M – O Vampiro de Dusseldorf (M)

m-o-vampiro-de-dusseldorf_1931“Dusseldorf passa por um momento crítico.  Assassinatos em série assustam os moradores da cidade. Meninas são abordadas, seviciadas e mortas por um homem que desafia a polícia. À busca de pistas, qualquer pessoa pode ser o procurado e, por vezes, inocentes são acusados. A polícia vasculha a cidade enquanto os mafiosos montam uma ‘tropa’ composta por mendigos e trapaceiros. O propósito é encontrar o assassino, antes da polícia. Assim, estariam livres para promover seus ‘negócios’. Um cego, vendedor de balões, tem contato com o assassino. Ele o reconhece através da melodia que o homem assobia. Alertado, um dos componentes da ‘tropa’ escreve com giz um M (Mörder= assassino) na palma da mão, marcando o facínora nas costas. Após uma grande perseguição, os mafiosos capturam o ‘vampiro’ e o submetem a julgamento. O assassino diz ser vítima de seus instintos. E quer que o entreguem à polícia. ‘São mais condescendentes’. A polícia invade o recinto e o salva da morte.” (Fonte.)

GENIAL!!!

fritz-langAqui Fritz Lang nos brinda com um dos raros exemplares de cinema que beira à perfeição!!!

Carregado de figuras sombrias, com uma fotografia que contrasta os sentimentos e intenções dos personagens, fala dos homens que chegam a monstros implacáveis, vivendo em ‘harmonia’ numa sociedade hipócrita e suja, onde, caso paremos para pensar, veremos que o que diferencia o bom do mal é o tipo de poder de que ele dispõe (lembram de ‘Os Infiltrados‘?)…

A cena dele caminhando pelas ruas escuras e assobiando é magistral, uma das mais belas que já vi.

Difícil falar desse filme, difícil mesmo. Por isso vou ser sucinto: Obra-prima!!!

Por: Luiz Carlos Freitas.

M – O Vampiro de Dusseldorf (M). 1931. Alemanha. Direção e Roteiro: Fritz Lang. Elenco: Peter Lorre, mais Cast. Gênero: Crime, Film-Noir, Policial, Suspense. Duração: 117 minutos.

O Leopardo (Il Gattopardo)

o-leopardoEm 1860, Garibaldi inicia o movimento de unificação de Itália. D. Fabrício (Burt Lancaster) é um aristocrata que tenta manter o anterior modo de vida, apesar dos tempos de mudança. Para ele, a ascensão da burguesia é uma ameaça. Mas numa manobra astuta, combina o casamento do seu sobrinho Tancredi (Alain Delon) com Angélica (Claudia Cardinale), filha de um rico e influente administrador de propriedades. Fiel aos seus valores, este aristocrata consegue assim manter acesa a chama do antigo regime.Tudo deve mudar para que tudo fique como está.’ (Giuseppe T. di Lampedusa)”

Não vi muito do Visconti, mas dos que conheço, esse, ‘O Leopardo‘ (Il Gattopardo) é o melhor. Um verdadeiro tratado sobre a decadência (tanto quanto de um homem quanto de uma classe) e a autoridade como uma busca pela compensação à fragilidade.

Tudo transpira genialidade aqui. A caracterização dos cenários e figurinos, a trilha… O plano inicial focando na mansão é belíssimo. A cena em que o empregado avisa que algo está acontecendo lá fora e todos permanecem calados esperando o personagem do Burt Lancaster terminar suas preces demonstra o respeito e a autoridade que ele impunha, mesmo que apenas como um escape para disfarçar sua insegurança, afinal os tempos mudavam e outra classe estava para assumir o poder.

Ele precisava lidar com isso e o sentimento de ‘Ninho Vazio‘, sentimento este cada vez mais profundo e externado na (genial) sequência do baile, quando ele dança com a jovem no baile e, mesmo galante, é rejeitado pela moça que o acha ‘velho’. Nessa hora, ele para diante de um espelho e pela primeira vez se vê velho… E chora! Uma das mais belas do filme ao lado da que ele permanece de pé com o olhar vidrado em um quadro que retratava um homem morto em sua cama (esse momento onde o personagem parece estar em transe demonstra a estreita relação dele com esse sentimento de uma morte próxima).

