A Suprema Felicidade (2010)

Eu  gosto do Jabor, aquele cheio de verbos, empolgado. Quando leio seus textos, até consigo ouvir sua voz e ver seu dedo enérgico em riste a cortar os ares. Então, esse excesso de verbos transpassaram para o filme A Suprema Felicidade

Achei bonita a produção, a reconstituição de  uma época onde tudo era tão importado, tão estrangeiro principalmente a sensualidade.  Se imediatamente ao sair do cinema, me perguntassem  sobre o que trata o filme, minha resposta imediata seria… Sobre o fim das coisas! Sobre o que mesmo considerado correto está errado, ou não deu certo…  Sobre os caminhos que a iniciação sexual  nos idos 50…

Se tivessem me contado que o filme é autobiográfico, talvez eu o entendesse melhor. A mim pareceu que os argumentos que compõem o filme seriam suficiente para umas três produções:
- a relação de Paulo (Jayme Matarazzo ) e seu avô Noel (Marco Nanini),
- o relacionamento dos pais de Paulo,
- a iniciação sexual de Paulo.

Sendo uma biografia entende-se esse tudo ao mesmo tempo, é assim que a vida é.  Como se fossem vários episódios compondo um mesmo filme, as cenas se vistas isoladamente já depreendem em si um valor, um fato, uma mensagem. Por isso cheguei a pensar que Sofia (Mariana Lima) a mãe de Paulo teria enlouquecido, seria a informação de que mulheres reprimidas e castradas surtam mas voltam logo ao normal, ou simplesmente uma reminiscência do diretor? Ou ainda uma anotação: ‘Olhem, naquele tempo era assim, as mulheres eram escolhidas pela beleza e carisma e acabavam verdadeiras trancafiadas em nome da oral e dos bons costumes’…

O comprador de quinquilharias (Emiliano Queiróz) que não aceita as recordações de família fala de um comportamento ético que se perdeu no tempo. O pipoqueiro falastrão, Bené (João Miguel) que ainda existe em algum subúrbio longínquo dá um tom divertido.

As imagens são belíssimas mas algumas passagens me deixaram no ar e assim talvez seja na obra porque assim é na nossa vida. Mas que algumas cenas poderiam não ter existido, com certeza, como por exemplo,  a cena em que aparece um teco-teco a fazer malabarismos e Sofia feliz e saltitante grita: ”ele faz isso por mim!” E  abraça o filho que nesta cena tem 8 anos embora ela traga a caracterização de quando ele tem 19…

Talvez  Jabor tenha aproveitado o filme para uma terapia, para incendiar seus navios e contar como era bom poder freqüentar bordéis, pagar pelo sexo e ainda escolher com quem  fazê-lo. Talvez tenha ocorrido algo similar à cena do eclipse e isso justificaria seios nus fora de hora.

Talvez tenha querido dizer que a suprema felicidade não está na eletrônica e informações full time em tempo real, mas em a partir da nossa vivência poder fazer escolhas de acordo com o nosso afeto e fé. Que ser criado em colégio de padres não era uma boa contribuição à religiosidade das pessoas, que freqüentar prostíbulos e bordéis não faz de ninguém um tarado. Que a despeito de tanto glamour importado os mortos eram carregados em carroça à luz do dia em nome de um  atraso científico na capital federal e no país, mas que não era  isso que tornava as pessoa infelizes.  Que Paulo sempre gostou de meninas complicadas,  principalmente por seu amor começar a partir dele mesmo em sua imaginação, sonhos e fantasias. Que tanto faz catolicismo ou espiritismo, religião é algo pra envenenar a realidade das pessoas.

Nanini está magistral como Noel, o avô de Paulo – mas quando foi que este ator foi menos que  maravilhoso? Dan Stulbach é de uma competência emocionante mostrando que amar não é o suficiente para que se seja feliz ou para fazer alguém feliz.  Elke Maravilha no papel de ex-prostituta casada com o avô de Paulo,  bem que poderia ter um aproveitamento melhor, mas é que me parece que Jabor estava a fim de falar mesmo do universo masculino…. Cabeção, o amigo de Paulo ao se perceber homossexual, ao demonstrar (para a platéia, porque a anta do Paulo só pensava  em Deise, a maluquete médium Maria Flor) que amava Paulo some num cenário enfumaçado como se fosse pro tal reino dos céus chato e carola apregoado pelos padres…

Entendo Jabor, você nunca teve tendência a ser gay e que deixar isso bem claro nesse filme que não é autobiográfico, mas era assim que se fazia com os amigos naquela época, jogava o cara na névoa do esquecimento? Não sei , mas é fato que depois de tudo,  o que fica são impressões que resultam no perfil que criamos de nós mesmos. Não tem como não ter saudade da nossa infância, não tem como no final de tudo avaliarmos que fizemos o melhor com o sempre pouco que temos no momento de decidir.  Não tem como pensar que neste A Suprema Felicidade, ninguém era feliz nem alegre… O mais feliz se confessa apenas alegre e conta teve 10 minutos de suprema felicidade.

Paulo era um cara intenso, curioso com pressa de  viver, fora o avô e as putas não tinha muito com o que se alegrar, saber que a felicidade não existe, com sorte somos alegres até que não foi tão ruim, chato foi a decepção que me acompanhou na saída do cinema eu preferia como Paulo  acreditar que a felicidade existe se sair procurando por ela. Divertidas  as participações cenas com os padres  (Ary Fontoura, Jorge Loredo e Raphael Molina) e suas maldições infernais.

Mas sei lá, achei esse Paulo um tremendo de um egoísta pelo seu comportamento alheio à família, por representar o jovem de sexo masculino de uma época e as garotas em que segundo Jabor “não davam” e vagar pelos bordéis sempre a escolher e não comer ninguém e terminar por acabar com a fonte de renda de Marilyn e sua mãe. Aos egoístas, mesmo os poucos 10 minutos de felicidade suprema será negado talvez por isso um filme tão nostálgico onde ninguém consegue realmente estar feliz ou alegre…

Postado por Rozzi Brasil

COMO ESQUECER

Um filme bem feito, muito delicado, bela fotografia  com ponto forte na atuação do elenco.  Num ambiente onde 3 amigos precisam cada um a seu modo sobreviver às suas perdas.  A partir da idéia de Hugo (Murilo Rosa) de dividirem uma casa num bairro distante,  próxima do mar, eles viverão  a aventura da superação juntos: Lisa (Natália Lage) abandonada grávida pelo namorado; Hugo há um ano tentando retomar sua vida após a morte do namorado e Júlia (Ana Paula Arósio) onde a dor da perda terá seu mostruário mais complexo.  Professora deLiteratura Inglesa, ela é refratária a qualquer tentativa de aproximação, sua grande questão é:  qual é o contrário do amor?  De temperamento forte ela sorve seu cálice de dor e espanto e assim planeja seguir, até que não haja mais nenhuma gota, passando por fases sombrias de autoflagelação e pensamentos suicidas. Personagem encucada,  que nos coloca questões sutis  de abordagens raras.  Recheado de citações de Virgínia Woolf, o filme ainda traz uma pitada da discussão sobre os autores terem a liberdade literária de escrever  sem se pautarem em suas vivências pessoais.  Júlia nunca planejou ter uma casa ou sonhou com uma. Casa, para ela, é apenas o cenário onde sua vida conjugal se desenvolve, por isso não lhe era fácil dividir espaço, partilhar intimidades com pessoas não de todo íntimas. Júlia  a princípio é azeda, ranzinza mas nas seduções que vão se desenhando ao longo da história, não é que ela  se torna extremamente interessante?! Tive a impressão de ser Júlia aquela pessoa que só permite intimidade ao ser amado com o qual se divide a vida, o tempo, a pele…  Há uma menção rápida de que ela seria daquelas que se fecham num relacionamento, no estilo “mais de 2 é reunião” e como sabemos, reunião precisa de agendamento…

Se Liza diz que Júlia é egoísta e só pensa em si, antes Hugo deixa claro para nós espectadores que ela havia “abandonado” sua vida para cuidar dele quando ele  precisou, motivo pelo qual, no início do filme ele decide tornar-se o home care da moça. Uma personagem tão densa quanto tensa, com valores próprios levados às últimas conseqüências. Não, o egoísmo não é o pecado de Júlia, como todos nós ela é egoísta em maior ou menor  intensidade, por por um tempo maior ou menor, seu sentimento de superioridade e orgulho são muito maiores que o egoísmo propriamente dito. Fechada em sua dor, ela olha com a superioridade dos intelectuais para a humanidade implicando, sem contudo,  desprezar, como um grande escritor olharia para as garatujas da criança que sonhasse ser romancista.

