O Artista (The Artist. 2011)

Pela primeira vez em muito tempo, há o risco de a estatueta mais concorrida do mundo do cinema ir parar em mãos realmente merecidas no quesito melhor filme.

O Artista” (The Artist) de Michel Hazanavicius é uma obra extraordinária. A começar pela escolha do astro principal Jean Dujardin para viver George Valentin, um ator da década de vinte que sofre com a chegada do cinema falado que elege novas estrelas como Peppy Miller (A não menos talentosa Bérénice Bejo). Jean tem um frescor inédito que oscila habilmente entre o charme irresistível e a pantomima divertida que o personagem exige em momentos de humor e melodrama divididos graciosamente com o esperto cãozinho Uggie. Este importante momento de transição já suscitou trabalhos históricos na sétima arte como “Singing in the Rain” e “Sunset Boulevard”. “O Artista” também deve se transformar num clássico inesquecível do mesmo porte.

Quem não se incomodar com o ritmo apropriadamente lento em vários momentos, a ausência de diálogos e cor e o superado formato três por quatro da tela, vai aproveitar um punhado de cenas geniais e antológicas como aquela em que Peppy brinca com o terno pendurado de George. De quebra, uma trilha sonora saborosa que embala uma atmosfera lúdica, ingênua e de puro deleite absolutamente adequada ao ritmo gentil de uma película totalmente desprovida do envolvimento frenético virtual dos dias de hoje. Na última parte, a sala de projeção traduz uma emocionante e explícita homenagem a Fred Astaire e Ginger Rogers numa sequência arrebatadora.

Desligue (completamente) o celular e mergulhe no mundo maravilhoso deste filme único e sedutor.

O Artista (The Artist. 2011)


Será que é pedir demais para o público apreciar um filme como “O Artista”?. Não sei não!. O enredo do filme em si não é exatamente novo– nem quero usar a palavra “original” aqui, porque hoje em dia, tudo se copia!.

Quando a estória começa, George Valentin (Jean Dujardin) é uma das principais estrelas da época, um astro arrogante do cinema mudo — do calibre de um Rudolph Valentino ou Erroll Flynn!. Valentin é um cara bem-humorado, apesar de uma vida doméstica fria ao lado de sua esposa (Penelope Ann Miller). Provavelmente, o estrelismo o fez esquecer da sua “amada”, embora o mesmo tenha uma grande devoção pelo seu cãozinho, que está com ele em tudo e qualquer lugar!.

Ai, surge uma fã de Valentin, Peppy Miller (Berenice Bejo) que se torna atriz — depois de vir de papéis inexpressivos em filmes mudos, Miller faz uma extraordinário transição ao cinema falado. Num estilo “Nasce uma Estrela” e “Cantando na Chuva”, vemos Miller se tornar uma estrela e Valentin cair no ostracismo no estilo bem Norma Desmond em “Sunset Blvd.”

O elenco é perfeito: me envolvi com a estrela Jean Dujardin – um ator de um seu sorriso largo, e irresistível!. Que presença magnética na tela!. Merece sim levar o Oscar de melhor ator do ano!!. Berenice Bejo, que tem um grande papel, e está perfeita, não deveria estar concorrendo ao Oscar de coadjuvante, mas sim de melhor atriz principal!. E, o John Goodman faz um “Louis B. Mayer” sublime!.

Lindos figurinos, e cenários de encher os olhos – as cenas externas em L.A são um espetáculo a parte!. A fotografia de Guillaume Schiffman, que fotografou o ousado “Anatomy of Hell”(2004), é simplesmente de cair o queixo!!. Creio que a trilha sonora de Ludovic Bource seja não apenas a alma, mas o que sustenta o filme em si, embora as melhores faixas sejam aquelas escritas por Bernard Hermann, tiradas do filme “Vertigo” de Hitchcock. Não sei que critério foi estabelecido para a sua candidatura ao Oscar, pois recordo que o trabalho de Clint Mansell em “Black Swan” (2010) foi menosprezado pela academia porque ele usou elementos da música de Tchaikovsky em “Swan Lake”, ou até mesmo a trilha de Jonny Greenwood para o filme “There will be Blood” ( 2007), foi preterida porque Greenwood usou material pre- existente de sua propria autoria!. Não será injusto se Bource vier a ganhar o seu Oscar, mas em mais de 10 minutos de imagem em o “Artista”, temos a música de Hermann na tela!. E, compreendo a frustração de Kim Novack ao declarar em público, que o “Artista” depende e muito da trilha de “Vertigo- ” isso é pura verdade!.

