Raul Seixas: O início, o fim e o meio (Raul Seixas, 2012)

É o melhor documentário já feito sobre a vida de uma pessoa pública. Saí do cinema sabendo sobre a vida do artista, entendendo o que eu pensava que já sabia antes e, azar o meu, se o filme não me fez compreender o que antes já era incompreendido: O que afinal caracteriza os geniais? A loucura? O inusitado? O Brasil abriga um incontável amontoado de talentos, alguns geniais, no entanto inverter a trajetória do nosso cometa, não depende de nós… Como brinde, o filme oferece muitas imagens bacanas, personagens e personalidades que fizeram parte da vida do compositor. O documentário passeia pela ditadura, tropicalismo, festivais. Raul Seixas não viveu, aconteceu! Colocou imagens e coração numa trilha sonora que já veio com ele, uma cena rock’n rol de 44 anos de duração. Raul em essência era sua própria sua música concreta nas melodias que embalam nossa realidade.
Era uma vez um homem, suas muitas mulheres e muitos vícios que se lhe deram prazer, afastaram-no da felicidade, essa felicidade careta que muitas vezes fazem nossos sonhos existirem por mais tempo. O vício em “todo tipo de droga, menos maconha  -  que de maconha ele não gostava” – com ênfase no álcool era a trilha para o final da linha para os romances de Raul, menos um: o seu  primeiro casamento com Edith, a namorada de adolescência . Esta, ao ser “abandonada” enquanto Raul ia ali até Brasília ficar com Glória, a irmã do seu guitarrista, foi embora, voltou para o seu país, levando a filha do casal e nunca mais esta família voltaria a se reunir. Raul passou a vida remoendo tristeza e arrependimento por este ato, por esta perda.

Ninguém conseguia acompanhá-lo nas suas intensidades ‘tóxicossociais’, nem mesmo o guru satânico que depois viraria mago, não sem antes lhe apresentar às maldições nas suas mais variadas formas. Fiquei a pensar na generosidade desse baiano magrelo que ensinou “o mago” a fazer letras de música e em troca, com ele aprendeu a se decompor biodegradavelmente em frascos e ácidos.

Raul era doce, duas de suas antigas esposas afirmam que ele tinha um cheiro doce. Uma fala de forma romântica a outra, objetivamente atribui o cheiro e o sabor à diabetes do músico. É fato que aquele homem nem tão belo assim, muito magro, cabeludo e bastante doido era tão verdadeiro no seu sentimento, que conseguia manter consensualmente romances simultâneos com suas “atuais” e “ex”. Nesses depoimentos  a platéia se acabava de rir… da situação dos triângulos amorosos consentidos pelas partes envolvidas. Como a caretice é prejudicial à felicidade que aparentemente preserva…

O documentário é muito comovente, rodado entre Bahia, Rio, São Paulo, Estados Unidos, Genebra. A equipe fez o trajeto da diáspora  Raulseixista. Mostra o fã dono do mítico baú e suas preciosas relíquias, que  se tornou amigo do astro, carregando-o embriagado quando era preciso sem perder a admiração. Descobrimos que o “Trem das Sete” teve uma dona e  hoje  é de todo aquele que acredita que amor, atestado de garantia e certificado de posse são as mesmas coisas…

Raul tem um neto que é sua xerox, mas o moleque mora no exterior e não falou sobre o avô, que pena. A filha mais velha tem mágoa do pai, não gravou depoimento, mas escreveu uma carta; a segunda filha é uma gracinha, mas é a filha “brasileira do Brasil” – as outras moram na América do Norte – que dá show de orgulho de ser filha do maluco beleza. Viu como o documentário é bom? É como uma reunião de amigos, parentes e agregados em torno da figura do mito tão trágico quanto divertido.

Saí do cinema aliviada com as palavras do Marcelo Nova: “Ele fez 50 shows! Morreu fazendo o que gostava, cantando! Não morreu esquecido, nem anônimo num quarto escuro”. Marcelo Nova: Parabéns! Obrigada! Mas e agora o que eu faço com a sensação de que não devo ser tão genial quanto pareço, porque não sei ir tão fundo naquilo que dá celebridade aos imortais? Ser careta é meu atestado de mediocridade? Fiquei me sentindo uma roqueira de subúrbio. Daquelas que assistem ao show pela TV da barraquinha de hot dog atrás do Madureira Shopping, que antes de sair de casa lava e passa a camiseta preta com frases em inglês… Se você entendeu que a celebridade dos imortais está nas drogas, esclareço:  O que dá celebridade aos geniais, é a coragem. Coragem de se arriscar e até de perder. Perder afeto, mulheres, a convivência com os filhos, ver os amigos virarem-lhe a cara e negar-lhe oportunidades. Por mais que digam que a vida é escolha, acredito que para escolher há que se ter opções e, onde estão elas quando não vemos o que escolhemos? O esforço pra ser “um sujeito normal e fazer tudo igual“ não é escolha. Aprender a ser louco é dom! Somos apenas criaturas seguindo o caminho que os olhos enxergam. Cumprimos nosso destino.

Com Claudio Roberto – Paulo Coelho – Marcelo Nova

Era destino de Raul seguir sua carência, se entristecer a vida inteira por um ato que não resultou no que ele possa ter imaginado. Sua incapacidade de viver só, sua pancreatite regada pelo álcool que ele nunca conseguiu deixar, ainda que tivesse conseguido parar com as drogas ilícitas. Sua falta de vontade de viver e a falta de crédito para que voltasse a gravar definharam sua saúde, mas nada disso se compara ao vigor da sua obra eternizada, passando de geração em geração ainda que muitas das suas mensagens não sejam imediatamente captadas, são seladas, carimbadas, se pra gente voar. O destino de Raul foi ganhar essa legião de tipos, diferentes dele e entre si. Em comum os olhos úmidos na saída do cinema, porque a gente viveu ao menos pelo tempo de uma música,  Raulzitamente.
Ah, a mim pareceu que e o Paulo Coelho matou a única mosca de Genebra…

Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011)

Gostei do filme em preto e branco do diretor José Henrique Fonseca que trata de ressaltar o caráter perfeccionista de uma pessoa controvertida, da linda e muto linda fotografia de Walter Carvalho que traz todo o glamour de uma época em que todos eram tão superficiais quanto a base da importância de se pertencer ao Hgh society.

