O Leitor, A Dama do Cachorrinho e Tchekhov

Três histórias de paixão: paixão por Anton Tcheckov, paixão pelo filme O LEITOR e pelo filme OLHOS NEGROS ou  A DAMA DO CACHORRINHO, um dos mais célebres do já citado escritor russo.

A Dama do Cachorrinho é um dos contos mais populares da literatura russa. Tão popular que recentemente se teve a oportunidade de ouvir a história sendo contada pelo protagonista Michael no filme O LEITOR lançado em 2008, e anteriormente também nas telonas sob o título OLHOS NEGROS, em 1987 pelas mãos do cineasta Nikita Mikhalkov. Evidentemente que em 118 minutos de duração, perde-se muito, já que se tem o hábito de comparar alhos com bugalhos, não se pode esquecer que a obra literária e a cinematográfica são linguagens distintas, ficando mais ou menos assim a sinopse do dirigido pelo russo:

A bordo de um navio no final do século XIX, italiano de meia idade conta sua história de amor a um russo. Ao visitar um spa, o homem, ainda casado, conhece uma mulher russa por quem se apaixona. Ela é infeliz no casamento e os dois transam. Ao voltar para casa, o homem está resolvido a deixar a esposa e se casar com a russa.
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Essa história fala sobre desencontros e encontros da vida; casamento, sentimentos falidos, amor, traição, adultério, vergonha, culpa…

Viajando um pouco mais pela obra literária, transcrevo aqui o resumo do conto.

Dmítri Dmítrich Gurov, casado e com três filhos, entediado com a vida matrimonial, há algum tempo passara a trair sua esposa. Mantinha aventuras passageiras com suas amantes e, amargurado com suas fúteis experiências amorosas, passa a referir-se às mulheres com desprezo.

Dmítri morava em Moscou e estava em Ialta, já há duas semanas, para descansar. Lá comentavam sobre uma dama que aparecera à beiramar e andava em companhia de um cachorrinho, como não sabiam seu nome a chamavam simplesmente: A dama do cachorrinho. Interessado, Dimitri a vê em diversos lugares passeando com seu cãozinho, até que, certa noite, ambos jantam no mesmo local e ele tenta aproximação, atraindo o cachorrinho.

Ana Sierguéievna, a dama do cachorrinho, era natural de S. Petersburgo e morava na cidade de S. com seu marido. Também se sentia infeliz no casamento e como estava sozinha em Ialta, conversa com o estranho para diminuir sua solidão. Os dois passaram a se encontrar todos os dias e Dmítri sente-se muito atraído por aquela mulher, até que o marido manda uma carta a Ana pedindo que ela retorne, pois ele está doente. Eles se despedem com a promessa de não mais se verem.

Dmítri retorna a Moscou e não consegue esquecer Ana. Mudado já não trata as mulheres com arrogância e percebe que está apaixonado. Resolve então ir para a Cidade de S. para reencontrar Ana. Descobre onde ela mora, mas não a procura esperando um encontro casual. Vai à estreia de uma peça teatral e encontra Ana que, perturbada com a presença do amante, revela que também não o esquecera, mas pede que ele vá embora, temendo o flagrante do marido.

Ana promete ir a Moscou e cumpre com a palavra. Passa a viajar periodicamente para encontrar o amante. Amam-se com sentimento de culpa, mas se perdoam ao perceber que aquele amor os transformara. Juntos conversam sobre o desconforto do amor às escondidas, pensam começar uma vida nova, mas não sabem como recomeçar. Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
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E por último, a sinopse do filme O Leitor

Nos anos de 1950, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o jovem Michael Berg adoece e passa a ser cuidado por uma bela e estranha mulher, Hanna, que tem o dobro de sua idade. Michael logo se recupera, mas Hanna foi embora. Ao encontrá-la, os dois têm um breve, mas intenso romance. Uma paixão cada vez maior, temperada com as leituras de obras clássicas que Hanna sempre pede para que o amado leia. Apesar disso, Hanna misteriosamente desaparece outra vez. Passados oito anos, Michael é agora um aluno de Direito que acompanha julgamentos de crimes de guerra cometidos pelos nazistas. É nesse momento que Hanna reaparece na vida do rapaz. Mas para a surpresa dele, a mulher está no banco dos réus do Tribunal. Enquanto o passado de Hanna é revelado, Michael descobre um segredo que poderá impactar na vida de ambos.
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O filme O Leitor é uma história bastante fiel ao livro e acaba abordando os mesmos sentimentos como em Olhos Negros: culpa, amor, vergonha, remorso pelo que não foi feito no momento oportuno. Define-se em uma única palavra: Romance. Uma singela história de amor.