Aliás, as sequências do baile são o melhor do filme (ou não – é tanta coisa maravilhosa aqui). Carregada de sutilezas, impossível julgar com uma assistida apenas (eu só vi 3 vezes e considero muito pouco), sendo a maior delas o próprio baile, uma grande alegoria que à transição de uma classe dominante à outra.

No mais, cito o Alain Delon, carismático como sempre, carregando com perfeição no cinismo de seu personagem e um elenco de apoio sobre o qual não posso comentar mais a fundo por não conhecer bem, mas que se mostra muito bem no longa.

E algo que não pode deixar de ser dito…

Esse filme é uma das maiores provas de que o Oscar não pode ser considerado como referência de nada

Num dos anos mais vergonhosos de sua história, ‘As Aventuras de Tom Jones’ leva a estatueta de Melhor Filme, desbancando ‘A Conquista do Oeste’ do Ford e ‘Cleópatra’. E ‘O Leopardo’ nem mesmo indicação recebe.

É uma dessas que me faz ter (mais) orgulho do meu amado ‘Rocky‘.

Por: Luiz Carlos Freitas.

O Leopardo (Il Gattopardo). 1963. Itália. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Terence Hill, Giuliano Gemma, cast. Gênero: Drama, História, Romance, Guerra. Duração: 187 minutos.

Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans)

sunrise-a-song-of-two-humansUma história de degradação e elevação humana. Fazendeiro casado (George O`Brien) e com um filho pequeno se envolve com garota da cidade (Margaret Livigston) . Esta tenta convencê-lo a matar a mulher (Janet Gaynor) e fugir com ela para a cidade. No decorrer deste plano vil, várias reviravoltas acontecem e o homem tem que lidar com o imprevisível.”

Não sou profundo entendedor das ‘escolas’ (ou qualquer outro que seja o termo) cinematográficas.
Disso que chamam Expressionismo Alemão conheço pouco ou quase nada, tudo limitado a alguns posts lidos em fóruns de cinema e contra-capas de DVD’s.

De todos os (poucos) que vi, este aqui foi o que mais me arrebatou.

Vale ressaltar que Aurora é um filme de contrastes e paradoxos.

O contraste..
A forma como os ambientes são tratados: a cidade, como fonte da desgraça dos protagonistas e o campo como a representação da pureza e da felicidade.

O paradoxo..
No campo, vemos o marido tentando afogar sua esposa (logo no primeiro ato – a cena mais forte e tensa do filme) a mando da amante.. Uma cena pesada e que, ao mesmo tempo que cruel, revela o quão inocente e puro era aquele homem que se deixou levar pelos caprichos de sua amante.
Na cidade, ele brinca e se diverte no parque de diversões.. Mas aquela diversão não era real. O jogo de luzes e sombras deixa implícito algo soturno por trás daquilo tudo.
Simultaneamente à cada gargalhada do casal, era mostrado o marido pagando alguma coisa, evidenciando toda a artificialidade dali.

sunrise-a-song-of-two-humans_01Tecnicamente falando, somos brindados com uma fotografia espetacular, uma fantástica sobreposição de planos e o uso genial da mise-én-scene, além dos closes exagerados nos rostos com expressões caricatas mais exageradas ainda que conseguem resgatar do íntimo de seus personagens seus sentimentos mais profundos e nos passar com maestria, deixando-nos imersos à obra.

Além disso, há uma mistura de estilos que gera controvérsia. O drama e o romance contrastam com um suspense aterrador logo no começo que, em questão de minutos, subverte-se numa comicidade que chega a lembrar as comédias de Chaplin (vide a cena do porco no parque de diversões) e que, justamente por isso, fazem com que alguns críticos considerem o primeiro ato o mais importante do filme, que passa a perder seu ritmo na segunda parte.

sunrise-a-song-of-two-humans_02Eu já discordo. Tudo nesse filme é sublime. Há uma sensibilidade tamanha em cada plano mesmo ao mostrar o lado obscuro do homem. Na verdade, esse é outro dos paradoxos que mais me encantaram. Quantos filmes conseguem uma elipse do cruel ao belo em questão de minutos, culminando novamente no trágico sem destoar da harmonia em um único momento sequer?

