O documentário “Burma VJ – Reporting From a Closed Country” (2009), comemora a coragem da Voz Democrática de Burma (DVB), um grupo de jornalistas que arriscaram suas vidas para documentar a revolta de 2007 contra a junta militar. Filmado por membros da DVB, as cenas foram contrabandeadas para o exterior, transformado em um estúdio em Oslo, transmitido em todo o mundo e – significativamente – mostrando o povo da Birmânia (rebatizada Myanmar pela junta em 1989).
Narrado por “Joshua”, uma figura do DVB, que é visto apenas na sombra para proteger seu anonimato. O filme começa com uma recapitulação rápida dos conturbados últimos 20 anos na Birmânia. Em 1995, O director John Boorman fez “Muito além de Rangun”- filme mediando, que ajudou a elevar a atenção do mundo sobre a “tragédia” invisível: os massacres de 1988 e da crueldade dos governantes militares da Birmânia. Em “Burma VJ”, imagens feitas por Joshua e seus colegas mostra como milhares de pessoas tomaram as ruas de Rangum em 2007 para protestar contra a falta de democracia. Muitos levantaram-se em protesto contra o governo pela subida de preços da gasolina. Essas manifestações públicas foram espontâneas e dispersas. Mas, quando os monges birmaneses, considerados sacrossantos na cultura do país – se juntou às fileiras crescentes, o conflito foi elaborado de forma mais acentuada.
Morei e trabalhei em Mae Sot, onde é a principal porta de entrada por terra entre a Tailândia e a Birmânia. A cidade também ganhou notoriedade por seu comércio de pedras preciosas bem como os serviços no mercado negro, como o tráfico de pessoas e drogas. Com uma população considerável de refugiados birmaneses em campos de refugiados ou no centro da cidade, onde imigrantes ilegais vivem assustados com os violentos policiais Tailandeses. Me sintia como estivesse entre a fronteira entre o Mexico e os Estados Unidos. Trabalhava perto da ponte da amizade, e via diariamente, birmaneses cruzando o Rio Moei para virem trabalhar de modo quase escravo no lado Tailandes. Era uma cena triste, que me feria muito. E, como tinha amigos na Birmânia, visitei o país e me apaixonei!
Em Mae Sot, conheci vários jornalistas, membros do DVB e por eles, aprendi sobre a Birmânia e sobre os protestos mais conhecido como “Revolta de 8888” – referente a data 8 de agosto de 1988. Desde 1962, o país era governado pelo regime socialista como um estado de partido único, liderado pelo general Ne Win. O Caminho para o socialismo virou a Birmânia em um dos países mais pobres do mundo. Em 8.8.88, estudante se espalharam por todo o país. Centenas de milhares de monges, crianças, estudantes universitários, donas de casa, e os médicos manifestaram-se contra o regime. A revolta terminou em 18 de setembro do mesmo ano, com um sangrento golpe militar. Milhares de mortes foram atribuídas aos militares durante a revolta. No filme “Burma VJ”, se fala que 3,000 pessoas foram mortas, enquanto as autoridades birmanesas afirmaram que o número foi em cerca de 350 pessoas mortas.
Durante a crise, Aung San Suu Kyi (Prémio Nobel da Paz), emergiu como um ícone nacional. No filme “Muito além de Rangun”, se tem uma idéia da importância dela para os birmaneses. Quando a junta militar organizou a eleição de 1990, o partido de Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia, venceu. No entanto, a junta militar se recusou a reconhecer os resultados e a colocou sob prisão domiciliar. Durante o lançamento de “Muito além de Rangun”, o filme teve um impacto além das telas de cinema. Apenas algumas semanas em sua temporada europeia, a junta militar birmanesa libertou Suu Kyi (retratada no filme), após 6 anos sob prisão domiciliar.
“Burma VJ” apresenta uma visão momentânea, granulada de Aung San Suu Kyi. Lá está ela, na porta da casa, sua prisão desde 1989. Ela expressa solidariedade para com os manifestantes que marcham para a sua casa. É uma cena comovente, e chorei muito porque convivi com muitos dos membros do DVB, e sei como a figura de Suu Kyi é impactante para vida do povo birmanes.
As cenas quando Joshua fala ao telefone com outros repórteres sobre o que está acontecendo nas ruas da Birmânia, e os negócios pragmáticos de começar suas filmagens enviados para o escritório norueguês, me pareceu que estava no roteiro e encenada por Helmer Ostergaard. Este material me pareceu convincente de uma peça com o filme real. E, certamente ajuda a preencher as lacunas, embora alguns possam se queixar que prejudica o status de um documento jornalístico de fato.
Muito das imagens parecem um pouco descuidadas em relação com o trabalho de jornalistas profissionais, mas o fato de que essas pessoas se atreveram a qualquer coisa é heróico. Joshua é o único elemento do filme, que seja visto como ficção. O personagem composta a intenção de representar todas as pessoas anônimas que arriscaram e arriscam suas vidas para manter seu governo moralmente responsável, e que personalmente me fez lembrar dos vários membros do DVB que conheci.
Desde que deixei a Tailândia, eu tenho acompanhado todos os acontecimentos na Birmânia. Ao assitir “Burma VJ”, vejo o papel desse documentário como uma mudança de paradigma no modo como a história é escrita. Os cidadãos já não precisam de contar suas histórias tristes para seus filhos e netos durante uma geração. Eles podem informar o mundo imediatamente como a narrativa e a luta da guerrilha Birmanesa fez com uma câmera na mão como um instrumento para não manter o seu país ainda fechado para o mundo. Triste é saber que milhares de birmaneses nascidos nos campos de refugiados na Tailândia, continuam desnacionalizados, não são nem Tailândeses nem Birmâneses. Não sei se “Burma VJ” já chegou em terras brasileiras, mas se o pessoal quiser se envolver com a causa, visite: http://burmavjmovie.com/
Indicado ao Oscar de melhor documentário em 2010.
Dirigido por Anders Ostergaard
Escrito por Anders Ostergaard, Jan Krogsgaard
Editado por Janus Billeskov Jansen, Thomas Papapetros
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