A Camareira do Titanic – Ninguém Resiste a uma Estória de Amor

Por: Affonso Romano de Sant’Anna.
Ninguém resiste a uma estória de amor, sobretudo bem contada. As pessoas vão se achegando, ouvindo e se houver chance, opinando, interagindo.

As pessoas querem amar, nem que seja através da fala alheia.

Por isto, conversamos nos bares, nas camas, nos portões, nas janelas, ao telefone, nos confessionários ou consultórios psicanalíticos. Por isto, as pessoas lêem romances, contos, poemas, crônicas, reportagens sobre dramas passionais, ligam novelas na televisão, lêem colunas sociais com mexericos e abrem essas revistas que sendo sobre “quem” são também sobre onde, quando e como as figuras do olimpo se amam e se desamam.

Estou dizendo essas coisas motivado por esse filme de Bigas Luna – “A Camareira do Titanic”. Ele pertence `a safra de diretores espanhóis como Buñel, Saura e Almodovar que brincando com a realidade, fazem surrealisticamente, o público viajar. Bigas Luna não inventou a estória. Tirou-a de um romance francês, cujo nome mal consegui ler na tela e nem apareceu nos resumos de jornal.

Há muito que venho sentenciando que a realidade é apenas a parte mais visível da ficção. Agora tenho que complementar o pensamento e dizer esta outra banalidade: a ficção é o que sustenta a realidade. E quem for ver o filme me entenderá melhor .

Em princípio narra-se a estória de um operário francês que ganha como prêmio ir ver a partida do “Titanic’ do porto de Southampton. Lá está ele, quando bate na porta de seu quarto no hotel uma bela jovem desconhecida, dizendo-se camareira do “Titanic”, pedindo para pernoitar ali ao lado dele. (Fiquem tranquilos que não vou lhes contar o filme, apenas explorar nele alguns aspectos). Pois bem. O fato é que o jovem Horty desperta no dia seguinte sem saber exatamente os limites do sonho e da realidade. Volta para casa com a foto de Marie, e ao ouvir rumores de que sua mulher dormiu com o patrão vai para o bar onde os amigos esperam que ele narre sua viagem. Ali se queda taciturno diante da foto, até que os amigos pedem que conte que mulher era aquela, que romance teve com ela. Ele diz a verdade: nada ocorreu, ela apenas dormiu no seu quarto e ele nem a tocou. Os amigos não aceitam. Provocam. Querem saber detalhes eróticos da noitada. Horty, sem se dar conta, começa a acrescentar dados imaginários à realidade.

Esta sessão no bar repete-se noutros dias. Os amigos, sempre em número maior, querendo mais saber e ele mais acrescentando. As rodadas das estórias eróticas do homem que amou a bela camareira do “Titanic” vai crescendo ao ponto de até sua própria esposa comparecer ao bar, já convertido num quase teatro. As sessões da narração do fato acabam estimulando a vida erótica das pessoas na comunidade, e as mulheres revelam que seus maridos começaram a ter melhor desempenho na cama. Enfim, cresce tanto a fama desse rapaz contando sua mirabolante estória, que um empresário mambembe vem ouvi-lo, e tão impressionado fica, que o contrata para viajar e, logo, encher platéias de teatro com sua crescente e cada vez mais comovedora narrativa amorosa.

Nessas alturas a esposa, antes ciumenta, já embarcou convenientemente na imaginação do marido, incorpora-se `a “troupe”, passando a fazer o papel de Marie. Seguem em representações funambulesca à la Felini. (Disse que não ia contar o filme, mas não há como não sintetizá-lo). Um dia o amante (e ator de seu próprio drama), enquanto descreve a sua imaginária dor real, vê na platéia a verdadeira Maria, que escapara do naufrágio do “Titanic”. Perplexo, ele interrompe o espetáculo, sai à procura dela e descobre que ela é uma prostituta e que ali está com seu gigolô para cobrar uma comissão na estória.

O filme, nessas alturas, dá um salto mortal e sai-se narrativamente muito bem. Realidade e ficção já se misturaram tanto, que a própria Maria acaba se envolvendo amorosamente nela, num desfecho sutil que arremata o que estávamos afirmando ao princípio: de que não apenas não sabemos muito bem os limites entre ficção e realidade, mas que preferimos gostosamente a ficção.

