A Última Estação (The Last Station. 2009)

Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.” (Tolstoi)
Se não fosse pelos personagens retratados aqui, eu poderia dizer que num resumo o filme ‘A Última Estação‘ aborda: partilha de bens. Onde de um lado se encontra a Família, tendo a frente, a esposa. E do outro, o Secretário-mor do Movimento de Resistência Passiva. No centro disso tudo, alguém em idade bem avançada querendo morrer em paz com a sua consciência. Devoto ao amor que nutre pela esposa, mas também às suas ideias lançadas, fica difícil tomar uma decisão final: quem ficará com a posse de seus bens: uma mansão, o título de nobreza – Conde -, e os direitos autorais de seus Livros. Sem esquecer que essa estória se passa em 1910, numa Rússia dos Czares. Que faz parte da História Universal.

E quem seria essa figura histórica?

Em ‘A Última Estação‘ temos os últimos meses de vida, ou melhor, da vida do notável escritor russo: Leon Tolstoi. Numa grande interpretação de Christopher Plummer. Muito embora enquanto eu assistia pensasse que esse seria um papel para Anthony Quinn. Para logo em seguida me trazer de volta a atuação de Plummer. Que com certeza será um divisor de águas em sua carreira. Seu Leon fez brotar lágrimas em sua despedida a Yasnaya Polyana. Meus aplausos ao Plummer!

Sua esposa, a Condessa Sofya, é interpretada pela brilhante Helen Mirren. Antes de falar dessa atriz e da sua atuação quero falar da Língua do Filme: a Inglesa. Uma estória pode ser contada em diversas formas: escrita, falada, por sinais, por um desenho… Um jeito de se perpetuar. Como também em usar uma outra língua para se contar uma estória de um outro povo. Até ai, eu assino embaixo. Acontece que em algumas cenas, a Condessa Sofya da Mirren me fazia lembrar da sua Rainha Elizabeth. O que me fez querer, e muito, que o filme usasse a Língua Russa. Teria adorado ouvir os embates do Leon e da Sofya em russo. Mesmo tendo que ler as legendas, essa estória merecia ter sido contada na língua natal dos personagens. Não que a Mirren não tivesse atuado bem. Pelo contrário! Ela me levou às lágrimas, no finalzinho do filme.

Lá no início, citei o secretário-mor. Ele é Vladimir Chertkov. Quem o interpreta é Paul Giamatti. Sempre que penso em Giamatti, de pronto, lembro de sua brilhante atuação em Sideways. Seu Chertkov conseguiu se desvincular dessa sua outra atuação. Mas… Posso não saber diferenciar um russo, ou até ter uma visão esteriotipada desse povo já que nunca conheci um russo, agora, para mim o Chertkov do Giamatti parecia americano demais. Sobre o personagem em si. Chertkov tinha uma alma política. Para o Movimento Tolstoiano ser levado adiante precisava alguém com essa visão, já que o próprio Tolstoi era um romântico por natureza.

Enquanto Tolstoi vivia em sua imensa propriedade – Yasnaya Polyana -, Chertkov preferia mesmo ficar no escritório. Longe da Comunidade criada pelo Movimento – Telyatinki. Um local onde todos trabalhavam igualmente, sem distinção de Classes Sociais. Nela vivia Masha (Kerry Condon), uma personagem que fará uma revolução na vida de um outro personagem. Revolução essa, que no fundo segue a filosofia maior do criador do movimento: o amor.

Chertkov, impedido por lei de se afastar do escritório, resolve contratar um dos Tolstoianos letrados para ser o secretário particular de Tolstoi. Quem passa no teste é o jovem Valentin Bulgakov. Interpretado por James McAvoy. Que por sinal, atuou muito bem. Um jovem que seguia à risca os ensinamentos do Movimento. Até o Celibato. Algo meio desvirtuado por Vladimir. Se Tolstoi pregava o amor, a castidade não era bem-vinda. Mas por timidez, Valentin fazia dela a sua armadura. Masha o trará de volta a uma vida fora dos livros, mais real. Mas será o amor de Leon por Sofia que o conduzirá ao caminho.

É no coração do homem que reside o princípio e o fim de todas as coisas.” (Tolstoi)

Leon meio que adota Valentin. Vendo nele alguém de ideias e ideais nobres, e até próprio. A princípio, Sofya vê em Valentin uma ponte para saber se Leon fará um novo Testamento, mas depois também se encanta com a ternura e a inteligência dele. Se ele tivesse entrado na vida de Tolstoi a mais tempo, poderia ter sido um aliado para uma volta de Tolstoi as suas estórias ficcionais. Por seu cavalheirismo, pelo amor fraternal aos dois – Leon e Sofya -, Valentin só desprende desses laços, nessa última estação. Testamento esse que para Vladimir seria necessário para continuar com o Movimento. Dai também querer ter Valentin como uma ponte, mas para ficar a par da influência da Condessa ao marido.

Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira.” (Tolstoi)

O título dessa estória – a última estação - é belíssimo! Faz parte do contexto. Mas também nos leva a viajar com ela, até a essa estação final… Até as locações, são puro romantismo. Lindas! Me fez querer ler o Livro, de Jay Parini, o qual o filme foi baseado. O filme é longo. Merece ser visto sem pressa. Ele até entrou para a minha lista de voltar a ver de novo mais tarde. Não recomendo aos que gostam dos bem comerciais. Recomendo sim, aos que gostam não apenas do escritor, Tolstoi, mas também aos que gostam da matéria História. Será mais um incentivo aos adolescentes a gostarem de leituras. Tomara que Professores levem ‘A Última Estação‘ para a Sala de Aula. É um ótimo filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Última Estação (The Last Station). 2009. Alemanha / Inglaterra. Direção e Roteiro: Michael Hoffman. Elenco: Helen Mirren (Sofya Tolstoy), Christopher Plummer (Leo Tolstoy), Paul Giamatti (Vladimir Chertkov), James McAvoy (Valentin Bulgakov), Kerry Condon (Masha), Anne-Marie Duff (Sasha Tolstoy). Gênero: Drama. Duração: 112 minutos. Baseado em livro de Jay Parini.

Amen. (2002)

Como este artigo irá falar sobre os problemas e implicações do ser humano através do filme Amen., do cineasta grego - e totalmente politizado – Costa-Gravas, vale ressaltar que contém alguns SPOILERS que podem estragar o prazer daqueles que gostam de desfrutar uma história sem conhecer sua trama principal. Porém vale ressaltar que Costa-Gravas não faz filmes de suspense, nem de terror, nem de comédia, sendo que nada do que for dito aqui irá comprometer o resultado impactante do filme. Sendo assim, fica a seu critério: ler este artigo para se interessar pelo filme ou assistir o filme para se interessar pelo artigo. Dado o recado, vamos as devidas análises que proponho discutir.

Não irei falar sobre os detalhes do filme. Não irei me ater ao nome dos personagens, situações corriqueiras, e outros afins. O que interessa é apenas a ideia principal.

O filme se passa na Alemanha em pleno nazismo, diversos soldados alemães vivem o seu dia-a-dia normalmente: têm rotinas de patrulhamento, visitam suas famílias nos dias de folgas, vão à igreja e se divertem no tempo livre. Diversos judeus estão sendo recrutados para trabalharem em campos nazistas em atividades que desenvolvam ainda mais o país. Um dos soldados alemães – e também um dos dois personagens principais da trama – é um químico que desenvolve um produto de limpeza eficiente, onde uma pequena quantidade basta para limpar grandes proporções.

Porém, inesperadamente, o exército alemão começa a encomendar grandes quantidades deste produto. De pronto, este soldado atende a demanda com bastante satisfação, ao saber que sua invenção está a contento os militares. Porém, no decorrer do tempo, ele estranha que esta quantidade sempre aumente, visto que não existe a possibilidade de utilizar este produto apenas com fins de limpeza. Decidido a investigar o que estaria por trás, primeiramente ele questiona um dos responsáveis por fazer a encomenda: rasgando elogios, o questionado e mais um pequeno grupo decide levar este soldado para observar com seus próprios olhos o porquê encomendas maiores se fazem necessárias.

Ao chegar no local, o questionado pede para o soldado espreitar através de um buraco criado para observar uma enorme casa. Enquanto isto acontece, ele começa a explicar: “Antes de utilizarmos o seu produto, demorávamos horas e horas para matar os judeus através destas câmaras de gás. Eles ficavam agonizando por grandes tempos, o que era muito caro para nós, visto que a demanda aumentou e precisávamos cumprir a nossa meta de chacinas diárias. Com o seu produto, as mortes se tornam muito mais rápidas. Bastam apenas alguns minutos.”

O soldado observa perplexo e fica desorientado. O questionado responde que ele está fazendo um grande bem aliviando as dores daquelas pessoas de forma rápida e ajudando a Alemanha a fazer uma verdadeira limpeza racial. Não irei me ater a isto, porém perceba a interessante relação entre o produto de limpeza comum, para limpar imundices, e a utilização do mesmo com o propósito de limpeza racial. Só esta comparação nos levaria a longas discussões no que se refere as divergências no tratamento humano orientado à uma posição social (seja religiosa, econômica ou racial).

A primeira coisa que podemos afirmar em relação à reação do soldado é que ele desconhecia os fatos, que tratavam do genocídio e extermínio de judeus na Alemanha. Se ele desconhecia os fatos, surge a esperança de que outras pessoas no exército nazista também desconheciam. Em segundo lugar, a sua reação após conhecer estes fatos não foi de alegria ou aceitação, pelo contrário, foi de angústia e enorme surpresa. Ou seja, as motivações para aquele extermínio não estavam explicitas, logo, não era um consenso.

Sabendo destas coisas, o soldado entrou em conflito: estavam usando o seu produto para matar pessoas – sim, pessoas – sem o seu consentimento. E ainda aproveitaram a deixa para encomendarem ainda mais produtos para a mesma finalidade. Ele não podia negar uma solicitação do seu próprio exército, que representava os interesses de seu país. Então, como ele poderia salvar as vidas que estariam condenadas por sua criação? Como ele poderia denunciar esta abominação sem ser considerado traidor? Será que, ao saber destes acontecimentos, o povo e as autoridades de seu país aprovariam o que estava acontecendo? Eram muitas as questões que estavam em sua cabeça no momento.

