Who is Dayani Cristal? (2013)

“Para mim é muito frustrante saber que alguém que tinha sonhos, acabou se transformando em um número, estatística.”

who_is_dayani_cristal2Acompanho a trajetória desse documentário desde muito antes de poder assisti-lo. Assim que me lembro de ter lido uma crítica muito ruim quando da exibição do filme no Festival de Cinema Sundance, no qual, aliás, ele foi premiado como melhor documentário. Acreditando nessa tal crítica, pensava comigo mesma: “Ainda que seja ruim, merece o reconhecimento por tratar de um assunto tão delicado quanto cotidiano e essencial de ser pautado”. Estritamente, a imigração clandestina para os Estados Unidos através da fronteira com o México. De maneira mais abrangente, o questionamento de inúmeras condições pré-estabelecidas e naturalizadas, mas que, na realidade, são como tudo, uma construção ao longo do processo histórico: as fronteiras, o capitalismo, a exploração do homem pelo homem, a hierarquização das pessoas e de suas vidas, a valoração da mercadoria, entre muitas outras.

Pensava eu que esse filme seria como tantos outros que se propõem a discutir questões sociais e políticas importantíssimas, mas que falham por vários motivos, como o excesso caricatural na construção de situações e personagens, por exemplo. Insiro nessa linha o filme Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000) e Déficit (Gael García Bernal, 2007). Ambos têm a proposta de retratar as relações entre a classe média e as classes populares, mas acabam se tornando caricatos e chatos. Em outra chave, temos o filme O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), cuja representação da sociedade pernambucana nos trouxe aos olhos as sutilezas da exploração cotidiana e das relações entre classes, tão mais perversas quanto mais invisíveis.

Pois bem, ainda que todos esses três filmes aqui citados sejam ficções e Who is Dayani Cristal? seja um docudrama, acho plausível dizer que ele segue nessa segunda linha de filmes que vão tratar de questões essenciais ao entendimento da sociedade sem fazê-lo de forma caricatural, simplificadora e/ou redutora. Com um posicionamento político bastante claro desde seu início, o documentário cumpre bem seu papel de denúncia e militância sem se tornar chato, maçante ou apelativo.

O filme se desenvolve em duas vertentes: a primeira, claramente documental, que retrata as dificuldades de identificação de corpos de imigrantes clandestinos encontrados no deserto do Arizona, tendo como mote um corpo com a tatuagem “Dayani Cristal” no peito. A segunda vertente, misto de drama e documentário, é aquela que mostra a reconstrução feita por Gael García Bernal da trajetória deste hondurenho encontrado morto. Não há aquelas cenas às quais costumeiramente adjetivamos como chocantes: sangue, violência, agressão. Mas há sangue, violência e agressão, expressas de maneira sutil, assim como é sutil tudo que faz com que as situações retratadas no documentário possam ocorrer todos os dias em diversos lugares sem que seu questionamento consiga bater de frente com a política que garante sua reprodução.

E esse pra mim é o grande acerto do documentário; colocar a forma fílmica e a forma social em compasso. A violência social denunciada pelo documentário é praticada na realidade cotidiana com tanta sutileza como nos é apresentada no filme. A agressão diária que faz com que homens e mulheres sejam obrigados a abandonar seus países deixando para traz sua história, sua identidade e as pessoas a quem querem bem para se arriscarem numa jornada permeada por perigo, carência e invisibilidade é tida por quase todos como natural ou, quando muito, irreversível. Daí que se reproduza há tanto tempo, cada vez de maneira mais qualificada, otimizada, deixando para trás centenas de milhares de pessoas, consideradas menos importantes e, portanto, de morte aceitável; uma estatística.

Outro ponto bastante positivo do documentário é logo no começo já deixar claro que estamos diante de uma construção metonímica, que parte de um pedaço para exemplificar o todo: a trilha dos créditos iniciais é a canção Latinoamerica, da dupla porto-riquenha Calle 13, da qual gosto muito e que, na minha opinião, é uma das produções artísticas que mais bem captaram o que é ser latino-americano e onde nos inserimos socialmente, como devemos nos portar: de pé e em luta. Como o próprio nome da canção diz, quem canta é todo latino-americano e, portanto, a história não é apenas do homem com a tatuagem “Dayani Cristal”, mas sim de muitos e tantos outros irmãos de continente e de trajetória.

