Uma noite em 67

Por: http://notobviouscinema.wordpress.com/

Há quarenta e tantos anos boa parte da população brasileira deixou de lado a dureza de viver na ditadura e se encantou pela estória de um rapaz que, oprimido por uma namorada que só pensava em casar, saiu pelas ruas pensando na vida e acabou descobrindo a alegria na liberdade. Transmitida ao vivo pela televisão, a estória foi contada por um narrador que com seu sorriso sedutor arrancou aplausos de uma plateia que no início não parecia disposta a um assunto tão frívolo para aquela época de passeatas e discussões politizadas.

Esta cena é um dos pontos altos do documentário Uma Noite em 67 que chegou aos cinemas: Caetano Veloso trouxe um conjunto argentino (Beat Boys) com guitarras elétricas a um festival de música popular brasileira- quase um sacrilégio na época. Tinha tudo para dar errado. Mas ao contar do rapaz com uma namorada monotônica (“se eu tomo uma Coca-Cola ela pensa em casamento”) que descobre a beleza ao sair andando pelas ruas sem “nada no bolso ou nas mãos” e decide seguir vivendo com o “peito cheio de amores vãos”, Caetano surpreendeu e cativou a plateia que lotava o teatro – e a nós que assistíamos pela televisão – fazendo com que todos se juntassem a ele perguntando: “por que não?” [*]

Uma noite em 67 retrata um momento único na história: numa época ainda não monopolizada pelas emburrecedoras telenovelas, a televisão dedicava um espaço nobre à música. E naquele ano um grupo de intérpretes mal saídos dos vinte anos e ainda sendo descobertos pelo povo se viu reunido em um festival que havia se tornado um dos maiores eventos daqueles dias. Afinal, passados 43 anos, os nomes soam familiares: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Rita Lee (na época meramente uma integrante dos Mutantes), o quarteto MPB4, Edu Lobo, Elis Regina e o ainda Jovem Guarda Roberto Carlos.

Não espere nada de inovador no formato de Uma noite em 67: o filme é uma sequência de depoimentos dos sessentões que fizeram aquele evento e cenas do festival. O ponto positivo é que a maior parte dos depoimentos (de jurados, intérpretes e especialmente do produtor) é interessante, com boas revelações – algumas surpreendentes, como o que aconteceu com Gilberto Gil nos minutos que antecederam sua apresentação final, e um motivo pelo qual Chico Buarque teria ficado fora da Tropicália.

As músicas que se destacaram no festival são mostradas sem muitos cortes, e isso é uma das virtudes do filme: os depoimentos te deixam curioso para ouvir a música depois que você fica sabendo de alguns detalhes. E a vencedora Ponteio, de Edu Lobo, tem até direito (merecido) a um bis que não é repetitivo.

Tudo isso é ótimo, mas se eu tiver que escolher um motivo para recomendar o filme fico com outra coisa: as cenas que mostram as entrevistas feitas nos bastidores do Teatro Paramount. Você poderá ver os entrevistados sessentões ainda jovens, poderá se deliciar com as perguntas dos repórteres Reali Jr. (que chama Caetano de Veloso) e Cidinha Campos (com pelo menos um momento constrangedor). Mas o melhor é ver a absoluta confusão da cena: enquanto rola uma entrevista, captada por uma câmera que parece estar alguns andares acima, uma multidão de cantores e músicos que esperam sua vez de ir ao palco e de fotógrafos e repórteres atrás de notícia se mistura a uma multidão de pessoas que se movimentam sem que se possa ter a menor ideia do que fazem ali.

Estou me segurando para não escrever mais sobre o filme sob risco de entregar alguma cena importante e estragar a surpresa. O que não me impede de escrever um pouco sobre o que eu acho deste festival.

O festival de 67, como diz seu nome, foi um festival de música – e teve realmente ótimas músicas com arranjos inovadores. [**] Para mim, no entanto, o que chamou a atenção foi que os cinco primeiros colocados tinham letras fantásticas. A poesia de Ponteio, o livre fluxo de pensamento de Alegria, Alegria, a metáfora complexa mas facilmente decifrada de Roda Viva e, coincidentemente, duas letras que começam eufóricas e mergulham no fundo do poço: a esperança que se transforma em dor em Maria Carnaval e Cinzas, a camaradagem que se banha em sangue em Domingo no Parque.

Quanto ao resultado do festival, descobri surpreso que o jurado Sergio Cabral [***], apesar de ter votado em Ponteio, pensou melhor e acabou preferindo a música que por mim deveria ter vencido o festival.

O site do filme, por sinal, é muito bem feito.

