As Horas (The Hours)

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Uma Leitura Através da Filosofia de Martin Heiddeger

As Horas” é um romance escrito em 1998 por Michael Cunningham e que lhe rendeu, no ano seguinte, o prêmio Pullitzer para a categoria ficção. Em 2002, sob direção de Stephen Daldry e atuações de Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep nosapéis principais e outros grandes nomes como John C. Reilly e Ed Harris como coadjuvantes, “As Horas” se tornou um dos grandes clássicos do cinema e traz consigo uma profunda reflexão em torno da angústia heideggeriana. Diferente do que acontece com frequência na transposição do livro para o cinema, “As Horas” é uma película formidável, que merece todos os tipos de elogios de seus telespectadores, contando com atuações espetaculares dos atores e atrizes que compõe o time, que traz a essência do livro com toda a perfeição e fidelidade necessária para a realização de uma grande obra cinematográfica.

O livro conta um dia de três mulheres em períodos distintos, entrelaçadas por um elo em comum: o romance “Mrs. Dalloway”. Durante o decorrer deste dia, iremos observar os contrastes e as imensas semelhanças na vida destas três mulheres, que compartilham o principal objeto de estudo para a realização deste texto: a angústia. A primeira cena do filme, que funciona como prelúdio, é uma descrição dos últimos momentos da vida da escritora britânica Virginia Woolf (25/01/1882 – 28/03/1941 – interpretada por Nicole Kidman), e reconta a história de seu suícidio, o que de fato aconteceu, derivado das constantes crises depressivas e acontecimentos que agravam o seu estado existencial, como a destruição de sua residência em Londres , durante o bombardeio realizado pela Força Aérea alemã durante a 2º Guerra Mundial.

Na manhã de 28 de Março de 1941, Virginia Woolf escreve dois bilhetes de despedida, um para sua irmã e outro para seu marido, Leonard Woolf, esclarecendo os motivos que lhe levaram a se suicidar. Escrita-se que estas sejam as ultimas palavras de Virginia para seu marido:
“Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e realmente bom. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V.”

A cena é retratada de forma magistral e exibe a nobre Virginia Wolf, escrevendo os bilhetes, abotoando os botões de seu roupão, fechando a porta de sua casa, caminhando por um bosque, colhendo pedras e colocando-as em seus bolsos e, finalmente, entrando num rio próximo a sua casa, paralelamente o seu marido entra em sua casa, encontra os dois bilhetes e os lê. Enquanto toda a cena se desenvolve, ouvimos a voz de Nicole Kidman dizendo os trechos do bilhete públicado acima. A cena é triste, porém muita bela e triunfante.

E é assim que se inicia “As Horas”, um filme sombrio e que nos leva de volta a nós mesmos, e nos faz refletir acerca de nossa existência.

Em 1923, observamos o dia de Virginia Woolf enquanto ela começa a escrever o romance “Mrs. Dalloway”, e planeja contar toda a história de uma mulher em um único dia. Paralelamente temos uma constante e sofrível luta de Virginia contra a sua própria loucura.

Em 1951 temos Laura Brown (interpretada por Julianne Moore), uma mulher que leva uma vida praticamente perfeita mas que sofre de um vazio sem explicação. O seu dia gira em torno dos preparativos para comemorar o aniversário do marido Dan Brown (interpretado por John C. Reilly), na leitura do livro “Mrs. Dalloway”, da autoria de Virginia Woolf, além de ficar evidente a sensação de se sentir estranha dentro de seu própria habitat. Laura está grávida e tem um filho de três anos de idade.

Em 2001, Clarissa Vaughan (interpretada por Meryl Streep) organiza uma festa para comemorar o prêmio literário que seu grande amigo Richard (interpretado por Ed Harris) – ex-namorado, homossexual, aidético e prestes a morrer – ganha por reconhecimento a um livro de sua autoria. A vida de Clarissa só tem sentido ao vivenciar a vida de Richard – que trata a amiga sempre por “Mrs. Dalloway” – a qual observamos a sua enorme angústia ao se deparar com o estado terminal de seu amigo, assim como as constantes tentativas de lhe proporcionar ânimo e alegria, até como forma de combater a sua própria angústia.

É notável o movimento a qual se desenrola toda a trama, sendo a ligação e os paralelos entre as três protagonistas que fazem de “As Horas” umas das grandes películas de nosso tempo. De tal forma, o livro não deve ser diferente. Apresentada a trama, vamos aproximar “As Horas” com algumas partes da filosofia heideggeriana. Primeiro é preciso retomar que, sendo a filosofia de Martin Heidegger uma filosofia muita abstrata, fica difícil entrar em consenso quanto a alguns significados, sendo a intuição o principal método utilizado para a compreensão da obra de Heidegger. Uma vez que possamos dizer que a angústia ôntica é aquela que tem origem no intra-mundano e que a angústia ontológica não tem origem e é causa de si mesma, representado apenas a dor e aflição de um nada sem explicação, estamos aptos a iniciar a reflexão.

A escritora britânica Virginia Woolf é vítima de fortes crises depressivas, têm consecultivos quadros de histeria e, consciente de seu estado mental, enfrenta diversas batalhas com a sua própria loucura até o momento que se sente incapaz de vencer sua doença e acaba cometendo suicidio. É evidente a angústia de Virginia, que está sempre a esperar que algo aconteça, e a ansiedade presente em cada hora de seu dia, onde é difícil conciliar os pensamentos com a realidade. Embora tenha o constante apoio de seus familiares, Virginia sente que seu quadro é irreversível e para aliviar as dores de seus sentimentos, procura fugir o máximo possível de si e do mundo, como que para procurar algo sem saber exatamente o que.

Podemos nos basear analisando duas cenas onde a tentativa de fulga e a oscilação do pensamento: uma é quando Virginia decide ir à estação de trem de sua cidade e, após se encontrada por seu marido, pede para sair da região a qual habitam em troca de uma cidade mais movimentada. É a tentativa de Virginia para acreditar que o seu problema se encontra na vida a qual ela vive, e que a mesma não representa a sua própria vontade. Assim como Virginia, existe uma gama de pessoas que procurar exteriorizar os seus problemas e acaba procurando uma solução fora de si. São inumeros os casos de pessoas que vivem angústiada e para acabar com este sentimento escolhem mudar de cidade, de carro, trocar o guarda-roupa, reformar uma casa, etc. No príncipio, existe uma disposição para que as coisas melhorem, visto que a novidade faz que a nossa mente se distraia de forma mais acentuada, porém, conforme o passar do tempo, a novidade deixa de existir e você passa a se encontrar consigo mesmo, se reencontrando com a angústia e tendo a necessidade de se distrair novamente.

A outra cena é quando Virginia escreve, num estado profundo, o seu livro “Mrs. Dalloway” e observamos que a protagonista da história é um retrato vivo da própria Virginia sendo ela por si mesma, ou seja, sem influência alguma do mundo exterior ou da sua própria doença. É durante a escrita que Virginia vive a angústia ontológica, que permite que se encontre com o seu Dasein – que está sempre aberto para o ser – e ela pode “vir a ser o que se é”, sendo que ela passar a existir até o momento em que ela para de escrever e se reencontra com sua vida. Heidegger diria que esta é uma vida inautêntica, pois sua angústia, que ele classificaria como ôntica, tem origem no intra-mundana, ou seja, tem causa no mundo exterior.

Neste caso, a origem é patológica, proveniente de uma doença como a depressão. Além disto Virginia está sempre a fugir de si mesma, tanto é que opta pelo suícidio para acabar com o seu sofrimento e o sofrimento de seus próximos, numa atitude de não aceitação. Esta não aceitação é que faz com que Virginia, mesmo atingindo a angústia ontológica em diversos momentos, procure uma explicação – até como princípio de distração – para sua própria angústia e acabe migrando para o estado de angústia ôntica, que é onde podemos nos arriscar a contextualizar os suicidas, que utilizam da morte como distração para por fim à angústia.

Laura Brown acorda sozinha em sua cama. Seu olhar é absorto. Fica claro que ela se sente uma estranha. A única coisa que parece lhe interessar é o romance “Mrs. Dalloway” que está em seu criado-mudo. Ao levantar observa que o seu marido já está de pé e que prepara o café-da-manhã para eles. Ele diz que não quer incomoda-la, afinal ela está grávida. Ele está alegre, alias é o seu aniversário. Laura finge para ele e para o seu pequeno filho uma sensação de felicidade que não existe. Ele se despede e vai trabalhar. Laura Brown acredita que ela deve fazer algo para comemorar o aniversário do bondoso marido e decide forçosamente a fazer um bolo. Mas é difícil. Laura não se sente à vontade, não se sente bem com a sua vida. Ela está angustiada e sua angústia não tem origem em nenhum acontecimento interior ou exterior. Esta á a angústia ontológica. Laura Brown passa a existir para Heidegger. Algo pede para ela se entregar a esta angústia, contudo ela hesita, não sabe o por que, da mesma forma que ela também não sabe porque se sente assim. Todos seus movimentos são incertos. Laura recebe a visita de uma antiga amiga e num momento acaba lhe beijando a boca, o que deixa o ambiente difícil e pesado, e faz com que sua amiga vá embora.