A ficção e a realidade nas obras de Tchekhov (con)fundem-se de tal maneira que nos faz devanear tanto quanto o tocante filme O LEITOR, e este, por sua vez em inúmeras nuances de muitas outras histórias sensacionais brindando o expectador duas vezes pelo menos: 1º a obra cinematográfica, e 2º conhecendo histórias da literatura universal. Considerei super válido o diretor Stephen Daldry de uma sensibilidade  ter traduzido o romance do escritor alemão Bernard Schlink em outra linguagem artística, transformando-nos em protagonistas de sua obra, ou melhor, nos colocando na posição de Hanna -  a ouvinte – que se apaixona pelo adolescente Michael na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial e ambos começam uma aventura que marcará a vida do rapaz para sempre. Ela tem o dobro da idade dele o que não impede que daí nasça um sentimento de amor e desejo carnal. Há muitas outras diferenças entre o casal.  Em cada encontro, antes do sexo, ela pede que ele leia algo para ela, o que ele faz com prazer, lendo os clássicos da literatura: A Odisséia, Guerra e Paz etc, até chegar em A Dama do Cachorrinho. Ele é O LEITOR e nós somos OS OUVINTES, contracenando com a obra. Relembrei a história com saudosismo. Hanna as ouve com muita   atenção e só mais adiante que se entende o seu drama. É analfabeta. Sente vergonha dessa sua condição e em momento algum revela esse seu “segredo” ao amado.

Culpa dela e vergonha dele. Muito tempo depois quando já não estão juntos é que ele acaba descobrindo isso, por mero acaso esse segredo dela. Ela é julgada e condenada por crimes de guerra, e ele poderia salvá-la da condenação mas por vergonha decide se calar.

Culpa e vergonha são os ingredientes principais na tocante obra O LEITOR. Um filme riquíssimo em significados e interpretações que  levam a questionamentos perturbadores. É sem dúvida uma obra-prima.

A 4a paixão é que sou uma ótima ouvinte. Gosto que me contem histórias interessantes. É uma viagem indescritível. Explicar é impossível. Guardo boas recordações dos tempos de ouvinte. Acho que não tive infância…

Assista ao filme, leia o livro, não deixe de prestigiar. Aproveite para ver também MOSCOU de Eduardo Coutinho e conhecerá um pouco mais de Tcheckov. Deleitem-se! Afinal faz um  bem danado para a alma.

Karenina Rostov

Prisioneiros do Poder (Обитаемый остров. 2008)

Ok galera como prometido vamos voltar para o filme russo baseado no romance SCIFI, Prisioneiros do Poder ou no titulo original Обитаемый остров, o romance foi escrito pelos irmãos Arcady Strugatsky e Boris Strugatsky, o livro foi lançado em Portugal, nas minhas buscas no Google, não achei nada sobre o lançamento dele aqui no Brasil , uma pena .

Sinopse :
Uma nave da Terra faz um pouso de emergência num planeta remoto e inexplorado. A bordo, um único ocupante: o jovem idealista Maxim Kammerer. Maxim sai para ver o que derrubou a sua nave e acaba descobrindo que foi parar no rescaldo de uma guerra nuclear – e também que sua vida daí por diante não valerá nem um centavo. O livro está dividido em duas partes. Maxim e seu universo literário voltaram a estar presentes em outras obras dos irmãos Strugatsky, como The Time Wanderers.

Filmografia :
Bem agora que vi os dois filmes não justifica falar sobre cada um, pois o segundo é literalmente a continuação do primeiro .
O livro deu origem a um filme, Обитаемый остров no original em russo, (The Inhabited Island, em língua inglesa) teve sua primeira parte lançada na Rússia, em 18 dezembro de 2008, já comentado aqui no blog . O segundo filme é The Inhabited Island Fight.