E aí basta olhar a cena em que estamos inseridos. Na tela, os personagens estão provocando e estimulando Horty para que supra a imaginação deles. Eles querem amar através das palavras do narrador. Querem preencher a carência com a abundância imaginativa alheia. Querem seduzir através da sedução alheia, querem gozar com a fala alheia.

Isto, lá na tela. Porque na platéia do cinema está ocorrendo a mesma coisa. Podia ouvir no escuro o suspiro, o coração pulsante, a imaginação latejante de toda a audiência, impelindo o personagem na tela a soltar o gozo imaginário que nos gratificaria a todos. Querem detalhes sobre o corpo dela, sobre o sexo, sobre quantas vezes fizeram amor.

-Doze vezes.

-Doze ?! (exclama um dos ouvintes estarrrecidamente feliz com aquela imaginária marca olímpica no leito). É que as pessoas carecem gozar, nem que seja através dos outros.

Como carecemos de uma estória alheia para esticar a nossa!

Amar no amor alheio.

Amar com o amor alheio.

Amar pela fala alheia .

Se saber contar uma estória de amor é uma arte, saber viver uma estória  de amor é igualmente arte maior e rara. Arte igualmente bela, dificílima e necessária. Verdade é que nem sempre essa estória é contada na mesa do bar. Possivelmente o mundo, dela não tomará conhecimento. Pouco importa. Os que a viveram, embora não a alardeiem se comprazem em vivê-la, em  lembrá-la ou em ver na representação do amor alheio seu realizado amor.

É que a realidade nunca se basta e exige cumplicidade imaginativa.

A realidade não pode viver sem a ficção.

Por: Affonso Romano de Sant’Anna. http://www.affonsoromano.com.br/

Nota do Autor (Jan/2010): Esse texto estará no próximo livro: LER O MUNDO.

LOS ABRAZOS ROTOS DE ALMODÓVAR

Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A revelação da arte se realiza com a conformação da cor, e a expressão da cor condiz com a personalidade do artista, e o uso da luz tenciona os objetos a um sentido. Los Abrazos Rotos se ilumina com as formas significativas nas personagens que definem um caminho, uma direção cujo sentido está determinado.

A trama parece simples mas é lotada de simbologias. A história conta que Lena deseja ser atriz, e tentou isso antes e acabou prostituta. Conquistou o dono da empresa Ernesto Martel  (combatente) onde trabalha como secretária bilingue e pode galgar certa posição social. O dono da empresa a queria junto de si como um desejo que não se extingue. Podia fazer o que bem quisesse conquanto não saísse de seu patrocínio. Assim um cineasta também a deseja como forma da beleza, e sabe que a tendo teria o patrocínio que viria junto. Beleza e dinheiro em verdade, somam-se num negócio de resultados no caso do filme. Ele se apaixona pela atriz e ela por ele. O patrocinador pede a seu filho que filme todos os acontecimentos da vida da amada como um making off de sua paixão, um raio x, algo que está atrás dos fotogramas, das imagens, e ele o faz. Os amantes são descobertos e fogem. Na perda da beleza, o patrocinador modifica o filme para torná-lo medíocre a fim de não obter o sucesso esperado. As ações contrárias de um filme compreendem histórias diferentes numa edição quando está em jogo uma ideologia, um investimento e certa beleza.

A trajetória, a partir desse olhar faz com que a beleza morra, o cineasta torna-se cego e pede sua razão de ser, e o patrocinador morre. Sem a beleza, sem o cineasta e sem o patrocínio não há cinema.

Mas algo se dá diferente do que se espera. Judit que é a secretária carregadora de tralhas, ela não deixa de levar tudo quanto possa e guardar, ajuntar e proteger. É uma mulher obsessiva, apaixonada pelo cineasta Harry Caine, nome com um misto de significado interessante: aquele que causa problemas e trai, na expectativa do que tiver de melhor para uma função. Judit cuida dele, do cego amado que teve com ele um filho. Ele nunca soube, diz ela, mas trata o menino como um verdadeiro pai. A secretaria faz tudo não poderia ter outro nome senão Judit (nome bíblico) que é tanto a quem se deve dar louvor quanto ser capaz de decapitar o amante por uma causa. Nesse sentido ela possui o amado cego e um filho com ele, uma “família”. Conquista uma posição de quem é o carregador infindável de coisas. No feedback que faz para Diego, o cineasta Mateo Blanco/Harry Caine mostra que Judite foi ao apartamento da praia pegar as coisas deixadas (lá vai ela a secretária carregadora de tudo), as fotos estavam num saco plástico e já estavam rasgadas. Assim como foi decepada a cabeça de Holofernes pela Judite bíblica, Almodóvar indica que a Judite do filme decepa as cabeças das fotos dos amantes.

