Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011). E ficou como comida requentada!

Foi vendo um teaser deste filme que me levou a conhecer mais da Trilogia de Stieg Larsson. Enquanto aguardava por essa versão made in USA, eu assisti o original sueco, e que eu AMEI. Mas quando vi o teaser da versão americana, eu gostei muito; me motivou mesmo a vê-lo. Aliás, gosto mais de ver os teasers dos filmes do que os trailes; é que o primeiro vende o produto puro e simples, já um trailer o faz pensando mesmo no público alvo. Ai então veio a questão ver ou não ver esse de 2011? É que o outro, o original de 2009 ainda estava na memória. Decidir assistir. E não deveria ter feito isso! Deveria ter deixado passar mais tempo. Porque ficou mesmo um gosto de remake, e sem a emoção e a adrenalina de quando assisti o filme original.

E o que foi que aconteceu? Me perguntei ao final do filme. É um filme muito bem construído. De uma beleza ímpar. Fotografia perfeita. Som, idem. Atuações, também. Bem, não se pode dizer que David Fincher pecou em algo. Talvez por ter aceito fazer o filme agora.

Mesmo mudando certas cenas, mesmo assim o filme perdeu o suspense para mim. Ok! Nem teria como ser de outro jeito pois eu já conhecia toda a trama. E até por isso não deveria me incomodar. Se eu até me preparei para ver um remake, e de uma excelente história. Então era focar no Drama, e na beleza plástica do filme. Mas Fincher jogou todas as fichas num Thriller. Algo que pode ter agradado a muitos, principalmente os que não viram o de 2009, ou o viram há muito mais tempo que eu. Eu vi não tem nem seis meses.

Então o que ficou desse filme?

Das poucas vezes que faço comparações entre dois filmes, uma seria como agora: original e versão, mas tendo um curto espaço de tempo entre eles. Em relação as atuações, se for para colocar numa balança atores/personagens de 2009 versus 2011, meu voto penderá mais para atuação/elenco do original.

- Enquanto o Mikael Blomkvist de Michael Nyqvist passava a carga de um homem com uma faca no pescoço, com receio de ser preso, com uma certa raiva de si por ter caído numa cilada, o de Daniel Craig estava mais para um espião que entrou numa fria e em uma sátira. O de Blomkvist passa um ar de inteletual, alguém letrado. O de Craig ficou mais um jornalista que usa muito mais a internet como fonte de pesquisa. Nada contra esse lance, pois trouxe o personagem para a atualidade. A questão é que fica um romantismo maior para um jornalista investigativo que vai às ruas, que sente o cheiro do papel, que torce por um “Parem às prensas!“, mas por ter trazido um grande furo. E esse ficou transparecido no de 2009. Craig ficou blasé demais. Na cena onde entra na casa de Martin Vanger, mas parecia que tinha ido pedir uma xícara de açúcar ao vizinho.

- Também para as duas Lisbeth Salander, que mesmo com um exterior semelhantes – couro, percing, tatoo, visual meio agressivo… -, houve diferenças nas performances. Como eu escrevi no meu texto do filme original, essa personagem me fascinou. De eu querer me detalhar mais na análise dela, mas o farei após eu assistir os três filmes. Então agora um pouquinho das duas. A de Noomi Rapace fez dela uma fera ferida, mas uma menina em seu olhar. Uma Lisbeth a quem o mundo fora cruel, mas que mais que responder com igual violência, era como uma armadura. A Lisbeth de Noomi traz sua história até na sua postura. Já de Rooney Mara não trouxe o passado em si. Foi como se só passou a sofrer as pancadas do mundo recentemente. Dai sua reação tinha mesmo o peso do momento.

- Até o Henrik Vanger do filme original transmitiu mais amargura. Pela família a qual fazia parte. Pela busca da dileta sobrinha. O de Christopher Plummer calcou-se mais na ironia. Talvez por conta disso, dou como empatados os dois Henrik Vanger.

- Para a tal sobrinha desaparecida, a Harriet Vanger ficou um paradoxo. É que gostei mais da história do de 2009, por ficar mais verossímil. Mas mesmo não gostando da história dada a essa personagem por David Fincher, eu gostei da personagem. Talvez por ter gostado da atriz em outro trabalho. Não coloco o nome dela aqui, porque seria um grande spoiler.

- Em relação aos dois Martin Vanger, posso dizer que houve um empate. O de Stellan Skarsgård passou mais um refinamento como algo nato. Já o de 2009, mostrava que fora algo adquirido. Ambos mostraram frieza. Mas o de 2009 mostrou-se mais perverso.

