Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)

Les-Glaneurs-et-la-Glaneuse_2000Por: Karenina Rostov.

agnes-varda_cineastaPara alguns são um monte de lixo, para mim, muitas possibilidades.”

Depois de assistir ao documentário “Os Respigadores e a Respigadora da cineasta Agnes Varda, começo meu parágrafo já concluindo que “respigar” é uma arte. Arte esta que designa um verbo, resultado de uma ação nobre, porém, nem tanto sob a lupa de parcela da sociedade que se dá ao luxo de julgar essa ação como repugnante e humilhante gerando até certo pré-conceito. É bem verdade que não é confortável ao ser humano testemunhar determinadas cenas do homem quando este, por exemplo, porta-se como um animal abandonado à própria sorte e ter que catar comida no lixo. A história me fez lembrar o poema “O Bicho“, de Manuel Bandeira:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Então volto a pensar na ação de respigar como arte porque, bem ou mal ela, há tempos, está representada através de várias pinturas famosas que embeleza paredes de museus pelo mundo, e alguns desses trabalhos são do pintor francês Jean-François Millet que evidencia em parte de suas obras cenas exóticas do cotidiano, integrando homem e natureza, como no consagrado quadro “The Gleaners”, ou “Os respigadores“, de 1857. Confesso que o verbo respigar não fazia parte do meu vocabulário, mas a ação embutida nela, sim, faz parte da minha vida, da sua, e de todo ser que respira, mesmo não sabendo seu significado literal, inconscientemente pratica-se essa ação. Acabei recorrendo ao dicionário para saber a definição exata da palavra e sua filologia, pois nem o meu editor de texto foi capaz de reconhecer. A propósito, Varda inicia a narrativa de “Les glaneurs et La glaneuse” a partir do conceito dicionarizado. Significado de Respigar: v.i. e v.t.d. Ação de apanhar no campo as espigas que aí ficaram após a colheita. Recolher, catar, rebuscar. Fig. Recolher daqui e dacolá o que outros disseram ou fizeram; compilar, coligir: respigar frases célebres.

os-catadores-e-eu_2000Então respigar designa ação de apanhar espigas que sobraram da colheita… faz sentido! Soa esquisito até conjugar o verbo, não? Eu respigo, tu respigas ele respiga… A novidade aqui é questão vocabular. Às vezes temos conhecimento de atos e atitudes que ficam adormecidas dentro da gente e é preciso a ação de alguém para que o mundo tome conhecimento ou fazer com que desperte em nós esse lado adormecido. Catar comida, ou coisas que ninguém mais quer, rebuscar ações, recolher frases, pensamentos, pegar alimentos e objetos abandonados por aí…isso tudo é respigar.

Muitas histórias nunca serão contadas em livros, filmes, rodas de conversas, recitadas ou cantadas; mas esta história, sim, era mesmo para ganhar vida e para a alegria do cinéfilo, nessa linguagem, quadro a quadro, registrados em cada fotograma com direito a narração, direção, roteiro, produção, enquadramentos, edições, trilha sonora, risos, lágrimas, respiração, cabelos brancos, mãos enrugadas, experiência de vida, enfim, para que o espectador nela se identificasse, uma história que o mundo inteiro deve conhecer para se conscientizar de ações como essas tão ambíguas, mensagens da mãe natureza ao homem alertando que se depender dela, jamais faltará alimento para o mundo porque a Terra fértil produz sempre além de sua capacidade, só que o homem por não dar crédito à sua inteligência não reconhece a boa vontade Dela, da natureza e, por isso, desperdiça.

Os-Catadores-e-Eu_2000_00O alimento não colhido é benção para a própria terra que, com certeza, agradece porque ganhará em adubo para novas plantações. E assim todo ciclo da vida se renova, desde a minhoca até o pássaro. E não é a toa que a escolhida para contar essa história fosse alguém especial, com a sensibilidade apurada, capaz de ver o lado bom da vida mais que outros, alguém sensível, experiente, com lembranças interessantes capaz de traçar comparações algo do tipo quem precisa ser compartilhado, comparando um respigador que faz apenas por diversão com outro que faz por necessidade.

