Um Método Perigoso (A Dangerous Method. 2011)

Assim como Jung, David Cronenberg transpôs o seu limite de segurança ao nos trazer essa história. Se para um ator é prova de potencial quando interpreta personagens tão distintos, pode-se esperar que o mesmo também aconteça com um Diretor: quando ele faz uma leitura tão diferente do que vinha fazendo até então. Cronenberg muda o seu método e nos leva numa viagem belíssima entre Zurique (Suiça) e Viena (Áustria) para mostrar o início e o fim de uma amizade que ainda hoje dá o que falar: entre Jung e Freud. Tendo como elo a então paciente Sabina Spielrein. Meus aplausos a Cronenberg! É um filme de querer rever.

Um Método Perigoso” não é apenas para os discípulos, os apaixonados, os fãs, os admiradores desses dois Mestres, já que o filme não é muito didático. Digo isso porque muitos podem deixar de ver o filme achando que terá muitos termos médicos. Se consegue entender mesmo quando Jung clinica Sabina, como também nos diálogos ou nas leituras das cartas entre Jung e Freud. Aliás, o Roteiro prende tanta a atenção, que mal dá tempo de se deleitar com o esmero do cenário, das vestimentas, das paisagens… Fotografia deslumbrante.  E mesmo a trama focando muito mais em Jung, há uma visão impessoal entre ele e Freud. Cronenberg deixa para que o expectador continue com o seu gostar por cada um deles.

Os Personagens:
- Os que seguem os pensamentos freudianos podem não ver, por exemplo, a arrogância desse, a ponto de se incomodar com a riqueza de seu então mais dileto discípulo. Freud tinha que ser mais prático, mais direto no que estava implantando. Pela personalidade, eu diria que se tivesse mais dinheiro também teria saído da sua zona de conforto. Se uniria o se achar superior com o não ter que dá satisfação a ninguém. Bem, não há demérito em suas teorias, que como sua bandeira diz – comprovadas. Como não sou estudiosa em Psicanálise, ela sempre me remete aos filmes de Woody Allen (Amo!). Somado ao que vi nesse filme, continua a impressão que o que a Psicanálise faz é atestar o que a pessoa tem, mas dando a ela uma massagem de ego. Não mete o dedo na ferida!

- Jung, por conta do dinheiro, pode sair da zona de conforto do método adotado até então. O dinheiro da esposa deu a ele mais tempo para outros voos. Suas pesquisas o levaram a até trair a esposa, com a Sabina. Esse relacionamento íntimo, pelo menos para mim, não se deu num nível sado-masoquismo. Mesmo que a tara da Sabina o levasse a isso. Acho que Jung quis conhecer o seu lado de prazer carnal, explorando o seu íntimo. Mas o que extraiu mesmo dessa relação com Sabina, foi algo como uma conversa com um lado feminino: algo como um ânima universal. Jung teve nelas, e com elas – esposa e amante -, o apoio e a ajuda em seu crescimento profissional. Se a máxima diz que por trás de um homem brilhante há uma inteligentíssima mulher, com Jung houve duas.

- Sabina Spielrein tinha uma inteligência nata. Diria mais. Que a sua intuição tinha um dial preciso na maior parte das vezes. Ao ser tratada por Jung usando “a cura pela fala”, a psicanálise, que a ajudou a se autocontrolar, também deu asas a sua imaginação que depois pode então dar um sentido prático a essas ideias. Mas Sabina perdeu um pouco o foco pela paixão por Jung.  Ela poderia ter visto que quem administrou esse tratamento fora um profissional nada ortodoxo, logo não deveria ter colocado todos os créditos da sua cura no método freudiano. Até porque Jung já estava implantando um método próprio, mesmo ainda não se dando conta. E a bem da verdade, por um clima ainda machista, ambos enriqueceram seus estudos por observações dela.