Agora, o que eu gostei mesmo foram os computadores usados. Desempenho e performance dessas máquinas. Amei o tal programa de exibição de fotografias. Como também o uso desse ferramental, aliado a internet como ajuda na elucidação de um mistério. Claro que a trama traz o fator inteligência de quem opera -Mikael e Lisbeth -, em primeiro plano. A investigação avança porque ambos são muito bons. Mas essas maravilhas do século XXI tornaram-se excelentes coadjuvantes nesse filme. E me fez pensar em: “Quero um Mac!”

Então, é isso! Vou deixar passar um longo tempo para rever essa versão. Quem sabe ai não me venha mais com sabor de comida requentada. Porque agora, mesmo com temperos adicionais para apurar o gosto, me fez foi querer rever o original que é nota 10; como ver as continuações. Pelo conjunto da obra, esse aqui é um ótimo filme.
Nota 09.

Por: Valéria Miguez(LELLA).

O Artista (The Artist. 2011)

Não é um filme, é uma viagem. Portanto, prepare-se!

Todos que já fizeram uma viagem algum dia, por mais simples que seja, sabem da necessdidade dos preparativos. Roupas, acessórios, utensílios, bagagem! Dicas, informações, roteiro, pesquisa prévia para que se possa aproveitar ao máximo uma estadia que poderá ser mínima. O prazer não é medido em tempo, mas em qualidade e essência. Assim, ao se decidir por assistir ao filme “O Artista”, prepare-se, pois é uma viagem, onde o trajeto não se dissocia da estadia.
Não sou uma pessoa do ramo, não sou crítica de cinema, não posso ser considerada uma cinéfila, sou uma consumidora habitual de cinema e propagadora das obras que assisto e gosto, posso dizer ainda que, qualquer ida a um cinema já é um prazer por si mesma fazendo com que qualquer ida a uma sala de projeção com filme que consideremos ruim, é melhor que não ir. Conferir com os próprios olhos, exercer a própria opinião, desfrutar dos prazeres adjacentes do passeio.

Surpresa potencializada:

Vivo no Rio de Janeiro, cidade que há 10 dias já respira confete e serpentina, batucadas, animação, excitação, com extensa programação musical onde confusão, ritmo, batucada e barulho dão o tom acelerado dos nossos dias. Vivemos um mundo tecnológico, plugado de imagens, sons e animação. Dados periféricos que podem ter influência neste filme que não se assiste, se degusta! Agregado a isso, não li uma única linha sequer de qualquer resenha sobre o filme, afinal nessas épocas sou uma criatura totalmente submersa no mundo da música. Ver o filme começando, foi como ser içada das profundezas do mundo sonoro e isto a princípio não foi confortável.  Ler no cartaz que o filme tem 10 indicações para o Oscar, emprestou-me uma animação que empalideceu, logo ao fim dos créditos iniciais na tela.

O Cinema:

O primeiro impacto, o rosto extremamente agradável do protagonista, sim ele é lindo! Mesmo caracterizado como astro dos anos 20. Fraque cartola, elegância, bigodinho fininho, cabelo engomadinho tudo impecavelmente asseado, bem passado, lustroso. Depois o contato com a maneira como se assistia filmes nessa época tão remota. Orquestra ao vivo, elenco atrás da cortina e sua aparição para saudar o público. Demorou um pouco pra ficha cair e entender esse cinema de época.

O Filme:
Mostrar o contexto da exibição das obras, foi o gancho que me “içou”, trazendo a minha atenção para o que a telona mostrava, muito mais que as expressões exageradas, onde os gestos precisavam mostrar  aquilo que o cinema não oferecia: voz.
George Valentin (Jean Dujardin) é “o astro”, que leva milhares de fãs ao cinema, para ver filmes onde divide a cena com a sua esposa e o seu cão. Ele, George, é talentoso, bem humorado, vaidoso, autoconfiante, ególatra, orgulhoso, artista numa época em que os astros, se destacavam do restante da humanidade, ah, e tem as sombrancelhas mais expressivas do planeta! Conhece Peppy Miller (Bérénice Bejo), rende-se ao talento da moça e facilita-lhe a oportunidade. Quando o som começa a chegar ao cinema, ele é um dos que não acreditam na novidade.
A forma como o filme apresenta o paradigma de que uma artista de filme mudo não poderia adaptar-se à nova forma do cinema é sensível. A nova tecnologia convence ao próprio artista da sua incapacidade de se adaptar, de que ele faz parte de um passado que nem lembranças lhe deixaria.
A oposição entre novo e velho, a apresentação do artista como um utensílio descartável dessa forma de arte, baseada no comércio, na industrialização. É realmente o início da cultura onde os estúdios ditam aquilo que o público gostará de ver.
Peppy, deslancha, contratada pelo mesmo produtor de George, Al Zimmer (John Goodman). Ela tem a sorte de estar sempre no lugar certo, na hora certa. De ser tão nova quanto à novidade. Chega a ser poética a trajetória da estrela que sobe e do astro que decai. Peppy e George estão na mesma pista, em trajetórias opostas e não colidem, se encontram a a partir do respeito que jovem estrela tem para com o renomado astro. O filme tem personagens pungentes como o motorista, James Cromwell e o incrível cãozinho Uggie. Também tem humor e a decadência de George, nos toca  mas não prenuncia tragédia. George certo do seu talento e da inviabilidade dos filmes com voz, investe  pesado numa produção de contra ataque ao inimigo novo, é abandonado pela mulher  Dóris (Penelope Ann Miller) com ciúme exagerado na mesma medida que as representações da época, é surpreendido pelo Crack da bolsa que deu origem à Depressão de 1929. Mas para não sucumbirmos a esses  tantos dramas temos Uggie, o cão e a diversão da mulher de George em enfeiar suas fotos.

