“Sete Dias com Marilyn” (My Week with Marilyn, 2011)

O pronome possessivo “meu” no título original se refere a Colin Clark (Eddie Redmayne), um jovem obcessado por cinema, que se torna assistente de  Laurence Olivier ( Kenneth Branagh, perfeito no papel), no filme “ O Príncipe Encantado” (1957). Durante as filmagens, ele se torna o único confidente de Marylin Monroe, depois que o marida da estrela  Arthur Miller ( Dougray Scott) se ausenta.

Portanto, “Sete Dias com Marilyn” não é uma cinebiografia sobre a vida da deusa hollywoodiana, mas um relato do relacionamento de Marilyn com Clark, e consequentemente com Laurence Olivier, enlouquecido com a neurose da deusa.

Claramente, a densidade poética do filme é focada na figura de Marilyn. Michelle Williams faz um excelente trabalho mostrando Marilyn de sua elegância cativante a sua neurose. E, acho que se não fosse Williams, o filme não seria tão gostoso de acompanhar.

Entre as indicadas ao Oscar deste ano, Williams era a minha atriz favorita. Dando uma olhada na sua filmografia, ela se tornou especialista em representar mulheres comuns: sua sofrida Alma em “Brokeback Mountain” (2005), a deprimida Wendy, do maravilhoso drama “ Wendy & Lucy” (2008); a esposa maníaca-depressiva com um olhar de “peixe morto”, no intenso “ Ilha do Medo ( 2010); a infeliz e  mal-humorada Cindy, do triste “Blue Valentine” ( 2010); e a perdida Emily, do belo, em busca de uma metáfora e significado subjacente “Meek’s Cutoff”(2011). Depois desses filmes, eu nunca poderia imaginar Williams fazendo uma mulher sedutora do porte de uma Marilyn Monroe. Honestamente, fiquei surpreendido como ela recriou o ícone hollywoodiano, de uma forma humana, sem tentar imitar-la!.
Quando Michelle está na tela ninguém consegue prestar atenção em mais nada, mas em Marilyn Monroe. Sim, Williams não se parece com Marilyn, mas isso não é um problema, pois ela vai te seduzir como Marilyn sempre faz.

“Sete Dias com Marilyn” é um filme interessante e bem feito, mas satisfaz apenas por ter a figura de Marilyn, pois como um filme em geral fica aquém.

Nota 7,0

“Shame” (2011)

Shame” não foi o filme que “visualizei” quando li o roteiro de Abi Morgan (que sozinha, escreveu o medíocre “The Iron Lady”, 2011) e Steve McQueen. E, nem poderia imaginar que o filme receberia uma classificação NC-17. Não que pensei que o conteúdo do roteiro fosse assim tão fácil. Bem, achei o filme bem melhor do que a sua “fonte original”: uma crônica sobre vida de um jovem homem, que vive sozinho em uma cidade grande (New York), e, é viciado em sexo. Isolado, Brandon Sullivan (Michael Fassbender), vive em crise: parece não ter criatividade, ou relações primárias, e sofre muito com a visita inesperada de sua irmã Sissy (Carey Mulligan) .

Na verdade, a vida sexual de Brandon, é intensa. É intensa porque parece ser uma vida sem sentido: passa o seu tempo, assistindo videos pornos, em seu computador; ou apreciando sexo virtual; ou, se masturbando em casa ou no trabalho; paquerando, ou tendo relações sexuais com estranhos. Ninguém ao redor de Brandon, o conhece melhor do que a sua irmã, que deixa uma mensagem no telefone do rapaz: “Não somos pessoas ruins… apenas viemos de um lugar ruim…” É inquestionável que seria embaraçoso se fôssemos capazes de saber da vida sexual do outro, certo? E, como Brandon não diferente.

Quando Sissy se instala no apartamento do rapaz, por um tempo indeterminado,  será possivel notar que relação entre eles, é tão ambígua quanto complicada de entender. A presença de Sissy faz Brandon se sentir mais deprimido, e irritável. É fácil ver que ele é incapaz de descobrir a fonte de sua angústia, o que torna o desempenho Fassbender extremamente complexo e delicado. Há um monte de cenas que vemos Brandon culpando Sissy, mas nunca ele próprio por a sua ansiedade crescente. Ele parece ser incapaz de tomar decisões saudáveis e nunca parece reconhecer as conseqüências de suas ações.

Parece ser mais fácil de entender vícios em substâncias ilegais, alimentos ou bebidas alcoólicas, do que um vício de comportamento como o sexo. Dependência de substâncias envolve colocar algo estranho em seu corpo — bebida, ou cocaína. Sexo faz parte da natureza humana, e por tal, é mais privado!. Por exemplo: a vida de Brandon não é focada apenas em ter um orgasmo –  em várias cenas, Brandon passa longos períodos apenas pesquisando, sem nunca ter um orgasmo ou mesmo uma ereção. Quando ele tem um orgasmo, fica o vazio– o alívio da tensão emocional através do sexo anônimo. No rosto de Brandon fica a expressão de culpa e vergonha.

Steve McQueen é um grande artista. Um cineasta incrível, cujo primeiro filme “Hunger” (2008), é uma pequena obra de arte. O filme trata da vida de Bobby Sands, o líder da greve de fome do IRA em 1981. É um filme bem superior a “Shame”, porque este último não tem uma estória em si. “Shame” é apenas uma “cronica” de um ser humano viciado em sexo.  Não sabemos muito do passado de Brandon, e nem mesmo que tipo de relação ele teve e tem com Sissy. E não existe uma conclusão para o fim do seu vicio, até porque McQueen fez o seu filme sem qualquer senso de julgamento em relação a Brandon.

