Branca de Neve (Blancanieves .2012)

O famoso conto dos irmãos Grimm, Branca de Neves, já foi exaustivamente adaptado para o cinema, popularizada desde o clássico de Walt Disney que tratou de amenizar os traços adultos e fortes da trama.

Nesta fabulosa versão espanhola de Pablo Berger, o roteiro é a grande estrela. O filme é impregnado de beleza, suspense, humor e lirismo numa releitura de notável criatividade em cima da conhecida história.

A trama ambientada no universo das touradas e flamenco na Andaluzia de 1920 refere-se à famosa princesa Branca de Neve como uma personagem de contos de fadas, o que cria um tempero a mais na fantástica história de Carmen (Macarena Garcia), filha de um renomado toureiro que morre, deixando a menina aos cuidados da perversa e oportunista madrasta enfermeira Encarna (Maribel Verdú). Cansada dos maus-tratos, Carmen foge e encontra no caminho um grupo de anões toureiros que a incentivam a retomar o ofício do pai com seu talento nato. A teia de acontecimentos já familiares a todos assume caminhos surpreendentes à medida que tudo se desenrola culminando num desfecho tão emocionante quanto inesperado.

O elenco também é digno de nota, destacando as personagens principais já citadas e a composição de Sergio Dorado para o doce e apaixonado anão Rafita. Excelentes também a direção de arte e a trilha sonora recheada de cenários deslumbrantes e sons inesquecíveis.

A comparação com o filme “O Artista” de Michel Hazanavicius da mesma época é inevitável por conta da mesma estética cinematográfica adotada que nos remete ao cinema mudo com a belíssima fotografia em preto e branco na tela três por quatro.

A infeliz analogia com “O Artista” desfavorece a obra no que tange à originalidade, mas não tira nem um pouco do seu brilho e valor.

Carlos Henry

Os Amantes Passageiros (2013). Apertem os cintos… nesse voo penas irão brilhar!

os-amantes-passageiros_2013O Diretor Pedro Almodóvar após a obra prima no Drama “A Pele que Habito” resolveu tirar o pé do freio e se soltar. Bom para nós, seus fãs, que nos divertimos juntos com ele. Afinal, é uma ótima Comédia almodoviana que está nesse voo. Onde sugiro se desligarem do politicamente correto porque ele dessa vez veio foi com ‘gays à beira de um ataque de nervos‘. Também porque dessa vez ele resolveu dar um Boa noite Cinderela em quase todas as mulheres dentro desse avião. Quase porque deixou acordada apenas a rameira (Norma, personagem de Cecilia Roth) e a virgem “religiosa” (Bruna, personagem de Lola Dueñas); atrizes carimbadas pelo diretor. E foi ótimo também porque não colocou o Brasil como paraíso para fugitivos da lei. O destino final seria o México.

os-amantes-passageiros_almodovar_penelope_banderasPois é! Uma viagem que iria para a Cidade do México nem chegou a sair do espaço aéreo da Espanha. Tudo porque após levantar voo foi descoberto uma grande falha técnica que obrigava a não apenas voltar, como também a aterrissagem poderia ser arriscada. E a tal falha fora por um descuido de um mecânico, em cena com participações especiais de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Homenagem aos dois que já atuaram em outras Comédias de Almodóvar. O casal já protagoniza um dos temas dessa história: o amor que costuma cair de paraquedas na vida das pessoas, mas que por conta de um acidente do destino pode desaparecer, ou até se ver obrigado a escolhas nada felizes.

Bem, como a classe econômica tinha um número muito maior de passageiros, o que levaria a dificultar o trabalho dos comissários de bordo, o comandante (Antonio de la Torre) decide dopá-los, inclusive a tripulação desse setor, que no caso eram mulheres. Ficando apenas os poucos passageiros da área executiva para serem entretidos.

Na primeira classe, além de Norma e Bruna, temos como passageiros: – o Sr. Más (José Luis Torrijo) um alto executivo do setor financeiro que está fugindo de uma investigação policial; – Infante (José Maria Yazpik), um mexicano para lá de misterioso; – Ricardo (Guillerme Toledo), um ator que aceita um papel numa novela mexicana como forma de dar um tempo no assédio das fãs; e um casal de recém casados, cujo noivo resolve aproveitar-se da situação. Onde os três comissários de bordo, três gays para lá de assumidos, – Joserra (Javier Cámara), Fajas (Carlos Areces) e Ulloa (Raúl Arévallo) – tem como missão de distrair esses passageiros e com isso evitar pânico à bordo.