Fica a minha recomendação do filme, bastante interessante, contundente e honesto. Ainda não está disponível em DVD e, infelizmente, acho que uma exibição nos cinemas brasileiros é improvável. De qualquer forma, pode ser encontrado para baixar na internet, mas sem legendas. Quem é Dayani Cristal? Bora treinar o espanhol e o inglês, pessoal… Vale a pena! Para assistir ao trailer do documentário, clique aqui. Link no IMDB.

“Sem guardas, sem controles. Aqui não se necessitam passaportes. Talvez assim devessem ser todas as fronteiras.” – Gael García Bernal, sobre a fronteira entre a Guatemala e o México

A Psicologia por Trás do Homem-Aranha. Desse pequeno grande herói.

Por Charles Alberto Resende.

No filme ‘O espetacular Homem-Aranha’, Peter Parker ajuda o cientista Curt Connors a elucidar sequência lógica incompleta há anos.

A trilogia do Homem-Aranha, de Sam Raimi, assim como a nova série “O Espetacular Homem-Aranha”, tratam do processo de amadurecimento de Peter Parker, e também da nossa individuação, enquanto heróis da nossa própria vida. O primeiro filme trata da ferida que dá origem ao herói: a culpa pela morte do tio Ben. O segundo sobre a dúvida se ele deve continuar sendo um herói ou não. O terceiro resolve essa dúvida, pois Peter se identifica com seu papel de herói, o que constela sua sombra: Venon, que terá de confrontar para o bem de sua integridade psíquica. A nova série já desloca a ferida do herói para o abandono dos pais, fato que irá repercutir em todos os filmes, principalmente na insegurança e no sentimento de exclusão de Peter. Uma análise mais completa dessa série só será possível ao seu término, para se encadear um filme ao outro e se detectar para onde a aventura está caminhando.

peter-parker_homem-aranhaPeter, psicologicamente, é um pensador, mas tem que lidar com seus sentimentos, conteúdos opostos às ideias. Enquanto aranha, ele “balança” de um oposto psíquico para outro, a fim de alcançar a condição humana de equilíbrio, sem se identificar com um ou outro, uma vez que ambos fazem parte da vida e da psique. O azul associa-se à tranquilidade, à pureza, à exatidão, ao frio, à imaterialidade e à espiritualidade. O vermelho, se liga à vida, aos instintos, à vigilância, à inquietude. Identificar-se com um deles, sejam eles quais forem, é querer tornar-se um deus, resolver tudo com uma fórmula só, como num “passe de mágica”, o que nos torna impiedosos para com aqueles que se identificam com o lado oposto. Isso é bem ilustrado no Homem-Aranha 3, na forma como é cruel com Mary Jane e seu amigo. Por isso a aranha, que possui oito patas, faz uma mandala no peito do herói, um símbolo de totalidade, de abrangência dos opostos.

O que ajuda Parker a resistir à tentação a se tornar uma espécie de deus é já ter estado do “outro lado”, já ter sido um fraco, e por isso conhece o valor da força. Ele sofria bullying na faculdade, e é provável que sofrera também nos estágios escolares anteriores. Mas é justamente essa vivência que o impede de cair na tentação do poder, e usá-lo contra os demais. Sua sombra é o herói, o homem poderoso, e sua tarefa é integrá-la à sua vida e tornar-se um homem íntegro.

mary-janeNo primeiro filme, Peter assume a persona de herói, simbolizada pelo uniforme, e se identifica com ela. No segundo, sente necessidade de reprimir a vida de herói, pois acabou deixando outras necessidades de lado, como a paixão por Mary Jane. Por isso perde seus poderes e fica novamente míope. Mas a chave para saber lidar com a vida de herói e com as necessidades humanas é a disciplina, e não a repressão. Esta é usada devido ao medo de usar compulsivamente seus poderes. Isso só ocorre quando não se está consciente de possuir as qualidades opostas, devido à repressão de uma das polaridades. Porém, o Aranha só vai descobrir isso no 3º filme, quando descobre o quanto pode ser mau.

