nas vezes em que consegue, a velha lhe tira tudo, sem demonstrar a menor piedade do estado precário da jovem – mesmo quando esta tenta lhe agradar. Com prazo final para efetuar o pagamento, Nina começa a declinar rumo a insanidade, sem saber o que fazer, sem poder sonhar com um futuro, com toda a pressão possível exercida em cima de si. Logo passa a idealizar, de forma inconsciente, o assassinato da proprietária de seu imóvel.

A velha decide, então, colocar o quarto de Nina para alugar e logo aparece um interessado, que faz pagamento adiantado. Nina observa toda a cena e entrar num estado eloquente, ainda pior do que se encontrava. Com os nervos a flor da pele, ela precisa agir. Da pior maneira possível, ela resolve o seu problema e assassina a velha mesquinha. Porém, o sentimento de culpa surge no mesmo momento, ainda mais quando o novo inquilino passa a bater na porta e não encontra a velha disponível para lhe receber.

Logo ela passa a delirar sobre um sentimento de constante perseguição. Acredita que todos desconfiam de si perante o crime. Logo Nina não conseguirá suportar sua própria existência mediante um sentimento de culpa incalculável. Ela sente a necessidade de pagar pelo ato cometido e sua consciência não lhe deixe em paz por um minuto sequer.

É dentro desta narrativa que encontramos os personagens sombrios de Nina. O movimento e a direção dá um tom extremamente desconfortável na película, o que ressalta a proposta do filme em demonstrar os sentimentos da protagonista. Tirando a personagem título, temos uma série de outros personagens marcantes e característicos, que reforçam ainda mais o teor da obra de Heitor Dhália.

Porém, ainda assim, Nina é um filme que transita em minhas sensações de forma negativa e positiva simultaneamente. Até agora não sei se gosto ou não do resultado final. Para melhor atestar a minha mensagem, fico feliz por um brasileiro, dentro do cenário nacional, trazer uma leitura cinematográfica para uma das melhores obras de literatura do mundo (sim, o terceiro mundo também lê Dostoiévski!), por outro lado a complexidade das personagens de Dostoiéski não se resolvem também quando transportados para a sétima arte.

A trama principal de Crime e Castigo, embora encurtada e adaptada, foi bem construida no roteiro de Nina. Porém quem já leu algo de Dostoévski sabe que o enredo principal é mero detalhe perto da grandiosidade de cada livro. O trunfo de Dostoiévski reside nas entrelinhas e nos conflitos psicológicos de cada personagem. Isto, obviamente, foi deixado de fora em Nina. Em Crime e Castigo temos personagens que são essências para que este se tornasse um dos mais respeitados livros da literatura e que foram totalmente abandonados nesta adaptação: como vislumbrar um releitura do livro sem equivalentes para Porfiry Petrovich e sua grande habilidade de dedução e persuação ou mesmo a irmã de Raskolnikóv? E o seu grande e fiel amigo Razumikhin, que desempenha papel tão importante? E o sacana Ludin? E pior, onde está Sônia – talvez a mais importante das personagens de apoio à Raskolnikóv?

Enfim, Nina faz bem aquilo que se propõe a fazer, porém a proposta não está a contento para os fãs de Dostoiéski. De alguma forma bebemos roteiro que não saceia a sede de literatura. Pela limitação do tempo em que uma história deve ser contada para os cinemas, entendemos o que Heitor Dhália fez com Nina (talvez seja por isto que ele não se atreveu a chamar o filme de Crime e Castigo, e nem mesmo diz que é uma adaptação, mas tão somente foi inspirado pela obra). Mesmo assim, por vezes penso que se é para ficar na retaguarda e não ser mais ousado (como Meirelles foi em Ensaio Sobre a Cegueira), melhor não filmar e deixar como está.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

A Partida (Okuribito, 2008)

Esta obra de arte do cinema nipônico é uma das experiências mais agradáveis que pude compartilhar com o meu televisor nos últimos tempos. Este é um daqueles filmes deliciosos, de fácil digestão, com toques suaves de humor e drama sob medida, além de momentos de emoção e um ápice comovente. Se fosse um filme americano apostaria qualquer valor que seria o grande campeão do Oscar.