A história narrada por Agnes Varda é crua, seria como dizer o lado bizarro da vida, cenas que o mundo varreria para debaixo do tapete, enxergando como grotesca porque lixo ninguém quer dentro de casa, e para muitos a cena dantesca chega a chocar quem dela se farta. E a diretora seguiu adiante nesse seu projeto de cair na estrada para rebuscar o que o mundo tem para oferecer, do grotesco ao sublime tudo que conseguiu capturar em sua câmera na viagem pelas estradas da França, e ainda dando carona a quem mais tivesse interesse de registrar com ela imagens, e ações aparentemente corriqueiras ou aquelas que ficarão para a eternidade retidas na memória como algumas emoções, sentimentos, depoimentos e outras descobertas nessa ação de respigar.

the-gleaners_by-jean-francois-milletEla encontrou na sua respigação, um mestre na arte de ensinar o estudo da vida, um professor de Biologia desempregado vendedor de jornais nas ruas e que rebusca alimentos largados nas feiras livres e nas lixeiras, e esse moço, um sábio, o pão deixado para ele nas lixeiras, é retribuído por ele ao dar aulas aos menos favorecidos. E a vida é um ciclo de troca, todo mundo acaba, sem querer, rebuscando. Uma ação bonita e louvável da parte dele. Nessa sua jornada, Agnes encontrou também alguém na arte de respigar imagens através de sua própria invenção a la Irmãos Lumiere. A diretora teve sorte em suas buscas e garimpagens.

Acabou me fascinado com essa história toda e nos apontando saídas da vida ou para ela na arte de respigar, exatamente como na pintura “As Respigadoras” de Millet. E a diretora também respigou na sua viagem ao Japão coisas fascinantes e estranhas e guardou algumas delas na bagagem além das lembranças do passeio e outras curiosidades que pode carregar.

São as coisas que recolho ao longo do tempo que resumem as viagens que faço… da viagem ao Japão trouxe na bagagem coisas que respiguei.

Os-Catadores-e-Eu_2000_01Esta história ganhou vida não para ser um mero entretenimento, mas para que muitos se conscientizem do que acontece com o Mundo. Tanta coisa que é deixada para trás nas grandes colheitas pela França, (só lá?) nas plantações de batatas, na colheita de maçãs e outras frutas, e tudo que é deixado pelo caminho, aquilo que não foi colhido por algum motivo, não é descartado por muita gente, felizmente é aproveitado e vai-se atrás para catá-las o que é permitido naquele país. Das coisas que são descartadas também no final das feiras, os tomates amassados e as folhas das verduras que murcharam que ninguém vai querer comprar.

Alimentos vencidos que muitos deixam apodrecer na geladeira e acabam servindo aos menos favorecidos. Pães e bolos que as padarias jogam fora sempre terá alguém que vai precisar e querer. Além disso, há o descarte de objetos de todo tipo que são deixados nas ruas quando não se quer mais. E essas coisas ganharão um novo dono e nova utilidade. Uma repaginada do lavou, tá novo!

É um exercício de reflexão sobre o desperdício de alimento principalmente de tudo que é plantado, há mais desperdício do que aproveito. Um século crítico que não dá mais para o mundo se dar ao luxo de descartar alimento.

A diretora é uma respigadora e tanto, capaz de rebuscar muito daquilo que os outros não querem ver nem fazer, e que abandonam despudoradamente nas esquinas da vida. A história é retratada em grandes pinturas realistas, a lição é antiga, mas até hoje o homem não aprendeu a fazer direito o dever de casa. Nós somos os respigadores, ela, Varda, a respigadora. Só posso agradecer por este belo filme fazer parte da minha respigação. Todos nós respigamos de alguma forma as formas de ver o mundo. Hoje eu chamaria de garimpar.

Agnes Varda é mesmo um anjo por nos ter permitido fazer parte de sua viagem.

Por: (E.B.) Karenina Rostov.

Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Nota: (*¹) De quando o Documentário saiu num Festival, veio com o título de “Os Respigadores e a Respigadora”. Já passando para o circuito comercial, ganhou o título de: “Os Catadores e Eu”.