A pressão começou a fazer com que o soldado começasse a tomar algumas atitudes estranhas. Não sabendo como fazer, resolveu se aconselhar com o padre de sua igreja local. Para ele, era óbvio que a igreja não toleraria a morte de outras pessoas de forma tão covarde e desleal. Ao mencionar os acontecimentos ao padre local, e inclusive solicitar que seu relato fosse transmitido aos frequentadores da igreja, o mesmo se recusou a prestar-lhe a ajuda necessária, afirmando que ele jamais poderia ficar contra os interesses do exército, visto que eles representavam a vontade dos comandantes de seu país. Se ficasse seria acusado de traidor e seria condenado a pena de morte.

Um jovem padre, com menor autoridade e que escutou tudo (este é o segundo protagonista do filme) resolve ajudar o soldado e recontar a sua história para uma hierarquia mais elevada da igreja, visto que seu pai era muito influente dentro do Vaticano e trabalhava como assessor de imprensa do Papa. Mesmo com o relato chegando nos mais altos níveis de hierarquia, a igreja se recusa a se intrometer nesta questão, chegando à dizer que o problema dos judeus não é um problema cristão.

O desenrolar do filme, e seu tronco principal, demonstrar as diversas tentativas frustradas de, tanto o soldado como o jovem padre, quererem denunciar o extermínio dos judeus e as pessoas, principalmente a igreja, fecharem os olhos e os ouvidos sobre estes acontecimentos. Chega ao cúmulo do jovem padre forçar um encontro com o próprio Papa, relatar os acontecimentos, receber a promessa de que a santidade falaria ao vivo, em rede internacional, sobre o que acabara de ouvir, como forma de intervenção, e ele não cumprir com a sua promessa.

No fim, os dois entram em colapso: o jovem padre entra em um trem com diversos judeus, com uma estrela de Israel costurada em sua batina, rumo a um campo de concentração, e passa os seus dias trabalhando no local. Como ele foi reconhecido como padre, e por portar a estrela de Israel, os soldados nazistas o forçam a trabalhar no enterro de corpos de judeus (que seria considerado um castigo muito cruel).

O soldado-químico tenta novamente argumentar com outros soldados do exército se o povo alemão sabia o que estava ocorrendo ali. A resposta: “O mundo inteiro sabe!“. Esta resposta deixa o soldado-químico ainda em maior crise, visto que a resposta enaltece a sua ingenuidade simultaneamente com a certeza que independente do que ela faça, nada mudará pois as pessoas não querem mudar.

A maioria das conclusões deste filme podem ser retiradas de suas próprias análises. Costa-Gravas é um cineasta que faz provocações para lhe permitir refletir acerca das situações colocadas. O ponto de destaque que gostaria de apontar é a capacidade do ser humano em não se intrometer em assuntos que não lhe diz respeito, independente do que seja. Isto amplifica a visão egoísta e egocêntrica a respeito do homem, que se preocupa apenas com os fatos que estão dentro do seu próprio universo de relações. Parece que tomar isto como verdadeiro pode ser um disparate, visto que entre o nazismo e a contemporaneidade há uma enorme diferença, porém perceba que a fórmula essencial continua a mesma: podemos ver um mendigo na rua e achar suas vestes ou sua aparência engraçada, e diante de uma tragédia anunciada, conseguimos sorrir e sermos indiferentes aos acontecimentos. Pai mata filho e filho mata pai, e, diante desta realidade, descobrimos como fazer uma ótima piada contendo estes ingredientes.

Além desta falta de sensibilidade, é possível destacar também outro ponto: a satisfação em saber que um adversário ou concorrente está por baixo. Neste caso, me matéria de religiões, é a igreja católica satisfeita em saber que os judeus estão sendo massacrados. Pois poderia haver interferência! Não houve, justo que não era de todo ruim para o catolicismo que esta tragédia acontecesse. Nos dias de hoje, podemos ilustrar com torcidas de futebol: palmeirenses estão satisfeitos com a tristeza dos corinthianos, devido ao rebaixamento para a série B do futebol brasileiro. Num nível mais agressivo, são paulinos estão satisfeitos, ainda que não tenham participado diretamente, em verem torcedores santistas sendo agredidos violentamente, de tal forma que não interferem na briga (não para que não se machuquem, mas para que seus opositores possam apanhar ainda mais).

Para concluir, segue um terceiro ponto-de-destaque: histeria coletiva gerada por um acontecimento de massa. Como a própria descrição sugere, é quando a boiada estoura. Não há nenhuma razão aparente para desencadear uma série de acontecimentos anormais, que inibe a racionalidade, aumenta a animalidade, assim como a força e o descontrole, de tal forma que sugerimos que o homem é um animal irracional. No filme, esta expressão se dá com o nazismo e o massacre dos judeus. Por mais que a ordem venha de cima, o homem tem a sensibilidade de executar ou não tal ordem, mas justamente por não ser uma iniciativa própria, não consegue se sentir culpado. O nazismo é uma histeria que contagiou a todos os soldados alemães. Passou a ser divertido matar judeus, ainda que fossem crianças de colo.

