SALVE GERAL! – O Dia que São Paulo Parou

Salve Geral_posterQuinze segundos e minha vida mudou”… Para sempre.

Se Salve Geral merecia ou não ir à disputa do Oscar não consigo realmente avaliar. Mas que a dose de suspense que ele oferece é digna de prêmio  é fato.

Estive em alguns debates onde alguns diziam que o filme promove um endeusamento da criminalidade. Que não deveria concorrer ao Oscar por denegrir a imagem do país. Que é mais um filme sobre violência e polícia corrupta… Bem, pelas possibilidades que temos de trazer para Brasil a estatueta, penso que este filme é tão bom para isso como qualquer outro e eu não sou uma pessoa pessimista.

salve-geral_01Alguns comentam que fazemos filmes sobre miséria, pobreza e crimes e que lá vamos nós com um de já vu. Eu não tenho memória estatisticamente cinéfila que me permita dizer quantos filmes estadunidenses já assisti sobre Primeira e Segunda Guerras, Vietnam, judeus como coitados, Independência americana, ocupação do Oeste e assassinos em série. Não vejo porque o sangue americano jorrado ser mais cinematográfico que o latino, nordestino, brasileiro.  Violência social não se esconde, se resolve. Se há vergonha de parte dos brasileiros dessa realidade de violência e corrupção ser vista, ela deveria ser revista aqui, deveria  existir uma vergonha tão contundente que nos levasse não a esconder da visita a nossa louça lascada, mas ir às vias de fato para se  ter algo melhor se não para apresentar  ao mundo, para se viver no dia-a-dia.

Salve Geral tem o mérito de ter ótimas interpretações de atores em todo ou em parte desconhecidos (achei exagerado, caricato o personagem Pedrão, Guilherme Sant’Anna), um dos protagonistas que me lembrou  muito Gael Garcia Bernal, não pela beleza mas pelo corte de cabelo e aquele ar entre o displicente e despojado. Tem um roteiro caprichado, bem amarrado  e uma vez assistido sem os pré-conceitos por ser um filme nacional,  é capaz de levar à reflexão sobre coisas que vão muito além do que a divisão maniqueísta entre mocinho e bandido, e que não há salvação para o cidadão incluído no sistema prisional vigente.

O que confere ao filme um tom documental é alem das inserções de imagens reais de conflito, o perfil das personagens, a direção não engana: o tempo todo em todo o filme vemos que ali não há santos nem heróis, há pessoas que chegam ao limite do certo e errado, entre o legal e o ilegal. Não há como evitar a sensação de que a qualquer momento algo de muito pior pode acontecer aqueles que por identificação, nos parecem terem ainda salvação…

Há pessoas que não nasceram para o crime, mas aprendem a se movimentar dentro de uma engrenagem criminosa, há pessoas que tem tudo para não delinqüir mas não saberiam viver sem uma mancha de sangue ou de qualquer outra sujeira nas mãos.

salve-geralLúcia (Andréa Beltrão)  é uma professora de piano que ao ficar viúva  perde prestígio e posição social indo morar num subúrbio distante. Ela tem um filho Rafael (Lee Thalor) que como todo bom adolescente não absorve bem a nova realidade. Rafael sai com um amigo mecânico num carro tomado emprestado sem permissão da oficina onde este trabalha, por capricho do destino no porta-luvas tem uma arma, por aquelas coisas que embora possamos ter feito um dia, jamais saberemos explicar, eles vão para um racha. É este jogo de vários erros que colocará Rafael em contato com os 15 segundos que mudarão sua vida para sempre, conforme ele mesmo diz e esta mesma combinação levará sua mãe a um mundo onde mesmo visto em filmes não podemos crer.  Nas visitas ao filho ela conhece “Ruiva” (Denise Weinberg) advogada de um líder de uma facção criminosa, Bruno Perillo (Professor) que a usará para serviços ilegais. Lúcia entra num caminho sem volta e acabará por se envolver numa luta pelo poder da facção que ocasionará a paralisação de parte do país num dia de terror e pânico orquestrados pelo “partido” em represália às transferências dos presos, lideres da facção.

“Salve” na gíria dos bandidos de São Paulo é “recado”.

Salve Geral é um filme “de ficção baseado em fatos reais” onde nada, nem ninguém é o que parece ser na primeira vez em que aparece na tela.

Podemos refletir que se algumas autoridades simplesmente fizessem seu trabalho em vez de brincar de mostrar para a mídia que trabalham, teríamos menos problemas, muitas soluções, menos mortos, menos margem à corrupção e alguma fé de que as coisas pudessem dar certo. É a vaidade, até mais que a ambição que levam as personagens desse filme a uma miséria moral para a qual o dinheiro é apenas um pretexto.

Por:Rozzi Brasil. Ong Casa da Vida.

SALVE GERAL!. Brasil. 2009. Diretor e Roteirista: Sergio Rezende. Elenco: Andréa Beltrão, Denise Weinberg, Lee Thalor, Bruno Perillo, Guilherme Sant’Anna, Chris Couto, Eucir de Souza, Kiko Mascarenhas, Michel Gomes, Giulio Lopes, Taiguara Nazareth, Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição, Julio Cesar (5), Otávio Martins. Gênero: Drama. Duração: 119 minutos.

À DERIVA

A-DERIVA_posterHeitor Dhalia depois de Nina e o Cheiro do Ralo, vem como diretor e roteirista do filme À Deriva que  tem uma riqueza de detalhes digna de uma reconstituição arqueológica e também escarafuncha nossa alma através do drama alheio, ao nos colocar frente à uma realidade que de uma forma ou de outra  conhecemos, seja por termos vivido, seja por termos ouvido em comentários ou em tom de desabafo de algum amigo e por que não, amiguinha de infância?

O filme nos remete a vários pensamentos e passa de uma forma se não contundente, muito tocante a mensagem de que não devemos julgar com precipitação, pois nem tudo o que nos parece é. Tudo isso embalado por belas imagens, fotografia linda, ângulos bonitos e uma trilha sonora eficiente. O filme se passa numa casa de praia, com uma família até então prefeita em temporada de férias. Mostra uma grande turma de adolescentes e suas descobertas, mas tem cenas internas escuras e algumas tomadas da praia tem um contraste do cinza dos rochedos e um certo tom pastel como que a mostrar que nem tudo é alegria nos momentos que deveriam ser felizes.

O bacana desse filme é que vamos descobrindo todas as coisas junto com as personagens. É surpreendente, por isso não dá pra achar chato, como alguns que o viram antes de mim comentaram.