Não estamos diante de um quebra-cabeça. O filme não é de suspense e nem exige uma bagagem intelectual para sua apreciação. Na verdade é uma trágica comédia, ou talvez um drama engraçado, defina como quiser. O fato é que os mais de 130 minutos do filme passam como num piscar de olhos. Elogios a parte, vamos a história (spoilers), que embora aparentemente não tenha nada demais, é extremamente bem desenvolvida.

Daigo Kobayashi é um perdedor nato. Assim que consegue realizar o seu sonho de tocar numa orquestra sinfônica e, obter com isto, uma melhor posição social, ele adquire um violoncelo caríssimo especialmente para executar a sua tarefa, porém logo após a sua primeira apresentação, o patrocinador encerra as atividades da orquestra por falta de público.

Logo, Daigo está sem emprego e com um instrumento financiado para pagar. Com o aval de sua apaixonada esposa, ele vende o instrumento e volta para a sua terra natal, numa zona afastada dos grandes centros. Passa a morar com sua esposa na casa que sua falecida mãe deixou de herança. A casa remonta à diversas lembranças que Daigo teve em sua infância, e as lembranças não são as melhores, visto que seu pai – a qual gostava muito – abandonou a casa para viver com outra mulher.

Em sua nova vida, Daigo busca um emprego nos anúncios de um jornal regional. Uma oferta lhe chama a atenção: um ótimo salário para um trabalho que não necessita experiência numa empresa que auxília os seus clientes em suas jornadas. Daigo imagina ser uma agência de viagens e decide ir até a empresa para se candidatar a vaga.

Na empresa, temos a secretária e o chefe, mais ninguém. Na entrevista, o chefe não faz questões, apenas diz o valor do alto salário, que espanta Daigo de tal maneira, que o chefe promete lhe pagar por dia e imediatamente lhe dá um adiantamento. Daigo acaba por aceitar a importância e sua contratação é efetivada.

No dia seguinte, conhecemos o trabalho de Daigo. Eles preparam defuntos recém-mortos numa cerimônia pré-cremação. Eles atuam como uma extensão da funerária. Além de maquiar e limpar o corpo dos mortos num ritual onde todos os familiares observam, também executam um ritual bonito e respeitoso de purificação da alma, antes mesmo de fechar o corpo num caixão.

Porém o trabalho onde seja necessário tocar o corpo dos mortos é considerado uma profissão de baixo escalão. Portanto Daigo esconde de todos o que eles faz, para não desonrar seus amigos e sua esposa. O desenrolar do filme segue uma fórmula interessante: cada vez que o escritório de Daigo é acionado, temos uma experiência totalmente diferente em relação ao morto e os seus familiares. Há casos que são engraçados, outros são trágicos. Outros ainda mesclam um pouco dos dois gêneros. Em alguns momentos, me recordei de uma série antiga da HBO chamada “Six Feet Under” (traduzido como “A Sete Palmos”).

Entre cada caso, Daigo beira entre o rídiculo e o dramático, quando seus temores estão próximos de se tornarem realidade e seus fantasmas do passado lhe atormentam ainda mais. A dinâmica do filme faz com que tudo seja muito bem explorado e a temática não acabe por nos cansar. É como se estivéssemos diante de um seriado com diversos episódios de curta duração. Se eu tivesse que falar do que se trata este filme, diria que se trata da relação entre pais e filhos. Daigo – o filho rebelde que nem mesmo se recorda da face do pai e seu inconformismo por ter sido abandonado. Do outro lado o pai – a qual só conhecemos através da perspectiva de Daigo e de alguns vizinhos.

Diante da perspectiva de tantas mortes, além de conviver num local que lhe remete a tantas coisas ruins, Daigo se transforma num herói. É carismático a ponto de sofrermos com suas quedas e sorrirmos com as suas ascensões. Há momentos que os corações mais duros certamente se amolecerão. Se você não quer se desmontar na frente dos outros, aconselho que assista este filme sozinho, por que o risco disto acontecer é real.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.