Vejo no filme a ação de um conto, de um início que se embrenha em busca de sua razão e se finaliza numa retomada dos motivos porque se realizaram.

A bela está com o feio e velho Ernesto Martel, roto. Como um pintor usa a escada para alcançar o seu espaço de pintura. O velho e feio tem uma obsessão por uma beleza que sabe não se lhe interessa. O cineasta a deseja como uma eliminação de um filme e a feitura de uma realidade de filme. Como que a tivesse enquanto a desejasse, e assim a bela o deseja enquanto o filme não alcança os resultados de sua necessidade e o velho e feio patrocinador não alcança para si o retorno da beleza. Para se dar todo o certo, uma coisa não se ajusta à outra: o feio e velho é o patrocinador, a bela é a razão dos interesses, e o cineasta é o realizador da obra. A obra se dá pelo patrocínio e pela beleza, mas a beleza só existe por seus interesses, o patrocinador é apenas um veículo de confirmação e o cineasta é o sujeito que realiza na dependência do patrocínio e do belo. O roteiro e a construção pode ser o que for como uma comédia sobre traição e assassinato, um golpe com drogas.

O desejo aparente de não haver uma ética, que tanto faz ser profissional bilingue numa grande empresa ou prostituta, o que importa são as vantagens do negócio e a resposta evidente para a vida: ter mais poder, comprar, ganhar, vencer, sucesso. Não interessa o filme que se faça conquanto se garanta a venda da beleza numa retomada evidente do negócio que, ao invés de ser feito ao varejo é realizado no atacado. É fato sub reptício que o filme trata de um mercado. Nesse sentido a ética do mercado é o negócio com resultados.

O olheiro documentarista feito por um raio x o nome do filho do patrocinador Ray X. Evidente que mostra o que se dá longe da visão controladora de um patrocinador, um making off se faz necessário quando está em jogo a sua beleza e o seu dinheiro ou o contrário.

No fim das contas o documentário entre vida e morte da beleza é  onde se projeta o filme, o documentário e o documentário filme comédia realizado pelo cineasta a custa do patrocinador e de sua amada Lena.

A comédia é por fim realizada por Diego (Ego cortado?) na moviola, o filho dividido faz o filme. Os olhos do pai Matteo Blanco (que deixa de ser Harry Caine) cego acompanham a edição com os olhos do filho e graças a Judite que guardou o copião.

Outras simbologias entram para engordar as cores significativas de um vermelho profuso; de amarelos e dourados, de preto e paisagens azuladas. O “quebra cabeças” das fotos rasgadas recomeça, provavelmente haverá mais um caminho para se buscar a beleza e a refazer da memória à realidade. Matteo Blanco (aquele que ainda não está preparado) poderá voltar a ser um Harry Caine da vida. Não há como juntar o desejo com as mãos porque tudo se faz em pedaços.

Elenco Principal:
Penélope Cruz ………….. Lena
Lluís Homar …………….. Matteo Blanco/ Harry Caine
Blanca Portillo……….. Judit García
José  Luis Gómez……….. Ernesto Martel
Rubén Ochandiano…….. Ray X

Por: Pedro Moreira da Silva Neto. Blog: Crônica da Arte. www.pedromoreiradasilvaneto.blogspot.com

Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos)

Não se incomode com o fato de não haver novidades no mais recente filme de Pedro Almodóvar: Abraços Partidos.

Lá está um emaranhado de situações confusas, dramáticas, engraçadas e curiosas que vão convergendo no final; um diretor de cinema problemático que é seu alter ego; uma atriz radiante e glamorosa, no caso, a excelente Penélope Cruz e muitas citações de arte como filmes importantes (Ascensor para o Cadafalso, do Louis Malle) e pinturas famosas (Les amants, de Magritte).

Na verdade, tudo é motivo para as cenas resplandecerem na tela grande e fixarem-se na memória quando Almodóvar está dirigindo. Do quadro banal de uma lágrima no tomate ou da aplicação de um cílio postiço até o impressionismo impresso na granulação planejada de um beijo filmado pouco antes da morte.

O diretor acertou em repetir a sua velha receita. Saiu tudo perfeito como um bolo simples de fim de tarde.

