Esquadrão Classe A (2010)

Em um tempo onde coisas coloridas com as calças do Tiririca é a moda e poluem nossos jovens, e vampiros maquiados dita a qualidade das obras destinadas à diversão cinematográfica, baixo minha cabeça e rezo para a boa e velha diversão de qualidade. Ainda que alguns tentem manter isso e levam a sério a coisa, produzindo obras respeitadas, mas com defeitos bobos, como o recente Homem de Ferro 2, que mesmo eficiente acaba de auto flagelando nos próprios erros consegue ser divertido a beça e nos entreter com dignidade, o que podemos notar é um quase apocalipse cultural. As músicas boas tornam-se escassas e os filmes divertidos de verdade acabam se resumindo em saudosas reprises em nossos DVDs ou sessões na TV.

Mas os poucos que lutam para a boa qualidade dos filmes de ação e do entretenimento puro e verdadeiro estão aí. Veio o excelente Kick Ass e agora, me deparo com esse surpreendente Esquadrão Classe A. Antes que faça julgamento errado de mim, o filme é sim, cinematograficamente falando uma bela bosta. Mal dirigido, uma edição porca, clichês e canastrices. Mas tudo isso, é feito com uma maestria digna, e todos os elementos ruins aqui são saudosistas, e nos divertem como nossos amados clássicos absurdos e eternos dos anos de Sessão da Tarde e Cinema em Casa. Trata-se de um filme tão bacana, tão empenhado em divertir, que perdoamos suas falhas e caímos de cabeça. E suas duas horas que passam voando compensa o ingresso.

Baseado em uma famosa série de TV dos anos 80 (olha que coisa), o filme acompanha 4 soldados que trabalham por conta própria. Liderados pelo sistemático e esperto Coronel Hanibal Smith (Lian Neeson), Cara de Pau (Bradley Cooper), Murdock (Sharlto Coopley) e B.A. (o ex lutador de vale tudo Quinton Jackson) usam planos altamente estudados e realizam todo tipo de missão impossível. Em uma delas, a de evitar que placas de falsificação de dólares cheguem em mãos erradas acompanhado de milhões da moeda já falsificados, acabam vítimas de uma traição e vão presos. Com a oportunidade de escapar da prisão e limpar seus nomes, iniciam um plano que dará fim ao esquema e limpará seus nomes.

Joe Carnahan conduz o filme com todo tipo de artifício que lhe foi concebido: efeitos especiais usados até a exaustão, tomadas aéreas vertiginosas, roteiro com as mais mirabolantes idéias e claro, atores que, ainda que canastrões, muito carismáticos, e que fazem a coisa toda valer a pena. Cada clichê que ele insere em cena funciona, e sem exigir muito (coisa que não dá num filme como esse) acaba se divertindo a beça com material de qualidade.

Ao contrário de seres como Michael Bay e Rolland Emmerich, que fazem obras moralistas e carregadas de seriedade quando deviam ser desligados disso, Joe consegue bolar dentro das próprias mentirosas seqüências, momentos divertidos e ritmados, demonstrando estar bem a vontade no filme. Mesmo que desembeste e perca a mão fazendo comprometer o que estava construindo (o que explica a direção ruim) abusando de cortes e cenas montadas em um triturador, o que ele faz é deixar a coisa toda tão descompromissada e se diverte, bem como quem assiste.

Cenas como, o grupo planejando um ataque e ao mesmo tempo o ataque acontecendo, ou a já antológica cena do tanque de guerra (sim, muito boa mesmo!) só mostram isso. E o nível de baboseiras absurdas só fazem o filme crescer no meu conceito. Ele abraça a filosofia do “é um merda, vamos nos divertir com isso”, bem como os filmes de ação das antigas.

Claro que, sem querer comparar com obras inesquecíveis como Máquina Mortífera, Rambo ou Bradock ou qualquer coisa do Charles Bronson, mas a partir do momento que o diretor demonstra culhão suficiente para despir a roupa de cineasta de filmes mais sérios, como o fodaço Narc, ou filmes de ação mais inteligentes como A Última Cartada e se assume um ótimo condutor de aventuras descerebradas, já merece atenção.

O chato é ver a turma abrir mão desses filmes com essa proposta (a de divertir acima de tudo sem outros métodos ou artifícios) para acompanhar a vampirada boiola ou os filmes que lotam as salas 3D. Para isso, Joe nos brinda com outra passagem deliciosa, onde ele alfineta com gosto esse tipo de filme: num sanatório onde esta rolando um filme em 3D. A reação dos pacientes é a grande piada.

Explosões, piadas e frases de efeito, situações cômicas – involuntárias ou não – e saio do cinema feliz. Me diverti por duas horas com um filme imbecil e adorei. Lian Neeson, que errou feio em Fúria de Titãs ganha meu respeito de novo com seu charuto e dizendo ficar louco quando um plano dá certo. Bradley e Sharlto, vindos do hilário Se Beber não Case são os que se mostram ainda mais bem a vontade. Sharlto principalmente, o filme se torna mais agradável devido a seu personagem idiota. Bradley que se mostrou um pouco desconfortável, mas ainda assim se saiu bem. Não dá de exigir a melhor atuação do cinema em um filme desses.

Quinton Jackson, o estreante, é a cara do Mr. T, o eterno B.A. da série original, e ele em seu primeiro filme, consegue ser melhor que a veterana (e infelizmente um dos calcanhares de Aquiles do filme) Jessica Biel. Ela é toda perdida e não é de nenhuma relevância dentro do filme. O show mesmo é ver os 4 juntos com suas palhaçadas e vontade de salvar o mundo destruindo metade dele.

E diferente de bombas como G.I. Joe, Esquadrão Classe A não é aparentemente tão idiota e mesmo o sendo, é tão eficiente e mais divertido, que compensa a assistida. E seus atores são melhores que os do filme do Sommers, que diga-se de passagem, é uma bela bosta. Com esse aqui é diferente. É tudo tão errado que dá certo, e as diversões “sadias” de minha infância voltam com ar saudoso e cara de século XXI. Adorei Esquadrão Classe A e indico a todos que procuram diversão das boas.

Nota: 8,0
Cotação: *****.

The A-Team, EUA (2010)

Direção: Joe Carnahan.
Atores: Liam Neeson , Bradley Cooper , Sharlto Copley , Quinton Jackson , Jessica Biel.
Duração: 124 minutos.
“Se você tem um problema, se ninguém pode ajudá-lo e se você puder achá-los, talvez você possa contratar o Esquadrão Classe A”

Lua de Fel

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No início o amor é tudo rosas. Pra tanto, o que temos é um casal nascendo em Paris, o melhor lugar do mundo para viver uma paixão, e o aspirante a boêmio e escritor revolucionário Oscar (Peter Coyote) descobre que as charmosas ruas parisienses e suas mulheres belas e a sua cosmopolita característica, irão render a ele não só uma grande paixão, ardente, engraçada e trágica, como também entender mais sobre si e sobre as outras pessoas, aprenderá que não está só no mundo, e que pode sim, ao contrário do que imagina, tornar-se escravo. Escravo de Mimi.

Quando se completa sete anos de casamento, há de se comemorar de uma maneira diferente e especial, que seja romântica e traga bons momentos e que engrandeçam a vida amorosa de um casal. Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) estão lá. Mas o que se vê não é um casal em busca de comemorar uma data gloriosa, já que 7 anos é bastante tempo. Mas sim, entender como se deixaram estagnar e ainda assim não encontrarem saída para seus dilemas pessoais como casal. O que eles procuram na verdade é um reencontro, e que possam fazer valer a pena essa viagem, fazendo seu mor voltar a florescer.

Seu caminho é cruzado por Mimi (Emmanuelle Seigner), a bela e enigmática Mimi. Ao socorrerem ela, acabam envolvendo-se com Oscar, seu marido. Preso numa cadeira de rodas, ele precisa relatar à Nigel, que cresceu os olhos para Mimi numa noite, tudo o que se passou no seu relacionamento, para que ele pudesse ver suas verdadeiras intenções com a moça, e que não se arrependesse depois.

Mas na verdade, aquilo serve mais como terapia de relacionamento, uma vez que (sem sucesso) Oscar tenta dizer a ele como reacender o fogo com Fiona. Cego por Mimi, tudo que Nigel quer é ter aquela mulher. O homem é fraco.

E desde Adão e Eva, onde Eva, nascida da costela de Adão, conseguiu dominá-lo de tal maneira que foram expulsos do paraíso (e isso rendeu às mulheres o ingrato estigma de pecadoras por tanto tempo) é distorcido aqui. A mulher é forte e dominadora, mas isso só quando se sente ameaçada. O filme segue essa linha de raciocínio. As mulheres aqui aparentam fragilidade, ser submissas, aparentam ser controladas, mas quando menos se espera, enquanto ainda se pensa em agir, elas já estão descansando. Podem fazer sua vida ir do céu ao inferno, mas claro, se você fizer por onde.

A história de Oscar e Mimi começa como o poema de Oswald de Andrade:

Amor:
Humor.

E que humor. Uma relação saudável, de duas criaturas enamoradas, descobrindo o melhor da vida nas quatro paredes. Seguem seqüências de um humor sem compromisso, de gags divertidas e claro, acompanhadas de muita sensualidade. Inesquecível a antológica cena em que Mimi dança para Oscar. Em algum sentido, Mimi completa Oscar, e ele gosta disso. No início pensamos que isso irá durar para sempre. Tudo o que podem fazer para apimentar a relação eles fazem, mas uma hora isso começa a se tornar irrelevante. O amor acabou?

