Curta: Ilha Das Flores (1989)

Por Sara Lasi.

O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser Livre. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”

Podem me chamar de idealista, romântica, sentimentalóide, tola, sonhadora, mas eu creio numa coisa: o Capitalismo rouba a Liberdade das pessoas. Liberdade no seu conceito mais puro e desejado, que traz intrínseco todas as causas e consequências que o estado nos expõe.

Então, aqui e agora, você terá a ‘liberdade’ de achar que estou falando besteira, mas mesmo que discorde de mim, ou até concorde (é mesmo?!), assista este curta e deixe-se conduzir pela lógica simples, que tão inteligente e ironicamente ele expõe, sobre o funcionamento da sociedade de consumo, que em muitos momentos chega a ser tão podre quanto o lixo que produz.

Ainda dentro do tema trouxe algo sobre a teoria da indústria cultural, para reflexão e apreciação de quem gostou desse Curta:

Os meios de comunicação de massa (veículos da indústria cultural) nos prometem, através da publicidade e da propaganda, colocar a felicidade imediatamente em nossas mãos, por meio da compra de alguma mercadoria: seja ela um CD, um calçado, uma roupa, um comportamento, um carro, uma bebida, um estilo etc. A mídia nos promete e nos oferece essa felicidade em instantes. O público, infantilizado, procura avidamente satisfazer seus desejos. Uma vez que nos tornamos passivos, acríticos, deixamos de distinguir a ficção da realidade, nos infantilizamos e, por isso, nos julgamos incapazes, incompetentes para decidirmos sobre nossas próprias vidas etc. Uma vez que não nos julgamos preparados para pensar, e desejamos ouvir dos especialistas da mídia o que devemos fazer, sentimo-nos intimidados e aceitamos todos os produtos (em formas de publicidade e propaganda) que a mídia nos impõe.” (http://www.urutagua.uem.br//005/14soc_barbosa.htm)

Ilha das Flores“, criado há mais de 20 anos, mas extremamente atual. Não deixem de assistir, é muito, muito bom!!

ILHA DAS FLORES – curta metragem
Brasil – 1989 – Direção: Jorge Furtado – Elenco: Paulo José (narração) e Ciça Reckziegel (D. Anete).

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011)

O filme Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios é uma produção cinematográfica brasileira baseada no livro homônimo de Marçal Aquino, a obra conta a história de Lavínia (Camila Pitanga): uma mulher que vive em uma cidade do interior do Pará, a mesma se vê dividida entre a paixão pelo fotógrafo Cauby (Gustavo Machado) e pelo marido, o pastor Ernani (ZéCarlos Machado).

A trama é marcada com o clima úmido da Amazônia, o suor dos personagens, a música local e os rostos gastos da população da região servem de combustão para esse triângulo amoroso que tem como pano de fundo a devastação da floresta e os conflitos da comunidade local com as madeireiras.

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios é o sétimo trabalho da parceria profissional de Beto Brant e Renato Ciasca e o segundo em que dividem a direção. O primeiro foi Cão sem Dono, de 2007.

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios narra a história de três adultos deslocados no meio da floresta, envolvidos em um triângulo amoroso que vai ganhando toques de suspense e surrealismo, enquanto conflitos sociais e uma extrema pobreza dominam o ambiente.

Através de uma trama que vai e volta no tempo, o telespectador vai descobrindo quem é Lavínia, uma mulher que embora jovem, já havia passado por uma grande mudança em sua vida. Ex-prostituta foi resgatada das ruas por Ernani e claramente tem com ele um casamento que sobrevive não apenas de amor, mas também de gratidão. Com Cauby, vive uma relação que começa de forma carnal e se transforma em cumplicidade e dependência.

O filme me remete ao um poema de minha autoria: Diabólica sedução:

Sigo os teus passos, chegando ao inferno, nos deitamos nas pedras…
Fortemente desejo o teu corpo sob o meu, sublimemente, fazemos amor.
O prazer que sentíamos é extraído do nosso corpo, da carne, do íntimo da nossa alma.
Se puder ser assim meu amor?
Num afago, me prendo.
O tempo passa em ventos mornos, tépidos que engendra os nossos sussurros de prazer.
Ah, eu adoro essa sua tara.
Os nossos lençóis ficam em desalinho…
Morro de tesão por ela.
E juntos fazemos muitas loucuras, libertando as emoções.
Lambemos um ao outro de forma selvagem.
Provocando um vulcão humano de muito prazer e sedução.
Os nossos corpos fervem em contrações de tesão até o ápice do clímax.
Num vai e vem delirante, gozamos.
O vapor da felicidade molha tudo e os nossos corpos exaustos perdem as forças.
E sob o desalinho dos nossos lençóis, intimamente no acariciamos, nos tocamos, nos desejamos mais e mais.
Iniciando uma nova fogueira de paixão e tesão.