Co- editado pelo diretor Michel Hazanavicius, que também assina o roteiro, “O Artista” é  uma obra bastante criatividade e ousadia assim como Scorsese em “Hugo” (2011), o qual, foi a França para homenagear um dos pioneiros do cinema!. Contudo, o enredo de o “Artista” não tem nada assim de complexo– é apenas uma ousada e bela comédia-dramática. Bem, em termos comicos — as risadas que surgem a partir de situações familiares–, não achei tão engraçadas assim, exceto, as cenas que mostram Valentin com o seu tão adorável cãozinho!. Em termos dramáticos, o ritmo do filme diminui muito, ficando atolado num melodrama repetitivo. Sim a carreira de Valentin vai para o brejo, mas por que Hazanavicius precisou arrastar tanto o drama do seu astro para depois “jump” para a cena final?.

Particularmente, adoro cinema, e adoro assistir filmes na tela grande, mas quando um filme me faz bocejar é porque há algo errado!. Assistindo o “Artista”, me encontrei perguntando se eu estava entediado ou a platéia me fez entediado. Bem, a magia de estar em uma sala de cinema é o fato de que compartilhamos a alegria, a tristeza, o riso e o medo com estranhos. Várias vezes, eu me encontrei rindo, porque o riso do outro me contagiou. Assistindo o “Artista”, eu fiquei entediado pelos bocejos da platéia, os quais foram também contagiantes!. Se tivesse sido cortado 25 a 30 minutos do filme, não prejudicaria em quase nada!.

Não acho que esse filme mereça o Oscar, embora o mesmo seja tecnicamente (ainda) um grande filme!. Mas levando em consideração o “Discurso do Rei” (2010) que foi agraçiado com a estatueta como melhor filme, eu não me surpreenderei com a decisão de premiar o “Artista”, que curiosamente é vendido como um filme francês, produzido pelo ator Thomas Langmann, filho do cineasta Claude Berri, mas com dinheiro americano– tanto o filme não foi escolhido pela França para ser o representante do país para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Nota 8,0 – pela criativa homenagem ao cinema!

O Artista (The Artist. 2011)

Seria cômico senão fosse patético! É que enquanto muitos Diretores chegam a basear seus filmes nos efeitos do 3D, para deleite nosso, de quando em vez, vem um e nos brinda com uma simplicidade ímpar ao contar uma história. Em 2009 tivemos os bonecos de massinhas meio toscos de Adam Elliot no seu “Mary e Max – Uma Amizade Diferente“. Agora, é a vez Michel Hazanavicius também remar contra o modismo e nos encantar com “O Artista“. Bravo!

Hazanavicius simplesmente conta a sua história como na época do Cinema Mudo. Como se tivesse filmado com o que hoje já seriam peças de museu. Mas não é apenas o pano de fundo, é a contextualização de uma época dentro da História do Cinema, e em especial, da de Hollywood. Pegando o início do fim de uma época: sai o Cinema Mudo e entra em cena o Cinema Falado. Já no finalzinho da década de 20, e início da de 30. E como um brutal coadjuvante também real: o Crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Hazanavicius também faz, traz belas homenagens, pontuando a trama. No início do filme, temos o protagonista ora homenageando o galã da época Rodolfo Valentino – na telona, com o seu filme -, para depois nos agradecimentos à plateia fazê-lo num jeito Carlitos de ser. Mesmo com uma beca impecável, é com um sorriso enorme que a memória nos traz esse grande personagem de Charles Chaplin, e do Cinema Mudo também. Até por estar sempre acompanhado pelo cachorrinho. Paulo Autran disse certa vez que trabalhar com criança ou um animal é um risco: porque eles podem roubar a cena. Em “O Artista” não deu outra: o cãozinho Uggie rouba todas as cenas. Merece aplausos pela performance! E ainda dentro das homenagens de Hazanavicius, uma outra também encantadora: ao casal Ginger Rogers e Fred Astaire.

A história é simples, mas nem por isso não é complexa. Conta a carreira de um ator que não se rendeu ao Cinema Falado: George Valentin, personagem de Jean Dujardin. Do estrelato ao ostracismo. Ficou por anos usando a expressão corporal, e que não acreditava que falas nas cenas trariam diferenças significativas. Calcando-se mesmo em “Uma Imagem vale mais que mil Palavras!“. Mas nem tanto ao mar, nem tanto ao céu. Um som faz sim um grande efeito. Tanto, que durante as próprias exibições dos filmes mudos havia uma certa trilha musical nas Salas onde eram exibidos. E ótima a atuação de Jean Dujardin!

Valentin ainda no auge da fama se esbarra a uma aspirante a atriz, Peppy Miller (Bérénice Bejo. Gostei de sua atuação!). Ela cai de amores por ele. Mas Peppy segue em frente: acompanha o novo Cinema que chega. Sua carreira sobe, enquanto que a dele termina. Anonimamente ela até que tentou ajudá-lo. Mas ele se entregou às bebidas. Até o seu fiel mordomo, Clifton (James Cromwell), cansou de motivá-lo.

Bem, além de Drama, “O Artista” também é uma Comédia Romântica. Logo com todos os itens desse Gênero. Se no início o que separa o casal – Valentin e Peppy -, é o fato dele estar casado com Doris (Penelope Ann Miller), depois foi por orgulho mesmo. E dele! Mas no final Peppy arruma um jeito dele voltar à cena, e sem ter que sentir-se que traiu seus próprios princípios. Bravo Peppy!