Nesta ultima cena podemos dizer que a amiga que Laura Brown procurava atender a necessidade de dar vida a esse apelo da vida causada por sua angústia ontológica, que pede insistentemente para fazer algo mas sem dizer o que é este algo, não obstante também podemos dizer que Laura Brown fez algo que sempre quis fazer, e estava no processo de humanização quando decidiu trocar sua vida inautêntica por uma vida autêntica, onde ela pudesse realmente fazer aquilo que seu ser sempre reclamou.

Posteriormente Laura Brown pega o bolo que estava preparando para o seu marido e o destrói. O fato dela preparar o bolo era algo que estava presente em uma vida que não era sua e neste processo de humanização não fazia sentido algum continuar com aquilo.

Ao continuar a leitura de “Mrs. Dalloway”, Laura Brown planeja o seu próprio fim, visto que ela não enxerga uma saída para se livrar de seu estado de sofrimento. Ela pega o seu filho Richie, leva para uma vizinha cuidar e se dirige à um hotel, onde retoma a leitura de seu livro. Durante todo o decorrer do dia de Laura Brown também é interessante analisar um personagem que também é vítima de uma angústia, embora seja ôntica, e sofre tanto quanto os demais personagens: é o pequeno Richie, que percebe o quanto a sua mãe sofre e sente a inutilidade em não poder fazer nada para alterar este quadro. Ele acompanha cada momento do dia de sua mãe e percebe o quanto ela é infeliz. Ele percebe inclusive o momento em que ela deseja se matar, o que é retratado com o seu desespero ao ser deixado na casa da vizinha enquanto a sua mãe se dirige ao hotel. Contudo a sua angústia tem origem no sofrimento de sua mãe. Richie vive uma vida inautêntica por isto.

Após terminar a leitura de “Mrs. Dalloway”, Laura Brown decide não mais se matar. Ela retorna a casa da vizinha para pegar Richie, prepara o bolo do marido e depois observamos a comemoração do aniversário em familia. Porém o olhar de seu filho deixa claro que Laura Brown ainda continua num estado que o preocupa. É claro que, até então, podemos concluir que a leitura de “Mrs. Dalloway” no hotel teve um efeito decisivo na vida de Laura, embora só no final do filme iremos descobrir o porque, mas o que podemos dizer já é que o livro proporcionou que Laura se encontrasse com o seu Dasein e permanecesse a viver não mais em estado de dúvida, porém existisse em estado consciente e controlado. A partir daquela experiência ela tomou parte de sua vida e passou a controlar todos os acontecimentos posteriores. Ela passou a se conhecer. Clarissa Vaughan está animada. Seu melhor amigo, Richard, acaba de ganhar um prêmio em relação a um romance que escreveu. Ela organiza a festa que fará em homenagem à ele.

Alias, Clarissa é especialista em dar festas. Homosexual, observamos que Clarissa também se como simular a alegria e a felicidade, sempre na tentativa de quebrar a solidão, tanto a sua como a dos outros. Porém fica claro que ela também não se sente confortável com sua própria vida. Ao se encontrar com o deprimente Richard, em estado sofrível e prestes a morrer, Clarissa tenta animar o Richard com a sua própria festa, porém ele não vê motivos para euforia. Não é a festa que vai deixá-lo bem, não é a festa que irá amenizar a sua angústia ôntica, que tem origem na sua espectativa de morte e no percurso de sua má sucedida vida. Richard ironiza Clarissa dizendo algo como “Mrs. Dalloway dando festas para quebrar o silêncio”. Esta é uma tentativa de Richard de dizer para deixar o que está como está, que não vale a pena mascarar a verdade, para ela parar de ficar simulando a vida e ficar fugindo de si mesma. Richard sabe que irá morrer. Ele não gosta de si e não gosta das pessoas, com exceção de Clarissa.

Clarissa sofre ao ver o amigo sofrer, a sua angústia é ôntica e tem origem no sacarmo e na antivida de Richard. Ela afirma que só é feliz na presença do amigo. Clarissa vive uma vida inautêntica, vive uma vida que não é sua. Para Heidegger, ela não existe. Ela não atende o chamado de seu Dasein. Ela prefere espantar tudo com flores e festas. Ela prefere tapar os ouvidos ao invés de escutar o seu ser. Naquela tarde, numa das visitas de Clarissa para definir detalhes da festa, Richard resolve se suicidar ao se atirar pela janela de seu apartamento. Clarissa observa tudo e se sente inútil, pois ela sempre teve a certeza de que poderia fazer algo que deixasse o seu amigo feliz. Ela se sentia assim justamente porque não vivia a sua vida. Então surje a apoteose da obra: durante o funeral, todos os participantes ficam chocados ao saber da visita da mãe de Richard. Clarissa sabe que a mãe de Richard abandonou ele e a sua irmã, assim que ela nasceu, e nunca mais deu notícias. Esta era a maior mágoa de Richard.

Sua mãe não é nada mais nada menos do que Laura Brown e descobrimos que Richard é o pequeno Richie que viu de perto toda a angústia de sua mãe. Laura explica que havia algo dentro de si que lhe dizia que aquele não era o seu lugar e que lhe clamava por vida. Ela havia decidido se matar numa tarde em que ela se hospedou num hotel. Porém ela havia decidido que não faria isto naquele momento e planejou todo o seu futuro: assim que ela tivesse o bebê, iria abandonar toda aquela vida ilusória (inautêntica) e passaria a viver (existir) da forma que realmente gostaria. Ela prometeu a si mesma que não iria se arrepender e que não iria olhar para trás. Ela disse á todos que havia escolhido viver. Ela diz isto serena, confiante, e com o olhar mais leve do que a Laura que observamos antes.

Heidegger diz que a felicidade não é possível como um sentimento simulado quando você decide viver uma vida autêntica, aquela felicidade proveniente de um sentimento de distração e de apego, mas diz que surge um sentimento de libertação, de conhecimento e um certo orgulho que nos faça crescer de tal maneira que poderemos dizer qual é o mundo que não queremos viver. E é este sentimento que encontramos na fala de Laura Brown ao relatar a sua experiência. Ninguém está mais apto a lhe julgar, e sentimos uma certa comoção geral.

A lição que fica dsta cena é que não há vida ao se agradar somente os outros. Laura poderia viver uma vida dedicada aos filhos e ao seu marido, mas não é o que ela queria, então por que deveria ser assim? Por qual motivo ela deveria deixar de fazer aquilo que o seu ser ansiava? Quando passamos a viver uma vida que não é nossa apenas para agradar os outros, quando é que alguém passará a viver a sua própria vida de forma autêntica? Quando é que a vida passará a existir? Quando é que viveremos? Ao término do filme, observamos novamente a cena em que Virginia Woolf caminha adentro ao rio e comete o suícidio que entrou para a história como o fim da escritora. O dia termina. É o fim de “As Horas”. É por todos os argumentos citados neste texto que vale destacar “As Horas” como uma oportunidade de releitura da obra de Martin Heidegger, justamente por encontrarmos ingredientes que fazem parte da filosofia do ultimo grande filósofo de nosso tempo. E que esta obra nos sirva para refletirmos durante todos os momentos de nossa vida.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Link IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0274558/
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=he8cR7skklA

As Horas (The Hours). 2002. EUA. Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare. Nicole Kidman, Juliane Moore, Meryil Streep, Stephen Dillane, Miranda Richardson, George Loftus, Charley Ramm, Sophie Wyburd, Lyndsey Marshal, Linda Bassett, Christian Coulson, Michael Culkin, John C. Reilly, Jack Rovello, Toni Collette, Ed Harris. Baseado no livro de Michael Cunningham.

Laranja Mecânica (Clockwork Orange)

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Existem obras clássicas das mais variadas espécies em nossa vasta literatura: algumas focam o comportamento específico do homem como ele é, sob o ponto de vista antropológico, outras vezes o foco são as ações do intramundano e a influência direta nos atos das personagens – numa leitura filosófica. Ainda há obras cuja característica maior é o desenvolvimento das personagens complexas e ainda há outra espécie onde a veia artística apela para a sociedade como a única responsável pela formação do homem enquanto ser arremessado no mundo.

Existe, não obstante, um refinado e seleto grupo de histórias que conseguem mesclar um pouco de cada um dos elementos citados e se tornam os chamados clássicos. Laranja Mecânica (no original Clockwork Orange) é uma destas pinturas únicas que de tempos em tempos surgem para colocar pontos de interrogação em nossa mente.

Laranja Mecânica é frequentemente associado com outros dois clássicos igualmente importantes (por sinal, também escritores britânicos): 1984 – de George Orwell – e Admirável Mundo Novo – de Aldous Huxley. Juntos eles formam uma espécie de tríplice distópica pós revolução industrial, a qual as consequências do movimento geram críticas em forma de ficção científica, quase sempre com máquinas que tomam o lugar dos homens, alto consumo de produtos industrializados e um aparente bem estar como máscara de uma realidade caótica a qual não temos acesso devido a estes signos de condicionamento.

De fato, Laranja Mecânica não é somente uma leitura, mas uma provocação e um convite para imergir numa reflexão ilimitada, onde os diversos pontos inconclusivos de uma narrativa profunda permitem que textos, como este, possam ser criados a partir de um lado do prisma que até então não foi vislumbrado, ou então pelo olhar no mesmo texto através de uma nova ótica.