homem-aranha_os-vilõesOs vilões que o Aranha enfrenta representam obstáculos em sua psique que ele precisa superar. Todos eles podem ser classificados em duas categorias: ou são cientistas, ou são objeto/produtos de estudo científico avançado. De alguma forma estão relacionados à atividade intelectual, e acabam por sucumbir ao poder. Os vilões dos dois primeiros filmes e de “O Espetacular Homem-Aranha” são admiradores da performance intelectual de Peter, como que denunciando o perigo de se fixar apenas em uma função ou qualidade psíquica. As quatro funções psíquicas (pensamento e sentimento, sensação e intuição) são formas de orientação da consciência para adaptação à vida. Elas formam pares em oposição, e não podem se desenvolver sem prejuízo da função oposta, pois uma interfere no funcionamento da outra. Por isso, quando o sentimento se desenvolve, a função intelectual não progride, e vice-versa. As funções que não progridem. alcançam uma feição inferior, primitiva. Caem totalmente ou em parte no inconsciente e a partir daí operam através do indivíduo de forma involuntária, podendo ocasionar acidentes e todo tipo de erro. Isso está explicado de maneira mais extensa na monografia “A intuição e a sensação em dependentes de droga na perspectiva da psicologia analítica”, onde os opostos intuição e sensação são explicados com mais propriedade. Como Peter desenvolveu mais a função pensamento, e é do tipo psicológico intelectual, mas ao mesmo tempo sente necessidade de evoluir seu sentimento, pois percebe que não consegue lidar muito bem com pessoas caras em sua vida. Harry e Marko parecem ser do tipo sentimento, e são os únicos vilões que Peter perdoa.  

Já os demais (Norman, Otto, Curt e Max) morrem no final, pois representam justamente o uso excessivo do intelecto que precisa findar na vida de Peter. É como se estes fossem personificações de sua função intelectual que precisava de maior objetivação para que ele pudesse percebê-la melhor para se aproximar mais da função oposta.

A título de conclusão, é pertinente fazer um paralelo das aventuras do Homem-Aranha com a estrutura das sagas dos heróis em geral. O herói quase sempre é engolido pelo monstro na batalha decisiva, o que ocorre com Peter quando é “engolido” pelo Simbionte, que toma seu corpo com o traje negro. Isso ocorre com Jonas, na Bíblia. É no interior da baleia que este começa a ajustar contas com ela, que nada na direção do nascer do sol (JUNG, 1991d, §160). No caso, o Aranha ajustou contas com a sombra coletiva na igreja, e depois ao explodi-la, quando o sol desponta. Só então Peter perdoa o Homem-Areia, uma alusão ao seu renascimento.

(Leia mais a respeito: “A sombra do Homem-Aranha“)
Por Charles Alberto Resende.

Cinema – Um Olhar na Psique Coletiva

A comoção por combates corpo a corpo é semelhante à que havia por duelos romanos há 2000 anos.

Cinema ou instituição para tratar a psique coletiva. Por: Charles Alberto Resende.

teatro-e-publicoJung (1989, §48) chamou o teatro de “instituição para o tratamento público de complexos”. Ele explicou que o prazer que se sente com a comédia, com uma história dramática com final feliz ou com uma tragédia se deve à identificação de complexos pessoais com os da peça. Com relação à tragédia, tem-se a sensação terrível e benéfica de se presenciar a ocorrência com o outro daquilo que nos ameaça. Essa identificação também ocorre com outras produções como o cinema e a novela. Essa identificação pode chegar a tal ponto que fortes complexos podem ser trabalhados em psicoterapia, por meio de filmes especialmente indicados para tal. E já se criou até um nome para uma espécie de terapia que usa enfaticamente as produções cinematográficas: a “cinematerapia”.