Podemos nos questionar com relação até que ponto somos responsáveis pelo que nossas atitudes vão gerar em nossos filhos. Qual o limite das coisas que devemos dividir com eles. O quanto eles podem saber sobre nós sem que percebamos e o quanto eles idealizam sobre nós sem que saibamos.

Crescer dói e a história universalíssima deste filme nos informa que chega um momento na nossa vida que não dá para nos recusarmos a crescer e este processo uma vez iniciado, não terá fim jamais e nós, por mais que tenhamos uma idéia do que queremos ou de para onde desejamos ir, estaremos sempre à deriva. À Deriva é um filme emocionante, por ser verdadeiro.

a-deriva_laura-neivaFilipa (Laura Neiva, em seu primeiro trabalho – descoberta pelo diretor através do Orkut, flerta feroz e displicentemente com a câmera que ora mostra uma menina, ora mostra uma quase-mulher, sempre um rosto anguloso gostoso de ver) está se descobrindo como mulher. E nós sabemos que isso significa: Querer ao mesmo tempo que não se quer. Querer para não saber o que fazer quando conseguimos… Ela exercita seu poder e influência, sobre Arthur ainda que não saiba exatamente o tamanho da sua “autoridade”. Filipa julga seus pais a partir das suas descobertas, segue investiga, observa e se no início aparece apegadíssima ao pai, para o qual parece dirigir um olhar ligeiramente incestuoso, pouco depois  “compra o barulho” da sua mãe até perceber que precisa ter seus próprios problemas, até ouvir o chamado da sua própria vida. Não sei se intencionalmente, mas este filme parece dizer que existe mais de uma forma de ouvirmos este chamado.

a-deriva_debora-blochA mãe de Filipa, Clarice – na interpretação equilibradíssima de Débora Bloch afoga as mágoas em duas pedras de gelo e muitos dedos de whisky chegando a comover pela insanidade em que se move, apesar do mau exemplo que dá aos filhos. Ela tem a árdua tarefa de definir uma situação difícil, reveladora de sua natureza e que acaba por decidir  com o raciocínio pressionado pela emoção, sem se reconhecer na decisão. Clarice está à deriva boiando à superfície dos seus sentimentos e na expectativa de outros sentimentos não seus.

O irmão mais novo de Filipa faz um contraponto que mostra a total inexistência ou inutilidade do filho do meio, neste filme uma filha.

a-deriva_vicente-cassel Seu pai, Mathias (Vincent Cassel), um escritor francês nos aponta os  caminhos do nosso pragmatismo, do quanto podemos estar errados ao julgar a partir do que vemos. Do quanto a nossa cultura nos leva a preconceber julgamentos que jamais se concretizarão dentro de uma razoável razão. É ele quem vai nos mostrar o quanto podemos ser capazes de nos renovar mediante certas situações, o quanto isso pode ser inútil e quanto o aceitar uma opção na qual não estamos incluídos pode nos fazer  mudar nossos conceitos. É diante do inevitável fato consumado que Mathias entende o pensamento prático de Clarice vendendo os direitos do seu livro para um diretor de TV que não admira. A separação tem disso: Nos mostra uma força que não sabíamos que tínhamos e uma coragem que não sabemos de onde veio. Algumas descobertas  levam alguns  pelo caminho mais egoísta e tornam outros mais ternos.

Esse filme tem as tintas exatas de todo um cenário de revolução de sentimentos, desejos, interesses e costumes de uma época e de algumas fases que passamos ou poderemos passar. Tem um clima de mistério de quem está descobrindo o mundo, a vida, a morte, a violência, o corpo, amor. Com muitas cenas aquáticas, sempre temos a impressão de que algo de grave virá após tantos mergulhos e bater de pés. Tem figurinos perfeitos, muito bronze, cenários paradisíacos e atores excepcionalmente bem escolhidos. Dá pra ver se não a nossa vida, nossos medos passando na tela, de uma forma que deixamos de dar importância à gaveta revirada e arma desaparecida, afinal Mathias, está tão ausente da família exatamente por estar inteiramente submerso e flutuando nela.

Por: Rozzi Brasil.

p.s: Visitem o Flickr de Alexandre Ermel para ver muito mais fotos do filme.

OS DESAFINADOS

Chovendo, inverno, não precisei ser muito criativa para ter a brilhante idéia de colocar em dia os filmes que perdi no circuitão porque corri atrás dos alternativos. Assim nada como Rodrigo Santoro embaixo das cobertas com chocolate quente!

E isso foi tudo o que realmente aproveitei deste filme, o prazer de estar com Rodrigo Santoro, Claudia Abreu e Selton Melo num domingo chuvoso e friorento num cantinho quentinho. E eu que jamais falo mal do cinema nacional poderia ter visto algo muito melhor. Não é que o filme seja ruim, mas poderia ser bem menor. Vale pelas interpretações enxutas, na medida.Segundo meu irmão a culpa é da Bossa Nova, um tipo de música híbrida de samba e jazz tinha que dar nisso e a culpa, claro não é do samba… Se temos que eleger um culpado que seja o excesso da minha expectativa na direção e roteiro do Walter Lima Jr que tentando gerar expectativa, me rendeu um desapontamento.
São 5 amigos que formam uma banda de bossa nova, em busca de uma voz feminina que surge como que por acaso. Ela aparece como flautista, logo surge cantora e musa e os rapazes vão e voltam entre os anos 60 e 2000 tantas vezes quantas são necessárias para nós não entendermos o que exatamente as idas e vindas estão tentando mostrar. Logo de início o susto é encontrar a voz de Selton Melo em Arthur Kohl, a dublagem nítida ainda que sincronizada, com certeza teve um propósito que realmente não consegui saber qual e me gerou um certo desconforto. Passei o filme inteiro tentando desvendar quais são nos anos atuais as personagens que vimos jovens nos anos 60.
Walter nos mostra algumas coisas que estamos já acostumados a ver na vida real como o amigo “boa pinta” e talentoso que ainda por cima “pega” as mulheres mais bonitas e tem sempre aquele jeitinho de ”tadinho” levemente deprimido. Tem aquele que não dá sorte com as mulheres e que embora sofra, não transforma isso em drama. Davi (Ângelo Paes Leme) passa a vida à sombra do carisma de Joaquim (Rodrigo Santoro), apesar de serem parceiros na música, só dá Joaquim e algumas vezes percebemos o olhar melancólico de um sobre a vida cheia de tudo do outro que ainda reclama…
Glória, (bem) vivida por Cláudia Abreu, a bela e independente desbravadora de Manhattan, faz um contraponto com a não menos bela e ligeiramente sem graça por opção e anulação, Luíza (Alessandra Negrini). Imagino que o filme queira mostrar as diferenças entre comportamentos femininos, pois se uma está no exterior sozinha buscando seu sonho americano, a outra patrocina material e emocionalmente a viagem do amado em busca do sonho dele. Imagino que o filme queira mostrar as semelhanças entre o que se desiste e o que não se insiste. A destemida Glória que reconhece no texto “não saber se despedir” a despeito de saber fazer pirraça, provocar, ter ousadia para tomar banho de banheira diante dos amigos do namorado e do próprio e vai aceitando aquele amor pela metade do grande amor da sua vida.
Os desafinados em certos momentos parece ser isso, a história do sonho americano que não dá certo e nunca se sabe exatamente porque… A história de quem quando está aqui pensa que deve ir para lá e quando está lá só pensa em voltar… A história de quem passa a vida inteira dividido entre o que se sonha e o que se realiza.