Brigas, discussões, tapas, poucos beijos, muito ódio e ternura disfarçada. O amor acabou? Em um dos momentos mais incríveis do filme, ela diz que vai embora e ele pouco se importa. Mas antes que ela saia, logo volta correndo e se declara, dizendo que ele é o grande amor de sua vida.

O sentimento antes belo torna-se escravidão. Ou não. O relacionamento deles começa a ruir. E ele se achando esperto , logo trata de dar fim a isso, para que ainda saia ileso. Torna a vida dela um inferno, que inferno, com direito a trocar o nome dela na hora do sexo e a bater na sua cara (ato mais repugnante do mundo a meu ver), mas quando chega nível, algo está fora do controle.

A solução que ele toma é mais drástica ainda, a manda embora simplesmente para se ver livre dela. O que ele não sabe é que ela jamais esquecerá.

Oscar começa a viver intensamente a vida, com várias mulheres, vários exageros, uma vida trocando a noite pelo dia, que desencadeará sua própria ruína. Um acidente e ele fica de cama. Ela volta e prova que jamais esqueceu o que ele havia feito com ela. É hora de se vingar. Oscar vai do céu ao inferno em um fade. Ela o leva pra casa, na cadeira de rodas, com o intuito de cuidar dele. Mas a perversidade com a qual ela o trata é maior do que o amor que ela diz sentir. Chegando a dançar com outro e fazendo sexo com outro na frente dele. A que ponto isso chegou ele se pergunta. Ou então, porque deixou chegar a isso.

Quando essa história é contada a Nigel, e o diretor inspirado Roman Polanski desconstruindo o amor de forma degradante e de certa forma doentia, o filme chega a seu clímax. O casal em busca de um sentido e o casal que já encontrou seu sentido e hoje é escravo disso, juntos. Quem Mimi irá escolher e qual será a reação que isso irá desencadear. O momento final é tenso, mas de tão tenso que só mostra o óbvio: o homem é fraco e o amor o torna escravo.

Um texto forte e uma direção repleta de ironias e mensagens (a melhor delas quando Oscar fala sobre traição, levantando a mão com sua aliança), Polanski diz muito e arrasa, atingindo todas as feridas que ele quer.

Diferente da abordagem intimista que filmes como 9 Canções deram, ou da choradeira desgraçada e açucarada dos romances modinha, Lua de Fel é um massacre psicológico. Mesmo depois do filme ainda nos sentimos incomodados com a crueza de detalhes e construção verdadeiras de cenas. E ao mesmo tempo que o filme é sexy e provocante, quando transforma esse sentimento aparentemente lindo em slasher de terror, faltam reações positivas.

E se ele conseguiu isso, certamente conseguiu o que queria mostrar. A saga de ambos casais é montada de uma maneira soberba. Belas imagens (como a do carrossel) contrastam com não tão belas e o estado de espírito das personagens, evoluindo, degradando, sendo construída, é dual e irônica. Polanski brinca com o que chamamos de amor e só mostra que isso é um produto do ódio, ódio de si mesmos. O sentimento em questão é na verdade uma busca por outra a quem possa depender para ser feliz e realizado, e sem precisar ser pessimista, isso é feito.

Com uma fotografia impressionante de bela, atuações fortes – com exceção de Hugh Grant e Kristin Scott Thomas, que não passam a energia pesada e forte do diretor, sendo apáticos e em muitos momentos sem graça – por parte de Peter Coyote e Emmanuelle Seigner, essa mostrada em sua totalidade e realmente se entregando ao personagem, e uma trilha sonora incrível (assinada pelo mestre Vangelis), Lua de Fel não chega a ser o filme definitivo sobre o amor. Mas é um dos que melhor mostrou suas implicações e conseqüências.

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O mais engraçado é o ar cosmopolita do filme, com várias personagens de várias partes do mundo, dizendo que o amor é universal. Irônico, não? Levando em consideração tudo o que mostrou no filme…

Forte e incrível do início ao fim, mas ainda aquém de outras obras primas que ele fez, Lua de Fel é imperdível.

Nota: 9,0
Cotação: *****.

Bitter Moon, França/Inglaterra (1992)

Direção: Roman Polanski.
Atores: Hugh Grant , Kristin Scott Thomas , Emmanuelle Seigner , Peter Coyote , Victor Banerjee.
Duração: 139 minutos.

Kick Ass – Quebrando Tudo

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O nerd. Sujeito ignorado pelas garotas, ignorado pelas pessoas, apenas o Dave. Ele só existe. Mas até que um dia, encontra a chance de aparecer para as pessoas, impressionar a garota por quem é apaixonado e acalmar seu ego. Não estou falando do Homem Aranha nem de qualquer outro sujeito que apareceu numa fantasia e decidiu ajeitar o mundo. Estou falando do KICK ASS!

Ele possui todos os atributos, é desajeitado, é nerd e viciado em HQs. Mas a partir do momento que decide comprar uma roupa de mergulho na internet e sair pelas ruas defendendo os cidadãos indefesos, sua vida muda repentinamente. Sem querer, acaba envolvido com outros heróis e conseqüentemente com um vilão de verdade, que quer sua cabeça numa lança. E daí o filme acaba indo por duas frentes – por sinal, muito bem trabalhadas. A primeira é a adolescência do Kick Ass, na verdade, Dave Lizewski, que num misto de coragem e insânia decide lutar contra o crime.

O ato do jovem rapaz é louvável, mas poderia muito bem deixar passar o tanto que se pode trabalhar dentro disso. E o fato de o filme usar a adolescência do protagonista como pano de fundo é uma sacada muito boa. Ele com a menina por quem é apaixonado, ele e os amigos, como ele vive e tudo o que passa na cabeça dele. A abertura é excelente. Em poucos minutos resumem todos os pensamentos de um nerd no auge de sua vida estudantil.

Diferente das abordagens dadas por Homem Aranha por exemplo, aqui é tudo tratado com mais humor, sem deixar de ser verdadeiro. No caso de Peter Parker, tudo ganha ares mais fantásticos. Com Dave é tudo diferente, é tudo tão real e a realidade é tão engraçada.

Aos que são fãs de HQs e acompanham avidamente tudo o que rodeia esse universo, o filme é também quase uma homenagem. Ainda que em alguns momentos aborde de maneira escrachada até demais – chegando ao ponto de “parecer” ofensiva – atinge seus objetivos e só ganha méritos com isso. Todos vão se identificar com alguma passagem do filme, e isso gera uma interação bastante curiosa.

Eu mesmo, assistindo me vi naqueles pensamentos. Creio que muitos quando criança queriam ter super poderes, sair por aí acabando com o crime, e o filme consegue resgatar de forma sutil isso tudo. O resultado é: acompanhamos o filme de maneira diferente, torcendo pelos protagonistas até o fim. O diretor consegue isso com muita facilidade. Matthew Vaughn tem esse talento, de nos inserir na trama para que possamos caminhar conforme o que ele mostra.

Sua forma de dirigir é fantástica e real ao mesmo tempo. Muitas passagens do filme mostram isso como por exemplo, Kick Ass tentando pular de um prédio. Entra uma trilha sonora inspiradora, cortes e ângulos que enchem os olhos, o personagem dizendo algo encorajador e no fim, ele para na beira do prédio. A cena diz muito do que é o filme. Os heróis que nascem do nada e muitas vezes, quando pensam estar preparados para tudo, acabam se deparando com algo pior. A visão é até um pouco pessimista, mas o filme leva tudo com tanto humor e gore que é quase impossível não viajar na trama, e ao fim, sair pensando consigo mesmo a respeito de tudo isso.

O bom humor que vem no filme, preserva o humor peculiar e não caricato dos quadrinhos criados por Mark Millar e John Romita Jr. A desromantificação (criei uma palavra?) dos super heróis, tornando eles mais humanos e menos poderosos ainda é mantida no filme. Sem, é claro, tornar ninguém ali um anti herói. Estão todos bem caracterizados, com seus trejeitos e manias. Sabemos bem quem é herói e quem é bandido. Isso pode até soar clichê, mas é tão bem trabalhado, e parece até que a falta de reviravoltas mais instigantes nem tem importância.

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Continuamos adorando o filme mesmo assim.

Até o fato de o filme fugir um pouco da HQ que o inspirou não atrapalha. Problemas como esse sempre diminuem o filme ou fazem dele uma grande droga. Exemplos não faltam. Só que aqui, o roteiro soube bem brincar com isso. Usando o mesmo pano de fundo dos quadrinhos e retorcendo as personagens para dentro do roteiro do filme e pronto. Detalhes importantes como o fim de alguns personagens como o Big Daddy e a Hit Girl, ou do próprio Kick Ass não passam de “aperfeiçoamento” diante dos quadrinhos. Consultei alguns fãs para saber se isso atrapalhou e foi quase unânime: o filme é incrível e não deixou faltar nada da essência do Kick Ass de verdade. E eles tem razão.

O roteiro é inteligente, com humor bem sagaz, às vezes caricato, mas sempre eficiente. Mantêm-se durante todo o filme, gags, piadas, tudo bem encaixado e nunca fugindo do foco. É tudo quase uma sátira dos heróis mais famosos. O filme copia com gosto seus gestos, chavões até mesmo algumas manias. Muito bacana o filme usar isso a seu favor e só abrilhantar mais a delirante história do herói às avessas. Com isso, é totalmente perdoável qualquer alteração que tenham feito dos originais.

Meu medo quando soube que Matthew Vaughn estava na direção, era de que ele usasse os cortes que usou em seus filmes de gângster inglês. Idas e vindas e tudo confuso e depois se explicando. E assim como seu protegido Guy Ritchie em Sherlock Holmes ele não fez isso. O filme flui tão tranquilamente, o que dá tempo de desenvolver sem muita pressa os outros personagens. E dentro disso, ele ainda mesclou referencias a outros filmes, o que deixou ainda mais bacana Kick Ass.