Os diretores nos apresentação uma história mirabolante que envolve, declara, explicita e se cala dentro de um contexto de perdição, contradição e surrealismo.

Ao longo do filme percebemos uma narrativa onde a voz é impregnada da experiência de quem aprendeu todas as regras de sobrevivência no submundo, mas não é do ambiente hostil que circunda a trama amorosa que estamos falando; o motivo da descida de Cauby ao inferno é Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de Ernani, um “pastor evangélico”.

Em suma, podemos declarar que com toda a sua beleza, erotismo, sensualidade e talento, “não poderia haver outra Lavínia.”.

Paraísos Artificiais (2012)

O filme Paraísos Artificiais é uma produção cinematográfica brasileira que conta a história de amor de Nando e Érika, dois jovens que se encontram e desencontram ao longo do tempo. O contexto da trama se passa nas megas raves e nas festas de música eletrônica, o longa-metragem retrata o amadurecimento de seus protagonistas a partir de suas experiências com família e amigos.

Marcos Prado, depois de produzir Ônibus 174 (2002), Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2 (2010), e ter dirigido o Documentário Estamira (2004), tem com “Paraísos Artificiais” (2012) a sua estréia como diretor de ficção, livre do peso que as obras anteriores pudessem jogar em suas costas. Afinal, a cobrança por algo de calibre semelhante, é algo natural. Ao analisar o filme posso dizer que Paraísos Artificiais mesmo não sendo tão forte como os outros, possui um trama que provoca efeito em seus telespectadores.

Ambientado nos anos 2000, o filme é narrado em três atos: o primeiro se passa em Amsterdã, para onde Nando viaja com seu amigo Patrick, e onde conhece Érika, DJ internacional; o segundo alguns anos antes, em uma rave na beira do mar, no Recife, para onde Érika segue viagem com sua amiga Lara, e onde Nando também está com Patrick; o terceiro se passa no Rio de Janeiro, cidade natal de Nando, onde ele enfrenta problemas familiares, principalmente com seu irmão mais novo Lipe, e onde por fim reencontra Érika.

Como ser humano que vive os conflitos do mundo contemporâneo, afirmo que no filme Paraísos Artificiais encontramos com propriedade as descrições dos comportamentos humanos com: os devaneios da juventude, os desequilíbrios emocionais desta fase, a sexualidade, o sexo propriamente dito, os vícios, as raves, as drogas licitas e ilícitas e os inúmeros comportamentos que compõe a sociedade humana do novo milênio. O filme nos leva a entender que vivemos a plenitude do nada, de uma existência complexa e dolorosa; onde acreditamos ou desacreditando em uma esperança para reviver o possível amanhã.

Em suma, podemos concluir que o filme descrever as mazelas de um mundo escrito pelos jovens que amanhã serão os líderes políticos, sociais, econômicos e intelectuais de uma nação. Mesmo com uma língua simples a produção transmite uma vasta mensagem.

Paraísos Artificiais. 2012. Brasil. Diretor: Marcos Prado. Elenco: Nathalia Dill (Érika), Luca Bianchi (Nando), Lívia de Bueno (Lara), Bernardo Melo Barreto (Patrick), César Cardadeiro (Lipe), Divana Brandao (Márcia), Emílio Orciollo Neto (Mouse), Roney Villela (Mark), Cadu Fávero (Anderson), Erom Cordeiro (Carlão). Gênero: Drama, Romance. Duração: 96 minutos. Classificação etária: 16 anos.

Raul Seixas: O início, o fim e o meio (Raul Seixas, 2012)