Tanto amor elevado à potência do abandono não descarta seus desejos físicos. Ela é  consciente do seu  corpo, parece entender que o esquecimento tem um ciclo que passa por toda teia de nervos, sangue,  pensamentos e sentimentos. A  dor antes de ser diluída, consumida esquecida,  terá de passar por todos os estágios da mente e do coração e da carne também.

Um filme  sensível que aborda o sentimento das pessoas mediante perdas, alegrias, esperanças a despeito da orientação sexual.  Neste aspecto o filme me lembrou muito a visão de Eytan Fox em seus filmes onde o gay é apenas uma pessoa com problemas  e soluções tal e qual qualquer heterossexual.  Um filme numa ambientação onde o gay  não causa estranhamento,  nem está angustiado  ou culpado nem orgulhoso  ou arrogante-desafiador-vitorioso. Está simplesmente  inserido vivendo uma realidade onde é aceito,  se preocupa com contas a pagar e realização profissional. Ainda assim o roteiro,  não deixa de pontuar a falta de segurança  financeira ou civil das relações homossexuais estáveis, duráveis, longas:  Julia e Antonia viveram juntas por 10 anos e Antonia se vai, deixando atrás de si um rastro de pendências práticas e também uma senhoria na porta  cobrando de Julia  o aluguel não pago e desejando regularizar o contrato ainda em nome da outra. Hugo teve mais sorte, pois seu par antes de falecer havia deixado um testamento.

Para esquecer, é preciso primeiro sobreviver  e para sobreviver Julia pensou até em morrer, o que se coaduna com  menções de Cassandra Rios e Virginia Woolf . Para a ranzinza Julia, esquecer  não significa aproveitar-se das oportunidades de romance e sexo que surgem, ela é quase indiferente às facilidades da vida  que em seus movimentos põe ao  nosso alcance novas pessoas e novidades.  Numa determinada cena  ela não se vê capaz de reconhecer na rua entre passantes a sua ex, o que para ela não significa esquecimento. Ela segue  o  caminho de um esquecimento  mais profundo,  talvez, esquecer para Júlia, seja  estar capaz de se deixar preencher inteira por outra pessoa, estar disponível   e não  apenas mais uma vez  morar num novo cenário. Talvez esquecer seja estar pronto para com propriedade amar de novo…

Como Esquecer; Brasil; Drama; 98 minutos; 2010; Europa Filmes Direção: Malu de Martino, Elenco: Ana Paula Arósio, Murilo Rosa, Natália Lage, Arieta Corrêa, Bianca Comparato, Pierre Baitelli

Tropa de Elite 2 # O Inimigo Agora é Outro (2010)

Tropa de Elite 2: Dessa vez não fui à pré-estréia, não entrei na fila para assistir na estréia, não me estressei on line para ver na 1ª semana. Eu tive medo.

Tropa de Elite 2 não é um filme que se assista pura e simplesmente, pois a todo momento somos  sugados para dentro da tela… Ou seria a tela que insiste em pendurar-se nas nossas vidas? Lotado de referências tipicamente nacionais de um Rio de Janeiro que que está em toda parte do Brasil  a despeito da insistência de muitos em não perceber.

Não há como se sair indiferente dessa projeção, é um dedinho que nos toca no ombro, u’a mão que  nos dá na cara para logo após socar-nos o estômago e sem piedade, num golpe final,  olhar bem nos nossos olhos e cinicamente sorrir.  Saí do cinema espancada, abatida,  com sentimento de revolta, pronta a explodir  qualquer comício que passasse na calçada.

Desta vez José Padilha pôs o dedo na nossa cara e relembrou que nenhum de nós é inocente.

Mais de seis milhões e meio de pessoas viram o filme, o que mais se teria  a dizer? A minha visão de mulher que diante de um jornal, entre uma foto chocante de crime/tragédia e outra de políticos/sorridentes em campanha, recorre às cenas do próximo capítulo de uma novela qualquer como recurso para não enlouquecer  com a  impotência e letargia dos nossos tempos. Hoje a vida é  tão rápida! Os recursos tecnológicos nos deixam por dentro  de tudo e em tempo real… E justamente agora, encontramo-nos apopléticos, sem saber para onde ir e sem perceber para onde estão nos levando. Deixamo-nos enganar com gosto, só para não saltarmos  da condição de  vítimas  ou de  famosos “massa de manobra” para o papel de quem molda seu próprio destino. Nunca precisamos tanto evocar nossa porção Capitão Nascimento, nunca  ele foi tão ficcional…

Capitão Nascimento, envelheceu 13 anos, ganhou lindas mechas grisalhas, continua com aquele pescocinho ligeiramente entortado à direita, dedo em riste a repetir  pausadamente aquilo que ele quer que seja perfeitamente entendido.  Promovido a herói  (da promoção de patente todos já  sabemos)  é um homem cada vez mais sozinho, como sozinhos se tornam todos  os que insistem em trilhar rumo a um ideal de correção. Estão sós aqueles que pensam em ter vida limpa e  tentam livrar-se  dos entulhos à volta.  Estão irremediavelmente sós aqueles que insistem em manter suas cabeças e éticas acima da mediocridade  vigente em todos os escalões.

No princípio eram as drogas e o tráfico. E a polícia corrupta viu que tudo isso era muito bom!

Acharcou traficantes, elementos enriqueciam, arquivos eram queimados e no saldo das prestações de contas , não havia porque se importar com os inocentes…  A rede cresce e engrossa até criar contornos diante dos olhos do nosso herói que ervas daninhas se combate como pragas, eliminando-se! Surge a lenda e acaba o filme 1.

Tráfico dominado, traficantes engaiolados, Capitão Nascimento torna-se coronel Nascimento, comandante geral do BOPE. Torna-se também um homem separado, heróis não devem casar-se…  Na sua rotina, pela sua retina enxerga  3 tipos de polícia: corrupta, não corrupta e o BOPE. Na sua vida existe o seu trabalho, a sua família e o seu trabalho.
Vamos combinar que algumas coisas dão certo exatamente porque algo nelas deu errado. É  como se a partir de  um passo errado numa dança, pudéssemos  criar um  outro modo de dançar, porém alguns princípios básicos nos fazem errar  para sempre.
O que Tropa de Elite 2 tem de melhor, é a humanidade do seu herói, a babaquice dos seus cidadãos, a implicância com os intelectuais defensores radicais dos direitos humanos na base do  “é dando que se recebe”  e com aqueles que pensam ter mais direito aos direitos humanos  que suas vítimas e finalmente, a profusão de frases candidatas a bordões que alegremente continua.
Com uma fotografia funcional que participa como personagem da trama, a qualidade do filme é inquestionável  aliada a  um roteiro preciso, amarrado, coerente.

Rimos, quase choramos,  nos indignamos, prendemos a respiração, xingamos e quando saímos do cinema nos surpreendemos pensando.

A sociedade a qual as instituições deveriam servir, delas se servem.
Os políticos, cargos para o serviço e satisfação da sociedade, dela se servem.
A polícia que existe para servir e proteger a sociedade nela tem seu maior antepasto.
O poder se alimenta da desgraça das pessoas.
O sistema precisa fomentar desgraça para para que suas manifestações de poder sejam inquestionáveis.
O cidadão, desculpa para tantas ações e legislações, é no fundo apenas aquele que irá manter com sua ignorância, ingenuidade e fruto do seu trabalho formal ou não,  todo o peso de um  sistema faraônico que arrogantemente irá lhe roer até os ossos e pagará cada vez mais caro por isso.