Carlos Henry.

Tudo Sobre Minha Mãe

tudo-sobre-minha-mae_posterAlmodóvar é o príncipe do improvável. Subverte o texto utilizando situações esdrúxulas e de exceção para relatar o nosso cotidiano. Exemplo: como uma mãe solteira abandonada por um travesti, perde o filho no seu aniversário de 17 anos? E depois abandona tudo para ficar amiga de uma jovem freira grávida do mesmo sujeito e ainda por cima HIV(+)? E que suas melhores amigas são uma atriz lésbica de meia-idade que tem uma namorada junkie e mal-humorada. E a outra grande amiga é um travecão que tem grandes qualidades morais e uma sabedoria instintiva quase que filosófica?

Os personagens masculinos são todos sublimados. O pai ausente é o travesti. O futuro é o filho adotado que revive o pai. O pai desmemoriado é o presente sem rumo. E o filho morto é a memória viva de uma história. Como se fossem sóis fixos no sistema almodovariano em que os planetas femininos transitam ao redor, belas, angustiadas, loucas, inseguras, mas incomodamente; livres.

O prólogo é o que de melhor existe no enredo. Referencial, e ao mesmo tempo tudo prevê. A cena com Bette Davis e o título do filme. Que em português chama-se “A Malvada”… A simulação da mãe que perde o filho. O atropelamento. O enorme cartaz da atriz Huma (que será de suma importância na história de Manuela). Esses fatos irão se repetir – ainda que para alguns de modo imprevisível – no restante do filme. E enfim, resumindo, é uma gigantesca amostra do incondicional e imensurável amor materno.

Filmado com as sempre exageradas cores e texturas. Reina a atmosfera kistch (nunca esta palavra se adequou tão bem a um diretor). O espanhol com a língua presa, da Espanha, é bonito. A atriz Cecília Roth está estupenda. Sua paixão pelo filho e entrega e dedicação as novas amigas é digno do que melhor existe na alma feminina. Até a citação do emérito cirurgião plástico Pitanguy encaixa legal. Tudo flui. Apesar do insólito. Do universo de underground sexual.

O desenrolar da trama trás vivências femininas por excelência. O roubo do papel e consequentemente das atenções. A inveja. O ciúme. O desejo dos homens pela novidade, mesmo que essa tenha um pênis debaixo das mamas siliconadas. A preocupação estética de se pentear, de se arrumar, de estar simplesmente… bonita.

O final nos coloca em xeque. O diretor dá direito a um homem colocar no colo o filho que ele destruiu a vida mesmo antes de nascer. Os ajustes sociais ocorridos e o encaixa dos personagens na sociedade são uma lição ou um reparo? Uma homenagem ao cinema e ao teatro que dizem sempre, a vida – e o espetáculo – deve continuar.

O que há de bom: atores magníficos, até Penélope Cruz se destaca, sem dizer das duas prediletas do diretor; Marisa Paredes como Huma Rojo e Cecília Roth como Manuela. Eu mesmo adorei e dou o prêmio de melhor atriz almodovariana para a Antônia San Juan que faz um papel de boneca, sendo uma mulher de verdade!

O que há de ruim: não sei quem é o analista de Almodóvar, mas ele deve dar um trabalho danado, pois divide o filme em metalinguagem pura no início, para depois tornar-se narrativo, muita gente vai boiar, não é, absolutamente, para todos

O que prestar atenção: veja o filme “All about Eve” e os olhos de Bette Davis, além da beleza de Marilyn Monroe, veja “Uma Rua Chamada Pecado” é o mesmo “Um Bonde Chamado Desejo” e o brutal e sexual Kowaslky de Marlon Brando. E por fim “Noite de Estréia”de John Cassavettes, em que a primeira cena é idêntica a esse filme e veja como uma atriz e  mulher representam o tempo todo, seja no palco ou na vida em si

A cena do filme: quando as quatro se reúnem para discutir seriamente o que está ocorrendo e a conversa descamba para uma apologia ao mundialmente apreciado “boquete”, fêmeas…

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por: Giovanni Cobretti – COBRA.

Minha Vida Sem Mim (Mi Vida Sin Mi. 2003)

mi-vida-sin-miO que você faria tendo apenas menos de dois meses de vida? Se não estivesse só, com filhos ainda crianças. Tendo uma relação estável. Contaria a eles? Fica difícil pensar sem estar vivenciando. Até em pensar que é uma jovem com 23 anos que chegou a isso.