Diplomacia (2014). Uma Aula Compacta de História Geral.

diplomacia_2014_cartazDiplomacia não é simplesmente um filme, é uma aula compacta de história geral que nos leva a conhecer um pouco mais de fatos que chocaram a humanidade, de detalhes que aconteceram nos bastidores da segunda guerra mundial que os livros didáticos não contaram e que o mundo não faz mesmo questão de lembrar. E para narrar a história aqui apresentada o autor foi generoso e ‘diplomático’, preferiu o formato mais suave da linguagem, escolhendo a ferramenta poética, talvez para abrandar o tema guerra, destruição e morte, assuntos bem difíceis de se digerir. E a gente não precisa de muito esforço para entender a história, tudo está fácil, a começar pelo o título “Diplomacia” que significa arte e prática de conduzir as relações exteriores ou os negócios estrangeiros de um determinado Estado ou organização internacional e que envolve assuntos de guerra e paz numa forma de abrandar a dor de quem testemunhou aquele período de intolerância.

ParisEntre tantas coisas absurdas que aconteceram na segunda guerra mundial, desde a perseguição aos judeus, os campos de concentração, a mais estranha foi a de Hitler ter ordenado seu exército alemão a destruir Paris. Seu objetivo era ver a cidade em ruínas. E essa tentativa de destruição aconteceu mais de uma vez. A capital da França ficou bastante tempo convivendo com a ocupação do exército alemão, e todas as tentativas de varrer a cidade do mapa foram em vão. Todos os seus súditos, por alguma razão, não o obedeceram, até que apareceu um diplomata que nem francês nato era e que acabou mudando para melhor o rumo dessa história. Graças a ele, o mundo hoje pode conhecer o Museu do Louvre e a Torre Eiffel, entre outros pontos turísticos.

Este filme é baseado na obra adaptada para o teatro pelo francês Cyril Gelly, que por sua vez se baseou em fatos reais, por isso, talvez, o diretor Volker Schlöndorff ao contar este fato histórico, ele inicia usando filmes em P&B originais, documentos esses como forma de reconhecimento de área para se entrar no clima e o público poder se situar no enredo que começa a ganhar forma, e assim valorizar mais a História que o parisiense para sempre se lembrará. E a outra parte o diretor alterna contando em Technicolor numa Paris com tanques de guerra por toda cidade, civis convivendo com o exército de Hitler e sua bandeira, o medo que impera ao toque de recolher sendo minimizada apenas pelo sossego do rio Sena e nessa parte agora que é a paz reinando pelo próprio cenário, entre atores, maquiagem e pela direção que é dez.

diplomacia_2014_01E como toda obra teatral, o detalhe que separa atores do público é o palco, e por último o abrir e fechar de cortinas, o grande teatro desta comédia humana aconteceu no famoso Hotel Maurice e seus protagonistas foram Dietrich von Cholitz (Niels Arestrup), o general alemão que comandou em Paris na época da ocupação durante a Segunda Guerra, e o cônsul-geral Raoul Nordling (André Dussollier), eles se duelando em palavras num discurso racional parecendo não ter fim na qual o diplomata tenta convencer o general a não destruir Paris, plano este arquitetado pelo seu líder nazista o Senhor Hitler.

E todo o desenrolar da história é isso o que acontece; são uns cem minutos nesse estresse entre esses dois personagens lutando com palavras, e arma usada era a retórica de olhares, socos na consciência, caras e bocas e tentativas de convencimento de que quando um não quer, dois não brigam. E o representante do governo alemão acabou se convencendo disso. E sua missão de apertar o botão que destruiria a Cidade-Luz não se concretizou, graças ao Raoul Nordling que deu o melhor de si nessa missão.

E o mundo hoje até concordaria que o general poderia sim apertar não um, mas todos os botões e interruptores de Paris para deixá-la mais, muito mais linda e iluminada do que Ela já é.
E.B.