Temos Laranja Mecânica disponível em duas mídias de fácil acesso: o livro, de autoria do inglês Anthony Burgess, e o filme de 1971, dirigido pelo imortal cineasta Stanley Kubrick. O filme é extremamente fiel ao livro, com a exceção da reflexão final de Alex, personagem principal, que não está presente na película, mas que não altera em nada o contexto e a mensagem final (ainda que o filme termine de forma mais pessimista do que o livro).

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Quanto ao livro, quando Laranja Mecânica foi concebido, um falso prognóstico havia dado à Burgess somente mais um ano de vida. Temendo pela bem estar de sua família, o autor decidiu que naquele período escreveria 10 livros que pudessem render algum sustento para os seus. Ao término daquele ano Burgess havia escrito 5 livros e meio: o meio livro era Laranja Mecânica, que não havia sido finalizado não pela questão da história em si, mas porque Burgess queria imortalizar a sua obra.

Uma vez que a morte não veio, o autor pode finalizar o seu trabalho da forma que achou mais conveniente. Apaixonado pela linguagem, e influenciado expressamente pelo escritor irlândes James Joyce, Burgess pretende ir adiante de seu tempo e propor algo único: criar expressões e gírias que pudessem ser aplicadas ao tema central – gangues de adolescentes – sem que elas perdessem o valor ao longo dos anos.

Foi então que Burgess criou a nadsat – um vocabulário marginal que mescla palavras russas, eslavas, inglês e cockney (expressões utilizadas pelos trabalhados britânicos na época). A compreensão deste vocabulário exige a contextualização das palavras em torno do texto, o que aumenta ainda mais experiência imersa de um leitor desorientado arremessado na história. Um exemplo de uma fala de Alex – o protagonista:

“A rot do vekio estava cheia de krov(sangue) vermelho quando lhe demos um toltchock; tiramos as platis da devotchka e seus grudis eram horrorshow.”

Além disto, Burgess se preocupou com a semântica de seu texto e dividiu todo o livro em três partes de sete capítulos cada. Cada parte é perfeitamente distinguível das demais e contém, implicitamente, uma espécie de trilogia onde cada capítulo representa, metaforicamente, um ano de vida. Então somente ao final do livro, no capítulo 21, temos Alex atingindo a maturidade necessária para seguir adiante (21 capítulos representariam 21 anos).

O cenário é um “futuro próximo” numa Inglaterra caótica e acinzentada, onde um governo opressor domina e a segurança é inexistente por parte do descaso de seus líderes. Toda história é narrada em primeira pessoa por Alex, um adolescente problemático, que assim como muitos do seu tempo, participa de uma gangue como líder dos vândalos. Entre os prazeres sádicos de Alex estão a violência, acima de tudo, e as drogas que lhe colocam num outro plano da realidade. É através deste plano que observamos o desenrolar de toda a trama.

Alex e sua turma aterrorizam as ruas sombrias, onde a falta de ordem e segurança obrigam os seus moradores a se trancafiarem dentro de suas residências, a mercê do enunciado de seus televisores e do conforto proporcionado por seus móveis. E mesmo assim eles não estão a salvo, visto que gangues invadem casas e estupram mulheres por pura diversão.

orange_clockworkA primeira parte da história conta toda esta tragédia onde Alex impera como senhor do caos, onde o crime é cometido pelo prazer do sofrimento alheio. Numa sociedade que é má, esta juventude representa os frutos colhidos do abandono do homem pelo homem. Logo a sociedade opressora colhe os seus podres – figurado sobre o alto índice de violência exagerada e sem sentido de ser.

A segunda parte da história vai mostrar Alex sendo traído pelos membros de sua gangue e pego pela polícia sob acusação de assassinato. Em troca, recebe 14 anos atrás das grades como forma de punição. Entretanto, um tratamento psicológico experimental para reprimir as tendências violentas e os impulsos sexuais é oferecido como alternativa a pena que resta para cumprir, sendo que Alex aceita ser cobaia da experiência sem nem mesmo hesitar.

O que vemos, na sequência, é uma sessão de tortura psicológica e, consequentemente, física – devido ao desgaste do experimento: Alex é drogado e submetido à uma série de imagens violentas e sexuais, ao som de música erudita, numa poltrona onde ele nem mesmo pode piscar, devido aos ganchos presos em seus olhos. Cada sessão é acompanhada de muita dor e desespero por parte de Alex, que pouco a pouco não consegue nem mesmo pensar em violência ou ouvir música clássica, pois era o mesmo que repassar o tratamento.

Logo Alex não mais pensa nas maldades que lhe proporcionavam prazer anteriormente, ainda que seja agredido: o protagonista é considerado um caso de sucesso e toda a imprensa toma nota da eficiência de um tratamento que converte um marginal em um cidadão pronto para voltar à sociedade.

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Após esta lavagem cerebral, a terceira parte é iniciada com Alex recolocado na sociedade: logo ele será rejeitado por seus pais, espancado por aqueles que ele espancou antes de ser capturado, seus ex-colegas de gangue também se reencontram com ele e acabam por agredi-lo até que Alex, cansado, resolve pedir ajuda em uma casa qualquer. Lá ele é drogado e a pessoa que supostamente lhe ajudaria (que era marido da vítima a qual Alex fora condenado) coloca uma composição de Bethoven no ultimo volume. O protagonista, devido ao seu tratamento, não mais aguenta tanta tortura e se joga da janela.

Acaba por sobreviver e vai parar no hospital. Diante do fracasso de “cura” enquanto cidadão comum, a mídia começa a pressionar o governo, que oferece uma real cura para o protagonista: eles desfariam o bloqueio que reprimia Alex por seus pensamentos e até mesmo ofereciam um emprego com um alto salário. Porém Alex deveria preservar os interesses do governo fingindo que o tratamento havia funcionado.

Alex aceita e volta a sentir desejo sexual e vontade de praticar vandalismo, porém entra num dilema após ver um ex-membro de sua gangue casado, responsável e vivendo uma vida comum: será que valeria a pena ser um gangster ou viver uma vida justa? Afinal Alex havia crescido e agora era tempo de replanejar o seu caminho (esta reflexão final não está no filme).

A primeira reflexão sociológica que podemos iniciar reside no comportamento dos jovens que são maus enquanto convivem numa sociedade que é tão má quanto eles. De certa maneira, temos um efeito influente causado por um estilo de vida dominado pela mecanização de processos sociais, como aqueles provenientes da revolução industrial, que condenou todos os seres à uniformidade de comportamento. Desta maneira, visando sempre o lucro, a nova sociedade capitalista impõe um modo comum aos seus habitantes, cuja domesticação do ser impede que ele olhe para a sociedade e passe a enxergar apenas a si mesmo (conceito já explorado pelo filósofo Michel Foucault em outras ocasiões).

Desta maneira temos tantas pessoas preocupadas somente em viver suas vidas adornadas de tecnologia, como a televisão, que se esquecem da vida social e param de dar atenção à problemas que estão longe de seu campo de visão (como política, segurança e educação – pontos fundamentais de compreensão da narrativa). Desta forma, os jovens desamparados estão por sua própria conta, o que faz florescer um levante de gangues que apenas devolvem, de alguma maneira, o medo e a dor que a atual sociedade lhes ofereceram. Ou seja, as gangues e a juventude transviada nada mais representam do que uma abstração menor da sociedade como ela é na visão apocalíptica de Burguess.

Enquanto praticantes de atos violentos, Alex e sua turma existem para o mundo, onde em situação oposta eles simplesmente ficariam invisíveis ao sistema. No próprio modo distópico de pensar, o mundo é ruim e ignorar a violência tem resultados catastróficos, que traduz a linha “causa e consequência” ou “ação e reação” com enorme clareza.

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A segunda reflexão tem origem na segunda parte da história, quando Alex é submetido ao tratamento experimental sugerido pelo governo. A substituição da pena do protagonista não é tão diferente do que o ex-vândalo cometia enquanto perambulava pelas ruas inglesas: violência. Enquanto uma é física e ilegal, a outra é moral e respaldada pela lei. Foucault também já discursou sobre este assunto logo no primeiro capítulo de seu livro Vigiar e Punir: punir a violência com violência, punir o assassinato com assassinato, enfim, fazer o outro pagar na mesma moeda. Mas não estaríamos transgredindo a lei, uma vez que ela deveria ser universal, ao praticarmos estes atos? Sim, portanto vivemos numa sociedade de desiguais.

Não obstante, temos a questão do condicionamento por imagens, que são capazes de gerar sentimentos, opiniões e traçar direções para cada ser tomar como seu caminho. Entramos numa questão fundamental do livro, que é o nosso direito a liberdade. Uma vez que nosso comportamento pode ser moldado e mesmo a nossa essência pode ser transformada por imagens, perdemos o referencial. Ser livre se torna um estado utópico da condição humana. Numa época onde as imagens predominam cada um dos nossos lares através de televisores, nossa vida vai sendo ditada e nós vivemos como marionetes manipuladas.

O livre arbítrio deixa de ser uma opção e passamos a viver sem pensar, fazer sem medir e responder sem nos questionar. Esta mecanização do homem o faz um ser “tão bizarro quanto uma laranja mecânica” (expressão anglo-saxônica de onde o título do livro foi retirado). Parece-me razoável associar esta análise à invasão tecnológica presente em nossa vida.