Enfim, uma obra-prima que, apesar de separada de nossa época por quase um século, ainda mantém-se atual. E não digo isso somente por este ocupar o primeiro lugar do meu singelo TOP 100. Isse aqui vai além. Uma obra intensa que após vista e sentida, não te abandona nunca mais.

Por: Luiz Carlos Freitas.

Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans). 1927. EUA. Direção: F. W. Murnau. Elenco: George O`Brien, Margaret Livigston, Janet Gaynor. Gênero: Drama, Suspense.

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo)

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Um filme realmente “estranho”… Mas no melhor sentido que possa se atribuir à essa palavra. Ao mesmo tempo que é de uma poesia e beleza indescritíveis, tem um peso em alguns momentos insuportáveis. O filme é pessimista… E uma grande alegoria à sujeira humana por um conto de fadas.

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Aqui, o mestre Allen nos transporta à vida de Cecília (Mia Farrow), uma moça com um emprego de merda, um marido de merda, vivendo como pode num mundo de merda (em plena Grande Depressão) que tem como única diversão, ir todas as noites ao cinema assistir ao filme “A Rosa Púrpura do Cairo”, estrelado por Gil Sheperd (Jeff Daniels), que vive Tom Baxter, o homem dos seus sonhos.

Então, num belo dia após várias visitas ao cinema, Baxter, encantado pelos olhos de Cecilia, resolve (para espanto de todos) sair da tela do cinema e fugir com sua nova amada para viver o que há de melhor no mundo real.

À partir daí, a lógica deixa o roteiro.

Damos bastante risada com os inconvenientes da ‘fuga’ de Baxter, como o resto do elenco do filme desesperado sem poder dar continuidade ao filme, os demais Baxter’s querendo sair das telas em salas de exibição pelo resto do país, entre outras coisas. Mas isso é o de menos… Aqui, o foco está no choque entre a inocência e na realidade. A fuga de um personagem fictício para o mundo real, este achando que ‘aqui’ é onde se encontra a felicidade, onde tudo é belo e maravilhoso… E sendo guiado por alguém que justamente queria estar ‘do outro lado’, longe dessa realidade pesada, crua.

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Acompanhamos as aventuras do casal e as descobertas de Baxter sobre o nosso mundo. Mas o que mais encanta é como ele não se deixa corromper. Na cena do restaurante, ele tenta pagar um jantar caríssimo com dinheiro falso. Quando vê que não consegue, que seu ‘dinheiro cenográfico’ só vale em cena, eles fogem.

Em tese, ele deveria ficar ciente disso… Mas novamente, algumas cenas após, lá está ele dando o mesmo dinheiro a um mendigo, como se não lembrasse que de nada adiantaria. Essa persistência dele em querer manter-se ‘puro’ (mesmo que sem saber disso) que vai contrastar mais à frente, quando Sheperd (Jeff Daniels interpretando o ator que vive Baxter nas telas) conhece Cecília e ela se vê forçada à uma escolha. Sobre Sheperd… Ele é igual a Baxter… Fisicamente… E só!!!

Os diálogos entre ele e Cecília revelam que ele nada mais é que uma pessoa normal, um ator com certas ambições profissionais, que tem medo e receios, que conhece a vida e sabe o quão as coisas podem ser difíceis de verdade, ou seja, o total oposto de seu personagem. E isso, de certo modo, encanta Cecília. Ele não tem a magia do outro, mas era alguém real, que parecia com ela. Mas não há tempo para nada… Há o reencontro com Baxter e ele, num dos momentos mais mágicos e belos do filme, vai com ela para dentro do filme, onde pela primeira vez na vida, Cecília teve uma experiência digna dos maiores ídolos do cinema.

