PINA + Wim Wenders + um 3D Mágico = O Nascimento de um Clássico.

Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança.” (Pina Bausch)

Como tinha referências para assistir Pina” em 3D, é por esse fator que inicio. Pelo lindo cartaz ficava a ideia de que o uso dessa tecnologia ficaria no efeito de respingos de água na platéia. Algo por aí. Mas Wim Wenders foi muito além, e brilhantemente! Desde 2009, com o sucesso de bilheteria de “Avatar”, houve uma febre de 3D, mas pouquíssimos filmes usaram esse recurso a ponto de valer a pena. Até a presente data, para mim, “Pina” é o quarto filme a usar com inteligência o 3D; os demais foram: “Avatar“, a Animação “A Lenda dos Guardiões” e “A Invenção de Hugo Cabret“. Em “Pina” Wim Wenders usou o recurso colocando o espectador num lugar privilegiado num espetáculo de Dança. A teatrilização de um evento desse porte, com o 3D deixa a impressão de estar ao vivo assistindo a um Balé Moderno. E realmente como se ficássemos num lugar mágico. Ora vendo de pertinho o suor no corpo do bailarino, ora sentido a força para dar a leveza ao movimento… A magia do 3D em “Pina” inicia com um convite para adentrar nessa Companhia de Balé Moderno, e de emocionar! Contar o que é, seria um spoiler que lhes tiraria a surpresa nesse encantamento. Bravo Wim Wenders! O 3D fez mesmo a diferença!

Conhecer Pina foi como encontrar uma linguagem antes de aprender a falar. Assim ela me deu um modo de me expressar. Um vocabulário.”

O Documentário “Pina” conta de maneira ímpar parte da carreira profissional de Pina Bausch. Coreógrafa, dançarina, Pedagoga de dança e diretora de balé em um Teatro na Alemanha, o Tanztheater Wuppertal – que depois foi acrescido: Pina Bausch. E é justamente com essa sua Companhia que ficamos conhecendo Pina, a profissional e um pouco do lado pessoal, pelos depoimentos dos bailarinos. Cenas que me emocinou, também!

O ballet clássico é para jovens. O que mais me fascina na dança contemporânea é a possibilidade de interpretar a nossa própria idade“. (Mikhail Baryshnikov)

“Pina” me fez lembrar de alguns filmes. Sendo que dois deles por também terem usado a dança como linguagem. Um, foi “Fantasia”, da Disney. E quando eu vi a cena com o hipopótamo, sorrindo pensei: “Minha intuição estava certa!” O outro, foi um que revi há pouco tempo, o “O Sol da Meia-Noite“, onde a dança moderna também é um coadjuvante de peso. Mas mais em cima de que tanto o personagem, quanto o bailarino Baryshnikov foi em busca: de uma dança que não ficasse presa a um corpo jovem. Claro que em “Pina” o fato de trazer também os dançarinos com mais idade teve o peso da homenagem. Mas numa atualidade onde a efemeridade nos leva quase a perder o bonde da História, é aplaudir como Wim Wenders conduz todos eles para contar essa história. Aqueles que conviveram por mais tempo com Pina, mostraram com a marca do tempo, que a dança fala por si só. Que a linguagem corporal transcende, já que ela vem de dentro.

O mais ínfimo detalhe importa. É tudo uma linguagem que você pode aprender a ler.”

Mesmo para mim que não conhecia a sua arte, me vi envolvida com todas as coreografias. Claro que sendo uma Dança, se pensa logo numa música como mestre de cerimônia, mas aqui não, ela vem com um coadjuvante que até pode ser trocadas, receber outras músicas do país de origem do dançarinos. A Trilha Sonora é formidável! De em certos momentos querer seguir o ritimo. Em sorrir, ao ouvir “Leãozinho”, do Caetano Veloso. De ficar com lágrimas, na coreografia da jovem com o rosto de batom. De bailar discretamente, com o som caribenho. E num solo, me fez pensar no filme “O Artista“. Vendo o filme, identificarão a cena. Ela é ótima!

“Eu não investigo como as pessoas se movem, mas o que as move.” (Pina Bausch)

As coreografias de Pina Bausch fazem uma junção de Dança e Teatro, onde os poucos objetos cênicos usados fazem frente ao corpo de baile. Os levando a se conhecerem, a vencerem seus receios, a extrairem de si a força do sentimento. E em várias escalas: da solidão à alegria num encontro entre amigos, permeando com os relacionamentos a dois. Pina também usa elementos naturais como a terra e a água, ou como um grande granito. Natureza bruta que entra em comunhão com a natureza crua do dançarino. O 3D nos leva a sentir a pulsão desse, e nesse enlace. Realmente esplêndido!

O Documentário “Pina” já nasceu um Clássico. Que por conta disso deveria ser visto por muito. Por outro lado, pela temática, muitos não irão apreciar. Como o senhor no meu lado que bocejou várias vezes, a ponto de me fazer dar um grande bocejo, mas que me fez foi não ficar mais sucetível a ele. Como uma barreira invisível entre nós dois. Dai em diante foquei somente no filme. Vale a pena ir assistir em 3D! E que me deixou vontade de rever. Mas ai será sem o 3D mesmo, já que quem distribuiu o filme no Rio de Janeiro, resolveu elitizar: exibindo em um ponto nobre de Cinema. Já numa 4ª semana, sala lotada. Creio que o mesmo se daria em outros bairros.