Achei o desempenho de Fassbender, nada mais, nada menos do que perfeito. Foi injusto, que o seu esforço não lhe valeu uma indicação ao Oscar, principalmente porque ele tinha nas mãos, o personagem mais complexo de se construir. Fassbender me chamou a atenção pela primeira vez, em “Fish Tank” (2009), filme britânico muito elogiado. Este filme faz um excelente olhar na vida de uma adolescente que cresce no bairro pobre. Ela se sente mal- amada e presa no meio familiar sem estrutura. A mãe é promíscua e alcoólatra, que traz para casa, o seu belo e misterioso namorado interpretado por Fassbender, que roubou o filme para si. Fassbender é melhor do que filme. Ele, mais uma vez me surpreendeu em “Hunger” (2008). E o seu Edward Rochester, em “Jane Eyre” (2011), é perfeito.

Porém, a maior surpresa em “Shame” é Mulligan, que esteve adoravel em “An Education” (2009), mas aqui, ela me surpreendeu, não porque ela aparece totalmente nua, mas porque a sua Sissy me apresentou uma atriz madura. A vulnerabilidade e veracidade que Mulligan deu a Sissy, me fez amá-la como atriz. A cena que ela canta “New York, New York”, é bastante triste, mas tem outra cena, quando Sissy e Brandon estão discutindo, sentados no sofá, é de querer rever. No fundo, a Tv está ligada, mostrando um desenho animado em preto-e-branco. Os quadros feitos por McQueen, mantem Mulligan à direita e Fassbender à esquerda. Quando a cena intensifica, lágrimas começam a cair do rosto de Mulligan, mas mais importante é que elas caem do seu olho direito. As lágrimas não são imediatamente visíveis, até que elas estão penduradas suavemente no seu queixo e rolam no seu pescoço. A intensidade do diálogo, é uma coisa, mas a sutilidade emocional do que eles falam, fortemente me emociou.

Eu não posso esperar para rever “Shame” quando chegar em DVD. É apenas o segundo filme de McQueen, mas isso apenas prova que ele é um cineasta maravilhoso!.

Nota: 9,0

“Jogos Vorazes” (The Hunger Games, 2012)

Não li a trilogia “The Hunger Games” de Suzanne Collins, e nunca me interessei com a estória que envolve uma batalha até a morte entre crianças. Porém, fiquei curioso de ver o filme por causa de seu tema frio, escuro e triste e como seria transposto esse sentimento dentro um filme para adolescentes.

Para quem não conhece a estória de “The Hunger Games,” eu entendi que tudo se passa nas ruínas da América do Norte chamada de “Capitol.” Uma sociedade futuristica, onde os ricos e privilegiados, se vestem como se estivessem revivendo os anos 80, e olham com desdém para os 12 distritos numerados abaixo deles. Estes distritos representam níveis variados de pobreza e de habilidades, incluindo mineiros, agricultores, metalúrgicos e outros. Numa tradição anual chamada de “The Hunger Games”, em que um adolescente e uma menina de cada distrito são selecionados como “tributos” para lutar em uma batalha até a morte como um lembrete do poder do “Capitol.”

Nos jogos mais recentes, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, graciosa, e repetindo a mesma determinação de sua Ree em “Inverno da Alma”, 2010), uma residente do mais pobre de todos os distritos, Distrito 12, onde ela caça esquilos apenas para ter algo para trocar no mercado para manter o bem estar de sua mãe e irmã. Seu melhor amigo é Gale (Liam Hemsworth, cujo papel é extremamente limitado). Katniss se voluntaria para lutar após o nome de sua irmã foi selecionado para participar do “The Hunger Games.” O filho do padreiro, Peeta Melark (Josh Hutcherson, o filho das lésbicas em “Minhas Mães e Meu Pai”, 2010) é o representante masculino. De acordo com as regras, apenas um ou nenhum desses dois combatentes vai retornar ao Distrito 12 vivo.

O filme tem cara de video game, e também muito me fez lembrar de “The Truman Show” (1998)– os jogos são televisionados para todos os 12 Distritos, onde as pessoas assistem como seus filhos são assassinados para a satisfação do governo opressor. Duas vezes no filme um gesto de mão é feita em três dedos, que é mantido como uma forma de solidariedade– a platéia pareceu ser SUPER fã do livro, pois levantaram as mãos, repetindo o mesmo jesto!.

Fiquei realmente dividido se gostei tanto do filme ou não. No início, onde somos apresentados a esse mundo moderno — e ao mesmo tempo cafona–, emoldurado na fotografia pálida assinada pelo fotografo de Clint Eastwood, Tom Stern, me entediadou em alguns momentos!. Stern pinta o filme com tons cinzas, e depois faz um contraste bem brilhantes de cores (na “The Capitol”) e os verdes da arena do “jogos da fome.” Tudo alinhado nos inumeros cortes das cenas editadas por Juliette Welfling (The Diving Bell and the Butterfly, 2007), e Stephen Mirrione (Traffic, 2000).

Honestamente, achei que o filme tem muitas cenas bobas, e que me deixaram com aquela vontade sair da sala de cinema, porém a estória do filme em si me envolveu e eleveu os meus animos por explorar temas como “reality shows”, controle da mídia e dessensibilização da sociedade para a violência.Infelizmente, o roteiro se arrasta demais em coisas irrelevantes, e não desenvolve plenamente esses temas. Por exemplo, Katniss é aconselhada por seu mentor Haymitch (o sempre talentoso Woody Harrelson) para se “engraçar” para os espetadores, na esperança que os patrocinadores lhe enviará auxílio – alimentação, água, remédios – enquanto ela está presa dentro da arena.