Um filme pode aludir a possíveis soluções de problemas psíquicos e pode também questionar preconceitos, pontos de vista e convicções fortemente arraigadas. Os filmes podem falar poeticamente à alma e ao inconsciente, sem que o cliente tenha noção inteiramente consciente do que está sendo tratado, abreviando a terapia, sobretudo devido à amplificação de temas já tratados ou ainda por se discutir nas sessões. Uma novela ou filme que toca um complexo pode ter um efeito particularmente intenso no espectador, de forma a produzir emoções nomeadas popularmente de “positivas” ou “negativas”, cujas ocorrências associadas podem ser analisadas em terapia.

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“Star Wars” foi escrito com base em conceitos como o “inconsciente coletivo”.

Ora, os filmes que afetam positiva ou negativamente uma pessoa, de forma mais ou menos intensa, como já exposto, o fazem porque representam aspectos que possuem fortes conexões com seus complexos, ensejando sua identificação com personagens e situações. Se um certo filme impressiona muitas pessoas, isso se deve ao fato de ele refletir os complexos dessas pessoas, desde pequenos grupos, até nações inteiras. Assim, complexos coletivos, pertencentes a vários países, podem ser ativados por determinados filmes, mobilizando as massas, como ocorreu com produções como “Guerra nas estrelas”, “O senhor dos anéis”, “Avatar”, “Titanic”, etc. A análise dos filmes de maior bilheteria, que devem seu sucesso principalmente ao seu roteiro e à elaboração dos personagens, pode fornecer um diagnóstico mais ou menos preciso dos complexos mais mobilizados no inconsciente coletivo à época de seu lançamento. A energia psíquica está atrelada a esses complexos, e esse diagnóstico pode explicitar facilmente o caminho que ela está tomando e, pelo menos teoricamente, pode tornar claro para qual meta está se desenvolvendo, assim como os obstáculos desse destino.

O homem possui hoje em dia meios para prever coletivamente seu comportamento, assim como recursos para tratamento em massa das pessoas. Esses expedientes podem ser usados com maestria para um verdadeiro salto evolutivo de consciência, o que vem sucedendo sofregamente, ao contrário do que ocorre com o desenvolvimento tecnológico. Infelizmente, percebe-se, por meio de diversas leituras, que a humanidade se encontra em um estágio evolutivo de consciência, no sentido de uma integração maior à totalidade psíquica, semelhante à que havia há mais ou menos 2000 anos. Apenas um “verniz tecnológico” parece encobrir o estágio precário do inconsciente coletivo, fornecendo a aparência altamente civilizada que parece iludir a todos.

Infelizmente o homem parece estar se desfazendo cada vez mais da linguagem simbólica, que poderia aproximá-lo o suficiente dos instintos vitais para que retornasse aos rumos de um verdadeiro crescimento psicológico saudável. A maioria dos filmes parece indicar esses caminhos: basta atentar a eles.

Referências
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1989. v. V.

O Cinema Mostrando o Papel de um Professor em Sala de Aula

ao-mestre-com-carinhoQual é o papel de um Professor em Sala de Aula?
Será que por conta de terem mais chances numa carreira profissional no futuro, alguns pais não estariam sobrecarregando as crianças com muitas atividades? Que terminam gerando nelas muito mais o espírito de competição, em detrimento do da solidariedade, por exemplo? Com isso não estariam delegando aos Professores algo que teria que vir mais da parte deles? Nossa viagem de hoje pelo Filmes será essa relação entre o Mestre e seus Pupilos. Vem comigo
!