Wim Wenders diz que a Pina gostava também de incorporar elementos externos e pertencentes aos locais em suas coreografias. Assim não sei se foi proposital, ou mesmo se foi para incorporar um merchan no Documentário. Porque uma coreografia num entrocamento ficou irresistível não olhar para uma placa enorme do MacDonald’s ao fundo. O que me fez lembrar da faixa da Coca-Cola em “Adeus, Lênin!“. Como também, caso não tenha sido por merchan, qual seria o significado de um símbolo de Fast Food no contexto da tal dança.

Então é isso! Pode ser que outros mais também irão trazer outras Danças, Balés Clássicos em 3D, mas os créditos serão para Wim Wenders: o pai dessa ideia sensacional. E quem sabe num futuro barateando as televisões com 3D, muito mais terão acesso a filmes como esse. Porque o 3D caiu como luva para esse tipo de espetáculo. Assistam e comprovem. Até porque gostando ou não de Dança Contemporânea, ao se darem essa chance, verão um Clássico. De tudo, não sairão indiferentes.
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

As Donas da Noite (Wir sind die Nacht, 2010). Uma das Melhores Transformações em Vampiro

Depois de um bom tempo de sumiço, decidi voltar aqui e comentar um filme novo a que assisti, chama-se As Donas da Noite. Pois é, a primeira vez que vi o cartaz imaginei: mais um filme independente ruim lançado por aquelas distribuidoras humildes. Mas não se enganem, esse parece ser um longa que está passando despercebido pelos cinéfilos. É claro que é uma abordagem mais pop do mito, porém o interessante é até que ponto a história se arrisca a reaproveitar as características clássicas das criaturas num ambiente de modernidade, sem se limitar a sustos ou personagens muito estereotipados.

As diferenças começam logo a partir da nacionalidade, o longa é da Alemanha e apresenta atrizes de talento. Nina Hoss pode não estar no auge de sua beleza, mas continua com seu charme e dá mais segurança à personagem, tornando-a, antes de tudo, uma empresária.  Karoline Herfurth (que fez uma participação bastante sensorial e marcante em “Perfume: A História de Um Assassino” como a primeira vítima de Grenouille) abre mão da beleza e passa boa parte do tempo mais feia que Macabéa (personagem de A Hora da Estrela), até ocorrer sua transformação.

Lena antes e após a transformação

Quem me conhece, sabe que sou fascinado por filmes de vampiros, mas na descrição de vários livros a transformação ocorre de maneira estética muito significativa, não é simplesmente alterar a cor dos olhos ou tornar a pele mais pálida, o vampiro precisar ser muito mais atraente comparando a sua forma humana, entretanto mantendo traços que nos façam recordá-la. Até hoje, o pó-de-arroz foi a maneira mais utilizada para retratar o humano após a transição, algo que sempre considerei muito esquisito, afinal não era para o vampiro parecer um metrossexual (como acontece em alguns filmes teens crepusculares). Isso tudo é consertado nesse filme. A transformação apresentada nele propõe que o vampiro não deve ser tão diferente dos humanos, só mais belos que sua forma antes da transformação.  As cenas em que as mudanças ocorrem em Lena inicialmente são dolorosas, mas o resultado final, que ocorre numa banheira, mostra de forma bela a transformação da jovem, alterando toda sua aparência com alguns efeitos especiais sutis.

Falando em efeitos especiais, não vá esperando um show de imagens porque os efeitos são apenas suficientes para a execução das cenas, há partes em que é óbvio o baixo orçamento (como a luz do dia entrando nos cenários), porém isso não estraga a diversão, afinal o importante é o roteiro. Esse apresenta quatro personagens centrais totalmente diferentes. Louise (Nina Hoss), como já foi dito, tem uma postura de mulher independente, com “ar” de empresária. Lena (Karoline Herfurth), a protagonista, já é mais recatada, sempre demonstrando timidez, exceto quando é necessário tomar medidas drásticas. Antes da transformação, Lena era uma menina marginalizada que vivia de pequenos furtos, logo sabe reagir. Charlotte (Jennifer Ulrich) representa os vampiros mais clássicos e intelectuais, admiradores de música erudita e que sofrem pela passagem do tempo, ela é extremamente calada e cruel, mas possui um passado triste por ter abandonado o marido e a filha pequena ao ser transformada por Louise, provavelmente à força. Nora (Anna Fischer) é o alívio cômico da trama, a mais louca de todas, muito engraçada , porém sem conteúdo.

Louise e Charlotte (superior) - Lena e Nora (inferior)

Como de praxe, os vampiros possuem extrema ligação com o sexo. As Donas da Noite retorna com alguns temas feministas e uma personagem lésbica. A questão é que a homossexualidade já vem sendo explorada de maneira metafórica em alguns filmes de vampiro, portanto não é de surpreender que haja uma certa discussão nesse longa. Louise se apaixona por Lena, mas Lena não demonstra qualquer interesse. Um outro ponto é a ausência de vampiros homens, num certo diálogo as vampiras explicam que estão extintos pela falta de cuidado e confusões com humanos, enquanto outros foram assassinados por suas próprias parceiras. Se analisarmos bem, a maioria dos vampiros mostrados nos filmes acabam sendo exterminados, então é compreensível essa explicação para embates com humanos. Pelo que podemos notar, essas vampiras representam a liberdade feminina, mas o longa também serve como mensagem, pois esse tipo de sociedade exclusivamente feminina não dura muito tempo. A busca pelo prazer continua tendo importância crucial na trama, afinal vampiros sempre representaram uma promessa de uma vida regada a sexo. Num dos diálogos, Nora afirma que elas podem fazer o que quiserem porque não engordam, engravidam ou ficam viciadas. Elas são donas de uma casa noturna, por isso o título As Donas da Noite.