[*] Alegria, Alegria traz o que provavelmente é a mais rica e poética descrição de bancas de jornais jamais escrita. É nelas que “o sol … me enche de alegria e preguiça”, que “o sol de reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas” e em “Cardinales bonitas”. Evidentemente que a letra de Caetano não é assim tão literal – pra início de conversa O Sol era o nome de um jornal não alinhado. E a namorada, afinal, pode ser outra coisa: naqueles tempos em que se cobrava uma postura política com a mesma insistência de uma solteirona desesperada, a letra pode também mostrar que o jovem não quer marchar (ao contrário, ele caminha, e contra o vento) nem abraçar ideologias (decide ficar “sem livros e sem fusil”).

Alegria, Alegria é figurinha fácil no YouTube. Escolhi este clip por ter imagens de Caetano no Festival e – principalmente – por mostrar O Sol.

[**] destaque para o arranjo orquestral de Domingo no Parque e os arranjos vocais de Ponteio e Roda Viva.

[***] trata-se do SC e não do filho dele.

A Enseada (The Cove) – 2009

Por: Waguity®.
Os documentários sempre nos ensinam algo e neste não foi diferente. Porém, neste caso foi algo que assusta: Golfinhos podem “cometer suicídio”. E eu diria que isso é exatamente o fio da meada para este documentário.

Em 1964 o mundo ficou fascinado com a estréia da série televisiva Flipper, que existiu até 1967. Nada seria como antes! Todos se encantaram com os golfinhos e pela genial capacidade destes bichinhos e pela impressionante capacidade de realizarem manobras complexas e capacidade de aprenderem. É! Nada seria mesmo como antes! E a partir daí viraram estrelas de longa-metragem, além de virarem febre em parques aquáticos, cujo maior representante é o que ainda é o mais famoso de todos: SEA WORLD.

Richard O´Barry foi o responsável pelo treinamento do golfinho original da série televisiva. É justamente a partir deste treinamento e o seu desfecho cruel que terminou gerando uma “maldição” para estes seres e que serve de base para o documentário criado por Louie Psihoyos.

Golfinhos viraram um negócio rentável onde um golfinho capturado chega a custar uma pequena fortuna. No caso do documentário ele tem como foco uma pequena enseada na ilha de Taiji, no Japão, onde os golfinhos estão sendo massacrados em uma quantidade assustadora que pode beirar a marca de 23 mil golfinhos mortos por ano.

O golfinho original da série morreu nos braços de Richard O´Barry, de um certo modo um suicídio e o treinador jamais se recuperou deste episódio pois a fatalidade lhe despertou para a cruel realidade de que ele foi o estopim para todo o triste cenário que surgiu desde então. Fica explícito desde o começo do documentário que Richard O´Barry já foi detido em inúmeras ocasiões onde ele “vestiu a camisa” em prol da defesa destes animais. O que levou a sua prisão em varias localidades do globo. Virou a sua cruzada pessoal, que de certo modo tenta compensar e exorcizar os seus fantasmas do passado.

A equipe envolvida com o documentário monta uma grande operação “de guerra” e partem para o Japão com a difícil missão de registrar este massacre pela primeira vez e através de difíceis incursões noturnas eles conseguem (sempre sob risco eminente de serem detidos pelas autoridades locais) instalar câmeras camufladas e de visão infra-vermelha e como não poderia deixar de ser eles são perseguidos pela polícia e ameaçados pelo governo, que ganha com os exploradores da indústria de carne de golfinho (outro detalhe assustador é que tal carne não serve para consumo por possuírem uma quantidade de mercúrio extremamente danosa para os que a consumirem).

O filme é o registro desta aventura com um alto grau de risco e com uma mensagem de alerta muito importante: Está ocorrendo uma matança indiscriminada de golfinhos e o que agrava ainda mais a situação é o fato de não existirem leis que protejam estes seres deste massacre gigantesco e estúpido!

O que as câmeras registram é simplesmente estarrecedor! A tal enseada fica com suas águas totalmente tingidas de vermelho a custa do sangue destes seres e o clímax vem por conta de Richard O´Barry, quando este chega a uma convenção de preservacionistas, expondo numa tela de LCD as imagens registradas por ele e sua equipe. No fim o telespectador é convidado a expor o seu manifesto e a não fechar os olhos diante de tão cruel realidade.

Definitivamente é um alerta que não podemos fechar os olhos enquanto ele ocorre indiscriminadamente e com o aval de autoridades de peso. Não é a toa que The Cove ganhou o Oscar 2010 de MELHOR DOCUMENTÁRIO. Um grito de alerta, um prêmio mais do que justo e merecido.

Por: Waguity®.