As Performances:
- Michael Fassbender foi uma escolha mais que perfeita. Ele imortaliza na tela Carl Gustav Jung. Bravo! Seu Jung veio para ficar na memória afetiva até dos apenas cinéfilos.
- Viggo Mortensen já desempenhou, e bem, outros personagens com o Cronenberg, como em “Marcas da Violência” (2005) e “Senhores do Crime” (2007). Nesse aqui ele até consegue levar bem o seu Freud, mas não a ponto de arrebatar. Algumas vezes meus olhos batiam no peito dele, meio que em busca de uma estrela de xerife do Velho Oeste. Ficou bonachão.
- Vincent Cassel sim, marcou uma bela passagem. A ponto de querer vê-lo num filme com o seu Otto Gross como protagonista.
- Keira Knightley mais parecia um clone da Winona Ridder. A ponto de eu pensar em porque essa outra atriz é que não estaria fazendo a Sabina Spielrein. Ela se perdeu na construção dessa incrível personagem. Sabina Spielrein merecia uma performance memorável.

Então é isso! O filme “Um Método Perigoso” tirando alguns pontos baixos, como a escolha da atriz Keira Knightley, é muito bom e deixou muita vontade de rever.
Nota 08.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Método Perigoso (A Dangerous Method. 2011). Reino Unido / Canadá. Direção: David Cronenberg. Elenco: Viggo Mortensen, Keira Knightley, Michael Fassbender, Vincent Cassel, Sarah Gadon, André Hennicke, Arndt Schwering-Sohnrey, Mignon Remé, Mareike Carrière, Franziska Arndt, Wladimir Matuchin, André Dietz. Gênero: Biografia, Drama, Thriller. Duração: 111 minutos. » O filme foi baseado na peça teatral ‘A Cura pela Fala’ (The Talking Cure), de Christopher Hampton, que por sua vez baseou-se no livro ‘A Most Dangerous Method’ (Um Método Muito Perigoso), de John Kerr. Sem esquecer que Christopher Hampton é quem assina o Roteiro do filme.

Incêndios (Incendies. 2010)

Por: Lidiana Batista.

Drama canadense dirigido por Dennis Villeneuve e estrelado por Rémy Girard, Lubna Azabal e Mohamed Majd.

A história de dois irmãos gêmeos tentando realizar o desejo da mãe após sua morte. No testamento, Narwal Marwan diz que quer ser enterrada nua, sem caixão, sem lápide e nem funeral. “Nenhuma lápide será colocada para aqueles que não cumprem suas promessas“. E diz ainda que Jeanne deveria encontrar o pai, e Simon o irmão desaparecido. Para cumprirem a missão designada pela mãe, ambos vão parar na Palestina, inciando assim uma investigação sobre suas vidas e sobre a mãe.

Primeiramente devo dizer que tive de refletir muito para escrever sobre este filme. Sabem aqueles filmes que quando terminam, você olha os créditos finais e mesmo assim não consegue se desligar? Incêndios fez isso comigo. Um excelente drama sobre verdade, força, perdão e obstinação.

E todos esses adjetivos não cabem somente ao filme, mas a uma mulher: Narwal Marwan, que teve a audácia de enfrentar a família para viver um amor, teve de doar seu filho e prometer a si mesma que jamais desistiria de encontrá-lo.

Enquanto os gêmeos caminham pelas áridas paisagens do oriente médio procurando pistas sobre o pai e o irmão, a história da mãe vai sendo contada. Não há como não sentir admiração por essa personagem que consegue forças para superar a perda de um filho, se envolver em uma guerrilha e viver 15 anos em uma prisão sendo torturada constantemente. Esta, é “a mulher que canta”.

Aos poucos os mistérios vão sendo desvendados, e a cada pergunta respondida, uma surpresa para os irmãos e para o espectador que assiste tudo admirado, fascinado e louco para saber quem é a misteriosa Narwal Marwan.

Narwal Marwan é sem dúvida alguma uma heroína como há muito tempo não via. Sua história de vida é apaixonante, e o diretor conseguiu transmitir isso com muita competência! A força da mulher que sonha, que não teme, que canta e encanta.

Incêndios queima a alma com a verdade, com o passado ignorado, com a crueldade e injustiça expostas para serem digeridas pelos protagonistas e pelo espectador.