Após várias versões de vampiros, finalmente um filme contemporâneo que consegue mesclar as características clássicas a uma trama simples que não ofende a inteligência, sendo suficiente para uma boa diversão e, o que não podia faltar, uma ótima trilha sonora. Ressaltando que não há ausência de sangue, algo raro em novas abordagens pops das criaturas. Só nos resta torcer para que os Estados Unidos não façam uma refilmagem, isso não é necessário pelo fato de que o longa-metragem, tal qual a versão sueca de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, foi feito aos moldes de Hollywood.

O Porto (Le Havre, 2011). Ainda Tinham Brios Pelos Ideais da Bandeira

Era uma vez, num reino distante, o povo passava seus dias numa rotina meio doente por não ter mais os ideais do passado. Mas eis que num belo dia algo veio para mudar suas vidas. Reacendendo a chama para um novo presente. E quem sabe, uma nova história para o futuro…” E eu até poderia contar desse jeito a história desse filme. Que mescla História do Passado com algo ainda recorrente nos dias de hoje. Se as grandes migrações – espontâneas ou não -, no passado povoaram os continentes, atualmente elas se tornaram um problema para vários países. Questões não apenas de ordem social, como também política. Mas em vez de um amargo “Não temos vagas!” o Diretor Aki Kaurismäki, que também assina o Roteiro, traz esse tema numa leve Comédia Dramática, em “O Porto“.

É sempre válido manter essa questão em pauta: a do imigrante ilegal. Até por nos levar a refletir qual seria o nosso posicionamento. Até onde ir, ciente de que estaria burlando a lei ao ajudar uma pessoa nessas condições. Moral e ética tentando achar um meio termo. Na trama o grupo veio da África. Onde no mundo real, vão em busca não apenas de uma vida condigna, mas que muita das vezes estão fugindo da gana assassina de algum Ditador. No filme, por um deles ficamos ciente de também um outro fator, e bem recorrente também no contexto real. Enfim, dentro ou fora da tela sempre fica a busca pela terra prometida.

Temos no título original o nome da cidade francesa de onde se passa essa história: Le Havre. Pelo contexto histórico, como ela faz parte da Normandia, no passado pertencia ao Reino Unido. Que num passado mais recente, foi palco na ajuda para se livrarem do julgo nazista. Então ainda há um orgulho mesmo que quase adormecido em seus habitantes. Mas o filme não vem com nada didático, todo esse contexto é de um jeito en passant, nas conversas dos homens nos bares.

O filme se dá na zona portuária, tanto nas docas como no lado pobre da cidade. Seria os mais pobres os mais solidários? O lugar parece que parou no tempo. Onde a modernidade é vista numa antena parabólica numa das casas. Também num celular. Que põe em xeque se quem fez a delação também o fez por princípios ou não. No nome de um dos Café Bar onde os homens se encontram, o La Moderne. Mas também vem na manchete sensacionalista de um jornal. Com a foto do incidente fio condutor dessa história. E é por conta dessa matéria que o Chefe de Polícia local se vê obrigado a elucidar o “crime”: há um imigrante ilegal a solto pelas redondezas.

O bairrismo também se faz presente nesse filme, e de um modo divertido: entre os trabalhadores do porto com os da “capital”. Por conta de um erro burocrático, um conteiner ficara retido no lado francês do Canal da Mancha. Pela data, já deveria ter chegado em solo britânico. Por causa disso, um grupo de pessoas vindo da África, é descoberto. Grande aparato policial que acabou atraindo um foca. Registrando assim o incidente, como a fuga de um deles.

Acontece que o pé-no-calo do Inspetor Monet (Jean-Pierre Darroussin), o tal fugitivo, não passava de uma criança: o jovem Idrissa (Blondin Miguel). Monet tão acostumado a caçar bandidos se vê perdido para descascar esse abacaxi que o Prefeito lhe impôs. Até porque havia um contingente maior ajudando Idrissa. Algo que até surpreendeu aquele que primeiro tomou a iniciativa, o aposentado Marcel Marx (André Wilms). No geral, são gente simples, que sentem, pressentem que não estão tão velhos assim para mudarem o jeito que iam levando a vida. Ainda era tempo de lutar pelos ideais da Bandeira – Liberdade, Igualdade, Fraternidade -, mesmo que numa revolução silenciosa; sem armamentos.

Idrissa pelo jeito iria operar milagres naquela gente. Mas que ainda manteriam um jeito romântico de ser.

O filme também brinca com leves homenagens nos nomes dos personagens. Mas ai, sem uma confirmação por parte do Diretor, fica como um Quiz num brinde a mais do filme. Assim vejamos! O Monet seria a Claude Monet que passou a infância e adolescência em Le Havre. Idrissa, talvez ao Diretor Idrissa Ouedraogo com trabalhos premiados em Cannes, mas ainda um desconhecido internacionalmente. O de Marx seria a Karl Marx? Por ai! Sem pesar no contexto da trama do filme, mas sim como um tempero a mais ajudando no sabor da história.