Eles passaram a enxergar judeus como insetos, e não havia nada de errado neste estado de ânimo que eles se encontravam. Nos dias de hoje, podemos aplicar esta histeria coletiva em alguns atos de vandalismo que observamos, como no exemplo dos garotos de classe alta que incendiaram um índio que estavam dormindo. Laranja Mecânica In Loco. Algo totalmente irracional despertou nestes selvagens, motivados não-sei-pelo-quê e não-se-sabe-por-onde a cometer tamanha atrocidade. Os chamados PitBoys, que são garotos que fazem lutas marciais e que saem a noite em busca de confusão, se enquadram no mesmo princípio.

Enfim, entre tantos pontos-de-destaque, o filme serve, acima de tudo, para demonstrar a ignorância, a mesquinhes, e incapacidade do homem em ser humano. Demonstra que a ética e a moral são apenas disciplinas de Direito e de Filosofia, e que não servem na praticidade para absolutamente nada.

E sabe o que é o pior? É que o filme, infelizmente, não mostra nada de novo. Serve, entretanto, para relembrar quem somos e isto incomoda bastante. Filme perturbador. Eu recomendo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiO / Universo Hiper-Real.

Uma Cidade Sem Passado (Das Schreckliche Mädchen. 1990)

A trama se inicia com a personagem Sonia a qual busca relatar o cotidiano vivido na sua contemporaneidade, enfrentando várias dificuldades voltadas aos espaços sociais, econômicos e político da época.

Sonia além de buscar informação do passado, ela visava relatar a sua história por meio de uma árvore que era considerada um local de memória, um diário onde se colocava os acontecimentos e fatos oprimidos por uma sociedade opressora que nega a história de uma comunidade que como Sonia, objetivava a construção e permanência de um presente passado que registrava a existência de uma memória esquecida.

O autor Michael Verhoven trabalha com uma linguagem clara e sucinta para que os telespectadores compreendam a importância da história para o registro da memória social, política, econômica e individual de cada membro que compõe uma sociedade.

No decorrer do filme notamos a construção histórica de Sonia, através de sua pesquisa e investigação a qual ela busca construir e colocar em público o passado de sua cidade.

No desenrolar drama é visível a dificuldade enfrentada por Sonia, pois os arquivos os quais continham a memória registrada do passado de sua cidade eram protegidos, ou seja, censurado pelas as forças que governavam na época.

Entretanto isto não limitará o trabalho de Sonia, pois ela desafia os princípios morais e éticos da época, com objetivo de romper com paradigmas opressores, com ideal revolucionário de liberdade de expressão e produção de suas ideias.

A final a produção cinematográfica alemã trabalhou com ênfase a importância da história enquanto memória de uma sociedade seja ela vivida na particularidade ou na coletividade dos processos de um grupo que registra e construí os padrões éticos e sociais de um determinado espaço e tempo histórico.

Em suma, podemos afirmar que “Uma Cidade Sem Passado” é um filme que coloca em discussão as problemáticas da contemporaneidade voltadas a memória histórica que em muitos momentos é silenciada ou esquecida.

Por: Dhiogo José Caetano – O Pensador.

Uma Cidade Sem Passado (Das Schreckliche Mädchen / The Nasty Girl). 1990. Alemanha. Direção e Roteiro: Michael Verhoeven. Elenco: Lena Stolze, Hans-Reinhard Müller, Monika Baumgartner, Elisabeth Bertram, Michael Gahr, Robert Giggenbach, Fred Stillkrauth, Barbara Gallauner, Udo Thomer, Ludwig Wühr. Gênero: Comédia, Drama, Guerra, História. Duração: 92 minutos.

Soul Kitchen. 2009

É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração
“.

Segundo filme que vejo de Fatih Akin. O anterior, foi ‘Do Outro Lado‘. Que eu também recomendo. Agora, ambos nos deixa uma emoção oposta a da outra. Enquanto ‘Do Outro Lado’ fica uma tristeza por algo que perdemos, e não tem mais como mudar… ‘Soul Kitchen‘ é um libelo ao que ainda podemos mudar, até com certas mudanças avassaladoras em nossas vidas. Mais do que não desistir, é que se tem que querer ir atrás do sonho. Esse é daqueles filmes que nos faz sair da sessão: leve, dançando, cantarolando… E até querendo dar uma Chef na nossa própria cozinha. Mesmo que seja para fazer uma refeição rápida com o que se tem na geladeira.

Em ‘Soul Kitchen‘ temos um jovem com raízes turca, mas que abraçou a Alemanha como sendo a sua verdadeira pátria. Assim, além de tentar se adequar a realidade local, meio que chama para perto de si, outros na mesma situação. Ele é Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos). De um velho galpão, que comprou, numa zona decadente de Hamburgo, fez um restaurante, que nomeou de Soul Kitchen – soul, como a música. Primeiro, ainda bem que não traduziram o título do filme no Brasil. Depois, o Soul é um ritmo onde tudo deve fluir junto: melodia, voz, instrumentos, artista… E acompanhando o filme, vemos que é isso que Zinos quer para o seu restaurante: que todos se sintam integrados, estando ali. Tanto, que nem se importa de usarem um espaço do galpão para ensaio de uma banda.