Há uma seqüência, onde conta a história do Big Daddy, toda feita em quadrinhos, lembrando de certa forma a seqüência em animê de Kill Bill Volume I, ou um “Say Hello to my little friend! ou melhor, um final digno de Charles Bronson. E unindo a tudo isso, referencias mil a todos os personagens de quadrinhos que puderam. As referencias são bastante notórias e resta aos fãs se deliciarem com tudo o que é mostrado. Não apenas aos fãs de Kick Ass, mas de cinema e quadrinhos em geral.

O que acaba sendo outro acerto do diretor, que com isso nos brinda com uma adaptação dentro de tudo o que os quadrinhos quiseram: um herói diferente que nos fizesse ver além do fantástico sem deixar de ser fantástico. Só faltou um pouco mais de violência e sangue.

E o elenco mais confortável impossível. Aaron Johnson está ótimo como Dave/Kick Ass. Mark Strong está caricato e maravilhoso como o vilão Frank D’Amico, e até Nicolas Cage como Big Daddy está bem. Nem seu olhar de peixe morto conseguiu comprometer o filme. Todas as suas aparições são ótimas. Só que, o filme não seria o mesmo sem a presença de Chloe Moretz a Hit Girl! Sim, ela é a personagem do filme. Doce, violenta, esperta, corajosa, mais macho que o próprio Kick Ass! Ela profere palavrões, desmembra seus oponentes e ainda nos conquista com seu sorriso lindo e jeitinho de menina doce. Ela está perfeita. O problema foi que não pode ver o filme, já que pegou censura alta nos Estados Unidos.

E o que falar da trilha sonora? Ver Hit Girl matando os bandidos ao som de Ennio Morricone ou ao som de Joan Jett “Bad Reputation” creio eu resumem bem. E esses não são os únicos momentos.

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E com aproximadamente duas horas de duração, Kick Ass é diversão garantida, diferente de tudo o que os filmes de heróis tem feito ultimamente. Imperdível aos fãs da HQ, imperdível aos fãs de quadrinhos, imperdível aos fãs de cinema.

Nota: 9,5
Cotação: *****.

Kick Ass, Reino Unido/EUA (2010)

Direção: Matthew Vaughn.
Atores: Aaron Johnson , Nicolas Cage , Chloe Moretz , Christopher Mintz-Plasse , Mark Strong.
Duração: 117 minutos.

Um Homem Sério (A Serious Man. 2009)

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Um legítimo filme dos irmãos Coen, não há forma melhor de definir. E se tratando de um legítimo filme dos irmãos Coen, torna-se um excelente filme. E quando chega a esse ponto, a linha tênue que separam excelentes filmes de obras primas é quebrada, e os caras conseguem mais uma vez. Assistir a Um Homem Sério é assistir a algo que vamos levar pra frente. Não é apenas um filme de duas horas cativante e levemente divertido, é na verdade uma grande lição sobre a vida.

Autoral até o talo, em certos aspectos experimental – refinando o jeito dos irmãos de filmar – e absurdamente sincero na hora de narrar um pouco do que é a conturbada vida de uma pessoa. Uma coisa admirável no trabalho dos dois está no fato de que melhoram a cada filme, trazem mais bons gosto a seus enredos e sem a menor pretensão ou ganância, contam histórias tão próximas de nós que deixam seus filmes tão humanos e tão sublimes, que as vezes é inexplicável a sensação que vem depois de ver um filme deles.

Descartando O Amor Custa Caro e Matadores de Velhinha, que são algo mais passatempo da carreira deles, todos os outros vem com algo que os interliga: as questões humanas. Sempre com idéias e um estudo que se aprofunda cada vez mais, desde o humor nonsense de O Grande Lebowski até o uso da compaixão para falar de violência no mais sério Onde Os Fracos Não Tem Vez, o que fizeram em seus filmes foi por a prova o ser humano, testando suas limitações, seu comportamento e o seu psicológico. Chegam ao ápice com Um Homem Sério.

O ano é 1967 e o sistemático professor de física Larry Gopnick (Michael Stuhlbarg – ótimo) e ele vem tentando ser um bom homem.

Ele vive numa comunidade Judaica, cumprindo a risca os ensinamentos da religião e aparentemente vivendo sua vida sem perturbar ninguém. O problema é que na verdade ele limpou a sujeira e jogou debaixo do tapete, e essa sujeira acumulou.

Sua esposa, Judith (Sári Lennick) cansada dos problemas conjugais, encontra consolo nos braços de Sy Ableman (Fred Melamed) e decide deixá-lo; o irmão Arthur (Richard Kind) não teve tanta sorte na vida e está na casa de Larry como agregado e dando mais dor de cabeça que um filho birrento; o filho Danny (Aaron Wolff) é viciado em maconha e as rebeldias da adolescência estão refletindo na sua vida e pra completar, a filha rouba dinheiro da sua carteira para uma futura cirurgia plástica no nariz.

Não bastassem os problemas dentro de casa, no emprego, cartas anônimas ameaçam seu futuro na Universidade onde leciona, há um problema de suborno com um aluno Sul Coreano, uma dívida que ele não contraiu e que vem lhe dando dor de cabeça. Juntando as pressões do trabalho, com os problemas em casa, Larry começa a passar por uma fase turbulenta. Uma pessoa normal pegaria uma arma e atiraria na própria cabeça, mas Larry é um homem sério, e busca ajuda de três rabinos, que tentarão lhe aconselhar o melhor caminho a seguir e se ver livre de seus problemas.

E tudo o que os Coen gostam de tratar em seus filmes está aqui. Da fabulosa introdução ao desfecho maravilhoso, eles constroem uma cadeia de situações que levam a uma tragédia, e quando isso tudo termina e tudo volta a normalizar, a vida vem com novas surpresas e assim, colocando à prova os personagens mais uma vez.

Entram aí questões que envolvem a razão e a fé, não como coisas distintas, mas elas de alguma forma passam a andar juntas. Por exemplo, a cena que o irmão de Larry, Arthur, lamenta o azar que teve e põe a culpa em Deus, mesmo ciente de que quem constrói a vida não é Deus, mas sim cada um, ou as saídas encontradas por Larry para se ver livre dos problemas, seja espiando a vizinha gostosa, ou dividindo um cigarro de maconha com a mesma vizinha gostosa.

E eles vão desenvolvendo cada um, dando mais espaço para Larry e seu filho Danny, mostrando eles como a equação e o produto dela. Tudo na vida de Larry se baseia em física e matemática; tudo na vida de Danny é a própria física e a própria matemática. Os outros, mesmo que tratados como secundários, não perdem espaço e suas relações são de suma importância para o acontecerá quando chegar ao fim do espiral formado por essas frustrações.

Cada rabino significa um passo dado por Larry até que ele chegue à solução que precisa. E até ele chegar a essa solução, passará por provações que vão mostrar quão sério ele é, mesmo rodeado de tanta coisa chata. E no fim de tudo, o que temos é a mostra de que os problemas encarados e a forma como são encarados, definem o que você realmente é, se é covarde, se é normal, se é sério. O filme chega nessa conclusão e admiramos o que Larry faz como redenção para ele mesmo. Mesmo que seu desfecho não seja dos mais esperados, admiramo-lo como um grande homem.

Lindamente fotografado e com uma recriação belíssima dos anos 60, o filme é um charme só. A edição dos Coen (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes) é ágil e engrandece o trabalho deles na direção. E que trabalho soberbo.

Cada situação matematicamente planejada, dando um toque de humor, melancolia, tristeza e esperança. Eles levam a sério o papo de que a vida é uma grande comédia, e ainda que sempre acabássemos nos pondo no lugar de suas personagens (os Coen conseguem como ninguém fazer isso), estamos sempre rindo do óbvio, do que acontece debaixo de nossos narizes.

E acho que isso que torna seus filmes tão envolventes e fascinantes, ainda que esse se arraste em alguns momentos, os Coen brincam com a vida, parodiando ela e ao mesmo tempo nos fazendo enxergar que é assim que as coisas são. Cada personagem riquíssimo, o texto sempre inteligente e com as sutilezas características de seu trabalho e como tudo no filme é trabalhado só torna ainda mais prazeroso a assistida do filme. Eles conseguem fazer com que tudo em cena contribua para que cada uma delas seja única. Enquanto me emociono com um irmão abraçando o outro numa despedida, dou risada do filho chapado em pleno Barmitsva e é assim o filme todo.

Aqui os Coen chegam com tudo, mostrando que o prêmio que levaram por Onde Os Fracos Não Tem Vez só os tornou ainda melhores nessa grande arte que é fazer cinema. Um Homem Sério é um grande estudo do que é viver e como a vida, mesmo pregando suas peças, pode ser vivida. Sem dúvida, um dos melhores do ano, um dos melhores da dupla, um dos melhores da década.

Excelente.

Nota: 9,6

A Serious Man, França, Reino Unio, EUA (2009)

Direção: Joel Coen , Ethan Coen.
Atores: Michael Stuhlbarg , Richard Kind , Fred Melamed , Sari Lennick , Aaron Wolff.
Duração: 106 min.

O Fim da Escuridão (Edge of Darkness. 2010)

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Thomas Craven é um policial veterano, conhecedor de truques e que se define como homem perigoso quando porta uma arma. É também um bom pai, que tem uma filha mestre em engenharia nuclear pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e que vem passar uns dias com o pai. Lá chegando, começa a sentir os sintomas ruins de algum problema grave e na porta de casa é assassinada.