FLORDELIS – Basta uma palavra para mudar

Creio que quase sempre é necessário um momento de loucura para se construir um destino“. (Marguerite Yourcenar)

Ao término do filme, uma das perguntas que me fiz, foi se teria feito parecido. Atualmente, não, com certeza. Mas lembrando de quando adolescente… ai um talvez. Pois quando se é bem jovem, além do maior atrevimento, perde-se o discernimento de uma autoproteção. Algo como: não se tem noção do perigo.

Baseado, e até interpretado pela Flordelis. Moradora da Favela do Jacarezinho. Ela empunhou a bandeira de salvar a vida de jovens à mercê do tráfico, das milícias, das ruas… Começou jovem nessa missão. Pela sua trajetória de vida, pelos perigos passados, esse seu lado altruísta só poderia ter sido nato. Nossa! Tem lances de tirar o fôlego. O que a despertou de vez para essa vida, onde mergulhou de corpo e alma, fora que de repente, um grupo de sobreviventes de uma certa Chacina, pediu-lhe abrigo. Mais! Que os protegessem.

Até então, Flordelis ia salvando, ou tentando fazê-lo, um por um. Um voluntariado solitário que ia aos poucos ganhando o reconhecimento das mães que se sentiam incapazes dessa luta. Mas ainda ficava restrito às comunidades. Sua ‘fama’ era entre eles. A partir de dar guarida a um grupo maior, ela ganhou também as manchetes. Mas nesse início, pelo lado negativo. Sendo mostrada de louca a raptora de menores. Chegando a ser perseguida por policiais. O sociólogo Betinho, foi uma voz em sua defesa. Outro lado positivo por conta dessa mídia, fora dois irmãos que fizeram uma Ong para ajudá-la.

Confesso que não lembrava da estória dela, nem vendo o Documentário. Pois ao longo dele, também nos é mostrado como figurava nas reportagens. Chega a dar revolta. Até porque com isso dificultavam o trabalho/missão dela. De alguém que realmente estava fazendo algo para aquelas pessoas.

O subtítulo – Basta uma palavra para mudar -, de imediato, vem a ideia de conversão religiosa. Mas diferente da maioria dos religiosos, o que ela queria ouvir da própria pessoa, era que tivesse mesmo com vontade de sair daquele submundo. Não forçava ninguém. Agora, do momento que quisessem mudar, ela faria de tudo para ajudá-lo.

Vários atores – Reynaldo Gianecchini, Letícia Sabatella, Deborah Secco, Marcelo Antony, Letícia Spiller, Cauã Reymond, Alinne Moraes, Fernanda Lima, Rodrigo Hilbert, Ana Furtado, Giselle Itiê, Isabel Fillardis, Fernanda Machado… -, deram vida as estórias. Suas performances foram ótimas. Há cenas tocantes. Há cenas chocantes.

Numa análise mais técnica, eu ressaltaria:
1- Faltou ao Diretor um timming para os cortes. Poderia ter enxugado um pouco mais as cenas onde os atores vivenciaram as estórias de alguns de quem Flordelis ajudou.
2- Em relação a Trilha Sonora. Poderia ter mesclado outros ritmos com as músicas Gospel. Primeiro, que na realidade das Favelas/Comunidades se ouve de quase um tudo. Depois, tiraria a carga de uma Evangelhização. Só a ‘Eu só quero é ser feliz’ que entrou na trilha musical. Talvez, foi aceita pela letra: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci…”
3- Por último, que uma outra atriz poderia ter interpretado a Flordelis. Cabendo a ela, narrar a sua própria estória. Enfim, para dar um caráter documental mesmo a sua estória de vida.

Mas nada tira os méritos dessa mulher! Um homem não teria feito o que ela fez. Porque iria querer primeiro ter um local onde abrigar as crianças, e jovens. Não estou nem entrando no que toca, os que querem ser um Pastor. Refiro-me aos que buscam ajudar o próximo como Profissão de Fé. E aqui fica com um lado genuinamente feminino: o de ser mãe. Na plenitude que representa esse ato. Flordelis foi uma Mãe para eles, a Mãe Flor. Como a maioria das mães em defesa dos seus: age primeiro, pensa depois.

Recomendadíssimo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Flordelis – Basta uma palavra para mudar. 2009. Brasil. Diretor: Marco Antônio Ferraz e Anderson Correa. Gênero: Documentário, Drama. Duração: 90 minutos.

Burma VJ – Reporting from a Closed Country

O documentário “Burma VJ – Reporting From a Closed Country” (2009), comemora a coragem da Voz Democrática de Burma (DVB), um grupo de jornalistas que arriscaram suas vidas para documentar a revolta de 2007 contra a junta militar. Filmado por membros da DVB, as cenas foram contrabandeadas para o exterior, transformado em um estúdio em Oslo, transmitido em todo o mundo e – significativamente – mostrando o povo da Birmânia (rebatizada Myanmar pela junta em 1989).

