A Questão Humana (2007), de Nicolas Klotz

questaohumanaFilme que desde que foi exibido no Brasil pela primeira vez (quando ganhou o prêmio da Critica na Mostra de São Paulo em 2007) tem dividido opiniões e despertado reações controversas por parte dos cinéfilos que tiveram a oportunidade de assisti-lo.

À principio é um thriller corporativo em torno de Simon (Matthieu Amaric), um psicólogo no departamento de recursos humanos de uma corporação petroquímica franco-alemã. Trata-se de um funcionário rigoroso e exemplar, responsável pela análise da capacidade e do rendimento de todos os empregados, inclusive logo no começo do filme ele é requisitado para avaliar quem deve sair quando, por contenção de despesas, a mega-empresa está prestes a despedir um determinado número de funcionários. Toda a primeira metade do filme vai preparando o terreno para a missão que o presidente da corporação entrega a Simon: investigar o seu sócio, que vem se comportando de maneira estranha, cada vez mais alheio e distante dos deveres exigidos por seu cargo.

À medida que Simon avança em sua pesquisa sobre o seu superior misterioso, ele vai adentrando na intimidade de um homem melancólico, cuja tristeza contamina o investigador, abala a sua segurança e afeta sua personalidade, envolvendo-o numa história cujo controle lhe escapa ao descobrir o passado nazista do seu chefe, e por trás dele, um paralelo entre o processo eliminatório dos oficiais nazistas que enviavam os que não eram de suas raças “puras” para os campos de concentração, com o dos modernos empresários do capitalismo contemporâneo, que pautados de acordo com os interesses de rendimento máximo e do lucro pelo lucro, excluem os que são menos úteis nas engrenagens da máquina que faz o capital girar, empurrando na maioria das vezes esses excluídos para áreas menos nobres e periféricas dos grandes centros, como uma nova forma de holocausto.

A história não se trata de desvendar um mistério, punir os vilões e salvar os oprimidos, e sim sobre uma profunda crise ética de Simon diante dessas constatações que o afetam fortemente e que não sabe como lidar com a própria culpa e cumplicidade, numa jornada que encontra paralelo com a de Gene Hackman no clássico A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola. Há também uma bela história de amor dentro do filme, que é engolida pelas preocupações maiores da obra, a de Simon com uma de suas colegas na corporação, em uma relação de desencontros que tem seu ápice na festa rave que se dá pela metade do filme, quando começa a se quebrar a postura rígida e impecavelmente formal do maquinizado personagem principal.

Ao final, quando Simon e o filme lançam um olhar em direção às classes excluídas, A Questão Humana encontra ecos em outro clássico, o célebre Noite e Neblina (1955), de Alain Resnais, que registrou de um modo pungente as condições e circunstâncias em que ocorreu o extermínio nos campos de concentrações, e que no seu desfecho alertava (mesmo com o nazismo fora de moda) sobre a chegada de possíveis novos carrascos, afirmando que no fundo fingimos acreditar que isto tudo (a opressão e esmagamento em largas escalas) pertencem a um único tempo e a um único país e que não olhamos à nossa volta.

Num primeiro momento (a exemplo do já citado A Conversação, que é um filme cerebral que também derruba o espectador desavisado),  A Questão Humana pode pode parecer um filme pouco envolvente, por ser um trabalho tão opaco e cinzento como o mundo que espelha e representa em seu teor à principio ilustrativo, e se for o caso vale a pena insistir em lançar um olhar mais atento em direção a uma obra que vai ganhando em densidade, em aprofundamento, ao ponto de se tornar uma experiência bastante sensorial. Um dos muitos exemplos nesse sentido são as “cortinas” listradas e acinzentadas do fundo de muitas cenas (ver primeira foto), recorrentes ao longo do filme, e que nos transmitem a sensação de grades que encerram os homens e determinam as suas ações no mundo corporativo.

Enfim, se estamos acostumados a assistir filmes que tratam dos pobres e desamparados, que giram em torno de territórios de excluídos, daqueles que não servem ao corporativismo e, por conta disto, são postos à margem da sociedade, com A Questão Humana temos a possibilidade de enxergar um outro lado da moeda, pois o filme do francês Nicolas Klotz é basicamente sobre aqueles que excluem e detêm grande parte de todo o poder.

Vlademir Lazo.     Blog: O Olhar Implícito.