O filme ‘Minha Vida Sem Mim‘ não faz um drama do drama da jovem Ann (Sarah Polley). Que após uns exames recebe do médico Dr. Thompson (Julian Richings) a sua sentença de morte. O câncer já se alastrou, e se tivesse mais idade, onde as células se reproduziriam mais devagar, ainda poderia ter uma chance. Paradoxo, não? Se para certos casos, um corpo jovem conta a favor, no dela não. Acelerava mais.

Ann então decide não contar a ninguém. Diz que está com uma anemia profunda. Por querer poupá-los das idas aos hospitais, pois poderiam querer que tentasse todos os recursos. Ann prefere viver esses seus últimos dias com eles. Uma das cenas mais comoventes, é com seu marido, Don (Scott Speedman). O que ele diz a ela. Além de ser uma bela declaração de amor, me fez ficar em lágrimas por ela. Tão jovem, e já partindo dessa vida. Pedia tão pouco da vida. Mesmo assim se vê obrigada a sair dela tão jovem.

Ela então ao pensar no que irá fazer em tão pouco tempo que lhe resta, decide fazer uma lista. Para não perder tempo, era melhor priorizar o que faria. Entre os itens, faria algo que nunca havia se permitido fazer, como também em num que antes nem teria feito. Um seria um banho de chuva, sem pressa, sem fugir dela. É o início do filme, dai não ser nenhum spoiler. (E isso é eu algo que sempre gostei de fazer, desde criança.) O que faz o filme fluir tão leve. Em uma dessas escolhas, nem dá para julgá-la. Pois nenhum dogma, nenhuma regra teria subsídio para condená-la. Ela tinha pleno direito.

Ao longo do filme vamos vendo-a se despedir da vida, da sua família. Sem que pressentissem. Pois queria partir em paz com eles. Com sua mãe, uma mulher amargurada. Com seu pai, que não via a 10 anos. Das suas duas filhinhas. A todos eles, ela deixou uma lição maior: que aproveitassem mais a vida. E que lembrassem dela, pelos momentos alegres.

isabel-coixet_mi-vida-sin-miConfesso que antes de vê-lo, achava que iria chorar muito. Me enganei. O filme é muito bem conduzido. De uma simplicidade no contar a história que o faz belíssimo. Não há retoques a fazer. Meus Parabéns a Isabel Coixet. Um filme que vale a pena ver e rever. Destaco também a trilha sonora!

Uma última reflexão. Pegando como gancho a compulsão de uma das personagens, da fome que sentia. Onde há tantas pessoas fazendo cavalos de batalhas por tão pouco. Onde de uma hora para outra o destino prega uma grande peça. Fica a pergunta: Tens fome de que? Lembre-se que a vida é bela, mas pode ser também muito curta!

Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Minha Vida Sem Mim (Mi Vida Sin Mi). 2003. Espanha. Direção e Roteiro: Isabel Coixet. Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 106 minutos. Baseado em livro de Nancy Kincaid.

Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre)

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Tudo Sobre Minha Mãe – Todo sobre Mi Madre

Direção: Pedro Almodóvar

Gênero: Drama, Existencialismo

Espanha – 1999

Esse é o filme que mais gosto de Almodóvar! Homenagem que ele fez para a sua mãe que tomo emprestado para dizer que minha mãe é muito parecida com a “dele”, até mesmo na fisionomia. Mulher guerreira, batalhadora, amorosa, determinada…

Para ser mãe é preciso que haja um(a) filho(a), isso é óbvio. O que acho mais bonito de perceber nessa obra é esse paradoxo:

- Tudo sobre a minha mãe OU Tudo sobre meu filho?

Como se dizer mãe sem que a cria tenha sido dita?

Almodóvar é brilhante nesse contexto, e foi de uma sensibilidade ímpar nesse filme.

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Por uma tragédia do destino, Esteban morre. Mas quantos filhos na verdade Manuela tem? Com a personalidade visivelmente materna, cuida de todos que ela quer bem.