À volta, eis o ponto mais cruel do filme: Cecilia se encontra frente à uma escolha entre seus dois novos amores, entre a mágica e fantasia com os quais tanto sonhou e a segurança de uma realidade difícil, mas ainda assim real. E aqui, Allen se mostra sádico. A escolha seria fácil, em tese, afinal qual de nós pensaria duas vezes antes de cair de cabeça num mundo perfeito onde tudo é puro glamour? Mas ali estavam os pequenos detalhes entre os dois que aos poucos nos foram jogados na trama.

Na luta com Monk (Dany Aiello), marido de Cecilia, Tom não se machucou, pois por ser fictício, ele não sangrava, sentia dor ou “despenteava. Ele era virgem, nunca havia “feito amor”, pois nesses momentos, “a tela escurecia e a cena cortava”, o fade os consumia. Ele era impossibilitado de sentir qualquer prazer além dos que estavam no roteiro. Eram limitações com as quais Cecilia haveria de lidar.

Do outro lado, Sheperd, como dito antes, real, e por isso tão capaz quanto. Cecilia pensa e escolhe ir com ‘o real’… Mas pensa pouco! Por mais difícil que pudesse parecer essa escolha (e realmente era), ela não pensa muito. E, numa das cenas mais tocantes e pesadas do filme (e que me levou às lágrimas) ela profere a fala que resume o que Woody Allen quis dizer aqui:

- No seu mundo as coisas sempre acabam bem. Sou uma pessoa de verdade… Não importa o quanto eu me sinta tentada, devo escolher o mundo real.

A sua vida difícil num mundo de merda a havia ensinado que não tinha como melhorar… Ela se sentia condicionada àquele sofrimento e duvidava de tudo que não fosse a dor. A esperança era duvidosa. Tom volta ao seu ‘mundo’ e Cecilia se prepara para fugir com Sheperd para Hollywood, onde poderia ter o melhor de dois mundos, da fantasia do cinema e da segurança da realidade. Mas eis que Sheperd não está esperando por ela. Após terminada sua missão de fazer com que seu personagem retornasse ao filme, partiu no primeiro avião de volta ao ‘seu mundo’.

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Aqui, a crueldade desse conto de fadas… Cecilia abandonara sua casa em busca de um novo romance que não a esperou. Estava sozinha e completamente perdida. A única coisa que lhe restava era dinheiro suficiente para uma entrada no cinema… O filme não era o mesmo, um novo havia substituído o ‘problemático’, dessa vez um musical com Fred Astaire. Cecilia senta e começa a olhar pasma para o casal de protagonistas dançando… À medida que a cena se desenrola, vemos Sheperd no avião, com um olhar perdido e uma expressão de tristeza. O foco volta ao olhar admirado de Cecilia e os créditos sobem.

O filme nos leva a crer que, por mais que busquemos um refúgio em uma fantasia, sempre estamos presos à essa realidade assombrosa. Devemos buscar um equilíbrio que Cecilia não tinha. As sucessivas idas ao cinema para ver o mesmo filme demonstravam seu desespero em se agarrar à alguma coisa boa, pois esta sabia que ao término da exibição, ela voltaria a ser uma fraca submissa e que, justamente por isso, havia perdido a grande oportunidade de sua vida.

Num lance de gênio, Allen nos deixa a escolha de seus personagens. Ou alguém pode dizer com certeza se a expressão de tristeza no olhar de Sheperd era de dor por ter perdido um grande amor que acabar de surgir ou por simples remorso por ter usado da pureza de Cecilia? E o olhar admirado dela nos momentos finais do filme… Seria uma expressão de tristeza, de desgosto pela oportunidade perdida ou um novo encantamento que ali surgira com o novo ‘astro’ em cartaz? Isso cabe a nós decidir… Assim como o equilíbrio entre nossos sonhos e nossas possibilidades.

Realmente, é um final carregado de pessimismo e que, soaria um tanto quanto incoerente perante a mágica e beleza de toda a história. Mas não seria esse o castigo de Cecilia por não se arriscar? Tudo bem, o mundo pode parecer uma merda (e às vezes eu concordo que pareça – e seja), mas será que isso não é culpa nossa? Temos, sim, todo o direito de sonhar, assim como Cecilia sonhou. Mas será que, entre tantos direitos, devemos levar mesmo até os extremos o de sermos covardes como ela foi? Ou será que aquela covardia é algo ao qual estamos condicionados, algo do qual não se pode fugir e que nem deve ser chamado de covardia propriamente dita, apenas uma reação natural ao nosso mundo.