Quem pareceu não insistir na América é quem está profissionalmente melhor colocado. Dico (Selton Melo) se não vive uma carreira interessante no cinema está “de boa” com a TV e as amizades antigas servem para imaginar um especial que lhe renda ibope e para os antigos companheiros apenas lembranças. Dois mil reais é quanto vale a imagem de todos eles, afinal, o investimento do esperto diretor segundo ele próprio é grande! Achei interessante a sutileza de ser justamente esta personagem que representava a esquerda, que faz um filme sobre reforma agrária o qual envia clandestinamente para fora país, uma vez que o golpe militar chegou juntinho com a finalização do filme. O filme ganharia um prêmio no festival de Moscou deixando seu diretor aborrecido. Afinal, neste filme todo querem sossego e sucesso com “algum trocado pra dar garantia”. Dico, indo pra Nova Iorque, promete comprar as entradas do Carnegie Hall, onde a música composta pelos amigos será vai ser tocada após a venda dos direitos para um editor americano. Dico compra um único ingresso – o seu próprio. Ele parece sempre deslocado, sempre sobrando… É o único não músico . É o único que como sonho tem apenas ser bem sucedido usando uma câmera. Ele não é visto com namorada e insiste em ficar de vela para os beijos alheios. Ele acompanha o grupo e filma muita coisa que permanece como material inédito, o que já nos mostra que nossos desafinados não conseguirão o almejado sucesso retumbante.

Os desfinados é não é um filem sobre bossa nova (?) Seria um filme sobre não eram apenas os ricos que faziam bossa nova, ou nem todos se tornaram famosos com a bossa nova ou ainda a ditadura não respetiou sequer a bossa nova?

Este filme tem vários elementos interessantes porem parece faltar liga entre eles. Algumas coisas como por exemplo cantar “Copacabana Princesinha do Mar” no Central Park parece artificial embora não seja inverossímel… Mostrar o ambiente que cada um dos membros da banda deixou para sublinhar que não chegariam onde sonharam. E quando pensamos que estamos diante de um filme sobre o sonho americano, chega a repressão, a ditadura no Brasil e fora dele. Fala-se do músico que vende os direitos da sua música. Mostra o editor que faz a sua versão sem estar nem aí pro que a letra original queria dizer. Fala da inveja entre amigos, dos que têm tudo e constroem pouco por permanecerem divididos. É assim o Joaquim de Rodrigo Santoro: dividido entre um amor de verdade realizado e concreto e a paixão pelo inusitado e os dois sentimentos são tão genuínos que a pergunta parece ser: será que ele vai conseguir fazer uma escolha? Luíza também terá uma punição por aceitar a metade do que lhe cabe e a gente fica contente por ver como Alessandra Negrini pode simplesmente “desaparecer” quando solicitado pela direção.Por último é preciso falar sobre o único músico “feliz” nesta história, o ínico músico com sorriso de músico e capaz de olhar para Joaquim com a leveza que música nos dá: Geraldo, interpretado por Jair Oiveira, que acha linda a filha do amigo tão invejado por um e desdenahado por outro e que confessa-se louco para ter um filho, porem mais tarde, daí uns 2 anos… E finalmente podemos dizer que os desafinados fala sobre música.

Rozzi Brasil.

OS DESAFINADOS. 2006. Brasil. Direção: Walter Lima Jr. Gênero: Comédia, Musical, Romance. Duração: 139 minutos.

Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei

simonal-ninguem-sabe-o-duro-que-deiFalar sobre o que todos já falaram se não inclui exclusividade é imprescindível emoção. Não há como não se emocionar com o Sr.Casseta que fala sério sobre um tema seriíssimo, sobre uma pessoa que não foi levada a sério e que bem pode comprovar a frase de Pablo Neruda “A verdade é que não há verdade”.

claudio-manoel_e_barbara-heliodoraSabemos nós que toda história tem dois lados, mas esta parece que desde sempre só teve um. O documentário bem feito, sem narrador e com edição cheia de “bossa” tem uns pecadinhos na fotografia em alguns enquadramentos nos rostos dos entrevistados, que até pareceram propositais a fim de privilegiarem a emoção em detrimento da técnica. Com entrevistados ilustres (fiquei surpresa ao ver a crítica teatral, Bárbara Heliodora por lá) mostra que Claudio Manoel escolheu um lado, um daqueles dois únicos lados que Ziraldo diz no seu depoimento que havia na época, dois lados e um punhado de fatos obscuros e sublinhados por comportamentos grifados pela intolerância tanto de um lado quanto de outro.

Talvez naquele tempo, debaixo da nuvem de chumbo, não existisse o excesso de representantes dos Direitos Humanos que vemos em ação hoje em dia. Mas parece que nenhum representante dos DHs, ainda que nascido posteriormente tivesse interesse em apurar e retirar do limbo o grande cantor. Foram tantos os pedidos de desculpas, desagravos e indenizações póstumos, que a mim causa estranheza a permanência do silêncio tempo a fora.

simonal-ninguem-sabe-o-duro-que-dei_elencoO documentário nos faz pensar quando um remédio agride mais que a doença, quando a punição vai muito além do crime praticado, quando o punido é esquecido no exílio, na cela, nas masmorras. Sim, em nenhum momento tive a impressão de que Simonal fosse um poço de virtude e inocência, mas o tempo todo senti um tremendo desconforto por ter eu, um dia me posicionado à esquerda.