Infelizmente, o filme nunca explora esse engraçamento da personagem com o expectador, apenas se limita em mostrar um romance entre ela e Peeta. E, com exceção de Katniss e Peeta, nenhuma das crianças (personagens) na “arena” são adequadamente desenvolvidas. Não tive idéia quem são ou o que eles são capazes de fazer, e não existe nenhuma conexão emocional com Katniss. Entre as crianças, há um rosto conhecido, o de Isabelle Fuhrman (“Orphan”, 2009, que é talentosa e não merecia ganhar um papel quase sem falas!).

Quando o abate começa, senti o impacto. E, achei excelente a direção de Gary Ross, que não mantem a câmera com firmeza – filma numa forma irregular girando ao redor, de um modo a distorcer o que realmente está acontecendo. E, pelo que vi, ele foi capaz de levar as coisas muito longe em termos de violência. Me perguentei se o material teria ganho algumas restrições em termos de avaliação se Ross e os outros roteiristas Suzanne Collins (a autora do livro!) e Billy Ray tivessem desenvolvido e nos dessem a oportunidade de nos envolvermos um pouco com crianças que estavam sendo mortas.

O elenco de apoio é bom, Elizabeth Banks mesmo nauseante como a emissária, não compromete; Lenny Kravitz — que deveria fazer mais filmes–, tem alguns momentos de ternura, como o estilista encarregado de fazer Katniss apresentável. O melhor de todos é Stanley Tucci, fazendo uma combinação perfeita de extrovertido e assustador como o apresentador de talk-show.

Não existe efeitos visuais de cair o queixo neste filme, e dá para justificar a razão, pois os efeitos não são tão importantes quanto a estória, e se alguma coisa em “The Hunger Games” prova é que ninguém precisa gastar 300 milhões dólares em efeitos especiais, desde que você tenha uma boa estória.

Honestamente, para quem leu livro comprende melhor as lacunas nos personagem por trás da estória—isso é preenchido, onde o filme está faltando. E, creio que assim faz o filme parecer melhor do que ele realmente é.

Certamente, “The Hunger Games” possue um enredo muito interessante, e também é um filme de ação bem melhor do que muitos que vi nos ultimos anos!. Não que ele seja uma obra-prima, mas vale ser visto…principalmente, quem está com uma grana extra!. E, o que achei perfeito “The Hunger Games” foi a linda trilha sonora escrita por James Newton Howard!.

Nota 7.0

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010)

Foi uma longa espera para apreciar Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, e infelizmente toda a minha ansiedade foi em vão, mas por que?. Simplesmente porque esse filme não mostra nada mais do que o primeiro filme mostrou– faz exatamente a mesma coisa do que o seu antecessor!.

Tudo que li sobre “Tropa de Elite 2” foi que o mesma era melhor que o original — o achei menos sangrento!. Também que fora o maior sucesso na história do cinema brasileiro, mas nem por isso, eu fiquei impressionado com o que vi!. Por sinal, o achei enfadonho, e bastante arrastado na ilustração sobre a violência patrocinada pelo governo, e a ruína do Brasil. E, honestamente, o uso exagerado de “voice-over” não me ajudou em nada. Achei que o narrador assumido na camera de Jose Padilha era suficiente para nos fazer entender muito do que estava acontecendo. Revelar os pensamentos interiores do tenente Nascimento em muitas cenas foram desnecessários, pois a interpretação de Wagner Moura é tão perfeita que em muitas cenas o uso de “voice- over” não revela nada mais do que nossos olhos já estão vendo.

O enredo inicia-se com o tenente-coronel Roberto Nascimento (Wagner Moura, sempre brilhante!!), que é trazido para ajudar a acalmar uma rebelião na prisão, mas tudo resulta em um banho de sangue colossal. Diogo Fraga (Irandhir Santos), um ativista de direitos humanos quer se certificar de que os prisioneiros sejam tratados humanamente, e assim causa uma grande dor de cabeça na vida de Nascimento. E, para piorar, ironicamente, o ativista é casado com a ex-mulher do tenente-coronel, e ainda prova ser um pai melhor para o filho adolescente dele — o que provoca em Nascimento uma crise de personalidade: ele começa a se perguntar se a vida de violência que ele leva, realmente valeu a pena, e se seus pesares em como ser um bom policial o transformou num péssimo pai e num marido ausente. O filme cai num melodrama bem chatinho!!!

Foi escolhido para representar o Brasil no Oscar deste ano, mas acho que lhe faltou um “lobby” para lhe garantir uma vaga. Não é ruim, mas acredito que o Brasil tinha um filme melhor do que esse. Bem, “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” me fez cochilar…e quando um filme me causa sono é porque ele não me tocou!

Nota 5,5

“…E o Vento Levou” (Gone With the Wind. 1939)


Acredito que tinha apenas cinco anos quando assisti o meu primeiro filme, e foi um experiência horrível!. O filme era “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), o qual eu nunca revi!– não que fora um filme ruim, mas não fora um “gênero” que logo assim gostasse. Antes de superar esse trauma, assisti “…E o Vento Levou”– a minha irmã mais velha era fascinada pela Scarlet O’Hara. Literalmente, não entendi muita coisa sobre o filme, mas me encantei com a beleza do filme, e a linda música!.

