Panorama do Festival do Rio 2014 – parte V – Documentário: Peter de Rome: Vovô do Pornô Gay (2014)

peter-de-romePeter de Rome: Vovô do Pornô Gay” é mais um documentário fraco da mostra. Dirigido por Ethan Reid, a verborreia convida o espectador ao sono mais profundo para acordar somente nas poucas e válidas cenas de sexo explícito.

Na década de 60/70, o cineasta inglês Peter de Rome corajosamente realizou dezenas de filmes pornográficos gays quando a homossexualidade ainda era crime. Os filmes, sem grande qualidade técnica, possuíam notável valor criativo a ponto de chamarem a atenção do artista Andy Warhol e serem restaurados e catalogados pelo British Film Institute.

As sequências com homens negros, a visita ao estúdio do célebre realizador de filmes gay Kristen (Carnaval in Rio) Bjorn e os detalhes inacreditáveis das filmagens de sexo real (underground) dentro de um vagão de metrô lotado merecem destaque.

Infelizmente, o clima hedonista que reina nas cenas de sexo e nas locações em Fire Island é prejudicado com longas entrevistas de pouco conteúdo, o que não leva a recomendar o filme.

Por: Carlos Henry.

Panorama do Festival do Rio 2014 – parte IV – Filme: BOYHOOD (2014).

boyhood_2014_posterBoyhood” de Richard Linklater parte de uma ideia muito atraente. Contratar e filmar um mesmo ator desde a tenra infância até o começo da idade adulta, sendo ele o personagem central da história. O problema é que durante mais de uma década, pouca coisa interessante acontece na vida do menino Mason vivido pelo ator Ellar Coltrane que justifique um roteiro para ser levado às telas.

boyhood_2014_personagensE assim, assistimos durante intermináveis horas os processos típicos do amadurecimento natural de Mason, enfrentando a separação dos pais, os padrastos violentos, amizades, brigas com a irmã Samantha (A atriz Lorelei Linklater, filha do diretor, revela-se particularmente brilhante nos diálogos iniciais da fase infantil para tornar-se insossa como a maior parte do filme nos últimos estágios.) e finalmente sua iniciação sexual, sempre com aquele mesmo irritante ar blasé. É relativamente divertido observar o ator que no início era uma bela criança enfeando gradativamente ao adolescer para melhorar um tantinho no final.

Vale ressaltar a atriz que vive a mãe, Patricia Arquette defendendo o melhor personagem da história com vários momentos emocionantes por conta do seu dedo ruim para homens e também sofrendo mudanças físicas visíveis ao longo da obra, engordando significativamente no decorrer da trajetória.

Recheado de cenas banais de família e cotidiano para encher linguiça, o filme até que tem um desfecho bacana com um inspirado diálogo de aproximação romântica juvenil, mas que em seu todo é um pálido retrato da geração apática do início do século XXI.

Por Carlos Henry.

Panorama do Festival do Rio 2014 – parte III – Filme: Annabelle (2014).

annabelle-2014Annabelle” é realmente um filme de terror eficiente a maior parte do tempo. Ainda que com eventuais deslizes e problemas de ritmo, John Leonetti consegue imprimir um clima de tensão e medo constante com base na história da medonha boneca iniciada no ótimo “Invocação do Mal” (The Conjuring).

A trama é ambientada nos anos 60 e portanto é impossível não lembrar do clássico “Bebê de Rosemary” por conta da personagem central vivida pela bela e expressiva Annabelle Wallis, (Pura coincidência com o nome da boneca possuída pelo cão que existe de fato e está guardada num museu da dupla de ocultistas Ed e Lorraine Warren) e as nuances de comportamento que sugerem uma possível histeria ou imaginação e reação exagerada para a causa dos horrendos acontecimentos, pondo o espectador em intrigante dúvida.

Um casal prestes a ter um bebê decide comprar uma boneca pavorosa de colecionadores para “enfeitar” o quarto da criança.

Numa noite, recebem a visita de um grupo de fanáticos religiosos, provavelmente liderados por Charles Manson e uma mulher acaba morta com a tal boneca nos braços. A partir daí, já recuperados do terrível ataque, começam a perceber fenômenos relacionados com o estranho brinquedo. Concluem que a boneca está possuída por um demônio que quer a alma do pequeno rebento.

Cheio de sustos e imagens habilmente ocultas na escuridão, o filme cumpre o papel que se propõe assombrando o espectador até os gritos.

Por: Carlos Henry.