Ali vendo aquele documentário bem montado, tive vontade de interromper o Ziraldo e cuspir na cara Jaguar (que jamais ele saiba disso para que não tenha um prazer a mais).Tive noção da grandeza de um Chico Anysio e tive vergonha por ter, como todo ser humano, uma capacidade muito maior para julgar do que para entender…

Independentemente do lado que estiveram os entrevistados, todos artistas de nome e que conviveram com Wilson Simonal, fica claro que todos falam com propriedade e tem lá suas doses de razão, com exceção é claro do Jaguar, que não parece ter tido outra intenção a não ser de fazer o merchandising da “birita” engarrafada com o seu nome no rótulo.

simonal-e-malcon-roberts_ficWilson Simonal se agiganta na telona e se torna muito maior que o filme. Dá um pesar muito grande quando os arquivos que o mostram em ação no palco terminam. Pesa muito saber sobre o tudo que ele poderia ter feito e foi impedido. Faz falta ouvir o depoimento de algum cantor da época e, por não ter nenhum, ficamos com a impressão de que a classe artística não anistiou o cantor do “patropi”. A arte/entretenimento não precisa ter conotações, posicionamentos ou fundamentos morais para divertir e deleitar. Naqueles tempos artistas usavam a arte como forma de passar adiante suas mensagens, seus protestos, discordâncias e indignações contra o regime. Para alguns isso poderia parecer uma finalidade, mas a verdade que as obras eram apenas um meio, um instrumento de subversão, no entanto era entendimento corrente que havia dois lados e todos deveriam ser obrigados a escolher. O problema é que nem todos eram  universitários, ocupantes da classe média… Ainda assim, mesmo quem não entendesse das correntes políticas que assolavam nosso oceano, precisava se posicionar. Se você não era artista você tinha que ser platéia, diante do talento do Simonal muitos artistas tornaram-se platéia (Sérgio Mendes e seu Grammy que o digam…) simonal_ficNuma época em que o empate não era permitido, Simonal tinha do seu lado apenas a massa, o povo que cantava “Meu limão, meu limoeiro”, cantasse ele outro tipo de música e estaríamos hoje falando de um herói e jamais de um morto em vida torturado e sepultado pela nossa indiferença. Hoje diríamos que Simonal bateu “palma pra maluco dançar” e dançou. Vendeu muito, era popular coisas que os críticos cabeças não gostavam. E se o povo cantava músicas sem conteúdo político, comprava discos de quem não possuía uma causa e ia aos shows sem palavras de ordem, a culpa é de quem canta…

Diante disso tudo deixa de ser importante as verdades e razões. Chico Anysio quer conhecer qualquer um que tenha sido delatado pelo “Simona”. Boni fala do “espírito de corpo” e pareceu-me que essa expressão quase desvenda todo o mistério. Tenha sido forjada ou não essa grande armação, não houve por parte de ninguém o interesse em apurar as verdades dos fatos. Se Wilson Simonal era o agente de direita, porque o sistema não o protegeu? Porque não lhe pagou uma passagem para fazer sucesso fora do país e posar como referência nacional? Ahn, ele não era exatamente o cartão de visita que interessava aos milicos… han-han.

simonal_showmanTodos no documentário assumem a parcela de covardia social vigente na época e assinam embaixo da ingenuidade do cantor. “Ele não pensava que era o rei da cocada preta, ele ERA O REI DA COCADA PRETA!!!!”. Tanto era que acreditava poder atuar como ponta direita da seleção na copa de 70…  E quem de nós, tendo o dom de magnetizar um maracanã, seria diferente disto? Simonal não tinha nada a ver com a política, não tinha posicionamento ideológico, ele era uma pessoa com um talento excepcional para música que ganhava dinheiro com isso e só queria viver a sua própria vida o que não era permitido naquela ocasião. Ele queria gastar o dinheiro que ganhava e ganhar mais ainda, como qualquer mortal de origem humilde que vencesse na vida e se deslumbrasse. O cenário artístico deveria estar abarrotados de pessoas assim… Fosse ele politizado e saberia que naquele tempo era proibido gostar de ser brasileiro. O ufanismo era sintoma de direita e à direita morava a ditadura dos generais que vestiam verde amarelo exilando os brasileiros do direito de ser patriotas.  Ele não carregava uma bandeira de movimento negro, tinha uns leves olhares nessa direção em função de ser negro, filho de empregada doméstica, achar que tinha o controle da situação e três Mercedes… A propósito, ele viveu a bizarra experiência de ver estendido para si um tapete vermelho na mesma casa onde, quando criança, ele precisava comer escondido a marmita que a mãe escondidamente lhe preparava….

simonalDisse o Sr. Sérgio Cabral que a Pilantragem nada acrescentou à musica popular brasileira, mas alguém com o talento de Simonal teria acrescentado muito a qualquer Pilantragem ou movimento musical que surgisse, que ele pudesse criar ou participar como agora finalmente parece que estamos prestes a permitir que ele acrescente. A redenção se não tardia, redenção não é.

Por: Rozzi Brasil.

Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei. Brasil, 2008. Diretor(es): Cláudio Manoel, Micael Langer, Calvito Leal. Roteirista(s): Cláudio Manoel. Gênero: Documentário. Duração: 86 minutos.

MILK – A Voz da Igualdade (MILK)

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“Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, felizmente existem mais coisas entre a resenha e a crítica especializada que nos faz ir ao cinema, sem nos importarmos com o que elas ditam! Não fosse o Oscar recebido por Sean Penn e talvez muitas centenas de brasileiro não tivessem ido assistir a este filme. Então parabéns a Academia! Não importam os motivos que a levaram a premiar o filme, se é que existe algum outro motivo além da atuação do seu ator principal e o mérito do roteiro. É fato que o filme é muito bom!  As imagens de arquivos incluídas no filme lhe emprestam certa contundência, a princípio parecem longínquas, fragmentos arqueológicos de um passado com atitudes condenáveis do sentimento repulsivo que é a intolerância e a representação da falta de liberdade. No final, as fotos das personagens verídicas confrontadas com a dos atores, nos faz admirar as escolhas da produção.   Não dá pra sair da sessão sem refletir sobre o “miolo” do filme e nem é preciso ser gay para isso, se alguma sensibilidade existir no expectador, será um processo mais do que natural.Até ver o filme eu nem ‘sonhava’ com Harvey Milk, depois de ver, percebi que o conhecia nos amigos gays abafados em armários ou  assumidos vida afora, com consciência que ser homossexual não é um diferencial.   