Ano a ano, era um ato quase religioso rever o filme no final do ano. Depois de ser já lançado em VHS, eu via, e revia o filme, e assim me apaixonei por “…E o Vento Levou.” Quando cheguei nos EUA, Atlanta foi o meu destino, e recordo do “hall” no aeroporto, onde se tinha e tem uma homenagem a “Guerra Civil”, e detalhes sobre o filme de Victor Fleming. Foi mágico porque estava  na cidade, onde celebrava a visão dos derrotados sulistas!.

Sempre fui fascinado pelo o filme, e logo quis ler o livro — apenas 1037 páginas!!. Passei um ano para terminar o romance de Margaret Mitchell, porque não queria apenas lê-lo, mas devorá-lo lentamente. A narrativa de Mitchell é tão bela quanto ao filme !.

Ontem à noite, tive a chance de assistir “…E o Vento Levou” no cinema– numa verdadeira tela de cinema!. O cinema estava totalmente lotado!. Tudo bem, “…E o Vento Levou” detem muitos títulos: filme mais popular de todos os tempos; maior exemplo de cinema clássico de Hollywood e  melhor filme de todos os tempos. Vê-lo no cinema foi como se o tivesse visto pela primeira vez– a energia dentro do cinema era inacreditável: todos riam, e vibravam com os personagens.

Vivien Leigh faz Scarlett uma das mais vívidas personagens da historia do cinema– e talvez, nos presenteou com o melhor desempenho de uma atriz premiado com o Oscar. Leigh comando o filme com seus olhos nervosos, o rosto ‘quase’ de mármore esculpido, e aquela levantadinha da sobrancelha direita, que é um charme!. Creio que  não deveriamos gostar de Scarlett–ela é uma mulher má, mimada, que viola todas as regras estabelecidas por uma sociedade agradável. Além disso é egoísta, mercenária, ladra de homens, mas não se pode deixar de amá-la. Uma figura forte, firme, que sabe que o mundo não vai fazê-la nenhum favor, então foda-se o mundo, e uma boa parte do ‘povinho’ que vive nele. Scarlet é uma mulher moderna, mas erra ao ser mimada demais e passa a vida querendo algo que ela não pode ter, o amor de  Ashley Wilkes, um homem tão inexpressivo, que nunca consegui entender o porque desse desespero dela por ele.

Gable tinha 37 anos quando fez Rhett Butler– eu jurava que ele tivesse o dobro dessa idade. O seu Rhett é um homem sábio, e admirado, não apenas pelo “boboca” do Ashley, mas por outros sulistas. Mas, diante do amor, mesmo consciente, se mostra bobo para ter Scarlet.  A cena que ele se sente culpado depois de desejar que Scarlet sofra um acidente– o que acontece, e ela perde o bebe–, é possivel sentir a dor dele.  A cena partiu meu coração como se nunca tivesse visto antes!. Que ator maravilhoso!.

E, talvez a atuação  mais subestimada seja de Olivia De Havilland como uma santa em forma de gente!. Melanie é bonizinha demais, compreensiva demais, e não julga a nada e a ninguém. Uma verdadeira cristã que encontra o bem em quase todos. Rhett Butler refere-se a ela como a única pessoa genuinamente boa que ele já conheceu. Depois de ver o filme tantas vezes, aprendi a gostar da Melanie, principalmente pelo modo que ela ama e admira Scarlet — no mesmo nivel que ama o marido.

A primeira parte do filme tem como pano de fundo a guerra, a destruição de Atlanta– como Rhett diz a Scarlet, “dê uma boa olhada, minha querida. É um momento histórico. Você pode contar aos seus netos como você viu o Velho Sul desaparecer em uma noite”–,  e do plantio dos O’Hara, Tara. As imagens são  gloriosas e  emocionalmente brilhantes em termos visuais. E, mais importante ainda, essa primeira parte mostra o desenvolvimento de Scarlett, de mimada a uma mulher endurecida– ainda jovem!–, e determinada. Seu relacionamento com Rhett está lá, mas é mantido no “fundo”. Há tristeza–Atlanta em chamas–, humor, e cenas lindas de tirar o fôlego como a da sillueta avermelhada de Scarlett, dizendo  ” como Deus é minha testemunha…. Eu vou viver tudo isso e quando tudo acabar, eu nunca mais sentirei fome novamente…. Se eu tiver que mentir, roubar, enganar ou matar. Como Deus é minha testemunha, eu  jamais sentirei fome novamente.” E a todos no cinema aplaudiram – algo que me deixou arrepiado!!!

Na segunda metade, Scarlet vai mentir, roubar, enganar, e matar assim como prometido, mas o filme se concentra no drama,  ela continua ‘louca’ por Ashley, e Rhett vai se tornando cada vez menos sucedido. A narrativa pode até ser digna de uma telenovela, mas o material é tão bem apresentado e atuado, que não se torna menos relevante do que a primeira parte. E na tela grande “…E o Vento Levou” é tão surpreendente que não da para pensar que o filme tenha 73 anos de idade. O enredo, enquanto “progressista” e “moderno” para os anos 30, raramente é ingênuo. O diálogo é, muitas vezes brilhante, e algumas das trocas entre Rhett / Scarlett são particularmente inteligentes. Tal como acontece com todos os casais, seus olhares e linguagem corporal diz tanto ou mais do que suas palavras!. O filme não é sentimental porque ele é temperado num enredo longo com uma variedade de seqüências animadas e bem-humoradas. Os personagens são fascinantes, tanto por conta própria e na sua interação com outros. Destaque  para Hattie McDaniel, cuja brilhante Mammy parece um ser humano real.