Então é isso! Um filme para quem gosta de ouvir histórias. Essa é de acompanhar com brilho nos olhos, sorriso no rosto, e confesso que meus olhos marejaram no final. Um filme que eu voltaria a rever, para então saborear com mais tempo todas as referências até implícitas. Eu que só conhecia o ator Jean-Pierre Darroussin por sua ótima atuação em “Conversas com meu Jardineiro“, também gostei das performances dos demais. Temos em “O Porto” um ótimo filme.
Nota 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O PORTO (Le Havre, 2011). França/ Alemanha/ Finlândia. Direção e Roteiro: Aki Kaurismäki. Elenco: André Wilms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel, Elina Salo, Evelyne Didi, Quoc Dung Nguyen, Laïka, François Monnié, Roberto Piazza. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 93 minutos. Classificação: 12 anos.

“Carnage” (2011)

Yasmina Reza adaptou junto com Roman Polanski, a sua magnífica peça “God of Carnage”, que cheguei a ler. Não vi no palco, mas estava ancioso para ver o filme de Polanski , que particularmente, vale cada centavo que eu gastei!.

Situado em um apartamento em Nova York, dois casais cujos meninos tiveram um “desacordo” no playground, o que resultou na “disfiguração” de um deles. Jodie Foster e John C. Reilly interpretam os pais da “vítima”, e Kate Winslet e Christoph Waltz fazem os pais do menino “culpado.” Na tentativa de resolver questões em relação aos seus filhos, o que seria uma troca cordial se transforma em uma “guerra”.

Para quem é? 

“Carnage” é para quem gosta de atores. E, esse é o meu tipo de filme. Tem um elenco de quatro atores talentosos, jogados em um apartamento, onde discutem – com diálogos inteligentes.  Na verdade, “Carnage” é uma comédia, porque a vida é realmente engraçada e igualmente absurda.  A mistura de emoções, e  álcool -  o filme só fica melhor e melhor quanto mais álcool é consumido.

Expectativas:

Não vou dizer que este é um filme perfeito, porque não é, mas isso não diminue a minha apreciação a obra de Polanski. Por examplo,  dentro dos primeiros minutos, eu questionei o fato de  Winslet e Waltz já estarem na casa do outro casal, e depois vão indo ao caminho do elevador. Parecia que as questões já tinham sido resolvidas, mas-

Atores: 

O elenco é simplismente perfeito.

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Jodie Foster interpreta Penelope Longstreet, que se auto-declara como uma “pessoa boa”. Foster excessivamente domina o filme, fazendo essa mulher cheia de raiva incontida – porque seu filho perdeu dois dentes e ficou “desfigurado” como ela diz para os Cowans.  John C. Reilly faz Michael, que é o tipo de marido que mostra total paciência para sua esposa, mas que para ele também existe limite para tudo. Reilly é uma ator singular na capacidade de retratar a comédia e o drama como parte de suas nuances interpretativas.

 

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Christoph Waltz faz Alan Cowan -  talvez seja o melhor dos quatro personagens e apresenta a melhor atuação do filme. Toda vez que  ele abre a boca, o filme fica melhor. E, as constantes ligações do celular, são irritantes e brilhantes ao mesmo tempo. Kate Winslet faz Nancy Cowan, que é tão perturbada por tentativas de Penélope em lhe contar como criar seu filho como pelas interrupções do seu marido ao telefone. Winslet  é responsavel pelas duas melhores cenas do filme – a do vomito e do celular.

“Carnage” é sobre a batalha dos sexos, e também sobre a batalha de classes, mas o filme não se aprofunda sobre as questões  socioculturais,  Polanski ilustra mais o comportamento humano emergindo das sombras. “Carnage” não revelou nada mais do que eu já sabia, mas me fez balançar a cabeça em reconhecimento do comportamento que vejo nos outros e, Deus me perdoe, que até vejo em mim.

Nota 8,5

Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

Quem sou eu? Amanhã não mais existirão dúvidas, todos saberão que sou eu!
O todo será a plenitude do nada que ontem coabitava a minha existência.
Neste terreno as sementes foram semeadas como excelência imortal.

Asas do Desejo é um filme contemplativo, que observa e comenta sobre a vida, a passagem do tempo, a consciência a respeito de si e a descoberta da própria identidade. Em vários momentos, Wim Wenders faz as perguntas que motivam a reflexão provocada pelo filme: “por que eu sou eu e não você? Por que estou aqui e não ali? Onde termina o tempo e onde começa o espaço?”. O filme trabalha com uma linguagem puramente metafísica e tem uma face espiritual evidente, embora trate fundamentalmente da experiência urbana social (e, portanto, humana).

A produção cinematográfica nos leva ao narramos do por que; porque ansiedade, preconceito, sexo, morremos, amor, Deus, céu, anjos. De forma criativa Wenders usou os anjos como metáfora para tecer um poético e sensível estudo sobre a condição humana.

Ricamente Wenders nos mostra que a vida não é aquela festa que esperamos, mas neste mundo de meu Deus, devemos dançar sempre que for possível… Se os dias bons não vier vamos fazer os ruins se tornarem bons. Pois não devemos esperar somente os momentos mágicos, magníficos, precisamos viver a arte da vida de forma plena. Não desperdice a capacidade de ser feliz, de fazer o outro feliz. A felicidade está presente nas coisas mais simples. Viva! O dinheiro não é tudo, ele se estala em suas mãos, mas acaba fugindo por entre os dedos. A juventude passará e junto com ela também a saúde se esgotará. Afinal a vida passará… Por isso viva, pois a vida não é curta, mas breve!