Milk tentou eleição para o cargo de “supervisor” (equivalente a um vereador ou talvez um subprefeito) da região que vivia várias vezes, tentou sem obter, o endosso para essas eleições. A cada derrota, a margem de votos perdidos diminuía e a vitória só chegou quando uma nova assessora, buscou o apoio da mídia, não para um militante da causa gay, mas para um bom comerciante. É verdade que o filme mostra o preconceito dentro do gueto, as piadinhas dos cabos eleitorais para uma mulher, agora responsável pela imagem e campanha do eterno candidato. Minha primeira conclusão: O gay tem preconceito tanto ou mais que uma hétero…  Minha segunda conclusão:  somente um segmento, não elege um candidato, as pessoas não votam em causas, podem até votar em causas próprias desde que não se exponham por isso.milk_james-franco-and-sean-penn

Aqui no Rio de Janeiro, fala-se muito em amor de carnaval, como se boas pessoas, capazes de se apaixonarem e viverem uma relação duradoura fossem obrigadas a não  gostar de carnaval… Concluo que se é amor, ele acontecerá, não importando o local ou a data nem mesmo o sexo, nem mesmo nosso ideal de pessoa perfeita para relacionamento. Nessa altura da narrativa, Milk mora em Nova Yorque e busca relacionamentos discretos, escondidos para não sofrer represálias. Diz que tem 40 anos e nada fez de relevante em sua vida. Ele e Scott concluem então, que é preciso mudar de ares e lá se vão eles para São Francisco, Califórnia, Rua Castro. Podemos dizer que aí o filme começa.  

 

Nos primeiros momentos do filme, no dia do seu aniversário, Harvey Milk, ainda no armário, paquera um rapaz, Scott Smitt  ( James Franco) numa estação de metrô. Não é preciso ser garoto de programa, nem cliente para uma paquera tão ousada  num lugar tão mal afamado.  O rapaz, então lhe diz que não sai com ninguém acima dos 40 anos e, a primeira mostra do bom humor da personagem é a sua resposta: “Hoje é seu dia de sorte, ainda estou com 39 anos”. Eles saem, ficam juntos e vivem um relacionamento tanto estável quanto inesquecível! 

 Trabalha duro durante as campanhas, volta a usar o visual comportadinho – e não é que me lembrei do nosso presidente Lula e seu banho de loja travestindo-se com seus Armanis!  

No último cheque desemprego de Scott Smith, Milk decide abrir uma lojinha de fotografia. A recepção no bairro não é amigável, sofrem ameaça do presidente da associação de lojistas ou algo que o valha. De visual hippie, não se intimidam, a loja vira referência, o bairro transforma-se em point gay (o que continua sendo até hoje) e Milk começa suas tentativas de se eleger.

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Em suas panfletagens, conhece Cleve Jones (Emile Hirsch). Ele não está interessado em política, não quer saber de ativismo, está com dinheiro no bolso indo para a Espanha. Sou obrigada a concluir que grandes ou pequenas causas não movem um cidadão comum, enquanto elas não lhe arranham a própria pele. Gay ou não, somos individualistas e ponto. Cleve Jones, irá reaparecer no filme, após ter “quebrado a cara” com o seu “amor espanhol” e terá uma participação de destaque na história.
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Quando Harvey Milk, finalmente consegue eleger-se, a cena é de uma festa como só os gays sabem fazer. Antes dessa vitória Scott já tinha se mandado, parece que ele não agüentou tanta invasão, tanta gente, a casa eternamente lotada. Tantas tentativas de eleição foi demais para ele. É quando surge Jack Lira (Diego Luna), um desajustado, desequilibrado a quem Milk acolhe e ama. É, o gay não é realmente o estereótipo que pensamos, pelo menos Harvey Milk neste filme não é!Coisa rara e jamais comentada, o amor masculino é capaz de doação e Milk ressente-se de talvez não ter feito tudo o que podia ou deveria tentar ter feito pelos seus relacionamentos.

 Não sei o quanto este filme é fiel a vida real de Harvey Milk, sei que Sean Penn interpreta magistralmente um homossexual, que mesmo assumido não sucumbiu ao prazer de divertir a sociedade com uma caricatura. Que fazia piadas com a sua condição sem perder o respeito. Que um gay não depende de chiliques para demonstrar suas emoções, antes, se emociona e muito. Que uma liderança pode mostrar a um jovem paralítico e execrado pela família que ele pode sim, mover-se em busca daquilo que ele é realmente e que ser homossexual e paralítico não é uma linha entre duas desgraças sem fim.

 

Quando surge em cena a Sra. Anita Bryant, cuja aparição é mostrada apenas em imagens da época, utilizando a religião como ferramenta legal na defesa de um Deus preconceituoso e perseguidor de outros seres humanos, com a Proposta 6, que sob o pretexto de salvar as crianças americanas das aberrações que são os homossexuais, como um início de caça às bruxas, apartando os gays de seus empregos, proibindo professores gays de exercerem sua profissão, Milk se lança numa cruzada em defesa do “seu público”. Nesse momento vemos que aquelas imagens de arquivos incluídas no filme não são peças de arqueologia nem as Cruzadas se extinguiram com a Idade Média…Vale mencionar o desempenho de Josh Brolin  como Dan White, um sujeito tão bitolado que não percebe necessidades do seu distrito dignas de elevá-lo a categoria de líder. Dan White numa determinada cena desabafa que Milk tem uma causa, como se a causa fizesse dele tudo o que ele era em vez do contrário. A vida é assim: os medíocres acreditam verdadeiramente nos seus conceitos e conseguem lançar mão da arbitrariedade,  utilizam-se da violência que transforma leis, religiões e pensamentos em armas! Eu não quero concluir que as mentes medíocres crêem com muito mais força e veemência nas suas verdades do que as mentes singulares acreditam nos direitos e liberdade! 