O ano é 2157. Piloto do grupo de pesquisas no espaço em uma nave russa pilotada por Maxim Kamerrer, 22 anos, cai no planeta Saraksh habitado. Após longos anos de uma guerra nuclear, reina uma crise ambiental sobre o planeta, a sociedade está sobrecarregada com problemas sociais, e a paz estabelecida é bastante frágil. O astronauta valente vai se familiarizar com uma misteriosa terra governada pelo desconhecido Pai que lidera cinco governantes que manipulam a consciência dos habitantes utilizando emissores especiais. Aqui Maxim vai conhecer novos amigos, fazer inimigos, encontrar o seu amor e, após passar provações perigosas, fome, perigos mortais e perdas, vai liderar um movimento rebelde desafiando os cinco gananciosos governantes. Seu eu contar mais que isso, acho que filme perde a graça :)

Curiosidades: O livro The Inhabited Island foi escrito pelos irmãos Strugatsky em 1968. Para as pessoas separadas do mundo ocidental pela cortina de ferro, o livro tornou-se quase dissidente. Também para os dias atuais, o livro continua a ser um dos romances mais populares e preferidos pelos clássicos da ficção científica nacional. A critica fala que é uma sátira ao regime Soviético :)

O Filme e muito bem feito, rico em efeitos especiais e especial atenção a técnica usada que deixou as cores “vivas” e fazendo um lindo contraste nas cenas .

Atores principais: Pyotr Fyodorov, Yulia Snigir , Vasiliy Stepanov.

Off-topic , gostaram das fotos em 3D, estou fera nisso :)

Arca Russa (Russkij Kovcheg)

Arca Russa,de Alexandr Sokurov

Como não gostar de poesia, de arte, da literatura e da língua russa? Como não gostar de cinema russo? Esta última é a minha paixão incondicional, principalmente após assistir ao ARCA RUSSA de Alexandr Sokurov. Um filme diferente de tudo o que você certamente já viu, ou se ainda não viu, verá e concordará; ou se já viu algo parecido, creia que qualquer semelhança é mera coincidência. O filme é uma obra poética em versos.

A história de 300 anos de arte é contada em 97 minutos em um único plano-sequência, sem cortes, dentro de um dos maiores museus do mundo: o Palacete de Hermitage, em São Peterburgo, atravessando as 35 salas do museu, transformando a tela de cinema em um quadro vivo onde desfilam personagens importantes da história da Rússia: Pedro, O Grande; Catarina II, Nicolau e Alexandra.
O museu de Hermitage é tratado como um ser vivo e Sokurov empresta alma a ele, mesclando poesia, artes plásticas, literatura e sétima arte.

Arca Russa é uma experiência visual única e inesquecível.

Para contar essa história, o próprio diretor vaga pelo museu com a sua câmera no ombro, uma volta ao passado como se fosse uma das personagens do século XIX, saído das telas de um dos quadros, perdido e confuso, conversa com muitos que por ali passaram, pessoas importantes que o visitaram ou com os simples mortais visitantes do museu. As grandes festas que aconteciam lá nesse museu com grandes personalidades daquele século. Assiste-se ao filme e se tem aula de arte e história, além de um passeio panorâmico em todos os seus ambientes. E o tempo todo interage com os quadros, conversando com eles, se esbarrando com alguns personagens e se questionando “Onde afinal estou?” “O que está acontecendo?”

O diretor-protagonista dialoga com um único personagem (fantasma?) que aparece no museu e fala russo, com sotaque francês que será a partir desse encontro o seu guia pela excursão ao museu. Ele nada explica, pelo contrário, confunde mais ainda, apenas especula e tudo torna-se instigante e nada revelador. Caberá ao expectador desvendar alguns mistérios e as mensagens cifradas. O guia representa o conflito de identidade da aristocracia e da arte russa e ela insiste em dizer que “os russos estão sempre a copiar, não têm idéias próprias”. (Na vida nada se cria, tudo se copia). O expectador é que deverá fazer suas próprias descobertas e fazer parte desta viagem sem fim. O filme é matéria e essência; é todo o sentido da vida; morte e vida atuando juntos; presente e passado. Aqui não vale dizer a frase debochada “Quem vive de passado é museu”, pois o passado faz-se presente a todo instante, basta contemplar um dos quadros, basta se folhear um livro, abrir um álbum de fotos, reler uma carta amarelada…