Repare bem a cena em que Russo (Sandro Rocha) faz seu ritual de passagem entre acharcador do tráfico e chefe da milícia: Ele vai “tomar” dinheiro do vapor que só tem R$500,00 que foram  ganhos com o “gatonet”, ali a gente percebe qual a saída que temos, tanto nós sociedade,  quanto aqueles que se encontram encurralados nas vielas.
Ali entendemos exatamente o que é a lei do mais forte e que evoluir não faz o menor sentido. A marginalidade diante da polícia só tem um destino que certamente não é a reabilitação…

Não há defesa pra ninguém.
Ninguém é inocente, numa sociedade onde se vive por alianças para fortalecimento individual e as possibilidades de ganho sempre passam a existir e ter importância por si só. A ganância não olha para ética e o poder existe  para deleite de todos aqueles que pensam estar um milímetro acima do que  é chamado de povo. (O brasileiro tem um dificuldade de se ver como povo, como todo, não? As críticas são sempre feitas em 3ª pessoa).
Todos ali naquela película, tem um preço e a política não olha para nada nem ninguém que não seja suas próprias vaidades.
Não importa o que o herói possa fazer, o sistema existe e se reinventa e se alimentará das necessidades que se não existirem, ele criará. Osistema se reinventa, daptando-se e lançando mão do que teoricamente seria ferramenta para sua própria mudança ou destituição.
Coronel Nascimento vira subsecretário. O sistema ignora que algumas pessoas são fieis à sua essência e tenham em si valores inegociáveis (princípio do Coronel Nascimento). Para alguns o que impede que se corrompam não é apenas a falta de oportunidade de se corromper, não basta trocar a planta de lugar para que se tomem de amores por condições  mais leves e vida confortável. A grande coerência deste roteiro, é justamente o tempo que Nascimento leva para se adaptar à troca de suas armas: de pistola para palavra, microfone, boca-no-mundo.
Por sorte, por piedade jamais por acaso,  no início do filme somos avisados que é uma obra de ficção, o que nos faz rir das referências tão claras do jornal que manda profissionais para morte; Cúmplices de autoridades políticas orquestradoras de candidatos políticos, financiados pela grana de uma nova modalidade de crime;
Do apresentador de TV invejado pelo governador pelo número de opinião capaz de formar;
Do agente carcerário que não vê nada demais no inferno que se desenha dentro dos presídios;
Do intelectual defensor dos Direitos Humanos que vê tudo demais nos infernos prisionais ignorando que entre mauricinhos de faculdade e bandidos nas unidades prisionais existe o segmento que dever-se-ia denominar cidadão para o qual todos os esforços das autoridades, serviços e servidores deveriam ser direcionados e não exatamente o contrário como nos mostra  o soco na cara de José Padilha.
Temos a chance de perceber como é a política de governar  para si mesmo e percebemos que jamais tivemos outra forma de política…
E quando o policial subordinado descobre negócio novo virando líder comunitário,  percebemos que contra a ganância a covardia talvez seja uma arma definitiva para a sobrevivência e revela a grande onda das nossas autoridades: “fifty to fifty” -  a “taxa do eu sei”…  Quem sabe recebe, quem deve paga e quem não sabe paga também só que um preço mais caro por acreditar  que é votando que se resolve as questões populacionais…
Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro – sua exibição deveria ser indicada a passar nos próximos horários eleitorais gratuitos, apenas isso.
No mais,  foi um alívio ver no filme de ficção, que num país onde se apregoa que milhares de empregos são gerados a cada momento, existe um herói desempregado, humilhado, incompreendido. Alívio, porque conheço pessoas reais nessa condição e elas não serão ouvidas enquanto não puderem apresentar vantagens, o que pode nos dar um alento de esperança no futuro.
Não sabemos de onde vem o tiro. mas ainda podemos de certa forma ter esperança!
Nota 10, sobre tudo pela coragem da cena final, o rasante panorâmico por sobre a origem e finalidade dos problemas  mostrados no filme, que é a sua própria razão de ser,  podendo  também ser  a solução. Não se deve assistir a este filme pensando em tratar-se de uma história fictícia numa determinada cidade, pois que  cidade e governos locais nada mais são que miniaturas de um país…  Afinal, nem mocinho nem bandidos disparam o gatilho sozinhos muito menos por nada…
Tropa de Elite 2. 2010. Brasil.
Direção: José Padilha
Roteiro: Braulio Mantovani e José Padilha
Elenco: Wagner Moura (Nascimento); Irandhir Santos (Fraga); André Ramiro (Mathias); Pedro Van-Hel (Rafael); Maria Ribeiro (Rosane); Sandro Rocha (Russo); Milhem Cortaz (Fábio); Tainá Müller (Clara);  Seu Jorge (Beirada); André Mattos (Fortunato); Jovem Cerebral (Braço)

Postado por Rozzi Brasil

Nosso Lar (2010)

São surradas as comparações inevitáveis para qualquer filme baseado em literatura de sucesso, no caso especifico do filme Nosso Lar, há a dificuldade extra de condensar um conteúdo denso de ensinamentos e filosofias em  102 minutos, o que me deixou a impressão de a película ter sido digamos, um pouco didática demais. A opção de conduzir o filme na mesma sequencia do livro, com o recurso de narrativa em off reduziu o impacto dramático. André Luis (Renato Prieto) tinha mulher, 3 filhos, cachorro, boa casa era médico e tinha consultório, pacientes e empregados. Não era uma pessoa má, era egoísta e arrogante, vaidoso da sua profissão e viveu de forma a não desenvolver suas potencialidades de afeto, num ambiente que não favorecia isso. Ele era fruto dos valores, padrões e normas sociais de uma época  que davam aos homens formados academicamente e bem colocados financeiramente o status quase de super-herói, com direito a uma vida paralela. Sim, André Luis é mostrado como muitos pais de família que alguns de nós tivemos. Apesar de médico, não cuidava da sua própria saúde, era apreciador dos divertimentos glamurosos de uma época como bordéis, bebida e tabaco. Embora as cenas não nos mostrem excessos, os diálogos  tentam indicar isso.  Interessado pela família, mas não próximo dela, muito mais por um padrão de comportamento disseminado do que por  sua própria índole.

Creio que para os não espíritas e aqueles não familiarizados com o livro, faltou consistência  aos motivos da  ida de André Luis para o umbral, as cenas resumidas do crescimento da personagem e ilustrativas do  seu modo de vida na Terra não forma um link tão eficiente,  sendo necessárias várias voltas ao assunto através de explicações orais, válidas na literatura mas talvez não tão eficientes numa narrativa cinematográfica onde as imagens a substituiriam com mais impacto e apelo emocional. Para quem leu o livro, o filme materializa a imaginação que o texto original traz à mente, mas não sei exatamente o que ficaria retido na mente dos não leitores, valendo o mesmo para os não espíritas.

Existe algumas mensagens subliminares  no filme como:  que somos responsáveis por cada ação praticada e também pelas ações não praticadas advindas de uma falta de sensibilidade que nos levam à ignorância de seguir os ditames sociais por conveniência. Analisando-se por este lado, o umbral não seria um castigo para os maus, mas  uma ferramenta para uma tomada de consciência daquilo que se praticou, uma oportunidade de se encontrar  a essência, a sinceridade do nosso coração. Por outro lado a caridade (uma manifestação prática da nossa sensibilidade mediante às necessidades do próximo) renderá frutos ainda que praticada à revelia da nossa consciência.

Resumindo: a responsabilidade será sempre nossa e suas consequências serão mais ou menos dolorosas conforme o nosso grau de consciência daquilo que praticamos. Se isso fica claro para todos que assistem o filme tenho dúvidas, mas ficaria mais nítido a partir de uma outra interpretação do ator num contexto que priorizasse a carga dramática em relação ao tom didático e narrativo.