Narrado por “Joshua”, uma figura do DVB, que é visto apenas na sombra para proteger seu anonimato. O filme começa com uma recapitulação rápida dos conturbados últimos 20 anos na Birmânia. Em 1995, O director John Boorman fez “Muito além de Rangun”- filme mediando, que ajudou a elevar a atenção do mundo sobre a “tragédia” invisível: os massacres de 1988 e da crueldade dos governantes militares da Birmânia.  Em “Burma VJ”,  imagens feitas por Joshua e seus colegas mostra como milhares de pessoas tomaram as ruas de Rangum em 2007 para protestar contra a falta de democracia. Muitos levantaram-se em protesto contra o governo pela subida de preços da gasolina. Essas manifestações públicas foram espontâneas e dispersas. Mas, quando os monges birmaneses, considerados sacrossantos na cultura do país – se juntou às fileiras crescentes, o conflito foi elaborado de forma mais acentuada.

Morei e trabalhei em Mae Sot, onde é a principal porta de entrada por terra entre a Tailândia e a Birmânia. A cidade também ganhou notoriedade por seu comércio de pedras preciosas bem como os serviços no mercado negro, como o tráfico de pessoas e drogas. Com uma população considerável de refugiados birmaneses em campos de refugiados ou no centro da cidade, onde imigrantes ilegais vivem assustados com os violentos policiais Tailandeses. Me sintia como estivesse entre a fronteira entre o Mexico e os Estados Unidos. Trabalhava perto da ponte da amizade, e via diariamente, birmaneses cruzando o Rio Moei para virem trabalhar de modo quase escravo no lado Tailandes. Era uma cena triste, que me feria muito. E, como tinha amigos na Birmânia, visitei o país e me apaixonei!

Em Mae Sot, conheci vários jornalistas, membros do DVB e por eles, aprendi sobre a Birmânia e sobre os protestos mais conhecido como “Revolta de 8888” – referente a data 8 de agosto de 1988. Desde 1962, o país era governado pelo regime socialista como um estado de partido único, liderado pelo general Ne Win. O Caminho para o socialismo virou a Birmânia em um dos países mais pobres do mundo. Em 8.8.88, estudante se espalharam por todo o país. Centenas de milhares de monges, crianças, estudantes universitários, donas de casa, e os médicos manifestaram-se contra o regime. A revolta terminou em 18 de setembro do mesmo ano, com um sangrento golpe militar.  Milhares de mortes foram atribuídas aos militares durante a revolta. No filme “Burma VJ”,  se fala que 3,000 pessoas foram mortas, enquanto as autoridades birmanesas afirmaram que o número foi em cerca de 350 pessoas mortas.

Durante a crise, Aung San Suu Kyi (Prémio Nobel da Paz), emergiu como um ícone nacional. No filme “Muito além de Rangun”, se tem uma idéia da importância dela para os birmaneses.  Quando a junta militar organizou a eleição de 1990, o partido de Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia, venceu. No entanto, a junta militar se recusou a reconhecer os resultados e a colocou sob prisão domiciliar. Durante o lançamento de “Muito além de Rangun”, o filme teve um impacto além das telas de cinema. Apenas algumas semanas em sua temporada europeia, a junta militar birmanesa libertou Suu Kyi (retratada no filme), após 6 anos sob prisão domiciliar.

“Burma VJ” apresenta uma visão momentânea, granulada de Aung San Suu Kyi. Lá está ela, na porta da casa, sua prisão desde 1989. Ela expressa solidariedade para com os manifestantes que marcham para a sua casa. É uma cena comovente, e chorei muito porque convivi com muitos dos membros do DVB, e sei como a figura de Suu Kyi é impactante para vida do povo birmanes.

As cenas quando Joshua fala ao telefone com outros repórteres sobre o que está acontecendo nas ruas da Birmânia, e os negócios pragmáticos de começar suas filmagens enviados para o escritório norueguês, me pareceu que estava no roteiro e encenada por Helmer Ostergaard. Este material me pareceu convincente de uma peça com o filme real. E, certamente ajuda a preencher as lacunas, embora alguns possam se queixar que prejudica o status de um documento jornalístico de fato.

Muito das imagens parecem um pouco descuidadas em relação com o trabalho de jornalistas profissionais, mas o fato de que essas pessoas se atreveram a qualquer coisa é heróico. Joshua é o único elemento do filme, que seja visto como ficção. O personagem composta a intenção de representar todas as pessoas anônimas que arriscaram e arriscam suas vidas para manter seu governo moralmente responsável, e que personalmente me fez lembrar dos vários membros do DVB que conheci.