Jeanne, um mais um pode ser um?

Borderline: Além dos Limites (2008)

Por: Lidiana Batista.

Filme canadense da diretora Lyne Charlebois realizado no ano de 2008, estrelado pela fantástica atriz Isabelle Blais, conta a história de Kiki, uma jovem mulher que aos 30 anos de idade tenta encontrar um equilíbrio para sua vida. Com a mãe internada em um hospital psiquiátrico e avó doente, Kiki tem flashbacks de sua infância e adolescência sempre regada à bebida e sexo. E diante do caos que se encontra, precisa ainda terminar seu romance, cujo orientador é também seu amante.

Logo na primeira cena já ficamos apaixonados por Isabelle Blais e sua Kiki. Uma mulher inteligente, sagaz, de humor mórbido tentando se descobrir o tempo todo. Os diálogos são envolventes e inteligentes, e creio que Isabelle Blais merecia uma premiação por sua excelente atuação.

Faz frio durante todo o filme. Kiki caminha com seu cachorro na neve, e é como se sua alma fosse tão fria quanto o próprio clima, e a impressão que temos é a de que Kiki quer a todo custo fugir desse caos, sempre quis, até mesmo na adolescência quando se entregou à bebida e ao sexo desregrado na esperança de esquecer quem era.

Diferente de “Garota Interrompida”, cujo personagem de Winona Rider é diagnosticado com Transtorno de Personalidade Borderline, o filme pouco fala sobre o assunto, ou quase nada. O único momento em que o transtorno é retratado é em um pequeno diálogo entre Winona e sua enfermeira, quando enfim ela consegue entender o que se passa.

Em Borderline: Sem Limites é diferente. Em momento algum vemos a palavra “borderline”, e nem é preciso. O comportamento de Kiki já denuncia uma personalidade que esta sempre nos extremos, na borda dos sentimentos, na fronteira.

Suas angústias e seu drama são tão intensos, que as cenas de sexo e nudez ficam em segundo plano, embora sejam importantes para o enredo do filme, o que queremos mesmo é saber o que se acontece com Kiki, suas reações, seus pensamentos, sua essência.

Filme altamente recomendável para borderlines, parentes e amigos de borderlines e para aqueles que buscam incessantemente o autoconhecimento.

Segue o trailler:

- Olá, meu nome é Kiki.
E não sou flor que se cheire.
Desculpe, farei direito.
Olá, meu nome é Kiki.
Sou uma viciada em sexo e dependente afetiva.
- Olá, Kiki.

-Sou viciada em tudo relacionado ao amor.
Eu realmente não sei o que dizer mais.
Hoje percebi que minha única relação estável é com Claude Viau,
meu cachorro.
Não façam mau juízo.
Não “fiz” com meu cachorro.
Minha relação com meu cachorro
é puramente platônica.
Claude Viau é um garoto que amei
dos 12 aos 15 anos.
Meu primeiro amor.
Eu lhe escrevi centenas de cartas, que nunca enviei.
Nos dia em que ele finalmente falou comigo,
eu o dispensei.

-Grande começo.
-É estranho.
Quando alguém me ama,
e…
Eu deveria me sentir bem,
confortável, eu acabo fugindo.
E…
quando me magoa,
Eu agarro.
É como se tivesse que machucar.

Tempo Real (Real Time. 2008)

Muita coisa pode acontecer em 60 minutos. Já parou para pensar nisso? Se pode passar a própria vida a limpo. E se hoje fosse o último dia da sua vida? O que você faria? Ou como passaria esse tempo que lhe resta? Essa são algumas das reflexões que vem ao assistir “Tempo Real“. Ou apenas curtir o filme. Porque ele é muito bom!

Em “Tempo Real” tem um inusitado encontro entre duas pessoas. Viverão uma experiência única. De um lado temos um jogador compulsivo, Andy (Jay Baruchel). Que já com uma dívida enorme, dá uma tremenda mancada. Então terá que pagar um alto preço: sua própria vida. É quando entra em cena um matador profissional, Reuben (Randy Quaid). Que fora contratado para eliminá-lo. Sem pressa, Reuben dá a Andy uma hora de vida. Onde poderá fazer o que quiser antes de morrer. Desde que junto com ele.