Diplomacia (Diplomatie. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

MOmmy (2014). Se ser mãe é padecer no paraíso…

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xavier-dolan_cineastaO longa do diretor Xavier Dolan trata, neste novo argumento, também de juventude transviada, e já começa avisando: “Esta é uma obra de ficção”, e eu continuo: Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. É bem verdade, a trama é de fato uma obra de ficção e se passa no Canadá onde uma lei permite que pais, que tem algum filho com o comportamento problemático, o próprio país se encarrega de interná-lo em um hospital psiquiátrico e tratá-lo.

mommy_2014_02E logo na apresentação das personagens o diretor exibe ela, Diane ou Die, no jardim do Éden, colhendo o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Sabe-se que ela está viúva e tem um filho ‘aborrecente’ de quinze anos. O narrador foi maldosamente perspicaz ao utilizar-se de uma metáfora contundente para mostrar o caminho da interpretação que ele quer dar a esta história. E como toda historia é uma viagem, prepare a bagagem e o passaporte!

mommy_2014_01Na verdade o jovem Steve sofre de DDA, ou Distúrbio de déficit de Atenção. Quem é professor sabe bem o que é isso, pois quando se depara com determinada situação, é um deus nos acuda, ter em uma turma de 40 alunos, por exemplo, e um que sofra desse mal, dessa disfunção neurológica, dar aula torna-se impraticável, e o mestre, além de ter que se desdobrar em pelo menos uns dez, tem que ser bem criativo.

E aqui me fez lembrar o ditado: “Ser mãe é padecer no paraíso”, pois a personagem que tem um filho diagnosticado com DDA, difícil de ser tratado, terá que conviver para sempre com problemas e consequências que esse transtorno de muitos sintomas herdado geneticamente, será capaz de ser paciente, talvez abandonar o emprego, abrir mão de outros laços afetivos e também do lazer. Enfim, cada um com a sua cruz…e se alguém for capaz de dizer a essa pobre senhora: – Está com pena, talvez seja capaz de ouvir como resposta algo que não queira do tipo: “- Se está, leve para casa!”. Lamentável, porque até a mãe é meio desregrada. Ou não?

Bem o filme foi super elogiado pela crítica, levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, mas não sei, não conseguiu me seduzir, peço desculpas. E Cannes também pode se enganar, ou por isso o prêmio ficou pela metade e a outra parte foi para o “Adeus à Linguagem” de Jean-Luc Godard.

Não senti firmeza na atuação do ator, Antoine-Oliver Pilon achei meio apelativo, e ele me transmitia certa insegurança e parecia não estar tão à vontade no papel escrito para viver o adolescente problemático.

mommy_2014_03E para quem ainda não assistiu, atente à personagem de Suzanne Clément como Kyla, a vizinha, super prestativa que ajuda ambos, a mãe e o filho, e perguntas surgem sobre a sua vida e como seu destino pode estar ligado a Die e Steve. E Kyla que na história tem dificuldade com a fala, e toda a explicação básica, fatos e acontecimento em torno dessa misteriosa pessoa é revelado aos poucos no decorrer da narrativa.

Confesso que me identifiquei mais com a história dela, desta personagem, gostei! Fica como sugestão ao roteirista que crie uma história tendo ela como protagonista.

Ah! Esqueci um detalhe: o que mesmo significa PADECER?
E.B.

O Capital (Le Capital. 2012)

o capital_2012Costa-Gavras consegue magistralmente fazer uma releitura light das ideologias amareladas pelo tempo de “O Capital” de Karl Marx, numa forma brilhante e bem humorada, impossível de não se aplaudir. Essa mesma história tão sonhada por Seguei Eisenstein e idealizada numa megaprodução pelo alemão Alexander Kluge com aproximadamente nove horas e meia, uau, certamente já é um clássico e confesso, tenho muita curiosidade de em algum momento, quem sabe, deleitar-me dessa preciosidade acompanhada do descompromisso diário da labuta e talvez pausa apenas para um café.

Pelos ideais filosóficos do capitalismo, desde que o mundo é mundo, o dinheiro é a própria religião, fala mais alto, é porta-voz da humanidade, manda quem TEM. Tudo é possível com ele comprar, tudo pode desde o luxo, beleza, prazer e o próprio status.

Capital e Poder quase sempre caminham juntos. Para quem tem, portas são abertas com mais facilidade. Compra-se até a liberdade e amigos.