Desde que deixei a Tailândia, eu tenho acompanhado todos os acontecimentos na Birmânia. Ao assitir “Burma VJ”, vejo o papel desse documentário como uma mudança de paradigma no modo como a história é escrita. Os cidadãos já não precisam de contar suas histórias tristes para seus filhos e netos durante uma geração. Eles podem informar o mundo imediatamente como a narrativa e a luta da guerrilha Birmanesa fez com uma câmera na mão como um instrumento para não manter o seu país ainda fechado para o mundo. Triste é saber que milhares de birmaneses nascidos nos campos de refugiados na Tailândia, continuam desnacionalizados, não são nem Tailândeses nem Birmâneses. Não sei se “Burma VJ” já chegou em terras brasileiras, mas se o pessoal quiser se envolver com a causa, visite: http://burmavjmovie.com/

Indicado ao Oscar de melhor documentário em 2010.

Dirigido por Anders Ostergaard
Escrito por Anders Ostergaard, Jan Krogsgaard
Editado por Janus Billeskov Jansen, Thomas Papapetros

Rita Cadillac – A Lady do Povo

O documentário de Toni Venturi sobre a mais famosa ex-dançarina da Discoteca do Chacrinha não é um primor de realização sobretudo no quesito montagem, mas é uma merecida homenagem a uma figura lutadora de assombrosa autenticidade.

Em tempos de pseudocelebridades que não resistem aos primeiros sinais de celulite, Rita Cadillac permanece há décadas na mídia sem falsos pudores admitindo uma breve fase de prostituição ao mesmo tempo que demonstra genuíno desconforto nas filmagens de uma produção pornográfica. Ao contrário de outros artistas que também fizeram carreira baseada no corpo, ela parece não ter problemas em declarar que gostaria de ser enterrada de bruços para ser lembrada pela volumosa anatomia que a tornou conhecida.

Há passagens hilariantes como suas apresentações em Serra Pelada e no presídio Carandiru e um recente e inusitado “casamento surpresa” que surpreendeu o próprio noivo. Os depoimentos dos cineastas com quem trabalhou, do primeiro namorado e da divertida travesti Rogéria ajudam a desvendar um pouco da personagem extravagante e da mulher simples de olhar triste chamada Rita, que prepara o feijão com arroz na cozinha modesta, compra pão no ambulante e escolhe os legumes na feira de cara limpa ansiando avidamente por uma tradicional vida em família.

Já a Cadillac esvoaça deslumbrante num carrão cor-de-rosa, deixa que os homens beijem as nádegas nos shows (Acreditem, com impressionante respeito e até alguma ingenuidade) e roda, roda e avisa um minuto para o comercial girando o indicador languidamente no popular programa de auditório que começou.

No fundo, depois de tantos anos, as duas já são a mesma pessoa: Um ser humano forte e verdadeiro, que como ela mesma canta na sua singela e paradoxal canção: ‘É bom para o moral’.

Carlos Henry

Rita Cadillac – A Lady do Povo (Rita Cadillac – A Lady do Povo). 2007. Brasil. Direção: Toni Venturi. Roteiro: Daniel Chaia. Elenco: Depoimentos de: Rita Cadillac, Rogéria, Drauzio Varella, Hector Babenco, Djalma Limonge Batista, Leleco Barbosa, Carlos César, Luís Andrade, Lourdinha, Marinho. Gênero: Documentário. Duração: 75 minutos. Classificação: 18 anos.

O Homem que Engarrafava Nuvens

Quando assisti ao trailer confuso do filme de Lírio Ferreira, não dava sequer para perceber do que se tratava e parecia uma colcha de retalhos. E é exatamente o que é.  Só que muito bem costurada, acabada e rica em detalhes.

O tema pretende decifrar um pouco o célebre compositor Humberto Teixeira, que em parceria com Luiz Gonzaga, espalhou o ritmo do baião pelo mundo, mas acaba abrangendo todo o cenário da música popular brasileira em várias épocas.

Praticamente todos os cantores importantes aparecem no filme: De Carmen Miranda a Chico Buarque passando por Gal Costa numa brilhante apresentação em parceria com Sivuca, até uma versão magnífica de Maria Bethânia para “Asa Branca” que é um presente para os fãs. Isso sem contar com figuras como Belchior, Jorge Dória, Raul seixas e Ilka Soares.

No meio da salada saborosa de sons, imagens e ritmos, surge Miho Hatori entoando um “baião asiático”, Bebel Gilberto divulgando o famoso arrasta-pé em inglês bossa-nova sofisticado e um cantor americano que adapta o êxodo nordestino de “Asa Branca” com um episódio parecido nos Estados Unidos provando que temos todos quase a mesma estória.