Enquanto Andy vai mostrando que sempre foi um azarão, Reuben tenta mostrar a ele que era tudo por estupidez; burrice mesmo. Que pelo ângulo em que via a própria vida o levou a desperdiçar não só o tempo, mas até o ter seguido por outro caminho. O loser que pensara ser, era na verdade um tremendo egoista. Nem o carinho da avó (Jayne Eastwood) ele soube apreciar.

O filme se passa em tempo real e retrata a questão do que faríamos com o tempo que nos resta neste mundo.

Eu vi pela tv. E gostei muito! De querer rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Tempo Real (Real Time. 2008). Canadá. Direção e Roteiro: Randall Cole. Gênero: Comédia, Drama.

Longe Dela (Away From Her. 2007)

Perder a lucidez é algo triste, mas ao mesmo tempo é uma fórmula dolorosa de redescobrir o presente como um momento único, completamente lúdico e momentâneo.

O filme Longe Dela conta a história de Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) que formam um casal feliz, que tem sua vida abalada quando Fiona apresenta alguns graves sintomas, como perda de memória. Logo vem a confirmação: Fiona está com mal de Alzheimer.

Na minha concepção a produção cinematográfica trabalha com grande ênfase a temática sobre o mal de Alzheimer. No século XXI nos deparamos com este mal que a cada dia cresce mais, a doença de Alzheimer (DA) ou simplesmente Alzheimer é uma doença degenerativa atualmente incurável, mas que possui tratamento. A doença foi detectada pela primeira vez, em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer, do qual a doença herdou o nome. O mal de Alzheimer causa demência em pessoas com mais de 60 anos no mundo. Demência é uma disfunção cerebral gradativa e persistente que consiste na deterioração intelectual do indivíduo ao longo do tempo, atacando de forma irreversíveis determinadas regiões do cérebro.

Fiona na trama vivencia as diferentes fases da doença, perdendo a sua memória, apagando a sua identidade. Não diferenciando da realidade, pois que convive com pessoas portadoras deste mal, percebemos que as mesmas apresentam pequenos esquecimentos, sinais de depressão, dificuldades com a linguagem, confusão mental e, algumas vezes, agressividade, e outras características que são descobertas no cotidiano.

O filme nos mostra que os sintomas da doença não são bem elucidados. E o tratamento farmacológico da mesma, bloqueia a evolução da doença, controlando os distúrbios comportamentais, corrigindo o equilíbrio químico do cérebro, promovendo uma  melhora no déficit de memória.

O enredo do filme é algo que encanta os seus telespectadores; mas não podemos esquecer do roteiro, adaptado por Sarah Polley o qual concorrente ao prêmio da Academia, que dá grandes dimensões psicológicas a cada personagem e conduz essa história de forma muito sensível, indo além de uma mera história de amor entre idosos.

O filme em sua essência busca trabalha o sentimento humano que existe dentro de cada um de nós, pra mim o filme foi de extrema emoção. Sarah conseguiu de forma uniforme trabalhar o temor Longe Dela em todos os aspectos que envolvem o contexto do filme.

O filme além de nos envolver emocionalmente, nos conscientiza no sentido que precisamos ficar atentos aos nossos amigos, tios, pais, avós e em nós mesmos no futuro próximo, pois o tratamento precoce atrasa o desenvolvimento da doença, fornecendo a melhora da memória, da qualidade de vida e de convivência do portador com as pessoas que convivem com os mesmos.

Enfim, posso afirmar que a trama cinematográfica é cheia de méritos, conceitos, termos e de um sentimentalismo complexo e tematicamente completo por uma atmosfera que trabalha o conceito amor na sua plenitude verdadeiramente humana.