Acontece que tirando o comandante e o co-piloto Benito (Hugo Silva), os demais estão mesmo viajando às cegas. Sem saber a real situação do voo ficam com os nervos à flor da pele. Bebem. Trocam confidências. Fazem juras secretas. Outras nem tão secretas assim pois o único telefone para se despedirem com quem está em terra está com o sinal aberto, o que deixa a conversa ser ouvidas por todos. Numa dessas conversas há a participação de mais três atrizes que já trabalharam com Almodóvar: Blanca Suárez, Paz Vega e Carmen Machi.

E o avião segue pelos céus da Espanha a procura de uma pista livre para pousar e se possível em segurança. Entre confissões, rendições, saídas do armário, sexo, drogas e muita tequila somos brindados também com um memorável número musical com Joserra, Fajas e Ulloa cantando “I’m so Excided”.

Os filmes de Almodóvar são para serem sentidos. Até porque em todos há a sua assinatura mesmo quando ele faz é a leitura de um roteiro que não escreveu. O que não é o caso desse que ele assina o Roteiro também. Muito embora “Os Amantes Passageiros” também pode ser visto como uma crítica política ao país. Com a crise instalada nos países europeus. De qualquer forma é muito mais um filme para seus fãs, e os que se permitem serem levados por ele. Almodóvar é: ame-o ou vá ver outro filme. Eu vi, amei e fiquei com vontade de rever. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros. 2013). Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 90 minutos. Classificação: 16 anos.

Branca de Neve na Arena (2012)

branca-de-neve_2012Por Eduardo Carvalho

Ok, você lê a sinopse e pensa: mais um filme baseado em um conto dos irmãos Grimm? Ou ainda: mais um filme mudo em branco e preto, querendo pegar o embalo de “O Artista”… se você leu algo sobre “Branca de Neve” e pensou assim, não se engane. É uma impressão superficial. Coisa que este filme decididamente não permite.

branca-de-neve_01Espanha, 1910. Antonio Villalta, o maior toureiro de sua época, sofre um grave acidente na arena, que o impossibilita de continuar sua carreira. Simultaneamente, sua esposa grávida, abalada com o ocorrido, morre logo após dar à luz uma menina. Villalta repudia a criança, que passa a ser criada pela avó materna. Após mais uma fatalidade na vida da pequena Carmen, ela vai viver com o pai e a madrasta; aí começa, propriamente dito, seu caminho como Branca de Neve, com humilhações e obstáculos no percurso.

branca-de-neve_02Anões toureiros, um galo chamado Pepe, o mal encarnado na bruxa/madrasta. Elementos do conto original são adaptados e misturados a aspectos da Espanha das touradas. Doses bem colocadas de humor são adicionadas à trajetória de Carmen, numa narrativa visual tomada por total lirismo. A trilha sonora, a fotografia captando majestosamente a luz da arena de Sevilha, a edição mesclando simulacros de truques antigos a cortes precisos – as cenas envolvendo os dois vestidos de Carmen são primorosas – e as atuações marcantes de todo o elenco, fazem o espectador esquecer que trata-se de um filme sem diálogos.

branca-de-neve_03Tal aspecto, aliás, resulta em duas consequências. Uma vez que os atores não têm voz, suas interpretações, levadas a cabo apenas através de seus olhares e corpos, tornam-se superlativas. Macarena Garcia (Carmen), a pequena Sofia Orla (Carmencita), Maribel Verdú (a madrasta Encarna, cuja maldade só está à altura da futilidade), Daniel Gimenez Cacho (Antonio Villalta) e Angela Molina (Dona Concha) dão nova vida aos personagens preexistentes em nossas mentes, agora recriados pelo diretor Pablo Berger. E as poucas legendas deixam cada espectador livre para que ele (re) crie sua própria visão de toda a estória. Por mais que esta seja linear e bem definida, as ausências de cor e de som remetem a plateia à sua infância e aos primórdios do cinema, fazendo do ato de assistir a Blancanieves uma experiência altamente introspectiva e sensorial. Guardadas as proporções, é como se estivéssemos na Paris do final do séc. XIX, olhando uma tela onde um trem chega à sua estação.

Impossível ainda deixar de notar os caminhos trilhados por essa Branca de Neve moderna. Como compreender uma princesa que dança graciosamente o flamenco, e sabe empunhar o pano vermelho e a espada na arena? Cedendo o lugar a Carl Jung, pode-se dizer que Carmem / Branca de Neve percorre um caminho de total integração com aspectos masculinos e femininos de seu ser,  animus  e  anima. A cena em que Carmem rejeita o chapéu feminino que lhe é jogado, dando preferência ao chapéu de toureiro de seu pai, é altamente esclarecedora dessa individuação. Aprendiz das lições que a vida lhe ensinou, ela ao fim amadurece a ponto de não necessitar de um príncipe. Não de um príncipe, ao menos, do modo que se espera que seja.

