A Guerra Está Declarada (La Guerre Est Déclarée. 2011)

Quando adolescente eu li o livro, mas numa edição condensada e gostei. Não sei se na época, lendo uma versão na íntegra, teria gostado tanto. Acho que só com mais idade iria saborear melhor a narração mais erudita. Ou mais elaborada de uma paixão com um destino trágico. Depois vi o filme de 1968 do Diretor Franco Zeffirelli com Olivia Hussey e Leonard Whiting, e amei. Mas não gostei muito da versão de 1996 com Leonardo DiCaprio e Claire Danes. Não sei se revendo agora, eu viria a gostar mais. Em entender a leitura do Diretor Baz Luhrmann trazendo para uma atualidade esse Clássico de William Shakespeare: Romeu e Julieta. Pois pensei nisso ao gostar da versão que a Diretora Valérie Donzelli deu para essa história.

Em “A Guerra Está Declarada” seria indo um pouco além na história do casal. Como se tivessem sido poupados pelos deuses. Ganhando mais um tempo na terra, quem sabe até longos anos, em viver esse amor. Mas tiveram um preço a ser pago. E que pagaram! Me adiantei. Voltando ao início do amor entre o Romeu e a Julieta dessa história.

Numa festa, o olhar de dois jovens se cruzam, e parecendo amor à primeira vista, eles se aproximam. O jovem então diz seu nome: Roméo (Jérémie Elkaïm). Ela se admira, e diz se chamar Juliette (Personagem da Diretora e Roteirista do Filme: Valérie Donzelli). Roméo brinca dizendo que há uma tragédia entre eles. Mas já era tarde demais: estavam apaixonados. E numa de “Que seja eterno enquanto dure!“, trocam o primeiro beijo selando aquele amor que se iniciava. Até aqui um doce início de romance, onde a saída dramática ficara mesmo com o namorado de Juliette.

Casaram-se! E com o nascimento do Adam veio a tragédia. Pulando de um médico para outro, vem o diagnóstico: Adam (Gabriel Elkaïm) tinha um tumor no cérebro. Então em vez de guerra entre famílias como na história de Shakespeare, eles declaram guerra contra o que o destino reservara ao pequeno Adam. Um bebê ainda. Mas que pelo início do filme, se vê que eles podem ter ganho essa batalha. Já que Adam aparece crescido. Ele está fazendo uma ressonância magnética, e enquanto aguarda, Juliette lembra de quando conheceu o pai dele. É por esses pensamentos que conhecemos toda essa história.

Preparem os lencinhos que há cenas onde ficou difícil segurar as lágrimas. Uma delas, é com Juliette dando a notícia a pequena família, e tendo como fundo musical “Inverno – de As Quatro Estações”, de Vivaldi.  É! O casal teria um longo inverno pela frente.

Aliás, a Trilha Sonora é um dos pontos fortes do filme. Escolha perfeita! Elevando as cenas de mais impacto. Tal como às vésperas da cirurgia, o casal levando o filho para conhecer o mar, e ao som de “Manhã de Carnaval”, de Luís Bonfá. Em outra cena, o casal canta e encanta o amor de um pelo outro. Também a cena onde o pequeno Adam é levado para a cirurgia emociona até pela performance dele. E outras mais onde a música se torna um grande coadjuvante.

Até aqui, tudo bem para esse filme: atores, trilha sonora, fotografia… Que eu até diria que a Valérie Donzelli está no caminho certo como Diretora. Mas algo se perdeu nessa história que deu tédio, como o casal perdeu o encanto. Se ainda fossem adolescentes, seria aceito tal comportamento. Explico, mas ai terá spoiler.