05_13_nicoletta1Por fim, minha última conclusão: Quando a arbitrariedade é absurda demais, os oprimidos se unem de tal forma, que naquela época as “gays parades” tiveram sentido e objetivo inteligível para todo o restante da sociedade. O preconceito velado é muito mais perigoso que o a voz dos políticos em megafones conclamando toda uma população a fazer valer os diretos de Deus, como se eles tivessem uma procuração do Altíssimo. Num momento onde as perseguições (se é que existem) são discretas, a Proposta 8, que impede o registro da união  entre pessoas do mesmo sexo, foi aprovada em 2008,  nos Estados , o que originou o comentário de Sean Penn durante o recebimento da sua merecida estatueta: “Aos que votaram contra o casamento gay, envergonhem-se .”  A montagem deste filme é primorosa, seu ritmo embaladíssimo para uma cinebiografia, o elenco é sensacional, o filme merece ser visto e merecia ter sido mais apreciado pelos especialistas em resenhas e pelos críticos que pararam na sua superfície ou talvez no beijo de Sean e James…

 Por: Rozzi Brasil.  Blog: Crônicas Urbanas.

MILK – A Voz da Igualdade (MILK). 2008. EUA. Direção: Gus Van Sant. Elenco: Sean Penn (Harvey Milk), Josh Brolin (Dan White), Emile Hirsch (Cleve Jones), James Franco (Scott Smith). Gênero: Biografia, Drama, Romance. Duração: 128 minutos.

 

Lemon Tree (Etz Limon)

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Um filme sensível, de belíssima fotografia com excelente e linda atriz. Beleza a despeito da idade ou justamente por causa dela, me pareceu uma perfeita palestina retratando a Palestina. Salma Zidane (Hiam  Abass), numa primeira cena aparece cortando limões e fazendo compotas. Vê-se em suas mão a habilidade de quem breve terá um limão não azedo mas muito amargo para cortar…

O filme recheado de muitas sutilezas, delineados por clarezas deixou-me ligeiramente deprimida por sua carga de injustiças e dominações daquelas que nada podemos fazer a respeito até que percebemos que por maior que seja o oponente e por menor que seja o oprimido, notamos o quanto de covardia pode haver nesse clichê “o que eu posso fazer?

Vive Salma com seus mais de 40 anos, a plantar seus limões, a cuidar do seu pomar, plantado há mais de 50 anos por seu pai. O maior adubo das árvores são com certeza, história e lembranças, e  seus frutos transformam-se em limonadas que nenhuma personagem deixou de exclamar como deliciosa.

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Entre muita solidão e algumas lembranças, Salma vai levando a vida, viúva, com filhos criados vivendo distante, até o dia em que ganha um vizinho, de nome Israel, ministro da defesa do Estado homônimo. Um chefe do Serviço Secreto supõe que o pomar de Salma seria o um caminho estratégico para terroristas que quisessem atentar conta a segurança do ministro. Ela recebe uma carta comunicando o fim do seu pomar e que seria indenizada por isso. Começa aí, um pesadelo temperado por esperança e perseverança. O primeiro passo é traduzir a carta escrita em hebraico. O segundo buscar ajuda. O filho que mora nos EUA, não pode sequer terminar com tranqüilidade o telefonema; a filha casada e com 2 ou 3 filhos e marido é mais comovida com sua própria penúria que pelo drama da mãe e, no local onde estão apenas homens onde ela consegue de um “amigo” a tradução da carta. Tudo o que ela consegue saber além do conteúdo, é que nada pode ser feito, arbitrariedade similar já ocorrera com todos por ali e ela, palestina, não pode aceitar nenhum dinheiro israelense… O egoísmo que sacode por lá é o mesmo que paira por cá…

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Salma Zidane contrata um advogado (Ali Suliman), indicado pelo genro. Eles vão à corte onde sequer conseguem falar. Ela decide recorrer a Suprema Corte. A partir daí, sentimentos desdobram-se diante de atos e fatos. É sutil e delicado porém perceptível o envolvimento e quase sedução madura de quem não pretende uma entrega mas compreende o direito feminino de mostrar-se bela: Numa cena onde ao atender o advogado que bate à porta, ela decide não usar seu hijab; nas cenas onde ela passa o seu baton e naquela, em que ela tira o mesmo baton para atender alguém que chega e que não é o advogado. A delicadeza com que o medo é mostrado é a mesma que mostra o modo das personagem ir em frente.

É clara a solidão de Salma quando ela conta que quando não há uivos de lobos, ela se sente só e quando eles uivam ela se sente uivando com eles. É claro a sua obstinação quando ela em uma única frase resume a espinha dorsal de todo o filme: “eu já sofri demais” (e por isso exatamente por isso, ela vai à luta e não entrega sem resistência tudo aquilo que ainda possui e que lhe traz paz de espírito, sua casa, seu pomar, suas lembranças, suas tradições culturais. Não importa o preço ela paga!)

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Lemon Tree,é um filme tocante que mostra a intolerância daqueles que já acostumamos a ver como vítimas. Mostra a disputa e os poucos lados da única questão que é querer o que é do outro. Tomar posse simplesmente por achar que se tem direito por ser o mais forte, o detentor do poder, da autoridade. É o que demonstra a visita de um provavelmente parente do finado marido, a dizer que mantenha limpa a memória do falecido. Não importa de que lado esteja a força, ela estará forçando sempre o mais indefeso… Assim, a atitude ou falta dela com a qual se responde ou se corresponde às situações nas quais o uso arbitrário da força nos coloca.

Esse filme é baseado numa história real e, talvez por isso mexa na ferida que é a impotência consentida ou não e seus descaminhos.

Mira (Rona Lipaz-Michael) surge no filme, numa situação de felicidade e futilidade. Ela é a feliz dona de casa judia, casada com o ministro da defesa de Estado de Israel. Durante os preparativos para a festa de inauguração da casa, eles têm uma conversa que demonstra que se ela faz algumas concessões, não significa que seja desatenta ou que ignore os fatos. O nível de tolerância do ministro é claramente demonstrado quando Mira sugere iguarias árabes e o marido, depois de breve rodeio bate o martelo escolhendo o cozinheiro e que este faça apenas comidas kosher…

Mira, se envolve na causa da sua vizinha árabe, através de olhares e atitudes que irão perdendo a timidez ao longo do filme. Esse filme é um grande filme muito mais por aquilo que induz do que pelo que mostra. Muito mais do que a disputa entre palestinos e israelenses, mas por mostrar a forma como cada uma dessas culturas tratam suas mulheres, semelhantes e rivais. Espera-se um comportamento respeitoso sem que nada se faça para realmente o obter, nisso em que eles são diferentes dessa nossa cultura tão ocidental e moderna?