Mas de repente a vida de Zinos parece ir de ladeira abaixo. Os clientes locais, ficam na mesmice de só querer os mesmos pratos. As despesas estão maiores que o caixa. Para ainda lhe desconcentrar, tem a namorada, Nadine Krüger (Pheline Roggan), indo trabalhar em Xangai. O seu irmão, Illias (Moritz Bleibtreu), que lhe pede um emprego, para poder cumprir sua pena, saindo diariamente da prisão. Mas Illias não quer trabalhar. Quer continuar na maladragem, nas apostas e jogos. Zinos consegue um Chef um tanto excêntrico: Shayn (Birol Ünel). De alma cigana, Shayn gosta de Zinos, e ensina umas receitas básicas, mas que pelo paladar, farão toda a diferença, isso se a clientela aprovar.

Como se não bastasse a pressão, Zinos encontra com um amigo de escola. Esse, Neumann (Wotan Wilke Möhring), tem uma imobiliária. Mas tem também, um outro tipo de trabalho, e ilícito. Neumann se interessa pelo restaurante. Mas precisamente, seu foco de interesse é o terreno. Assim, vai jogar sujo para conseguir a compra do Soul Kitchen.

E não acabou não! Tem mais! Além dos Impostos atrasados, o restaurante terá que passar por reformas, por ordens do Fiscal da Vigilância Sanitária. Zinos, ainda ganha uma baita dor lombar. Sem plano de Saúde, Zinos conhece Anna (Dorka Gryllus), uma Fisioterapeuta. Que como as dores de Zinos se intensificaram – após carregar nas costas, Lucia (Anna Bederke), sua garçonete, que apagou de tanto beber -, Lucia leva Zinos a um Knochenbrecher (quebrador de ossos). Onde ficamos na dúvida se rimos, ou se sentimos a dor junto com ele. Essa cena me fez lembrar do Conde Joffrey de Peyrac, da saga ‘Angélica – A Marquesa dos Anjos’, de Anne e Serge Golon.

Assim, entre incêndio, prisões, despejo, traição, dores, leilão… Zinos terá que decidir onde está de fato a sua alma. E que, como falei no início, ficamos de alma leve, após o filme. Até por nos mostrar mais de um renascimento.

A Trilha Sonora também é excelente! Assistam até os créditos finais, por ele vir como um complemento ao filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Soul Kitchen. 2009. Alemanha. Direção: Fatih Akin. Roteiro: Adam Bousdoukos e Fatih Akin. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 99 minutos.

A Fita Branca e a Repressão

Por: Affonso Romano de Sant’Anna.
Estava eu dizendo a uma jovem criada na permissividade atual, que seria interessante ela ir assistir A FITA BRANCA para ter uma idéia de como era o mundo ontem. Para quem nasceu numa cultura onde tudo é permitido, ou melhor, todas as transgressões são estimuladas,  esse filme de Michael Hanecke deve soar como algo de outro planeta. Ele é o mesmo diretor de  ‘A professora de piano’ e ‘Cachê‘ – este com a Juliete Binoche.

Ali está uma sociedade onde cada coisa tem o seu lugar pré-determinado. E cruel. O sacerdote controla a moral, o barão controla a economia, o médico (pouco ético) opera, os trabalhadores, as esposas  e os filhos obedecem. Mulheres, filhos e trabalhadores são as grandes vítimas. E sob essa estrutura rígida, a maldade, a perfídia, a brutalidade, a sexualidade, a violência e a morte laboram.

Há uma estética nova nas fotos e na narração. Uma tensão incômoda atravessa toda a história.É uma parábola da crueldade humana? No entanto dois núcleos nos dizem que o ser humano pode ser admirável: as cenas do filho menor conversando sobre pássaros com o áspero pai e sacerdote, e o amor entre o professor e a adolescente.

Que sofrimento inútil carregamos nos desencontros dentro da própria tribo!

A Fita Branca – Uma história alemã para crianças

(Das weiße Band, Áustria, Alemanha, França e Itália, 2009)

"Não consigo dormir!"

"Não consigo dormir!"

Um grupo de crianças num lugarejo às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Elas vão à escola, andam juntas observando os acontecimentos, sendo observadas por nós.

O narrador é um professor, que nos conta em ordem cronológica o que aconteceu: atentados. Primeiro o médico, depois a senhora, depois uma criança e outra. Há uma escalada de violência. Maníacos agindo.

O médico é severo. O pastor é severo. O barão é severo. Os detentores do poder e bastiões daquela sociedade… Severa. Tudo em nome de uma vida “correta”.  A Fita Branca é o símbolo desta imaculação, desta retidão, desta disciplina.

Vemos o filme tensos, tentando compreender o que está acontecendo. Seguimos o raciocínio do professor, figura simpática e apaixonada, uma pessoa conselheira e ponderada.

"Prazer em conhecê-lo!"

Momento! Eis que começam as interessantes induções. Somos induzidos! Tiramos conclusões, achamos culpados, esclarecemos o mistério. O final aberto nem é tão irritante, porque já sabemos tudo. O que nos irrita levemente talvez seja o fato de não sabermos se e como  os culpados foram punidos. Como somos vingativos, não? Ok, não sejamos tão severos: Como nosso senso de justiça clama por um desfecho adequado ao nosso código!