Enquanto todos da polícia e mídia pensam que o atentado era na verdade para atingir Thomas, o policial parte em busca dos verdadeiros culpados e descobre uma rede de chantagem, corrupção e segredos de segurança que podem comprometer todo o sistema político do país. Entra na jogada um misterioso grupo de contenção (com o pretexto de defender a segurança nacional) na pessoa do misterioso Capitão Jedburgh (a cena é impagável), que entra na jogada para calar quem sabe demais.

Só que assim como Thomas, Jedburgh tem seus motivos para lutar por justiça, e ambos (um por vingança, o outro por redenção) buscam o fim da sua escuridão particular. O caminho que cada um percorre, é contado nesse filmaço, que marca o retorno do lendário Mel Gibson atrás das câmeras. Trata-se de um suspense policial bastante eficiente e inteligente, com subtramas interessantes e com um enredo que, por mais que seja batido em alguns momentos, consegue ser renovado com bons momentos e diálogos ácidos.

Desde 2003, quando atuou no delicioso Crimes de um Detetive, Mel Gibson apareceu na direção de dois filmes que fizeram bastante sucesso e foram um tanto controversos pelo conteúdo. Causou polêmica com A Paixão de Cristo e fez uma (mesmo que muito violenta) aventura bastante divertida na língua Maia Apocalypto. Em O Fim da Escuridão ele vem no papel que de certa forma o consagrou, o de policial.

Mas nada do motorizado Mad Max nem do impagável Martin Riggs de Máquina Mortífera. Aqui ele é um homem que age principalmente pela razão, sem se deixar levar pela emoção.

Ele começa querendo vingança (o que seria muito mais óbvio), mas a partir do momento que se depara com todas as implicações e perseguições políticas, descobre que é hora de lutar por um bem maior. Vendo assim até parece patético, mas o desenvolvimento dado ao seu personagem no filme é um estudo tão aprofundado que vale a assistida. Diferente de outros filmes, ele não sai por aí matando adoidado, nem perseguindo nem nada. Seu personagem torna-se rico em detalhes e torna-se tão fascinante que torcemos por ele até o fim. Não é qualquer um que faz com que o filme envolva tanto a platéia.

Creio que muitos vão esperando um movimentado filme de ação, mas não é bem assim. O filme tem um enredo louvável e bem fundamentado, sem contar o tratamento todo especial em nos fazer enxergar e compartilhar das dores e desafios daquele homem. E Mel Gibson arrasa. Seus olhos azuis são o espelho de sentimentos desconfortantes, e isso é o que mais chama atenção, pois acabamos criando uma simpatia e uma fé grande nas atitudes dele. O mesmo acontece com Jedburgh, mas como personagem secundário, não é tão trabalhado quanto o de Mel Gibson. Entretanto, perto do fim é impossível não elogiar e nem torcer pelo que ele faz.

E o homem por trás da direção, Martin Campbell (que dirigiu a popular e premiada – 6 BAFTA – minissérie “Edge of Darkness” (1985)) não aparece com as cenas de ação de tirar o fôlego de seus outros trabalhos, como A Máscara do Zorro ou o recente 007 Cassino Royale. Ele cria momentos de uma melancolia tão sincera que emociona sem soar piegas ou gratuito. Dirigindo muito bem e comandando o filme de maneira competente, ele garante cenas interessantes, que mesmo apelando para a fé e o espiritismo – que chega a forçar algumas cenas – não deixam o ritmo cair.

Um exemplo interessante para isso, é quando a filha do Thomas leva o tiro e ele lamenta, chorando e rezando, um dos momentos mais lindos e tocantes do filme. Só que em momento nenhum, ele apela para a emoção como ferramenta para envolver quem assiste, o que faz o filme subir mais ainda no conceito. Ele soube medir muito bem emoção e ação e trouxe um equilíbrio interessante ao filme. Nada é exagerado, nada é gratuito, tudo é racional, tudo é o mais verdadeiro possível.

Só que claro, não poderia desperdiçar os dotes justiceiros do Mel Gibson tão bem aproveitada em outros filmes, e com muita classe, cria momentos que chega a causar uma certa nostalgia, como uma cena que ele enfrenta um carro descarregando uma arma no seu condutor e depois desviando, sem a menor piedade, como fazia antigamente, ou quando entra no carro do vilão e o faz se borrar de medo. Vendo isso, tive a convicção de que Mel Gibson voltou, e tão bom quanto antes.

E o filme não precisava de grandes perseguições e tiroteios sem noção para ser bom. Tudo o que precisava (uma boa história) ele soube usar e analisando pelo conjunto de tudo, não deve em nada. Se apelasse para ação descerebrada, seria um filme bem aquém da capacidade do Gibson, e Martin Campbell não nos brindaria com algo diferente do que ele está acostumado a fazer. Mesmo com os produtores (o mesmo de Os Infiltrados)pedindo mais cenas de ação, o filme não seria um desperdício.

Outro ponto favorável do filme é a excelente trilha sonora, que também passou por um probleminha. John Corigliano teria feito uma trilha sonora, mas foi descartada porque queria algo melhor para atenuar a tensão e as cenas de ação do filme. No lugar dele foi escalado Howard Shore (a pedido do produtor de Os Infiltrados Grahan King, onde Howard havia trabalhado também), e o resultado foi fabuloso. A trilha é muito boa, atenuado as cenas de ação, tornado Thomas Craven é um herói, mas um herói mais humano. As cenas mais dramáticas são embaladas por acordes belos e que deixam as cenas com uma emoção mais sincera.

Tecnicamente é bem feito, tem uma fotografia diferente, onde tudo começa com um tom mais escuro e ao longo da fita, vai ficando mais claro. O grande parceiro de Martin Campbell, Phil Meheux acerta bem na sua fotografia. Martin Campbell brincou muito com a luz nesse filme e a jogada é bem válida, criando uma conexão interessante com o título – mesmo a tradução sendo o contrário da original.

O roteiro se perde em alguns momentos, na hora de resolver seus próprios subtramas, dando algumas soluções fáceis e previsíveis, o que de certa forma é sentido também na direção, que contém certas falhas narrativas, só que elas pouco incomodam.

A dupla Willian Monahan (vencedor do OSCAR por Os Infiltrados e talentoso para criar momentos tensos) e Andrew Bovell, deixaram a desejar apenas nisso. Mas acertaram em diálogos que soam politizados sem querer ser (o filme não tem pretensão nenhuma, que fique bem claro). Usando a indústria nuclear como pano de fundo, citando desde energia a armamentos (problemas vivenciado nos dias de hoje), eles abusam de possibilidades criativas para contar a sua história.

E pra fechar, porque não um elenco afiado?

Começo com Mel Gibson, equilibrado e atuando de forma convincente, ele não perdeu a forma, quem ver o filme pode até se incomodar com a aparência mais velha do ator, mas só vê-lo em ação e dirá “Mel Gibson voltou!”, e voltou mesmo. Tem também Ray Winstone, personificando o misterioso Jedburgh. Antes, quem interpretaria Jedburgh seria Robert De Niro, chegou a ser contratado e rodar algumas cenas, mas logo se desligou do projeto por conflitos criativos. No lugar dele entrou Ray Winstone, que mesmo não tendo a atuação mais estupenda da sua carreira, é muito competente e atua direitinho. Os outros coadjuvantes são bem colocados, também atuam direitinho, sem exageros nem nada. Destaque para Damien Young, que vive um senador bem falso. Pra mim, ele foi o melhor coadjuvante do filme.

Bem dirigido, com elenco afiado e um enredo bonzão, criativo e inteligente, O Fim da Escuridão é um presente para fãs de suspenses policiais, fãs do Mel Gibson e fãs de bons filmes. No fim de tudo, é algo que justifica seus meios, possui um fim lindo (sim, o final é lindo mesmo!) e que dá fim a escuridão de seus protagonistas. Tudo redondo e bem encaixado, um filmaço.

Eu recomendo.

Nota: 8,5

Edge of Darkness, Reino Unido/EUA (2010)

Direão: Martin Campbell.
Atores: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Caterina Scorsone, Shawn Roberts.
Duração: 111 minutos.

Quem Quer Ser um Milionário?

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“Quem quer ser um milionário?”

Você certamente ouviu muito isso quando Silvio Santos apresentava seu famigerado “Show do Milhão”. Claro, como todos sabem, os enlatados comerciais que nos fazem engolir, nada mais são que adaptações dos programas de sucesso do exterior. Sua influência é tamanha que atrai mais e mais telespectadores. Mas o que dizer de um cara, de 18 anos, de origem pobre (melhor, paupérrima), sem a mínima perspectiva de um dia crescer na vida.

Um rapaz sem estudo, sem futuro, sem nada. Ele vem, responde uma série de perguntas, é subestimado pela sua origem, e leva o grande prêmio, fica rico e surpreende o mundo. Essa é a história de Slumdog Millionaire, prefiro chamar assim, odiei a tradução em português “Quem quer ser um Milionário”. O título em inglês, se traduzido ao pé da letra seria algo como “Favelado milionário”, título que em minha opinião é o mais convincente.

Essa é a nova história contada por Danny Boyle, um dos meus diretores inglês preferido. Aqui ele conta a história do jovem Jamal, uma criança que desde cedo aprendeu a se virar. Junto com o irmão, vive no lugar mais pobre da pobre Índia, catam lixo para comer, correndo atrás de viver no céu, no meio do inferno. Após a perseguição religiosa, que é constante em muitos países da Ásia, ele perde a mãe, e fica a mercê da sorte, junto com o irmão mais velho, e uma coleguinha que ele decide ajudar (na boa, pobre tem coração, isso é fato!).E aos poucos a câmera nervosa de Boyle trilha a história de Jamal, até ele chegar à TV e conquistar seu prêmio.