Como ela resolveu contar essa história colocando o casal como Romeu e Julieta, também se pode imaginar que haveria algum tipo de separação entre eles. Agora, como foi mostrado, não apenas entediou como levou a pensar que foram frívolos demais. E isso veio ao estender, e muito, a vida desse casal curtindo todas, sob as chancelas do governo, enquanto Adam estava internado passando por longos tratamentos. O desgaste veio pela vida sem compromisso que estavam levando, e com festas e mais festas. Onde o único termo assumido em conjunto fora estar com o filho ao anoitecer, mas até isso falharam por beberem demais.

Tal fato também acaba queimando-o-filme desse tipo de subsídio  – Casa de Apoio -, seja por parte do governo, seja por Ongs. Claro que é algo necessário para pais carentes de recursos ficarem próximos a filhos menores em tratamento hospitalar. Agora, eles poderiam ter feito algum tipo de trabalho. Até para ocuparem a mente. Com isso, o casal perdeu ponto para mim. Nem adiantou ajeitar esse período de “volta à época de solteiros” por uma das vozes em off que narravam a história. Por conta disso a comovente história desses dois quase foi toda para o ralo.

E falando desse recurso, em uma voz em off contar a história do filme deveria fazer parte do contexto. Nesse filme foram várias, mas sem uma identificação dela com os personagens. Então, elas soam como: “Vou explicar o que está subtendido.” O que é péssimo. Como a Julie Delpy fez em “2 Dias em Paris“, explicando tudo detalhadamente pela voz em off.

Então é isso! Mesmo com os pontos negativos, eu voltaria a rever. É um bom filme!
Nota 08.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Guerra Está Declarada (La Guerre Est Déclarée. 2011). França.

Rindo à Toa (LOL – Laughing Out Loud ®. 2008)

Bem-vindos ao Século XXI, Queridos!

Pois é! Uma das falas do filme. Pontuando o tempo. Onde Pais e seus Filhos Adolescentes vivem em um mundo com internet e celulares. E isso a princípio seria o ponto que faria a diferença de quando eram esses pais, os adolescentes. Mas ao longo do filme vem é a frase símbolo da música de Belchior: “Nós ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais.” Só que ela teria que vir sempre com uma “interrogação”. Como um alerta. Como uma parada para uma reflexão. Como lições.

O que mudou de uma geração para outra? Não pode só ser os avanços tecnológicos. Os anseios, os medos, os conflitos, os abusos, os desejos… Enfim, todas as emoções vivida quando se é bem jovem não podem ser esquecidas. Ou usando um termo atual, toda essa história passada não deveriam ser deletadas da mente. Se quando adultos, e com filhos querendo também construir a sua própria história, e num período onde a sexualidade está à flor da pele, muitos desses pais acabam por ser tornarem reacionários. Mas por que? O “É Proibido Proibir!” tomou outro rumo? Levando-os agora a terem uma marcação cerrada com seus filhos, e até com uso da tecnologia cerceando as pequenas fugas no meio da noite. A liberalização que tanto ansiaram deixou de existir quando se tornaram pais?

Então o que de fato mudou? Ou melhor, qual seria a tônica nesse filme?

Embora a trama põe no centro a jovem Lola, o que pontua mesmo é: Filhos ontem, pais atuais numa rota de colizão. Creio que muitos de nós, ainda na adolescência, ao ouvir um sonoro “Não!” dos pais, também ouviu como uma explicação, um: “Filho hoje, Pai serás!“. E em vez de se especular sobre esse passado real, fica a sugestão para assistir esse filme que no Brasil ganhou o título de: “Rindo à Toa“. Uma tradução literal de uma expressão do mundo da internet: LOL. Um acrônimo de: laughing out loud. Para mim seria como: “Adolescência – última parada para curtir a vida sem compromissos!”.

Até porque o filme traz os adolescentes voltando das férias escolares mais longas. Para alguns, foram as últimas dessa fase descompromissadas. Por aflorar talentos, e então investirem nisso que já pode ser um passo para uma carreira futura. Mas também para muitos ainda terá a vez e o tempo de zoar com tudo e todos. E nessa volta ao colégio, entre vivenciarem mais um tempo juntos, há o de querer saber o que aconteceu nesse período em que estiveram afastados.