O suspense do longa ignora as prováveis curiosidades do espectador em conhecer detalhes da história dessa figura de final já conhecido, nos trai nas imagens das idas e vindas, flash back que percorrem o presente, o delírio, o passado. A narrativa não é confusa, mas não esclarece substancialmente pequenas curiosidades. Há a mensagem subliminar para aqueles que desejem saber mais: “leiam o livro”. O compromisso da telona é com o mito - O que fez muito bem a direção de Fonseca que passa com sutileza a imagem do bom humor do craque, e até permite que os mais atentos percebam sua arrogância na obra cinematográfica como uma arma defesa de alguém que consciente da sua genialidade no gramado, ciente da admiração das mulheres pelo seu rosto bonito, porte imponente, educação e refinamento imaginava conviver com a inveja do restante do mundo, perpetuando aquela arrogância característica da juventude. Em certos momentos me pareceu que Heleno não passou dos 17 anos.

O filme colore a característica de um homem apaixonado por sua  atividade esportiva num tempo de transição entre o amadorismo e o profissionalismo ainda praticamente inexistente.

Um homem advogado, filho da riqueza do café que só queria jogar bola e, como sabia que jogava bem queria ser aplaudido, ovacionado. Sua paixão pelo ato de jogar bola e pelo time que defendia, sua ânsia passional de ver expresso por todos a sua capacidade muito acima da média.

Retratando Heleno, o homem, num contexto de uma sociedade  que ainda tateava no aprendizado de como tratar as  figuras públicas de um setor esportivo que não tinha ainda delineadas suas regras e estatutos.

Ao nos poupar dos detalhes mais dramáticos que a doença impingiu ao craque, a obra preserva a imagem de alguém que tendo o necessário para fazer tudo, fez muito, mas não realizou suas ambições, vítima da sua própria escolha, mesmo aquela que não se sabe exatamente o momento em que é feita.

A demência total talvez lhe tenha protegido das muitas frustrações. Não participou de nenhuma copa mundial, não deu título ao seu time do coração, não viu seu filho crescer e não viveu tanto tempo com a mulher que escolheu para casar. Mas no auge dos efeitos característicos da insanidade mental povocada pela sífilis, esquecido do que era, batia no peito orgulhoso de dizer quem era: “Eu sou Heleno”!

Sim, era e como era!

Também fora boleiro genial, impaciente e até agressivo com os “cabeça-de-bagre”. Corajoso de dizer sobre como se entra em campo defendendo o time e honrando a camisa. Não fosse tão “louco” seu modo de encarar o maneira de exercer a profissão seria argumento de palestras motivacionais.

Ele era Heleno e hoje seria dito “mascarado”, mas ainda na atualidade seria muito mais incompreendida a sua postura de recusar “bicho” pago pelo clube num jogo onde não houve vitória, recebido por colegas que ao seu ver não jogavam pela camisa. Arrepia essa cena que Rodrigo Santoro, incorporado pela entidade Heleno de Freitas bate no peito  e declara sua ética de amor ao clube, comprometimento com resultado e orgulho por seus passes. (ok, que ele era rico e os amigos jogavam para ganhar dinheiro, mas isso não diminui a emoção, por mais que a distribuição da sua parte no “bicho” e queima do dinheiro restante possam parecer arrogância).

Adentra no vício pela inocente porta das drogas permitidas, socialmente aceitas e naquele tempo até  com uso admirado por expressar o glamour da riqueza – o lança-perfume, cigarros e as bebidas alcoólicas. Perde a saúde pela falta de orientação e ignorância vigente numa época em que preservativos praticamente não existiam como prevenção de DSTs; segue orgulhoso, negando-se ao tratamento que acreditava lhe causaria impotência; ruma impávido colosso pelo caminho que lhe foi permitido como celebridade optar  pelo não tratamento de uma doença ainda, quem pode saber, em estado inicial.

O que eu não gostei no filme é que tudo é tão sutil, apenas o destino implacável e soberano, como aquelas antigas  fábulas de moral e bons costumes que os avós  contavam na  esperança que com elas os netinhos se tornassem bons meninos.

Não aparece no filme, a derrocada do atleta devido o erro do diagnóstico que apontava esquizofrenia, em vez da sífilis cerebral que lhe corroeu os nervos e destruindo os seus neurônios, mostra com clareza a isenção dos médicos do clube em não obrigá-lo a tratar-se. A trama nos conduz ao pensamento que ele foi apenas alguém que perdeu para si mesmo e a derrota assumiu forma retumbante porque ele não sabia perder. A tranquilidade da normalidade com que o seu melhor amigo lhe rouba a mulher parece dizer “bem feito pra esse menino mal”…

Como o jogador protagonista da 1ª maior negociação no futebol na época,  Heleno volta desprestigiado tanto por ter amargado a reserva como pela dispensa do Boca Juniors da Argentina, com neurônios a menos e ouvindo vozes dá ao Vasco o campeonato Carioca de 1949, único da sua careira sem aparecer no pôster oficial dos campeões pelo rotineiro motivo:  suas brigas. Sem noção da realidade, certo de que o tempo, a doença e o vício em álcool e éter não lhe atingiriam vai para a Colômbia e se torna lá, ídolo. Já muito atingido pela doença, cheirando éter para sobreviver,  sua esposa Hilma, no filme, Sílvia (Aline Moraes) pede o divórcio e  Heleno tenta com desespero recomeçar no América do Rio onde realiza o sonho de pisar no Maracanã, mas por apenas 35 minutos.

O que não está no filme:

· A Segunda Guerra Mundial impediu a realização de duas copas, 42 e 46, duas oportunidades a menos para um jogador cujo tempo corria mais rápido que para os outros. A cena em que Heleno, depois de ameaçar o técnico Flávio Costa com uma arma sem balas, toma uma surra, o tiraria da sua última oportunidade de deefender o Brasil no campeonato mundial de 1950.

· Em 1942, Heleno foi o artilheiro do campeonato Carioca com 28 gols, marca até hoje não atingida no Botafogo que teve como sucessores de Heleno, Dino, Paulo Valentim, Amarildo, Garrincha, Jarizinho, Roberto Miranda e Túlio Maravilha.