Isso (e me perdoem a expressão clichê que virá a seguir) é algo que somente cada um de nós pode dizer, afinal temos essa liberdade. O próprio Allen deixou isso claro, fez esse ‘balanço’ no roteiro, equilibrando a fala citada há pouco, extremamente pessimista, com um desfecho belíssimo e com um toque de esperança (e que também sempre me leva às lágrimas à cada vez que revejo – e há vezes que coloco o DVD somente para ver esse trechinho):

-Adorei cada minuto que passei com você e nunca vou esquecer daquela noite que passamos na cidade.
- Adeus!

E Baxter volta à tela… Cecilia sai com Sheperd rumo à sua escolha (que, como já sabemos, foi desastrosa), o resto do elenco vai à “festa no Copacabana”…
E Tom suspira.. E sai sozinho.

Por: Luiz Carlos Freitas.

A Rosa Púrpura do Cairo. (The Purple Rose of Cairo). 1985. EUA. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Mia Farrow (Cecilia), Jeff Daniels (Tom Baxter / Gil Sheperd), Danny Aiello (Monk), Irving Metzman (Administrador do cinema), Stephanie Farrow (Irmã da Cecilia), Edward Herrmann (Henry), John Wood (Jason), Deborah Rush (Rita), Van Johnson (Larry), Zoe Caldwell (Condessa), Eugene J. Anthony (Arturo), Karen Akers (Kitty Haynes), Annie Joe Edwards (Delilah), Milo O’Shea (Padre Donnelly), Camille Saviola (Olga), Juliana Donald (Usherette), Dianne West (Emma). Gênero: Comédia, Família, Romance. Duração: 81 minutos.

Nascido em 4 de Julho (Born on the Fourth of July)

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Um dos melhores do Oliver Stone (ainda acho que este fica no topo), se mostra com tudo para ser uma grande obra-prima até sua metade final, quando começa a se perder em alguns momentos.

A direção do Stone aqui é magnífica, uma das maiores do final dos 80′s, eu diria, destacando-se nas cenas de batalha (poucas, mas intensas), nas cenas do hospital dos veteranos e nos momentos finais, no confronto com os policiais. Ele nos mostra um talento único para dirigir figurantes.

Aliás, o filme é de uma crueza intensa. As cenas do campo de batalha no começo e os 20min passados no hospital parecem 2 horas. Eu confesso ter ficado um pouco chocado em alguns momentos.

Vale salientar que as cenas do hospital representam, particularmente, uma das mais bem elaboradas críticas ao Vietnam que um filme já mostrou, pois não cai na pieguice de ‘Olhem, inocentes estão morrendo por lá! A guerra é ruim para todos!, sim, mas mostra que quase sempre os que começaram o conflito acabam sendo dos mais afetados, no caso, os próprios americanos, que além de lutarem por uma causa perdida (a lavagem cerebral é notada já no começo do filme), sofrem com o descaso de um governo que pouco liga para eles e os considera tanto quanto, ou talvez bem menos, que aos próprios vietnamitas. Não que seja ignorado o mal feito ao ‘outro lado’, mas mostra que, pelo menos eles estavam se defendendo, que não escolheram sofrer, enquanto que os americanos estavam lá porque queriam e, numa analogia bem porca, ‘mandando seus filhos ao abate com um belo sorriso no rosto’.

Naquele tempo (e até ainda hoje), muitos defendiam a guerra pelo seu significado (aquilo de ‘mundo livre’ e bla, bla, bla…), tentando acobertar os efeitos negativos aos próprios americanos.
O filme tenta retratar isso.. Que muitos de seus jovens morriam em uma guerra ingrata, gratuita, além de mostrar os traumas (como a invalidez decorrente do personagem e os apertos passados no hospital e etc).