E enquanto a tempestade não passar, o melhor é dançar na chuva e acreditar que os anjos existem.

O filme vislumbra o aspecto solitário da existência humana através dos olhos impassíveis dos anjos. Eles são invisíveis aos humanos, com exceção das crianças; os pequenos são os únicos seres que olham diretamente para os anjos, embora o filme jamais explicite se as crianças são realmente capazes de vê-los. Nesse sentido, Wenders opera uma metáfora fantástica, associando os anjos às crianças. Eles se identificam com elas; são seres puros, inocentes, que começam a descobrir sua identidade. Os adultos mergulhados no turbilhão de problemas do cotidiano, na busca incessante por dinheiro e poder, perdendo a essência fundamental que habita nas crianças.

Gostei muito da essência humana trabalhada no contexto geral do filme, que nos leva para diferentes reflexões da vida, onde precisamos no decorrer da mesma, buscar o anjo que habita em nós (continuamos a perder muitas coisas na vida, pela ausência de coragem).

O filme é incontestavelmente um poema, uma obra-prima, que tem a capacidade de penetrar na “psique” humana. Envolvendo um enredo que visa destacar a vida humana de forma complexamente, não deixando de lado à simplicidade, a origem do ser e a pureza do ser humano na totalidade da palavra.

Como poeta, digo que o filme é uma raridade poética, que transcreve o existir, a vida, a essência humana, o modo como entregamos aos pequenos prazeres do cotidiano, o sorriso bobo, a maneira de caminhar, o olhar perplexo e tudo que nos faz ser seres humanos.

A trama cinematográfica nos leva a um passeio nos mais profundos sentimentos, objetivando um olhar novo dos seus telespectadores; que são envolvidos pela inovação na forma de narrar um poema, de expressar a arte de viver e o ato de compreender a vida.

Afinal, um olhar pode fazer a diferença na vida do outro e até mesmo na nossa própria vida.  Wenders nos leva a uma viagem pra dentro de nós mesmos, um encontro do ser físico profano com o anjo espiritual sagrado que vive em cada um de nós.

Assalto em Dose Dupla (Flypaper. 2011)

Com um tema bem comum – assalto a banco -, fica o desejo de ver nesse um diferencial. Que dará molho a trama. Em “Assalto em Dose Dupla” o ingrediente principal é Tripp, personagem de Patrick Dempsey. O cara é uma mistura de outros três personagens principais das Séries de Tv: “The Mentalist” + “Psych” + “Monk”. Tripp além de extremamente compulsivo, tem memória fotográfica, capacidade de deduções lógicas, e com o agravante de não ter medo do perigo. Creio que o cérebro dele é como um papel pega-mosca (Tradução literal do título original.): o que cair servirá de base para ele matar a charada. Que seria a coincidência de dois assaltos simultâneos no mesmo Banco. Isso foi o que aguçou a sua curiosidade. Intrigado, dará uma de detetive.

O título original tem mais a ver com o “efeito flypaper“. Que fica difícil explicar porque traria spoiler. Tentando de outro modo. Há um ranking entre os assaltantes mais procurados, e quem está nesse topo, não quer que apareça sua foto, somente seus crimes. Como também não querem ser reconhecidos. Então, é dar milho aos pombos enquanto limpam seus próprios rastros enquanto agem.

Tripp chega ao Banco já com pose de galã, ou seja, chamando a atenção para si. Na fila do caixa, esnoba Madge (Octavia Spencer), que sem eufemismo é: negra, baixinha e gordinha. Preferindo então ser atendido por Kaitlin, personagem de Ashley Judd. Ao pedir uma soma em dinheiro em moedas, a deixa intrigada. Antenado, enquanto aguarda, observa tudo ao redor. O que o leva a perceber que o Banco seria assaltado. De imediato tenta proteger Kaitlin, mas depois sua mente se liga a tudo mais.

Explicitamente são dois grupos de assaltantes. Uma das equipes é composta por Darrien (Mekhi Phifer), Weinstein (John Ventimiglia) e Gates (Matt Ryan). Que parecem ser os mais especialistas. Na outra equipe temos a dupla Peanut Butter (Tim Blake Nelson) e Jelly (Pruitt Taylor Vince), que perto da outra mais parece ladrões de galinha, mas com um agravante: eles adoram explosivos. Além desses, há outros envolvidos, mas em meio aos reféns. Que com o passar das horas, a grande jogada é manter-se vivos até a chegada da polícia. Sendo que essa não está sabendo que há um assalto em andamento. Os alarmes, assim como os celulares foram desativados.

Ponto alto do filme: Não é que Tripp leva o filme nas costas, a comicidade de todos os personagens estão em uníssono. Mas com certeza nossa atenção se volta para ele que banca o detetive.

Como ponto negativo: O de venderem o filme como sendo também uma Comédia Romântica. Numa continuação, talvez, mas não nesse aqui. Há crimes, mas é uma divertida Comédia.

Num Roteiro enxuto, “Assalto em Dose Dupla” surpreende. O filme é ótimo! De querer rever. Contar mais, periga soltar spoiler.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Assalto em Dose Dupla (Flypaper. 2011). Alemanha / EUA. Direção: Rob Minkoff. Roteiristas: Jon Lucas, Scott Moore (Se Beber, Não Case! I e II). +Elenco. Gênero: Comédia, Crime. Duração: 87 minutos.