O filme vai intercalando passado e presente, não de maneira clichê, do tipo que vemos em filmes que usam disso para atenuar ação. Aqui é diferente. Mostra 3 Jamal, um pequeno, um maiorzinho e o jovem. A cada pergunta do programa ele revive a infância, relembrando tudo. Ele mais grandinho é como se privilegiasse mais a história de seu irmão, Salim, e da menina, Latika. Ele jovem une tudo isso e cria o clímax do final.

A direção segura do competente Boyle dá um ritmo incessante ao filme. No começo, uma caçada nas entranhas da Índia, onde ficamos chocados com o descaso daquele pobre país, fica evidente a preocupação em mostrar a índia que realmente existe, não a índia que a novela das Oito idealizava. Ele nos conduz, no meio da podridão, a uma esperança que ainda existe no personagem, mesmo com ele comendo o pão que o diabo amassou com gosto.

O mais legal, é quando vai mostrando ele respondendo as perguntas, e entra um flash, e o que é mostrado no flash tem ligação direta com as respostas que ele tem que dar. Só que coitado, acaba vítima da suspeita, e é torturado por dois policiais que querem obrigar ele a confessar que está trapaceando. E vamos acompanhando tudo, ao longo do filme torcendo cada vez mais por Jamal. A emoção que Boyle cria é incrível, e mostra porque ele é tão cultuado mundo afora.

A parte técnica do filme é quase perfeita. A fotografia é linda, feia, borrada, suja, linda. Ela entrega uma veracidade desgraçada ao filme, em alguns momentos lembra Cidade de Deus. A trilha é incrível, ela lateja em nossa cabeça, ela cria o clima do filme, ela é parte do sucesso. Estou sem palavras, é só ouvindo pra entender.

A edição primorosa é um atrativo que vale a pena ser citado, cortes rápidos, idas e vindas, tudo aliado ao bom gosto das cenas, criando imagens que chocam (a morte da mãe…) e que encantam (eles ainda criança, na chuva…), que nos deixam fascinados (todos os enquadramentos possíveis de uma Índia bonita…), que nos deixam com pena (as crianças do Manoon…). Um estudo sobre os enormes problemas da Índia, mostrada de maneira verdadeira, sem esconder.

O elenco é espetacular. Sem muitas caras conhecidas, a galera arrasa. Primeiramente os que interpretam o trio principal (Jamal, Salim, Latika). Aquelas crianças estão incrivelmente ótimas. Suas atuações soam naturais, convencem e valem à pena. Os jovens roubam a cena. O que interpreta Jamal é o melhor deles, cara de sonso, mas muito esperto, de coração nobre, mesmo sendo tão pobre.

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Seu irmão, Salim, também convence bem, ele acaba lembrando os personagens de filmes brasileiros sobre a favela. Sua interpretação é tão verdadeira, tão convincente que arrepia. A que faz Latika, a mais fraquinha, porém ainda assim tão boa quanto, não é daquelas personagens que só tão ali pra preencher lingüiça, é como se sem ela não haveria aquela irmandade, ela é o 3° mosqueteiro, como sugere Jamal na linda cena da chuva.

Mas o grande ponto forte do filme, fica com a bela homenagem à Bollywood. Enredo bem redondo e enxuto, com seus clássicos usuais clichês (menino pobre ficando rico, amor da sua vida, conflitos com o irmão malvado e por aí vai) e sem contar a dança logo no final do filme, que é uma das marcas mais famosas desse cinema. Há ainda espaço para recortes e citações ao cinema e aos atores famosos por lá.

Juntando a isso todos os outros que ao longo da história aparecem, Slumdog Millionaire é um filme que vai além do entretenimento. Aliado a tudo de ruim mostrado na tela, ainda abre espaço para a reflexão sobre o 3° mundo que ainda existe, sobre a infância roubada nos países pobres, sobre a escravidão da TV e de seus Realities Shows que conquistam mais e mais adeptos. Os bastidores, a inveja, o submundo, tudo retratado sem subestimação de nossa inteligência, tudo mostrado como realmente é.
Indicado a 10 OSCAR e vencedor de 8, Slumdog Milionaire é uma mais que deliciosa surpresa. Um filmaço!

Nota: 10 (mais que merecido!)

Slumdog Millionaire, EUA/Reino Unido (2008)

Direção: Danny Boyle.
Atores: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Rajedranath Zutshi.
Duração: 120 min.

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Moulin Rouge – Amor em Vermelho

Liberdade, Beleza, Verdade, Amor .

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Frenético e romântico, a arte de Baz Luhrman num filme magnífico.

Baz Luhrman surge no cinema na década de 90, bem no início da década com o “animadinho” Vem Dançar Comigo, onde já mostra o seu cinema arte num filme a lá Dirting Dancing. Depois surge com a sua ótima versão de Romeu e Julieta, com Leonardo DiCaprio ainda um rosto ganhando espaço. Mas foi em 2001 que ele ganhou notoriedade, trazendo de volta o gasto, porém estiloso gênero “musical’ do cinema.

Os musicais, assim como os westerns, sofreram com o esquecimento e praticamente foram enterrados na década de 60. A partir da década de 70, poucos foram os exemplos de filmes, que seguindo essa fórmula (musical ou western) que deu certo, o que acabou contribuindo para o quase esquecimento do gênero. E Baz Luhrman trouxe de volta o gênero de uma forma renovada, com gás, num filme estonteante, brilhante e contagiante.

O ano é 1889, o mundo vive uma revolução boêmia e a França é o palco dessas transformações. O jovem Christian (Ewan McGregor em ótima interpretação) desafia o pai e vai até Paris para viver a revolução. Lá conhece Toulouse (o estranho John Leguizamo) e sua trupe, que planejam uma peça de teatro que seja apresentada no Moulin Rouge, o cabaré mais badalado da cidade.

Após a desistência do autor da peça, Christian assume, mas precisa convencer Harold Zidler (o ótimo Jim Broadbent) o dono do cabaré. Pra isso, Toulouse arma um encontro de Christian com a mais bela cortesã, Satine (a belíssima Nicole Kidman em interpretação inspirada), em que Christian terá de convencê-la para conseguir financiamento para a famigerada peça.

É nisso que a história de Moulin Rouge se desenvolve. No começo temos alguns showzinhos de clichê, o mocinho desajeitado, a troca de pessoas intencional, mas tudo embalado ao louco e empolgante ritmo da casa noturna, tocando a música “Lady Marmelaide”, que virou hit na época, há também uma versão de “Smeels Like Teen Spirit” do nirvana que eu achei ótima.

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É no balanço frenético da casa que Christian acaba criando um afeto pela cortesã, sem saber que a mesma estava prometida a um duque (Richard Roxburgh, asqueroso e divertido), que pretendia transformá-la numa estrela. Após um número musical bem divertido, Christian, Satine e Cia conseguem convencer meio “sem querer” o duque e Harold a financiar a peça. Começa aí o “grosso” da história. Christian e Satine se apaixonam (impossível não adorar a cena), após fazerem o número musical mais belo do filme, onde cantam algumas boas músicas num arranjo diferente é excelente. Na música tem desde Beatles a U2, e na interpretação de Kidman e McGregor ficou ótima.

Depois se segue mais um pouco de momentos clichê, mas que não comprometem a qualidade da obra, até que chegamos no trágico final, que na minha opinião foi um dos melhores já feitos.

Baz Luhrman fez uma obra de arte em pleno início de século. Tentar reviver os musicais pode parecer a princípio uma má idéia, mas Baz com seu estilo fez um trabalho magnífico, onde beleza e música caminha juntos. Quero começar pela direção de arte premiada. Há muitos detalhes que são percebidos quando se vê o filme mais de uma vez. Os quartos, o cabaré e principalmente Paris (eu só vi uma recriação digital boa assim em King Kong, que fez Nova York de maneira super competente). Depois vem a ótima fotografia. Colorida, esfuziante, bela. O figurino, também premiado, é outro show. A trilha, com performances incríveis, consegue empolgar, assim como os grandes musicais de antigamente.

Moulin Rouge é uma obra de arte mostrada na tela.

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(Solidão e a dor de perder quem ama: o personagem de Ewan McGregor consegue mostrar todos os sentimentos em cena)

Desde a brincadeira com o logo da 20th Century Fox na abertura, até aquele tango que toca nos créditos finais. Esse é um daqueles filmes arte, que veio pra dar novo fôlego ao desgastado e esquecido gênero musical, e Baz acertou em cheio em falar sobre o amor, o filme lembra muito uma tragédia de Shakespeare, e emociona e diverte como A noviça Rebelde ou Hair fizeram.

Mas que infelizmente foi bem injustiçado no OSCAR.
Uma Mente Brilhante não merecia aquele OSCAR de melhor filme e Baz Luhrman merecia muito mais a estatueta de direção. Dois prêmios foi pouco pra essa obra de arte ambulante.

Moulin Rouge – Amor Em Vermelho é um dos grandes filmes do século XXI.

Baz Luhrman fez um filme envolvente, mesmo que em algumas partes clichê, mas que diverte, conta uma história e termina da melhor forma.

Nota: 10

Moulin Rouge, EUA 2001.

Direção: Baz Luhrmann.
Atores: Ewan McGregor , Nicole Kidman , John Leguizamo , Jim Broadbent , Christine Anu.
Duração: 02 hs 06 min

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“Haja o que houver, eu te amarei até o fim da minha vida.”

Sherlock Holmes

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Criado pelo médico Sir Arthur Conan Doyle, protagonizando Um Estudo em Vermelho, publicado em 1887, na revista Beeton’s Christmas Annual, o detetive eficaz e sempre certeiro Sherlock Holmes, não demorou muito a ganhar o mundo, e se tornar uma figura ilustre da cultura mundial. Ilustres diretores levaram suas histórias ao cinema (Billy Wilder, Buster Keaton, entre outros), peças de teatro, programas de TV, inúmeros personagens criados como caricatura dele, dentre várias outras coisas.