Mas como curtir um filme tão na contra-mão de tudo o que a indústria cinematográfica vem impondo como aquilo que queremos ver? Preparando-se para uma viagem no tempo, onde os sentimentos tem trilha sonora instrumental, poucas legendas e muita emoção, não a emoção dos filmes de ação, mas a ação das emoções. Ambientação perfeita e um andamento mais lento que mostra a perfeição nos cortes.  As cenas são límpidas e há recursos digitais nas cenas com o cãzinho, a tecnologia prestando o seu tributo à origem da arte que mais lhe “dá cartaz”  Tenha em mente que preto-e-branco também sem cores, porque o filme é de um colorido intenso, mas não para os olhos.

Quem é do tempo em que a global Sessão da Tarde valia a pena, vai ter a doce lembrança dos musicais em preto e branco com Fredie Staire sua simpatia, alegria e claro, sapateados. O filme traz muitas referências de priscas eras, e até mesmo de Cidadão Kane (a cena do café da manhã), que desembarcou nas telas muito depois da chegada do cinema falado,  nossa sensibilidade a um tempo que não volta.

Nota: 10,5 …

Continue lendo

O Artista (The Artist. 2011)

Pela primeira vez em muito tempo, há o risco de a estatueta mais concorrida do mundo do cinema ir parar em mãos realmente merecidas no quesito melhor filme.

O Artista” (The Artist) de Michel Hazanavicius é uma obra extraordinária. A começar pela escolha do astro principal Jean Dujardin para viver George Valentin, um ator da década de vinte que sofre com a chegada do cinema falado que elege novas estrelas como Peppy Miller (A não menos talentosa Bérénice Bejo). Jean tem um frescor inédito que oscila habilmente entre o charme irresistível e a pantomima divertida que o personagem exige em momentos de humor e melodrama divididos graciosamente com o esperto cãozinho Uggie. Este importante momento de transição já suscitou trabalhos históricos na sétima arte como “Singing in the Rain” e “Sunset Boulevard”. “O Artista” também deve se transformar num clássico inesquecível do mesmo porte.

Quem não se incomodar com o ritmo apropriadamente lento em vários momentos, a ausência de diálogos e cor e o superado formato três por quatro da tela, vai aproveitar um punhado de cenas geniais e antológicas como aquela em que Peppy brinca com o terno pendurado de George. De quebra, uma trilha sonora saborosa que embala uma atmosfera lúdica, ingênua e de puro deleite absolutamente adequada ao ritmo gentil de uma película totalmente desprovida do envolvimento frenético virtual dos dias de hoje. Na última parte, a sala de projeção traduz uma emocionante e explícita homenagem a Fred Astaire e Ginger Rogers numa sequência arrebatadora.

Desligue (completamente) o celular e mergulhe no mundo maravilhoso deste filme único e sedutor.

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011)

Por Alex Ginatto.
Pude assistir ontem a este surpreendente filme. De início acho que fui um pouco preconceituoso por se tratar de um filme iraniano, mas o enredo se aplica a qualquer lugar do mundo, talvez se focarmos um pouco menos na religião.

Realmente conseguimos sentir a aflição de todos os lados:
-o marido orgulhoso que não quer que a esposa se vá, mas também não diz isso a ela;
-a esposa, preocupada com o futuro de sua filha, querendo sair do país, mas não suportando a ideia de que o marido não concorde com ela;
-a filha em uma época complicada, diante da separação dos pais, se vendo como objeto de disputa;
-o senhor que não pode vencer o corpo e mente desgastados pela doença;
-o casal mais pobre entre a religião e o dinheiro devido aos credores.

O filme se mostrou muito maior do que se imagina pelo título e acho que a ideia do diretor ao finalizar sem um lado é justamente focar no todo e não somente na separação do casal.