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Exceção a essa regra, é o misto de empregado, pai de criação e melhor-amigo- que- parece- não- dar- muita- confiança, o bom velhinho que recusa convite pra almoçar mas se interessa em saber sobre a visita da filha de Salma, o que demonstra que ele percebe a sua solidão mas  por motivos culturais, vê esta solidão como algo inerente ao destino de uma mulher viúva e árabe, o que não o impede de ir às “vias de fato” com Ziad. Dessa forma, essa personagem que não sei o nome deste ator que desconheço, é o único que não vai até Salma fazer-lhe cobranças e imposições por seu comportamento, como se um relacionamento, quando precisa ser proibido, fosse de competência única e exclusiva da mulher, afinal ela é o pecado, o homem só erra  por ser tentado…. Conhecendo Salma desde criança ele confia nela e só no final do filme entendemos essa forma de relacionamento sem conversa, apenas por atitudes, sim, exatamente da mesma forma como se “comunicam” Salma e Mia…

Em filmes que falam pela ausência de palavras um quadro na parede pode dizer muito de uma produção, tanto quanto o casaco que uma personagem veste. Reparem além da foto do marido de Salma na parede, a foto do craque Zidane no quarto de hóspede e o agasalho verde e amarelo de Ziad.

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O par da nossa heroína, Ziad Daud deixa claro que há os que se acomodam sem motivos para mais uma luta, pois desistiram, porém tendo uma boa causa, se empenham e se aplicam em vencê-la, o que não significa que seus horizontes se expandirão muito além dos seus interesses pessoais. Outra lição que o nosso advogado nos passa é que nem sempre o melhor aliado para uma luta seria melhor companheiro para nossa vida…


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Agora, uma anotação muito pessoal:

Eu que cresci vendo nos telejornais essa loucura palestino-judaico (ou seria vice-e-versa?) sem nunca ter compreendido muito bem, ao que um dia um professor me disse que “se fosse fácil eles já teriam se entendido e nós simplesmente estudaríamos história”, óbvio que tomei o caminho mais fácil de não buscar entender nada tão complicado. No entanto, por influência da 2ª guerra, tenho como muitos da minha geração, o vício ou tendência de ver os judeus como vítimas eternas. Este filme me sinalizou que já passou da momento de rever vários dos meus conceitos. O mundo é muito mais do que nos diz as fantasias americanas.

Por: Rozzi Brasil.  Blog:  Crônicas Urbanas.

Lemon Tree (Etz Limon). 2008. Israel. Direção: Eran Riklis. Elenco: Hiam Abbass (Salma Zidane), Doron Tavory (Defense Minister Israel Navon), Ali Suliman (Ziad Daud), Rona Lipaz-Michael (Mira Navon), Tarik Kopty (Abu Hussam). Gênero: Drama. Duração: 106 minutos.

Queime Depois de Ler (Burn After Reading)

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Queime depois e ler, é uma piada, que fará rir quanto mais despretensiosamente for assistido. Lava a alma de quem já cansou de ver americano salvar o mundo ou apenas um homem americano acabar sozinho com a banda podre do mundo.
Ver a liberdade sexual e o divórcio virar brincadeirinhas de pessoas depressivas, fúteis e entediadas em vez de a salvação afetiva que o mundo precisaria aprender com a América.
Ver o quanto uma americana acima de 40 valoriza a amizade e sua necessidade vital de fazer cirurgias estéticas.

É isso, um agente da CIA é demitido ou levado a demitir-se, quer virar consultor e escrever suas memórias e sua mulher grava em CD esse arquivo que é levado paras as mãos erradas pela gorducha secretária que malha numa academia onde se encontram tipos hilários e improváveis…

“Queime Depois de ler”, achincalha o poder. O poder da mulher empregada em detrimento do marido que pede demissão por motivo de orgulho profissional.
O poder da Inteligência Americana e sua relação com os crimes ocorridos em função dos seus próprio erros.

O filme começa com uma tomada de imagem via satélite muito legal e com uma música que sinceramente, gostei. A imagem “invade” o prédio da CIA e mostra a demissão arbitrária de um agente nível 3. Ligeiramente deprimido ele vai pra casa e não consegue contar à mulher da demissão, pois ela está ocupada com os preparativos para receber visitas, um casal amigo que o marido detesta, aliás eles se detestam mutuamente. Tem o agente que em 20 anos de serviço nunca usou a arma e os caras da CIA que há tempo no poder nada fazem de sério, relevante ou coerente. Enfim, o filme vai brincando com tudo aquilo que os americanos levam a sério e que nós nos acostumamos a acreditar.
A noção exata de que se trata de uma comédia chega com  Brad Pitt dando uma de detetive, vigiando a casa de um suposto espião, dono do CD com uma inimaginável dancinha de braços, simplesmente impagável! A cena do armário, achei excelente! Nunca achei tão divertido ver alguém morrer, então o filme tem um humor negro funcional.
Excelentes atuações porque comédia, afinal, não é pra qualquer um.

queime-depois-de-lerUma comédia sobre falsos espertos querendo faturar uma grana e sobre todos tentando se livrar uns dos outros. Enfim, é um filme que não vai deixar lembrança, vai te dar umas breves oportunidades de riso e talvez satisfaça aquele lado todo-americano-é-ridículo.
O que aprendemos com o filme? Que não se escolhe filmes pelo trailer, nem pelos atores bonitões; que depois de pago um ingresso ele até pode pode valer a pena, se a sua alma não for pequena…

Por: Rozzi Brasil.   Blog:   Casa das Fadas.

Queime Depois de Ler (Burn After Reading). 2008. EUA. Direção e Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen. Elenco: George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Tilda Swinton, Brad Pitt. Gênero: Comédia, Crime. Duração: 95 minutos.

ROMANCE

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Romance é uma surpresa. Delicado,inteligente, bem humorado, instrutivo. Discute o amor, a paixão que podemos ter por uma pessoa, pela arte. Recheado de ótimos diálogos de lindas cenas de amor, até me vi satisfeita por ver Andréa Beltrão diferente das personagens que ela sempre interpreta de maneira, que a mim ficam parecendo tão iguais. Há diálogos no filme que tive vontade de escrever, decorar para não perder de vista. Há coisas do velho Shakespeare tão frescas! E ainda a informação que todos os romances trágicos nasceram de Tristão e Isolda, a partir do século XII e que o beijo final do início dos romances com a felicidade eterna que ninguém vê, começaram no século XVII.

Como fã de cinema brasileiro, claro que vai parecer suspeito, como originária da geração barzinho com violão e papo cabeça, encontro temas e mais temas para discussões e risadas. A verdade é que, não vou ao cinema para não gostar mas nesse filme não precisei fazer o menor esforço.