Outro ponto de reflexão importante a ser observado pela sociologia é o resgate do homem selvagem em homem útil ao sistema, sem que a sociedade esteja disposta a acolhe-lo novamente. Este mesmo ponto já foi levantado pela psicologia – com Irvin D. Yalom – num ponto onde ele diagnosticou a recuperação de diversos pacientes, porém a desconfiança constante da família fazia com que o paciente entrasse em recaída, num momento onde, segundo as palavras do americano, “quem precisava de terapia era a família para aprender a aceitar que o seu parente estava curado“. Quando Alex sai da prisão não é diferente, assim como acontece nos dias de hoje: não há garantias para a sociedade que o acusado jamais voltará a cometer o mesmo erro, por isto notamos uma postura de discriminação massificada.

Por fim, Alex aprende o jogo das imagens e do interesse. Em pró de sua salvação, aceita um acordo do governo onde ele finge para as pessoas que está curado em benefício de um grupo privilegiado de comandantes. Logo ele entende que o mundo é composto de hipocrisia e maldade. E se é assim com Alex, que é um caso superficial em relação aos demais, imagine nos bastidores do poder? É bem provável que Burgess esteja nos oferecendo uma crítica aos controladores do sistema capital.

Se no livro temos uma semântica intransponível para as telas, Kubrick magistralmente pinta com cores sombrias algo que jamais veremos no livro. Ele não só manteve todo o dialeto nasdat: além da habilidade com sua câmera, o diretor introduziu uma trilha sonora (mescla entre música clássica e música de sintetizadores eletrônicos) de uma forma que deixou as tomadas ainda mais sombrias do que no texto original. Aposto todas as minhas fichas que a cena de abertura do filme é uma das mais memoráveis de todos os tempos.

Portanto não experimentar um pouco desta suculenta laranja mecânica é deixar de entender o mundo como ele é, a construção de um sistema totalitário, a liberdade aparente e o pensamento alienado à algo que não é mais você. Burgess nos oferece a oportunidade de caminhar entre trilhos sinuosos e a tomar uma postura crítica em relação ao mundo. Sendo assim, não percam por nada este clássico. Se você não leu ou viu o filme, faça isto até o final da próxima semana após ter lido esta breve análise e sejam bem-vindos ao mundo de Alex.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

LARANJA MECÂNICA. 1971. Reino Unido/EUA. Direção: Stanley Kubrick. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Warren Clarke, Michael Bates, John Clive, Adrienne Corri, Carl Duering, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley, Sheila Raynor. Gênero: Crime, Drama. Duração: 136 minutos. Baseado no livro de Anthony Burgess.

Adulthood

adulthoodEste filme é a continuação direta de Kidulthood. Seis anos se passaram desde aquele dia onde Trife foi assassinado por Sam. Agora eles já não são mais adolescentes, mas adultos que têm responsabilidades: Monny vai para a universidade estudar direito. Alisa cria sua filha, que nunca chegará a conhecer o pai. Jay se tornou um marginal respeitado na cena e Sam está para sair da cadeia.

Enquanto o primeiro filme mostrava os atos impensados de adolescentes rebeldes, no segundo temos as conseqüências. Talvez este seja o ponto central de toda história: que algumas coisas mudam, outras não, porém o que ficou para trás não tem volta. Sam, o personagem mais cruel do primeiro filme, ao sair da cadeia aprende a lição. Agora ele está sereno, não quer arrumar confusão com mais ninguém e pensa apenas em rever sua mãe e seu irmão pequeno. Mas mal ele dá com a cara na rua, alguém tenta assassiná-lo e na tentativa fracassada expõe que outros irão atrás de seus parentes.

Sam irá se perturbar com a ameaça e irá atrás das pessoas a qual ele faz mal no passado para esclarecer a situação: ele está arrependido e não pretende brigar com mais ninguém. Começa então uma jornada rumo aos acontecimentos de outrora, onde cada pessoa irá transmitir como ficou marcada, como isto influenciou em sua vida e como irá tratar o assassino de quem era muito querido por todos.

Jay quer se vingar a qualquer custo. Alisa apenas não deseja ver mais o agressor do pai de sua filha. Monny não deseja se envolver mais com a situação e acredita numa segunda chance. A mãe de Sam o olhar com desconfiança e mágoa. Seu irmão agora anda pelos caminhos que Sam trilhava no passado. Enfim, este é um filme que nos faz refletir acerca das escolhas que tomamos em nossa vida, onde uma vez feita não é possível mais mudar. O que resta são apenas novas escolhas, mas talvez jamais poderão remediar algo que foi feito no passado.

Quanto ao filme, este é bem melhor que o primeiro. Os atores são os mesmos, flashbacks são mostrados diversas vezes para enquadrar a primeira história na segunda e para mostrar a experiência de Sam na cadeia e o que fez que ele mudasse. O roteiro é muito bom e os atores também amadureceram um pouco mais. Enfim, não é uma pérola, mas é um excelente filme de reflexão. O problema é que se você não assistiu o primeiro corre sérios riscos de não conseguir acompanhar o segundo, visto que todos os fatos estão ligados. Portanto, não deixem de assistir o primeiro antes de mergulharem neste daqui.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

Adulthood. 2008. Reino Unido. Direção e Roteiro: Noel Clarke. Elenco. Gênero: Drama. Duração: 99 minutos.

Evil: Raízes do Mal (Ondskan)

evil-raizes-do-malHá um tempo atrás, fiz um comentário e uma análise a respeito de um filme intitulado Klass, que refazia o percurso do episódio conhecido o “Massacre de Columbine” e que justificava, do ponto-de-vista dos assassinos, que para atos extremos, atitudes extremas precisavam ser tomadas. Ao término do filme, uma sensação de angústia e perturbação toma conta de nosso ser, e nos leva à uma profunda reflexão.

Depois, tive a oportunidade de assistir um outro longa-metragem que segue uma linha semelhante, com uma temática bastante polêmica. Se trata do dinarmaquês Ondskan (que saiu no Brasil com o título “Evil – Raízes do Mal”).

A trama básica trata da história de um garoto problemático, que é expulso dos últimos colégios a qual foi aluno, e vai parar numa instituição de ensino tradicional (a única que o aceita, devido ao alto valor que custa o ingresso na mesma) onde somente os filhos de pessoas ricas e influentes estudam. Ele promete a sua mãe que irá terminar os seus estudos sem arrumar mais confusões, porém se defronta com diversas situações de injustiças e humilhações por parte dos alunos-monitores, que possuem o seu próprio código de regras (acima, até mesmo, das regras da instituição), onde ultrapassam os limites da ética e do bom-senso. Desta forma, o protagonista fica entre uma encruzilhada: cumprir a promessa que fez a sua mãe ou revidar os maus tratos?

Enfim, se trata de mais uma obra cinematográfica perturbadora e inquietante. É impossível não se sensibilizar com as atitudes extremas que são mostradas na película. O que mais incomoda é a forma que um colégio aparentemente correto e de tradição pode se mostrar indiferente ao vandalismo praticado por uma classe que podemos denominar como marginais de elite. Em parte, isto não é somente um filme, pois retrata fielmente como os filhos de homens poderosos passam invisíveis aos olhos da justiça, sendo que “os intocáveis” são a matéria-prima para palavras como “impunidade” poderem ser ditas e explicadas.

Temos inúmeros exemplos de como a lei não se aplica para as pessoas de imagem pública, empresários, políticos e influentes, basta que se procure no Google. Nos casos mais chocantes, eles acabam presos (em celas especiais) por pressão da mídia, e tão logo não se fale mais no assunto, eles voltam novamente para as ruas. É necessário a mídia investigue o paradeiro destes jovens, que teoricamente estão presos, o que eu duvido, como no caso dos assassinos do índio pataxó Galdino, que em 1997 foi incendiado por um grupo de jovens que hoje estão soltos e já foram flagrados bebendo em bares e se divertindo à noite, afinal um deles (Max Rogério Alves) é filho de um ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral – o TSE – o outro (Antônio Novelly Villanova) é filho de um juiz federal e por aí segue a roda da impunidade.

E o caso mais recente da empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, aquela que enquanto esperava o ônibus de casa foi brutalmente espancada por um grupo de jovens que alegaram que só fizeram isto “porque achavam que era uma prostituta” – ou seja, se ela realmente fosse então estaria tudo justificado! Um terceiro exemplo é aquele do caso do estudante, Caio Meneghetti Fleury, atropelou um frentista num posto de gasolina em Ribeirão Preto, e depois tentou fugir. Na época a “justiça” (sic) negou o pedido de prisão solicitado pela polícia cívil.

Enfim, estes são apenas alguns casos para aproximar melhor o enredo do filme com a nossa realidade, sendo que na prática a ficção se converge em mais um capítulo de nosso universo como ele é, com seus animais soltos numa selva urbana, onde a emoção e a insanidade falam mais alto do que a razão e a coerência.

Ondskan é um bom filme: chocante, pertubador, com uma série de elementos que nos fazem pensar por horas e ainda assim, com muita tristeza por dizer isto, não tem nada de novo. Obscuramente, é mais do mesmo por se tratar de coisas que acontecem por aí, num beco sem saída ou na luz do dia, onde, no fim, todos são vítimas de uma sociedade desestruturada que já não sabe mais conter os nossos impulsos e punir os verdadeiros criminosos.