E a ideia de Peppy enche novamente os olhos do antigo Produtor de Valentim, Al Zimmer. Personagem de John Goodman. Que aliás também rouba todas as cenas! Seu personagem ficou incrivelmente a cara do Cinema Mudo. Perfeita atuação! Os demais coadjuvantes estão ótimos, mas para mim Goodman e Uggie estão excelentes!

O filme cai um pouco de ritmo ao se estender no drama do Valentim. Se Hazanavicius tivesse acompanhado também o tempo de duração dos filmes daquela época, enxugando um pouco, até me deixaria uma vontade de rever, mas não deixou. Agora, vale sim, e muito, ser visto! Até pelo final memorável!

Então é isso! E também pelo Figurino, Fotografia, Trilha Sonora, Cenário, inclusive pelas falas-legendas tal qual do Cinema Mudo, “O Artista” é um filme excelente! Não deixem de assistir!

Nota 9,5

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Artista (The Artist. 2011). EUA. Direção e Roteiro: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch. Gênero: Romance, Comédia, Drama. Duração: 100 minutos.

Curiosidades: Uggie, o cãozinho do filme irá se aposentar. Leiam na matéria de Priscilla Merlino: Uggie, a estrela canina do filme O Artista, vai se aposentar.

ROMÂNTICOS ANÔNIMOS (Les Emotifs Anonymes)

Românticos Anônimos tem momentos impagáveis! Com situações extremas e exageradas passa longe da caricatura permitindo que o tímido se veja ali bem representado por aqueles seres tímidos ao limite da patologia.
Ela é uma criadora de chocolates, perfeita no que faz, elabora as texturas, sabores e aromas fabricando os melhores chocolates do mundo, mas possui uma imensa timidez daquelas que não permite ser o centro de atenções. 
 Ele é dono de uma fábrica de chocolates decadente á beira da falência, tímido e incapaz de se aproximar fisicamente das pessoas, principalmente mulheres. Perde a voz, tem sudorese e ambos provocam o caos. Conscientes das suas limitações ambos se cuidam, ele com um terapeuta que lhe recomenda exercícios, ela num grupo de ajuda cujos depoimentos começam sempre com a frase “eu sou emotivo”(a).
Não há nada que façam que não termine em trapalhadas, mas tudo é tão natural! O filme é delicioso feito  comida caseira, daquelas que sem nenhum aspecto mirabolante, satisfaz e deixa feliz. Nenhum rosto famoso, nenhuma beleza extraordinária, nenhum efeito especial, apenas um filme onde os não tímidos e sem neuroses  (ou sem nenhuma extrema) devem se sentir duplamente feliz por não correrem tantos riscos na vida.
A moça vai procurar um emprego e devido a dificuldade de comunicação consegue um cargo que nada tem a ver com ela, de representante comercial de uma fábrica cujos  produtos  perderam mercado por  falta de inovação. Ela é guerreira, vai à luta e eles vão conseguindo resultados positivos nas soluções complexas de problemas simples como sair, se apaixonar, sim mesmo o que e solução torna-se um problema de soluções deliciosas encontradas pelo diretor  Jean-Pierre Améris.
Engraçado, simples, divertido, doce como um bom chocolate  Vale a pena ver!
Nota? 10
Gênero: Comédia e Romance
Duração: 80 min.
Origem: França e Bélgica
Estreia: 23 de Dezembro de 2011
Direção: Jean-Pierre Améris
Roteiro: Jean-Pierre Améris e Philippe Blasband
Distribuidora: Imovison
Censura: 10 anos
Ano: 2010

A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes. 2011)

Fui ver “A Fonte das Mulheres” embalada pela expectativa de assistir a uma comédia, no entanto,  é  um filme com momentos de humor e que bom, a abordagem no estilo de fábula agregado ao humor permite que se apreenda a história da comodidade e do machismo humano sem revolta, liberando  nossa capacidade de observação.

 SOCIEDADE                                                                                                                                             A verdade de que a injustiça só é realmente injusta quando nos atinge. O tabu da obrigatoriedade da mulher satisfazer o homem, ainda que ela não tenha orgasmo. A mudança nos papéis sociais que chegam  em caráter de emergência e tornam-se tradições com o respaldo daqueles que passam a se beneficiar. A história leva o nosso olhar para a importância da educação num contexto onde a manutenção da ignorância  de uma parte do povo passa a ser o interesse pela parte dominante, sem que necessariamente  os dominadores deixem de ser ignorantes criando um sistema de  exploração institucionalizada do ser humano, um ciclo que somente a coragem aliada ao preparo,  ao estudo é capaz de romper.