O primeiro e grande mérito do filme Nosso Lar, é o pontapé inicial na inclusão do Brasil no segmento dos efeitos especiais, que interagem muitíssimo bem com os elementos não digitais, os mesmos que podem ter deixado alguns atores tensos, pouco à vontade, sem naturalidade como por exemplo Renato Prieto -na pele de André Luis, assim como Fernando Alves Pinto na interpretação de Lísias. Helena Varvaki, a Zélia, esposa de André,  talvez tenha sido dirigida para uma interpretação mais contida que evidenciasse a diferença do seu comportamento  no  casamento com  André e posteriormente com – Ernesto (Nicola Siri)… Apenas especulações  para desempenhos que não me agradaram.

Uma dúvida que trouxe do cinema para casa foi a cena onde os desencarnados judeus na 2ª guerra, chegam ao Nosso Lar aparentemente sem passar pelo umbral, caminhando em grupos onde estavam outros poucos trazidos em macas… Teriam os seus sofrimentos nos campos de concentração os liberados desse estágio? Existe na prática judaica algo que isente o homem desse ambiente de expiação?

A direção é apurada e asséptica e tem alguns cuidados em mostrar a face ecumênica dessa colônia/cidade espiritual, onde visualizamos ícones de várias religiões, seja na decoração de ambientes ou no terço católico que Amélia personagem de Aracy Cardoso , o  tom economizadamente divertido que a trama carrega.  Essa mesma personagem que parece demonstrar a diferença entre ser bom e ser correto, afinal André Luis não era mau, não tinha compromisso de exercer de maneira efetiva a bondade e nos traz dúvidas quanto à sua própria correção, exatamente como nós que vivemos por aqui, o que sinaliza a plena empatia que essa  personagem poderia ter com o público e isso sobrou para  Rosanne Mulholland , vivendo Eloisa, uma  inconformada recém-desencarnada que não toma conhecimento  dos ensinamentos ministrados no Nosso Lar , não acreditando no que seus olhos vem, compreensivelmente,  investe naquilo que acredita,  em seus próprios desejos,  pois se ser bom é difícil, obedecer  o que não se entende pode ser muito complicado…  Ela é a personificação de uma diferença existente entre o espiritismo e demais religiões: o livre e pleno direito ao arbítrio, a ausência de proibições,  o que de certa forma confere ao espiritismo a aura mais de caminho filosófico do que propriamente religioso. Othon Bastos  (Anacleto, governador da cidade Nosso Lar)  Werner  Schünemann (que representa um Emmanuel  muito mais simpático que o apresentado no filme  Chico Xavier), Paulo Goulart (ministro do auxílio – Genésio) mostram muito talento e tem interpretações consistentes a despeito do pouco tempo na tela ou da proposta do filme. Também gostei muito das interpretações de  Lisa Fávero (Clarice, a filha mais velha)  e da menina Ana Beatriz Caruncho (a filha mais nova).

A trilha sonora embora eficiente não me transportou ao ambiente que meus olhos viram, Philip Glass ficou  aquém  do que já demonstrou  em “Notas Sobre um Escândalo” e “As Horas”.  Inevitável não lembrar de Brasília diante das vistas aéreas da cidade, por sinal muito bem realizadas. O umbral me remeteu  nojo do que ao terror, mas passa bem a idéia do terror de encontrar por lá situações mal vividas,  pessoas a quem ficamos “devendo” e violência. Mais um lugar pra se viver pessimamente, sempre de acordo com as nossas opções ainda que não conscientes .

Melhor assistir a esse filme como obra de ficção, permitindo uma iluminação espírita conforme o nosso entendimento tanto do filme quanto da religião (e para estes é fundamental buscar o livro após o filme) Afinal são tantas as fábula que habitam o universo cinematográfico e são incontáveis as aventuras onde o irreal e o inusitado permitem que o mocinho saia vencedor ao final… Com relação aos críticos mais ferrenhos do cinema nacional gostariam de vê-los “pegar leve”, pois sendo um tema transcendental,  é mais uma alternativa às fórmulas pobreza-favela-violência-sexo-bobagens, somos criaturas em evolução sob qualquer aspecto e o nosso cinema também.

Para os leitores deste site que passam por aqui interessados numa nota para o filme, dou 8 pelo conjunto da obra.

ficha técnica:

título origina: Nosso Lar

direção: Wagner de Assis

atores: Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Othon Bastos, Paulo Goulart, Rosanne Mulholland, Ana Rosa, Aracy Cardoso,  Chica Xavier, Inez Viana, Werner Shünemann, Clemente Viscaíno, Helena Varvaki, Selma Egrei, Lu Grimaldi,  Rodrigo dos Santos, Nicola Siri, Lisa Fávero

duração: 103 minutos

gênero: drama

site oficial: www.nossolarofilme.com.br

Tudo Pode Dar Certo

Woody Allen no set de filmagem

Woody Allen envelheceu ou melhor, continua velho. Existem coisas que só o tempo pode nos dar. A idade nos permite certas regalias que na juventude são impensáveis. Woody Allen é assim, parece que nasceu velho e por isso critica com o desprendimento de quem não pertence a raça humana. É certo que aquela criatura rabugenta que descrê de Deus e de si mesmo é o próprio Woody. O filme  “Tudo pode Dar Certo” foi escrito há 30 anos, logo Woody há 3 décadas, já era “deus”, dono de uma rabugice bem humorada e não acreditava mais na humanidade. Ele ostenta um invejável currículo com 44 filmes, invejáveis elogios e também invejáveis críticas, afinal quem com a crítica fere, com ela será criticado. O que filme tem um título otimista de mais diante do original Whatever Works” é uma aula de deboches e sarcasmos de, boas atuações e ótimas piadas.

Dirigindo-se despudoradamente à platéia, no melhor estilo Machadiano, aBoris Yellnikoff (Larry David). Interpelando a platéia cinéfilapersonagem principal do filme , Boris  Yellnikoff (Larri David), recusa-se a enganar seu cérebro com remédios para depressão e pâncio, declara nos minutos iniciais do filme que “ este não é um filme alegrinho e se é isso que estamos procurando, devemos procurar uma massagem para os nossos pés e a cada tentativa de suicídio, encontramos motivos para rir. Ele  começa metralhando a humanidade que fez com que “suas melhores idéias como o socialismo e o cristinaismo fracassassem por “pressuporem a idoneidade moral, a decência dos homens”. Certamente que um judeu pode dizer ao mundo que “pais interessados na educação dos filhos, deveriam levá-los para passar as férias num campo de concentração”,  em contrapartida qualquer cidadão pode sugerir que a sua sogra faça um passeio no Museu do Holocausto…

“Tudo pode dar Certo”, configura  90 minutos de diversão, onde um velho ranzinza de QI elevadíssimo, quase indicado ao Prêmio Nobel, com ataques de pânico, crises de hipocondria e uma crônica descrença na humanidade e um medo da morte maior que tudo, se dirige a nós, esfregando-nos na cara onde exatamente estivemos errando nos últimos anos ou desde sempre…. “Visão global”, inteligência ou esquizofrenia? Jamais saberemos pois nos  filmes de Woody Allen, somos todos  loucos e também pagantes por uma arte que nos leva a rir do que não pode dar certo.

Boris, quando não está reclamando da vida e conclamando os amigos a entender que tudo está errado e que a vida não presta ou atormentando e torturando os seus alunos de xadrez, dá-se a chance de amar, uma criaturinha estúpida cuja beleza ele vai percebendo no dia-a-dia. No início do filme ele termina um casamento desgastado pelo excesso de possibilidades de dar certo, plausível então, tentar o relacionamento com aquela que teoricamente não oferece a menor possibilidade.