Tudo o que acontece durante o filme é fruto de mentiras e decisões precipitadas iniciadas pela saída de Simin de sua casa. Ou seja, a separação é o início de tudo, e o filme termina com a certeza de que o que fica pendente durante todo o seu desenrolar, ao contrário do que parece, tem um fim, se concretiza.

Não sei se para rever, mas para se pensar e aplicar em nossas vidas.

Excelente filme!
Nota 8.

O Artista (The Artist. 2011)


Será que é pedir demais para o público apreciar um filme como “O Artista”?. Não sei não!. O enredo do filme em si não é exatamente novo– nem quero usar a palavra “original” aqui, porque hoje em dia, tudo se copia!.

Quando a estória começa, George Valentin (Jean Dujardin) é uma das principais estrelas da época, um astro arrogante do cinema mudo — do calibre de um Rudolph Valentino ou Erroll Flynn!. Valentin é um cara bem-humorado, apesar de uma vida doméstica fria ao lado de sua esposa (Penelope Ann Miller). Provavelmente, o estrelismo o fez esquecer da sua “amada”, embora o mesmo tenha uma grande devoção pelo seu cãozinho, que está com ele em tudo e qualquer lugar!.

Ai, surge uma fã de Valentin, Peppy Miller (Berenice Bejo) que se torna atriz — depois de vir de papéis inexpressivos em filmes mudos, Miller faz uma extraordinário transição ao cinema falado. Num estilo “Nasce uma Estrela” e “Cantando na Chuva”, vemos Miller se tornar uma estrela e Valentin cair no ostracismo no estilo bem Norma Desmond em “Sunset Blvd.”

O elenco é perfeito: me envolvi com a estrela Jean Dujardin – um ator de um seu sorriso largo, e irresistível!. Que presença magnética na tela!. Merece sim levar o Oscar de melhor ator do ano!!. Berenice Bejo, que tem um grande papel, e está perfeita, não deveria estar concorrendo ao Oscar de coadjuvante, mas sim de melhor atriz principal!. E, o John Goodman faz um “Louis B. Mayer” sublime!.

Lindos figurinos, e cenários de encher os olhos – as cenas externas em L.A são um espetáculo a parte!. A fotografia de Guillaume Schiffman, que fotografou o ousado “Anatomy of Hell”(2004), é simplesmente de cair o queixo!!. Creio que a trilha sonora de Ludovic Bource seja não apenas a alma, mas o que sustenta o filme em si, embora as melhores faixas sejam aquelas escritas por Bernard Hermann, tiradas do filme “Vertigo” de Hitchcock. Não sei que critério foi estabelecido para a sua candidatura ao Oscar, pois recordo que o trabalho de Clint Mansell em “Black Swan” (2010) foi menosprezado pela academia porque ele usou elementos da música de Tchaikovsky em “Swan Lake”, ou até mesmo a trilha de Jonny Greenwood para o filme “There will be Blood” ( 2007), foi preterida porque Greenwood usou material pre- existente de sua propria autoria!. Não será injusto se Bource vier a ganhar o seu Oscar, mas em mais de 10 minutos de imagem em o “Artista”, temos a música de Hermann na tela!. E, compreendo a frustração de Kim Novack ao declarar em público, que o “Artista” depende e muito da trilha de “Vertigo- ” isso é pura verdade!.

Co- editado pelo diretor Michel Hazanavicius, que também assina o roteiro, “O Artista” é  uma obra bastante criatividade e ousadia assim como Scorsese em “Hugo” (2011), o qual, foi a França para homenagear um dos pioneiros do cinema!. Contudo, o enredo de o “Artista” não tem nada assim de complexo– é apenas uma ousada e bela comédia-dramática. Bem, em termos comicos — as risadas que surgem a partir de situações familiares–, não achei tão engraçadas assim, exceto, as cenas que mostram Valentin com o seu tão adorável cãozinho!. Em termos dramáticos, o ritmo do filme diminui muito, ficando atolado num melodrama repetitivo. Sim a carreira de Valentin vai para o brejo, mas por que Hazanavicius precisou arrastar tanto o drama do seu astro para depois “jump” para a cena final?.

Particularmente, adoro cinema, e adoro assistir filmes na tela grande, mas quando um filme me faz bocejar é porque há algo errado!. Assistindo o “Artista”, me encontrei perguntando se eu estava entediado ou a platéia me fez entediado. Bem, a magia de estar em uma sala de cinema é o fato de que compartilhamos a alegria, a tristeza, o riso e o medo com estranhos. Várias vezes, eu me encontrei rindo, porque o riso do outro me contagiou. Assistindo o “Artista”, eu fiquei entediado pelos bocejos da platéia, os quais foram também contagiantes!. Se tivesse sido cortado 25 a 30 minutos do filme, não prejudicaria em quase nada!.