· Em 1952 Heleno estava louco e foi diagnosticado como esquizofrênico. Internado numa clínica do Rio de Janeiro amarrado em uma camisa-de-força, tomou choques, apanhou e fugiu. Foi encontrado com uma faca nas mãos gritando que mataria se o levassem de novo para a clínica.

· Sua esposa, Hilma (que no filme se torna Silvia) era filha de diplomata, colega do poeta Vinícius de Moraes. Este, dedicou ao noivo “Poema dos Olhos da Amada” – obra que seria seresta na voz do cantor Sílvio Caldas.

· Foi no Fluminense, em 1938, através de Carlomagno, que Heleno de Feitas apresentado como jogador de meio-campo, passou a atacante.

· “Jogo do Senta” em 10 de setembro de 44, Heleno era o capitão e principal jogador do Botafogo, que vencia o Flamengo por 5 x 2 e o jogadores rubronegros sentaram-se no gramado. A torcida alvinegra gritava “senta para não levar mais”.

· Mania de grandeza, discurso sem nexo e confusão entre fantasia e realidade são as principais manifestações psiquiátricas da doença também conhecida neurossifilis ou sífilis terciária, a PGP é uma manifestação tardia da doença que paralisou cada órgão do ex-atleta.

· Aos trinta 38 anos, Heleno pesava pouco mais de 40 quilos, tinha o quadro mental de uma criança de 5, falecendo vítma da PGP – Paralisia Geral Progressiva.

Estatísticas:

Data de nascimento: 12/02/1920 / São João Neponucemo (MG)
Data falecimento: 08/11/1959 / Barbacena (MG)
Posição: Atacante

Clubes
1939-1948: Botafogo-RJ
1948-1949: Boca Juniors – Argentina
1949-1950: Vasco da Gama-RJ
1950: Atletico Barranquilla – Colômbia
1951: America-RJ

Títulos
Copa Roca: 1945
Copa Rio Branco: 1947
Carioca: 1949.

O Artista (The Artist. 2011)

Não é um filme, é uma viagem. Portanto, prepare-se!

Todos que já fizeram uma viagem algum dia, por mais simples que seja, sabem da necessdidade dos preparativos. Roupas, acessórios, utensílios, bagagem! Dicas, informações, roteiro, pesquisa prévia para que se possa aproveitar ao máximo uma estadia que poderá ser mínima. O prazer não é medido em tempo, mas em qualidade e essência. Assim, ao se decidir por assistir ao filme “O Artista”, prepare-se, pois é uma viagem, onde o trajeto não se dissocia da estadia.
Não sou uma pessoa do ramo, não sou crítica de cinema, não posso ser considerada uma cinéfila, sou uma consumidora habitual de cinema e propagadora das obras que assisto e gosto, posso dizer ainda que, qualquer ida a um cinema já é um prazer por si mesma fazendo com que qualquer ida a uma sala de projeção com filme que consideremos ruim, é melhor que não ir. Conferir com os próprios olhos, exercer a própria opinião, desfrutar dos prazeres adjacentes do passeio.

Surpresa potencializada:

Vivo no Rio de Janeiro, cidade que há 10 dias já respira confete e serpentina, batucadas, animação, excitação, com extensa programação musical onde confusão, ritmo, batucada e barulho dão o tom acelerado dos nossos dias. Vivemos um mundo tecnológico, plugado de imagens, sons e animação. Dados periféricos que podem ter influência neste filme que não se assiste, se degusta! Agregado a isso, não li uma única linha sequer de qualquer resenha sobre o filme, afinal nessas épocas sou uma criatura totalmente submersa no mundo da música. Ver o filme começando, foi como ser içada das profundezas do mundo sonoro e isto a princípio não foi confortável.  Ler no cartaz que o filme tem 10 indicações para o Oscar, emprestou-me uma animação que empalideceu, logo ao fim dos créditos iniciais na tela.

O Cinema:

O primeiro impacto, o rosto extremamente agradável do protagonista, sim ele é lindo! Mesmo caracterizado como astro dos anos 20. Fraque cartola, elegância, bigodinho fininho, cabelo engomadinho tudo impecavelmente asseado, bem passado, lustroso. Depois o contato com a maneira como se assistia filmes nessa época tão remota. Orquestra ao vivo, elenco atrás da cortina e sua aparição para saudar o público. Demorou um pouco pra ficha cair e entender esse cinema de época.

O Filme:
Mostrar o contexto da exibição das obras, foi o gancho que me “içou”, trazendo a minha atenção para o que a telona mostrava, muito mais que as expressões exageradas, onde os gestos precisavam mostrar  aquilo que o cinema não oferecia: voz.
George Valentin (Jean Dujardin) é “o astro”, que leva milhares de fãs ao cinema, para ver filmes onde divide a cena com a sua esposa e o seu cão. Ele, George, é talentoso, bem humorado, vaidoso, autoconfiante, ególatra, orgulhoso, artista numa época em que os astros, se destacavam do restante da humanidade, ah, e tem as sombrancelhas mais expressivas do planeta! Conhece Peppy Miller (Bérénice Bejo), rende-se ao talento da moça e facilita-lhe a oportunidade. Quando o som começa a chegar ao cinema, ele é um dos que não acreditam na novidade.
A forma como o filme apresenta o paradigma de que uma artista de filme mudo não poderia adaptar-se à nova forma do cinema é sensível. A nova tecnologia convence ao próprio artista da sua incapacidade de se adaptar, de que ele faz parte de um passado que nem lembranças lhe deixaria.
A oposição entre novo e velho, a apresentação do artista como um utensílio descartável dessa forma de arte, baseada no comércio, na industrialização. É realmente o início da cultura onde os estúdios ditam aquilo que o público gostará de ver.
Peppy, deslancha, contratada pelo mesmo produtor de George, Al Zimmer (John Goodman). Ela tem a sorte de estar sempre no lugar certo, na hora certa. De ser tão nova quanto à novidade. Chega a ser poética a trajetória da estrela que sobe e do astro que decai. Peppy e George estão na mesma pista, em trajetórias opostas e não colidem, se encontram a a partir do respeito que jovem estrela tem para com o renomado astro. O filme tem personagens pungentes como o motorista, James Cromwell e o incrível cãozinho Uggie. Também tem humor e a decadência de George, nos toca  mas não prenuncia tragédia. George certo do seu talento e da inviabilidade dos filmes com voz, investe  pesado numa produção de contra ataque ao inimigo novo, é abandonado pela mulher  Dóris (Penelope Ann Miller) com ciúme exagerado na mesma medida que as representações da época, é surpreendido pelo Crack da bolsa que deu origem à Depressão de 1929. Mas para não sucumbirmos a esses  tantos dramas temos Uggie, o cão e a diversão da mulher de George em enfeiar suas fotos.