Relaxe, apure os ouvido, se o seu inglês não está lá essas coisas, privilegie as legendas. Assistido sem olhos críticos, o filme é uma deliciosa fábula do quanto podemos ser felizes, quando desenvolvemos a capacidade de nos desapegar dos conceitos que nos fazem infelizes por vivermos numa sociedade que o tempo todo nos pede satisfações sobre nossos atos mais íntimos. No zoológico humano de Wood Allen, tudo realmente dá certo: Tem sempre um jovem lindo e paciente (Henry Cavill) para a loira burra (Evan Rachel Wood) que simples e esforçada leva o gênio a descobrir com simplicidade a própria simplicidade sem modéstia alguma.

Tem a mulher interiorana (Patrícia Clarkson)  de meia-idade repressora e reprimida, exercitando os anos 70, que ao descobrir-se artista passa a viver de arte e conviver num casamento triplo. Tem a constatação que muitos são religiosos e membros do clube do rifle, no filme representados por (Ed Begley) por pura falta de coragem de buscar coisas melhores para fazer.

Sim, existe possibilidade de felicidade no mundo, numa grande cidade, o que não existe são cérebros inteligentes com funcionamento perfeito, pois isso é prerrogativa exclusiva do bom e velho Boris que ainda assim, ao final do filme questiona se ainda haveriam espectadores na platéia a assisti-lo. Sim, Boris ficamos aqui, afinal nunca a infidelidade, e morte, a dor e transtornos psíquicos foram tão divertidos.

Se eu tivesse que dar nota para este filme, daria 8 pelo conjunto da obra, mas pelos risos que me provocou, certamente  seria 10… É bom poder rir daquilo que jamais deveríamos ser.

A grande pergunta que me faço: teria Woody Allen, algum dia lido Machado de Assis?

Título original: Whatever Works
Gênero: Comédia, Romance
Direção e Roteiro: Woody Allen
Elenco:Larry David (Boris Yellnikoff), Evan Rachel Wood (Melodie Celestine), Patricia  Clarkson (Marietta), Henry Cavill (Randy James)

Pecado da Carne

Através de uma comunidade muitíssimo ortodoxa ficamos de frente para a realidade de muitos aspectos que a nossa sociedade moderninha mantem…

Esse é o filme perigoso para se demonstrar opinião, pois que o mínimo que se revele poderá ser um inconveniente spoiler. O andamento é lento e torna-se tenso por nos deixar nas cenas iniciais em expectativas. Algumas vezes pensei: não isso não vai acontecer, não com ele, não com este… Não será agora… Ai, meu deus vai chegar alguém…
Então vou contar para vocês, assistindo a este filme de Haim Tabakman eu assisti 3 filmes: O filme propriamente dito mais o filme que a minha expectativa criou ; o inevitável filme que surge do insistente link filme x realidade: Vida numa locação distante x vida nossa de cada dia. Na minha ignorância quanto aos hábitos dos judeus ortodoxos, houve ainda o filme que não percebi.
Confesso que permaneci estática diante da constatação que criticamos todo um modo de viver e seus valores retrógrados e estamos convivendo com eles e muitas vezes alimentando-os.

Como é viver, uma vida que não se escolhe, abraçando realizações que se tivéssemos conhecimento de outras opções não abraçaríamos?

Como é descobrir de uma hora para outra que não somos o que pensamos que somos?

Como é descobrir que se viveu por algo que no fundo não era o que queríamos?

Como é depois de um fato que mostra uma vida nova, descobrir que se estava morto? E perceber que a nova vida é impraticável dentro de todos os valores que com sinceridade creditávamos?
Como será saber-se infeliz e incompetente para seguir o que nos faz feliz?
Pecados da carne, mostra que o pecado da carne está na alma, no sangue, no desejo. Podemos viver toda uma vida mergulhados em preconceitos sem que sejamos preconceituosos. A falta de horizonte nos levará a sobrevivermos mortos, com atitudes que não perceberemos jamais…
Aaron é um judeu que vive sossegadamente num bairro kosher de Jerusalém. Vive sua vidinha, tem uma esposa e 4 filhos. Herda o açougue do seu pai e quando tudo estaria na mais santa paz, surge Ezri. Um jovem bonito, também judeu cujo lado ortodoxo é apenas o lado de fora. Ezri, estudou e sabe desenhar. Aaron daria a vida para ter estudado. Se estamos num dia de sensibilidade aguçada, aí já perceberemos que Aaron sente coisas que não entende por falta de oportunidade, pelo estreitamento de horizontes que as tradições fabricam. Exatamente como qualquer um de nós.

Nesse bairro, existe uma “patrulha da decência”, um grupo de jovens, que observam e vigiam a vida alheia e uma vez que esta não esteja de acordo com os valores do seu admirável mundo antigo, eles invadem casas, espancam pessoas com a finalidade de fazer valer sua moral e bons costumes. Assim, interferem no relacionamento de um casal com a mesma propriedade que interferem em qualquer outra coisa que não esteja em sintonia com as tradições. Ezri é um proscrito, um sem lar, sem família, sem teto, sem nadam mal falado e ainda abandonado pela pessoa que fora encontrar. Essa pessoa, um rapaz, a mim pareceu ser simplesmente a personificação do que pode se transformar alguém numa sociedade atrasada, sem respeito individual, onde um ser humano deveria se comportar assim como os bichinhos da “Marcha dos Pingüins”…

Quando encontramos algo que nos atrai e fascina é certo que iremos colorir com qualquer tinta a fim de se evitar a perda. O desejo tem o fascínio dos grandes abismos!

Foi assim com Aaron. O rabino na sinagoga diz que deus não quer que o homem sofra, por isso nada deve ser proibido. Aaron entende que o sacrifício é agradável aos olhos de Deus e quando ele se vê frente à uma nova realidade está certo de que tem os recursos necessários para vencer a tentação e transformá-la numa aquisição lícita – provavelmente uma forma que ele inconscientemente encontrou de não cumprir a norma ditada por sua “casta”. Mas repito e acredito: o pecado da carne está na alma e no coração também… Isso me lembra os jesuítas com a missão de levar as almas indígenas para Deus através da imposição religiosa o que muitas vezes resultou em abusos e índias grávidas; me faz recordar os cruzados defendendo o pensamento divino na ponta da espada … Até que ponto defendiam seus ideais? Até que ponto uniam o útil do cumprimento dos seus deveres vigentes, as regras de um pensamento num determinado contexto social com a oportunidade de alimentar seus latentes desejos?

Pecado da Carne” é um filme que mostra o lado frágil de quem encontra a sua verdade e não acha um meio termo conciliatório.

Desaconselhável para homofóbicos de qualquer idade. Os judeus já tem o seu “Broback Montain”, embora o diretor Eytan Fox (Bubble, Delicada Relação, Walk on Water) use sempre a homossexualidade como plano de fundo em seus filmes, O pecado da Carne é contundente por ir diretamente ao ponto: religião X homossexualidade

Não assista se as situações de injustiças lhe causam náuseas, pois entristece ver o que o pensamento externo pode fazer com o que se tem por dentro, mas certamente é um filme para ser assistidos por todos, embora muitos , se reconhecendo, não aceitarão, acostumados que estão a não aceitar o que por motivos diversos não vivem, certamente dirão que não é um bom filme, o que não é verdade.

Pecado da Carne . Einaym Pkunhot (título original) Eye wides Open (título internacional). Israel. 2009. Drama. Direção: Haim Tabackman. Roteiro: Merav Doster. Elenco:Zohar Shtrauss, Ran Danker, Tinkerbell, Tzahi Grad, Isaac Sharry, Avi Grainik.
Trilha Sonora: Nathaniel Mechaly

Chico Xavier

“Chico Xavier”, filme de Daniel Filho:  Não consegui vê-lo na estréia e ainda no 3º fim de semana após o lançamento, chegando com pouco mais de uma hora de antecedência do início da sessão, restou-me a 1ª fileira da sala 1 do Artplex, Botafogo(RJ). Se fosse um outro filme certamente não assistiria, implico com os assentos nos chamados “gargarejo”, mas era Chico Xavier, filme que me despertou a curiosidade por saber quais soluções o diretor  teria encontrado para não torná-lo extremamente parado ou mesmo desinteressante e ofuscado tecnicamente como foi para mim, “Bezerra de Menezes, O Diário de Um Espírito” que assisti por ter no elenco Carlos Vereza.  Eu disse solução? Errei. Para haver suma solução é preciso haver um problema e isso é tudo que este filme não tem.