Denise Dumont, atriz e filha de Humberto, é o fio condutor do roteiro recheado de saudades dos pais e do país. Ela mora no exterior há décadas e ainda enche os olhos com sua beleza e voz especiais inexplicavelmente afastados das telas desde então. Aproveite então as cenas de “Radio Days” do Woody Allen e “Terror e Êxtase” que aparecem no final e se não tiver pressa, fique até os créditos acabarem para se deleitar com um pouco mais de Denise. Sua investigação sobre o pai, que ela admite não ter conhecido bem, esbarra numa emocionante entrevista com a mãe que revela detalhes do caráter déspota do marido esclarecendo a “fuga” das duas para outros países e o fato da atriz não usar o sobrenome de Humberto artisticamente.

Uma curiosa contradição com o suposto caráter poético e sensível do artista capaz de colecionar arco-íris e engarrafar brumas.

Carlos Henry

This Is It

Michael Jackson

Em 25 de junho de 2009, o mundo dava o adeus a mais um de seus grandes nomes: Michael Jackson. Foi com grande tristeza que fãs do mundo todo, choraram e testemunharam sua dramática partida para o além. O legado do MJ fica até hoje. É mais fácil achar coovers dele por aí, do que qualquer outra coisa. Crianças o imitam exaustivamente nos programas dominicais, seu moonwalké marca registrada, o seu ”Who’s Bad?” é dito com fervor e suas músicas cantadas e apreciadas por todos.

Só que antes da sua partida, o astro queria encerrar a carreira de outra forma, fazendo uma maratona de shows na Inglaterra, onde segundo ele, “tocaremos o que meus fãs pedirem!”, e dito isso, dirigido por Kenny Ortega (famoso por dirigir musicais, como o recente High School Musical e por cenas dançantes em filmes como Dirty Dancing e Footloose) e contando com uma equipe invejável, o cantor preparava o show da sua vida. Seriam 50 shows empolgantes, maravilhosos, iluminados e megalomaníacos, coisa que só o Rei do Pop poderia proporcionar.

No auge dos seus 50 anos, ainda com o gás do garotinho que cantava ABC e do marmanjo que fazia todo mundo bailar com Don’t Stop Til You Get Enough, ele dança, canta, usa e abusa de efeitos especiais, exige de seus músicos e participa ativamente do processo criativo do seu show. Diferente daquele MJ recatado e mais excêntrico que o normal, como infelizmente ficou estigmatizado. Ele se mostra atencioso, ouve, discute, aprende, assume erros e se mostra humano. A realeza é modesta e iria agradar todos os seus súditos.

As 100 horas gravadas para o arquivo pessoal do astro, foram cuidadosamente condensadas em pouco mais de 100 minutos, e renderam um documentário interessante, que não apenas mostrava os bastidores do show que nunca aconteceu, mas mostrava também as facetas de um ídolo que planejava retornar com tudo. Particularmente não colocava muita fé, achava que seria daqueles documentários maçantes, sem graça, movido a depoimentos de pessoas próximas a ele. Mas com 5 minutos de projeção, mudei de idéia e por quase duas horas, fui agraciado com cenas belas, com passagens interessantes, um This Is It fora do comum, digno do Rei!

Começa com entrevistas dos bailarinos do show, do processo de seleção deles, e da emoção de estarem tão pertos de quem tanto os inspirou. O filme não tem a pretensão de divulgar o show, mesmo isso sendo inevitável, mas quer na verdade, nos fazer ver o homem que ninguém via. Em nenhum momento ele é o Michael Jackson que as câmeras flagravam, fraco, doente, feio, mas sim, um Michael Jackson ativo, feliz, animado, e com vontade de dar a volta por cima (por cima de todo furor que tanto lhe atrapalhou a carreira).

Os minutos seguintes são embalados por ensaios animados, e musicas que fizeram história. Smoth Criminal, Beat It, I’ll Be There, Billie Jean (ele ficou devendo o Moonwalk ¬¬), Thriller entre outros sucessos embalam o filme de ponta a ponta. Mas o mais bacana fica guardado para os bastidores das músicas. O processo de criação dos cenários, as coreografias, os efeitos especiais e as filmagens extras que eles fizeram para enriquecer mais ainda o show, tudo deixa o filme mais interessante a cada momento.

Só que de repente, o filme foge da sua proposta (ou pelo menos vi assim), quando insere uma crítica não ácida, mas que incomoda a quem assiste, sobre o meio ambiente.
Os minutos finais giram todo em torno da música Earth Song e ainda conta com palavras do próprio Michael sobre o meio ambiente e a preservação do mundo. Não que eu esteja discordando do sonho do astro, mas apenas acho que usaram de forma errada essa parte e acabaram deixando as coisas meio confusas.