É o melhor documentário já feito sobre a vida de uma pessoa pública. Saí do cinema sabendo sobre a vida do artista, entendendo o que eu pensava que já sabia antes e, azar o meu, se o filme não me fez compreender o que antes já era incompreendido: O que afinal caracteriza os geniais? A loucura? O inusitado? O Brasil abriga um incontável amontoado de talentos, alguns geniais, no entanto inverter a trajetória do nosso cometa, não depende de nós… Como brinde, o filme oferece muitas imagens bacanas, personagens e personalidades que fizeram parte da vida do compositor. O documentário passeia pela ditadura, tropicalismo, festivais. Raul Seixas não viveu, aconteceu! Colocou imagens e coração numa trilha sonora que já veio com ele, uma cena rock’n rol de 44 anos de duração. Raul em essência era sua própria sua música concreta nas melodias que embalam nossa realidade.
Era uma vez um homem, suas muitas mulheres e muitos vícios que se lhe deram prazer, afastaram-no da felicidade, essa felicidade careta que muitas vezes fazem nossos sonhos existirem por mais tempo. O vício em “todo tipo de droga, menos maconha  -  que de maconha ele não gostava” – com ênfase no álcool era a trilha para o final da linha para os romances de Raul, menos um: o seu  primeiro casamento com Edith, a namorada de adolescência . Esta, ao ser “abandonada” enquanto Raul ia ali até Brasília ficar com Glória, a irmã do seu guitarrista, foi embora, voltou para o seu país, levando a filha do casal e nunca mais esta família voltaria a se reunir. Raul passou a vida remoendo tristeza e arrependimento por este ato, por esta perda.

Ninguém conseguia acompanhá-lo nas suas intensidades ‘tóxicossociais’, nem mesmo o guru satânico que depois viraria mago, não sem antes lhe apresentar às maldições nas suas mais variadas formas. Fiquei a pensar na generosidade desse baiano magrelo que ensinou “o mago” a fazer letras de música e em troca, com ele aprendeu a se decompor biodegradavelmente em frascos e ácidos.

Raul era doce, duas de suas antigas esposas afirmam que ele tinha um cheiro doce. Uma fala de forma romântica a outra, objetivamente atribui o cheiro e o sabor à diabetes do músico. É fato que aquele homem nem tão belo assim, muito magro, cabeludo e bastante doido era tão verdadeiro no seu sentimento, que conseguia manter consensualmente romances simultâneos com suas “atuais” e “ex”. Nesses depoimentos  a platéia se acabava de rir… da situação dos triângulos amorosos consentidos pelas partes envolvidas. Como a caretice é prejudicial à felicidade que aparentemente preserva…

O documentário é muito comovente, rodado entre Bahia, Rio, São Paulo, Estados Unidos, Genebra. A equipe fez o trajeto da diáspora  Raulseixista. Mostra o fã dono do mítico baú e suas preciosas relíquias, que  se tornou amigo do astro, carregando-o embriagado quando era preciso sem perder a admiração. Descobrimos que o “Trem das Sete” teve uma dona e  hoje  é de todo aquele que acredita que amor, atestado de garantia e certificado de posse são as mesmas coisas…

Raul tem um neto que é sua xerox, mas o moleque mora no exterior e não falou sobre o avô, que pena. A filha mais velha tem mágoa do pai, não gravou depoimento, mas escreveu uma carta; a segunda filha é uma gracinha, mas é a filha “brasileira do Brasil” – as outras moram na América do Norte – que dá show de orgulho de ser filha do maluco beleza. Viu como o documentário é bom? É como uma reunião de amigos, parentes e agregados em torno da figura do mito tão trágico quanto divertido.

Saí do cinema aliviada com as palavras do Marcelo Nova: “Ele fez 50 shows! Morreu fazendo o que gostava, cantando! Não morreu esquecido, nem anônimo num quarto escuro”. Marcelo Nova: Parabéns! Obrigada! Mas e agora o que eu faço com a sensação de que não devo ser tão genial quanto pareço, porque não sei ir tão fundo naquilo que dá celebridade aos imortais? Ser careta é meu atestado de mediocridade? Fiquei me sentindo uma roqueira de subúrbio. Daquelas que assistem ao show pela TV da barraquinha de hot dog atrás do Madureira Shopping, que antes de sair de casa lava e passa a camiseta preta com frases em inglês… Se você entendeu que a celebridade dos imortais está nas drogas, esclareço:  O que dá celebridade aos geniais, é a coragem. Coragem de se arriscar e até de perder. Perder afeto, mulheres, a convivência com os filhos, ver os amigos virarem-lhe a cara e negar-lhe oportunidades. Por mais que digam que a vida é escolha, acredito que para escolher há que se ter opções e, onde estão elas quando não vemos o que escolhemos? O esforço pra ser “um sujeito normal e fazer tudo igual“ não é escolha. Aprender a ser louco é dom! Somos apenas criaturas seguindo o caminho que os olhos enxergam. Cumprimos nosso destino.