Mesmo assim eu recomendo para não esquecer que, no fundo, todos somos animais selvagens. Como diria Nieztche “A diferença entre o homem e a égua é que a égua é mais feliz por não ficar pensando no passado e no futuro“, ou seja, de resto não há tantas diferenças assim. Salve Nieztche!

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

Evil: Raízes do Mal (Ondskan). 2003. Dinamarca. Direção: Mikael Häfström. Elenco. Gênero: Drama. Duração: 113 minutos.

Watchmen – O Filme

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Alan Moore, definitivamente, é um gênio da cultura pop dos ultimos tempos. Enigmaticamente, ele foi premiado com uma imaginação fantástica, detalhista e peculiar. Suas obras foram revolucionárias em seu campo de atuação principal, sendo que, assim como o Rei Midas, tudo o que ele toca vira ouro.

O Sr. Moore, figura excêntrica, fez história ao criar enredos complexos e inaugurar um novo genêro literário: o quadrinho adulto. Ele simplesmente inseriu o até então chamado gibi para um novo patamar, tornando quadrinhos em algo para pessoas cultas e com um vislumbre de arte a mais do que o convencional.

Foi assim com Do Inferno, A Fantástica Liga Extraordinária, V de Vingança e sua mais célebre obra: Watchmen, que segundo a revista Time está entre os 100 livros mais influentes na lingua inglesa. Todos sabem que Alan Moore têm sérios problemas com a indústria cinematográfica, nunca se envolve nas produções e recentemente pediu para seu nome ser excluído das duas ultimas adaptações de seus livros.

Deveras, afinal no V de Vingança ainda que tenha ficado muito bom, teve sua história reescrita com centenas de pontos alterados, não mantendo a fidelidade do ator. No caso de Watchmen a trama principal foi mantida a risca, inclusive os diálogos são exatamente os mesmos, porém as entrelinhas não aparecem no cinema, assim como as tramas paralelas que dão um frisson e uma dose extra de entretenimento e cultura para aqueles que leram a obra original.

Mas isto significa que Watchmen – The Movie ficou ruim? Muito pelo contrário, ficou excelente! As 2h30m foram bem aproveitadas pelo seu diretor, Zack Snyder, que é fascinado no tema (antes ele havia filmado 300, de Frank Miller, com grande maestria). Embora o final tenha sido levemente alterado, a ideia se manteve fiel a ambição proporcianada por Alan Moore.

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O problema é que Watchmen não foi escrito para o público em geral, então é possível que as pessoas não entendam o quão grandiosa é esta história. Uma grande parte sairá do cinema e irá dizer que gostou, porém o assunto se encerra ali, quando para aqueles que são mais entendidos o término da projeção será apenas o início de uma longa e intensa discussão.

Primeiro, é preciso conhecer e sentir como a guerra fria adentrou por entre a pele daqueles que viveram naquele período, o quão grande foi a tensão gerada naquela época e o quão apreensivas estavam as pessoas na probabilidade de uma ameaça nuclear.

Segundo, é preciso entender como seria um mundo onde realmente existissem vigilantes mascarados que combatessem o crime, sendo que eles não são perfeitos como nos contos de fadas, ao contrário, têm tantos defeitos como nós: medo, culpa, visão política, distúrbios, solidão, tendências sexuais, manias e outros.

Terceiro, quando Watchmen foi publicado o universo dos quadrinhos, com Batman, Superman, Homem-Aranha e Capitão América, era perfeito: eles agiam como seres corretos, num mundo ético, onde todos desejavam o bem e apenas os criminosos eram os responsáveis pelo caos. O universo dos quadrinhos era inocente e inofensivo -  não havia desemprego, estupros, protestos, nem um único mal daqueles que estamos acostumados a ver! Alan Moore colocou tudo isto de ponta-cabeça e a partir dali nada mais foi o mesmo!

Quarto, é preciso entender a situação política da época. Quem foi Nixon? O que foi a Guerra do Vietnã? Do que se trata o escândalo Watergate? Como e porque surgiu o movimento Hippie? Apenas sabendo o que é cada uma destas coisas poderemos notar como Watchmen é espetacular em cada cena transcrita e em cada diálogo entre seus personagens.

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Até mesmo a trilha sonora vai de acordo com a proposta da história. Canções como Desolation Row e “he Times They Are A-Changin’ do Bob Dylan e The Sound Of Silence do Simon & Garfunkel são exemplos perfeitos de músicas que complementam ainda mais a ambientação da obra enquanto filme. Nos quadrinhos mesmo temos diversas referências para canções da época, algo típico de Alan Moore, que une diversos elementos cults em seus textos.

No filme tudo funciona muito bem. Se há algo que eu não gostei, porém, foi que no cinema os mascarados são super-heróis poderosos, enquanto nos quadrinhos eles são pessoas como nós – com a exceção do Dr. Manhattan, que ganhou os seus poderes num acidente nuclear. Ou seja, todos os problemas humanos apresentados na trama são identificáveis por nós nos quadrinhos, enquanto no cinema eles estão um pouco mais distantes. De resto ficou tudo muito bom. Claro que não está tudo lá, porém vamos aguardar a versão do diretor, que terá uma hora a mais de duração do que a versão da telona.

Sobre o enredo, a história se inicia com o assassinato de Edwark Blake, um ex-mascarado conhecido como Comediante. Logo Rorschach, uma figura fantástica, com humor negro afinado, psicótico e perturbado, começa a investigar algo que ele desconfia ser uma espécie de conspiração. Por trás desta investigação ele começa a visitar cada um de seus ex-colegas e descobrir coisas que dão à entender que o plano é muito maior do que ele imaginava. Esta é a premissa básica.

Watchmen não é filme ou livro para ser apreciado uma única vez. Para pegar todos os detalhes, diversas leituras devem ser realizadas. O filme mesmo pede por isto, pois ele é muito mais do que parece numa primeira audiência.. Afinal uma obra que ganhou um prêmio Hugo e vários Eisners não é uma coisa qualquer. Lá nos detalhes temos uma vasta gama de easter eggs para decifrarmos, como aqueles deixados em Donnie Darko e no seriado Lost.

Apesar de você ter gostado ou não, uma coisa é certa: agradeça à Watchmen por filmes como Batman The Dark Night, pois foi ele que abriu as portas para que personagens aparentemente inofensivos ficassem complexos, quase sempre atormentados pelos mesmos demônios que nos atormentam.

Por: Evandro Venancio.  Blog: EvAnDrO vEnAnCiO

Watchmen – O Filme (Watchmen – The Movie). 2009. EUA. Direção: Zack Snyder. Roteiro: David Hayter e Alex Tse. Elenco: Malin Akerman (Laurie Jupiter / Silk Spectre II), Billy Crudup    (Dr. Manhattan / Jon Osterman), Matthew Goode (Adrian Veidt / Ozymandias), Jackie Earle Haley    (Walter Kovacs / Rorschach), Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake / The Comedian). Gênero: Aventura, Fantasia, SCI-FI. Duração: 163 minutos.

IMAX Fundo do Mar 3D (Deep Sea 3D)

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Creio que jamais me esquecerei daquele dia caótico, digno de uma cena do longa Independence Day. Era uma tarde ensolarada em São Paulo. Nada de garoa, nada de chuva ou tempo nublado. Tudo transcorria muito bem naquele dia. Para ficar registrado no livro de história do cinema brasileiro, é importante salientar a data e o local do acontecimento.

Sábado, 17 de Janeiro de 2009.
Shopping Bourbon Pompéia.
São Paulo, SP. 15:33h.

Este foi o dia em que decidi conhecer a primeira sala com a tecnologia IMAX no Brasil.

No percurso tudo normal. Dia bonito, sem trânsito (sim, nós paulistanos nos espantamos todas as vezes que não enfrentemos um congestionamento – e acreditem em mim: trânsito para o paulista não é enfrentar 5Km básicos de lentidão, isto é normal e acredito mesmo que até esteja enraizado em nossa cultura. Quando dizemos “trânsito” é algo que está para além da compreensão das cidades que não partilham desta catástrofe diária de nosso cotidiano). Quando entro no shopping logo encontro uma vaga! Everything is perfect like a dream!

Então me direciono tranquilamente e feliz até o andar onde estão localizados os cinemas do espaço Unibanco e a área de alimentação padrão dos shopping centers de todo o mundo. Tudo calmo e lento. Tenho vontade até mesmo de parar antes numa sorveteria e pedir algo antes de comprar o meu ingresso. Mas o instinto paulista diz para eu ter pressa antes que eu me dê mal e decido acelerar o passo até a bilheteria! E então…

… E então era o Caos! Uma fila maior do que para entrar no estádio do Morumbi para uma decisão de campeonato! A Madona teria inveja se visse a aglomeração de pessoas reunidas num espaço para assistir uma apresentação estática e projetada numa tela de cinema! Sim, caros amigos, estávamos todos quase que abraçados, dando ombradas para abrir caminho, sentindo a respiração de nossos colegas cinéfilos bem próximos de nós, todos reunidos para aquela projeção de entrada numa sala que até então só quem foi para fora do Brasil pode conferir antes! Todos pagando valiosos R$ 30,00 e esperando mais de 4 horas para ver um documentário de 41 minutos!