Bem, a experiencia em ver “…E o Vento Levou” numa verdadeira tela de cinema, me fez ter a certeza que o filme é um espetáculo, um evento. Mesmo que os nossos hábitos tenham mudado ao longo dos anos, é fácil ver por que esse filme ainda provoca  tamanha onda de louvor, pois a sala de cinema estava lotadissima.  Um filme clássico que pode ser chamado de lenda.

Apenas levou 8 Oscars das 13 indicaçõess que recebeu, e como perdeu nas categorias como melhor ator para Gable, melhor trilha sonora para Max Steiner, melhor efeito especial, e melhor som?!

O Artista (The Artist. 2011)


Será que é pedir demais para o público apreciar um filme como “O Artista”?. Não sei não!. O enredo do filme em si não é exatamente novo– nem quero usar a palavra “original” aqui, porque hoje em dia, tudo se copia!.

Quando a estória começa, George Valentin (Jean Dujardin) é uma das principais estrelas da época, um astro arrogante do cinema mudo — do calibre de um Rudolph Valentino ou Erroll Flynn!. Valentin é um cara bem-humorado, apesar de uma vida doméstica fria ao lado de sua esposa (Penelope Ann Miller). Provavelmente, o estrelismo o fez esquecer da sua “amada”, embora o mesmo tenha uma grande devoção pelo seu cãozinho, que está com ele em tudo e qualquer lugar!.

Ai, surge uma fã de Valentin, Peppy Miller (Berenice Bejo) que se torna atriz — depois de vir de papéis inexpressivos em filmes mudos, Miller faz uma extraordinário transição ao cinema falado. Num estilo “Nasce uma Estrela” e “Cantando na Chuva”, vemos Miller se tornar uma estrela e Valentin cair no ostracismo no estilo bem Norma Desmond em “Sunset Blvd.”

O elenco é perfeito: me envolvi com a estrela Jean Dujardin – um ator de um seu sorriso largo, e irresistível!. Que presença magnética na tela!. Merece sim levar o Oscar de melhor ator do ano!!. Berenice Bejo, que tem um grande papel, e está perfeita, não deveria estar concorrendo ao Oscar de coadjuvante, mas sim de melhor atriz principal!. E, o John Goodman faz um “Louis B. Mayer” sublime!.

Lindos figurinos, e cenários de encher os olhos – as cenas externas em L.A são um espetáculo a parte!. A fotografia de Guillaume Schiffman, que fotografou o ousado “Anatomy of Hell”(2004), é simplesmente de cair o queixo!!. Creio que a trilha sonora de Ludovic Bource seja não apenas a alma, mas o que sustenta o filme em si, embora as melhores faixas sejam aquelas escritas por Bernard Hermann, tiradas do filme “Vertigo” de Hitchcock. Não sei que critério foi estabelecido para a sua candidatura ao Oscar, pois recordo que o trabalho de Clint Mansell em “Black Swan” (2010) foi menosprezado pela academia porque ele usou elementos da música de Tchaikovsky em “Swan Lake”, ou até mesmo a trilha de Jonny Greenwood para o filme “There will be Blood” ( 2007), foi preterida porque Greenwood usou material pre- existente de sua propria autoria!. Não será injusto se Bource vier a ganhar o seu Oscar, mas em mais de 10 minutos de imagem em o “Artista”, temos a música de Hermann na tela!. E, compreendo a frustração de Kim Novack ao declarar em público, que o “Artista” depende e muito da trilha de “Vertigo- ” isso é pura verdade!.

Co- editado pelo diretor Michel Hazanavicius, que também assina o roteiro, “O Artista” é  uma obra bastante criatividade e ousadia assim como Scorsese em “Hugo” (2011), o qual, foi a França para homenagear um dos pioneiros do cinema!. Contudo, o enredo de o “Artista” não tem nada assim de complexo– é apenas uma ousada e bela comédia-dramática. Bem, em termos comicos — as risadas que surgem a partir de situações familiares–, não achei tão engraçadas assim, exceto, as cenas que mostram Valentin com o seu tão adorável cãozinho!. Em termos dramáticos, o ritmo do filme diminui muito, ficando atolado num melodrama repetitivo. Sim a carreira de Valentin vai para o brejo, mas por que Hazanavicius precisou arrastar tanto o drama do seu astro para depois “jump” para a cena final?.

Particularmente, adoro cinema, e adoro assistir filmes na tela grande, mas quando um filme me faz bocejar é porque há algo errado!. Assistindo o “Artista”, me encontrei perguntando se eu estava entediado ou a platéia me fez entediado. Bem, a magia de estar em uma sala de cinema é o fato de que compartilhamos a alegria, a tristeza, o riso e o medo com estranhos. Várias vezes, eu me encontrei rindo, porque o riso do outro me contagiou. Assistindo o “Artista”, eu fiquei entediado pelos bocejos da platéia, os quais foram também contagiantes!. Se tivesse sido cortado 25 a 30 minutos do filme, não prejudicaria em quase nada!.

Não acho que esse filme mereça o Oscar, embora o mesmo seja tecnicamente (ainda) um grande filme!. Mas levando em consideração o “Discurso do Rei” (2010) que foi agraçiado com a estatueta como melhor filme, eu não me surpreenderei com a decisão de premiar o “Artista”, que curiosamente é vendido como um filme francês, produzido pelo ator Thomas Langmann, filho do cineasta Claude Berri, mas com dinheiro americano– tanto o filme não foi escolhido pela França para ser o representante do país para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Nota 8,0 – pela criativa homenagem ao cinema!