Panorama do Festival do Rio 2014 – parte II – Filme: Sangue Azul (2014)

sangue-azul-2014_cartazSangue Azul” de Lírio Ferreira é uma coleção de imagens deslumbrantes e tipos bizarros emoldurados pelo cenário inigualável da ilha de Fernando de Noronha. Neste lugar paradisíaco, chega um circo e com ele, a reaproximação perigosa de um casal de irmãos apaixonados (Daniel de Oliveira e Caroline Abras) que estavam separados desde a infância.

O reencontro movimentará o marasmo do vilarejo. Há sexo em excesso no filme, o que não tira o seu valor com um roteiro recheado de personagens e sequências muito interessantes, mas aparentemente descentralizados do foco principal da obra que seria o tal relacionamento incestuoso.

Milhem Cortaz mais uma vez surpreende num papel corajoso como o homem forte do circo que por acaso é gay. Ele protagoniza uma cena de beijo com o veterano Paulo Cesar Pereio e outra de sexo ousado. No entanto, outras figuras como o atirador de facas, vivido pelo excelente Matheus Nachtergale, colorem sem acrescentar muito à trama.

Ainda que com o mesmo propósito de florear a estória, são mais eficientes as participações de Costinha (Em imagens num filme antigo) e Lia de Itamaracá numa canção emocionante na praia. A personagem de Caroline Abras é uma mergulhadora, o que rende cenas submarinas de tirar o fôlego completando um bom espetáculo cinematográfico.

Por: Carlos Henry.

Curiosidade: O filme “Sangue azul”, do pernambucano Lírio Ferreira, venceu o troféu Redentor de melhor filme de ficção na mostra Première Brasil do 16º Festival do Rio 2014.

Panorama do Festival do Rio 2014

Festival-do-Rio-2014_logoProvavelmente, a mais fraca das edições do Festival do Rio. Filmes pouco impactantes, ausência de convidados e o cinema Odeon fechado são alguns dos motivos para o evento esfriar ainda mais. A falta de criatividade da organização geral revela-se evidente até na vinheta preguiçosa. O Cinépolis Lagoon é muito bonito, mas de acesso não tão fácil. O deslocamento das premières para a Lagoa criou uma desagradável segregação entre o público comum, o elenco e a produção por conta do tamanho das salas, acostumados a se misturarem quando as pré-estreias aconteciam no antológico cinema no centro da cidade.

panorama_festival-do-rio-2014Outono” é um belo curta-metragem sem diálogos de Anna Azevedo envolto num clima onírico, onde um casal recorda os melhores momentos isolados numa praia. De inegável beleza plástica, lembra o episódio final de Derek Jarman para o filme “Aria” de 1987 sobre as reminiscências de uma mulher no fim da vida.

Ausência” de Chico Teixeira infelizmente demora muito tempo de projeção para revelar-se um grande e sensível filme. O drama, tristíssimo, gira em torno da figura de um adolescente que é primeiro abandonado pelo pai e aos poucos por todos que se afeiçoa que parecem traí-lo deliberadamente. Sua principal qualidade é ser centrado e não misturar os sentimentos que conflitam entre os primeiros desejos sexuais e a profunda carência paterna. Determinação mais difícil para o professor Ney que sofre para não se desvirtuar diante da confusão causada pelo amor transferido do menino, numa composição notável pelo ator Irandhir Santos. Também merecem aplausos o trabalho da atriz Gilda Nomacce como a mãe alcoólatra e do garoto protagonista Matheus Fagundes.

Max Uber” revela o curioso processo de criação do artista plástico Andre Amparo, envolvendo todas as dificuldades, limites e preconceitos que o profissional da arte enfrenta para conseguir ter o trabalho reconhecido, concluindo que o ritual criativo não pode nem deve ser podado, especialmente por questões lucrativas.

Favela Gay” de Rodrigo Felha pouco ou nada acrescenta ao rico universo homossexual nas áreas carentes. Salvo raros momentos, como o da divertida persona “Pandora”, os entrevistados não conseguem aprofundar seus anseios, alegrias e aflições tornando o documentário raso como um pires. Definitivamente, o diretor Eduardo Coutinho faz muita falta neste segmento.

Por: Carlos Henry.