Com Claudio Roberto – Paulo Coelho – Marcelo Nova

Era destino de Raul seguir sua carência, se entristecer a vida inteira por um ato que não resultou no que ele possa ter imaginado. Sua incapacidade de viver só, sua pancreatite regada pelo álcool que ele nunca conseguiu deixar, ainda que tivesse conseguido parar com as drogas ilícitas. Sua falta de vontade de viver e a falta de crédito para que voltasse a gravar definharam sua saúde, mas nada disso se compara ao vigor da sua obra eternizada, passando de geração em geração ainda que muitas das suas mensagens não sejam imediatamente captadas, são seladas, carimbadas, se pra gente voar. O destino de Raul foi ganhar essa legião de tipos, diferentes dele e entre si. Em comum os olhos úmidos na saída do cinema, porque a gente viveu ao menos pelo tempo de uma música,  Raulzitamente.
Ah, a mim pareceu que e o Paulo Coelho matou a única mosca de Genebra…

Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011)

Gostei do filme em preto e branco do diretor José Henrique Fonseca que trata de ressaltar o caráter perfeccionista de uma pessoa controvertida, da linda e muto linda fotografia de Walter Carvalho que traz todo o glamour de uma época em que todos eram tão superficiais quanto a base da importância de se pertencer ao Hgh society.

O suspense do longa ignora as prováveis curiosidades do espectador em conhecer detalhes da história dessa figura de final já conhecido, nos trai nas imagens das idas e vindas, flash back que percorrem o presente, o delírio, o passado. A narrativa não é confusa, mas não esclarece substancialmente pequenas curiosidades. Há a mensagem subliminar para aqueles que desejem saber mais: “leiam o livro”. O compromisso da telona é com o mito - O que fez muito bem a direção de Fonseca que passa com sutileza a imagem do bom humor do craque, e até permite que os mais atentos percebam sua arrogância na obra cinematográfica como uma arma defesa de alguém que consciente da sua genialidade no gramado, ciente da admiração das mulheres pelo seu rosto bonito, porte imponente, educação e refinamento imaginava conviver com a inveja do restante do mundo, perpetuando aquela arrogância característica da juventude. Em certos momentos me pareceu que Heleno não passou dos 17 anos.

O filme colore a característica de um homem apaixonado por sua  atividade esportiva num tempo de transição entre o amadorismo e o profissionalismo ainda praticamente inexistente.

Um homem advogado, filho da riqueza do café que só queria jogar bola e, como sabia que jogava bem queria ser aplaudido, ovacionado. Sua paixão pelo ato de jogar bola e pelo time que defendia, sua ânsia passional de ver expresso por todos a sua capacidade muito acima da média.

Retratando Heleno, o homem, num contexto de uma sociedade  que ainda tateava no aprendizado de como tratar as  figuras públicas de um setor esportivo que não tinha ainda delineadas suas regras e estatutos.

Ao nos poupar dos detalhes mais dramáticos que a doença impingiu ao craque, a obra preserva a imagem de alguém que tendo o necessário para fazer tudo, fez muito, mas não realizou suas ambições, vítima da sua própria escolha, mesmo aquela que não se sabe exatamente o momento em que é feita.

A demência total talvez lhe tenha protegido das muitas frustrações. Não participou de nenhuma copa mundial, não deu título ao seu time do coração, não viu seu filho crescer e não viveu tanto tempo com a mulher que escolheu para casar. Mas no auge dos efeitos característicos da insanidade mental povocada pela sífilis, esquecido do que era, batia no peito orgulhoso de dizer quem era: “Eu sou Heleno”!

Sim, era e como era!

Também fora boleiro genial, impaciente e até agressivo com os “cabeça-de-bagre”. Corajoso de dizer sobre como se entra em campo defendendo o time e honrando a camisa. Não fosse tão “louco” seu modo de encarar o maneira de exercer a profissão seria argumento de palestras motivacionais.

Ele era Heleno e hoje seria dito “mascarado”, mas ainda na atualidade seria muito mais incompreendida a sua postura de recusar “bicho” pago pelo clube num jogo onde não houve vitória, recebido por colegas que ao seu ver não jogavam pela camisa. Arrepia essa cena que Rodrigo Santoro, incorporado pela entidade Heleno de Freitas bate no peito  e declara sua ética de amor ao clube, comprometimento com resultado e orgulho por seus passes. (ok, que ele era rico e os amigos jogavam para ganhar dinheiro, mas isso não diminui a emoção, por mais que a distribuição da sua parte no “bicho” e queima do dinheiro restante possam parecer arrogância).

Adentra no vício pela inocente porta das drogas permitidas, socialmente aceitas e naquele tempo até  com uso admirado por expressar o glamour da riqueza – o lança-perfume, cigarros e as bebidas alcoólicas. Perde a saúde pela falta de orientação e ignorância vigente numa época em que preservativos praticamente não existiam como prevenção de DSTs; segue orgulhoso, negando-se ao tratamento que acreditava lhe causaria impotência; ruma impávido colosso pelo caminho que lhe foi permitido como celebridade optar  pelo não tratamento de uma doença ainda, quem pode saber, em estado inicial.