E “O Capital” do século XXI, mesmo Costa-Gravas pegando leve, mostrando um lado humano menos materialista, mas não tão diferente: o cidadão continua escravo do capital; sabe-se que ele nasce bom, até que lhe é dado um pouquinho de poder capaz de transformá-lo em Robin Hood que tira dos POBRES para dar aos RICOS, numa odisseia ilusória que parece não ter fim. E paralelamente a essa história, entra em cena a profissão rotulada como a mais antiga do mundo sob a fantasia de uma bela modelo tentando a qualquer custo “comprar” ou quem sabe, “vender” momentos felizes na sonhada companhia do poderoso chefe de um importante banco também num jogo de sedução perguntando ao espectador quem afinal é a prostituta? Ele? Ela? E quem afinal acaba pagando para devorar quem? Em um mundo consumista leva vantagem o voyeur.

O filme tem ótimas sacadas nas entrelinhas. Convidativo como só Konstantinos mesmo fazer seu público merecer essa joia rara de presente. O Capital é uma ilusão. Bravo!
E.B.

Livro: Depois do Baile (Leon Tolstoi. 1903)

Moscovo I – Wassily Kandinky, 1916, óleo sobre tela

Mazurka é o nome de uma dança tradicional de origem polaca, feita por pares, formando figuras e desenhos diferentes. Certas coisas são fáceis de se compreender e outras não devido à sua complexidade. Há anos atrás, li um conto que, de certa forma, mexeu com o meu emocional. Aconteceu comigo como aquela brincadeira que fazemos com as palavras ao dizer “entendi, mas não compreendi”, mas contando aqui talvez você compreenda.

A vida é feita de pólos divergentes. Antíteses e paradoxos.

Tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Um conto de Tolstoi. Fiquei anos com a história martelando dentro de mim… e de repente, como acontece com certos sonhos que vira e mexe se repete, voltei a me lembrar… É uma história de amor à primeira vista do jovem Ivan pela encantadora Várenka. Foi um encontro casual num baile e ambos dançaram juntos a mazurka praticamente a noite toda. Ele se encantou pela moça e a descrevia sempre como linda e deslumbrante; a jovem tinha uns dezoito anos na época e era o centro das atenções. O seu sentimento por ela era correspondido. Ele chegou a conhecer inclusive, o seu pai também naquela mesma noite.

De fato, tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Ivan viu a sua vida inteira se resumir naquele único dia; toda ela foi radicalmente transformada por aquela infinita e inesquecível madrugada em que ele conheceu o BEM e o MAL. A partir daí sua vida nunca mais foi a mesma.

Assim como eu me lembrei dessa história, aconteceu com Ivan. Depois de muitos anos ele relembrou aquele dia e contou para os seus amigos. Contou que Várenka se casou, teve filhos e mesmo estando numa idade avançada, ele a admirava, e a achava linda e simpática. Passagem da vida de Ivan que modificou o seu modo de pensar. Depois de anos ele repensou seus valores. Concordo que certas experiências são universais, capazes de modificar a condição humana individual.

E a medida que ele ia contando aos amigos esse fato, as suas lembranças daquele dia e pensamentos afloravam. Ivan contou que conheceu o pai da jovem também naquele baile. Ele era um militar do exército. O coronel se retirou mais cedo do baile deixando a sua filha ficar um pouco mais naquela festa, talvez até o fim. A noite foi esplêndida para Ivan. Viu-se perdidamente enamorado pela jovem. Foi o dia mais feliz de sua vida.Trocaram olhares e e-mails. Este último é por minha conta.

Como acontece com o conteúdo de uma garrafa que, após a primeira gota vertida, começa a fluir em grandes jatos, também na minha alma o amor por Várenka liberou toda a capacidade de amar que se ocultava no meu íntimo.”

A felicidade de Ivan durou pouco. Ao partir, foi testemunha de algo desagradável que aconteceu no caminho. Ele, DEPOIS DO BAILE, ouvia outro tipo de música que era do tipo áspera, desagradável e maldosa acompanhado ao som de flauta. Eram soldados castigando um tártaro por tentativa de fuga. O tártaro foi maltratado de inúmeras formas, espancado, surrado e arrastado por aqueles militares que apenas cumpriam ordens vindas de seu superior e numa procissão pelas ruas cobertas de neve tudo sob o comando do coronel, pai de Várenka.