Numa das madrugadas insones, revi ‘Ao Mestre com Carinho II‘. Que me fez ficar emocionada por também recordar do primeiro filme. O professor, personagem do Sidney Poitier, fez o papel também de pais dos seus alunos. Foi além do ensino curricular. Até hábitos de higiene ele transmitiu aos alunos. Sua sala de aula não se restringiu apenas a um espaço físico. E é isso que também está contido na frase inicial desse artigo. Ela representa o momento dessa relação. Quase como uma unção. Ou como na canção tema:

Como agradecer a alguém que te fez crescer como gente?

escritores-da-liberdadeO filme ‘Ao Mestre com Carinho‘ reinava tranquilo no topo dos filmes com esse tema. Confesso que nem o ‘Sociedade dos Poetas Mortos‘ chegou ao topo para mim. Esse outro ensinou sim os alunos a pensarem em vez de receberem tudo mastigadinho, mas ao ensinar também a quebrarem certas regras não pesou os contras. Nem tampouco mostrou praticidade. Mas eis que um filme veio ficar ao lado do primeiro mestre: ‘Escritores da Liberdade’.

Esse filme conta uma história real. De uma jovem Professora que fez mais que ensinar um bê-a-bá aos seus alunos. Eles sem ela continuariam um círculo viciante de reagirem com violência por terem sidos violentados pela vida. Conto muito mais desse filme aqui.

o-clube-do-imperadorPor vezes um Professor investe mais num único aluno. O por que disso? Talvez como um pai ou uma mãe que faz o mesmo com um filho que entre os demais ser esse o que necessita de mais atenção. No filme “O Clube do Imperador” um único aluno ocasionou esse tipo de atenção. Agora, e quando isso acaba prejudicando um outro? Mais! E quando isso foi feito de um modo que fere até a sua lição maior? Lição essa sintetizada nessa frase:

O caráter de um homem é o seu destino.

Esse filme diferente dos dois outros mostra o dia-a-dia num colégio para ricos. Logo, é uma outra realidade. Tem mais aqui. Mas ricos ou pobres são jovens e em formação. Onde os princípios básicos já teriam que ser administrado desde a tenra idade. Valores éticos e morais. Como também tendo que aceitar certos limites, como um simples horário para dormir, por exemplo. O que me leva a contar um episódio pela internet. Num certo fórum (Orkut) alguém reclamara de uma cena numa novela das 21 horas, por conta do filho (Ou filha.) de 7 anos também estar assistindo. Fui curta e grossa ao dizer: ‘Desligue a tv e vá ler um Livro de Monteiro Lobato com seu filho. Ambos sairão ganhando com isso.’

zona-do-crimeGente! Peço até desculpas por ter trazido tão poucas sugestões de filmes dentro de um tema tão fascinante. Mas por conta de um filme que vi e que me deixou chocada, peço aos que têm filhos que conversem, observem, procurem saber o que já assimilaram de bons valores. Principalmente no quesito: respeito ao próximo. Que até assistam filmes juntos com eles, e em seguida conversem com eles. Saber o que ficou retido na mente deles. Dependendo da idade conversar também sobre a violência que está nas ruas. Enfim, sejam também Mestres, Mentores desses jovens. Para que ao assimilarem uma conduta do bem, possam também transmiti-la como uma corrente. O mundo está carecendo disso. As pessoas estão se fechando em guetos. E até bem luxuosos, como no tal filme que me deixou bem impressionada, ‘Zona do Crime‘. Não deixem de ver, mas dessa vez sem as crianças. Comento sobre ele aqui.

Para que de fato sejam o futuro da nação, saibamos nós dar-lhes um presente salutar.
See you!

Por: Valéria Miguez (LELLA). (Em 03/07/08)

Cinema em 3D. Estão esquecendo de um grande detalhe…

avanco-em-oculos-3DAqui o assunto será mesmo sobre o Cinema em 3D: Filmes e Salas. Em destaque as Salas onde não tem como passar esse tipo de filmes, mas assim mesmo exibem filmes com essa tecnologia. Em específico sobre as Salas IMAX, o Evandro escreveu um texto delicioso de ser lido, esse: IMAX Fundo do Mar 3D. Além de uma tecnologia diferente, as Salas IMAX ainda são em um número bem menor no Brasil. Agora, voltando aos 3D…

Mesmo tendo alguns filmes em 3D produzidos bem antes, o boom do Cinema em 3D foi na Década de 50. Uma projeção onde a visão reproduzida aparentava estar em formato de relevo. Mas esse jeito não persistiu por muito tempo. O porque ao certo, não sei. Há muito poucos dados sobre esse início. Numa pesquisa que fiz para colher dados para esse artigo o que achei foi numa página em inglês. E o mais curioso era a fonte: o Guinness Book. Ficando uma pergunta se deram pouca importância a essa tecnologia, ou até por não ter atraído muito o público depois disso. Quem sabe com o novo boom do momento apareçam mais estudos sobre o Cinema em 3D.