Who is Dayani Cristal? (2013)

“Para mim é muito frustrante saber que alguém que tinha sonhos, acabou se transformando em um número, estatística.”

who_is_dayani_cristal2Acompanho a trajetória desse documentário desde muito antes de poder assisti-lo. Assim que me lembro de ter lido uma crítica muito ruim quando da exibição do filme no Festival de Cinema Sundance, no qual, aliás, ele foi premiado como melhor documentário. Acreditando nessa tal crítica, pensava comigo mesma: “Ainda que seja ruim, merece o reconhecimento por tratar de um assunto tão delicado quanto cotidiano e essencial de ser pautado”. Estritamente, a imigração clandestina para os Estados Unidos através da fronteira com o México. De maneira mais abrangente, o questionamento de inúmeras condições pré-estabelecidas e naturalizadas, mas que, na realidade, são como tudo, uma construção ao longo do processo histórico: as fronteiras, o capitalismo, a exploração do homem pelo homem, a hierarquização das pessoas e de suas vidas, a valoração da mercadoria, entre muitas outras.

Pensava eu que esse filme seria como tantos outros que se propõem a discutir questões sociais e políticas importantíssimas, mas que falham por vários motivos, como o excesso caricatural na construção de situações e personagens, por exemplo. Insiro nessa linha o filme Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000) e Déficit (Gael García Bernal, 2007). Ambos têm a proposta de retratar as relações entre a classe média e as classes populares, mas acabam se tornando caricatos e chatos. Em outra chave, temos o filme O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), cuja representação da sociedade pernambucana nos trouxe aos olhos as sutilezas da exploração cotidiana e das relações entre classes, tão mais perversas quanto mais invisíveis.

Pois bem, ainda que todos esses três filmes aqui citados sejam ficções e Who is Dayani Cristal? seja um docudrama, acho plausível dizer que ele segue nessa segunda linha de filmes que vão tratar de questões essenciais ao entendimento da sociedade sem fazê-lo de forma caricatural, simplificadora e/ou redutora. Com um posicionamento político bastante claro desde seu início, o documentário cumpre bem seu papel de denúncia e militância sem se tornar chato, maçante ou apelativo.

O filme se desenvolve em duas vertentes: a primeira, claramente documental, que retrata as dificuldades de identificação de corpos de imigrantes clandestinos encontrados no deserto do Arizona, tendo como mote um corpo com a tatuagem “Dayani Cristal” no peito. A segunda vertente, misto de drama e documentário, é aquela que mostra a reconstrução feita por Gael García Bernal da trajetória deste hondurenho encontrado morto. Não há aquelas cenas às quais costumeiramente adjetivamos como chocantes: sangue, violência, agressão. Mas há sangue, violência e agressão, expressas de maneira sutil, assim como é sutil tudo que faz com que as situações retratadas no documentário possam ocorrer todos os dias em diversos lugares sem que seu questionamento consiga bater de frente com a política que garante sua reprodução.

E esse pra mim é o grande acerto do documentário; colocar a forma fílmica e a forma social em compasso. A violência social denunciada pelo documentário é praticada na realidade cotidiana com tanta sutileza como nos é apresentada no filme. A agressão diária que faz com que homens e mulheres sejam obrigados a abandonar seus países deixando para traz sua história, sua identidade e as pessoas a quem querem bem para se arriscarem numa jornada permeada por perigo, carência e invisibilidade é tida por quase todos como natural ou, quando muito, irreversível. Daí que se reproduza há tanto tempo, cada vez de maneira mais qualificada, otimizada, deixando para trás centenas de milhares de pessoas, consideradas menos importantes e, portanto, de morte aceitável; uma estatística.

Outro ponto bastante positivo do documentário é logo no começo já deixar claro que estamos diante de uma construção metonímica, que parte de um pedaço para exemplificar o todo: a trilha dos créditos iniciais é a canção Latinoamerica, da dupla porto-riquenha Calle 13, da qual gosto muito e que, na minha opinião, é uma das produções artísticas que mais bem captaram o que é ser latino-americano e onde nos inserimos socialmente, como devemos nos portar: de pé e em luta. Como o próprio nome da canção diz, quem canta é todo latino-americano e, portanto, a história não é apenas do homem com a tatuagem “Dayani Cristal”, mas sim de muitos e tantos outros irmãos de continente e de trajetória.

Fica a minha recomendação do filme, bastante interessante, contundente e honesto. Ainda não está disponível em DVD e, infelizmente, acho que uma exibição nos cinemas brasileiros é improvável. De qualquer forma, pode ser encontrado para baixar na internet, mas sem legendas. Quem é Dayani Cristal? Bora treinar o espanhol e o inglês, pessoal… Vale a pena! Para assistir ao trailer do documentário, clique aqui. Link no IMDB.

“Sem guardas, sem controles. Aqui não se necessitam passaportes. Talvez assim devessem ser todas as fronteiras.” – Gael García Bernal, sobre a fronteira entre a Guatemala e o México