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo. 2011)

Li o livro de Stieg Larsson em 2008; assisti o filme sueco no final de 2009, e achei a idéia de uma nova “tradução” bem precipitada, pois a obra sueca já era um grande filme,  e que foi muito bem avaliado por LELLA, aqui: “Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2009).

Sinceramente, evitei ao máximo em ir ao cinema, e assistir ao filme de David Fincher, porque não acreditava o quão bem sucedida essa versão seria – tinha minhas dúvidas. Vamos vir e convir, assisti  a primeira “tradução” há dois anos, e como me interessaria em ver exatamente a mesma história contada de novo?.  Bem, fui literalmente levado ao cinema por um amigo, e olha que se arrependimento matasse, eu teria morrido sem ver  “Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres” (2011). Sim, poucas mudanças foram feitas no roteiro escrito por Steven Zaillian — ele acrescenta um humor inteligente que diminue a alta tensão–, e eu tenho que admitir que saber de todo o mistério não me atrapalhou em nada – o fator suspense está lá intacto!

Para assistir o filme de Fincher– preciso dizer que é muito bom!–,não é preciso ignorar o filme sueco- cada filme tem seus próprios méritos!.  Evito aqui falar sobre o enredo do filme- será que eu preciso contar algo?  — bem, qualquer coisa (re) leiam o texto da LELLA!. E,gostei muito das atuações: Daniel Craig está excelente como Mikael, um homem com uma mente inquisitiva, mas humano – mais substancial do que na adaptação sueca!. Quando o versão hollywoodiana foi anunciado, achei super estranho a escolha de Rooney Mara, pois Noomi Rapace fez uma Lisbeth Salander, de cair o queixo, e torci para que os produtores americanos tivessem escolhido própria Noomi para reviver a Lisbeth, já que a mesma é fluente em inglês, mas admito que Mara não é nada mais do que formidável no papel ( embora não entendi o sotaque estranho que ela adcionou na sua caracterização). Ela domina com seu retrato poderoso. Faz uma Lisbeth mal-humorada, mas ainda assim vulnerável. Inteligente, mas sem ser irritante ou arrogante. Christopher Plummer se não viesse a ser indicacado ao Oscar por seu papel em “Beginners” (2011), merecia ser indicado por sua magistral atuação como Henrik Vanger- não tinha nunca sentido no livro, ou mesmo na versão sueca, a perspicácia desse personagem!.

O tom do filme — o desenho de produção—, é escuro, contribuindo para as cenas externas filmadas na Suécia. Os locais são impressionantes, com seus céus de inverno—uma beleza européia distinta!—,caprichada pelas lentes do cinematógrafo Jeff Cronenweth. Os zumbidos da percussão da trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, pode até contribuir a atonalidade do filme como um todo, mas que me deixou extremamente tenso!. Escutando a trilha sem ter as imagens, eu não consegui gostar de nunhuma faixa, mas no filme tudo casa perfeitamente!.

Ganância, corrupção, crime, crise familiar, segredos de guerra, justiça, sexo e amor —  não a forma tradicional de amar–, são os temas abordados no filme. Sexo não é a única coisa que é pouco convencional neste filme –- ele tem várias funções e significados, e esses aspectos do sexo que mais gostei na obra de Larsson.

Satisfatoriamente complexo e cativante, o filme de Fincher prende a nossa atenção por todos os  158 minutos  de duração. Não é o melhor filme do ano, mas é bem superior a filmes que foram indicados ao Oscar este ano – este filme é de cima para baixo, quase perfeito!. E, é apenas a minha opinião, mas um filme não precisa copiar o livro para ser bom – filmes e livros são dois formatos diferentes de uma história, e eles precisam ser tratados de forma diferentes. E, Fincher tem o dom de tomar uma única imagem e torná-la poeticamente ressonante. Este é um filme que realmente mergulha o espectador.

Nota 9,0

Indicado ao Oscar:
Melhor Fotografia- Jeff Cronenweth
Melhor Edição – Angus Wall, Kirk Baxter
Melhor Edição de Som – Ren Klyce Pendente
Melhor Mixagem de Som – David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce, Bo Persson Pendente
Melhor Atriz  – Rooney Mara

“De Amor também se Morre” (“The Constant Nymph” 1943)

Em fevereiro, a grade do canal TCM – Turner Classic Movies-, é totalmente dedicado a “31 dias de Oscar.” Um dos filmes que assisti e que me apaixonei até aqui foi “De Amor também se Morre”.  Sempre quis ver este filme porque sabia que o mesmo nunca fora lançado em DVD ou VHS, e TCM tinha, e tem seus direitos.  Não sabia quase nada sobre o enredo do filme – apenas que era sobre uma menina que se apaixona por um amigo da família, o qual, conseqüentemente, se casa com sua prima.

As cenas de abertura do filme, ilustram a vida do clã Sanger, que vive longe das convenções da sociedade. As meninas da famila se deliciam com a vida rural. O patriaca, que é músico, morre, deixando-as aos cuidados dos tios. O amigo da família, Lewis (Charles Boyer), que também é músico, está de visita, e se rende ao charme de Florence (Alexis Smith), e logo se casa, sem saber que a prima da esposa, Tessa (Joan Fontaine ) morre de amores por ele. Tessa e a irmã são enviadas para Englaterra, onde passam a estudar, mas não se sentem felizes com a vida academica, e pedem “abrigo” na casa de Lewis. Ele vive numa crise criativa para compor, e logo, Tessa se torna a sua fonte de inspiração — ela é única pessoa capaz de compreendê-lo.