Muita pressão...

Mas. Provas concretas? Num primeiro momento, eu acredito em tudo que me foi “mostrado”. Depois, pensando, paro e vejo toda uma outra perspectiva. O que o Nazismo tem a ver com isso? O que uma sociedade praticamente feudal e totalmente patriarcal tem a ver com isso? O que a opressão e a falta de afeto real tem a ver com tudo isso? O que a tendência a reproduzir padrões tem a ver com tudo isso?

Haneke é um provocador. Quem assistiu Caché sabe. Ele questiona as origens da violência e nossa, sim nossa!, participação nela. O espectador decide o que aconteceu. Somos induzidos, quase compelidos a isso.

Mestre da manipulação da opinião, um Machado de Assis do cinema!

Ao ver o filme, tente descobrir o(s) culpado(s), depois, tente encontrar as provas concretas de sua culpa. Aí conversamos se tudo isso tem a ver com o passado somente.

"Voltem para a cama, a situação já está sob controle."

Excelente filme e excelentes discussões!

O diretor Micheal Haneke se explica, em entrevista:  http://www.goethe.de/ins/br/sap/kue/flm/pt5243151.htm

De Repente, Gina (Frühstück mit einer Unbekannten)

De repente, o sono foi embora, ligo a tv, e zapeando, paro com a apresentação de um filme, pela atriz Ângela Leal. Por ter gostado da sinopse, comecei a ver o filme. E logo depois, lá estava eu, sentada na cama, acompanhando encantada uma das Comédias Românticas mais lindas que eu assisti nos últimos tempos.

De Repente, Gina‘ nos mostra o início de uma linda história de amor entre dois adultos: ela já perto da casa dos trinta, ele já havia passado da dos cinquenta. Ambos, estavam tão envolvidos com suas ocupações profissionais, que desabituaram até de flertar. Um simples prazer em comum – uma xícara de café pela manhã -, foi o início de tudo. Onde se encontraram pela primeira vez – Laurens e Gina.

Laurens (Jan Josef Liefers) era muito tímido. Aquele lugar vago na mesa dela, fora a opção para não ficar de pé no Café. Gina (Julia Jentsch), nem tanto. Tanto que partiu dela, puxar conversa. O título da apostila que ele estava lendo, chamou-lhe a atenção.

E nesse romance, terá como pano de fundo: a pobreza que devora o mundo. Que mata crianças por minutos. Mas não estarão em uma Ong, ou numa Instituição levando alimento para os africanos. Não. Eles ficarão dentro do encontro com o G8 na Alemanha. Pois Laurens é quem faz toda a pesquisa de dados para o Ministro das Finanças, que estará na mesa de negociação com o primeiro escalão do G8. Laurens, será uma eminência parda que sem querer, dará ‘armas’ a Gina para lutar pelas crianças do mundo. Até por ela amar sua profissão: enfermeira parteira.

Ainda nesse café da manhã, quase que um gesto gerou um mal estar entre eles. Pois se para ele a jornada de trabalho estava para começar naquela manhã, para ela, um turno de doze horas terminara. Dai, o não conseguir segurar um bocejo – realmente de sono -, pareceu a ele que seria por conta do assunto de sua conversa. De que era alguém entediante. Para tentar acabar com esse pequeno incidente, marcam um encontro. Um almoço, onde poderiam se conhecerem melhor. Com um pouco mais de tempo. Menos de uma hora, por conta da agenda apertada dele.

O título original – Frühstück mit einer Unbekannten -, refere-se a esse encontro – Café da manhã com uma desconhecida. Embora o segundo encontro foi que deslanchou o continuarem juntos, o nascedouro fora realmente no encontro casual no Café. Pois se não tivesse tido interesse de um no outro, a história deles não decolaria.

Talvez, quem escolheu para título oficial o ‘De Repente, Gina‘ (Suddenly Gina), focou apenas o lado masculino nessa relação. Por ele ser tímido? Por ela ter chegado sem aviso na vida dele? Por ela ter motivado, a eles e os demais, que ainda estava em tempo de mudarem de atitude? Gina não apenas quebrou protocolos, ela deu um ‘Acorda!’ geral a todos. E ainda bem que Laurens também acordou.

Por vezes ficamos tão focados nos filmes da Telona, que os feitos diretamente para a TV, terminam relegados a sessões da tarde. Bendita insônia que me levou ao Canal Futura, e por ele ter visto ‘De Repente, Gina‘. Um filme de ver com brilhos nos olhos! E de querer rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

De repente, Gina (Frühstück mit einer Unbekannten). 2007. Alemanha. Direção Maria von Heland. Roteiro: Martin Rauhaus. Elenco: Julia Jentsch (Angelina ‘Gina’ Franke), Jan Josef Liefers (Laurens Wagner), Stefan Kurt, Andrea Sawatzki, Iris Berben, Jürgen Heinrich, Simone Thomalla, Catherine Deneuve. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 90 minutos. Produção para a TV. Remake do filme britânico ‘The Girl in the Café’, de Richard Curtis, de 2005.

Era uma vez… os Bastardos Inglórios!