Belas paisagens, interpretações de boas a excelentes, exceção para André Dias que me pareceu burocrático e pouco caridoso como Emmanuel, embora estivesse fisicamente quase que exatamente igual  às figuras do espírito que vemos estampadas nos livros . Uma câmera ágil, com cortes exatos, direção segura sem recorrer aos efeitos especiais – afinal, é um filme espíritos, não é mesmo? Talvez…

Neste filme, vi que Chico Xavier não foi somente um espírita, nem a sua mediunidade foi o que mais me chamou atenção. Vi um homem aprendendo no seu dia-a-dia, entendendo-se conforme os fatos, alguém que tendo algo a fazer não delegava para outro nem adiava para o momento seguinte.

O filme é preciso: é a história de Chico Xavier desde bem menino. Uma criança e seu dom, por muitos da época chamados de “maluquice”.  Bem poderia ser um filme sobre o dom da música, da pintura sobre qualquer dom grandioso que nos deixasse espantados e duvidosos quanto à sua veracidade. Um garoto, muito inocente e poderíamos dizer “azarado” ou incompreendido, lidando com coisas que ninguém ouvira falar em sua pequena cidade, lutando para sentir-se amado e querido sendo tão diferente… Órfão aos 8 anos, cheio de irmãos que foram distribuídos na esperança de se reunirem logo que possível. O menino inocente, indefeso, carente e solitário, literalmente torturado pela madrinha, não causa piedade -comove. Uma história que apesar da sua singularidade é facilmente imaginada por aqueles que conhecem algo sobre as antigas cidades do interior, suas formas de lidar com as crianças,  as famílias, a igreja, as doenças, a morte.

Nélson Xavier recebe, encarna a personagem que parece ter se apossado dele e não é diferente com Angelo Antônio, gerando  uma harmonia interessante entre as interpretações de ambos. Encontramos na tela o bem humorado Chico. Acompanhamos a entrevista do antigo programa de TV “Pinga Fogo”, recriado no filme com Tony Ramos interpretando o diretor do programa, sequencia que nos dá como brinde a experiência de vermos como era transmitido um programa “ao vivo” de antigamente, as escolhas das câmeras, a forma de se trabalhar com tecnologias, hoje pré-históricas e feeling profissional que é também um dom.

A história do Chico vai surpreendendo mesmo quem já a conhece. Na sua primeira semana, este filme levou 590 mil espectadores aos cinemas. Os que foram ver o mito não se decepcionam. Os que buscam assistir o médium, não se desapontam. E se a busca for por diversão, o programa não é frustrante. Os espíritas podem se esbaldar, no farto material para reflexão, os pais também.

Letícia Sabatella, mãe de Chico prefere que ele fique com a madrinha por esta ter mais condições financeiras e o por isso o garoto sofre castigos pavorosos. O melhor amigo de Chico durante a sua infância, pasmem, é um padre, deliciosamente vivido por Pedro Paulo Rangel que nos mostrar a dificuldade de compreender-se uma alma, ser bom e tolerante sendo um líder religioso de uma instituição como a igreja católica. Cássio Gabus Mendes, com aquele eterno rostinho infantil, vive a face da intolerância religiosa levando o povo à uma ignorância cada vez maior onde a caridade, esperança e fé ficam cada vez menores. A bela Giovanna Antonele numa participação significativa que dá o tom do que Chico poderia realizar no futuro- conquistar simpatias e credibilidade se não pela fé, mas através do seu caráter e postura.

Muitas dúvidas e desconfianças foram lançadas sobre essa personalidade, sem que no entanto, jamais fossem comprovadas, muito pelo contrário, o filme mostra uma pessoa que modificou alguns conceitos daqueles que naquela época, transitavam na esfera dos centros espíritas.

Chico não seguiu ninguém, além da sua própria luz e orientações dos seus mentores espirituais e suas tarefas iam se avolumando na medida em que ele criava entendimento e aumentava sua fé.

Segundo o filme, jamais se prestou a um trabalho de conversão, nem se exasperou por defender-se das acusações que lhe faziam. Prestava a sua caridade dentro das limitações dos próprios necessitados, não necessariamente carentes de recursos materiais como ilustra o casal Tony Ramos e Cristiane Torloni. Enfim, mais do que a espiritualidade, o mistério de Chico Xavier é ter tido fé e vivido de acordo com o que acreditava, ainda que tivesse medo de morrer e de medo de avião.

No mercado estão o livro “Chico Xavier – A história do filme de Daniel Filho” e o DVD do programa Pinga Fogo que em determinado momento serve como linha condutora para a narração.
Existem algumas passagens divertidas, como quando o pai de Chico Xavier o leva a um bordel para ter a sua 1ª vez ou quando finalmente é revelado o mistério da inseparável peruca que o médium usava. Também é mostrado os relacionamentos do médium com o seu guia espiritual Emmanuel (André Dias) e com a mídia. Chico chegou a permanecer cerca de 20 anos sem nenhum contato com a imprensa o que podemos entender com perfeição assistindo ao filme, que bateu recorde na semana de lançamento, em 10 dias de exibição levou 1,3 milhões de pessoas ao cinema. É o longa com a maior bilheteria de abertura do cinema brasileiro dos últimos 15 anos. Realizado por 3 ateus, conta a história de um homem predestinado a reunir multidões: pesquisei na internet sobre o programa Pinga Fogo e descobri que a entrevista do Chico atingiu a marca de 75 pontos, o maior índice da televisão brasileira!

Neste filme me pareceu ser Chico Xavier um homem que viveu para o que acreditou, independentemente da crença foi uma pessoa, fiel e sincera e talvez por isso desperte interesse e atraia atenções. Escreveu mais de 400 livros, não reconheceu autoria de qualquer um deles. Dizia que Emmanuel havia lhe revelado que ele morreria no dia em que todos os brasileiros estivessem felizes. Chico faleceu no dia 30/06/2002 quando o Brasil comemorava seu pentacampeonato mundial.

Chico Xavier. 2010Baseado no livro As Vidas de Chico Xavier, do jornalista Marcel Souto Maior. Direção: Daniel Filho. Roteiro: Marcos Bernstein. Gênero: Drama. Elenco: Nelson Xavier (Chico Xavier 1969/1975)  Ângelo Antônio (Chico Xavier 1931/1959)  Matheus Costa (Chico Xavier 1918/1922), Tony Ramos (Orlando), Christiane Torloni (Glória), Giulia Gam (Rita), Letícia Sabatella (Maria), Luis Melo (João Candido), Pedro Paulo Rangel (Padre Scarzelo), Giovanna Antonelli (Cidália), André Dias (Emmanuel) , Paulo Goulart (Saulo Guimarães), Cássia Kiss (Iara), Cassio Gabus Mendes (Padre Julio Maria), Rosi Campos (Cleide), Carla Daniel (Carmosina), Anselmo Vasconcellos (Perácio), Via Negromonte (Dora)

Preciosa não é um filme para se assistir

Preciosa tem 16 anos, é uma gorda com obesidade mórbida e negra. Mora no Harlem. Seu pai lhe engravidou duas vezes, na 2ª gravidez é expulsa da escola que não lhe ensinou a escrever nem a se comunicar. Teve sua primeira filha aos 12 anos, ela é chamada de “Mongo” em referência à Síndrome de Donwn da qual é portadora, a criança é criada pela avó. Sua mãe é algo que só vendo para saber, mas recebe os cheques da Assistência Social. Ela sonha ter um namorado mas os meninos a odeiam. Sua vida é um inferno e algo acontece quando vai para uma escola alternativa onde conhece Blu Rain (Paula Patton). Além das estrelas Mariah Carey despida do invólucro de diva glamurosa, de um belo Lenny Kravitz e do show de falta de humor daquela que aprendemos a ver fazendo humor, Mo’Nique (Mary, a mãe infeliz de tanta infelicidade) temos muito o que perceber neste longa de temas indigestos e baseado em história real.