Mas como curtir um filme tão na contra-mão de tudo o que a indústria cinematográfica vem impondo como aquilo que queremos ver? Preparando-se para uma viagem no tempo, onde os sentimentos tem trilha sonora instrumental, poucas legendas e muita emoção, não a emoção dos filmes de ação, mas a ação das emoções. Ambientação perfeita e um andamento mais lento que mostra a perfeição nos cortes.  As cenas são límpidas e há recursos digitais nas cenas com o cãzinho, a tecnologia prestando o seu tributo à origem da arte que mais lhe “dá cartaz”  Tenha em mente que preto-e-branco também sem cores, porque o filme é de um colorido intenso, mas não para os olhos.

Quem é do tempo em que a global Sessão da Tarde valia a pena, vai ter a doce lembrança dos musicais em preto e branco com Fredie Staire sua simpatia, alegria e claro, sapateados. O filme traz muitas referências de priscas eras, e até mesmo de Cidadão Kane (a cena do café da manhã), que desembarcou nas telas muito depois da chegada do cinema falado,  nossa sensibilidade a um tempo que não volta.

Nota: 10,5 …

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ROMÂNTICOS ANÔNIMOS (Les Emotifs Anonymes)

Românticos Anônimos tem momentos impagáveis! Com situações extremas e exageradas passa longe da caricatura permitindo que o tímido se veja ali bem representado por aqueles seres tímidos ao limite da patologia.
Ela é uma criadora de chocolates, perfeita no que faz, elabora as texturas, sabores e aromas fabricando os melhores chocolates do mundo, mas possui uma imensa timidez daquelas que não permite ser o centro de atenções. 
 Ele é dono de uma fábrica de chocolates decadente á beira da falência, tímido e incapaz de se aproximar fisicamente das pessoas, principalmente mulheres. Perde a voz, tem sudorese e ambos provocam o caos. Conscientes das suas limitações ambos se cuidam, ele com um terapeuta que lhe recomenda exercícios, ela num grupo de ajuda cujos depoimentos começam sempre com a frase “eu sou emotivo”(a).
Não há nada que façam que não termine em trapalhadas, mas tudo é tão natural! O filme é delicioso feito  comida caseira, daquelas que sem nenhum aspecto mirabolante, satisfaz e deixa feliz. Nenhum rosto famoso, nenhuma beleza extraordinária, nenhum efeito especial, apenas um filme onde os não tímidos e sem neuroses  (ou sem nenhuma extrema) devem se sentir duplamente feliz por não correrem tantos riscos na vida.
A moça vai procurar um emprego e devido a dificuldade de comunicação consegue um cargo que nada tem a ver com ela, de representante comercial de uma fábrica cujos  produtos  perderam mercado por  falta de inovação. Ela é guerreira, vai à luta e eles vão conseguindo resultados positivos nas soluções complexas de problemas simples como sair, se apaixonar, sim mesmo o que e solução torna-se um problema de soluções deliciosas encontradas pelo diretor  Jean-Pierre Améris.
Engraçado, simples, divertido, doce como um bom chocolate  Vale a pena ver!
Nota? 10
Gênero: Comédia e Romance
Duração: 80 min.
Origem: França e Bélgica
Estreia: 23 de Dezembro de 2011
Direção: Jean-Pierre Améris
Roteiro: Jean-Pierre Améris e Philippe Blasband
Distribuidora: Imovison
Censura: 10 anos
Ano: 2010

A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes. 2011)

Fui ver “A Fonte das Mulheres” embalada pela expectativa de assistir a uma comédia, no entanto,  é  um filme com momentos de humor e que bom, a abordagem no estilo de fábula agregado ao humor permite que se apreenda a história da comodidade e do machismo humano sem revolta, liberando  nossa capacidade de observação.

 SOCIEDADE                                                                                                                                             A verdade de que a injustiça só é realmente injusta quando nos atinge. O tabu da obrigatoriedade da mulher satisfazer o homem, ainda que ela não tenha orgasmo. A mudança nos papéis sociais que chegam  em caráter de emergência e tornam-se tradições com o respaldo daqueles que passam a se beneficiar. A história leva o nosso olhar para a importância da educação num contexto onde a manutenção da ignorância  de uma parte do povo passa a ser o interesse pela parte dominante, sem que necessariamente  os dominadores deixem de ser ignorantes criando um sistema de  exploração institucionalizada do ser humano, um ciclo que somente a coragem aliada ao preparo,  ao estudo é capaz de romper.