O que eu não gostei no filme é que tudo é tão sutil, apenas o destino implacável e soberano, como aquelas antigas  fábulas de moral e bons costumes que os avós  contavam na  esperança que com elas os netinhos se tornassem bons meninos.

Não aparece no filme, a derrocada do atleta devido o erro do diagnóstico que apontava esquizofrenia, em vez da sífilis cerebral que lhe corroeu os nervos e destruindo os seus neurônios, mostra com clareza a isenção dos médicos do clube em não obrigá-lo a tratar-se. A trama nos conduz ao pensamento que ele foi apenas alguém que perdeu para si mesmo e a derrota assumiu forma retumbante porque ele não sabia perder. A tranquilidade da normalidade com que o seu melhor amigo lhe rouba a mulher parece dizer “bem feito pra esse menino mal”…

Como o jogador protagonista da 1ª maior negociação no futebol na época,  Heleno volta desprestigiado tanto por ter amargado a reserva como pela dispensa do Boca Juniors da Argentina, com neurônios a menos e ouvindo vozes dá ao Vasco o campeonato Carioca de 1949, único da sua careira sem aparecer no pôster oficial dos campeões pelo rotineiro motivo:  suas brigas. Sem noção da realidade, certo de que o tempo, a doença e o vício em álcool e éter não lhe atingiriam vai para a Colômbia e se torna lá, ídolo. Já muito atingido pela doença, cheirando éter para sobreviver,  sua esposa Hilma, no filme, Sílvia (Aline Moraes) pede o divórcio e  Heleno tenta com desespero recomeçar no América do Rio onde realiza o sonho de pisar no Maracanã, mas por apenas 35 minutos.

O que não está no filme:

· A Segunda Guerra Mundial impediu a realização de duas copas, 42 e 46, duas oportunidades a menos para um jogador cujo tempo corria mais rápido que para os outros. A cena em que Heleno, depois de ameaçar o técnico Flávio Costa com uma arma sem balas, toma uma surra, o tiraria da sua última oportunidade de deefender o Brasil no campeonato mundial de 1950.

· Em 1942, Heleno foi o artilheiro do campeonato Carioca com 28 gols, marca até hoje não atingida no Botafogo que teve como sucessores de Heleno, Dino, Paulo Valentim, Amarildo, Garrincha, Jarizinho, Roberto Miranda e Túlio Maravilha.

· Em 1952 Heleno estava louco e foi diagnosticado como esquizofrênico. Internado numa clínica do Rio de Janeiro amarrado em uma camisa-de-força, tomou choques, apanhou e fugiu. Foi encontrado com uma faca nas mãos gritando que mataria se o levassem de novo para a clínica.

· Sua esposa, Hilma (que no filme se torna Silvia) era filha de diplomata, colega do poeta Vinícius de Moraes. Este, dedicou ao noivo “Poema dos Olhos da Amada” – obra que seria seresta na voz do cantor Sílvio Caldas.

· Foi no Fluminense, em 1938, através de Carlomagno, que Heleno de Feitas apresentado como jogador de meio-campo, passou a atacante.

· “Jogo do Senta” em 10 de setembro de 44, Heleno era o capitão e principal jogador do Botafogo, que vencia o Flamengo por 5 x 2 e o jogadores rubronegros sentaram-se no gramado. A torcida alvinegra gritava “senta para não levar mais”.

· Mania de grandeza, discurso sem nexo e confusão entre fantasia e realidade são as principais manifestações psiquiátricas da doença também conhecida neurossifilis ou sífilis terciária, a PGP é uma manifestação tardia da doença que paralisou cada órgão do ex-atleta.

· Aos trinta 38 anos, Heleno pesava pouco mais de 40 quilos, tinha o quadro mental de uma criança de 5, falecendo vítma da PGP – Paralisia Geral Progressiva.

Estatísticas:

Data de nascimento: 12/02/1920 / São João Neponucemo (MG)
Data falecimento: 08/11/1959 / Barbacena (MG)
Posição: Atacante

Clubes
1939-1948: Botafogo-RJ
1948-1949: Boca Juniors – Argentina
1949-1950: Vasco da Gama-RJ
1950: Atletico Barranquilla – Colômbia
1951: America-RJ

Títulos
Copa Roca: 1945
Copa Rio Branco: 1947
Carioca: 1949.