Concebido com tal estética anos antes de “O Artista”, o filme se beneficiou do sucesso e dos Oscars que aquele ganhou; Pablo Berger tem o bom senso de não negar o fato, pois bem sabe que é o único elemento em comum com o filme francês. Embora não abra mão do embate maniqueísta entre Branca de Neve e sua madrasta, faz de seu filme uma obra altamente original, suplantando os limites de uma estória tão conhecida de todos.

Ao final, o saldo é de puro encantamento.

Prisão de Cristal (Tras el cristal. 1987)

prisao-de-cristal_1987Prisão de Cristal é uma curiosa e desconhecida película espanhola de 1987 de A. Villaronga. Talvez, sem se dar conta, o diretor realizou um interessante e pesado noir fantástico nos moldes dos melhores suspenses de décadas passadas.

in-the-glass-cage-3O trunfo do filme está na inusitada situação principal, que incomoda ainda mais pela sua aterradora plausibilidade. A ação gira em torno do ex – médico nazista Dr. Klaus, sobrevivente de um suicídio frustrante após uma vida de sádicos experimentos homoeróticos com meninos no período da guerra. Numa última ação com uma de suas vítimas, ele se joga do telhado de uma construção. Paralisado por conta da queda, o médico está completamente dependente de sua mulher Griselda (A sempre ótima Marisa Paredes) e sua pequena filha Rena, obrigadas a monitorarem um enorme pulmão de aço e vidro, onde Klaus está confinado para sempre. Logo surge o jovem Ângelo, sob o disfarce de enfermeiro que supostamente iria ajudar a cuidar do doente, mas que desencadeará uma série de sentimentos doentios e mudanças de personalidade, inclusive na menina Rena, transtornada com as revelações do passado sombrio do pai.

in-the-glass-cage-4Embora seja um filme essencialmente desagradável e perturbador, a obra mantém o espectador atento e tenso desde a abertura recheada de imagens e desenhos das atrocidades da guerra até o final impactante de visual apurado e assombroso. A violência da estória é executada com tal habilidade e elegância, que chega a transformar a sordidez do tema numa obra de inesperada beleza. Como é um roteiro cheio de nuances e com personagens muito ricos, mereceria uma remake nas mãos de um diretor de mesmo talento, capaz de explorar os vários caminhos da trama.

Por Carlos Henry.

Bullying – Provocações Sem Limites (2009)

Bullying, o tema é sério e deve ser tratado como tal. Infelizmente apesar do grande investimento de instituições e escolas em conscientizar os jovens sobre a gravidade do tema, muitas vezes os resultados ficam aquém do esperado por falta de uma exposição que faça com que os estudantes realmente sintam a gravidade do problema.

O filme Bullying – Provocações Sem Limites traz imagem pesadas, com cenas violentas, o bullying levado ao extremo. Para quem quer aprender e entender mais sobre o assunto, o filme é de suma importância.

O filme conta a história de Jodi, um garoto alegre, carinhoso e apaixonado por basquete que vive com sua mãe, uma enfermeira que sofre de depressão e faz tratamento psiquiátrico. Os dois se mudam por causa do tratamento da mãe e Jodi entra em uma nova escola. Magro e desengonçado o novato vira alvo de piadas e brincadeiras de mau gosto por parte de um grupo de alunos da sua sala. É muito comum novos alunos terem dificuldade de adaptação e sofrerem desse tipo de agressão. Justamente por se sentir deslocado com a mudança Jodi vira um alvo fácil para Nacho, o “valentão do colégio”.

Essa abordagem do filme condiz com a realidade já que segundo especialista “quem sofre Bullying costuma se isolar e esconder o problema de seus amigos e familiares”.

Com experiência própria, senti na pele o que Jodi vive na ficção. Quantas foram às vezes que me perguntei: “O que leva um ser humano a destruir a vida de outro ser igual?”. Quantas foram às vezes que fui espancado, humilhado, violado por ser simplesmente o Dhiogo que sou. Queria saber do que é feito estas pessoas que de forma monstruosas destrói a vida de seres que quer bravamente viver? Eu e inúmeras outras pessoas fomos vítimas de uma perseguição plenamente injusta.