HISTÓRIA

Então os homens iam às guerras para defender suas famílias, plantações e territórios e  as mulheres assumiram as funções das suas casas e aprenderam a viver sozinhas, executando trabalhos árduos.  Chega o dia em que não há mais inimigos para se combater e os homens cuidam das suas plantações e comércio, até que chega uma seca que se estende por anos, excluindo essas atividades masculinas da suas listas de tarefas, que são substituídas pelo ócio, fofoca, preguiça corrupção e suas necessidades de satisfação sexual.
Para se ter água na aldeia as mulheres sobem a uma distante fonte no alto de uma montanha, sob um sol de mata. Mesmo as grávidas são obrigadas a esta tarefa ainda que pesada, o que causa acidentes levando a ocorrência constante de abortos e claro, às mulheres que não conseguem ter seus filhos é atribuída a fama de incompetentes.  Por tantos afazeres importantes no grupo, é vedado às mulheres o direito de aprender a ler e escrever, elas nessa vida embrutecida com rotina dura, vão por acaso ter tempo de pensar nisso?
Além das atividades de rotina ainda compete a elas divertirem com seus cantos e danças os turistas que trazem divisas para sua cidade, divisas essas consumidas pela corrupção dos governantes que não cuidam da infra-estrutura das cidades para que o progresso não chegue, num raciocínio simples é explicado que tendo luz elétrica a mulher irá querer uma máquina de lavar, o que  acarretará uma conta alta par ao marido pagar e dará a ela tempo livre. Com o tempo livre, a mulher há de querer estudar se instruir e assim não será mais dócil e obediente. Simples assim. Algo de outro mundo? Não. 
FÁBULA:
Leila é estrangeira casada por amor com um professor e tem uma sogra digna das bruxas dos contos de fadas, perde um bebê por causa de um tombo a caminho da fonte e precisa conviver com a felicidade de outra mulher que acaba de dar à luz um filho homem. Diante de tanta opressão e trabalheira, restam a essas mulheres o único poder que lhes resta, o sexo e partem para uma greve de amor. E é de amor que nos fala esse filme, o amor, único instrumento capaz de mudar tradições  impostas justamente por  falta dele. Também fala do quanto mulheres podem ser insensíveis às parceiras de infortúnio, do tabu da virgindade, dos casamentos tratados pelas famílias, das interpretações convenientes dos dogmas religiosos, da influência das autoridades religiosas nas vidas das pessoas e na administração do Estado. Da ausência do poder de decisão das mulheres nas questões intrinsicamente femininas.
O FILME Rodado no Marrocos, representando uma aldeia  num ponto remoto do  Oriente Médio, é inspirado numa história real acontecida na Turquia em 2001 e faz alusão à peça “Lisístrata”, de Aristófanes  que por sua vez inspirou Chico Buarque e Augusto Boal a compor a canção  ”Mulheres de Atenas”.
Tem um elenco que mistura rostos de atores conhecidos com atores que não conhecemos,  falado em árabe fortalece a carga de drama e empresta textura às piadas nos Sá a sensação de que tudo isso foi há muito tempo, muito tempo num lugar muito distante de nós…
A Fonte das Mulheres vendeu meio milhão de ingressos na França em apenas um mês e foi indicado à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, tudo dentro  da trajetória  de sucessos  do diretor, judeu romeno Radu Mihaileanu: “O concerto” (2009) e  ”Trem da vida” (1998). É um filme com uma fotografia linda, belezas exóticas, uma trilha sonora usada como recurso a se admirar uma cultura da qual nos mostra aspectos críticos e performances excelentes. Ficha técnica:
A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes) – 135 min
Bélgica, Itália, França – 2011
Direção: Radu Mihaileanu
Roteiro: Alain-Michel Blanc 
Elenco: Leila Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Saleh Bakri, Sabrina Ouazani, Hiam Abbass, Mohamed Majd
Estreia: 20 de janeiro 

O Último e o Primeiro ou Faça-me Feliz! (Fais-moi plaisir!) e Dzi Croquettes

O último filme que vi em 2011 foi “Faça-me Feliz” (Fais-moi plaisir!) do diretor Emmanuel Mouret, que também atua e, muitíssimo bem por sinal! Filme leve divertido, ri muita coisa e pelos trailers apresentados nesta sessão, percebi que o cinema Francês está com tudo e que a gente anda muito atrasado, pois “Fais-moi plaisir!” esteve na 33ª Mostra Internacional de Cinema – São Paulo International Film Festival (20 out – 05 nov 2009)… Quase 2 anos depois, finalmente fizeram-nos felizes e rimos bastante, isso é o que importa…

Depois da sessão parada no Odorico completamente lotado e como estávamos felizes, até mesmo o que aborreceria foi motivo de risadas, afinal era dia 29, a última quinta-feira do ano! Odorico é um barzinho bem legal com tempero de restaurante e tem a garçonete mais delicada do mundo!!! Viva a amizade que fazemos nas condições mais improváveis! Bons amigos, boa comida, bom filme, o que mais poderíamos querer???

O primeiro filme que vi em 2012, foi um documentário e não fui ao cinema para ver. “Dzi Croquettes“, em DVD, assitido em casa porque dia 31 não teve sessão de cinema e no dia primeiro nem procurei saber. Comprei o DVD no lojinha do Artplex, há meses quando ainda era Unibanco… (Cá entre nós, muito melhor o cinema mudar de nome do que mudar de ramo…)

Filme maravilhoso, documentário sensível para fazer rir, chorar, pensar… Tathiana Issa me colocou dentro do documento, em contato com as personagens (todas reais), me colocou na fita para viver aquilo que eu só tinha ouvido falar. Toda a trajetória fascinante dos Dzi está ali e trazendo uma reflexão de um tempo em que se criava. Um tempo que tinha-se o trabalho, o amor a arte à frente do dinheiro, dos apoios, patrocínios, “projetos”…

Postado por Rozzi Brasil

As Canções (2011)

Assisti ao documentário “As Canções“, do diretor Eduardo Coutinho. Fui sem ler resenha alguma afinal, era um Eduardo Coutinho diretor do qual sou fã sem ser especialista, eu não tenho como ser especializada em nenhum autor devido a passionalidade que o ao meu olhar crítico possui, mas tenho cá as minhas “grifes”.De cara este filme remeteu-me ao anterior “Jogo de Cena”. Saí do cinema pensando se seria a resposta da música (arte de compor e cantar) à interpretação (arte de interpretar)… Mas se em Jogo de Cena tínhamos algumas atrizes famosas, em As Canções, famosas apenas as músicas e as histórias, por inusitadas que fossem, todas girando em torno do amor, da emoção de ter-se amado um dia ou de ter-se amado menos do que se podia, amado quem não devia, mas no fundo amores perdidos.

As pessoas entram num palco com cortinas escuras, cadeira escura, cantam suas canções, expõem suas penumbras e contam suas histórias ou vice-e-versa. Levantam-se e saem dali provavelmente diferente do que entraram – imagino – porque eu, senti-me diferente de quando entrei para ver o documentário. Mesmo as pessoas mais leves, “carregam” no peso de suas histórias. Mesmo aqueles que contam de maneira a provocar risos, falam de dramas de um pedaço que se foi e que a canção permanece a preencher.Pergunto-me qual o segredo de Coutinho para deixar pessoas tão à vontade contando particularidades. Sim, eu sei,  são  histórias vividas, passadas, já divididas, partilhadas nenhum segredo, talvez, já do conhecimento daqueles com quem convivem. Mas teriam sido as canções que fizeram do diretor alguém íntimo para que abrissem o coração antes de cantar a plenos pulmões?