Mas tirando esse pequeno detalhe citado acima, é um filme mais que obrigatório para os fãs. Vi gente chorando no cinema, vi gente cantando no cinema, vi gente dançando no cinema e vi gente gritando ”Michael I Love you!” o tempo todo. Não fiquei incomodado, pelo contrário, acho que ele deve ter ficado feliz com as demonstrações de carinho mundo afora.

E pra quem não curte muito, fica a dica pra conhecer melhor o trabalho que ele deixou para as futuras gerações apreciarem.

O fim do filme deixa uma mensagem clara: o show deve continuar!

Não percam!

Nota: 9,0

This Is It, 2009

Direção: Kenny Ortega.
Duração: 112 minutos.

This Is It

GARAPA SEM PASTEL

Garapa_Documentário

Comer é uma necessidade do estômago; beber é uma necessidade da alma.”
Victor Hugo

A linguagem de uma narrativa cinematográfica no formato documental é de extrema importância e valor já que é um constante aprendizado, acrescentando novas informações, somando experiências, matando curiosidades ou especulações de um determinado assunto de total ou parcial conhecimento, que se domina ou não.

Fazer um filme DOCUMENTÁRIO, a princípio, parecer ser algo fácil e simples, bastando uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Mas nada é o que parece ser. A dificuldade é tamanha, tal qual a uma superprodução recheada de efeitos especiais.

José Padilha, cineasta brasileiro, ganhador de muitos prêmios pelos seus filmes TROPA DE ELITE e ÔNIBUS 174, realizou recentemente um documentário intitulado GARAPA.

Garapa é uma bebida nacionalmente conhecida como caldo de cana. Garapa pode ser também qualquer bebida refrigerante mistura de água com açúcar.

O cinema DOCUMENTÁRIO é fascinante. O fascínio está na forma de abordagem, na temática e em todos os ingredientes inseridos. O fascínio daquilo que temos sede de aprender e apreender. E o aprendizado às vezes é doloroso; e a apreensão às vezes maltrata a alma.

Assistir ao documentário GARAPA, é preciso ter estômago de avestruz e sangue de barata. É um filme indigesto. Um filme VERDADEIRO. As verdades de nosso país muitas vezes varrido para debaixo do tapete. O problema existe, e finge-se não ouvir, ver e falar.

Garapa_01GARAPA mostra o drama de três famílias nordestinas miseráveis, e é considerado um dos mais contundentes retratos da fome no Brasil, tendo como único recurso alimentício a garapa (mistura de água com açúcar), e um auxílio de um pouco mais que R$ 50,00, repassado pelo programa bolsa-família ou Fome Zero. O filme é todo em preto e branco (o que torna o documentário menos chocante e violento), sem música, confetes ou serpentinas, tendo como protagonistas três mulheres batalhadoras e seus filhos como figurantes. A tristeza e o drama enfrentados diariamente por essas três famílias não param aí. São vários os fatores: o desemprego, a falta de saneamento, educação e lazer ou programa de controle familiar. Acostumados com a situação, vivem sem nenhuma expectativa.

A fome é um assunto mundial e parece não ter fim. É o pior tipo de violência. Não precisa citar a África, ela está aqui, ao nosso lado, o nosso vizinho, em nosso país.

É um documentário que veio para somar e sensibilizar a todos do grande problema que é essa forma de violência que considero a pior de todas: A FOME. Lembrando que há vários tipos de fome: fome de saber, de conhecimento, de amor, de solidariedade, de amizade, mas a de não ter um pão para se comer pela manhã, nunca comer uma fruta, nem água potável, passar por todo tipo de privação e humilhação, pedindo, esmolando é simplesmente o fim, a pior desgraça que o ser humano NÃO deveria enfrentar.

Para quem é sensível, se choca e passa mal com facilidade com o que fere e maltrata, com as mais diversas formas de violência, este filme não é aconselhável. NÃO ASSISTA em hipótese alguma. Que eu me lembre é o primeiro filme que a censura não é definida. A informação sobre ele diz CENSURA A DEFINIR. Talvez seja um tipo de aviso ao expectador como: CUIDADO, ou ATENÇÃO.

Vivendo e aprendendo e nunca mais ser o mesmo assistindo a documentários. Fará parte de sua história de vida, estará para sempre nas suas células, na mente ou no coração; de alguma forma te modificará. Repensar os valores da sociedade, a ética, seu espaço e liberdade, direito de ir e vir, as obrigações, os deveres, a impotência diante desse caos que não embevece, nem orgulha; entristece e envergonha.

E depois de assistir ao GARAPA o expectador nunca mais será o mesmo. E o assunto não se esgota aqui.

Por: Karenina Rostov.  Blog: Letras Revisitadas.