Você de casa pode pensar “quão ridículas criaturas” e só posso dizer algo: você tem razão! Vocês estão autorizados a chamar-nos de nerds, fanáticos, viciados, doentes e equivalentes! Se eu dou esta permissão é para me redimir de meus pecados, pois foi assim que amaldiçoei cada alma que estava ali, a minha frente, na fila! E não sei porque, mesmo uma funcionária avisando-nos que só havia ingresso para uma seção que começaria dali a quatro voltas do ponteiro maior do relógio, resolvi ficar.

Queria sair daquele desconforto, daquela fila sem fim, daquele episódio de histeria coletiva, mas não consegui. E não me perguntem porque, pois até agora não consegui encontrar a resposta. A verdade é que muito tempo depois, com o ingresso em mãos, fiz o papel de auto-manicure – ou melhor, os meus dentes o fizeram – pois já não havia mais unha para roer em pouco menos de 1 hora.

Mas, enfim, depois de um bom e doloroso tempo, chegou a minha vez que experimentar o cinema IMAX. Digo experimentar porque o filme que seria apresentado faz parte de um conglomerado denominado The IMAX Experience®, onde câmeras específicas para este tipo de sala são utilizadas nas filmagens para proporcionar uma experiência única e total nas salas com esta tecnologia.

Logo na entrada nos fornecem óculos 3D de alto padrão para acompanhar o documentário. Não são aqueles óculos sem vergonha de papelão, com uma lente verde e outra vermelha, mas óculos grandes, resistentes, de lentes grossas, mais decentes que o padrão que encontramos em outras salas de 3D por aí.

Ao entrar na sala tenho um sentimento estranho, quase que uma necessidade de reverência, como se eu tivesse encontrada com a versão carne-e-osso de Monalisa: diante de mim tenho uma tela de 21 metros de largura por 14 metros de altura. Gigante! Não há palavras para descrever. Só fiquei imaginando como os meus olhos poderiam acompanhar toda a extensão da projeção, visto que a tela ficava além do meu campo de visão. Vai do chão até o teto!
Ficava pensando “puxa vida, tem umas cadeiras lá na frente que irão ficar em frente a tela”. Sim, pois como a tela começa no chão, ao olharmos para abaixo veremos a primeira fileira de cadeiras na frente.

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Depois de certa estranheza, que venha o filme!

E ele começa dublado, como todas as outras projeções 3D, afinal como ler legendas de algo 3D? Imagine ter a impressão que uma letra A resolveu sair da frase e caminhar até acima de sua cabeça! Então é justificável, porém tivemos uma grande perda: na versão original, os narradores do documentário são nada mais nada menos do que o esquisitão Johnny Deep e Kate Winslet. Na versão tupiniquim os dubladores nem aparecem nos créditos, talvez porque se fossem expostos poderiam correr sério risco de vida, com tantos fanáticos no cinema.

A dublagem é aquela típica de documentários do Discovery Channel – urgh! – ou seja, sofrível em relação à qualidade dos programas e do conteúdo apresentado. Agora vem o principal desafio: como resenhar uma experiência? Não vou tentar falar do documentário, pois penso que ninguém se preocupou com o conteúdo, a não ser fazer uma bela montagem para ser exibida para o IMAX, ou seja, nada de novo, mais do mesmo, nada que Jacques Costeau já não tenha feito e com muito mais competência e sucesso.

Enfim, não dá para falar, pois a experiência é única: fomos arremessados para dentro do oceano. Estamos dentro do mar, porém sentados numa poltrona. O clima é de tanta calmaria dentro daquele azul sem fim que o ambiente zen chega a causar até mesmo uma certa sonolência, o que é bom, afinal todos os barulhos do mar foram transmitidos com o máximo de fidelidade. Sentimos cada balançar dos peixes, cada borbulha, cada onda. Portanto é uma experiência soberba. O som aliado a projeção 3D é algo único visto no cinema. As algas, os peixes e outros animais marítimos simplesmente saem da tela e vão até você!

As pessoas levantam suas mãos e tentam tocar as criaturas que não estão ali: a cena chega a ser hilária e divertida, porém não menos mágica:

Hello, people, it’s just a movie! Com licença, não tente pegar os peixes porque eles não existem!

É a magia da sétima arte que nos encanta novamente! Finalmente voltei a sentir prazer ao entrar novamente numa sala de cinema, afinal o modelo foi reinventado e parece ser uma tendência única: nunca vimos tantos filmes sendo produzidos especialmente para projeções em 3D!

Tudo tão belo e tão radiante que fica difícil explicar. Se as palavras podem dizer alguma coisa não podem ser quanto a história em si, mas somente para os inúmeros elogios que podemos tecer para a experiência. Sim, meus caros, o marca diz tudo: The IMAX Experience® veio para ficar!

Por: Evandro Venancio.  Blog: EvAnDrO vEnAnCiO

IMAX Fundo do Mar 3D (Deep Sea 3D). 2006. EUA. Direção: Howard Wall. Narração: Johnny Deep, Kate Winslet. Gênero: Documentário, Curta Metragem. Duração: 41 minutos.

Donnie Darko – Uma Análise

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Introdução

Donnie Darko não é apenas mais um filme. É uma daqueles películas que ficará por anos em sua mente, que possibilita uma série de discussões entre pessoas que analisaram a história. Inúmeras conclusões são possíveis. De certo, temos aqui mais uma pérola da sétima arte.

O que faz de Donnie Darko tão diferente do que já foi realizado para o cinema? Simplesmente não estamos diante do convencional. Ao contrário, temos algo único em mãos. Donnie Darko é uma espécie de jogo intelectual semelhante ao quebra-cabeças. Diversas peças são apresentadas e resta a quem está do outro lado da tela decifrar os enigmas que compõe o enredo.

Era de se esperar que logo após o lançamento do filme, tão logo ele despertaria a curiosidade do público cult. O que observamos foi um fenômeno interessante: uma série de debates entre inúmeros fóruns na internet para tentar explicar os acontecimentos no decorrer da história. O próprio diretor – Richard Kelly – lançou uma versão em DVD onde tenta explicar algumas coisas e dar novas dicas para os aficionados. No site oficial de Donnie Darko, temos alguns jogos que, teoricamente, resolvem alguns mistérios. Ademais, existem outros diversos sites especializados na tentativa de explicar o filme. Há poucos anos foi lançado um livro em 2003 e até mesmo uma FAQ (com diversas perguntas e respostas) para uma melhor compreensão.

Fora todos estes mistérios que envolvem a construção da história, Donnie Darko é uma bela crítica à sociedade-padrão, além de ser uma excelente metáfora do movimento existencialista.

São nestes dois pontos que iremos trabalhar a análise do filme. Diferentemente de outras obras que eu comentei, sugiro que antes de continuar a leitura você assista o filme, pois a experiência que você terá durante a exibição certamente será comprometida, visto que existem muitas possibilidades de compreensão e a idéia é justamente que você tire suas próprias conclusões para então debater, investigar, questionar e formular suas próprias teorias.

Dado o recado, quem ainda não assistiu e não quer saber a trama, que não leia os posts seguintes onde iremos tentar desvendar a vida de Donnie Darko a partir da perspectiva existencialista. Por termos em mãos um grande objeto de estudo, iremos quebrar este trabalho em diversas partes para não tornar a leitura cansativa. Vale recordar que este filme não permite uma única análise – o próprio ponto-de-vista do diretor é somente mais uma opinião acerca de sua criação e não pode ser considerada a única.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte II: A Preparação do Terreno: Existencialismo e Fenomenologia.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte III: A Família Perfeita.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte IV: Einstein e Alice no País das Maravilhas.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte V: Significação da Vida.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte VI: Olhar de Foucault: Instituições de Ensino e a Domesticação do Sujeito.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte VII: A aula com a perturbada professora Karen Pomeroy.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte VIII: O medo de enfrentar a vida.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte IX: O seu poder de mudar as coisas.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte X: Eles me obrigaram a fazer isto.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte XI: Smurfs, Complexo de Édipo e Desejos Sexuais.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

Donnie Darko. 2001. EUA. Direção e Roteiro: Richard Kelly. Elenco: Jake Gyllenhaal (Donnie Darko), Holmes Osborne (Eddie Darko), Maggie Gyllenhaal (Elizabeth Darko), Daveigh Chase (Samantha Darko), Mary McDonnell (Rose Darko), James Duval (Frank), Arthur Taxier (Dr. Fisher), Patrick Swayze (Jim Cunningham), David St. James (Bob Garland), Jazzie Mahannah (Joanie James), Jolene Purdy (Cherita Chen), Stuart Stone (Ronald Fisher), Jena Malone (Gretchen Ross), David Moreland (Diretor Cole), Noah Wyle (Prof. Kenneth Monnitoff), Drew Barrymore (Karen Pomeroy), Katharine Ross (Dra. Lilian Thurman). Gênero: Drama, Sci-Fi, Suspense. Duração: 113 minutos.

Good Bye Lenin!

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O filme se passa num período muito importante de nossa história e nem tão distante assim: a Alemanha está dividida em duas – Oriental, de política socialista, e Ocidental, de política capitalista. Cristiane é uma mulher que possui dois filhos pequenos e cujo marido é acusado de fugir para a Alemanha Ocidental. Chocada pelo fato, Cristiane chega a ter que ser internada numa instituição para se recuperar do baque, mas agora ela tem um novo motivo para viver: participar ativamente na sociedade socialista, de modo a contribuir para um mundo que siga esta orientação.