Vale destacar também que essa é a melhor atuação do Tom Cruise.. E eis o grande problema do filme: A MAIOR ATUAÇÃO DO TOM CRUISE é quase o mesmo que NADA!!!

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Os 15min que o Willen Dafoe permanece em cena desbancam as quase 2 horas e meia do Cruise em todo o longa. Ele apresentava a mesma expressão em cena para sorrir, chorar, gritar.. Seu únicos momentos dignos de elogios foram no prólogo, na cena do baile (linda demais a transição da fase da inocência à frieza de um já veterano de guerra ao som de ‘Moon river‘ – a música de ‘Bonequinha de Luxo’) e no ‘desabafo’ na casa dos pais (o que, mesmo assim não quer dizer muito por sua atuação, mas sim pela cena em si).

Mas isso não compromete.

Um grande filme que tinha tudo para ser MAIOR e que merece uma análise muito mais detalhada que farei logo que tiver mais tempo.

Por: Luiz Carlos Freitas.

Nascido em 4 de Julho (Born on the Fourth of July). 1989. EUA. Direção e Roteiro: Oliver Stone. Elenco: Tom Cruise, Kyra Sedwick, Seth Allen, Raymond J. Barry, Tom Sizemore, Willen Dafoe, Tom Berenger, Stephen Baldwin, William Baldwin, Oliver Stone. Gênero: Biografia, Drama, Guerra. Duração: 144 minutos. Baseado em livro de Ron Kovic.

Festim Diabólico (Rope. 1948)

Eis meu primeiro filme do Hitchcock. Tive o prazer de ser apresentado à sua obra com apenas 14 anos… E ainda acho que foi tarde. Nesse espetáculo, Hitchcock traz às telas uma das mais perfeitas representações do sadismo e da perversão do ego humano de sua carreira.

Aqui, o ‘mestre’ faz uso de breves tomadas alternadas em um único cenário e basicamente o mesmo ângulo de câmera que fazem com que as cenas pareçam ininterruptas, dando um vigoroso ar de teatralidade que só influiu para que o filme ficasse mais e mais grandioso a cada cena, pois sem grandes cenários não havia como encaixar longas e arrastadas seqüências de suspense, tampouco cenas de ação fantásticas. O único cenário deixava toda a ‘responsabilidade’ nas mãos dos atores.

Aliás, se tem algo de vigoroso além da direção que deva ser destacado são as atuações. O elenco, relativamente pequeno, faz-se menor ainda diante da dupla de assassinos e de seu desconfiado professor.

O obstinado Rupert, o egocêntrico Grandon e o assustado Philip rendem alguns dos mais tensos momentos que já presenciei nessa minha breve (mas não tão curta) vida de cinéfilo. Cada vez que alguém apenas dirigia o olhar ao baú onde estava o cadáver, a tensão aumentava e quando a Sra. Wilson levantou a tampa e quase entregou tudo, meu coração disparou (e não é fácil um filme despertar isso em mim).

Ao desenrolar da trama, os demais personagens saem e restam apenas os três principais.. E é aí que o filme embala rumo ao magistral. A tensão aumenta, o desespero de Philip procurando afogar sua culpa na bebida, o sadismo de Brandon mantendo-o firme até o último instante e a perseverança de Rupert tentando disfarçar seu medo por estar sozinho com dois psicopatas tão evidente no tremor de suas mãos.

Aliás, o filme pode ser apoiado sobre quatro pilastras: o baú, a mão de Brandon na arma em seu bolso, o olhar temeroso pelos próprios ombros de Rupert e as doses de Philip (a cada gole, seus trejeitos mudavam… Os olhos ficavam mais fundos e a angústia de sua culpa nos era mais e mais intensa).

E o final não poderia ser mais coerente com o espetáculo. A sutileza de um gênio passada pelas sirenes da polícia.

Enfim… Mais uma obra-prima (tantas, né?) de um dos maiores gênios do cinema. NOTA: 11,0.

Por: Luiz Carlos.

Festim Diabólico (Rope). 1948. EUA. Direção: Alfred Hitchcoock. Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger, Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan, Joan Chandler. Gênero: Crime, Drama, Thriller. Duração: 80 minutos.