HISTÓRIA

Então os homens iam às guerras para defender suas famílias, plantações e territórios e  as mulheres assumiram as funções das suas casas e aprenderam a viver sozinhas, executando trabalhos árduos.  Chega o dia em que não há mais inimigos para se combater e os homens cuidam das suas plantações e comércio, até que chega uma seca que se estende por anos, excluindo essas atividades masculinas da suas listas de tarefas, que são substituídas pelo ócio, fofoca, preguiça corrupção e suas necessidades de satisfação sexual.
Para se ter água na aldeia as mulheres sobem a uma distante fonte no alto de uma montanha, sob um sol de mata. Mesmo as grávidas são obrigadas a esta tarefa ainda que pesada, o que causa acidentes levando a ocorrência constante de abortos e claro, às mulheres que não conseguem ter seus filhos é atribuída a fama de incompetentes.  Por tantos afazeres importantes no grupo, é vedado às mulheres o direito de aprender a ler e escrever, elas nessa vida embrutecida com rotina dura, vão por acaso ter tempo de pensar nisso?
Além das atividades de rotina ainda compete a elas divertirem com seus cantos e danças os turistas que trazem divisas para sua cidade, divisas essas consumidas pela corrupção dos governantes que não cuidam da infra-estrutura das cidades para que o progresso não chegue, num raciocínio simples é explicado que tendo luz elétrica a mulher irá querer uma máquina de lavar, o que  acarretará uma conta alta par ao marido pagar e dará a ela tempo livre. Com o tempo livre, a mulher há de querer estudar se instruir e assim não será mais dócil e obediente. Simples assim. Algo de outro mundo? Não. 
FÁBULA:
Leila é estrangeira casada por amor com um professor e tem uma sogra digna das bruxas dos contos de fadas, perde um bebê por causa de um tombo a caminho da fonte e precisa conviver com a felicidade de outra mulher que acaba de dar à luz um filho homem. Diante de tanta opressão e trabalheira, restam a essas mulheres o único poder que lhes resta, o sexo e partem para uma greve de amor. E é de amor que nos fala esse filme, o amor, único instrumento capaz de mudar tradições  impostas justamente por  falta dele. Também fala do quanto mulheres podem ser insensíveis às parceiras de infortúnio, do tabu da virgindade, dos casamentos tratados pelas famílias, das interpretações convenientes dos dogmas religiosos, da influência das autoridades religiosas nas vidas das pessoas e na administração do Estado. Da ausência do poder de decisão das mulheres nas questões intrinsicamente femininas.
O FILME Rodado no Marrocos, representando uma aldeia  num ponto remoto do  Oriente Médio, é inspirado numa história real acontecida na Turquia em 2001 e faz alusão à peça “Lisístrata”, de Aristófanes  que por sua vez inspirou Chico Buarque e Augusto Boal a compor a canção  ”Mulheres de Atenas”.
Tem um elenco que mistura rostos de atores conhecidos com atores que não conhecemos,  falado em árabe fortalece a carga de drama e empresta textura às piadas nos Sá a sensação de que tudo isso foi há muito tempo, muito tempo num lugar muito distante de nós…
A Fonte das Mulheres vendeu meio milhão de ingressos na França em apenas um mês e foi indicado à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, tudo dentro  da trajetória  de sucessos  do diretor, judeu romeno Radu Mihaileanu: “O concerto” (2009) e  ”Trem da vida” (1998). É um filme com uma fotografia linda, belezas exóticas, uma trilha sonora usada como recurso a se admirar uma cultura da qual nos mostra aspectos críticos e performances excelentes. Ficha técnica:
A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes) – 135 min
Bélgica, Itália, França – 2011
Direção: Radu Mihaileanu
Roteiro: Alain-Michel Blanc 
Elenco: Leila Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Saleh Bakri, Sabrina Ouazani, Hiam Abbass, Mohamed Majd
Estreia: 20 de janeiro 

Um Homem que Grita (Un Homme qui Crie, 2010)

Por Kauan Amora.

Uma das mais visíveis características do filme “Um homem que grita”, é um paradoxo, centrado no personagem central o filme usa ao longo da projeção o silêncio como um elemento dramático, e o personagem central ao contrário do que imaginávamos é um homem calmo, pacato, e que quase nem abre a boca para falar.

No seu desenvolvimento, percebemos a triste transformação da sua vida, de salva-vidas chefe passar a ser um simples porteiro, e é aí que se encontra o maior triunfo de seu roteiro, na exposição da dualidade de seu personagem. Sempre centrado no desenvolvimento da boa relação pai e filho, o roteiro nunca deixa esse questionamento claro e explícito, ele fica apenas subentendido, guardado, como na triste cena em que o pai assiste o filho sendo capturado pelo exército e este gritando por ajuda e ele não faz nada, permanece dentro do quarto calado, paralisado. O roteiro primeiro desenvolve com habilidade a boa relação de pai e filho entre os personagens centrais, e como essa relação é afetada depois que o pai tem de decidir se o filho vai para guerra ou não, e consequentemente, se vai conseguir seu emprego de volta ou não. Sempre dividido entre ser um pai dedicado e um homem com orgulho, nunca conseguimos ver o personagem central como alguém ruim pelas suas atitudes.