Num dualismo providencial, o filme mostra o paradoxo de dois “tipos” de mãe: Rosa (mãe de Rosa) e Manuela. Uma é omissa e eternamente filha, não dá conta de ser mãe; a outra, é mãe até as mães…

Almodóvar explorou bem, também, até o aspecto feminino dos homens, apimentando o filme com o travestismo. Suscita uma máxima Freudiana que Simone de Bouvair fez questão de se apropriar: “Não nasce mulher, torna-se mulher”;   Agrado “que torna a vida das pessoas agradáveis” disse algo que ressalto aqui:

Sai muito caro ser autêntica. E, nessas coisas, não se deve ser avarenta. Porque nós ficamos mais autênticas quanto mais nós nos parecemos com que sonhamos com que somos.

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E assim é o filme da vida de muitas mães e muitos filhos.

Por: Deusa Circe.

Albergue Espanhol

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Albergue Espanhol – L’Auberge Espagnole

Direção: Cédric Klapisch

Gênero: Comédia

França – Espanha – 2002

Se fosse para ao invés de dizer uma nota, dizer um adjetivo, certamente seria: Carismático.

O filme é carismático do início ao fim. Os personagens, até os que fizeram papéis de chatos, nerds, são carismáticos e interessantes. Dá pra se ver no filme, rir, se indagar com ele.

Gosto desse tipo de comédia onde não é apelativa pro riso mongolóide. A comédia que se trata é daquela que você pensa: “já aconteceu comigo” rsrsrs ou ainda, “pode acontecer comigo” porque faz parte da vida situações inusitadas, momentos e lembranças gostosas.

Trata-se de um jovem (Xavier), estudante de Economia, 25 anos, francês, que viaja num programa de intercâmbio para Espanha por um período determinado de um ano.  Deixa em Paris sua mãe e namorada. Chega na Espanha (Madrid) sabendo pouco de espanhol, com uma hospedagem que não era bem a que ele queria… tratou de sair de lá. Como conheceu um casal francês no aeroporto, hospedou-se na casa deles enquanto procurava um canto pra se instalar.

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Quando encontra o que chamamos aqui de República de/para  Estudantes, me fez lembrar do início e das entrevistas de Cova Rasa rsrsrs. Entrevistas com perguntas hilárias… rsrsrs.

Mesmo com as diferenças de cada cultura, ali eles formam uma unidade e uma amizade, uma espécie de família – a que se escolhe. E o apartamento passa a ser cenário de situações hilariantes e cômicas, que mostra pra quem vê que diferenças, chatices, organizações, desorganizações tem em todos os lugares.

Outro ponto interessante é o fator mulher para Xavier rsrsrs. Ele é cercado por mulheres com personalidades diversas e que no conjunto, é divertido ver um homem descobrindo que não tem como entendê-las rsrsrs. Tem a sua mãe, a sua namorada, a sua colega de quarto que é lésbica e professora sexual dele rsrsrs, a sua amante…

Ele chora quando vai embora da França e chora quando volta pra ela… a vida é assim mesmo, cheio de partidas e chegadas, de novidades, de unidades, de escolhas…

Também me lembro ao longe do filme A Praia, quando eles estavam no melhor daquele mundo paralelo, obviamente.

Muito legal o filme, divertido e cheio de pontos para se pensar no só-depois, afinal, ser estudante da vida não é fácil, que as aulas sejam, portanto, ao menos divertidas, né? rsrsrs

Por: Deusa Circe.

CHE – O Argentino

che-o-argentinoEm seu segundo trabalho realizado com o ator Benicio Del Toro, (O primeiro foi o ja bastante conhecido TRAFFIC, que inclusive rendeu o Oscar de diretor ao próprio e o de Ator coadjuvante para Benicio, além de outros 2 Oscars na categoria Edição e Roteiro Adaptado) o diretor Steven Soderbergh apresenta um filme que não necessariamente é uma biografia sobre a vida e morte de Ernesto Guevara mas tão somente o período que abrange desde a concepção do plano revolucionário que se iniciou no México… o médico que se torna “porta-voz” de uma revolução e um ícone que perdura até hoje… a chegada dos rebeldes a Cuba por mar em 1956, e uma grande seção é dedicada a três anos de combates nas selvas da Sierra Maestra, até o “xeque-mate”, que foi a vitória em Santa Clara, em 1959.

Concebido inicialmente como um épico de 4h28 de duração, dividido em 2 atos, o filme foi apresentado na mostra de Cannes como um filme único de cerca de 2h de duração. E assim ele chegou por aqui.