O filho que dizia não ao pai, o homem que dizia não à esposa, a mulher que ouviu tantos nãos do seu afeto durante 30 anos de idas e vindas, o homem que mudou-se do interior depois de perder em curto período esposa e familiares. O coronel que hoje lava a louça e leva a esposa e sua culpa de carro ao médico. A mulher que perdeu o amante após ganhar centímetros na “cinturinha de pilão”, a jovem – agora uma senhora, expulsa de casa por ser mãe solteira que encontra o amor da sua vida no exato momento que partia para morrer-se e matar a própria filha. A cantora do programa do Ary Barroso aposentada. A cadeirante com a linda história do amor em “Dó-Ré-Mi”.

Histórias, emoções ainda que em torno do mesmo tema, tão diferentes umas das outras, geradas por um sentimento que todos tivemos um dia, de ter amado e ter perdido. De continuar amando mesmo depois de ter sido preterido.

Coutinho e seu método, penumbra, cadeira, depoimento, boca aberta, alma em exposição, vulnerabilidade,  poderia ser um dentista, é diretor, cineasta. Poderia ser dentista… Mas é que a dor do paciente fica com a gente…

Por Rozzi Brasil.

Curiosidade: Prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio 2011.

VIP’S

cartaz

Antecipando o meu comentário sobre este filme: Eu me diverti muito assistindo!
Bem realizado, ágil, tomadas ótimas, o filme Vip’s  tem uma série de pontos positivos que de longe superam os aspectos negativos. Wagner Moura  sobra nesta personagem emprestando-lhe, energia, carisma, carência, uma tremenda coerência na sua total incoerência.

No início ele era penas "Bizarro", estudante

É bem verdade que nos sentimos  um pouco perdidos em algumas situações, como por exemplo nas aparições do pai de Marcelo quando não sabemos se ele é real ou um delírio, fato que só descobrimos ao longo do filme, mas devo confessar que na minha opinião como “público” de cinema e não “cinéfila”, quando assisto um filme quero justamente isso: surpreender-me, sentir-me envolvida à medida em que o filme se mostra e se desvenda. E foi isso que Wagner Moura me proporcionou ao me envolver absurdamente  com o seu absurdo Marcelo! Com aquele rostinho que conversa com a câmera e voz gostosa de ouvir.

Marcelo a princípio apelidado de Bizarro, aquele colega  adolescente que todos tivemos oportunidade de ter na nossa sala de aula, o esquisito, imitador que tumultua as aulas. Atenção! É a partir daí que vai se desdobrando a personalidade desequilibrada do rapaz, que tem um sonho e não opta pela maneira correta de realizá-lo.

em busca do sonho...

Wagner como Henrique Constantino e Amaury Jr

Talvez a condução do filme, o tratamento do roteiro decepcione críticos e pessoas que o assistirem buscando as semelhanças  com a personagem e os fatos da vida real, mas sinceramente um conselho para quem quiser: Vá para ver um filme, participar de uma história e sairá do cinema feliz ou muito satisfeito. Com cenas aéreas bem feitas, momentos ligeiros de suspense, o roteiro prioriza a aventura em detrimento do drama.  Wagner e seu Marcelo que também é Carrera, que também é Dênis, que também é Henrique Constantino vai envolvendo e ficamos numa situação um pouco parecida com a da sua mãe: torcendo para que em algum momento ele “dê certo”, que deixe de ser “um ninguém”. Gisele Fróes faz aquela mãe digna da composição de Chico Buarque,  “o Meu Guri”, encarna com perfeição a cabeleireira de um salão de fundo de quintal, mãe de um filho doce e monstro sobre o qual ela não tem nenhum controle e para isso não se esforça, limitando-se a ser  o  seu porto-seguro, sua cidade, seu cais, o local para onde ele volta para se recuperar e entrar em gestação de nova personalidade.  Embora essa personagem ou o tramento dado a ela possa ser  fictício, não está longe da realidade de milhares de mulheres que investem na idéia de que “ser mãe é padecer no paraíso”, ainda que sem nenhum juízo.

Wagner como Henrique Constantino e Amaury Jr

Marcelo como Henrique Constantino e Amaury Jr

Por assistir o filme no seu lançamento e por estar à sua espera desde o dia em que vi o cartaz, simplesmente não li nada a respeito antes,  indo depois, em busca  de informações e descobrindo que Marcelo Nascimento da Rocha é real, existe e é portador de  uma extensa ficha criminal. Descobri que algumas passagens do filme são reais outras não. O roteiro de   Bráulio Mantovani, e Thiago Dottori,  é baseado no livro de  Mariana Caltabiano, “VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso”. A antológica entrevista exibida por Amaury Jr (que participa do filme) com Marcelo fazendo-se passar por  Henrique Constantino,  filho do proprietário da Gol, aconteceu e dá um molho especial a esta obra que corre o risco de receber a culpa de mais fantasiosa que a realidade.

Roger Gobeth , Juliana Schalch e Wagner Moura

Os comentários  que a personalidade real é criminosa e a personagem ficcional é louca, psicótica etc  me parecem apenas uma questão de escolha da produção e direção, que se inspira  num drama real para criar propostas  de segmentos  para as  visões de cada espectador. Particularmente chei um mérito mostrar dessa forma evitando apologia  à mente criminosa do inspirador da história que Wagner Moura não quis conhecer . Fico cada vez mais fã deste ator e muito feliz com essa personalidade que criada por ele.

Vi  o Marcelo criado por Wagner como alguém verdadeiramente solitário e

Jorge D'Elia, o Patrão e Wagner como "Carrera"

desprovido de referências, incapaz de encarnar a si mesmo que por si,  possui apenas cúmplices arregimentados pelo seu carisma, fascínio e enorme poder de persuasão. Imagino que deva ser complicado para alguém ser apenas filho sem pai,  de mãe pobre e  cabeleireira, depois de experimentar as deferências da alta sociedade e celebridades para com um VIP, uma vez que não se trata no filme de alguém mau, mas um caráter distorcido numa personalidade fragmentada numa pessoa sem paciência para se preparar para as oportunidades,  alguém que precisa, que tem que se dar bem, carregando  seus princípios duvidosos e valores contraditórios como: transportar drogas pode, transportar armas não pode.