GARAPA. 2008. Brasil. Direção e Roteiro: José Padilha. Gênero: Documentário. Duração: 110 minutos.

Herbert de Perto

Herbert de Perto_01A vida não é um filme e você não entendeu”… Mas ela pode estar num filme de forma que todos possamos entender.

Herbert de Perto” é um documentário que traz Herbert e seus sucessos paralâmicos para muito perto. Da musicalmente criticada década de 80 o filme foca o que ela teve de melhor.

Com depoimentos sérios, cravejados de sinceridade, traz à tona a honestidade do seu personagem central. O Herbert, um adolescente frustrado por não ter conseguido ser piloto de aviões, seguindo os passos profissionais do seu pai, um irmão emocionado que deixa transparecer nitidamente a admiração pelo irmão mais novo.

O Herbert ainda muito criança que pediu ao Papai Noel que trocasse o seu pedido de uma bicicleta por um violão que ele cortou fazendo pontilhados com um parafuso, serrou e adaptou com papelão e fita, já em busca de novas sonoridades.

Paralamas do Sucesso_discografiaO Herbert dono de tanta musicalidade, que ao estudar o instrumento com um amigo logo estava muito à frente do seu irmão e dando dicas para o professor. Várias cidades o viram crescer, quando morou em Brasília teve contato com aqueles que o acompanhariam vida a fora. Da sua vivência em Brasília diz algo difícil de esquecer, de como a vida naquela cidade para aqueles jovens, filhos de pessoas importantes dava a eles o sentimento de impunidade. Embora Brasília tenha sido apresentada ao Brasil como berço dos Paralamas, o pai de Herbert afirma que a banda nasceu no Rio de Janeiro, porque só aqui nessa cidade eles se estruturaram e foi o Circo Voador o primeiro sonho.

Do Herbert pai, marido e viúvo não há o que tecer comentários, seria antecipar a emoção, de um documentário que fala do acidente de uma maneira real, direta e digna, muito longe de drama, sem a menor pieguice, apenas um libelo do que é capaz a união dos amigos, o afeto da família. Eu vi um Herbert emocionante, sincero a ponto de dizer que não tem grandes habilidades a não ser trabalhar e trabalhar. Eu vi um Herbert que emociona, pois o filme nos dá a sensação de surpresa, a mesma que ele tem ao ver junto com a gente suas antigas imagens gravadas.

Os cortes são tão precisos que não percebemos a viagem no tempo, só nos damos conta quando vemos a imagem dos meninos dos anos 80 já barbudos, carecas mais gordinhos. A banda com um vigor que o tempo acrescentou maturidade, tranqüilidade, harmonia.

Herbert de Perto_02Assista, não tem tristeza nem depressão, é certo que algumas horas os olhos marejam, ver Dado Villa Lobos aperta de saudade o coração de quem viveu aquela época, rir com a mãe de Herbert responsável pela demissão do baterista Vital, que saiu da banda para compor sua história.

Herbert agora numa cadeira de rodas não é amargo nem triste, é um homem capaz de criar em equipe, recordando-se ainda do seu passado, apreciando o lugar privilegiado que tem nos seus próprio shows de onde pode observar tudo o que não foi possível observar quando se exercitava, dançava e corria pelo palco. Uma história real de um homem que na ausência dos seus planos construiu novos sonhos, cresceu num palco e continua sonhando com tudo o que se pode ter de melhor.

Por: Rozzi Brasil.  Ong Casa da Vida.

Herbert de Perto. 2009. Brasil. Direção: Roberto Berliner e Pedro Bronz. Elenco: Herbert Viana, João Barone, Bi Ribeiro, Hermano Vianna (irmão), Hermano Vianna (pai), Tereza Vianna, Dado Villa-Lobos, Pedro Ribeiro, Maurício Valladares, Zé Fortes, Paulo Niemeyer, Gilberto Gil, Lúcia Willadino. Gênero: Documentário. Duração: 97 minutos.

Trailer

MOSCOU

moscou_documentarioLi que Eduardo Coutinho não sabia exatamente o que fazer com o material gravado sobre um ensaio da peça de Tchekov: “As três irmãs” com o grupo Galpão. Acho que o mestre de obras impressionantes como: “Santo forte” e “Jogo de cena” deveria ter guardado o projeto.

Apesar da inevitável comparação com o ótimo: “A Flauta Mágica” de Bergman, as coxias lideradas por Enrique Diaz conduzem a um resultado vazio, chato, desinteressante e modorrento. Faltou a  intervenção sempre inteligente do próprio Coutinho.

Por: Carlos Henry.

Moscou. 2009. Brasil. Direção: Eduardo Coutinho. Gênero: Documentário.