Não acho que esse filme mereça o Oscar, embora o mesmo seja tecnicamente (ainda) um grande filme!. Mas levando em consideração o “Discurso do Rei” (2010) que foi agraçiado com a estatueta como melhor filme, eu não me surpreenderei com a decisão de premiar o “Artista”, que curiosamente é vendido como um filme francês, produzido pelo ator Thomas Langmann, filho do cineasta Claude Berri, mas com dinheiro americano– tanto o filme não foi escolhido pela França para ser o representante do país para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Nota 8,0 – pela criativa homenagem ao cinema!

A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011)

ImagemParente mais próximo de “Má Educação” (2004), ”La Piel que Habito“, é um filme bizarro, o qual  mistura características sobre  identidade sexual, traição, ansiedade, solidão, e morte.  Pedro Almodóvar adiciona a isso, um elemento de ficção científica que beira o horror. Talentoso como é Almodovar não deixa esse híbrido melodramático torna-se num filme ruim como a sua obra anterior “Los Abrazos Rotos” (2009), mas essa adaptação da obra do escritor Thierry Jonquet, não é  uma obra-prima, apenas um bom passa-tempo, se assim posso dizer!.

A história é sobre um rico cirurgião Robert Ledgard (Antonio Banderas), que  mantém uma bela mulher trancada em um dos quartos de sua mansão. Ela é sua prisioneira ou paciente? Quem é essa mulher chamada Vera Cruz ( Elena Anaya)? Qual é sua relação com Ledgard? Por que ela deve ser mantida em uma sala trancada? Com ​​essa premissa firmemente estabelecida, essas perguntas serão respondidas no decorrer do filme.

Atores:
Banderas é enigmaticamente formidável como o cirurgião que se comporta como um homem possuído por suas ambições. E quando suas ambições mudam de direção, ele é ainda mais assustador, mas não é o tipico de cientista louco dos filmes de horror !. Anaya que é uma atriz de beleza hipnótica, nos faz cair de amor e luxúria por sua Vera Cruz. Marilia Paredes é magnífica num papel desafiador, e Jan Cornet faz um belo trabalho como Vicente.Imagem

Esse filme é  para quem ?

Creio que se precisa gostar muito do cineasta espanhol para apreciar essa obra. Tecnicamente perfeito – Almodovar e o seu diretor de fotografia, José Luis Alcaine, criam um mundo de um visual vibrante, e Alberto Iglesias compôs uma trilha sonora cheia de cor e escuridão com tons altos e baixos-, a qual é  a melhor coisa do filme como um todo para mim!.

ImagemAo passo que Almodovar vai relevando o mistério em torno da personagem de Anaya, mais eu fiquei desconectado com o filme. Muitos podem levar esse filme a sério, principalmente a quem curte as questões de gênero, associado à feminilidade e masculinidade. De acordo com Judith Butler, sexo é algo objetivamente natural, e, não existe: “a realidade de gênero é performativa”, o que ela quer dizer que gênero é real na medida em que é realizado.” O corpo torna-se seu gênero somente através de uma série de atos que são renovados, revistos, e consolidados através do tempo, e não numa troca de pele. Gostaria de ter visto as duas personagens sendo interpretadas pelo mesmo ator, e quem sabe se isso não me chocaria…se essa era a intenção de Almodovar.

Nota: 7,0

Do Começo ao Fim, 2009

Do Começo ao Fim é um filme brasileiro escritor por Aluízio Abranches que narra uma história de amor diferente de tantas outras já trabalhadas nas telonas. De forma irreverente ele descreve um romance entre dois seres do mesmo sexo.

O autor trabalha dois pontos considerados polêmicos por muitos na sociedade do século XXI a homossexualidade e o incesto; na trama notamos que amor transcende todas as barreiras sociais.

A trama no apresenta uma história romântica vivida por Francisco e Thomas que ao longo do filme acabam construindo uma belíssima e amora relação, vivendo uma extraordinária história de amor; regada por muito beijo, erotismo, sexo e prazer.

Como cinéfilo afirmo que amor dos dois vence as barreiras do preconceito e da ficção, pois ao longo do filme sentimos comovidos por este amor que de forma profundamente poética, nos leva ao encontro das fábulas transcritas por inúmeros artistas e poetas que sublime dão vida as sentimentos que os coabitam.

O que é descriminado e desconsiderado na nossa sociedade contemporânea (homossexual) tornasse não mãos de Abranches um contraponto para um mundo cheio de violência, medo, intolerância e etc.

A idéia sintetizada no filme não se resume em simplesmente transtornar o telespectador, mas de fomentar uma discussão sobre as problemáticas que existem e são abafadas ou tratadas como hipocrisia; pelos membros tradicionalistas e cristãos que condenam tudo aquilo que segundo eles, não são aceitos por Deus e pela sociedade que de forma incoerente diz ser sustentada por padrões e normas sociais.