Xingu – O Filme (2012)

Xingu é uma produção cinematográfica brasileira do diretor Cao Hamburger, o filme narra as aventuras dos Irmãos Villas Bôas – Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat) -, os principais responsáveis por criar o Parque Nacional do Xingu (1961), uma extensa área na região central do Brasil que abriga várias tribos remanescentes e sobreviventes dos massacres que sofreram os povos indígenas no Brasil.

O filme é aventura que envolve a identidade nacional de um “povo”, conflitos de fundo político, econômico e social. Narrando a implantação de um projeto que tinha por objetivo desbravar uma área até então virgem do território brasileiro, no começo dos anos 40. De uma forma romântica traz à tona para a platéia, “uma nova” imagem do índio brasileiro, uma perspectiva de extrema importância para desmistificação etnocêntrica da relação “homem branco” versus índio.

A produção cinematográfica ricamente apresenta ao telespectador um “povo” que luta a mais de 500 anos pelo seu espaço, pela sua vida enquanto indivíduo dentro do processo social. Mas onde estão eles? Eles são considerados cidadãos? São estas e inúmeras outras perguntas que fazemos ao assistir o filme.

Quando analisamos o processo histórico brasileiro, notamos que o índio é esquecido; permanecendo nas bases subterrâneas do mundo contemporâneo, uma concepção trabalhada por José Murilo de Carvalho em sua obra “Os Bestializados”. Ao falar de índio nós estamos falando de seres humanos, não de animais irracionais. Eles pensam, buscam, falam e tem uma história para contar. Devemos ver com outros olhos aqueles que contribuíram como disse Gilberto Freire para a formação e estruturação do Brasil de hoje.

O filme diferente de outras produções busca apresentar os índios além de “povos” das florestas, destacando a cultura, a língua, os ritos, as normas que rege a tribo. Entretanto o filme narra uma pequena parte da história dos índios brasileiros, pois a identidade deste “povo” é marcada por uma longa história de dor, tortura, exploração, isolamento e massacre.

Xingu é produção que nos faz refletir sobre a realidade nacional dos índios brasileiros. Na posição de cidadão e historiador afirmo que na constituição brasileira os mesmos deveriam ser descritos como seres humanos que tem por direito a cidadania.

Afinal, onde estão os índios? Quem são eles? Eles são considerados cidadãos? Eis uma das grandes questões a ser analisada na atualidade.

Site Oficial de Xingu O Filme.

Área Q – A Ufologia em Discussão (2011)

As produções cinematográficas que trabalham a espiritualidade conquistaram o grande público, fazendo muito sucesso, desde o primeiro filme, “Bezerra de Menezes: o Diário de um Espírito” (2008), seguido depois pelo “Chico Xavier” (2010), “Nosso Lar”, “As mães de Chico Xavier” (2011) e o “Filme dos Espíritos” (2011). O resultado destas divulgações têm sido impressionante, as pessoas têm buscado as obras espíritas, procurando saber de respostas que “nunca foram respondidas”.

O filme “Área Q” do diretor Gerson Sanginitto, promove uma revolução nas produções cinematográficas brasileiras, pois o horror e a ficção científica são temas raramente abordados no cinema brasileiro. O filme aborda o misterioso tema: ufologia ou Ovnilogia o “estudo de relatos, registros visuais, evidências físicas e demais fenômenos relacionados aos objetos voadores não identificados, ou OVNI”. A produção de ficção científica, escancaradamente fala sobre ETs e abduções no interior do Ceará mais exatamente em Quixeramobim. Na trama os personagens por objetivos comuns acabam se encontrando e compartilhado da mesma descoberta.

A trama narra a história de João Batista (Murilo Rosa) um personagem baseado no estranho caso de um orador de Quixadá, Luis Fernandes Barroso, que teria sido abduzido em 1976. Quando ele reapareceu passou a sofrer de regressão mental, ao mesmo tempo em que sua pele rejuvenescia.

“O ponto chave da trama se passa em Los Angeles, quando desaparece Peter Mathews (Peter e Mateus, não por acaso, são nomes de apóstolos), filho do jornalista Thomas Mathews, interpretado pelo americano Isaiah Washington (mais conhecido no Brasil do seriado Grey’s Anathomys). Ele é enviado por uma revista para uma matéria sobre aparições de discos voadores e pessoas abduzidas no Brasil. No desenrolar da trama, uma suposta repórter, Valquíria (Tania Khalil), que trabalha para alguma organização secreta do governo na busca de impedir que Thomas divulgue as suas descobertas”.

Audaciosamente o autor Sanginitto busca fundir temáticas que nos perturba no dia a dia. Descrevendo histórias que provam a existência e a não existência de vida fora da terra.