Você já parou para pensa “o porquê”? Você deve ter ouvido falar desta palavra, mas você sabe o que é sofrer bullying? Você sabe o que é ser humilhado, isolado, espancado, marcado e profundamente excluído pela sociedade ou por grupos sociais? Será que vale a pena destruir uma história, uma pessoa que simplesmente quer ter o direito de viver como você? Quem são estes que dão vida para a famosa palavra do século XXI: BULLYING? Estes agressores merecem a nossa compaixão, precisam de toda atenção, pois os mesmos até matam para se tornarem populares?

Quem são as vítimas destes monstros? Posso dizer que são simplesmente seres humanos. Eu, que já vivi as marcas de uma perseguição totalmente injusta, no decorrer da vida, encarei essa cruel realidade e sobrevivi. E hoje busco defender pessoas que como eu, foram estigmatizadas pela a dor de um simples bullying. Acredito que tudo aconteceu comigo, porque tinha que acontecer; mas viver a dor de uma perseguição injusta é um estigma que fica registrado na alma.

Com propriedade digo a todos agressores que nós as vítimas queremos simplesmente viver a nossa vida.

Por isso respeite as diferenças do outro, não desenvolva uma visão etnocêntrica das pessoas que vivem a sua volta. Seja humano e se coloque no lugar das pessoas que sofrem a dor do Bullying, assim você verá, ou melhor, sentirá na pele a dor do abandono, da exclusão. Afinal, uma palavra pode marcar a história de uma pessoa por toda a sua existência.

O filme não dá uma atenção especial ao que acontece com os agressores, o que torna a “moral da história” um pouco vaga. Ainda assim ele mostra de maneira clara e chocante a realidade dos que sofrem Bullying e a importância de se denunciar essa prática!

Afinal, uma palavra de amor pode mudar a história de um individuo, pense nisto!

A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011)

ImagemParente mais próximo de “Má Educação” (2004), “La Piel que Habito“, é um filme bizarro, o qual  mistura características sobre  identidade sexual, traição, ansiedade, solidão, e morte.  Pedro Almodóvar adiciona a isso, um elemento de ficção científica que beira o horror. Talentoso como é Almodovar não deixa esse híbrido melodramático torna-se num filme ruim como a sua obra anterior “Los Abrazos Rotos” (2009), mas essa adaptação da obra do escritor Thierry Jonquet, não é  uma obra-prima, apenas um bom passa-tempo, se assim posso dizer!.

A história é sobre um rico cirurgião Robert Ledgard (Antonio Banderas), que  mantém uma bela mulher trancada em um dos quartos de sua mansão. Ela é sua prisioneira ou paciente? Quem é essa mulher chamada Vera Cruz ( Elena Anaya)? Qual é sua relação com Ledgard? Por que ela deve ser mantida em uma sala trancada? Com ​​essa premissa firmemente estabelecida, essas perguntas serão respondidas no decorrer do filme.

Atores:
Banderas é enigmaticamente formidável como o cirurgião que se comporta como um homem possuído por suas ambições. E quando suas ambições mudam de direção, ele é ainda mais assustador, mas não é o tipico de cientista louco dos filmes de horror !. Anaya que é uma atriz de beleza hipnótica, nos faz cair de amor e luxúria por sua Vera Cruz. Marilia Paredes é magnífica num papel desafiador, e Jan Cornet faz um belo trabalho como Vicente.Imagem

Esse filme é  para quem ?

Creio que se precisa gostar muito do cineasta espanhol para apreciar essa obra. Tecnicamente perfeito – Almodovar e o seu diretor de fotografia, José Luis Alcaine, criam um mundo de um visual vibrante, e Alberto Iglesias compôs uma trilha sonora cheia de cor e escuridão com tons altos e baixos-, a qual é  a melhor coisa do filme como um todo para mim!.

ImagemAo passo que Almodovar vai relevando o mistério em torno da personagem de Anaya, mais eu fiquei desconectado com o filme. Muitos podem levar esse filme a sério, principalmente a quem curte as questões de gênero, associado à feminilidade e masculinidade. De acordo com Judith Butler, sexo é algo objetivamente natural, e, não existe: “a realidade de gênero é performativa”, o que ela quer dizer que gênero é real na medida em que é realizado.” O corpo torna-se seu gênero somente através de uma série de atos que são renovados, revistos, e consolidados através do tempo, e não numa troca de pele. Gostaria de ter visto as duas personagens sendo interpretadas pelo mesmo ator, e quem sabe se isso não me chocaria…se essa era a intenção de Almodovar.

Nota: 7,0