O filme possui cenas de forte impacto, como no momento em que ele está sentado em um banco que costumava sentar com seu filho, e a câmera vai se aproximando lentamente para seu rosto, enquadrando aquele homem desiludido, ou na cena em que sequer tenta ajudar o cachorro vira lata que sempre alimentava quando este é chutado pelo novo cozinheiro.

Um homem que grita é um filme tocante sobre a covardia que mora dentro de nós e sobre o poder devastador que ela tem sobre a nossa vida.

Por Kauan Amora.

Copacabana (2010). Uma “A Cigarra e a Formiga” atual.

O filme só pela Trilha Sonora já merece ser visto. MPB e Bossa Nova nos embalando nessa Fábula moderna. Bom demais ouvir Marcos Valle como fundo musical, por exemplo. Mas o filme tem muito mais! Ele nos mostra um período na vida de uma mãe e sua filha às vésperas de seu casamento. Já adianto que “Copacabana“, de Marc Fitoussi é muito bom! Ele até fez com que eu passe a acompanhar seu trabalho. Até pelo tributo que fez a todos nós, brasileiros. Conto como no decorrer do texto.

Há uma máxima que diz que uma geração aprende o que precisa saber, mas que a seguinte esquece. Deveria ao menos é aproveitar que a anterior tirou as pedras do caminho. Que jogou as cargas inúteis fora. Em “Copacabana” temos a filha como uma pessoa centrada, preocupada demais com o seu futuro. Trabalha num Bistrô. E não está mais achando graça no modo de vida da mãe. Ela seria a “Formiga” dessa Fábula. Seu nome: Esmeralda. Personagem de Lolita Chammah, que embora interprete muito bem, foi eclipsada por quem faz a sua mãe.

A “Cigarra” dessa estória é Babou, a mãe de Esmeralda. Personagem de Isabelle Huppert, dona de um carisma que nos leva a acompanhar essa estória ora sorrindo, ora emocionados, mas sempre com brilho nos olhos. Babou leva a vida a bailar, quase que literalmente. Não está nem ai para as convenções. Se veste e se maqueia de um modo que choca a filha. Além disso, seu comportamento leva a filha a sentir vergonha a ponto de não querer a mãe no seu casamento.

 Mesmo que fosse uma inconsequente, Babou tinha um bom coração. Como também tinha sentimentos, do seu modo, mas tinha. Assim, se o que a prendia ali, era o estar junto à filha, com essa decepção Babou aceita um emprego numa cidade litorânea na Bélgica. Mesmo para um lugar com apenas dois meses de Sol, ela faria dali a sua Copacabana. Seu intuito seria juntar dinheiro para um dia conhecer o Brasil. Que na visão dela era uma terra com um povo amistoso, que recebia a todos sem preconceito. Tal como ela: sem medo de ser feliz! Um lugar multicolorido por natureza. Eu até prefiro que isso que fique na cabeça de quem não conheça de fato o Brasil. Numa comparação mais simples, e sem preconceito, seria a visão do paulista em relação ao carioca. É bem melhor do que ver sendo difundido o país como paraíso dos fora-da-lei, por exemplo. Dai, vi como carinhoso toda a referência do Brasil no contexto da estória. Na visão de Babou.

Em Oostende, tenta fazer amizade com os novos colegas, mas a eles, ela também os assusta. O que até fez bem a ela, pois assim conheceu e fez amizades com alguns moradores. Por uma, ganhou a dica de onde conseguiria possíveis compradores para os apartamentos a serem vendidos. Um jeito novo de ter um imóvel extra, para períodos de férias em outros países, por exemplo. São os Timeshares. Cada proprietário teria o imóvel num terminado período do ano. Num prédio imenso, com algumas unidades já quase prontas, tinham pressa nas vendas para terminarem as demais. Babou até consegue se dar bem sendo a sua vez de ser uma formiguinha-trabalhadeira, mas…

Para quem gosta de conhecer de perto uma relação entre mãe e filha, vai se encantar com esse filme. Além de que, temos em “Copacabana” a ora e a vez da Cigarra mostrar a Formiga que o que se leva dessa vida, é a vida que se leva! Que a verdadeira mudança está em si mesmo, e não contar que o outro é que deva mudar. Aceitar as diferenças. Bravo Babou!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Copacabana (Copacabana. 2010). França / Bélgica. Direção e Roteiro: Marc Fitoussi. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 107 minutos. Classificação etária: 14 anos.

O Sequestro de um Herói (The Rapt / Lucas Belvaux / 2009)

Por Celo Silva.