Quebrando Todas as Regras (Global Heresy. 2002)

A chamada do filme dava total destaque a uma dupla inusitada, não apenas pela já caracterização dos personagens, mas também pela longa distância – idade e carreira – entre os dois atores. Um deles já carimbava meu passaporte para assistir: o genial Peter O’Toole. Antes de citar o nome da jovem, cito de uma outra atriz que também me motivou a assistir esse filme: o de Joan Plowright, a nossa inesquecível Sra. Wilson vizinha do Pimentinha. Nesse aqui ela também vive a esposa de um cara nada sociável. Vê-la atuando é sempre um presente; e eu aplauso com entusiasmo a quem dá espaço para os atores de mais idade. Numa atualidade onde se dá destaque aos bem mais jovens, “Quebrando Todas as Regras” mostra que há lugar para todos coabitarem com harmonia. Agora sim o outro nome da tal dupla: Alicia Silverstone. A eterna Patricinha de Beverly Hills.

Já no início, o filme me conquistou, e fui assim até o final. A estória coloca o casal Foxley (Peter O’Toole e Joan Plowright) tendo que conviver por um mês com uma banda de rock em seu castelo, e se passando por empregados. Por estarem à beira da ruína, o casal da folga aos empregados por não querer que ninguém saiba da real situação financeira em que se encontram. Numa de precisarem com urgência de uma grande soma em dinheiro, decidem alugar o castelo. Marinheiros de primeira viagem nessa empreitada, ao contratarem um mordomo e uma cozinheira, acabam caindo numa firma de picaretas; ficando sem os serviçais e sem a grana. Assim, sem tempo, como também sem o dinheiro da multa que pagariam caso cancelasse o aluguel do castelo, eles se vêem obrigados a se passarem por um casal de empregados, e em sua própria casa.

Mas as agruras vão além. Lord Foxley achava que tinha alugado para um grupo de executivos de uma multinacional. Dai pensa em desistir ao ver que seria um grupo de jovens, e integrantes de uma banda, que se hospedariam ali. E para desespero maior, eles vieram para ensaiarem para uma nova turnê. Mas Lady Foxley lembra da multa e diz que era hora de engolir o orgulho: cozinhando, limpando, arrumando, servindo…

E entre som alto, e o menor jeito com os afazeres domésticos, o casal e a turma jovem também tentam se afinarem. Nessa longa jornada também haverá uma misteriosa convidada aumentando o desconforto do Lord Foxley. Como também um espião a serviço da Gravadora. Ainda colocando um tempero a mais, Nat (Alicia Silverstone) que fora contratada como substituto do baixista que desaparecera, terá que provar que pode ficar em definitivo na banda Global Heresy.

Com uma trilha sonora bem legal, confusões, e onde alguns dos personagens reavaliam os próprios pensamentos, somos brindados com um bom filme. Eu me surpreendi. Assisti pela tv, numa de procurar algo para passar o tempo. E até voltaria a rever, se reprisarem.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Quebrando Todas as Regras (Global Heresy. 2002). Reino Unido, Canadá. Direção: Sidney J Furie.  +Elenco. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 106 minutos.

Relação Indecente (Poison Ivy: The Secret Society. 2008)

O filme Relação Indecente: A Sociedade Secreta é uma produção cinematográfica que com a história de Daise uma menina do interior que embarca em direção à capital em busca de conhecimento; de novas oportunidades, mas muitas surpresas ela encontrará na universidade. Em um mundo que se prega o saber, a complexidade dos segredos se funde com uma sociedade secreta.

Dentro dos limites da faculdade um grupo de acadêmicas faz parte da irmandade ou sociedade secreta. Daise é convida para ser um membro da sociedade e se vê perdida naquele ambiente. Ela precisa iniciar o seu processo de ligação com a seita feminina, mas a sua participação na famosa seita resultará em grandiosas problemáticas.

A produção cinematográfica traz em seu contexto a corrupção, sexo, abuso de poder, distorção dos fatos, amor, sociedade secreta e seita. A trama no seu desenrolar envolve suspense, assassinato, sexualidade, simbologia e segredos mortais.