Corra, Lola, Corra (Lola Rennt. 1998)

Eis mais um filme inovador que tive oportunidade de assistir em algum lugar do passado e guardo juntamente com a coleção dos que considero exóticos e agora me lembrei de revisitar. É um três em um de origem alemã nada convencional, fugindo aos moldes acadêmicos desde a confecção do roteiro, passando pelos truques de montagens, a escolha da música techno ao ritmo de videogame e outras linguagens narrativas se mesclando para compor todo o cenário unindo animação, televisão, fotografia e vídeo tornando assim, a obra única e esteticamente pós-moderno.

A história é literalmente como diz o título: a personagem Lola interpretada pela atriz Franka Potente corre os 81 minutos de duração do filme.

Abro parênteses aqui para agradecer ao diretor pelo belo exercício de criatividade dando-me um estalo, ajudando nas atividades acadêmicas com meus alunos nas aulas de produção de texto, fez-me utilizar o filme várias vezes como material paradidático para compor o pré-texto em uma das séries do ensino médio a fim de inspirá-los a criar e desenvolver outras histórias a partir de frases ou pequenos dados como modelo.

O roteiro de Corra, Lola, Corra remete-nos aos gostos individuais, momentos de dúvidas existenciais nas escolhas pessoais quando bate aquela indecisão do “E agora, o que fazer? Que caminho escolher? Que rumo tomar? Para onde correr? O medo e desespero de não acertar na escolha e depois se arrepender. Lola tinha três alternativas e vinte minutos para decidir que caminho seguir.

Em uma narrativa diferente e contagiante, o diretor brinca com situações e casualidades de pessoas comuns, mostrando fatos e situações corriqueiras de pessoas e lugares por onde Lola passa e o dia-a-dia como se tivessem acontecido ou não, variando pelas histórias. A cada vez, pequenas diferenças alteram por completo o destino de todos os que cruzam o caminho da moça. Achei genial essa de contar a mesma história de três formas diferentes. É preciso muito fôlego e correr contra o tempo para se encaixar nos objetivos propostos.

Lola é uma garota estilosa, moderna, punk do corte de cabelo ao tom da cor escolhida; despojada no seu modo de vestir exclusivo, ditando sua própria moda deixando a barriga e a alça do sutiã à mostra, e corre demasiadamente, exaustivamente, alucinadamente uma maratona sem descanso para recuperar seu fôlego pelas ruas, calçadas e avenidas sempre procurando desviar dos obstáculos. Lola é Potente!

Essa corrida maluca da protagonista contra o tempo tem uma explicação surrealista de ser. Lola todos os dias vai ao encontro de Manni, seu namorado, buscá-lo no trabalho ao final do expediente. Mas exatamente nesse dia, ela não pode ir, e ele então resolve pegar o metrô carregando uma sacola com uma grande quantia de dinheiro, equivalente a 100 mil marcos. Esse dinheiro, na verdade, pertence a um grupo de mafiosos que resolveu deixar com Manni a fim de testar a sua confiança, e que, para sua sorte, se distrau e acabou esquecendo a bolsa dentro do metrô e quem achou foi um mendigo. Manni protagonizado por Moritz Bleibtreu caindo em si, viu que estava sem o dinheiro, ficou muito preocupado e desesperado e só tinha vinte minutos para recuperar esse valor perdido. Atordoado, liga para Lola, sua namorada, que começa a incansável corrida pelas ruas de sua cidade para tentar levantar essa quantia com alguém e assim ajudar o amado a não ter que acertar as contas com a gangue que o faria pagar com sua própria vida.

E essa história é contada três vezes. Lola e Manni têm chance de sair dessa com final feliz. A possibilidade de ver a mesma história com três finais diferentes é simplesmente formidável! E por isso considero esta obra um dos novos clássicos do Cinema. Sem dúvida, genial!

E se você ainda não teve oportunidade de assistir, sugiro que CORRA para descobrir qual o melhor final para o casal e qual seria o seu preferido. Divirta-se!

Sinopse: Manni (Moritz Bleibtreu), o coletor de uma quadrilha de contrabandistas, esquece no metrô uma sacola com 100.000 marcos. Ele só tem 20 minutos para recuperar o dinheiro ou irá confrontar a ira do seu chefe, Ronnie, um perigoso criminoso. Desesperado, Ronni telefona para Lola (Franka Potente), sua namorada, que vê como única solução pedir ajuda para seu pai (Herbert Knaup), que é presidente de um banco. Assim, Lola corre através das ruas de Berlim, sendo apresentados três possíveis finais da louca corrida de Lola para salvar o namorado.

Corra, Lola, Corra
Título Original: Lola Rennt
País de Origem: Alemanha
Ano: 1998
Duração: 81 minutos
Diretor e Roteirista: Tom Tickwer
Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibreu, Herbert Knaup, Armin Rohde, Joacim Krol, Nina Petri

Postado por Karenina Rostov.

O Nome da Rosa (Der Name Der Rose. 1986)

O Nome da Rosa é um filme baseado no romance de Umberto Eco, o qual foi lançado em 1980. Tem como Título Original: Der Name Der Rose.

No contexto histórico o filme apresenta a Baixa Idade Média (século XI ao XV) a qual é marcada pela desintegração do feudalismo e formação do capitalismo na Europa Ocidental. Ocorrem assim, nesse período, transformações na esfera econômica (crescimento do comércio monetário), social (projeção da burguesia e sua aliança com o rei), política (formação das monarquias nacionais representadas pelos reis absolutistas) e até religiosas, que culminarão com o cisma do ocidente, através do protestantismo iniciado por Martinho Lutero na Alemanha em 1517.