E um personagem tão rico, e tão presente na cultura mundial, precisava ser reinventado, tal como James Bond o foi em 007 Cassino Royale. Mesmo o objetivo não sendo explicitamente apresentar o personagem para a geração coca cola, mas sim arrecadar muito em cima dele, foram para a solução mais simples possível: torná-lo pop fazendo essa geração se identificar com os heróis de hoje. E o que vemos na versão 2009 high-tech do detetive, funciona, mas deixa uma sensação de “hum, faltou alguma coisa…”.

Primeiro porque ele passa de um personagem clássico, para algo mais excêntrico. A arrogância continua, mas com um tom mais humorado. Ele ainda é orgulhoso e falastrão, mas muito mais sem a classe que tinha nos livros. Agora dá porrada, corre, leva porrada, enfrenta gente perigosa e ainda brinca com magia negra. Tudo perdoado. Levei pro lado liberdade poética da coisa. Diferente das mudanças drásticas de Crepúsculo por exemplo, que destrói todo um mito, o novo Sherlock faz de tudo e consegue o manter, mas quem conhece bem as histórias dele, sabe bem que não é o mesmo Sherlock dos livros.

As correrias, os socos, as artimanhas, os gracejos e mesmo atropelando com gosto os elementos considerados obrigatórios para uma trama Shelockiana (como por exemplo esquecer da célebre frase “Elementar, meu caro Watson”), o filme é tão carismático, tão simpático e tão divertido, que nos envolvemos com tudo o que é mostrado e, pelo menos no meu caso (fã assíduo dos livros), deixei passar e aceitei numa boa aquela mudança toda. Mas não deixo de reconhecer que faltou um muito pra ser um filme melhor.

E sem muitas delongas, o filme já mostra uma ação de Sherlock e Watson. Ele continua dedutivo e com uma destreza de tudo que chega a assustar. A princípio não dá de associar aquele brucutu violento com uma personalidade tão inteligente, mas o filme segue. Eles ajudam a Scotland Yard a evitar que o Lord Blackwood consume mais um assassinato, o que seria o 5°, em um ritual de magia negra. O Lord é preso e condenado à morte. Justiça feita, hora de as conseqüências começarem a aparecer.

Testemunhado pelo coveiro saindo de seu próprio túmulo, diga-se de passagem, feito de material pesado e indestrutível, o Lord ressuscita e volta ao mundo dos vivos para terminar com seus trambiques catimboseiros e volta a matar, dessa vez para tornar-se líder da seita que segue e assim de alguma forma ter o poder. Mas não contava com a astúcia de Sherlock, que enfrentará problemas e mais problemas, até solucionar este caso aparentemente insolúvel, pelo fato de ter magia e misticismos envolvidos.

A briga é boa? Claro. E esse filme abre bem o ano como um pipocão descompromissado, leve e muito divertido. O humor com timing preciso, a ação que entra na hora certa e não é simplesmente produto de nada, e claro, ver o detetive em ação, mesmo que não do jeito que o consagrou, foi bem legal.

O mito não foi desconstruído, e sim, apresentado de uma maneira mais diferente. Ele vira uma união entre James Bond com Indiana Jones e toques de Jason Bourne. Muito legal ver o personagem usando a lógica antes de fazer alguma coisa. Até mesmo seus erros aparentes, ganham uma explicação racional.

A aparição de uma feminina à aventura poderia até comprometer no início, mas ela é bastante relevante na trama, e em nenhum momento, faz a história se perder. E Watson, o mais diferente do filme, ele rouba a cena e ganha um espaço a mais no filme. Os elementos que fazem parte da cultura do detetive, como a rua e a numeração de sua casa (os lendários Baker Street 221B), o seu conhecimento de engenharia, química, física e o olhar de águia para o menor detalhe, que segundo ele é o principal, continua lá, e só tendem a ajudar na trama, mesmo alguns soando forçado.

E é aí que mora a maior enroscada do filme. A preocupação em reinventar o personagem foi tamanha, que esqueceram de cuidar do texto. Em muitos momentos, fica deveras confuso, e algumas saídas para o que propõe são um tanto infantis e outras, terminam sem explicação. Um detalhe esquecido, caros roteiristas (5 por sinal – o que quase sempre não é um bom negócio). Mas o que tem ainda dá pra entreter, e o objetivo do filme é justamente esse, entreter.

A direção de Guy Ritchie me surpreendeu. Fiquei meio receoso quando soube que ele dirigiria.

Se ele mantivesse o estilo rápido de seus filmes mais consagrados, como Snatch – Porcos e Diamantes ou Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, com idas e vindas durante todo o filme, cortes rápidos, diálogos rápidos e toda a influencia tarantinesca que apresenta, poderia ir longe demais e fazer de sua versão de Sherlock Holmes não ser tão boa. Ele deixou as pretensões de lado e seguiu à risca a mesma fórmula dos filmes de aventura como os do Spielberg e conseguiu se manter bem durante todo o filme.

Utilizando o recurso de flash-back na hora certa, mesmo que mantendo aquela edição de filme de terror revelador, ele soube nos fazer enxergar a maioria desses detalhes sem precisar do auxilio da tal volta. Acho que o que ele queria, era que tentássemos junto com o detetive, desvendar os mistérios, então, voltava e nos fazia ver se estávamos andando no caminho correto. Alguns chamariam isso de previsibilidade do roteiro, que até ocorre em determinados momentos, mas se você assiste o filme com um certo cuidado, consegue interagir com a trama, e ficar atento ao menor detalhe. Isso faz de Sherlock Holmes um filme divertido.

Ele também brincou com o slow-motion e fez uma coisa até caprichada, diferente de Zack Snider, que usou e abusou e colocou a perder boas premissas como 300 e Wathmen – O Filme. O efeito ficou bonito e detalhou de maneira curiosa e até diferente, algumas cenas. Ele também mostrou talento para lidar com cenas mais recheadas de efeitos especiais (a cena do navio que o diga) e arrasou em vários outros momentos.

Conseguiu nos deixar tensos em outras cenas e conseguiu graças a seus truques, roubar um humor involuntário da platéia. Ponto pro Guy.
Mas o que seria dele sem a equipe que trabalhou junto?

Começo pela direção de arte. Impecável. Recriaram a Londres da Revolução Industrial com um detalhismo lindo. Fumaça (mesmo que de CGI em muitos momentos), lama, sujeira, navios a vapor, prédios, construções, tudo o que nos fizer lembrar aquele progresso revolucionário. As casas, repare no quarto do Sherlock, rico em tudo o que for mirabolante imaginar. A direção de arte é um dos pontos forte do filme, perfeita. Os figurinos bem colocados e pertinentes a cada personagem. Por exemplo, o Lord Blackwood por ser o vilão, só aparece com roupas que o fazem parecer o vilão mais cruel/feio do mundo; Watson vem com roupas mais recatadas e que lhe dão um charme mais característico; Irene Adler, a personagem feminina da trama, aparece com roupas mais provocantes, dando o ar de ladra cachorra que ela tem.

E para Sherlock, vem o melhor. Descuidado, relaxado, mal vestido. Mas mal vestido com estilo. Gola pra cima, vestido da forma mais extravagante possível, chamando atenção onde quer que vá. A caracterização dele é bem diferente daquele sobretudo que ele vestia, com aquele chapéu diferente. O cachimbo ta lá, mas é a única coisa que sobreviveu de sua imagem original, no meio de tanta mudança. E ainda assim ele consegue se manter fascinante!

E para torná-lo realmente fascinante, deviam chamar alguém que o tornasse. Qual o melhor nome? Robert Downey Jr.. Depois de ver o filme, não consegui imaginar outro no lugar dele, sua atuação, creio eu, é o maior responsável pela reinvenção do personagem, sem fazê-lo perder o jeitão dos livros.

É canalha, é esperto, é cínico e acima de tudo, muito inteligente e esperto, sem contar a química forte que tem com os coadjuvantes. E Downey Jr. prova que mereceu o Globo de Ouro (e rendeu o melhor discurso da noite).

O elenco coadjuvante também ajuda, Jude Law fazendo um Watson excelente, divertido e genuinamente Watson, só que aparecendo um pouco mais. Assim como o Sherlock ele salta, bate, corre e ajuda a resolver os mistérios. Irene Adler poderia ser o maior ponto fraco do filme, mas Rachel McAdams deu o ar de sua graça e fez a sua personagem ganhar o espaço que precisava pra se destacar no filme. E Mark Strong, parceiro de Guy Ritchie em outros dois filmes (Revolver e Rock’n’Rolla – A Grande Roubada) também fez sua parte, personificando um vilão mais ator do que cruel. E se deu bem.

E finalmente Hans Zimmer me convenceu de que é criativo quando quer. Depois de manter o mesmo estilo metalizado que fez o seu nome, em Sherlock Holmes ele não exagera e cria boas músicas (a música tem do personagem é bem grudenta), atenuando bem as cenas de ação e dando um toque todo especial para a aventura. Uma melhora considerável, já que as trilhas de seus filmes anteriores eram mais do mesmo, recortes de outras músicas que havia feito. Reconquistou meu respeito.

E a grandiosidade do filme, sem precisar (e nem querendo) ser pretensioso, só somam, e fazem de Sherlock Holmes um divertido filme blockbuster acima da média. Infelizmente mal recebido pelos fãs puritanos do detetive, o filme vale cada minuto das duas horas que tem. Sentar, relaxar e se divertir.