Ao buscar nos horizontes podemos nos deparar com um mundo patológico e acabar se perdendo na complexidade do nada. Afinal, em muitos momentos a liberdade pode ser, mas opressora do que você pode imaginar.

JUMPER (2008)

No filme “Jumper” o personagem David Rice é um adolecente que um belo dia descobre que tem a habilidade de se teletransportar, como o Noturno do famoso filme X-men, só que sem o azul. Descoberto seu poder especial ele resolve deixar para trás seu pai abusivo e frustrado e vai para Nova York e se torna um ladrão de banco.

Em sua jornada ele se transforma em uma anti-regras, fugindo de todos os padrões de uma vida “normal”.

No desenrolar da trama cinematográfica o personagem David descobre que ele não é o único Jumper, pois existiam inúmeros outros os quais viviam perseguições diárias. Roland era um paladino que realizava estas perseguições contra estes seres que ele considerava: “aberrações, seres que não merece viver”.

O filme proporciona aos telespectadores muita aventura, romantismo, emoção, suspense, ação. Mas diferente de outras produções cinematográficas que trabalham com mutantes, David vive na pele de um anti-herói. No entanto David começa sentir na pele a consequência de suas aventuras sem regras, iniciando uma longa corrida contras a perseguição dos paladinos. Envolvendo a vida de pessoas amada como Mary Rice uma paixão de infância e seu pai.

O filme não foge das outras produções cinematográficas com relação aos mutantes seres com poderes sobrenaturais que sempre tem um ponto fraco, ou seja, um pé de Aquiles que se destaca nas diversas produções ficcionais.

Em suma fica claro que mesmo possuindo poder nunca deixamos de ser “seres humanos” e o mesmo não é eterno ou imbatível. Poderosos Jumper, mas humanos iguais a qualquer outro que ama e sente as emoções de uma existência.

Incêndios (Incendies. 2010)

A morte nunca é o fim de tudo. Sobram traços.”
Filmado na Jordânia, o filme de Denis Villeneuve “Incêndios” (Incendies) que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, se situa numa região fictícia do Oriente Médio, onde os eternos conflitos religiosos entre cristãos e maometanos rendem estórias assustadoras.

Neste caso, a trama intrincada e cheia de revelações e segredos chocantes gira em torno de Nawal Marwan, uma mulher com a vida marcada por tragédias iniciadas pelo desaparecimento do primeiro filho, fruto de uma união proibida. A partir de sua busca desesperada pela criança supostamente morta até sua agonia no leito de morte, sua trajetória de sofrimentos será desvendada aos poucos através de duas cartas a serem entregues pelos seus dois outros filhos, um casal de gêmeos: uma destinada ao pai, outra ao irmão dos dois. A tarefa é difícil, pois eles não conhecem nem um, nem outro e contam com a ajuda de um tabelião amigo de Nawal para unirem um misterioso quebra-cabeças de pistas até encontrarem os destinatários das cartas.

O roteiro, de Wajdi Mouawad, navega habilmente entre cenas do passado e presente numa montanha-russa de emoções fortes. É preciso estar atento a todas as sequências e diálogos, mesmo que pareçam estar soltos ao longo do filme, para aproveitar a pungente e extraordinária estória da “mulher que canta” para suportar a dor. A peregrinação decorrente das procuras que acontecem dá o tom certo de fábula que embala e por vezes, até ameniza convenientemente um acontecimento tão aterrorizante quanto verossímil.

Carlos Henry

Incêndios (Incendies). 2010. Canadá / França. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal (Nawal Marwan), Mélissa Désormeaux-Poulin (Jeanne Marwan), Maxim Gaudette (Simon Marwan), +Cast. Gênero: Drama. Duração: 130 minutos.

A Ilha: Uma Prisão Sem Grades (Boot Camp, 2008)

Neste final-de-semana assisti a um filme que não chega a ser sensacional, porém é chocante. Se não fosse os dizeres “Este filme é baseado em fatos reais” talvez passaria despercebido por mim. Entretanto, após chegar ao término, fui investigar mais a fundo e descobri que coisas muito piores do que as relatadas no filme acontecem ainda hoje.