Inglourious Basterds_posterQuando se acha que não tem mais como contar sobre o tema 2ª Grande Guerra, eis que Tarantino vem com algo diferente. Faz um mix de filmes com temas do Velho Oeste, de Baseball, de Gângsters… e o resultado são os ‘Bastardos Inglórios‘. Great!

O filme nos é apresentado em capítulos. E quem nos conta essa história é Samuel L. Jackson. Narrando em off.

Inglourious Basterds_Christoph Waltz Logo no primeiro, ficamos conhecendo aquele que virá a ser a pedra no meio do caminho desses bastardos e dos demais. É o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz). Um personagem que quase rouba todas as cenas. Quase, porque tem domínio de cena sabendo dividir bem com o outro ator. Vida longa a sua carreira cinéfila! Eu não o conhecia. Tarantino faz dele um vilão para ficar na história do Cinema.

Inglourious Basterds_Mélanie LaurentNesse mesmo capítulo também conhecemos uma jovem judia, que vê toda a sua família ser executada por ordens de Landa. E consegue fugir. Ela é Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent). Mais tarde, já com outra identidade – Emmanuelle Mimieux -, terá um importante papel na luta em matar os nazis. E justamente por ter um Cinema…

Esqueçam o politicamente correto para curtir esse filme. Há cenas que mesmo sanguinárias… fica irresistível não rir. Fica difícil não torcer por esse grupo de homens liderados pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt). Juntos, ele e seus homens formarão uma Tropa muito especial: Os Bastardos. Ou, algo como os Sacanas Sem Lei. Porque trabalharão na clandestinidade. Para essa missão, um fator era essencial: de serem judeus. Pois a missão era matar os alemães nazistas sem dó, nem piedade. E fariam isso em solo francês.

Aldo, por descender de apaches, vai mais longe nessas execuções. Exige de seu grupo, o escalpo de todo nazi que matarem. Cada um já terá como tributo 100 escalpos. Assim, eles partem. Espalhando seus modus operandi entre os nazis. E para aquele que deixam sair vivo, justamente para espalhar o que fazem, deixam algo de lembrança…

Ao ficarem sabendo que um oficial alemão fora preso por matar treze oficiais da Gestapo, vão resgatá-lo. Ele é o Sargento Hugo Stiglitz (Til Schweiger). Ficando mais um nesse inusitado grupo. Se o Sargento Stiglitz gosta de degolar… O Sgt. Donny Donowitz “O Urso Judeu” (Eli Roth) – usa um bastão de baseball como arma para trucidar os nazis.

Michael FassbenderParalelo a isso, da Inglaterra, partiria a Operação Kino. À frente dela, estaria o Tenente Archie Hicox (Michael Fassbender). Winston Churchill (Rod Taylor) está presente nessa convocação. O objetivo dessa missão seria explodir um cinema onde estaria toda a cúpula do III Reich. Seria a pré estréia do filme do Goebbels (Sylvester Groth): ‘Orgulho da Nação’. Sobre um feito do jovem Fredrick Zoller (Daniel Brühl).

Inglourious Basterds_Daniel BrühlZoller ao se encantar por Emmanuelle, tenta convencer Goebbels a transferir a sessão para o cinema dela. Dando a ela a chance de eliminar a todos de uma vez: colocando fogo em seu próprio cinema. Sendo o seu cinema bem menor, facilitaria aos planos da Operação Kino. Acontece que ela não sabia que teria essa ajuda em seu plano. Essas coincidências do destino… Ou seriam viradas do destino!? Enfim, parecia que viria a calhar. Mas…

Inglourious Basterds_Diane KrugerHicox, a princípio, teria a colaboração direta da agente dupla Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), e também da equipe de Aldo. Ela é uma notória atriz alemã. Ciente da avant première, foi quem passou a idéia para a Operação Kino.

Bridget e Emmanuelle também vestem a camisa dos Bastardos: de querer exterminar com os maiorais nazistas. E são ótimas as suas atuações. Destaque para as cenas que ficam cara a cara com o Coronel Landa. Bem, ainda acho que Tarantino deve a nós, mais filmes com mulheres como mostrou nesse. Elas foram brilhantes!

Assim, com o supra sumo de matar toda a nata da ‘raça pura’, incluindo o Hitler… Tarantino consegue nos manter atentos até o final. Filmaço! De querer rever esse longo e sensacional filme! A trilha sonora é espetacular! Uma palinha:

Valeu Tarantino! Que venha logo o próximo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds). 2009. EUA. Direção e Roteiro: Quentin Tarantino. +Cast. Gênero: Drama, Guerra. Duração: 153 minutos.

Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

Asas em sonhoNormalmente, os humanos sonham com a vida eterna, uma vida sem sofrimento ou dor, uma vida contemplativa na qual não sejamos vítimas nem do tempo, nem das circunstâncias.

Mas não Damiel.

Claro, ele não é humano! Evidente que ele deseja algo diferente dos humanos. Ou não?