Hitchcock foi a primeira opção para dirigir o filme – sua esposa Alma Reville foi quem escreveu o roteiro para a primeira versão do livro de Margaret Kennedy, em 1928–, mas o diretor de “Of Human Bondage” (1946), ficou com a missão de transpor o livro de Kennedy para a tela na segunda versão falada. Como o titulo do livro sugere, Kennedy usa mitologia grega como fonte– ao contrário dos deuses, ninfas são mortais, e, geralmente, espíritos felizes, considerados divinos. Fontaine dá vida essa ninfa (Tessa), uma menina de 14 anos, que “morre” de amores por um homem mais velho, o qual vem a sentir o mesmo por ela. Fontaine me surpreendeu — uma atriz que apesar de bela, nunca fui fã–, em cenas onde ela alegremente corre ao redor da casa ou no quintal, ou em outras cenas, em que, parece inocentemente perdida diante do amado. Não que Fontaine pareça ter 14 anos porque ela sempre foi uma mulher de traços marcantes, mas o maneirismo travesso de menina, e a sua delicadeza enriquecem a sua interpretação. Ela é tão convincente como Tessa, que eu nem percebi que ela já tinha 26 anos quando fez o filme. Creio que não seria fácil encontrar uma atriz de 14 anos para fazer um papel de uma “ninfa”, em 1943—mais tarde o termo ninfa fora ” mordenizado” – com conteúdo erótico por Vladimir Nabokov-, que passou a usar ninfeta,  em seu livro Lolitta (1954).

Honestamente, fiquei encantado com o filme da primeira a última cena – os cenários e figurinos são perfeitos, a bela trilha sonora de Eric Wolfgang Korngold, se enquadra ao tema delicado do filme, de uma forma sublime. O atores são incríveis, em especial Alexis Smith, que também brilha como Florence — a cena que ela tem um confronto dramático com Tessa,  é incrivelmente comovente. O extraordinário Charles Coburn, que interpreta o pai de Florence,  rouba as cenas que parece – que ator mavilhoso!. Boyer que sempre brilha, faz um homem triste, e “cego”, pois demora a perceber o amor de Tessa por ele. O ciúme de Florence, o aproxima da menina – e através de seus olhos, é possivel notar o seu amor por Tessa!.

Achei o filme muito bem coreografado – se assim posso dizer-, e muitas vezes, é possível ver um ator de pé com as costas para a câmera, quase como expectador!. Embora um pouco longo – quase duas horas de duração!-, Edmund Goulding fez um filme bastante crível e interessante.

Nota: 9,0

Indicação ao Oscar de Melhor Atriz: Joan Fontaine.

Jovens Adultos (Young Adult. 2011)


Cômico e brilhantemente honesto, o novo filme de Jason Reitman, me fez rir bastante para então depois me deixar com um sentimento desconfortável na minha ‘avaliação’ sobre o julgamento alheio e refletir sobre o meu próprio alto julgamento.

O filme conta a estória de Mavis Gary (Charlize Theron). Batizada com um nome terrível, mas belíssima e com uma auto-estima que chega causar a inveja alheia, Mavis é uma mulher difícil de lidar. Muito popular durante o ensino médio, a moça abandona Mercury, uma cidadizinha no meio do nada, em Minnesota, e se muda para Minneapolis – cidade grande!, onde se casa, e se torna uma “Ghost Writer” de uma série de romances direcionada a jovens adultos. Mavis  já separada, vive de mentiras – mente para todos, e inclusive para si própria- em relação a sua vida pessoal e profissional. Incrivelmente antipática - reflexo da sua insegurança -, se torna quase impossivel de amá-la.

Mavis está geralmente sozinha, e vive numa eterna ressaca- entre bebidas e promiscuidade – o que me fez lembrar do papel que Theron fez em  “Vidas que se Cruzam” (The Burning Plain, 2009), mas em “Young Adult”, a sua personagem é bem mais perdida. Mavis vive uma vida que parece ter perdido todo o sentido (mas ela não admite isso). Quando recebe um email do seu ex-namorado dos tempos de escola, Buddy (Patrick Wilson), que se tornou pai, ela é tomada por uma sentimento difícil de descrever, mas a mesma entra em ação – volta para sua cidade natal, e tenta reconquitar Buddy. Para Mavis, ele terá que abandonar a esposa e o seu bebe, e recomeçar uma nova vida com ela, em Minneapolis.

Não vou falar mais sobre o enredo do filme, porque no final, acho que nem todo mundo vai apreciar. Eu particularmente não esperava um olhar tão honesto no meio de tanta asneira – em muitas cenas, eu ri tanto, que pensei que o filme teria um final bobinho, mas Mavis é uma criatura tão humana – assim como nós somos, simplesmente criaturas tolas que quase nunca aprendemos com os nossos erros, e mesmo que venhamos a corrigi-los, as vezes, não os tiramos de nossa mente.

Atores:

Gostei muito do elenco, com destaque para Patton Oswalt, que faz o amigo de Mavis. Ele tem um papel interessante, de um homem que fora vitima da homofobia, pois pensavam que ele era gay. Mas o filme é todo de Charlize Theron- sua interpretação é fantástica!!. Ela minimiza tudo, conseguindo fazer a expressão mais sutil falar por si mesma. Será que Mavis tem problemas psicológicos?. Ou ela talvez seja apenas uma mulher infeliz, maníaca depressiva, confusa ou apenas infantil. Essas nuances são traçadas de forma tão natural por Theron, que acabei me apaixonado por sua personagem.