Cronologia da História do Cinema em 3DCom o avanço dessa tecnologia, inclusive nos óculos, os filmes em 3D voltaram à cena. Mas ainda faltava mais. James Cameron esperou por mais de uma década para só então filmar ‘Avatar‘. Por querer usufruir de todo avanço. E fez bem! Pois o filme Avatar fica como marca na História do Cinema em 3D. Mesmo os que não gostaram desse filme terão que concordar com esse fato. Com esse feito desse Diretor. Fiz um gráfico para ilustrar essa trajetória.

Eu fiquei encantada com o ‘Avatar’ em 3D! Por um tipo de campanha viral* na Blogosfera eu ganhei um Dvd desse filme. Chegando na minha casa fui correndo rever o filme. Parando nas cenas onde me lembrava do 3D. Uma em específica por ter sido a única que me “assustou”… E vi que nesse filme a Fotografia não perdeu em nada na nitidez e nem na minha televisão que nem HD é.

nitidezFiz isso até para tirar uma dúvida. Tudo por conta de outro filme. Talvez a Sala de Cinema onde vi o tal filme tenha sido a grande vilã dessa história. Fora algo que me irritou quase a ponto de sair do Cinema. O filme foi ‘Como treinar o seu dragão‘. Numa Sala comum exibiram uma versão em 3D. Ficando tudo esbranquiçado ao fundo, só destacando algo no meio… e em várias cenas. A colagem que fiz com o dragão ilustra um pouco o que estou contando. Na segunda foto mostra como fica a cena do 3D numa Sala comum: perde a nitidez. Acontece que até para ir num Cinema mais próximo onde de onde eu moro eu gasto também com o táxi, e não é por frescura, mas sim porque sou cadeirante. Sendo assim pelo menos quero ver num filme uma ótima Fotografia. Uma boa imagem eu até aceito. Mas uma péssima me leva a odiar essa “febre 3D”.

Pelo jeito os Produtores, ou mesmo os donos das Salas, não estão nem ai para esse detalhe importante.

Numa comparação seria assistir um show de um excelente cantor, num acústico – no gogó e acompanhado de um violão, por exemplo -, ou ouvi-lo num grande e potente show. A essência dele – voz, letra, melodia -, está nas duas apresentações. O que muda, é o espírito de quem vai assisti-lo em cada um dos shows: se quer algo mais intimista ou não. E que o mesmo não aconteceria num cantor de playback. Pois não saberia cantar, e encantar, num ao vivo. Ou até que poderia ser ouvido em casa mesmo.

É meio por ai para diferenciar os filmes em 3D. Não apenas os bons dos ruins. Dos que o 3D entrou de fato como um Coadjuvante, daqueles que estão mesmo aproveitando do 3D como caça-níqueis. Como disse antes até a ida ao Cinema tem um custo, como também o preço do ingresso. Se a Sala não tem a tecnologia para exibir um em 3D que projete um sem essa tecnologia. E quem não tem a competência para fazer um nos moldes do que Cameron fez com “Avatar”, deveria pelo menos fazer o filme em duas versões. O público merece esse respeito. Ou eu é que teria ficado mal acostumada com a qualidade do 3D no filme do James Cameron. Eu até tentarei ir com mais complacência nos próximos em 3D. Mas por favor! Respeitem também o meu bolso.

E vocês, o que teriam a dizer do Cinema em 3D?

p.s: (*) A tal Campanha partiu da iChimps. E me escolheram pela segunda vez. Grata! E fica aqui o registro de que são profissionais de markenting confiáveis. Espero continuar sendo escolhidas nas próximas Campanhas.

Por: Valéria Miguez (LELLA), em 13/10/2010.

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.