O filme mostra as práticas da Igreja durante a Idade Média e tenta desvendar os enigmas existentes naquela época, apesar de seu enredo mostrar-se um pouco restrito e vago, uma vez que deveria dar mais ênfase às obras apócrifas (desvendadas e reveladas só no final do filme) as quais poderiam ser enfocadas mais detalhadamente. De fato, é de grande interesse para estudantes de história, teologia e outras áreas afins que tenham como objeto de estudo os homens na sociedade e no tempo.

Trazendo uma linguagem totalmente religiosa sob a influência da Igreja Católica durante a Idade Média. No contexto do filme podemos perceber que Igreja Católica adentrou a Idade Média riquíssima, com uma fortuna incalculável, detentora do maior número de terras do Ocidente.

O filme “O Nome da Rosa”, que tem como centro da história uma biblioteca, caracterizada como reservatório do saber e como pano de fundo um mosteiro, onde se passa a trama.

O filme se passa no ano de 1327, época conhecida como alta idade média. Esse período representa uma época de obscuridade, atraso econômico e político conhecido também como a idade das trevas. É o longo período que vai desde 476, com a queda do Império Romano até a tomada de Constantinopla pelos Turcos Otomanos , em 1453.

A trama se desenvolve no interior de um mosteiro (Abadia) “no obscuro norte da Itália”. O mosteiro representa a forma tradicional que a igreja se estabeleceu no ocidente cristão. Estes faziam parte de um mundo fechado, uma verdadeira fortaleza com muralhas e portões que preservavam a vida monástica dos perigos. Os principais mosteiros medievais possuíam grandes riquezas, terras, tesouros e servos.

Essa época foi bastante influenciada pelo filósofo Santo Agostinho (354 – 430). Este filósofo é considerado o ultimo dos filósofos antigos e o primeiro dos medievais.

No filme o “tal” livro pagão era um texto da Comédia de Aristóteles segunda parte da Poética. Seguindo o pensamento de santo Agostinho, os clérigos restringiam o acesso ao conhecimento, servindo como um entrave, uma negação para a Idade Moderna. Porém os monges tinham um modo de vida bastante peculiar, se dedicavam a traduzir e copiar livros, o que foi essencial na preservação e difusão na cultura clássica e nas obras religiosas.

Com base nesses argumentos é que podemos considerar que a Idade Média também foi uma “semente” para o nascimento da Idade Moderna. Podemos considerar a biblioteca como o núcleo do mosteiro, sendo representado como um labirinto, um local secreto, onde o conhecimento nela existente e não se dá a qualquer um. O saber como se pode observar no filme se mostra como algo que não é transparente, de acesso imediato, porém labiríntico, e em sua busca podemos nos perder com facilidade.

No personagem Guilherme de Baskerville, podemos encontrar características de um empirista, ou seja, busca o conhecimento através das experiências, da observação e da visão cientista contra a especulação. Ele carrega consigo um par de óculos, que simbolizam essa necessidade de observar bem os fatos.

À medida que ele vai tentando desvendar os assassinatos que ocorrem no mosteiro fica mais claro sua visão de buscar a verdade através de observações meticulosas e da recusa por explicações sem sentido. Todos no mosteiro tentam explicar os acontecimentos como sendo obra divina. O inquisidor Bernardo Gui é chamado para desvendar o mistério em torno das mortes, e imediatamente vê a presença do demônio e de bruxaria. Essa é uma forma de conhecimento que não vê a realidade, fruto de superstição e da fé cega na doutrina.

Assim, fica visível que os motivos dos crimes se resumem na defesa da tradição contra um novo saber. A verdade é tratada no filme como algo que se deve buscar, através da observação dos fatos.

No concerne da análise, podemos concluir que não há como contestar de fato que a Igreja Católica foi sem dúvida um entrave para a antecipação da Idade Moderna. E esses, acima, são os argumentos que comprovam esse empecilho e possibilidades para adentrarmos na época iluminada da história.

Nota do Autor: Como o artigo ficou muito extenso, foi postado aqui um resumo. Mas vocês poderão ler o texto na íntegra seguindo pelo link: O Nome da Rosa: E um Estudo da Idade Média.

Pina (2011). Wim Wenders

Por: Fatima Daia Bosch.
O filme Pina, de Wim Wenders, é um documentário em homenagem à bailarina e coreografa alemã Pina Bausch, falecida em 2009. Os dois se conheceram quando ela apresentou seu espetáculo Café Muller, e se tornaram amigos. O filme deveria ter sido uma realização em comum dos dois. Com a morte súbita de Pina pouco antes do inicio da filmagem, Wenders chegou a pensar em abandonar o projeto, mas mudou de ideia, encorajado pela família da coreografa e pelos dançarinos de sua trupe. No filme se intercalam coreografias e depoimentos dos bailarinos.

Uma coisa importante a saber sobre o filme é que ele foi feito para ser visto em 3D. Essa característica me desencorajou um pouco. Confesso que até então não tinha visto uma real serventia, ou melhor, nada que compensasse o desconforto do uso de óculos especiais. Dessa vez tive que dar a mão à palmatoria. A escolha se adaptou perfeitamente à visualização dos números de dança, permitindo ao público captar toda a dimensão criativa das coreografias. Também belíssima a solução encontrada para o uso das imagens antigas, portanto em duas dimensões, de Pina Bausch dançando.