A abertura é enfadonha pois se estende por 3 longos minutos mostrando a bandeira da Ilha de Cuba e suas divisões e na sequência da espaço a uma montagem confusa que misturam o ano de 57 e 64. Interessante destacar que o diretor optou por realizar toda a sequência de 1964 em preto e branco. Nesse período é retratada a presença de Che nas Nações Unidas, em Nova Iorque, seu encontro com o então senador, McCarthy. Essa passagem dá um realismo interessante pois faz referencias as imagens que se tem registro de discursos de Guevara, também em preto e branco.

Passada essa confusão inicial de montagem brusca o filme se encontra e acerta no ritmo e não se estende mais do que deve nem se torna cansativo como pode-se até se esperar.

O filme não toma partido de HERÓIS ou VILÕES e nem esmiuça a sua vida pós CUBA, como suas visitas a outros países da América Latina (Onde sua grande pretensão era espalhar a revolução armada por toda ela.) e tão pouco sua ida a países africanos. Muito menos sua morte pós captura. O filme é enxuto e não soa pretensioso justamente por não se alongar em questões foras do contexto da historia por ele narrada.

Verborragias e discursos prolixos sobre o tema a parte, é um filme que consegue falar num ícone bem conhecido de nós, latinos, sem o seu endeusamento e por isso mesmo acho válido. O filme não se prende nem em detalhes menores como Aelida (Catalina Sandino Morena), um mensageiro que acabaria por se tornar a mulher de Guevara e que no filme faz uma breve – apesar de importante – aparição.

Para concluir… parafraseando o próprio:

“PÁTRIA OU MORTE!”

Hehehe

NOTA 7.0

Esqueci de frisar algo que achei muito interessante porque dá um toque de veracidade a mais ao filme. Ele é todo falado em castelhano ao invés do sempre clichê inglês.

Por: Korben Dallas.

Che – O Argentino (The Argentine). 2008. Espanha. Direção: Steven Soderbergh. Elenco: Benicio Del Toro (Che Guevara), Demián Bichir (Fidel Castro), Catalina Sandino Moreno, Franka Potente, Rodrigo Santoro (Raul Castro), Benjamin Bratt (Ente). Gênero: Biografia, Drama, História, Guerra. Duração: 126 minutos. Baseado no livro ‘Reminiscências da Guerra Revolucionária Cubana’, de Che Guevara.

A Grande Final (La Gran Final)

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Tive a sorte de assistir a esse filme A GRANDE FINAL duas vezes. A primeira vez no Festival do Rio de 2006, foi exatamente no dia 23 / 09 / 2006, às 17h:45min, no Espaço Unibanco 2, como podem constatar pelo ingresso que guardo de lembrança e com carinho desse grande dia. Ah, confesso que coleciono todos meus ingressos de cinema; e assisti pela segunda vez na primeira Maratona de 2007, sendo o terceiro filme exibido dessa mostra, e fiquei meio surpresa, confesso, ou melhor dizendo, decepcionada, já que a maioria disse não ter gostado, pelos comentários que li sobre o mesmo. Se bem que dizer apenas “gostei ou não gostei” soa muito vago, já que numa obra cinematográfica, há tanto o que se falar: do roteiro, direção, fotografia, atores, locações e, rótulos são rótulos, como foi esse classificado na categoria DOCUMENTÁRIO. Seria mesmo Documentário? Eis minha dúvida…

Para mim, A GRANDE FINAL é um grande exercício de criatividade e originalidade. Se eu fosse roteirista, me sentiria orgulhosa, modéstia à parte, de ter escrito um roteiro, tão belo, criativo, tão singelo, a respeito de um esporte que une povos e que, de quatro em quatro anos torna-se o maior evento Mundial do planeta Terra (é proposital falar assim, pois se existir vida em outro planeta, talvez, nesse momento extraterrestre sinta uma ponta de inveja de um esporte tão prazeroso para o homem, e quem sabe também faça como muitos daqui um esforço incondicional e extraordinário para tentar assistir a essa ” pelada”).

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Três povos distintos que jamais, nem em sonho um dia se conhecerão (índios na mais fechada mata do mundo: a Amazônia; nômades em seus pôneis, no mais gelado canto da Rússia e sempre vagando pelos cantos do mundo; e os povos do deserto, atravessando de um lado a outro em seus camelos lentos, ou em suas “charretes” abarrotadas de muambas…) distantes, difícil acesso a tudo, vivendo suas vidas precariamente, mas com os mesmos sonhos, os mesmos gostos, os mesmos desejos -homens comprando páginas da Playboy única e exclusivamente pelas mulheres nuas), os mesmos ideais, as mesmas piadas (mulheres que criticam os homens por gostarem de futebol) …

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Sem energia elétrica, sem televisão de plasma, sem antena, sem conforto mas o sonho de assitsir a qualquer custo A GRANDE FINAL da Copa de 2002 no Japão entre a Alemanha e o Brasil, custa caro para cada coração que tenta torná-lo realidade a qualquer preço. E enfim, com toda luta e esforço eles conseguem!

