Destinos Cruzados (London River. 2009)


[O texto contém spoiler.]

Mesmo o filme tendo um contexto pontual – atentados à bomba em Junho de 2005 em Londres -, ele se torna atemporal pelo teor principal. É que “Destinos Cruzados” traz à tona velhos e arraigados preconceitos em relação principalmente ao biotipo de uma pessoa. Como se levasse a inscrição: “não nasceu aqui!” Não pertencendo ao mundinho de quem se ressente pela diversidade, pela pluralidade que o mundo globalizado oferece.

Muito mais que Bairrismo, pois o foco ultrapassa fronteiras. Quer sejam geográficas, culturais, religiosas, os pré-conceitos quando não parte de um tipo de catequese, muita das vezes aparecem pelo desconhecimento ao que é novo para nós. Mais! Em não estar aberto a essa novidade. Como também, se algum dia você sentiu medo, receio diante à aproximação de uma pessoa, é meio por ai que esse filme o fará refletir se também tem esse tipo de preconceito.

Se fosse definir isso em uma única palavra, ela seria: intolerância. Mas que entre os dois personagens principais, ela penderá mesmo para um lado. Como se o outro não fizesse parte do seu país. Será mesmo? O planeta começou a ser habitado pelas migrações. Como também, num mundo tão ocidental, deveria estar mais aberto a todos os biotipos.

Mas porque falo em biotipo? Porque não se trata apenas do tom de pele, é o conjunto por um todo que faz exteriorizar preconceitos adormecidos na grande maioria das pessoas. A aparência física de uma pessoa é quem primeiro traz à tona essa aversão. Como um estigma.

Então, como essa estória aqui começou? Como o destino fez cruzar a vida desses dois: Elizabeth (Brenda Blethyn) e Ousmane (Sotigui Kouyaté )? Ambos tinham filhos morando em Londres. Que desde o atentado, onde passageiros de um ônibus morreram, eles deixaram de fazer contato. Sumiram.

Elizabeth era uma pequena fazendeira numa das ilhas no Canal da Mancha. Enviuvara quando a filha ainda era pequena. Sem muitas ambições, foi tocando a vida, cuidando da propriedade, criando a filha. Essa, já crescida, decide concluir os estudos em Londres. No fundo, quis sair dali. Tinha vergonha do jeito simplório da mãe. Quisera cortar todas as suas raízes. Talvez até por conta disso quis estudar, adentrar numa cultura tão diferente da sua. Mas há outros fatores que conto depois.

Era Elizabeth que sempre ligava para a filha para ter notícias suas. Ao longo do filme vamos conhecendo outros detalhes. Tais como: nessas ligações, a filha apenas dizia que estava tudo bem, e só. Não contava nada a mãe de sua nova vida. Nem que estava morando maritalmente com alguém. Até poderia ser que o jovem em questão iria causar uma enorme surpresa no seio da sua família. Se quis adiar esse comunicado, ou não, as circunstâncias que vieram depois fariam disso algo irrelevante.

Ousmane estava afastado de sua família há muitos anos. Eles ficaram na África. Enquanto ele trabalhava numa Reserva Florestal na França. Cuidando das últimas  espécies de Olmos. Quando deixara sua terra natal, esse seu filho estava com seis anos de idade. Talvez numa de enviar dinheiro para a família em vez de visitá-los, o pouco contato desde então era por telefonemas à esposa. E essa, desde que esse filho fora morar em Londres, também só sabia dele por telefonemas.

Com as reportagens do atentado onde pessoas morreram, essas duas mães tentam falar com seus respectivos filhos. Estando Ousmane mais próximo, sua esposa pede que vá até lá. Como a filha não retornava as suas ligações, Elizabeth decide ir a Londres.

O título original – London River – refere-se ao dado geográfico que ambos percorreriam para se encontrarem com seus filhos. O Canal da Mancha também é como um muro invisível a barrar o sonho de imigrantes de outros países que usavam a França como último portão em terra a se vencer. Um filme onde se pode ter mais detalhes acerca disso é “Bem-vindo”. Elizabeth e Ousmane parecem orar diante dele.

Sem nem saber da aparência do filho já crescido, sem entender da língua inglesa, Ousmane tenta encontrar o filho em Londres. Indo em Hospitais onde estão os sobreviventes. Indo em Mesquitas. Até que um cartaz procurando por uma jovem, ele vê que ao lado dela está seu filho. É onde se encontrará com Elizabeth.

Elizabeth chega ao prédio onde a filha mora. Se espanta ao ver que ali há muitos de aparência moura. Uma parte da cidade bem árabe. Na espera pela filha, o dono do prédio lhe dá cópias das chaves. Como a filha não retorna nem às ligações, ela continua procurando-a. Indo ao encontro marcado com Ousmane.

Ao se deparar com Ousmane, e tendo ele dito ser o pai do jovem que era o que morava com a filha, seu preconceito aflorou. Elizabeth então chama a polícia. Ousmane é preso e interrogado. Ela escuta a versão dele. Ele era mais um pai a procura do filho. Envergonhada com seu gesto, tenta redimir-se.

Na busca pelos filhos, ambos farão um balanço das suas vidas. Por ela ser mais extrovertida, será ela que irá exteriorizar mais seus sentimentos, seus preconceitos. Ficamos nós, de coração apertado, acompanhando esse pai e essa mãe nessa busca.

Tal como as águas de um rio, depois que nascem o que se espera é que sigam o seu destino. Quebrando os obstáculos pelo percurso. Mas seguindo em frente. Triste, quando se tem notícia que um rio secou. Como também parece que foge a ordem natural da vida, um pai ou uma mãe enterrar um filho. Mais triste ainda, quando não há o que enterrar.

O final é lindamente triste. De um jeito próprio, ambos – Elizabeth e Ousmane -, deram uma resposta a Mãe Natureza.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Destinos Cruzados (London River. 2009). Argélia/França/Reino Unido. Direção e Roteiro: Rachid Bouchareb. +Elenco. Gênero: Drama, Mistério. Duração: 87 minutos.