O filme todo está em sintonia com a proposta do diretor de um único plano, mesmo assim, há quem diga que encontrou alguns cortes, como por exemplo, na cena em que ele fecha em um par de luvas, ou passa por trás de uma pilastra, importa mesmo? Só reparei nesses detalhes apontados por críticos na minha segunda sessão. Particularmente, acho irrelevante. Mas a crítica, sempre a crítica sutilmente invejosa…
Arca Russa abre portas em vez de fechá-las. “Estamos condenados a navegar sempre”, conclui o narrador ao final. Como em boa parte do cinema sokuroviano, fala de um navegar sem ter bússola como parâmetro, pois o passado, induz o diretor, não é necessariamente farol para o futuro.
Cotação: Excelente! Valeu “`a pena” desta poesia reler. Valeu a pena desta fonte beber.
Karenina Rostov
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Curiosidades sobre o diretor russo Alexandre Sokurov
* Sokúrov é considerado por Paul Schrader e Martin Scorsese, diretores que também atuam como teóricos de cinema, como o mais legítimo herdeiro do “estilo transcendental”, no qual inserem também o dinamarquês Carl T. Dreyer, o francês Robert Bresson e o russo Andrei Tarkóvski. O diretor também continua a tradição de mestres russos do cinema silencioso russo, como Serguei Eisenstein e Aleksandr Dovjenko. Seus filmes constituem experiências estéticas e intelectuais de impacto para platéias com atenções voltadas para algo além da velocidade e superficialidade oferecidas pelos grandes estúdios. Seu refinamento na construção visual das imagens, que o convertem em um “cineasta-pintor”, irritou os censores e poderes da antiga URSS, que proibiu todos os seu filmes de 1978 até 1987.
* A entrevista foi realizada em Cannes, em maio de 2002, nos dias subseqüentes à estréia mundial de Arca russa, uma produção ambiciosa, ambientada no interior do Museu do Hermitage (São Petersburgo) e registrada em uma única tomada sem cortes, de 96 minutos. Um feito técnico e artístico que deverá passar aos anais da história do cinema.
Gênero – Arte
Direção – Alexander Sokurov
Idioma – RussoAno de produção – 2002

País de produção – Russia, Finlandia, Dinamarca, Canadá, Alemanha

Doze Jurados e Uma Sentença (12 razgnevannyh muzhchin)

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A Lei é toda poderosa e constante, mas o que pode ser feito quando o perdão é maior que a Lei?” (B. Tosia)

O filme é uma releitura de ‘Doze Homens e Uma Sentença’ (12 angry men), de 1957. Abstraiam esse outro, ou qualquer um que traga um corpo de júri para dar a sentença final a um preso. Até porque verão nesse ‘Doze Jurados e Uma Sentença”, de Nikita Mikhalkov, uma Rússia mais atual. No que sobrou após as divisões territoriais, e mais, no que ficou de sentimento pela pátria em cada um deles. Além da real condição material desse povo. Também verão a guerra que não chega até nós. Não apenas por ser a História sendo escrita, mas porque muitas das guerras civis não interessam a grande mídia. Nem as da Rússia, pois hoje não é mais poderosa. Porque se essas guerras não forem em locais onde jorra petróleo, por exemplo, elas só terão um espaço pequenino, em pouquíssimas mídias.

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Entrando no filme… Um jovem checheno é acusado de ter assassinado o seu padastro, um oficial russo. Após toda as leituras dos autos, ouvido as testemunhas, a juíza dá uma sentença aos jurados: de que teriam que ser unânimes na sentença final. Ou doze votos dizendo que ele é culpado, ou doze como não-culpado.

Assim, os doze homens são levados para um ginásio de uma escola; já que parte do Tribunal está em obras. Ainda ao entardecer, estão convictos que todos irão votar em uníssono, e com isso sair logo dali. Então, sentados no meio daquela quadra de esportes partem logo para a votação. Querendo voltar aos seus afazeres; aos seus compromissos. Cumprindo logo aquela obrigação cívil.