O filme se chama Boot Camp (que pode ser traduzido como Acampamento de Recuperação em português) e segundo o site Choveu ele sairá por aqui, a partir do dia 16/07/2008, direto em DVD, com o nome de A Ilha – Uma Prisão sem Grades.

Segue a Sinopse:

Boot Camp é um thriller psicológico sobre um grupo de jovens rebeldes que são enviadas para uma casa de reabilitação em um remoto campo das Ilhas Fiji. Mas o que seus pais acreditam ser uma respeitosa e artística instituição de luxo em um lugar calmo e perto da natureza se torna uma prisão onde esses jovens são levados a um pesadelo. E é neste verdadeiro campo de batalha que eles serão submetidos a diversos abusos e lavagens cerebrais. Submetidos as situações extremas e com a sanidade mental ameaçada, estes jovens deverão enfrentar o diretor militarista e sua utópica visão de ordem, para conseguirem escapar.

O filme é um show de tortura psicológica e física, e assemelha-se bastante ao que acontece nos campos militares, com uma exceção: os torturados são crianças enviadas pelos próprios pais na espectativa que os filhos aprendam a lhes obedecer. Para eles pararem de serem torturados, precisam torturar os outros. Só assim podem subir de nível,  numa espécie de hierarquia onde quanto mais alta, mais direito a regalias.

Enfim, só vendo o filme para se sentir chocado ao ver crianças, que muitas vezes não cometem nem ao menos um crime, sendo enviadas para verdadeiros campos de concentração. Porém eu, em minha ingenunidade, achei que o filme era exagerado e o inicio que dizia que “Este filme é baseado em fatos reais. Há atualmente mais de 20.000 acampamentos de recuperação ou com regras similares ao chamado Amor Duro, abrigando milhares de crianças no mundo. Eles operam virtualmente sem nenhuma regulamentação ou fiscalização do governo.” fazia parte da estratégia de instigar a curiosidade do público. Porém, no fim, os produtores do filme insistem na questão e complementam os dizeres iniciais com os seguintes: “Desde o começo do movimento Amor Duro de reabilitação em 1970, centenas de milhares de crianças têm sido enviadas para programas iguais ou similares a este. Tem sido relatados mais de 40 mortes nos acampamentos. Não há estatísticas de quantas vidas têm sido irreparavelmente danificadas.”

Fiquei com isto na cabeça, muito incomodado pela possibilidade do real, e fui investigar a veracidade dos eventos demonstrados. Segundo o wikipedia, Boot Camps fazem parte do sistema de correção de jovens que cometeram o primeiro delito como substituição ao tradicional sistema de carceragem no EUA, ainda que diversos países adotem sistemas semelhantes. O modelo deste tipo de punição é baseado nos mesmos moldes de campos de recrutamento militares e o objetivo é fazer com que eles sejam re-educados, aprendam a obedecer regras e respeitar hierarquias para serem re-inseridos na sociedade. O tempo de tratamento varia entre 90 e 180 dias e caso o programa não seja completado, o jovem volta para o sistema tradicional de punição e é encarcerado. Estes campos de recuperação podem ser empresas privadas ou do próprio governo.

Neste caso, temos uma espécie de Febem paulista, porém com regras mais rígidas para os criminosos de primeira viagem, o que, em teoria, seria válido como forma de tentativa, pois assim estes jovens não retornariam a cometer outros crimes quando voltassem para as ruas. A punição segue o príncipio de agir antes, ainda que com certo rigor,  do que tentar fazer alguma coisa quando não tiver mais o que fazer. O problema é que no comando destes lugarem estão homens, e sabemos que o poder corrompe os homens, então surgem episódios como a do garoto Martin Lee Anderson, que no início de 2006 teve um colapso e faleceu enquanto era obrigado a continuar correndo mesmo sem aguentar e visivelmente fatigado, durante um exercício. Vídeos flagaram toda a ação e a negligência em atender o garoto mesmo após ele estar esparramado no chão – demoraram cerca de 20 minutos para chamarem o socorro médico. No julgamento pela morte de Anderson, todos os envolvidos foram inocentados. Toda a ação, vídeos e afins podem ser acessadas no site oficial do menino, para isto, clique aqui.

