Teatro: Cabaret

O palco do teatro Procópio Ferreira na Rua Augusta em São Paulo transforma-se no enfumaçado Kit Kat Club envolto em irresistível atmosfera decadente de uma Berlin dos anos 30 graças à eficiente solução de integrar mesinhas com parte da plateia ao cenário. O recurso já havia sido utilizado em montagens como aquela off-Broadway no final do século passado no lendário Studio 54 em Nova Iorque.

Trata-se do musical “Cabaret” de Harold Prince imortalizado por Liza Minelli no famoso filme de Bob Fosse. Cláudia Raia é a estrela desta produção memorável interpretando a inglesa Sally Bowles, a prostituta-cantora sonhadora do lugar que se envolve com o escritor americano Cliff Bradshaw (O pálido, mas competente Guilherme Magon que substitui Gianecchini originalmente escalado, afastado para tratar um linfoma) no período de ascensão do nazismo antes da guerra. A versão brasileira de Miguel Falabella com direção geral de José Possi Neto está irretocável.

Cláudia está perfeita e linda, no auge de sua forma física e profissional (44 anos) dançando como nunca com um entourage belo e talentoso valorizado pelos figurinos sensuais e espetaculares de Fabio Namatame baseados em lingerie. O mestre de cerimônias é vivido pelo vigoroso Jarbas Homem de Mello com voz poderosa e presença de cena impressionante sustentando números musicais realçados com a coreografia criativa de Alonso Barros e a boa tradução de Falabella destacando momentos inesquecíveis como “Willkommen”, “Mein Heir”, “Two Ladies” e “Money, Money (Grana)” com Cláudia ostentando 20 mil pedras de cristais Swarovski. Vale lembrar as emocionantes interpretações solo de “Maybe This time” e do hino nazista “Tomorrow Belongs to me” bem como sua reprise em coral. Ao contrário de Jarbas, que construiu um personagem forte e bastante diferente, mas não menos brilhante do genial Joel Grey nas telas, Cláudia dá o tom cinematográfico reproduzindo gestos, olhares e tons sem imitar, como já havia feito no memorável “Sweet Charity” quando mixou habilmente as composições de Giuletta Masina e Shirley Maclaine.

Bob Fosse certamente aprovaria o conjunto da obra lamentando talvez o fato de que a magnífica orquestra está oculta na concepção deste show privando a plateia de um charme visual que faz alguma falta mesmo em meio a tanta beleza.

Um senão insignificante num trabalho maravilhoso que deve ser obrigatoriamente prestigiado pelos amantes da boa arte, deixando aquele gostinho de quero mais quando a atriz canta a famosa música “Cabaret” no final.

Carlos Henry, em Nov-2011.

Teatro: O REI E EU

O famoso musical “O Rei e Eu” de Rodgers & Hammerstein invade o Teatro Alfa em São Paulo inundando os palcos com o encantamento e a magia da conhecida estória de Anna Leonowens, uma inglesa que é contratada para ser professora dos inúmeros filhos de Mongkut (Rama IV), Rei de Sião (Tailândia) no século 19. Evidentemente, assim como aconteceu com o relato verídico de “A Noviça Rebelde”, na vida real não foi bem assim. O choque cultural oriente/ocidente que ocorre até hoje, provavelmente foi bem mais traumático e menos engraçado do que o mostrado nas telas, livros e palcos desde que foi romanceado por Margaret Landon em 1944. Prova disso é que até chegar a esta irretocável versão brasileira de Cláudio Botelho, “O Rei e Eu” nunca foi bem recebido naquela região da Ásia, talvez por equívocos de interpretação de um povo notavelmente carinhoso mas ainda austero e tradicional.

Desde os primeiros acordes da maravilhosa orquestra regida por Vânia Pajares até surgirem as primeiras falas no navio rumo a Bangkok, o espectador é irreversivelmente seduzido por um conjunto primoroso de talentos que emociona pelo apuro técnico e visual. Sem perder ritmo, a peça corre fluente alternando momentos de humor preciso, exuberância e música de qualidade com figurinos caprichadíssimos, objetos de cena, detalhes, cenários e painéis suntuosos de fazer perder o fôlego.