Até que um deles vota em contrário aos demais. Mesmo perplexos, mesmo diante de fracos argumentos, não o convence. Então começa uma longa jornada noite adentro. Onde conheceremos todos eles. Ali estão: um taxista, um cirurgião, um físico, um coveiro, um professor, um engenheiro, um ex-militar, um artista, um condutor de trem, um diretor de reality show, um músico… Neles, ou melhor, por eles teremos de tudo: segregação étnica, religiosa; preconceitos ao status quo alcançados por alguns; raiva, frustração, tristeza… tudo vem à tona. Na tentativa de que todos cheguem a um só veredito.

O filme é longo, já aviso. Agora, é excelente! De nos manter atentos até o final. Pois repetindo o que citei no início, temos nele uma radiografia da sociedade russa de hoje. Não deixem de ver. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Doze Jurados e Uma Sentença (12 Razgnevannyh Muzhchin). 2007. Rússia. Direção: Nikita Mikhalkov. Elenco: Apti Magamaev, Sergei Makovetsky, Sergei Garmash, Aleksei Petrenko, Yuri Stoyanov, Sergei Gazarov, Nikita Mikhalkov, Mikhail Yefremov, Valentin Gaft, Aleksei Gorbunov, Sergei Artsybashev, Viktor Verzhbitsky, Roman Madyanov, Aleksandr Adabashyan. Gênero: Crime, Drama, Guerra, Suspense. Duração: 153 minutos.

Curiosidade: Indicado ao Oscar 2008 em Filme estrangeiro.

O Retorno (Vozvrashcheniye)

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O título de uma produção artística, seja uma novela, um conto, um romance, um filme, geralmente, nos dá uma vaga idéia do que se trata a obra. Foi o que pensei quando assisti ao primeiro filme do diretor russo Andrey Zvyagintsev: O RETORNO. A verdade é que nem sempre é possível, simples e fácil assim de se entender.

O Retorno é um deles; é uma caixinha de surpresas. É uma obra complexa. Chega o momento que a sessão de 105 minutos acaba, porém, a história em nossas mentes e entranhas, apenas começa. Começa e não termina … não termina bem.  E alguém acrescentaria: “Você faz o final da história, você decide”.

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A primeira leitura que se pode fazer da obra O RETORNO é de um pai ausente, que abandona o lar – esposa e dois filhos. E doze anos depois retorna como se nada tivesse acontecido, como se tivesse apenas ido à padaria comprar cigarros. No mesmo dia de sua chegada, ele toma banho, faz sexo com a esposa, dorme, se levanta e ceia com os seus como se tudo fosse a rotina de familiar.

Que mistério é esse? Por onde andou esse ser que chega do nada, sem nenhuma explicação e retoma esse rumo de sua vida? A partir daí começa todo questionamento possível dessa história sem fim. O que aconteceu? Por onde ele andou? E como a família viveu esse tempo todo de seu sumiço, ou desaparecimento sem uma explicação plausível para esse fato insólito?

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Os filhos agora adolescentes têm as mesmas dúvidas do expectador. “Será mesmo o nosso Pai?” Um dos filhos recorre ao álbum de família para tentar reconhecer essa pessoa que certamente nem se lembravam mais que um dia tiveram um. Como reconhecer o desconhecido? Mistério…

Na história de Homero, A ODISSÉIA, Penélope não reconheceu Odisseu (Ulisses), com quem dormiu uma vida inteira e teve com ele um filho, o ajuizado Telêmaco. A comprovação só veio por detalhes que ele a fez lembrar. Teve que provar que ele era ELE. Duas delas são: a cicatriz que ele tinha na perna causada pela mordida de um javali; a outra é a da cama do casal que fora construída do tronco de uma árvore.

E em O RETORNO? São tantos os questionamentos: um pai misterioso, desaparecido, estaria morto, ou fora seqüestrado? Por onde ele andou, o que fez, por que voltou? Teria outra família?

O filho mais novo cheio de medos e angústias; na presença do pai, aquele que amargurado e rancoroso é capaz de enfrentá-lo; o mais velho demonstra valentia e esperteza; na presença paternal, amável e submisso.