Nota: 8,0
Sherlock Holmes, Austrália/EUA/Inglaterra (2009)

Direção: Guy Ritchie.
Atores: Robert Downey Jr. , Jude Law , Rachel McAdams, Mark Strong , Kelly Reilly.
Duração: 128 min

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Um detalhe bastante focado durante as quase 3 horas de duração de Avatar, é a divindade que protege os nativos e a vida no rico planeta Pandora. Como essa divindade não toma forma durante o filme, podemos sugerir que se trata de um canadense de 55 anos, egocêntrico e megalomaníaco. James Cameron não possui uma filmografia extensa, mas dentre 9 filmes, uns 80% serem considerados filmes importantes para o cinema, é motivo o bastante para defendê-lo, mesmo se achando o rei da cocada preta.

Muito pretensioso e cheio de vontade de uma vez por todas carimbar pra sempre seu
nome no rol dos grandes do cinema, ele desde Aliens o Resgate (1986) (onde ganhou não só mais dinheiro pra fazer um filme, como também a confiança dos produtores da FOX, já que vinha do incrível O Exterminador do Futuro), quando inseriu efeitos especiais embasbacantes e criou momentos de tensão e ação como nenhum outro.
Fez blockbusters de todas as espécies, desde histórias no fundo do mar à super espiões com problemas conjugais, até atingir o ápice de sua carreira até então: Titanic.

Mas antes de Titanic surpreender o mundo, ele tinha começado um projeto muito pessoal, mas que na época, devido a falta de tecnologia, não poderia ser realizado. Depois do sucesso arrasador da sua aventura nos mares, ele se dedicou a desenvolver a tecnologia necessária pra levar seu projeto adiante. Mas após assistir O Senhos dos Anéis e ver o personagem Gollum ganhando vida, ele pensou ”…está na hora”.

Mas ele não queria apenas captar os movimentos e unir ao filme convencional. Ele queria uma experiência verdadeiramente única, levar o 3D a um patamar diferente, levar o 3D a ser algo realmente próximo da realidade. Ele queria revolucionar o cinema. Motivo de piada por cinéfilos mais ortodoxos e tendo seu filme ameaçado por se tratar de algo muito ambicioso, ele na surdina preparou a coisa toda. Foram 2 anos apenas para ter os movimentos dos atores captados, fora o processo de pós produção, e o resultado desse árduo trabalho é deslumbrante.

Muito artístico, muito bem trabalhado, muito bem detalhado. Ver Pandora “viva” é algo que vai ficar na cabeça por muito tempo. Aos desavisados, pode parecer uma locação aqui pela Amazônia ou qualquer outra floresta tropical do mundo. Mas não é. É impressionante ver que tudo aquilo é criado por computador, e criado de uma maneira que nos leva a ver que a magia do cinema, não morreu. Por mais que existam Rollands Emmerichs e Michaels Bays da vida, existe um James Cameron pra nos mostrar que o cinema ainda e sempre realizará experiências que nos atiçarão a descobrir mundos novos e aguçar a nossa imaginação. Algo que só o cinema pode proporcionar.

Só que infelizmente as novidades terminam aí.

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Por mais megalomaníaco, egocêntrico, grande diretor e tudo mais, James Cameron se acha no direito de errar em detalhes menores, mas que fazem uma grande diferença no resultado final. Senhor Cameron, errar é humano, e isso não lhe faz um Deus.

Por mais que o filme seja riquíssimo em detalhes, riquíssimo em cores, perfeição e beleza, ele é pobre em um texto que esteja a altura do grande trabalho que o filme é. Cameron em seus filmes define antes de tudo quem é quem: mocinho, vilão, personagem avulso, essas coisas. Depois delimita bem o que será a história, mostrando qual caminho vai seguir e preparando o espectador para o que ele quer mostrar. A impressão que fica é “Já vi esse filme antes”, e já viu mesmo.

O modelo é clássico, sem muitas alterações. Durante a projeção fiz links com vários outros exemplos de filmes que possuem uma premissa muito parecida, como por exemplo Pocahontas e Dança com Lobos, e é impossível não enxergar situações em outros filmes. Quanto a isso, o que poderia ser o melhor e maior trabalho do Cameron, perde um pouco do brilho. Se não fosse pelo planeta onde tudo acontece, o filme infelizmente seria mais do mesmo.

Mas mesmo com os defeitos acima, não o é.

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O irmão gêmeo de Jake Sully (Sam Worthington) é um gênio da ciência e morreu pouco antes de ir para Pandora estudar a vida por lá e fazer parte do projeto Avatar. Jake então é convidado pelos acionistas de uma mineradora que procura um metal muito valioso por lá, para ir no lugar do irmão e assumir o corpo Avatar que seria dele. O problema é que Jake está preso a uma cadeira de rodas. Depois de pouco mais de 5 anos viajando, chega ao planeta que foi invadido covardemente pelos humanos. Como diz o coronel, “Um dia em Pandora que vão querer estar no inferno só para descansar”.

Lá ele conhece a Dra. Grace (Sigourney Weaver), que chefia as pesquisas sobre a vida nativa do planeta, e tem feito descobertas valiosas sobre os nativos Na’Vi, extraterrestres com 3 metros de altura que possuem uma ligação muito forte com a sua terra. Mas também conhece Parker Selfridge (Giovanni Ribisi ), um inescrupuloso que comanda toda a logística da operação, que planeja uma “retirada diplomática” dos Na’Vi de um lugar sagrado para eles. Parker conta com a ajuda do Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), que comanda o pessoal militar, responsável por obrigar essa retirada diplomática.

Parker
e Quaritch vêem em Jake a solução de seus problemas, e utilizam o projeto Avatar ao seu favor. O projeto Avatar consiste em passar a mente de um humano para um corpo sintético que suporta viver em Pandora, já que seu ar é mortal aos humanos. Os Avatares imitam com perfeição os Na’Vi, facilitando a sobrevivência no planeta. Jake recebe a tarefa de em 3 meses conquistar a confiança dos nativos e convencê-los a se retirarem do lugar sagrado, onde por sinal encontra-se a maior jazida do minério que tanto buscam.

O problema é que Jake acaba se envolvendo demais com os nativos, com direito a amor proibido e tudo mais, e precisa escolher, em que lado ele vai lutar.

Venhamos e convenhamos, o roteiro é pobre. Mas contrasta com a riqueza visual de Pandora. Avatar acerta em muita coisa, mas é nos menores e mais importantes detalhes que se afunda.

O roteiro em si, não é muito elaborado. Atolado de clichês e um enredo já batido, ainda assim consegue envolver o espectador e causar uma verossimilhança tremenda com o nosso mundo.

Já começando desconcertando as coisas, transformando o homem em ET, o filme nos coloca como dominadores de um mundo sem defesa. Os nativos lembram muito os indígenas que morreram aos montes em várias partes do mundo onde o imperialismo reinou e ainda a guerra ao terror dos Estados Unidos, sendo sutilmente criticada, mas no fim, lembra muito a guerra do Vietnã, onde venceu quem conhecia o terreno, e não quem tinha as melhores armas.

Tudo isso conta como ponto a favor da trama, mas não esconde furos tremendos, tampouco a falta de cuidado em criar diálogos que de nada acrescentam ao filme. Sem profundidade nenhuma e sendo raso em boa parte da história, por mim é considerado o maior defeito do filme. E digo mais, é o único defeito do filme.

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Saindo dessa parte, o que realmente vale a pena mesmo é o que por trás da história e diga-se de passagem, é o grande atrativo do filme. O tempo levado para desenvolver a tecnologia e o árduo trabalho por trás de tudo isso, foi recompensado com uma criação inigualável, de um mundo que só mesmo o cinema poderia proporcionar. Por conta disso, Avatar é um grande colosso cinematográfico, grandioso em tudo e épico desde já.

Filmado para ser a revolução 3D e adicionada ao novo xodó do cinema, o formato IMAX, o filme é de um apuro técnico invejado, os Na’Vi e todas as criaturas vivas de Pandora não parecem ser meros efeitos de computador, mas sim seres vivos, detalhadamente construídos.

Atentem para os detalhes nos olhos, eles ganham vida! Atentem para veias e as covinhas nos cantos das bocas, principalmente da Avatar da Sigourney Weaver, as expressões são incrivelmente idênticas as da atriz. O mesmo pode se dizer de Sam Worthington e Zoe Saldana (que interpreta Neytiri, a nativa que roubao coração de Jake Sully).

Durante a captura dos movimentos, quando os atores vestiam aquelas roupas com pequenos pontos que captavam os movimentos de seus corpos, micro câmeras filmavam seus rostos ao mesmo tempo, e depois as imagens gravadas eram manipuladas por computador e geraram um efeito onde o realismo é de uma perfeição que chega a emocionar. E o mesmo acontece com os animais e plantes que habitam Pandora. O olhar é o espelho da alma, e neste filme, todos no filme transparecem suas almas, sejam humanos, sejam Na’Vi, sejam animais voadores que parecem helicópteros do DaVinci.

A fauna e flora do planeta é algo esplendoroso. Não só a vida do planeta mas outros detalhes como água de rios e até as improváveis, porém realistas montanhas suspensas, são de uma beleza ímpar. Eu achava que Peter Jackson havia alcançado esse efeito com os cenários virtuais de King Kong, mas Avatar abocanhou esse posto muito merecidamente.

O chato é que nem todos terão acesso a essa “revolução”. Nem todo cinema possui IMAX, nem todo cinema é 3D. Mas mesmo em 2D é possível notar a beleza do trabalho praticamente artesanal do filme. Foram cerca de 1000 pessoas envolvidas. O resultado é fantástico.