Todas as cenas são costuradas engenhosamente de modo a prender completamente a atenção na trama mesmo em momentos delicados e perigosos como a genial encenação oriental de “A Cabana do Pai Tomás” habilmente inserida no meio do espetáculo para provar que o Rei não é bárbaro.

Cláudia Netto como Anna e Tuca Andrada como o Rei dispensam apresentações e estão simplesmente perfeitos bem como o belo e numeroso elenco infantil talentosíssimo que está impecável. Luciana Bueno empresta sua formação lírica à personagem de Lady Thiang numa composição inesquecível.

Na verdade, não há quem destoe em toda a equipe desta genial montagem sem ressalvas e recheada de superlativos magistralmente dirigida por Jorge Takla.

Por estes e tantos outros pontos positivos, “O Rei e Eu” é fortemente recomendado.

Carlos Henry, 01-06-2010.

Teatro: CATS

O lendário musical da Broadway de Andrew Lloyd Webber envolvendo um bando de gatos retardados é famoso pela chatura apesar da inexplicável longevidade. Mesmo sem ter assistido as montagens do exterior, acredito não ser culpa da equipe brasileira a razão do desastre completo que assombra a temporada do teatro Abril em São Paulo, até porque a direção cênica foi importada dos Estados Unidos na figura de Richard Stafford em parceria com Miguel Briamonte.

A trama (?) é idiota e as músicas são monótonas, tudo agravado pela versão equivocada de Toquinho que tenta sem sucesso inserir alguma coerência numa confusa reunião de felinos sem pé nem cabeça. Para completar, o que o elenco canta em coro é sempre ininteligível bem como parte das falas. Não há orquestra é o único cenário (algo próximo do tosco) não é alterado em nenhum momento dos dois intermináveis atos que eventualmente acordam a plateia assustada com explosões, brilhos e focos de luz muito desagradáveis. Para afastar os inevitáveis bocejos e cochilos, o jeito é tocar a conhecida canção “Memories” à exaustão, conseguindo torná-la insuportável nos últimos momentos para quem conseguir resistir até o final. A música eternizada por Barbra Streisend é também devidamente destruída por uma letra estranha e uma interpretação exagerada de Paula Lima.

Quem quiser, pode subir ao palco no intervalo e conferir de perto um gato horrendo que lembra o Chewbacca do STAR WARS. Inacreditavelmente, há quem goste e aplauda o espetáculo surreal de erros consecutivos, talvez por respeito a alguns bons profissionais envolvidos, especialmente os atores que até se esforçam em manter alguma dignidade em cena. Há também a questão do preço: A entrada é injustificadamente cara para um resultado enfadonho, cansativo e tão sem qualidade. Um caso de polícia.

Por estas e outras inúmeras razões CATS deve ser fortemente evitado.

Carlos Henry, 01-06-2010.
Sinopse: “Meia-noite. Nenhum som no beco. Luzes de um carro rasgam a paisagem escurecida da noite e revelam momentaneamente a imagem de um felino correndo. Um por um, gatos curiosos emergem. É a noite especial deles, quando a tribo Jellicle Cats se reúne para escolher seus melhores. O líder do grupo, o sábio e benevolente Old Deuteronomy, anunciará qual deles irá para um lugar especial chamado “Heavyside Layer”, onde poderá renascer para uma nova “vida Jellicle”. Só um dos gatos não compartilha da euforia do grupo: a triste Grizabella (Paula Lima), que abandonou os companheiros anos antes para explorar o mundo lá fora e agora é desprezada por sua escolha.” Cats.
Alguns dos integrantes do elenco: Paula Lima (Grizabella), Saulo Vasconcelos (Old Deuteronomy), Julio Mancini (Munkustrap), Cleto Bacic (Rum Tum Tugger), Natacha Travassos (Victoria).