Ivan teve em uma única noite a melhor e a pior experiência de sua vida. Conheceu o Amor (bem) e a Dor (mal) no mesmo dia. As pessoas sabem de coisas que não sabemos. Foi exatamente isso que Ivan pensou do coronel.

Se eu soubesse o que ele sabe, talvez eu o compreendesse, e aquilo que eu vi, não me atormentaria assim.”

E por causa dessa noite, Ivan nunca mais foi o mesmo; sua vida inteira foi transformada por esse dia. E ele próprio chegou à conclusão que não prestou para nada. É claro e lógico que ele contando isso aos amigos, eles, evidentemente, não concordaram e achavam tudo isso uma grande tolice. Eles ficaram intrigados com a questão sentimental de Ivan, o que aconteceu com todo aquele amor e por que a sua amada se casou com outro? Então perguntaram:

– Bem, e o amor? Em que deu?
– O amor? O amor, daquele dia em diante começou a minguar. … o amor definhou e acabou.”

Não se chega ao fim sem se passar pelo início; não se morre sem se ter nascido. Trocar uma margem pela outra elimina a possibilidade de totalização. Pode-se até escolher entre a noite e o dia. A aurora  é uma nova possibilidade. Bom quando se faz a coisa certa, mas errar faz parte. Os opostos se atraem: amor e ódio, bem e mal, guerra e paz… dois lados de uma mesma moeda. Uma coisa existe em função da outra.

Às vezes é necessário esquecer o que nos ensinaram e tentar aprender sozinho, pois só assim se acerta ou se erra ainda mais. Adquire-se experiência. Certas passagens da vida ficam registradas para sempre. Guarda-se o que se quer. Lembranças que não se escolhe podem vir à tona quando menos se espera. O ser é resultado daquilo que lê, que come, que faz, que vive; são tantas as possibilidades que o permeiam… do nada pode-se viver situações inusitadas….agora, por exemplo você lendo isto, poderia estar fazendo outra coisa….

Decerto, DEPOIS DO BAILE, depois de um filme, depois do almoço, depois de um beijo, depois de uma leitura de um poema ou um conto… não se é mais o mesmo.

As coincidências do mundo ficcional não são obras do acaso. Tudo depende das circunstâncias. Ela imita a arte da vida.

Anos depois, Ivan, ao contar essa história aos amigos o modo de pensar já era outro; o que ele viu e viveu no passado poderia ser uma perversão. Se a história do tártaro aconteceu era porque alguma coisa eles sabiam que Ivan não sabia, e ele nunca descobriu o que era. E ele conclui que é uma das coisas que podem modificar e dirigir a vida de um homem para sempre.

E a questão do ‘entender e não compreender’ achava terrível e inconcebível que uma obra ficcional não terminasse na forma convencional do ‘Foram felizes para sempre’ como acontece nos contos de fadas.

Na Arte tudo é possível. Relendo um livro, facilmente se consegue tirar novas conclusões, repensar valores e alterá-los; já na vida, devido a muitas circunstâncias diferentemente da ficção, pode-se também rever conceitos e até modificá-los. É difícil, mas não impossível.

Depois do Baile – Leon Tolstoi – Cotação: *****

Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter. 2012)

O filme “Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros” é uma obra cinematográfica deliciosa e divertida de se assistir, recheada de efeitos especiais e muitas alegorias linguísticas, tomando emprestadas principalmente a metáfora de que criaturas vampirescas coabitam com o ser humano e deste se alimentam. São ideias muito bem construídas e arrematadas, e aqui bem exploradas, deixando claro a partir de seu subtítulo de que eles existem, estão por toda parte sugando mais que a matéria, até a última gota da alma, e por isso, só mesmo alguém de coragem para livrar-se dessa praga, cortando o mal pela raiz.