Damiel é um anjo que observa a vida desde seu surgimento. Junto a seu amigo,  Cassiel, troca impressões sobre vidas alheias, mais ou menos felizes, mas vidas reais, histórias que se desenrolam com começo, meio e fim. Histórias cheias de sensações. Cores. Tempo limitado, sim, mas tempo sentido, vivido, real. Em sua existência contemplativa e sem grandes interferências, Damiel sente uma espécie de dor, uma espécie de impulso vital. Ele quer ser humano.

Este é o enredo de Himmel über Berlin, título original em alemão: O Céu sobre Berlim. Por se tratar de uma co-produção francesa, temos um segundo título, adotado em inglês e português, Asas do Desejo.

Segundo o diretor, Wim Wenders, o roteiro foi sendo escrito durante as filmagens, aos poucos. Mas a intenção era clara. Wenders queria se reencontrar com sua pátria. Andou pelas ruas da cidade, coletando impressões e notando que havia muitas e muitas estátuas de anjos pela cidade. A principal delas, a Siegessäule (coluna da vitória), também conhecida – mas só pelos Berlinenses, como Goldne Else (Elza dourada), aparece quase como personagem, apoiando Damiel e, principalmente, Cassiel.

Ao mesmo tempo que queria se reencontrar com a cidade, Wenders queria recuperar sua intimidade com o idioma, depois de uma temporada intensa nos EUA. Leu Rilke, um dos poetas mais talentosos para falar da existência. E, que coincidência (!), os textos eram repletos de figuras angelicais. Definida a perspectiva, Wenders contou ainda com mais uma inspiração literária: Peter Handke. São dele os poemas que, declamados por Bruno Ganz (Damiel) ao longo do filme, dão a ele o caráter pelo qual ficou conhecido: filme-poema.

Als das Kind...(…)

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo estava na alma,
e todas as almas eram uma.

(…)

Quando a criança era criança,
era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não lá?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e cheiro é
apenas uma imagem do mundo frente ao mundo?
Há de fato o mal, e pessoas,
que realmente são as más?
Como pode ser, que eu, que sou,
antes de ter me tornado, não era,
e que eu, uma vez, que sou,
não mais serei quem sou?

(…)

Numa participação muito mais do que simpática, Peter Falk faz o papel de um anjo que já deu o passo para a mortalidade. Adorável. Solveig Dommartin, na época namorada de Wenders, faz Marion, a trapezista melancólica que é a última motivação que Damiel precisava para dar seu passo além dos muros do mundo cinzento da eternidade (por conta de que muitos interpretam o filme de forma política…).

Mas eis o que Damiel realmente quer:

É maravilhoso viver só em espírito e dia após dia pela eternidade … (acompanhando) das pessoas puramente o que lhes for espiritual – mas, às vezes, minha eterna existência etérea é demais. Então quero deixar de flutuar eternamente adiante, quero sentir um peso em mim que suspenda minha falta de fronteiras e me fixe à terra.

(…)

Não que eu queira sair concebendo um filho ou plantando uma árvore, mas seria interessante, ao chegar em casa, alimentar o gato.

(…)

Ou, finalmente, sentir como é tirar os sapatos sob a mesa e esticar os dedos dos pés, descalço, assim. (Simplesmente AMO este trecho!)

(…)

Afinal, estive tempo demais do lado de fora, tempo suficiente ausente, o suficiente fora do mundo! Para dentro da história do mundo!

É assim que Damiel me lembra, por muitas vezes, que a humanidade tem uma beleza peculiar. As sensações valem a pena. Por isso, ele declara ao final:

Sei, agora, o que nenhum anjo sabe...

Agora, eu sei o que nenhum anjo sabe“…

Corra, Lola, Corra (Lola Rennt)

Lola 1

Corra, Lola, Corra – Run, Lola, Run – Lola Rennt

Direção: Tom Tikwer

Gênero: Comédia

Alemanha – 1998

Sensacional!

Comédia gostosa que há tempos não assistia uma tão genial assim! Pra mim, esse filme é uma obra de arte de alguém que sabe, essencialmente, brincar! Uma história contada três vezes, por alguém que basicamente só corre (e como corre) denunciando todas as casualidades possíveis em formas fotográficas de pessoas também externas à ela. Com exceção de sua mãe… engraçado como sua mãe foi a única que não mudou nas três narrativas!

lola 2

O cabelo de Lola é MA-RA-VI-LHO-SO!

Completamente vermelho, um vermelho desejante, pulsional! Esdrúxulo, é pouco! Parece um incêndio! Eu amei esse cabelo dela e a forma que foi colocado no filme. Por vezes, só se vê a sua juba esvoaçante dando o tom vibrante nas cenas! Rebelde, autêntico!

Lola 3

“Não cessaremos de explorar

E ao fim de nossa exploração

Voltaremos ao ponto de partida

Como se não o tivéssemos conhecido”

-T.S.Eliot-

Ah! Se tivéssemos o dom de dominar o tempo… movê-lo, de trás pra frente, de frente pra trás, pausando e voltando, modificando-o, movendo as peças… Conquistaríamos o mundo? Dominaríamos tais mudanças? O que seria de nós?

“O Homem

provavelmente a espécie mais misteriosa do Planeta

um mistério de perguntas sem respostas

Onde estamos?

De onde viemos?

Pra onde vamos?”

Eu amei esse filme! Indico!

Por: Deusa Circe.