Preciosa não é um filme para se assistir, é um filme para se observar, perceber e cenas como as da sua chegada da maternidade nos convoca a participar.

Saí do cinema, a princípio pensando que o roteiro deixou a desejar, aos poucos concluí que não é um filme denúncia. O roteiro funciona como um mapa onde as situações são caminhos que nos levam a maiores ou melhores (tanto faz) reflexões. Achei o início meio engasgado, até perceber que a ótica mostrada não é a do espectador fora do problema, mas da personagem mergulhada inteira num problema do qual ela não tem plena consciência. Em alguns momentos faltou-me ar. O filme vai crescendo à medida que Clareece Precious Jones (Gabourey Sidibe) cresce através das suas observações nas suas novas experiências, superando suas limitações impostas por uma vida miserável e uma mãe que deixa as madrastas dos contos de fadas com vaga no céu.

O filme critica um Sistema de Assistência Social que assiste sem conhecer quem é o assistido, financiando a desgraça de quem pretensamente fornece subsídios para uma condição melhor. Mostra que um funcionário que goste do que faz cria toda a diferença nos serviços fornecidos e que “casos perdidos” são aqueles que em vez de encontrarem dedicação espremem-se no meio das omissões.

Surpreendente perceber que atos percebidos podem transformar pessoas. Não basta educar, precisa ser educado, mostrar para que serve a educação através do exemplo. A atitude que não se toma pode ser tão veemente quanto uma ação praticada. Alguns valores podem estar perdidos para sempre por detrás dos nossos olhos, se não tivermos um mundo novo para apresentar a quem em fase de crescimento, pareça não ter condições de crescer e muitas vezes é o descrédito e o julgamento que sepulta todo um potencial.

Preciosa é o filme sobre pessoas que aprendem a partir daquilo que vivenciam e de outras que vivendo nada aprendem. Mostra a fuga pelo sonho, pela ilusão, pelo jogo e pela TV. A fuga pela porta da tirania, quando percebendo-se fracassado é imputado  a outro os motivos do próprio fracasso.

O amor pode ser interpretado como desrespeito e se não encontrarmos quem o expresse de alguma forma digna, passaremos a vida inteira achando que desrespeito é uma forma de amor e a violência sua expressão. Quando o seu filho praticar uma ação violenta, observe as suas próprias atitudes…

Confesso que esperava um final mirabolante, animado e colorido como os sonhos da personagem principal, contudo o que assistimos sobre as suas descobertas se torna muito mais grandioso que qualquer sucesso que ela pudesse ter… Afinal, que diabos! Não é uma versão negra e pobre de Hair Spray e ao mesmo tempo que parecem surgir alguns clichês, fica longe o clichê de auto ajuda. A cena final que pode deixar a desejar talvez assim esteja por mostrar que a vida é feita de um dia após o outro e que muitas das nossas vitórias não são comemoradas por acontecerem exatamente num dia como qualquer outro de nossas vidas. Deixa um espaço vago, pois afinal nossa vida não termina…

Preciosa é uma adolescente com vida de adulta que vive numa desgraça sem fim e que ao final de tudo recebe como prêmio uma desgraça maior ainda e que aprende a viver com ela ou apesar dela. Aprende  a ser útil sem ser subjugada. Aceita um destino que jamais supunha e ao final, ao ver perdido pra sempre sua ilusão, seu sonho de menina, descobre todos os grandes motivos para viver.

Emociona quando ela deseja transmitir ao seu filho coisas que ela não conhece e não entende mas percebe que é bom justamente por nunca ter conhecido nada de bom. Conviver com pessoas de um nível melhor pode ensinar mais do que comportamentos, pois se aprende a partir do que não se entende mesmo que talvez seja um pouco tarde demais para se obter, mas não custa tentar e aí dá-se a substituição do sonho-fuga-pela-imaginação pelo sonho possível.

Ter sido vítima de violência não  é necessariamente um motivo para tornar pessoas eternamente violentas, mas estar constantemente em estado de violência e de amor completo, é fatal. Sim, é óbvio, eu sei… Tão óbvio quanto o fato de que não adianta dar um mundo físico melhor se nele não houver a sensação de importância.

Preciosa é capaz de concluir a partir do que observa no seu novo mundo. Se antes nele só havia o aspecto do romance entre homem e mulher, tudo muda vertiginosamente na medida em que percebe o amor que nunca existiu no seu mundo.

O maior gueto está dentro dos que habitam os guetos.

A pior realidade está nos que tem pena de si mesmo e não olham à sua volta.

Aqueles que tendo amor dentro de si, jamais encontraram quem pudesse fazê-lo desabrochar, não encontrarão motivos para buscar uma vida verdadeira e digna.

Clareece Precious (Gabourey Sidibe), em sua limitação fornecida pela vida e família, descobre o que muitos declaradamente sensatos e de mente aberta não são capazes de perceber.

Está tudo ali, mas é bem possível que muitos não vejam.

Sim, havia outros personagens no filme, mas e daí? Algumas performances são magistrais, outras no mínimo interessantes. Como a comediante Mo’Nique consegue chegar àquela carga de drama, bruxa, despertando ódio e asco é algo que só especialistas em talentos poderiam talvez explicar.

O fato é que não se está nunca livre de uma desgraça, mas temos várias formas de passar por ela e que aquele que nunca teve algo de bom para viver pode passar a ter desde que esteja esperto para descobrir que tenha

Está tudo ali, esforce-se para ver!

Do Começo ao Fim

Fui assistir, não nego, com muitas expectativas. Quase todas frustradas, talvez por termos expectativas dentro daquilo que conhecemos ou sabemos que existe. Li por aí que esse filme viria para chocar, mas o que vi na telona foi um filme que veio pra agradar aos olhos dos expectadores com bom gosto estético, apreciadores de corpos masculinos jovens e lindos. Do Começo ao Fim é um conto de fadas ou um conto de elfos, maldito, mas ainda assim um conto de fadas (elfos)

Dois meio-irmãos (apenas por parte de mãe) são tão unidos que se tornam íntimos e de tão íntimos se tornam amantes. A mãe (Júlia Lemmertz) cedo percebe e mediante a dúvida de estar maculando a grande afinidade infantil dos irmãos ou mesmo despertar a “maldade” neles, deixa a cargo do filho mais velho a responsabilidade lhe contar caso venha a perceber algo ‘diferente’ nos seus sentimentos em relação ao irmão. Seu ex-marido e pai do filho mais velho, percebe e conversa com a ex-esposa que lhe diz que isso é coisa de criança, afinal eles são muito novinhos.

A platéia convive-se com os dois irmãos ainda meninos por um período tão longo do filme e eles se transformam em adultos de uma forma tão repentina, que possivelmente não se enxergue ali, os dois irmãos e sim dois amantes, de forma que o choque prometido ficaria por conta de héteros homofóbicos que porventura estivessem na sala de projeção (o que felizmente, não foi o caso da sessão que assisti, afinal, é mais do que desagradável encontrar homofobia em qualquer lugar que seja).

Para pessoas acostumadas ou curiosas em ver beijo entre iguais, propagandas de creme de barbear, notebooks iMac, ondas e praias ou quem sente saudades do bom e velho fusca conversível e para aqueles que não tenham muita pretensão que não a de se deleitar com a beleza física dos atores, o filme é o calmante certo para uma noite de sono tranqüila.

Para os gays que desejem desestressar, esquecer as durezas da vida, descansar do preconceito e dos amores impossíveis é a história perfeita! Imagine um mundo onde você possa buscar o grande amor da sua vida na maternidade.  Que possa conviver com ele desde sempre, numa vida confortável, numa casa de luxo com toda a privacidade. Imaginou? É o paraíso “Do Começo ao Fim”.