A parte de som beira a perfeição. Foi algo que realmente nos inseriu dentro da proposta do filme, não apenas barulho, mas sons que nos fazem ir até Pandora e lá ficar inerte por muito tempo. A lindaça fotografia é outro ponto forte. Mesmo o filme sendo digital em boa parte, é quase impossível distinguir o que é real e o que é criado em computador. Esse fato que James Cameron atinge, é certamente uma das coisas mais próximas a realidade que um filme poderia chegar.

A trilha não é de muito relevante, infelizmente.
O grande parceiro do Cameron, James Horner, entrega uma trilha pobre, e em muitos pontos parecidas com outros trabalhos dele, sendo o mais gritante Titanic. Sem contar a música tema do filme, que mesmo sendo boa de se ouvir, acaba lembrando muito My Heart Will Go On.

Mas creio que infelizmente, James Cameron irá viver sempre na sombra do que Titanic representou não só para a sua carreira, mas também para a cultura pop. E por falar nele, aqui ele prova mais uma vez ser um grande diretor de cenas de ação. Mas também, cria momentos lindos, que garantem a sua grandiosidade e consolidam a tal revolução no modo de fazer cinema que ele tanto quer. Cito por exemplo a cena em que Neytiri carrega no colo Jake Sully em forma humana. O toque que Jake dá no rosto dela é de arrepiar. Cameron capta com muita competência tudo isso. A edição, que ele assina também, é outro componente a favor, já que deixa tudo mais claro, e não aquele retalho de cortes que Michael Bay faz em seus filmes. As cenas de ação são intensas e empolgantes, garantindo a diversão que o filme propõe.

E foi com isso que o filme me conquistou. Não precisou ser um primor no roteiro, mas sendo algo que está ali pra divertir e oferecer sensações que nenhum outro filme conseguiu recentemente, já vale a consideração. Foi como se eu estivesse assistindo a O Mágico de Oz com 6 anos de novo. Completamente hipnotizado pelo filme. O efeito foi o mesmo. Entrar em Pandora foi como visitar o mundo de Oz mais uma vez, só que agora em outra conotação.

É com toda a segurança do mundo que admito: James Cameron conseguiu mais uma vez, queiram ou não.

Claro que ele poderia ter trabalhado num roteiro mais elaborado e sem tantos erros, o que certamente transformaria Avatar numa grande obra prima. Mas lembrem-se, roteiro nunca foi o forte do Cameron. Então sente-se e sinta Pandora. A experiência é ímpar.

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Nota: 9,0 (poderia ser 10, mas Cameron derrapou no roteiro!).

Avatar, 2009

Direção: James Cameron.
Atores: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Lola Herrera, Joel David Moore, Giovanni Ribisi, Michelle Rodriguez, Stephen Lang, Wes Studi, CCH Pounder, Laz Alonso, Dileep Rao, Matt Gerald, Sean Anthony Moran, Scott Lawrence.
Duração: 162 min.

O Exorcista

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Os anos 70 realmente foram importantes para o cinema. Lá foi divisor de água na vida de Martin Scorsese, fez um panorama de um mundo em crise, em guerra, e claro, com medo. O cinema fez um estudo completo do que foi aquela década, contando histórias que vão da superação (como Rocky) à solidão (como Táxi Driver). Mas lá no meio de tantas obras primas, havia um terror que chegou chegando, invadindo a cabeça e a mentalidade de uma nação fervorosamente religiosa e que estava passando por uma crise tenebrosa. O Exorcista conseguiu ir além de um filme de terror.

William Peter Blatty precisava pagar as contas, e durante a faculdade, escreveu o que seria o seu Best Seller e consequentemente o passaporte definitivo para o cinema. Do livro que escreveu, construiu um roteiro que podemos sem medo dizer que é a xérox do original. O filme chegou às mãos de William Friedkin, um diretor que estava em alta no começo da década com filmaços como Operação França, pelo qual recebeu um OSCAR. O filme pronto foi como um choque na sociedade. Tratar de um tema tão delicado, que envolvesse religião e dúvida quanto a fé poderia ser arriscado. Tanto que até hoje, polêmicas em cima de polêmicas cercam o filme. Só que O Exorcista não deve ser visto apenas como um filme de terror.

Chris MacNeil (Ellen Burstyn) é uma atriz de muito sucesso. Alugou uma casa em Washington, que está servindo de locação para seu novo filme, um musical dirigido por um excêntrico e beberrão diretor, Burke Dennings (Jack MacGowran). Ela levou junto o casal de empregados, a secretária de todas as horas Sharon (Kitty Winn) e a filha de 12 anos Reagan (Linda Blair).

Na casa tudo está ocorrendo bem, tirando as piadas de humor duvidoso por parte de Burke dirigidas a Karl, um dos empregados. Chris e Reagan tem uma relação que vai além da paternidade e amizade. Mas algo mesmo assim mantém elas distante uma da outra. Na solidão da pré adolescência, Reagan encontra conforto numa mesa de ouija, um jogo onde ela pode conversar com espíritos. Os dias vão passando e barulhos estranhos começam a rondar a casa, Reagan começa a demonstrar um comportamento estranho, profere palavrões e protagoniza cenas bizarras em casa. Preocupada a mãe procura ajuda médica.

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Começam um tratamento que não surte muito efeito a principio, Reagan começa a tomar remédios controlados e seu estado só piora. Ela se transforma num monstro, e quando tudo começa a ser ligado a esquizofrenia, as suspeitas de possessão demoníaca começa a ser evidente. Chris que nunca acreditou nisso começa a procurar desesperada a ajuda de tudo e todos.

Do outro lado há o padre Damien Karras (Jason Miller), uma versão católica de Rocky Balboa, tanto na fisionomia quanto no psicológico. Ele perdera a mãe recentemente e tem passado o tempo duvidando da própria fé. Há também o padre Lankester Merrin (Max Von Sydow), que há muito tempo (história contada na bela porcaria Exorcista o Início) enfrentou o demônio e crê que ainda há contas a serem acertadas entre ele e o demônio, o Pazuzu.

As coisas começam a piorar depois que o diretor Burke é brutalmente assassinado e o intrometido Tenente William F. Kinderman (Lee J. Cobb) parte para a investigação. E também Reagan demonstrando seu lado demoníaco de maneira mais que assustadora, com voz engrossada, força sobre humana e mais ofensas.

O demônio é mentiroso e usa disso para brincar com as pessoas, e o caminho até o exorcismo será marcado por espinhos e pedras. O padre Karras e o padre Merrin terão problemas tanto com o demônio quanto com sua própria fé. O mesmo para Chris que passará pelo mesmo aperto.

Presente em todas as listas de “Melhores filmes de terror do cinema”, O Exorcista é um filme que consegue ser imparcial ao que tange o tema da religião. Em nenhum momento o filme defende ideologias e nem faz pregações sobre o tema. Apenas mostra o que tem que mostrar, a interpretação do lado religioso cabe ao espectador ver, e com isso, o filme alcança o seu maior triunfo. William Friedkin, conseguiu criar um suspense incrível em cima de um tema que geraria polêmica atrás de polêmica. E ele conseguiu se sair bem e ainda por cima superar as espectativas.

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Baseado no próprio livro, William Peter Blatty nos oferece detalhes incríveis de uma situação que vive no imaginário das pessoas há muito tempo. Baseado em uma história verídica, ele criou toda a sua trama conseguindo agradar vários estilos. O filme infelizmente engoliu alguns, mas conseguiu com uma precisão cirúrgica explorar outros de forma magistral. O drama constante e o suspense marcado por pouco grito e muita coisa chocante, criam um clima perfeito para o enredo e com muita competência, Friedkin conseguiu repassar isso na tela.

A direção é ágil, beirando a perfeição. Ele se agarra aos elementos técnicos e cria um espetáculo visual tremendo. Que fotografia linda! O uso de luz, principalmente na seqüência do exorcismo chega a ser perfeito.

O som é outro estouro, ainda mais na versão restaurada de 2000 (aquele telefone ainda me deixa de cabelos em pé). Os barulhos deixam tudo mais tenso e essa jogada consegue deixar as cenas com uma tensão deliciosa, coisa que as desnecessárias continuações esqueceram de ter.

Mas uma coisa que me deixou muito apavorado foi os rostos do Pazuzu que aparecem em certos pontos do filme. Note que não há som que indique a aparição deles (se fosse hoje em dia teria uma música e o filme perderia uns 20% da graça), o silêncio é o que causa o tau susto. O melhor é a sensação que deixa. Por umas semanas andei vendo aquele rosto pela casa e claro, fiquei apavorado. Ainda bem que os deuses conspiraram ao meu favor e isso acabou, mas veja o que um bom filme de terror causa. Duvido que outra produção de terror consiga deixar essas sensações por algum tempo.
Outro ponto que não poderia deixar de destacar é a construção da trama e das personagens. Mesmo que paralelas, conseguem andar juntas e entregar um resultado maravilhoso. Com uma montagem caprichada, o filme parece contar 3 histórias: Chris MacNeil e seus probelamas com a filha e a morte de Burke Dennings, Padre Karras e seu dilema com a fé, e Padre Merrin e seu inimigo, o Pazuzu. E tudo se junta ao final do filme, as três histórias e seu desfecho que para uns é o esperado e para outros ainda surpreendente.

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Atuações perfeitas e muito convincentes completam o filme. Dez indicações ao OSCAR, o primeiro filme de terror a ser indicado (merecidamente) a melhor filme e vencedor em duas categorias: Roteiro Adaptado e Som.

Um filme histórico, e certamente um dos melhores do gênero.

Nota: (não poderia ser outra) 10 e com aplausos em pé!

The Exorcist, 1973 (EUA)

Direção: William Friedkin
Atores: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran
Duração: 123 min