O sugestivo titulo nacional O Seqüestro de um Herói, com certeza, faz alusão a determinado momento da trajetória de Stanilas Graff (Yvan Attal), presidente de uma influente indústria francesa, que almoça com o presidente da nação, negocia com lideres mundiais, joga pôquer com artistas famosos, é casado e tem duas filhas, mas antes de ir para casa sempre visita a amante. Um dia, antes de ir para o trabalho, Stanilas é seqüestrado por uma quadrilha que exige que seja pago 50 milhões de Euros de resgate. O seqüestro desencadeia uma investigação jornalística que joga todo o mau comportamento de Stanilas no ventilador, desde incontáveis dividas no jogo, até as inúmeras amantes que o empresário possui. Aparentemente falido, Stanilas se vê na mão dos impiedosos e profissionais seqüestradores, que não acreditam que ele não detenha a quantia e estão dispostos a tudo para receber o pagamento, até mesmo cortar partes do corpo do industrial. Enquanto isso, André Peyrac (André Marcon), líder do conselho fiscal, parece manipular a família e o conselho para que Stanilas seja destituído do poder.

Inegavelmente, O Seqüestro de um Herói, dirigido e roteirizado pelo também ator Lucas Belvaux, tem toda pinta de trilher no seu prólogo, até pela enervante seqüência em que os seqüestradores cortam um dos dedos de Stanilas, mas o filme vai perdendo o seu ritmo de suspense durante a exibição, tornando – se um drama que trata do impacto que o seqüestro tem na vida do industrial e dos que o rodeiam. Na verdade, a obra de Belvaux se divide em dois atos, o primeiro bem suspense, marcado por uma excelente trilha sonora, com cenas escuras e de tom violento; no segundo ato, a trama trata mais do desenrolar dos fatos relativos ao seqüestro, em um bem desenvolvido drama familiar, com certas nuances politicas que não vou citar para não estragar o prazer de quem se predispor a assistir. O ator Yvan Attalentrega uma boa atuação, marcada pelo sofrimento que seu personagem sofre no cárcere.

O Seqüestro de um Herói está mais para cinema comercial do que para cinema artístico, que tanto caracterizou as produções francesas; não que seja ruim, até porque o filme apresenta com certa qualidade ao que se propõe e tem um epílogo bem interessante. O estranho foi essa produção de 2009 pintar em uma sessão cult no Cinemark, e o mais estranho ainda, a sessão estar relativamente cheia e com vários adolescentes perturbando a paz. Prova de que ingressos mais baratos, como os que são utilizados nessa “sessão cult”, podem ser catalisadores de publico para obras menos prestigiadas.

Postado por Celo Silva, do Blog: Um Ano em 365 Filmes.

Kirikú e a Feiticeira (Kirikou et la Sorcière. 1998)

Kirikú e a Feiticeira é um filme baseado nas lendas da África Ocidental que conta a história de uma comunidade que vivia subjugada pelo poder de uma feiticeira. A produção visa destacar o desenho animado de forma simples, buscando agradar aos pequenos, jovens e os adultos; os quais encontram muitos ensinamentos nesta lenda. Um desenho moderno com linguagem capaz de falar com as crianças, sem contudo subestimar os adultos.

É uma história que celebra a coragem de um garoto que era diferente dos outros companheiros de sua aldeia. Um menino bem precoce, perspicaz, astucioso, e muito amigo de sua mãe, que nasce falando, ou melhor, já fala dentro da barriga da mãe! Muito esperto e ativo, logo que vem ao mundo já entende que precisa fazer algo para salvar as pessoas da vila em que vive.

O diálogo cultural africano, travado na obra Kirikú e a Feiticeira, de Michel Ocelot, pode ser interpretado numa dimensão mais ampla, no tempo e no espaço, estendendo-se até nossos dias e a todos os continentes. Nas personagens principais, podemos observar as conseqüências dos atos masculinos incutidos nas mulheres. Temos duas visões divergentes (da mãe de Kiriku e da feiticeira Karabá) que, porém, apontam para o mesmo objetivo: a afirmação feminina enquanto indivíduo livre e independente.

O filme visa descrever o papel da mulher na sociedade africana; podemos ver claramente tal ideia no momento em que a criança nasce e a mãe ordena que ele se lave sozinho, mostrando que o “Herói”, para sê-lo, precisa ser independente. A própria independência que ela adquirira, mesmo fazendo parte de uma sociedade com papéis estritamente bem definidos entre o homem e a mulher.

Considerando a visão de Michelle Perrot, em sua obra “Les femmes et les silences de l’Histoire”, observamos que a História das mulheres foi sempre contada sob o ponto de vista do homem. O que se tem de menos influenciada é a oralidade privada, domínio em que as mulheres sempre puderam interferir e o fizeram de maneira marcante junto aos filhos e às crianças em geral. “A memória das mulheres é verbo. Ela está ligada à oralidade das sociedades tradicionais que lhes confiavam à missão de narradoras da comunidade do vilarejo.” (PERROT, 1998, p. 17).

No contexto do filme podemos observar que o autor da vida e grande importância no papel da mulher em meio não só a sociedade africana, mas todas as sociedades existentes.