Os apreciadores e adeptos da psicanálise  certamente verão esse filme mais de uma vez. E  confesso que,  mais uma vez assistindo me divertirei como na primeira vez!

Fico por aqui na tentativa de evitar os “spoilers”. Largue esse blog, vá ver o filme e volte pra conversarmos!!! Continue lendo

Bruna Surfistinha

Finalmente assisti o comentado Bruna Surfistinha, pelo  atraso da minha ida resta-me pouco a dizer sobre o filme que considerei bom e eficiente na sua nítida proposta de contar uma história onde não entra em pauta o julgamento moral da personagem, embora muitos dos “críticos” amigos que ouvi se aproveitem do filme para tentar expor uma inferiroridade – ao meu ver inexistente – no modo brasileiro de fazer filmes .

Eu não li o livro “ O Doce Veneno do Escorpião” no qual o filme se baseia, também nunca acessei o blog  que o originou, Bruna Surfistinha – o filme é para mim, pois apenas uma história contada em modo de filme e como apreciadora de cinema por contar  histórias, gostei bastante, principalmente da escolha feita pelos roteiristas de mostrarem fatos e personagens que ilustrassem de forma objetiva  a trajetória da personagem. Déborah  Secco me convenceu como Bruna, a garota de programa que escolhe a profissão, ainda bastante jovem como opção para resolver de forma rápida os  seus tantos problemas e nela evolui  apoiada numa espécie de vocação fortalecida pela ânsia de liberdade e libertação. Débora encarna uma Bruna e suas camadas, com muita eficiência, convencendo muito mais nos momentos de bom humor descolado, com a emoção que imagino esteja ali coladinha com o que um dia foi realidade, mas frágil nas cenas junkie. A atriz,  parece especialistas nas ambiciosas-alpinistas-econômicas-desprovidas-de- mau-caratismo.

O diretor Marcus Baldini, acerta nessa sua primeira direção em cinema, conta uma história sem apologia ou proselitismo e consegue mostrar mesmo as  cenas de sexo mais bizarras de forma limpa sem repulsividade. Mostra segurança nas cenas e na direção dos atores, entre os quais Fabíula Nascimento (Estômago) que ao meu ver, arrasa! Gostaria de ver um Hudson (Cassio Gabus Mendes) mais “encorpado”, talvez com uma participação maior que  apenas a de “anjo da guarda” e Drica Moraes poderia ter um maior volume de cenas.

Drica Moraes

Cassio Gabus Mendes

É bem verdade que alguns amigos me aconselharam a optar por outros filmes em detrimento deste, colocando como justificativa o excesso de cenas de sexo, do que discordo! Há muitas cenas deste tipo sim, mas nenhuma agressiva, grotesca ou mal feita, além do que o tom da narrativa é bem humorado e dá uma minimizada em assuntos dramáticos como bullyng, machismo e o relacionamento (competitivo e convivência obrigatória) entre as  garotas de programa que trabalham no mesmo bordel.  De certa forma me pareceu que o filme mexeu com o preconceito latente de algumas pessoas, afinal criticar o volume de cena de sexo num filme que conta justamente esta fase de vida da personagem, me pareceu exagero.

A vida de Bruna antes de optar por ser garota de programa, tem muito pouco espaço na narrativa, mas não faz falta, inclusive deu-me o que pensar no sentido de que é  tendência   romantizar os casos de adoção, delegando aos pais adotivos  o status de benfeitores e aos filhos o de eternos agradecidos ou ingratos, a cena que revela a condição de filha adotiva da personagem se passa quando ela já se apresenta como profissional do sexo, isso  deu fluidez à trama, a demonstração do seu dia-a-dia  num prostíbulo com programas ao peço de R$100,00 não nos deixa cair na tentação de justificar sua decisão, mas me deixou curiosa: Como um lugar tão “caidinho”  tem esse preço?

Pareceu-me que muitas pessoas nutrem a expectativa que histórias de prostitutas tenham que ter necessariamente fortes ingredientes de tragédias, dores, sofrimentos. Espera-se das mulheres que escolheram a profissão que sejam infelizes e que tenham histórias tristes pra contar que  justifiquem  a escolha e que obrigatoriamente  sirvam como exemplos do que não se deve fazer… Bruna escolheu o que lhe pareceu oferecer um resultado mais imediato. Não foi fácil, teve alguma sorte, mas acima de tudo teve ousadia e nunca pudor ou qualquer vergonha , muito pelo contrário, ela se sentia feliz na medida que realizava seus desejos de sentir-se bela, desejada,  popular  e se percebia livre e competente para bancar suas escolhas, as quais não fazia pelo critério da facilidade.

Interessante notar como o mundo digital tem o poder da transformação de pessoas em celebridades, da avidez das pessoas do mundo moderno em consumir novidades/pessoas e da prepotência e arrogância que pode dominar um jovem que tromba com o sucesso. Bruna  usou como arma exatamente a exposição daquilo que quando jovens  escondemos: nossas confissões em diário. Tornou pública a satisfação da vaidade masculina e curtiu como poucos a popularidade, grana e fama.

Gostei bastante, por sua realidade,  da cena do salão de cabeleireiro e achei muito divertida  a cena em que o carro com as “meninas” é parado por um  guarda, embora muito salpicada de glamour em excesso.

Um ponto forte da produção é a perfeita caracterização da personagem, sua mudança de visual conforme suas fases de evolução, apogeu e decadência. Repare nos cabelos, modelitos e principalmente nas unhas.