Bem, para não parecer a história de Adão e Adão no paraíso: Pedro (JEAN PIERRE NOHER) é ex-marido de Julieta (Júlia Lemmertz) e ambos são pais de Francisco (JOÃO GABRIEL VASCONCELLOS). Pedro foi namorado de Rosa (Louise Cardoso) e Rosa mora na casa de Julieta, que agora casada com Alexandre (FÁBIO ASSUNÇÃO) tem o segundo filho, Thomás (RAFAEL Cardoso). Thomás é narrador em off do filme e começa contando que nasceu e demorou duas semanas para abrir os olhos fato que sua mãe não se importou, por pensar que quando ele estivesse pronto abriria. O bebê Thomás por sua vez só abriu os olhos quando viu o meio-irmão mais velho. Eis aí uma história, pois de predestinação!

Se por um lado temos a mãe que percebe o excesso de intimidade entre os irmãos e prefere fechar os olhos para isso, por outro, temos o pai que não sabemos exatamente o quanto enxerga desta situação. O roteiro tem uma maneira muito prática de eliminar as supostas dificuldades da vida conjugal dos meninos representadas pelas pessoas mais próximas. As que permanecem, se suspeitam não comentam. As que poderiam comentar ou gerar qualquer entrave, não existem. O pai,se percebe prefere amá-los à distância de modo a deixar espaço e privacidade para que desfrutem em plenitude o amor que sentem um pelo outro que chega às vias de fato com a doce libertação causada pelo desaparecimento da mãe.

Que mundo feliz!

Esses meninos não tiveram crise de adolescência, dúvidas angústias nem mesmo incertezas e inseguranças inerentes à sexualidade adolescente em ebulição face ao desejo por uma pessoa do mesmo sexo.

Que maravilha!

A primeira transa é desencanada, repleta de decisão quase um jogo que apesar de plasticamente viável e interessante, vem na sequência de uma cena que a faz ficar pouco provável. Por fim, o drama que chega com possibilidade de separação dos meio-irmãos-amantes, abre um pequeno leque de novas oportunidades que não empolgam.

Então ficamos assim:

Não faço idéia do que fazer com a informação que Louise Cardoso foi a namorada mais velha do atual marido da Júlia Lemmertz, mas aprendi que dois irmãos podem se amar e se entregar  com tranqüilidade a esse amor. Dois rapazes bonitos e saudáveis chegam virgens aos 21 e 27 anos, aguardando o melhor momento para efetivarem sua maturidade sexual. Pai e mãe podem olhar esse amor com plena naturalidade e pessoas ao redor não terão a menor curiosidade e sequer tecerão comentários a respeito. É possível beijar alguém com o rosto repleto de creme de barbear. Neste filme ainda participamos de  um teste de averiguação do nosso nível de canalhice, a partir da nossa imaginação conforme o que nos sugerem algumas cenas.

Este filme é o paraíso “Do começo Ao Fim”. A perfeição a serviço da imperfeição num mundo perfeito e improvável.

Interessante são as sessões lotadas com uma antecedência de dar inveja aos lançamentos de superproduções americanas. O Arteplex no domingo, sessão das 22:00 parecia Odeon às 21:00 na última sexta do mês!

Finalmente o público Gay vai ganhando seu mercado, conquistando seu espaço, mas seria realmente preciso lançar mão de um incesto pra falar de amor homossexual?

Por: Rozzi Brasil.  Blog Eh-Ventos do Bem.

Do Começo ao Fim. 2009. Brasil. Direção e Roteiro: Aluisio Abranches. Elenco: JULIA LEMMERTZ – Julieta; FÁBIO ASSUNÇÃO – Alexandre; LOUISE CARDOSO – Rosa; JOÃO GABRIEL VASCONCELLOS – Francisco; RAFAEL CARDOSO – Thomás; GABRIEL KAUFMMAN – Thomás (criança); LUCAS COTRIM – Francisco (criança); JEAN PIERRE NOHER – Pedro; MAUSI MARTINEZ – Lucrécia. Gênero: Drama, Romance. Duração: 90 minutos.

Herbert de Perto

Herbert de Perto_01A vida não é um filme e você não entendeu”… Mas ela pode estar num filme de forma que todos possamos entender.

Herbert de Perto” é um documentário que traz Herbert e seus sucessos paralâmicos para muito perto. Da musicalmente criticada década de 80 o filme foca o que ela teve de melhor.

Com depoimentos sérios, cravejados de sinceridade, traz à tona a honestidade do seu personagem central. O Herbert, um adolescente frustrado por não ter conseguido ser piloto de aviões, seguindo os passos profissionais do seu pai, um irmão emocionado que deixa transparecer nitidamente a admiração pelo irmão mais novo.

O Herbert ainda muito criança que pediu ao Papai Noel que trocasse o seu pedido de uma bicicleta por um violão que ele cortou fazendo pontilhados com um parafuso, serrou e adaptou com papelão e fita, já em busca de novas sonoridades.

Paralamas do Sucesso_discografiaO Herbert dono de tanta musicalidade, que ao estudar o instrumento com um amigo logo estava muito à frente do seu irmão e dando dicas para o professor. Várias cidades o viram crescer, quando morou em Brasília teve contato com aqueles que o acompanhariam vida a fora. Da sua vivência em Brasília diz algo difícil de esquecer, de como a vida naquela cidade para aqueles jovens, filhos de pessoas importantes dava a eles o sentimento de impunidade. Embora Brasília tenha sido apresentada ao Brasil como berço dos Paralamas, o pai de Herbert afirma que a banda nasceu no Rio de Janeiro, porque só aqui nessa cidade eles se estruturaram e foi o Circo Voador o primeiro sonho.

Do Herbert pai, marido e viúvo não há o que tecer comentários, seria antecipar a emoção, de um documentário que fala do acidente de uma maneira real, direta e digna, muito longe de drama, sem a menor pieguice, apenas um libelo do que é capaz a união dos amigos, o afeto da família. Eu vi um Herbert emocionante, sincero a ponto de dizer que não tem grandes habilidades a não ser trabalhar e trabalhar. Eu vi um Herbert que emociona, pois o filme nos dá a sensação de surpresa, a mesma que ele tem ao ver junto com a gente suas antigas imagens gravadas.

Os cortes são tão precisos que não percebemos a viagem no tempo, só nos damos conta quando vemos a imagem dos meninos dos anos 80 já barbudos, carecas mais gordinhos. A banda com um vigor que o tempo acrescentou maturidade, tranqüilidade, harmonia.

Herbert de Perto_02Assista, não tem tristeza nem depressão, é certo que algumas horas os olhos marejam, ver Dado Villa Lobos aperta de saudade o coração de quem viveu aquela época, rir com a mãe de Herbert responsável pela demissão do baterista Vital, que saiu da banda para compor sua história.

Herbert agora numa cadeira de rodas não é amargo nem triste, é um homem capaz de criar em equipe, recordando-se ainda do seu passado, apreciando o lugar privilegiado que tem nos seus próprio shows de onde pode observar tudo o que não foi possível observar quando se exercitava, dançava e corria pelo palco. Uma história real de um homem que na ausência dos seus planos construiu novos sonhos, cresceu num palco e continua sonhando com tudo o que se pode ter de melhor.

Por: Rozzi Brasil.  Ong Casa da Vida.

Herbert de Perto. 2009. Brasil. Direção: Roberto Berliner e Pedro Bronz. Elenco: Herbert Viana, João Barone, Bi Ribeiro, Hermano Vianna (irmão), Hermano Vianna (pai), Tereza Vianna, Dado Villa-Lobos, Pedro Ribeiro, Maurício Valladares, Zé Fortes, Paulo Niemeyer, Gilberto Gil, Lúcia Willadino. Gênero: Documentário. Duração: 97 minutos.

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