A cultura local é retratada sem retoques, deixando de lado o etnocentrismo, os preconceitos e as culturas ocidentais, é bom, porque traz realismo à história e veracidade aos fatos. Ao estudar tal conceito podemos compreender que é uma característica de quem só reconhece a legitimidade e validade das normas e valores vigentes na sua própria cultura ou sociedade. Tem sua origem na tendência de julgarmos as realidades culturais de outros povos a partir dos nossos padrões culturais. Pelo que não é de admirar que consideremos o nosso modo de vida como preferível e superior a todos os outros.

Os valores da sociedade a que pertencemos em muitos momentos são declarados como valores universalizáveis aplicados a todos os homens, ou seja, dada a sua “superioridade” tal modelo deve ser seguido por todas as outras sociedades. Adaptando está perspectiva não é de estranhar que alguns povos tendem a intitularem-se os únicos com legítimos e verdadeiros representantes da espécie humana.

O conceito etnocêntrico está envolvido com a grande estranheza que se dá no encontro do grupo “eu” e o grupo do “outro” que utilizam como referências e características algo como exótico, excêntrico, anormal, exuberante e primitivo. Iniciando a formação de preconceitos, manipulações ideológicas, julgamentos precipitados e sérias distorções culturais, comportamentais e educacionais.

Mas a defesa legítima da diversidade cultura conduziu, contudo muitos antropólogos atuais a enxergarem a diversidade das culturas e das sociedades. Kirikú e a Feiticeira é um grande exemplo na nossa contemporaneidade, pois visa quebra de forma simples, mas muito bem feito, e bastante divertido os preconceitos, ou seja, o etnocentrismo e o machismo embatido nas diversas sociedades. Para quem está acostumado com nossos desenhos infantis ocidentais, pode parecer até um pouquinho estranho.

Ao trabalhar tal perspectiva devemos nos remeter á questão do misticismo, algo complexo em meio à construção da mentalidade africana. Amadou em sua obra “Amkoullel, o menino fula de Amadou Hampâté-Bâ”, trabalha com clarividência, á questão mística e religiosa, enfrentando dualidades constantes, pois recebeu como herança a religião africana da mãe e mulçumana do pai.

No filme percebemos de forma precisa o poder matriarcal, pois a mãe em meio à construção dos processos sócios culturais é considerada de extrema importância nas decisões tomadas pelos homens.

Porém para tornar possível a permanência da cultura e da memória africana, os griots contavam a história e os anciãos eram fundamentais na transferência do conhecimento, da sabedoria e dos ritos de seus ancestrais.

Amadou nos deixa claro em sua narrativa que os griots deveriam trabalhar com a verdade “absoluta”, pois eles tinham como missão transferir esse saber para a juventude africana, como objetivo de não perder a história. Trabalho que traz à tona a fusão entre memória e oralidade com relação ao poder da palavra na África. A palavra tinha o poder de levar o conhecimento e ao mesmo tempo acarretava ali o poder de amaldiçoar toda uma geração. Portanto, notamos em meio à análise que a oralidade é de extrema importância para concretização dos saberes de um povo anterior que antecederia a gerações futuras.

Assim fica claro que o trabalho da memória e da oralidade se funde como algo primordial na cultura do povo africano. Tornando vivo as representações do imaginário que envolve todo um proceder sócio cultural em relação há um procedimento historiográfico amplo, diversificado e complexo com relação à linguagem, os dialetos, os ritos, a cultura e a religiosidade que se mistura em meio há uma dialética que permanece viva na memória dos anciãos e na oralidade dos griots.

Em suma, podemos concluir que as mulheres tiveram um papel fundamental durante todo o filme e, sobretudo, no início e no final da narração, fazendo com que as ações fossem, sutilmente, propiciadas por elas. Mãe e feiticeira corroboraram para o segmento de uma e da outra, dando sentido para a trama cinematográfico. Kiriku foi um apêndice, ou seja, o laço entre as duas e foi isso que o transformou Kiriku em “Herói”. Ele sabiamente ouviu os conselhos da matriarca, absorveu as histórias contas pelos anciões e com sua astúcia “conquistou” Karabá, libertando todos os homens das garras da feiticeira.

Kirikú e a Feiticeira (Kirikou et la Sorcière. 1998). França / Bélgica / Luxemburgo. Direção e Roteiro: Michel Ocelot. Vozes/Cast. Gênero: Animação, Aventura, Família. Duração: 74 minutos.

Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010)

“Nada se cria, tudo se copia.” Chacrinha

“Cópia Fiel” é um filme com roteiro instigante, do iraniano Abbas Kiarostami, diretor do ótimo e premiadíssimo Gosto de Cereja e de  “Dez”. Cópia Fiel é o seu primeiro longa rodado fora de seu país, sendo atores e ambientes de múltiplas nacionalidades, inclusive o tema abordado no qual não há fronteiras entre origens e línguas, sem dúvida, todos os povos se reconhecerão.