É uma adaptação livre do romance de Seth Grahame-Smith, sendo ele próprio responsável por roteirizar tão eficientemente quanto a direção impecável de Timur Bekmambetov que procura manter num ótimo enquadramento entre muitos planos e em close a ideia central dos fatos reais em torno da biografia de um dos maiores e mais queridos presidentes americanos – Abraham Lincoln – mesclando, na dose exata, fatos ficcionais com verídicos. E com muita competência, numa miscelânea, transforma esses dois importantes gêneros artísticos – o literário e cinematográfico – que mesmo sendo linguagens distintas cria uma nova e singular obra e fantástica de se testemunhar. E o resultado não poderia ser melhor ao gênero inventivo escolhido que não foi possível rotular. As imagens são eloquentemente bem construídas.

O prólogo nos apresenta rapidamente, em flashback, Abraham Lincoln como presidente dos EUA, e durante os primeiros anos de sua vida, mostrando um jovem de futuro promissor, de personalidade e caráter marcantes, lutando bravamente contra os que representam perigo à família e aos amigos, ou sanguessugas da nação, na obra representada por vampiros, esses são seus inimigos declarados e que para se libertar desses mal e defender tudo o que acredita ser certo, ele aprendeu desde cedo que é preciso ir à guerra, preparando-se, primeiramente, a retórica, daí, só mesmo estudando leis do direito civil para não ferir a Constituição e posterior defesa pessoal.

O homem nasce bom, o vampiro é que o corrompe. Porém, nem todo homem é somente bom, seria fácil se assim fosse, mas sempre se opta e se torce que esse lado se sobressaia à maldade humana. Pode-se ter um amigo não tão anjo como se espera, e quando a amizade é verdadeira, respeito e admiração às vezes são mais importantes que nos próprios laços sanguíneos. E o personagem Abraham Lincohn tinha um amigo vampiro que lhe abriu os olhos e lhe revelou muitas coisas como também o ensinou a lutar.  E vampiro bom e que se preze precisa se cuidar e se proteger com um bom filtro solar, senão…

benjamin-walker_abraham-lincoln-cacador-de-vampirosQue arma escolher, Senhor Presidente? Entra em ação a simbologia do “machado” objeto considerado destruidor de bloqueios e barreiras. O machado é um objeto pesado, cortante e dilacerante feito de aço e de madeira que um dia foi vida, representando Liberdade. Enquanto o direito do homem de ser livre não for respeitado, todos sofrerão as consequências e considerados escravos, sem o direito de ir e vir, de pensar, falar, decidir e muito mais.

A liberdade justa é uma conquista diária e uma luta sem fim.

E a obra é quase que politicamente correta: a luta contra o bem e o mal, devendo sempre prevalecer o bom senso daquilo que se almeja conquistar nas batalhas da vida não tão simples como parece e que se gostaria que fosse. E quem conhece a história desse Presidente, sabe que não foi tão fácil assim, e que a vida não é uma peça de teatro, e o povo não é mero espectador. A vida é um palco e seu protagonista contracena com conflitos diários, chancelando a sangue cada página escrita na busca de um final feliz esperado, mas que nem sempre será possível e com direito a aplausos e pedido de bis! O espetáculo não acaba ao correr da cortina. Faz-se intervalo para que dê oportunidade de todos atuarem, sem exceção,  mesmo que em pequenos papéis ou como figurantes.

Uma obra de muita ação, suspense, aventura e humor inteligente e ainda permeados por fatos e citações históricas do período da guerra civil americana. Bom poder recordar essa senhora aula de história universal.

O ator Benjamin Walker está bem à vontade na pele do presidente, além do carisma, seu  porte físico – altura, peso tudo nos conformes. Muitas cenas de ação e efeitos especiais bem produzidas, além de  cenários e trilhas sonoras impecáveis! Diversão garantida!

Para quem gostou do filme, fica a dica: leia o livro! É a arte imitando a vida.

Karenina Rostov
*

Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter. 2012). EUA. Direção: Timur Bekmambetov. Roteiro: Seth Grahame-Smith, baseado em seu próprio livro. Elenco: Benjamin Walker, Dominic Cooper, Anthony Mackie, Mary Elizabeth Winstead, Robin McLeavy, Marton Csokas. Gênero: Ação, Fantasia, Thriller, Terror. Duração: 105 minutos.