Se a maioria não gostou posso até achar que foi pelo cansaço por ter sido o último filme da maratona e também por causa do calor que fazia dentro do cinema o que é lamentável.

A GRANDE FINAL é para mim UM GRANDE E IMPORTANTE FILME. Parabéns ao idealizador.

Por:  Karenina Rostov.   Blog:  Letras Revisitadas.

A Grande Final (La Gran Final). 2006. Espanha. Direção: Gerardo Olivares. Gênero: Comédia, Documentário. Duração: 88 minutos.

Vicky Cristina Barcelona

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Prestes a completar 73 anos, sendo 42 dirigindo, com média de um filme por ano, Woody Allen parece não estar nem próximo de esgotar o seu repertório. Quem acha que Allen já representou todos os tipos de neuroses que o homem é capaz é porque não viu a Maria Elena, soberbamente interpretada por Penélope Cruz, de Vicky Cristina Barcelona. Com a personagem, o diretor e roteirista demonstra que não são necessariamente os conflitos de personalidade e padrão de comportamento social que determinam tal qualidade.

É notório que todo o trabalho de Woody Allen serve, no mínimo, como um espelho onde podemos enxergarmo-nos muito além das aparências, talvez por isso consiga trabalhar com situações-clichês sem assim sê-las; a exemplo da cena em que Vicky (Rebeca Hall) não sabe que roupa vestir para se encontrar com Juan Antonio (Javier Bardem) e acaba decidindo por um modelo bastante parecido com aqueles que a amiga Cristina (Scarlett Johansson) geralmente usa, demonstrando que Vicky espelha-se na forma ousada de encarar a vida da amiga, porém sem conseguir ir muito além dos seus locais de referência.

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Em Vicky Cristina Barcelona, em que as duas amigas estadunidense partem para uma temporada na cidade espanhola, Woody Allen representa, até onde é possível, a cultura “catalã” com a arquitetura de Gaudí, a culinária de frutos do mar, os solos de violão e, principalmente, com a intensa identidade “transgressora”; artística, com seu estilo trata questões já presente na obra de Almodovar como paixão, traição, ciúmes e o amor sem gênero humano, não tratado como homossexualismo, mas com a ausência de “rótulo” mesmo.

O filme entra para lista dos ótimos do diretor, porém demora a engrenar. Os primeiros minutos parecem não levar para lugar algum, mas a partir de determinado instante a história começa a desenvolver-se graças a introdução de duas novas “peças” na história: Maria Elena, a ex-mulher de Juan Antonio, e Doug (Chris Messina), o noivo de Vicky.

O elenco está excepcional, mesmo assim Penélope Cruz sobressai em todas as cenas nas quais aparece, portanto forte candidata ao Oscar de Atriz Coadjuvante. Javier Bardem interpreta outro personagem interessante como sempre fez, demonstrando que sabe escolher os papéis. Desta vez Woody Allen não colocou Scarlett Johansson para interpretar nenhuma das “grandes cenas”, o que faz mais louvável sua atuação “costurando” todos os elementos, já que é Cristina que permeia os dois núcleos da trama. Porém, não há como não comentar a cena em que estão retornando de Oviedo e a atriz personifica Woody Allen em um momento de neurose tão bem que sinto estar vendo o próprio em uma cena de Annie Hall. Rebeca Hall tem uma boa participação e demonstra grandes qualidades em seu primeiro papel de destaque. Já Patricia Clarkson dispensa comentários.

Vicky Cristina Barcelona fecha a temporada européia de Woody Allen positivamente. Fase que contou com Match Point, Scoop e O Sonho de Casandra. Em 2009 lançará um novo filme (Whatever Works) em Manhattam onde consagrou-se e onde não filmava desde Melinda e Melinda.

Por: Daniel Caumo.   Blog:  Daniel Caumo.

Vicky Cristina Barcelona. 2008. Espanha. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Chris Messina, Patricia Clarkson, Chris Messima. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 96 minutos.