É a história do escritor inglês James Miller (William Shimell) que vai para uma cidade italiana lançar o seu livro sob o título de Cópia Fiel. Entre os convidados no momento do lançamento está Elle (Juliette Binoche) dona de uma galeria de arte que se senta na primeira fila ao lado do tradutor do livro e ambos mantêm um diálogo íntimo, ao pé do ouvido, transformando o célebre momento em conversas paralelas, ora mostrando o casal, ora o escritor em sua explanação e logo a seguir a entrada de um garoto (Adrian Moore) que a cumprimenta e depois vai se encostar em um dos cantos do salão e de lá começa um diálogo não-verbal com a sua mãe.

Elle deixa um cartão com o tradutor para que ele entregue ao escritor e se retira com seu filho bem antes do término desse evento.

Na verdade, o assunto instigante do filme é a própria idéia contida no livro recém-lançado, que vai tratar do valor da cópia em relação a um original. A partir daí tudo é uma viagem entre a obra cinematográfica e o expectador. O próprio Kiarostami deixa isso claro, justificando que a interpretação é livre. E o filme  transforma-se em um passeio entre o casal que na realidade parece se tratar de dois estranhos, e que podem ou não querer se conhecer.

Esse filme me conduziu a algumas viagens: lembrei-me do filme de Eduardo Coutinho o “Jogo de Cena” que já falei aqui em outra ocasião, quando o momento é mera encenação ou é fato, atores e anônimos transitando neste filme brasileiro declamando o mesmo texto, e ficamos sem saber quando é real e quando é apenas interpretação, como diz o próprio título ‘jogo de cena’. Lembrei-me também do polêmico diretor Orson Welles no maravilhoso filme “F for Fake” (aqui traduzido por Verdades e Mentiras). Cópia Fiel de Kiarostami e Verdades e Mentiras de Welles, são cópias fieis da ilusão, e ótima invenção. Na verdade o próprio cinema é pura invenção, o filme é imaginação onde nosso cérebro faz com que imagens paradas aparentem estar em movimento. O expectador faz parte desse jogo de cena que dura menos de duas horas.

O escritor diz que tudo é cópia da cópia e mesmo assim tem seu valor como o original. O homem é cópia da cópia do DNA dos pais dos pais de alguém. Andy Warhol deu nova roupagem ao produto Coca-Cola; repetimos frases e discursos que acreditamos ser nossos originais e que alguém já deve ter dito há milhares de anos antes.

O próprio filme que assistimos ou no cinema ou em casa é cópia fiel de um original. Orson Weles ficou famoso aos 23 anos de idade quando em 1938, transmitiu em cadeia de rádio nos EUA sua versão de Guerra dos Mundos e provocou pânico na população que achava se tratar de invasão alienígenas. Muitas obras de arte nos museus são cópias bem feitas de seus respectivos originais; muitos textos literários de autores anônimos passam tranquilamente dados como de grandes autores, Luiz Fernando Veríssimo que o diga; Elmir de Hory, famoso falsificador de quadros pintou telas que juramos ser da autoria de Van Gogh, Picasso, Matisse e muitos outros.

Já no desfecho deste filme Cópia Fiel, o escritor e Elle, passam tranquilamente a idéia de um casal que após 15 anos de casamento resolvem fazer uma segunda lua de mel. Quem não acreditaria nisso? Eu fiquei na dúvida. A obra de arte da sua essência à criação sempre foi reproduzível. Tudo o que fazemos pode ser imitado e copiado.

Mas de fato, existe Cópia Fiel? Uma foto é reprodução de outra foto, assim como irmãos gêmeos: olhe atentamente e diga se essas meras reproduções são cópias autênticas. Na segunda metade do filme o casal que parecia ser dois estranhos ganha intimidade, assumindo papel de marido e mulher, trazendo à tona muitas lembranças mútuas de sentimentos e emoções desgastados pelo tempo, por anos de matrimônio e vida em comum. Verdadeiro ou falso? Cópia ou original?

O essencial na arte e na vida é como fazer para incorporar aos anseios aquilo que será fiel ao nosso modo de sentir pensar e gostar, ao nosso relacionamento amoroso, a fidelidade no amor. Cópia Fiel toca em vários temas relevantes, principalmente sobre o que realmente é autêntico, relativo ou absoluto; real ou cópia.

E sempre o que se quer e se procura é ser fiel no amor, na vida, no sonho, no jeito de ser. Uma obra de arte única, original e exclusiva.

Vale a pena conferir este novo original de Kiarostami. Esse meu texto nada tem de original; é cópia da minha interpretação desse delicioso filme.

Recomendo. Veja cópia deste original de preferência num telão.
Karenina Rostov

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Copie Conforme

França / Itália , 2010 – 106 minutos

Drama

Direção: Abbas Kiarostami

Roteiro: Abbas Kiarostami

Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Adrian Moore