Ousadamente o filme Do Começo ao Fim rompe com as amarras cinematográfica e sociais, levando para os seu público aquilo que sabemos que existe mas que é censurado pela mídia que se diz democrática. Abranches coloca em voga uma das problemáticas mais pertinentes da sociedade contemporânea: a homofobia.

Homofobia é o termo utilizado para nomear qualquer tipo de discriminação e aversão aos homossexuais. No sentido mais profundo da palavra, homofobia ainda significa medo que uma pessoa pode ter de se tornar um homossexual. Dessa forma, pode-se perceber que o termo é um neologismo.

Existem várias ramificações que justificam a homofobia. Algumas pessoas encaram a homofobia como uma manifestação semelhante ao racismo onde as pessoas se limitam às imposições da sociedade e não são abertas ao novo, colocando o nosso eu, como referência e anulamos ou rebaixamos a opinião do outro. Os homossexuais são vistos como o “grande problema do século que contradiz os ensinamentos recebidos pela sociedade, pela família e pela religião”.

Uma pessoa pode até não concordar com a homossexualidade, mas a partir do momento em que um ser humano, independente de sua cor, raça, credo ou sexo, é discriminado por ser homossexual, surge então o ato homofóbico. Atribuem-se a ele a injúria, difamação, gestos e mímicas obscenas, antipatia, ironia, sarcasmo, insinuações e qualquer outra forma de criticar e banalizar o homossexual.

No século XXI a mídia de forma crescente e ao mesmo tempo negativa trabalha a temática gay, pois se esquece de trabalha a mentalidade da sociedade que de forma brutal matam indivíduos semelhantes por causa da sua opção sexual.

Em relação ao medo de se tornar homossexual muitas pessoas tentam o suicídio, tentam mudar sua orientação sexual, possuem baixa auto-estima, comportamento compulsivo, afastamento da família, busca refúgio em substâncias como álcool, drogas e são indivíduos que plantam a desconfiança, autocrítica.

Há uma grande polêmica entre homossexualidade e religião, pois a Bíblia (livro utilizado pelo cristianismo) condena o ato homossexual e isso gera grande revolta nos homossexuais. Ainda existem outros grupos, independentes de religião, que não aceitam os homossexuais e por isso praticam crimes contra os mesmos, perseguindo e matando estes indivíduos.

O filme nos apresenta novos caminhos onde podemos confirmar que tal análise e totalmente etnocêntrica, uma vez que não levam em consideração que a “democracia” não é um “bem universal”; e que os estados islâmicos têm uma forma muito especial de diferenciar a relação entre religião e política, que não pode ser descrita como “fanática” só por que é diferente da nossa realidade. Isso acontece porque a nossa mídia julga esses movimentos religiosos da mesma forma que julgaria se eles fossem “cristãos” e estivessem ocorrendo aqui.

O etnocentrismo existe na medida em que transpomos os nossos conceitos para outros contextos sociais, culturais e pessoais que não vivenciamos.

O filme camufladamente propõe aos homofobicos uma análise profunda, onde civilizadamente possam encontrar nos homossexuais o ser humano. Pessoas que desejam ser feliz e viver plenamente a sua existência, pois acima de tudo eles são seres humanos como qualquer outro.

No concerne da análise notamos que o filme vai além das temáticas que envolvem o “incesto gay”, homofobia, relações familiares; levando os telespectadores a discutirem a respeito do “mito amor” que é muito bem trabalhado por Platão em O Banquete, por que senti repulsa em amar uma pessoa do mesmo sexo?

“Achei o tema que envolve o filme ousado, serve pra mostrar um lado da homossexualidade que não é notado pela sociedade, uma relação de amor entre duas pessoas que passa longe das orgias que é tão taxada na relação gay. Parece mostrar uma outra ótica, mas que não deixa de ser amor e mais leal até que muitos outros relacionamentos ditos normais que existem por aí”, (Thalyta França – acadêmica de Arquitetura e Urbanismo e membro do Coletivo Catraia.)

Em suma, não estou aqui para colocar a questão se ser gay é normal ou não. O que não pode ser aceito é a violência que cresce a cada dia. Eles são seres humanos e desejam como qualquer outro, ser feliz e viver plenamente da sua existência.

Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

Quem sou eu? Amanhã não mais existirão dúvidas, todos saberão que sou eu!
O todo será a plenitude do nada que ontem coabitava a minha existência.
Neste terreno as sementes foram semeadas como excelência imortal.