Os filhos de Cristiane, principalmente Alexander, que sofreram muito com o estado anterior da mãe, observam que a mesma está feliz e empolgada novamente. Porém estes são outros tempos e o regime de Lênin não é mais aprovado por todos, sendo que diversas manifestações populares surgem como um levante para derrocada da Alemanha Oriental. Numa destas manifestações está Alexander quando, num destes gracejos que a vida nos prega, sua mãe acaba por sair do taxi e se depara de frente com o filho. Resultado: um novo choque que lhe deixa em estado de coma.

Alexander, que se sente culpado pelo episódio, não sai do hospital e tenta reanimar a mãe de qualquer jeito, contra a expectativa de todos os médicos – que sugerem que o coma é irreversível. Enquanto o tempo passa, o Muro de Berlin cai e a Alemanha Oriental é anexada a Alemanha Ocidental, sendo que agora toda a Alemanha é capitalista. É neste momento que a Cristiane se recupera milagrosamente do coma, mas os médicos avisam: Desta vez, ela não pode ter mais nenhuma grande emoção, caso o contrário os danos serão para sempre.

Movido por recomendação, Alexander cria todo um mundo de mentiras para sua mãe: neste mundo, o socialismo prevaleceu e o capitalismo caiu. Para manter o disfarce, Alexander irá voltar com a decoração socialista de sua casa (donde Cristiane não pode sair, visto que ela ainda não pode andar), irá procurar por alimentos que já não existem no mundo atual, irá procurar antigos amigos para discursar para ela discursos falsos de saudação socialista e irá, até mesmo, pagar para que crianças vistam roupas da época que ela lecionava e para cantar hinos antigos.

No começo tudo funciona bem, porém Cristiane começa a desconfiar de certas coisas: um dia, uma bandeira da Coca-Cola é estendida bem em frente a sua janela. Para não chocar a mãe, Alexander começa a gravar noticiários falsos que explicam estas falhas: junto com um amigo viciado em cinema e meio artístico, eles editam fitas e criam todo um ambiente que faz com que este mundo falso se torne verdadeiro. No caso da Coca-Cola, por exemplo, é feita uma matéria que diz que a empresa agora é socialista e o que os capitalistas estão desesperados por estarem perdendo a força. Neste mundo criado por Alexander, o socialismo nunca este tão forte!

Conforme o filme passa, Cristiane cada vez mais fica desconfiada e Alexander cada vez mais precisa improvisar justificativas para os receios de sua mãe, uma socialista tão devota que não poderia suportar que haviam perdido uma batalha onde ela tinha lutado tanto.

De certo modo, o movimento que o filme faz lembra bastante o grandioso “A Vida É Bela”: uma história onde o protagonista precisa fazer malabares para esconder o que, de fato, há de real no mundo, visto que as vezes é tão difícil compreender certas coisas que alguém, num ato de paixão desesperada, acaba por preservar a mente de seu ente querido. Além disto, “Good bye, Lenin!” é uma história que retrata bem o intenso relacionamento de uma família e a dedicação extrema de um filho para manter sua mãe viva. Também é um filme sobre arrependimentos e sobre uma segunda chance de fazer tudo diferente.

Este, sobretudo, é um filme bonito e que deve ser apreciado por todos aqueles que gostam de uma boa história, não só porque é um registro de uma época importante em nossa história, mas porque ele vai na essência do homem e nos trás um pouco de esperança ao retratar seu espírito de reparo, ajuda e carisma. As vezes ver coisas assim nos deixam repletos de vontade para sermos somente bons, nada mais.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

In Bruges: Outra Pérola Existencialista

in-brugesDois assassinos ingleses, após um trabalho mal sucedido, são enviados à Bruges – cidade da Bélgica – para aguardarem novas instruções sobre como procederem. Esta é a trama básica desta comédia trágica. Todo o restante da história é o vislumbre da perspectiva dos criminosos em relação à pacata e paradisíaca Bruges.

De um lado temos o jovem e agitado Ray, interpretado por Colin Farrel, que odeia toda a monotonia da cidade, além de não enxergar nada de belo em seus pontos mais impressionantes. Do outro lado temos Ken, interpretado por Blendam Gleeson, homem mais velho, calmo e dotado de grande cultura que sabe como apreciar a beleza mais íntima de uma paisagem ou construção antiga.

É na complexidade dos personagens, assim como nas aventuras a qual são expostos e que demonstram o verdadeiro ser interior de cada um, que encontramos uma possibilidade de análise de um dos melhores lançamentos deste ano.

Contém SPOILERS. A partir deste ponto, irei retomar pontos importantes de compreensão do filme. Sendo assim, se você ainda não viu o filme, pare por aqui e assista primeiro.

Ray é um jovem perturbado. Logo no início do filme ele se encarrega de menosprezar a cidade e os seus turistas. Acha tudo um grande tédio e não vê possibilidade alguma de se divertir. Ao seu lado, Ken está encantado. Tenta demonstrar toda a magia do local para Ray, contando a história de cada local e a importância que a cidade teve no passado, porém Ray não se satisfaz, o que o deixa ainda mais inquieto.

Dado momento, os dois estão numa catedral e Ken, respeitosamente, diz que ali a história conta que num artefato temos o sangue de Cristo e que ele não poderia deixar de ir lá tocar o artefato. Depois de toda a explicação, visivelmente excitado por aquele momento, pergunta se Ray não quer ir com ele. Ray, indiferente, questiona se é obrigatório o toque no sangre de Cristo. Ken se irrita.

Isto demonstra que Ray é uma espécie de homem bruto. Está preocupado em beber e conquistar mulheres. Já Ken é o contraste disto tudo. Mesmo no hotel, ele nunca está sem um livro por perto.

Logo iremos saber que Ken e Ray, enquanto estavam na Inglaterra, participavam de um trabalho sujo sobre encomenda de seu chefe Harry – interpretado por Ralph Fiennes -, porém Ray matou, acidentalmente, um pequeno garoto que estava no local e recebeu uma bala perdida. Foi Harry que mandou os dois para Bruges até que ele resolvesse como iria acertas as coisas,

Uma das grandes aflições de Ray é justamente ter que conviver com o fantasma do garoto assassinado. Este duelo de sua consciência é algo extremamente belo. Ray não consegue deixar de pensar na morte do menino. Talvez este seja o motivo de tanta perturbação e inquietação. Ele quer fazer algo, mas não há mais o que fazer. Por isto mesmo ele chora constantemente, as vezes em silêncio, as vezes no ombro de Ken, que funciona como uma espécie de pai ao se comover com o sofrimento do jovem. Ken está sempre encobrindo suas trangressões e seus desvios. Sempre tentando lhe apoiar. Porém é muito difícil suportar a vida.

Até aqui temos dois pontos interessantes: 1) o garoto assassinado, que só entra na história para morrer; 2) o homem sujeito as tragédias do acaso e sua impotência diante da vida.

No primeiro caso, temos uma demonstração de quão absurda pode ser a vida. O garoto morre com uma bala perdida enquanto estava na catedral rezando por seu Deus, ou seja, diante da proteção Daquele que ele tem como mais seguro e confiável, na casa de seu Protetor. Homem algum espera ser acometido por uma fatalidade proveniente de uma força maligna num ambiente sacro de forças divinas. Por se tratar de um garoto, precisamos somar o fator da ingenuidade do ser em depositar todas as suas confidências num Ser que está num plano diferente do seu, que reside numa outra camada que é desconhecida para ele. E então acontece dele morrer, prematuramente, da forma mais inesperada possível. Podemos entender que neste caso não encontramos justiça no divino, como prega a maior parte das casas de fé.

No segundo caso, o homem está sujeito ao acaso. Ray não esperava matar uma criança, porém matou por ironia da vida. O absurdo consiste em ele tomar a culpa para si – ao invés de condenar a má sorte e o próprio conjunto de regras aleatórias da vida – graças a impossibilidade de desfazer algo que foi feito, ainda que de forma involuntária. O homem se sente desprezado, incapaz e impotente, pois nada depende de si, e sim da sorte.

Após alguns eventos, Harry liga para Ken e lhe relembra algumas regras, pois embora sejam assassinos, os criminosos também têm o seu próprio código de ética e moral: “Nós não matamos crianças. Você conhece a punição para aqueles que matam os pequeninos”. Harry ainda pergunta: “Você sabe se Ray está gostando da viagem? Pois gostaria de proporcionar um ultimo prazer a ele antes de morrer”.

Ken fica transtornado e não sabe exatamente como vai fazer o que lhe foi ordenado. Porém Harry tinha razão: regras foram feitas para serem cumpridas. Por isto ele até mesmo arquiteta um plano, porém na hora de executar ele não consegue: quando ele encontra Ray, o mesmo está com uma arma na cabeça, prestes a se suicidar. Ken consegue interromper a tempo, de tal modo que Ray chora bastante. Ele tem desejo de morrer, a vida não tem mais nenhum sentido.