Porém, embora exista polêmica, assim como no tratamento da Febem, não era exatamente isto que eu vi no filme. O que eu vi foram jovens enviados para campos de recuperação privados apenas com o consentimento dos pais. Estaria os criadores do filme equivocados?

Como sempre faço ao terminar de assistir qualquer filme, fui avaliar o mesmo no imdb e dei nota 8 de 10 possíveis. Ao ler a parte de discussões do filme, vi dois tópicos que me chamaram a atenção: Este filme é realmente inspirado em fatos reais? e Estes lugares existem. O primero levanta uma questão que estava dentro de mim e o segundo responde.

Para sintetizar a discussão, a resposta é sim, caros amigos, estes lugares existem até os dias hoje. Tem preço, endereço, telefone, fotos, vídeos e depoimentos de quem passou por lá. No próprio imdb existem relatos de quem teve parentes e conhecidos colocados nestes lugares e a coisa parece ser bem pior do que as demonstradas no filme. Um membro relata que a sua ex-namorada foi agredida e molestada por funcionários. Um destes lugares é conhecido como Tranquility Bay, que é o local que inspirou o filme. Se trata de uma ilha isolada na Jamaica que, segundo o próprio site da empresa, a especialização é no tratamento de jovens e adolescentes problemáticos, entre 11 e 19 anos de idade.

Na web, estão centenas de artigos e depoimentos denunciando os maus tratos e abusos desta instituição, onde caminha a própria Besta e a Crueldade entre as crianças. Os pais pagam até o equivalente a R$ 5000,00 por mês para terem os seus filhos tratados nestes campos e muitas vezes não sabem o que acontecem por lá, visto que ligações e visitas são geralmente proibidas.

Alguns depoimentos podem ser conferidos através de movimentos como o TBfight.com e o cafety.org, que lutam pelo fim destes tipos de instituições. É barbaridade o que acontece. São recorrentes cenas de abuso, estupro, tortura psicológica e agressão física. Uma garota chegou a ficar três meses sem poder falar com alguém, isolada num quarto. As vezes são obrigados a comer uma “comida estranha”, que eles mesmo não sabem distinguir e são horríveis. Um garoto apanhava de chinelo e ficou sem as suas medicações – sendo que ele tinha sérios problemas para respirar.

Veja algumas fotos do local encontradas na web:

Numa discussão, os próprios pais relatam os abusos e demonstram arrependimento ao terem optado em colocar os seus filhos nestes locais. Um deles diz que assim que ele ficou sabendo que seu filho era mal tratado, ele o transferiu para um outro local. Então um outro participante da discussão disse: “Por acaso o problema não seriam vocês, pais que colocam os seus filhos em verdadeiras prisões?”. A resposta é comovente: “Não diga isto! Quando você for pai você irá entender o que é querer fazer de tudo para que seu filho ande por vias normais e as medidas desesperadas que muitas vezes tomamos. Jamais deixamos de amar os nossos filhos!”.

Estes são os fatos. A verdade nua e crua sem maiores detalhes ou ornamentos. Para mim, uma coisa que parecia somente ficção mostrou que a realidade é pior do que qualquer filme, por pior que seja. Sim, vivemos numa comunidade de monstros que querem ganhar dinheiro a qualquer custo moral ou ético, sem se importar em ferir valores, histórias ou tradições que um ser humano possa ter.

Pois estes Boot Camps são apenas empresas que visam o dinheiro e desprezam totalmente o homem, os tratando como lixos, com nojo e repugnância, como se fossem insetos miseráveis.

Quanto mais eu vejo, mais eu sinto vontade de desistir de tentar mudar alguma coisa. É duro, porém, devemos continuar. O caminho é a luta e a persistência,  só assim poderemos nos manter seres íntegros e que respeitam o direito e as escolhas dos outros.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.