Não consegui acreditar que Theron não foi indicada ao Oscar este ano. Tudo bem, Meryl Streep é uma grande atriz, mas em “The Iron Lady”, ela apenas tem os aspectos tecnicos a seu favor (maquiagem, voz, e maneirismos), pois o filme é tão ruim, que sua Margaret Thatcher se perde, ou não sabe para onde ir; o mesmo ocorre com a talentosa Glenn Close em “Albert Nobbs.” Albert é uma personagem triste, vazia e limitada. Nem  consegui entender até este momento, o que a academia viu no filme ou mesmo na atuação de Close. Enquanto Theron, Tilda Swinton e Kristen Dunst ficaram de fora!.

Este ano, a academia também preferiu o roteiro ‘original’ de “Bridesmaids” (2011), uma daquelas comedias loucas que surgem em Hollywood, com tanta frequencia, em vez de ter agraciado Diablo Cody com uma indicação por seu interessante roteiro em “Young Adult.” Talvez a razão tenha sido porque a própria Cody ganhou um Oscar pelo azedo -  para não dizer sem graça -, “Juno” (2007), e também porque “Young Adult”, diferente de “Juno”, não se tornou um sucesso de publico, embora a critica tenha gostado.

Reitman e Cody traçaram uma linha delicada, centrando a sua estória em uma protagonista que é, mais ou menos impossível de  gostar. Mas não importa como você ver Mavis, ela é uma personagem que vale a pena conhecer e eu nem consigo esperar para reve-lo quando o filme for lançado em DVD. Sim, ela ainda tem muito para aprender, mas sem duvida, suas  experiências tem muito para nos ensinar.

Nota 9,0

P.S.: Duas cenas que amei no filme: a do confronto entre Mavis, e a esposa de Buddy, e a honesta conversa entre Mavis e Sandra:

Mavis: …it’s very difficult for me to be happy. And other people– it’s so simple for them. They just grow up. They’re so …fulfilled.

Sandra: I don’t feel fulfilled.

[...]

Mavis: I need to change.

Sandra: No, you don’t.

Mavis: What?

Sandra: You’re the only person in Mercury who could write a book or wear a dress like that.

Mavis: I’m sure there’s  plenty of people.

Sandra: Everyone here is fat and dumb.[...]

Sandra: Everyone wishes they could be like you. [...] famous, living in a big city, beautiful and all that.

Mavis: But everyone here seems so happy with a lot less. They don’t even seem to care what happens to them.

Sandra: That’s because it doesn’t matter what happens to them. [...] they’re nothing.

Dente Canino (Dogtooth / Kynodontas. 2009)

Imagem“Dogtooth” explora as características da evolução da educação familiar – quando um casal decide fechar seus filhos ao mundo de um modo geral. Psicologicamente perturbador, este filme tem uma abordagem quase documental para analisar a educação mal concebida e os danos na vida dos três filhos do casal.

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Os três adolescentes sem nome vivem trancados em casa, e sendo educados no sistema “home school”-  onde os pais promovem uma educação  fora do sistema tradicional, e acrescentam uma instrução moral de acordo com suas respectivas crenças. Em muitas cenas, esses adolescentes escutam a mãe dá-lhes palavras do vocabulário do dia:  ”mar” é uma poltrona de couro;  “telefone” significa saleiro; “zumbis” significa flor amarela e “b*ceta” significa luz grande. Protegido pelos pais, os adolescentes só estarão prontos para explorar o mundo exterior quando seus dentes incisivos (referencia ao dente canino) cairem.

Ocupando o seu tempo jogando jogos de resistência controlada pelo pai, os jovens tem um único contato com o mundo exterior, quando recebem a visita de Christina (Anna Kalaitzidou), que trabalha na empresa do pai. Ela entra na casa para satisfazer os desejos sexuais do filho do casal, o qual, logo como a cantora Sandy, se encanta com o prazer anal, e frustra Christina ao não querer “desfrutar” mais de sua vagina. A moça, em seguida, contamina o ambiente estéril da casa com influências externas. Se conhecimento pode ser perigoso, aqui fica mais claro, diante da reação da filha mais velha do casal, em querer explorar o mundo exterior.

O cineasta Giorgos Lanthimos foi agraciado com o premio  “Un Certain Regard” em 2009 no Festival de Cannes, e chegou a receber uma inesperada, mas justa indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado, mas perdeu o premio para o drama a la telenovela “In a Better World” (2010). Lanthimos me envolveu instantaneamente com sua narrativa, simplesmente porque me senti solto neste mundo louco que ele criou – em vez de fazer uso de “voice over” para guiar a história, ele  nos coloca dentro das emoções dos personagens, evitando os ”reaction shots“,  isto é, não temos “close-ups” da emoção expressa pelos atores, mas o efeito é sentido!. Lanthimos também faz um belo uso da cultura pop para nos dar uma conexão com a história; enquanto o uso de sexo, incesto e violência, agita as nossas emoções.

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Os atores não atuam, mas vivem as suas personagens. Nem notei que o filme era falado em grego, de tão fascinado, e chocado com as cenas, principalmente vendo um pai encorajar os membros de sua família a ficarem de quatro e latirem como cães em seu quintal. Não achei engraçado, mas me encontrei intrigado como tal experiência afetaria os personagens mais tarde na história.

Não me importei tanto com o humor negro do filme, e nem foi por isso, que ja revi “Dogtooth” por 2 vezes, mas porque Lanthimos traça um olhar sobre o quão suscetíveis nós seres humanos somos quando somos condicionados a um passo em falso na educação de uma criança e como isso pode causar sérios danos.

Nota 10