Asas do Desejo é um filme contemplativo, que observa e comenta sobre a vida, a passagem do tempo, a consciência a respeito de si e a descoberta da própria identidade. Em vários momentos, Wim Wenders faz as perguntas que motivam a reflexão provocada pelo filme: “por que eu sou eu e não você? Por que estou aqui e não ali? Onde termina o tempo e onde começa o espaço?”. O filme trabalha com uma linguagem puramente metafísica e tem uma face espiritual evidente, embora trate fundamentalmente da experiência urbana social (e, portanto, humana).

A produção cinematográfica nos leva ao narramos do por que; porque ansiedade, preconceito, sexo, morremos, amor, Deus, céu, anjos. De forma criativa Wenders usou os anjos como metáfora para tecer um poético e sensível estudo sobre a condição humana.

Ricamente Wenders nos mostra que a vida não é aquela festa que esperamos, mas neste mundo de meu Deus, devemos dançar sempre que for possível… Se os dias bons não vier vamos fazer os ruins se tornarem bons. Pois não devemos esperar somente os momentos mágicos, magníficos, precisamos viver a arte da vida de forma plena. Não desperdice a capacidade de ser feliz, de fazer o outro feliz. A felicidade está presente nas coisas mais simples. Viva! O dinheiro não é tudo, ele se estala em suas mãos, mas acaba fugindo por entre os dedos. A juventude passará e junto com ela também a saúde se esgotará. Afinal a vida passará… Por isso viva, pois a vida não é curta, mas breve!

E enquanto a tempestade não passar, o melhor é dançar na chuva e acreditar que os anjos existem.

O filme vislumbra o aspecto solitário da existência humana através dos olhos impassíveis dos anjos. Eles são invisíveis aos humanos, com exceção das crianças; os pequenos são os únicos seres que olham diretamente para os anjos, embora o filme jamais explicite se as crianças são realmente capazes de vê-los. Nesse sentido, Wenders opera uma metáfora fantástica, associando os anjos às crianças. Eles se identificam com elas; são seres puros, inocentes, que começam a descobrir sua identidade. Os adultos mergulhados no turbilhão de problemas do cotidiano, na busca incessante por dinheiro e poder, perdendo a essência fundamental que habita nas crianças.

Gostei muito da essência humana trabalhada no contexto geral do filme, que nos leva para diferentes reflexões da vida, onde precisamos no decorrer da mesma, buscar o anjo que habita em nós (continuamos a perder muitas coisas na vida, pela ausência de coragem).

O filme é incontestavelmente um poema, uma obra-prima, que tem a capacidade de penetrar na “psique” humana. Envolvendo um enredo que visa destacar a vida humana de forma complexamente, não deixando de lado à simplicidade, a origem do ser e a pureza do ser humano na totalidade da palavra.

Como poeta, digo que o filme é uma raridade poética, que transcreve o existir, a vida, a essência humana, o modo como entregamos aos pequenos prazeres do cotidiano, o sorriso bobo, a maneira de caminhar, o olhar perplexo e tudo que nos faz ser seres humanos.

A trama cinematográfica nos leva a um passeio nos mais profundos sentimentos, objetivando um olhar novo dos seus telespectadores; que são envolvidos pela inovação na forma de narrar um poema, de expressar a arte de viver e o ato de compreender a vida.

Afinal, um olhar pode fazer a diferença na vida do outro e até mesmo na nossa própria vida.  Wenders nos leva a uma viagem pra dentro de nós mesmos, um encontro do ser físico profano com o anjo espiritual sagrado que vive em cada um de nós.

A Árvore da Vida (The Tree of Life. 2011)

Imagem

É sabido que Terrence Malick é um cineasta como nenhum outro. Para desfrutar dos seus filmes, você não pode seguir uma norma, mas se deixar transportar emocionalmente e visualmente. “A Árvore da Vida” é o filme mais ambicioso do cineasta, e também o mais dificil de se transportar.

Embora visualmente seja um filme de cair o queixo, Malick introduz vários conceitos que nunca realmente se unem. Talvez o Livro de Jó seja o fio contudor, especialmente os versos 38:4-7, no qual Deus está lembrando Jó de seu poder e sua criação os fundamentos da terra a partir do mar para as estrelas. “ A Árvore da Vida” dá testemunho dessa criação, em conjunto com outros elementos do Livro de Jó, em geral, incluindo o questionamento da justiça de Deus, a inocência contra a maldade e o sofrimento humano.

O filme começa com o Sr. e Sra. O’Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain) sendo informados da morte de um dos seus três filhos. A natureza de sua morte não é totalmente clara, mas esta é a primeira instância em que a fragilidade da vida é mencionada será revisitada com freqüência. Movendo mais ou menos 40 anos no futuro, nós nos encontramos próximos entre torres de vidro gigantes e a selva de concreto onde se encontra o filho mais velho do casal,  Jack (Sean Penn), agora crescido. É o aniversário da morte de seu irmão e pegamos trechos breves de um telefonema que ele está tendo com seu pai, desculpando-se por coisas do passado e claramente perturbado.