Ken conta sobre o plano de Harry para matá-lo e sugere que ele fuja para outro país. Ele até embarca num trem para outro país, porém, por alguma razão, ele decide voltar a Bruges. Paralelamente, Ken liga para Harry e diz que ele não cumpriu a ordem, deixou Ray livre e disse que estaria esperando por ele na cidade. Harry, visivelmente irritado, na mesma hora embarca para Bruges para punir Ken.

Neste trecho, um ponto é intrigante: porque será que Ray resolveu voltar? Possivelmente ele não gostaria de viver como um foragido, numa outra cidade que ele nem mesmo conhecia. Para ele, era preferível a morte do que viver uma vida tão inautêntica, já que ele jamais iria poder voltar a Inglaterra, seu país natal. Além disto, seu único amigo esta em Bruges, além de uma nova paixão que talvez lhe desse uma razão para viver. Todavia, este estado que Ray alcançou não lhe causava mais nenhum medo e todos os riscos eram válidos.

Harry chega a cidade e logo encontra Ken. Este faz uma declaração apaixonada por tudo o que Harry fez por ele ao longo de sua vida, mas que ainda assim decidiu dar uma segunda chance para Ray, de modo que entregava a sua vida para o julgamento de Harry, que se emociona com o depoimento de Ken e apenas lhe dá um tiro na perna (para que o erro não passe despercebido). Porém logo chega a notícia que Ray está na cidade, então Ken tenta deter Harry. Mas, como se sabe, regras são regras e Ken acaba sendo assassinado justamente por tentar obstruir que Harry fosse até Ray.

Tão logo Harry encontra Ray, começa uma perseguição pelas ruas. Harry sai atirando em direção à Ray e acerta diversos disparos. Ao aproximar do corpo, percebe que também atingiu a cabeça de uma pessoa com o corpo pequenino. Ao obedecer o seu próprio código de ética e conduta, Harry se suicida com um tiro na cabeça em sinal de auto-punição. Porém, o que ele não sabe, é que o corpo não era de uma criança, e sim de um anão que passava por ali.

Mais pontos de discussão: Um anão, que não tinha nada a ver com nada, morreu de forma inesperada, assim como a criança que Ken havia assassinado; A lei é maior do que o próprio homem, por isto mesmo até o seu legislador é passível de punição; Harry se mata antes mesmo de saber quem ele havia matado. Se estivesse esperado um pouco mais, saberia que quem havia morrido não era uma criança, mas sim um homem. Ou seja, sofreu as consequências da ironia da vida, que dá risada de quão patético é o homem ao querer fazer as coisas certas.

Ao término do filme todos estão mortos. E qual é o sentido de tudo? Novamente todas as vidas não tem nenhum significado. O significado reside nas leis e nos objetos, que dizem como devemos viver e nos portar. Nós mesmos não temos opções, a não ser se sujeitar as regras deste jogo desonesto.

Quem assassina o roteiro e a direção desta pérola é o competente Martin McDonagh e como forma de demonstrar o quão desastrosa e inútil pode ser uma vida, In Brugues é um espetáculo imperdível! Confiram!

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Na Mira do Chefe (In Bruges). 2008. Inglaterra. Gênero: Comédia, Drama, Thriller. Duração: 107 minutos.

Uma Garota Dividida em Dois (La Fille coupée en deux)

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Este filme é o máximo! Não por sua sinopse, que é simples e já foi recontada infinitas vezes, mas pelo desenvolvimento das personagens e brilhante texto. Uma garota dividida em dois, do diretor Claude Chabrol, conta a história de uma linda jovem que trabalha na televisão como a mulher do tempo e que acaba por se apaixonar por um escritor famoso, casado e trinta anos mais velho do que ela. Paralelamente, um jovem milionário e de familia tradicional fica obcecado pela garota e utiliza de todas as artimanhas para tentar conquistá-la.

Dentro da simplicidade da história, temos personagens muito bem construídos que garantem certa profundidade ao telespectador que imerge num mar de questionamentos sobre o velho tema que mais aflige e atormenta a humanidade: o amor. Não o amor sereno, mas aquele que desperta os animais mais ferozes que convivem adormecidos em nosso interior. Não somente, mas paixão, que surge como uma doença estranho, onde prazer associa-se a dor e vice-versa.

Atenção: Contém SPOILERS. Se você não quer saber sobre como o filme desenrola, pare por aqui, visto que na análise abaixo temos coisas que podem comprometer a sua experiência.

Charles Saint-Denis é um escritor famoso e que vive longe dos grandes centros em imensa casa de campo. Já na terceira idade, não possui filhos, porém convive muito bem com sua esposa, a qual se declara mais apaixonado do que nunca. Possui um relacionamento estreito com sua editora, que lhe sugere aparecer em público para divulgar seu novo livro. Homem calmo, culto e inteligente, Saint-Denis se refugia em sua casa para fugir da loucura do mundo e procurar a paz necessária para se concentrar em escrever histórias.

Quando precisa sair para se apresentar ao mundo, percebe-se uma certa inquietação, o que caracteriza que gosta de viver num mundo solitário.

De modo geral, as pessoas gostam da figura serena de Saint-Denis, tanto é que forma-se fila para a tarde de autógrafos numa livraria regional, cuja proprietária é a mãe de…

Gabrielle Deneige. Esta é uma daquelas mulheres que esbanjam uma beleza natural. Sem precisar de grandes cuidados, encanta homens por onde passa. Trabalha na televisão, onde apresenta a previsão do tempo. Extremamente jovem, é admiradora de Saint-Denis e tem a felicidade de conhece-lo nesta tarde de autógrafos. Saint-Denis fica curioso pela garota, e percebendo que em suas poucas palavras ela parece lhe corresponder, faz um convite inusitado para Gabrielle, sendo que ela aceita sem ao menos hesitar. Neste interim, surge a figura de…

Paul Gaudens. Jovem, bem vestido, rebelde, rico e esnobe, logo se rivaliza com Saint-Denis. Lhe pede um autógrafo para logo jogar o livro em qualquer lugar. Se apaixona perdidamente por Gabrielle, de forma que está sempre por lhe chamar a atenção, oferecendo gentilezas, passeios e elogios. Acostumado a ter tudo o que sempre quis, vê em Gabrielle o seu principal alvo e desejar lhe conquistar a qualquer custo. Paul vive sob a sombra de seu pai, que foi um homem muito inteligente e que deixou todo um império para sua família.

De certa maneira, Paul é um pouco excêntrico e extravagante. Talvez porque seu irmão um ano mais velho tenha falecido brincando na banheira com ele, quando tinha apenas 3 anos de idade.
Introduzido as personagens o que temos é quase uma espécie de jogo: o playboy que se enxerga como dono no mundo em busca da menina bonita encantada pelo homem sábio e comprometido, que está tentado em ter um caso com ela, desde que a coisa fique por ali, visto que ele tem uma reputação a zelar e uma esposa a qual dedica o seu amor.

Visto que Gaudens faz tudo por Deneige e que Saint-Denis não faz por ela, e ainda assim é para Saint-Denis que Deneige oferece todo o seu amor, surge uma rivalidade e um ódio que irá ser ponto-chave no desenvolver da história. Afinal, como será que se apresenta a experiência do limitado para aquele que se define como um semi-deus?

É este inconformismo que alenta a obsessão de Gaudens pela garota do tempo. Depois que Saint-Denis utiliza – se assim podemos dizer – Gabrielle para satisfazer os seus desejos, deixa claro que não mais a deseja, o que faz com que ela fique tão inconformada quanto Paul. Até mesmo em clubes privados de sexo, a qual Saint-Denis é sócio, ela participa para agradar o seu amado. Ainda assim ela acaba por ser descartada e observa que era somente objeto de satisfação que alimenta os desejos do escritor.

Por fim, este sofrimento fará com que ela fique com Gaudens, não por gostar dele, mas como forma de auto-punição. Ele sabe disto e decide casar com ela. Talvez isto mude um pouco as coisas. Porém ela é fria, distante e embora Gaudens tenha o seu sonho concretizado, não consegue se sentir realizado com o coração de Gabrielle ainda pertencendo a Saint-Denis. Enfim, o que ele queria era ser amado, e isto jamais ele conseguiria de alguém que, definitivamente, não gosta dele.

Neste diálogo estabelecido entre as partes, a questão mais pertinente é: seria a paixão simplesmente vivenciar uma certa dor aventureira? Estas personagens não estariam neste estado justamente por vivenciar a possibilidade de algo impossível? Seria a mente humana uma geradora de fantasias onde o interesse é maior por aquilo que está mais distante do que pelo mundo terreno?

Não é difícil encontrar pessoas que vivem este tipo de situação e acabam por se entorpecer de tanta dor e angústia por algo que está além da compreensão.

O mais legal é saber que o cinema francês, que sempre foi um cinema conceituado e que estava em baixa até há pouco tempo, voltou a fazer filmes bons novamente, assim como Le Scanphandre et le Papillon, Coeurs e Les Chamsons D’amour.

Por: Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Uma Garota Dividida em Dois (La Fille coupée en deux). 2007. França. Direção: Claude Chabrol. Elenco: Ludivine Sagnier (Gabrielle Aurore Deneige), Benoît Magimel (Paul André Claude Gaudens), François Berléand (Charles Denis), Mathilda May (Capucine Jamet), Caroline Sihol (Geneviève Gaudens). Gênero: Drama, Suspense. Duração: 115 minutos.