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Discussões batidas como diferença entre amor e paixão, discussões profissionais entre a romantização do teatro e a pasteurização da TV que se dá o direito de mudar finais de clássicos e decidir o que o público realmente gosta de ver.

Wagner Moura interpreta o inteligente e idealista Pedro, que como tempero leva uma certa dose de ciúme. O cardápio de questões é bem extenso. Um amor recíproco pode ser infeliz? A paixão tem duração pré-definida? Até que ponto podemos nos apaixonar pelo que vemos e não pelo que o outro é? As histórias precisam ter sempre um final feliz? Uma obra precisa apresentar coerência? O ator tem que escolher ser de teatro ou TV e é possível fazer os dois ao mesmo tempo? Como lidar com o parceiro que se torna bem sucedido ao escolher o caminho que decididamente não queremos trilhar?

O público que busca a ficção, afinal, quer morrer de rir ou debulhar-se em lágrimas? Letícia Sabatella envelhecerá algum dia?

Quanto tempo de projeção um monstro como Marco Nanini precisa para roubar a cena? É impagável seu aparecimento na trama e sua entrada numa das ficções dentro desta ficção. Chega a ser hilária a nuance de José Wilker interpretando “deus”. Nada difícil, associarmos alguns personagens com pessoas que conhecemos de tanto que vemos nas revistas de celebridades…

Ao fim de tudo somos brindados com várias versões de Tristão e Isolda, com finais diversos. Considerei um brinde as cenas de nus, em se tratando de romance, sexo é sempre bem-vindo, sorrisos e risadas também!

Romance é um filme sobre romances e amores e nossas reações diante das contraditórias situações nas quais os sentimentos nos envolvem.

Finalmente um filme que uma vez em DVD eu veria muito mais de uma vez.

Por: Rozzi Brasil. Blog: Exoticum.

ROMANCE. 2008. Brasil. Direção e Roteiro: Guel Arraes. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, José Wilker, Bruno Garcia, Tonico Pereira, Vladimir Brichta, Edmilson Barros, Marco Nanini. Gênero: Drama, Romance. Duração: 100 minutos.

Ponto Final (Match Point)

Tem gente que é bom pra caramba no que faz. Tem gente que além de ser bom dá uma sorte danada! Tem gente que é bom mas vive na obscuridade da ausência de notoriedade! Outros não chegam à fama… Notoriedade pra mim é reconhecimento mesmo que por parte de uma circunscrita platéia. Agora, não podemos negar que há os sem-talento que acreditam no que fazem e, a despeito da sua mediocridade artística vão pro teatro, fazem o filme, escrevem o livro, aparecem na TV e vendem isso tudo! Não sei exatamente se sinto uma dor de cotovelo aguda ou se minha ética está em convulsões, quem sabe os dois?

Deve haver um crivo do destino que abençoe aqueles que terão sucesso. Independentemente da genialidade.

Eu nunca acreditei em sorte, eu achava que bastava ter talento, trabalhar muito e o resultado positivo, em sucesso, fama ou grana seria conseqüência. Enganei-me! Percebi isso depois que vi o filme Match Point.

Você viu esse filme? Veja.

Basta um segundo de sorte pra catapultar qualquer FDP ao sucesso e, abre parênteses, tem gente que é FDP mas cria oportunidades e, conforme as oportunidades criadas, tornam-se exatamente por isso, uns FDP genuínos com discursos prontos e requentados do tipo: “os fins justificam os meios” ou “preciso arrancar algo da vida já que nada ela me deu”.

Tenho dúvidas cruéis a respeito do filme…

Não sei exatamente se é um filme a respeito do que desejamos alcançar. Se uma fábula sobre o que estamos dispostos a fazer para chegarmos a um objetivo. Sobre onde pode nos levar nossa ambição, ou nosso desejo visceral de obter algo. Seria um comentário a respeito do nosso medo de perder? Sobre o que nos leva a perder-nos de nós mesmos? Seria um filme que aborda uma renúncia ou destituição de valores, já que, o personagem principal parece jamais ter tido…

Mas principalmente tenho dúvidas se não é um filme a respeito do que é possível perder… Não sei.

De tanto não saber, esse filme de certa forma mudou algo em mim, algo que me deixou profundamente calada. O “ponto final não é nosso”. A “cereja do bolo”, não é competência das nossas mãos…  Tudo é muito mais que a moeda do “cara ou coroa”.

Se aquela aliança caísse um centímetro mais distante da margem, as razões mudariam de dono e todo um universo pessoal mudaria de curso. Voltaríamos pra casa com a alma lavada e sonharíamos com um mundo mais justo e eu não teria mudado minhas percepções a respeito da sorte, do destino e do acaso…

É só um filme, porém um decalque do que há e pode vir acontecer.

O filme mostra que existem casos em que a justiça não é feita por simples conivência do “acaso” e que este acaso não toma partido… Pequenos fatos indigentes acabam por determinar a sorte de renome, não importando o que ela (sorte) possa carregar em si.

A sorte existe e ela é imparcial nas suas bênçãos!

Aqui na minha casa há uma controvérsia. Tem gente que detesta Woody Allen! Eu, pior que detestar, era uma ignorante no assunto. Não vejo filmes por direção, me guio pelos releases, bonequinhos e estrelas. Quanto menos estrelas, mas vontade de ir assistir. Meu gosto costuma ser o oposto do bonequinho que na minha ridícula opinião, vê mas não entende nada, porque ele não vê os filmes com os olhos da emoção.

Assisti Match Point em setembro/2007 já em DVD, só a partir daí fui rastrear este diretor, pois havia visto há tempos o “Rosa Púrpura do Cairo”. Descobri que este Match Point é o primeiro filme dele em cenário Londrino. Descobri o quanto Woody Allen pode ser ardiloso, quando num filme como este, logo nas cenas iniciais, vemos Chris lendo “Crime e Castigo” de Dostoyevsky. Descobri que o cinema, assim como a vida, é lotado de sutilezas e são essas sutilezas, tanto na vida quanto no filme, que fazem a diferença e, muitas delas sequer percebidas por nós, permitem que pensemos no quanto somos geniais.

Match Point é um filme (crime?) perfeito!

Por: Rozzi Brasil, Rio 13/07/2008. Blog: Exoticum.

Ponto Final (Match Point). 2005. Reino Unido. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlet Johansson, Alexander Armstrong, Mattew Goode, Brian Cox, Emily Mortimer. Gênero: Crime, Drama, Romance. Duração: 124 minutos.