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A novidade é que a figura paterna ausente, aquele que na família deveria dar segurança e proteção desaparecido por mais de uma década chegando em um carro simbolicamente vermelho, com autoridade de quem esteve acompanhando todos os momentos e fases de crescimento físico e emocional dos que mais lhes são caros, e que deveria prezar, ordena-lhes que na manhã seguinte madruguem para um passeio de carro e pescaria. Um passeio e tanto. Uma história marcante, recheada de belas imagens poucos diálogos que fatos e ações falam por si. Belas imagens registradas também pela máquina fotográfica de um dos filhos.

E contar o filme seria estragar todas as surpresas que ele apresenta. Um formidável argumento para se ficar horas, dias contando e recontando-a, talvez na tentativa de desvendar alguns de muitos mistérios nele apresentados.

Como se ausentar durante um longo período e não perceber mudanças e transformações que o ser humano querendo ou não passa? Dois filhos do mesmo sangue, com personalidades tão diferentes.

São muitos os retornos, e fazer uma viagem pelas estradas da vida é uma tentativa de reencontrar e reconciliar um passado quase esquecido, talvez adormecido ou arquivado na memória de um povo, de uma família, e desenterrá-lo na ilha da fantasia, salvar o tesouro perdido, atar os elos perdidos, compartilhar com os entes queridos, recomeçar uma nova vida às vezes não é fácil ou possível.

Nem sempre se consegue salvar a caixinha de pandora e desvendar o seu conteúdo. Talvez seria mais cômodo deixá-lo no fundo do lago como se ela nunca tivesse existido.

Um filme sensível, formidável e apaixonante…uma caixinha de belas e poéticas surpresas.

Por:  Karenina Rostov.     Blog:  Letras Revisitadas.

O Retorno (Vozvrashcheniye). 2003. Rússia. Direção: Andrey Zvyagintsev. Elenco: Vladimir Garin, Ivan Dobronravov, Konstantin Lavronenko, Natalya Vdovina e Galina Petrova. Gênero: Drama. Duração: 105 minutos.

Moscou em Chamas (Moscow Heat)

Como o “Cinema é a minha praia!” gosta de ver o que se passa pelo mundo. Fui ver o que a Rússia tem feito em filmes de ação. De cara, as primeiras cenas me fizeram ficar em dúvida, se eu já teria visto o filme. Mas sendo de 2004, não poderia ter sido. Talvez pode ser um remake. O certo é que a cena com os dois esgrimistas deixou forte essa impressão.

Depois, um tiroteio entre policiais e bandidos me fez foi rir por parecer um vídeo caseiro. Ou até um cenário do jogo de paintball. Confesso que teve momentos que achei que iria entrar o tema da SWAT e os Trapalhões. E como ainda era o início do filme, o bandido, o russo Nikolay (Richard Tyson) consegue escapar do cerco policial. Não sem antes atirar um senhor projétil num dos tiras que tentava dar o flagrante na venda de armas. A tal arma estilhaça uma placa de concreto e… Não faz nenhum rombo no tira.

Após esse filme eu me senti analfabeta no quesito armas. Eu já não entendia nada. Fiquei ainda mais perdida! Desconhecia o poder de fogo de umas pistolas ante a uma metralhadora. As armas e o som que saem delas é um show a parte nesse filme.

No encalço do Nikolay, para vingarem a morte do tira, seguem como turistas para a Rússia, Roger (Michael York) e Rudy (Robert Madrid). Por conta de uma tentativa frustrada, Rudy é ferido e Roger é detido. Onde conhecem um Capitão. O jovem Vlad (Alexander Nevsky). Que em vez de deportá-los, resolve continuar com eles para desbaratar toda a quadrilha. Vendo Vlad fiquei pensando de quem esse jovem viu muitos filmes, se Stalone, se Schwarzenegger. No final ele diz. O que me fez rir por confirmar a pose do cara.

Ah! O que fizeram da Rússia? Que nem tudo tem que ser verossímil, eu até concordo. Mas teve cenas… Não imaginável na Rússia, como a da Estação de Trem.

Enfim, se têm outros filmes para assistirem, o façam. Não desperdicem tempo com esse. Eu nem acredito que vi até o final. Mas vi.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Moscou em Chamas (Moscow Heat). 2004. Rússia. Direção: Jeff Celentano. Elenco: Michael York, Alexander Nevsky, Richard Tyson, Robert Madrid, Adrian Paul, Mariya Golubkina, Joanna Pacula. Gênero: Ação, Policial. Duração: 89 minutos.