Na minha opinião esta é uma das primeiras produções cinematográficas brasileiras que nos faz lembrar das grandes produções hollywoodiana. Um filme que busca descrever os mistérios do existir, a dicotomia entre céu, terra, mundos, mitos, espiritualidade e problemáticas que nos circunda. Entretanto no desfecho da trama notamos muitas informações, algo que não esclarece as dúvidas levantando mais problemáticas sobre a ufologia e a relação com a espiritualidade.

Em suma, muitos mistérios ficam em aberto, várias questões que não foram trabalhadas e que são pertinentes em relacionar ao tema ufologia. Creio que no futuro próximo a humanidade terá as repostas que tanto busca.

As Obras de Chico Xavier no Cinema

Chico Xavier”, “Nosso Lar”, “As Mães de Chico Xavier” sãos filmes de longa metragem brasileiro, baseados nas obras homônimas escritas através de psicografias pelo médium Chico Xavier. Elas buscam narrar as mensagens que Chico Xavier deixou para a “humanidade”.

O filme “Chico Xavier” nós apresenta uma autobiografia de Chico Xavier um das personalidades de grande importância dentro do cenário mundial, um homem que através da sua fé em Deus com base no espiritismo, revolucionou a visão a respeito do espiritismo.

A síntese narrativa do filme busca transmitir a clarividência vivida por “Chico” da infância a sua vida adulta.

Um trabalho que desperta a curiosidade de inúmeros espectadores que tem por objetivo compreender melhor quem é “Chico Xavier”, uma “verdade” ou “mito” eternizado na fala, nos livros e nos filmes que invadem as mentes das pessoas pelo mundo afora.

Nosso Lar” é o segundo filme da série, uma produção baseada na obra homônima escrita através de psicografia pelo médium Chico Xavier, sob a influência do espírito André Luiz.

A trama conta a história de André Luiz que ao despertar no mundo espiritual, se depara com criaturas assustadoras e sombrias vivendo, juntamente com ele, em um lugar escuro e sombrio. Além disso, ele também se assusta por perceber que apesar de ter “morrido” ele ainda continua vivo e ainda sente fome, sede, frio e outras sensações materiais.

Após um longo período de sofrimento nesta zona de sofrimento e purgação de falhas do passado ele é recolhido por espíritos do bem e é levado para a colônia espiritual chamada de Nosso Lar. A partir desse momento ele começa a conhecer melhor a vida no além-túmulo, aprendendo lições e adquirido conhecimentos que mudarão completamente o seu modo de enxergar a vida. Tomado a consciência de que está desencarnado (morto), mas que a vida continua, e que nunca é tarde “para recomeçar um novo fim”.

O terceiro filme “As Mães de Chico Xavier” pauta-se em uma narrativa que descrever a relação de três mães que vêem sua realidade transformada por completo depois de encontrar com Chico Xavier. São elas: Ruth, cujo filho adolescente, Raul, enfrenta problemas com drogas; Elisa, que tenta suprir a ausência do marido dando total atenção ao filho, o pequeno Theo, e Lara, professora que enfrenta o dilema de uma gravidez não planejada.

Essas três mulheres vivem momentos distintos, porém buscam conforto junto a Chico Xavier, e resposta para as diversidades vividas no mundo material.

Os filmes nos levam a conclusão que Chico Xavier é o mensageiro do bem, o homem que transformou a vida de inúmeras pessoas. Em seu discurso era notável a sua arte de falar de interpretar a vida e ensinar com sabedoria.

No entanto as produções cinematográficas nos apresentam uma narrativa que sintetiza as ideologias pregadas por Chico Xavier, um homem que se preocupou com outro, colocando a sua sabedoria ao nosso dispor, nos informando sobre a vida além da concepção material.

Ao meu entender as produções cinematográficas nos fazem entender quem é Chico Xavier, um homem além da fé e da clarividência, que perpetuou os sentimentos de solidariedade, amor, renúncia, caridade. Algo não só transmitido para os espíritas, mas para todas as pessoas que foram e são envolvidas pelo amor e fé que Chico Xavier viveu e que ainda vive conforme as perspectivas de sua religiosidade.

Chico Xavier é um indivíduo que através da sua fé em Deus com base no espiritismo revolucionou a visão a respeito do espiritismo em meio a nossa sociedade. Além de nos fazer pensar sobre a “vida depois da vida”.  Verdadeiramente digo que Chico é um ser iluminado que lançou sobre a terra sementes de esperança e ricamente nos ensinou a arte de fazer o bem, de praticar o bem e de viver o bem.