A trilha sonora é bem legal, pertinente e envolvente embala bem a moça que deixa muito claro sua sede de independência e sua falta de cumplicidade com a fraqueza e covardia que a cercava.  Ela embarca para um mundo onde só os fortes tem sobrevivência (dentro dos seus conceitos)  digna, se recusa a ser “teúda e manteúda”, princípios que a afastam para sempre de sua mãe, sem no entanto ver-se como estigmatizada eternamente, pois no momento em que decide casar e ter filhos, faz contas e conclui quantos programas ainda lhe restariam a fazer para  ingressar nessa nova atividade sem o fantasma da dependência…

Bruna à direita, faz ponta no filme

Talvez o filme simplifique o livro, talvez o livro vá um pouco além nas explicações que levaram uma menina mal arrumada e impopular na escola a ligar para uma cafetina pedindo informações sobre uma vaga para trabalhar. Talvez o livro esclareça um pouco mais porque pai e irmão de Raquel Pacheco (que faz ponta no filme)  a tratavam de  forma tão abjeta, mas a história como  filme me satisfez e ainda teve a divertida participação do jogador Dentinho do Cotínhians. Um drama sem ênfase no drama.

Gênero:
Drama
Estréia Brasil:
25/02/2011
Distribuidora:
Imagem Filmes
País de Origem:
Brasil
Direção:
Marcus Baldini
Elenco:
Deborah Secco (Bruna Surfistinha), Fabiula Nascimento, Drica Moraes, Cássio Gabus Mendes
Duração:
::109 minutos
Classificação:
16 anos
Site Oficial:
Roteiro:
http://www.brunasurfistinhaofilme.com/ 

Antonia Pelegrinno, José Carvalho, Homero Olivetto


Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma. 2010)

Vários diretores já se trancaram em um único ambiente para dar vida a roteiros diversos,  o que significaria nenhuma novidade para este Julio Medem. No entanto, além da inovação do casal trancafiado no quarto em  Roma ser formado por duas mulheres (lindas, diga-se de passagem) o  ambiente único,  geralmente  claustrofóbico desta vez,  é arejado pela atuação convincente de Elena e poderosos auxílios como sensível fotografia, vigor da trilha sonora e  interação entre a vida naquele quarto com hora certa para se extinguir, influência da vida exterior e a presença desta através das incursões do garçom e produtos eletrônicos modernos.  Elena Anaya e Natasha Yarovenko dão vida a personagens muito interessantes e diferentemente do que imaginei, não é aventura do corpo que toca o coração, mas justamente o contrário.

Existe um crescendo na confiança que vai aos poucos se estabelecendo entre as duas mulheres. A célebre atitude de dar nomes inventados à ” paquera da hora”  que acabamos de conhecer, já mostra que havia se não o desejo ou  curiosidade, pelo menos uma certa intenção entre aquelas duas estranhas, por mais que a princípio a atmosfera romântica não prevalecesse.  Não mostrar quem são na vida lá fora, a derrubada dessas mentiras que visam proteção ou mesmo torná-la seres mais interessantes, fez-me pensar como é curioso o ser humano, que mesmo numa situação transitória e vivendo momentos com prazo definido para um final, não deixa a peteca cair. O corpo, o sexo é alvo de tanta teorização e no entanto estando duas mulheres nuas num quarto, escondem seus nomes e suas histórias como forma de protegerem suas vidas. É a potencialização do pensamento difundido por aí que entre quatro paredes tudo e válido desde que ali se mantenha.

Os diálogos tem muito de fábula e a fotografia é de grande  beleza plástica, onde ver duas mulheres fazendo sexo não choca e ainda estimula. Interessante perceber a co-atuação da tecnologia moderna interagindo e oferecendo informações sobre a vida extra-quarto das personagens, arejando o “Quarto de Roma”

Natasha (Natasha Yarovenko) moça heterossexual se  vê num quarto com Alba (Elena Anaya) moça homossexual e por aqueles motivos que não se explica se envolvem numa intensidade onde qualquer um poderia  enxergar a si próprio. Elas vão se revelando uma para a outra entre pequenas e grandes mentiras a respeito de si mesmas, os grandes dramas que cada uma carrega na vida real, em 12 horas vivem um relacionamento com densidade  infinitamente superior a muitas relações que sobrevivem do lado de  fora.

Por que carregam esses dramas em suas histórias, não consegui entender, confesso que sou inexperiente em Julio Medem e , não ouso afirmar que em suas histórias pessoas encucadas fazem sexo bem e se entregam à curiosidade até que ela se torne prazer e se vista de amor.  À pergunta que me surgiu durante a exibição:  será que uma pessoa sem fatos pesados na sua biografia, não se entregariam daquela forma ao amor ou a um sexo de uma forma fora do seu habitual ? Tentarei responder vendo outros de seus filmes.

O requinte de detalhes nos leva a ver a cena em que  Natasha, a mulher heterossexual  solicita um vibrador  ou algo que a penetre enquanto que a lésbica afirma não utilizar esse tipo de recurso, pode para alguns, confirmar a lenda que a penetração é indispensável ao prazer feminino como pode desmentir  a verdade que o falo acompanhado do corpo é inteiramente  dispensável em detrimento  de qualquer coisa em forma similar ou mesmo uma garrafa de vinho da Toscana…

Amigos que assistiram antes de mim comentaram sobre a falta de consistência dos diálogos do que discordo, entendo que deve ser complicado diálogos profundos e complexos estando-se em par num quarto de hotel, diante de um corpo atraente, perante alguém que admira e demonstra gostar do que vê, da mesma forma que ter atenção nos diálogos diante de cenas tórridas não deixa de ter certa porção desafio… Contudo, não é justificada a piadinha de que com aquelas moças nuas e suas ações na tela o filme seria apenas imagens a se observar… Esta reclamação, não tenho .

O filme mostra muito do que uma mulher  pode ser capaz quando tem sobre a pele o toque certo, o quanto falar de si pode ser importante no trajeto cama-chuveiro-banheira. Mostra a capacidade do ser humano de se envolver e encantar, vivendo um grande amor num espaço pequeno e  tempo reduzido, em que muitos sequer conseguiriam entrar no primeiro sonho. É grande a capacidade de amar das mulheres, ouvir a voz do corpo pode ser muito diverso de buscar a traição, no momento em que se está onde se está,  estaremos sempre fiéis a nós mesmos.

Se tivesse que dar uma nota no filme como um todo, incluindo os diálogos daria um honroso 8.

Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma)

Espanha, 2010

Gênero: Drama

Diretor: Julio Medem

Elenco:  Elena Anaya (Alba) Natasha Yarovenko (Natasha) Enrico Lo Verso (Max) Najwa Nimri (Durne)