Seria entretanto um erro falar apenas do lado técnico e coreográfico do filme. Fiquei extremamente impressionada com os depoimentos dos dançarinos falando dela, da forma com que ela se comportava com eles, do extremo respeito e sensibilidade que ela demonstrava ter. Uma coisa me chamou a atenção, desde o inicio: a idade dos bailarinos. Alguns eram muito jovens, outros bem mais maduros. As próprias imperfeiçoes dos corpos não eram de forma alguma obstáculo à beleza dos espetáculos, e o corpo de cada bailarino exaltava à sua maneira a coreografia. Essa mesma atitude respeitosa de cada indivíduo aparecia nas recordações de cada um, essa preocupação em fazer com que cada pessoa descobrisse ela mesma a sua verdade e a fizesse aparecer no palco.

Essa mesma preocupação com as pessoas aparecia na escolha temática das coreografias, que falavam de amor, de separação, e que mergulhavam profundamente na alma humana (eu ia dizer na alma feminina, porque embora esses temas sejam universais achei extremamente feminina a visao dela). Por motivos pessoais sou muito sensivel a esse tratamento respeitoso, e por isso o filme me tocou demais. Nao conheci Pina Bausch,apenas de ouvir falar, mas graças às danças e aos depoimentos fui embora do cinema sentido sua falta. Durante o tempo que o filme durou ela voltou a viver.

Fiquei pensando; quando o cinema apareceu, era considerado uma arte menor, comparada ao teatro, uma mera curiosidade. Quando o cinema falado surgiu, muitos custaram a aderir, pois o cinema de verdade era o outro, o mudo. Ver um verdadeiro filme de autor em 3D me fez perceber que na verdade eu estava sendo preconceituosa.

Rever meus conceitos, passar duas horas de puro deleite e voltar pra casa com saudades de uma pessoa que nao conheci. Balanço mais que positivo para uma tarde perfeita. Nao deixem de ver!

Por: Fatima Daia Bosch.

O Enigma de Kaspar Hauser (1974)

O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” promove uma linguagem histórica da construção de um homem enquanto indivíduo. Dirigido por Werner Herzog em 1974, o filme (baseado em livro homônimo) é tema de discussão na filosofia, ciências sociais e antropologia no mundo contemporâneo.

Entre os temas decorrentes da análise do filme estão a prática social condicionada, o convívio social como construtor da identidade psicológica do homem, o conflito entre indivíduo e sociedade, além de infinitos paralelos com correntes filosóficas e historiográfica de inúmeros e grandes pensadores.

No filme Kaspar Hauser é colocado em um celeiro, logo após o nascimento, o mesmo foi mantido em cativeiro por anos, privado de qualquer contato com o mundo externo até completar 18 anos, assim ele se tornou um sem disciplina, regras e comportamentos “não civilizado”. A perspectiva do filme se constrói em uma história exótica que se funde com reflexões de nível psicanalítico, religioso, antropológico, filosófico, poético, e etc.

O senhor que promove a experiência com Kaspar Hauser depois de anos de prisão o leva para ter contato com o mundo exterior, no entanto ele não sabe falar, nem andar, sendo assim impossibilitado de articular raciocínio e de interagir fisicamente com o mundo a sua volta. Ele o ensinado a andar, e a reproduzir inúmeras palavras.
O filme nos mostra a reação da sociedade ao lidar com um indivíduo nesse estado, possibilitando vários níveis subjetivos de leitura, análise e estudo referente o filme.

Kaspar Hauser se torna um homem sem história, ou passado. Pois o mesmo não havia desenvolvido o raciocínio e não havia vivido as experiências de uma existência.

No entanto podemos compreender que a influência da linguagem e do histórico cultural na percepção da realidade é fundamental na vida do homem. Isto é, as coisas que aprendemos ao longo da nossa história, nos possibilitam compreendermos os fenômenos que nos circundam.

Portanto, para produzir história, precisamos das experiências, fatos e momentos. A partir de então poderemos formular as idéias que passam a expressar dentro dos limites que construímos.

Ideias construídas, pois a nossa realidade vivida é parte da nossa memória, e assim conseguimos expressá-las em preto e branco, pois vivemos em uma realidade quase perfeita, ou seja, vivemos em uma copia quase perfeita de um mundo real. Assim, fica claro que mesmo possuindo um conhecimento nato é sempre essencial termos o conhecimento empírico, adquirido através do contato com o mundo a nossa volta.

Na aurora da análise entramos em contradição, pois não fica claro que a situação de Kaspar Hauser estaria relacionada com déficit intelectual para com a sociedade, já que o mesmo não teve a oportunidade de aprender sobre o mundo, tornando impossível o amadurecimento de conceitos em sua mente. Mas por outro lado a percepção dele poderia ser mais aguçada com relação a realidade de mundo, pelo fato de sua compreensão sobre as ideias não ter sofrido limitações, sendo ele livre dos conceitos.

Em suma, fica claro que mesmo a sociedade enxergando Kaspar Hauser como uma anormalidade, tentando até procurar em seu cérebro após sua morte uma resposta neurológica para sua condição; o filme nos leva a compreensão que o conhecimento é algo infinito e seu horizonte é inavistável. Portanto, nesta caminhada evolutiva precisamos aprender, refletir e registrar tudo em uma memória que não se limita as ideias ou conceitos do meio vivido.