Portanto, Chico Xavier com sua arte de ensinar e de romper com os limites da vida material tornou-se resultado de grande sucesso e de recordes de bilheterias no Brasil e no mundo.

Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011)

Desprezando o tom clássico de uma biografia tradicional, José Henrique Fonseca criou um filme irretocável, quando optou por tratar da vida do jogador Heleno de Freitas realçando o lado cinematográfico da estória. Realçou o ídolo e mito enfatizando o lado perfeccionista do personagem que por vezes justifica sua arrogância e violência em limites extremos sem enfatizar sua origem nobre ou apelar sem critérios para o seu conhecido e voraz apetite sexual.

O trabalho extraordinário de Rodrigo Santoro, no melhor papel de sua carreira até então, ajuda a amalgamar talentos quem incluem um roteiro preciso recheado de diálogos e falas inteligentes, o elenco de qualidade, montagem e música (ópera e canções famosas) perfeitas além de uma maquiagem notável entre vários outros méritos na obra.

O resultado calcado na atmosfera glamorosa dos anos 40 é esplêndido, sobretudo por conta da acertada decisão de realizar a bela e delicada foto em preto e branco que valorizou o lado poético do personagem em closes impressionantes e sequências granuladas emocionantes, dentre os quais vale destacar a pungente discussão dos doentes no sanatório e a briga das crianças fãs na praia.

No final, o personagem precocemente devastado pelo éter e pela sífilis, mantem a altivez honrando o apelido de “Gilda”, uma alusão ao célebre papel sedutor de Rita Hayworth. Pelo menos no mundo do cinema, parece que em telas distintas e não menos clássicas, nunca haverá mesmo uma mulher como Gilda ou um homem como Heleno.

Carlos Henry

P.S.: Detesto futebol e não sou fã do Rodrigo Santoro.

Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011). Brasil. Direção: José Henrique Fonseca. Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Othon Bastos, Herson Capri, Angie Cepeda, Erom Cordeiro, Orã Figueiredo, Henrique Juliano, Duda Ribeiro. Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança, Fernando Castets. Fotografia: Walter Carvalho. Gênero: Biografia, Drama. Duração: 116 minutos. Inspirado no livro Nunca Houve um Homem como Heleno, do jornalista Marcos Eduardo Neves.

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010)

Foi uma longa espera para apreciar Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, e infelizmente toda a minha ansiedade foi em vão, mas por que?. Simplesmente porque esse filme não mostra nada mais do que o primeiro filme mostrou– faz exatamente a mesma coisa do que o seu antecessor!.

Tudo que li sobre “Tropa de Elite 2” foi que o mesma era melhor que o original — o achei menos sangrento!. Também que fora o maior sucesso na história do cinema brasileiro, mas nem por isso, eu fiquei impressionado com o que vi!. Por sinal, o achei enfadonho, e bastante arrastado na ilustração sobre a violência patrocinada pelo governo, e a ruína do Brasil. E, honestamente, o uso exagerado de “voice-over” não me ajudou em nada. Achei que o narrador assumido na camera de Jose Padilha era suficiente para nos fazer entender muito do que estava acontecendo. Revelar os pensamentos interiores do tenente Nascimento em muitas cenas foram desnecessários, pois a interpretação de Wagner Moura é tão perfeita que em muitas cenas o uso de “voice- over” não revela nada mais do que nossos olhos já estão vendo.

O enredo inicia-se com o tenente-coronel Roberto Nascimento (Wagner Moura, sempre brilhante!!), que é trazido para ajudar a acalmar uma rebelião na prisão, mas tudo resulta em um banho de sangue colossal. Diogo Fraga (Irandhir Santos), um ativista de direitos humanos quer se certificar de que os prisioneiros sejam tratados humanamente, e assim causa uma grande dor de cabeça na vida de Nascimento. E, para piorar, ironicamente, o ativista é casado com a ex-mulher do tenente-coronel, e ainda prova ser um pai melhor para o filho adolescente dele — o que provoca em Nascimento uma crise de personalidade: ele começa a se perguntar se a vida de violência que ele leva, realmente valeu a pena, e se seus pesares em como ser um bom policial o transformou num péssimo pai e num marido ausente. O filme cai num melodrama bem chatinho!!!

Foi escolhido para representar o Brasil no Oscar deste ano, mas acho que lhe faltou um “lobby” para lhe garantir uma vaga. Não é ruim, mas acredito que o Brasil tinha um filme melhor do que esse. Bem, “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” me fez cochilar…e quando um filme me causa sono é porque ele não me tocou!

Nota 5,5