Neste ponto, não temos exatamente um testemunho para a vida, pois, somos logo transportados para a criação do universo: a mudança dos cosmos; os vulcões entram em erupção; e os dinossauros caminham sobre a terra. Depois disso, o filme logo se estabelece, mais uma vez, na vida do casal, 20 anos antes de nossa primeira introdução à medida que entramos em algum momento de suas vidas, os anos 1950. Começamos com visões de sonho de Sr. e Sra. O’Brien, no amor, que então se move para o nascimento de Jack (Hunter McCracken), cuja vida é realmente o cerne de “A Árvore da Vida” mais do que qualquer outro. Jack é logo cercado por dois irmãos (Laramie Eppler e Tye Sheridan), e embora a relação entre esses irmãos desempenha um papel, é o efeito de seu pai tem sobre eles que realmente molda o filme.

Chastain desempenha um papel mais passivo e carinhoso como a senhora O’Brien, e Pitt, faz um pai opressivo, de uma forma perfeita!. Através deste estilo de parentalidade, Jack e seus dois irmãos ficam com medo de seu pai e procuram a mãe pelo amor que desejam, embora o amor de ambos os pais têm para seus filhos é evidente a partir de uma perspectiva parcial. Com isso, a idéia das conversas consistentes que os personagens têm com Deus, em busca de sentido e a razão porque certas coisas acontecem – um empate neste segmento das ações de Jó na cena de abertura como os O’Briens perguntando o porque Deus poderia tirar a vida de sua criança inocente.  É justo?

“A Árvore da Vida” acrescenta muitas camadas, e muitas são fáceis de interpretar, outras você precisara explorar de forma bem profunda. Não é um filme preocupado com a história, e nem com valores, conceitos e idéias, mas mais preocupado com o ser humano de um forma clara que cada um de nós somos ainda como nossos pais.

Todos atores estão perfeitos, especialmente o Pitt. E, a fotografia de Emmanuel Lubezki é apenas a alma do filme!

 Nota 9

Melancholia ( 2011)

Imagem

O entediado e deprimido diretor Lars von Trier não faz um filme sem surpreender. A sua mais recente obra “Melancholia” é um meio-irmão do apocalíptico  “The Tree of Life” de Terrence Malick. O filme  é sobre o fim do mundo. E, Von Trier parte da instância de felicidade humana: um “feliz” casamento, ou uma recepção de casamento para ser mais específico, o qual é realizado em um castelo luxuoso, onde o cineasta- roteirista traça o significado da total (in) felicidade.

Imagem

A sequência de abertura, de oito minutos, é um espetaculo aos olhos; e prenuncia a destruição da terra em câmera lenta. Depois isso, encontramos os felizes recém-casados Justine e Michael (Kirsten Dunst e Alexander Skarsgard), ao caminho da recepção de casamento organizada  pela irmã da noiva, Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu marido John (Kiefer Sutherland) .

Os pais da noiva (Charlotte Rampling e John Hurt) parecem catalisadores para o clima pesado da festa. A mãe dispara aos recém-casados, “aproveitem enquanto dura.” A partir dessa cena, o sorriso visto no rosto de Justine ( Dunst) ilustra o seu olhar vazio, onde residirá até a duração do filme. O casamento de Justine é esmagado apenas horas depois de dizer “o sim”, e, é não impossivel de notar que a moça é a depressão em forma de gente. Diante do fim do mundo, Von Trier deixa claro a ingenuidade de todos que rodeiam a sua heroina, mais precisamente, Claire, que lamentávelmente como muito de nós, é dominada pela ansiedade -  o medo de enfrentar a realidade, e se deparar com a morte. Mas não seria o medo uma forma de morrer antes da propria morte em si?

A atuação de Dunst é nada menos do que espetacular – vai do olhar ao sorriso vazios, até ao silencio. O restante do elenco é igualmente muito bom, especialmente a Gainsbourg, que tem aqui um desempenho bem melhor do que fez em “Anticristo” (2009).

Embora o filme não seja tão controverso como o “Anticristo”, “Melancholia” estimula questionamentos em relação do porque Justine se casa com Micheal, sabendo que o mesmo não a fara feliz. E, por que ela deixaria a sua festa para urinar no campo de golfe, e depois ter relações sexuais com um estranho?.

Imagem

Von Trier está certissimo quando disse que esse é um belo filme. Um filme que tem também a capacidade de assombrar a gente por dias, ou semanas, isto, graças a fotografia de Manuel Alberto Claro, e o pessimismo impiedoso do proprio Von Trier. “Melancholia” é mais uma prova que cada um de nós teremos uma percepção diferente ao chegar a conclusão do filme.

 Nota 9