Lola, também chamada de Lol, descobre que seu namorado transou com outra. Com raiva, resolve ter a primeira transa com o melhor amigo de ambos, mas… Paralelo a isso, outros conflitos entre pais e filhos. A própria Lola também está passando por um com a mãe. Pelas páginas de seu Diário é que vamos conhecendo toda a trama. Ou todo o drama dos personagens que por conta da diferença de idade, acaba tendo dois pesos. Pois é! O que pode ser um verdadeiro drama para um, pode não ser para outro.

Nessa em ter “dois pesos – duas medidas”, segue a mãe de Lol, Anne. Personagem da sempre linda Sophie Marceau. Ela que no passado sonhou por uma liberização feminina em relação a sexualidade, no presente se reprime por conta da sociedade local. Assim, transa furtivamente com o ex-marido. Os filhos fingem que não sabem. Como também não ligam pelo fato. Anne também se vê presa a outros preconceitos. Um deles quanto a um cara na moto. Age como se ele tivesse saído de “Sem Destino“. Depois, numa palestra na escola de Lol, percebe a grande mancada. Ele é Delegado da Narcótico. Envergonhada, tenda fugir, mas acabam se encontrando de novo. Mas certos pré-conceitos acabam sendo como manuais para alguns. Como para ele que por força do trabalho consegue traça o perfil de um jovem pelo esteriótipo. Mas diferente de Anne, a sua balança não é de discriminação, e sim em sacar se terá repercussão futura ou não esses pequenos deslizes de quando se é adolescente.

Esses paradoxos também é um dos pontos altos desse filme. Como quando Anne sem querer se depara com o Diário da filha. Não resistindo, lê. E fica assustada pelo o que está escrito ali. Ao mesmo tempo que sabe que foi uma invasão de privacidade e se sente culpada, também pensa num jeito de dar um castigo para a filha. Nem passando por sua cabeça de que ali estaria um talento de Lol aflorando: um dom para romancear seu dia-a-dia. Nem pensou que ali se misturavam ficção e realidade. E a cobrança termina por afastar a filha.

Para os jovens, uma excursão da escola à Inglaterra ganha a dimensão de ficarem juntos e sem a vigilância dos pais. Para esses, também. Só que se tivessem um diálogo maior com os filhos poderiam canalizar toda essa gana por essa breve liberdade numa sutil conversa de que irão conhecer uma outra cultura, de um costume diferente, que terão acesso a uma outra língua, por ai. Sem ser careta, despertar no filho a curiosidade em aumentarem a própria cultura de forma prazeirosa nesse intercâmbio. Até para não estranharem tanto as pessoas como fizeram por lá.

A cada vivência nessa fase, a vida parece não acompanhar a pressa dos adolescentes. Mas de certa forma, para alguns o amadurecimento vem sim rapidamente. Assim, em vez dos pais criarem só barreiras, deveriam deixar umas portas abertas. Inclusive a do coração. Porque num aperto maior, serão a esse pai/mãe que irá pedir por ajuda. E diálogo sempre traz bons resultados.

Por último, embora esses conflitos entre pais e filhos adolescentes seja algo universal, a história do filme tem-na na França. Mesmo não sabendo muito dos costumes desse país transparece em “Lol” que a história nasceu ali. Que é dali. Essa identidade salta aos olhos. Tanto que me levou a pensar se a Diretora, e também Roteirista, conseguiu transferir toda essa história e identificá-la com a cultura estadunidense quando aceitou também dirigir a versão hollywoodiana.

Então é isso! Paisagens lindas. Uma ótima Trilha Sonora! Todos estão em uníssono! Um filme gostoso até de rever!
Nota 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Rindo à Toa (LOL – Laughing Out Loud ®. 2008). França. Direção e Roteiro: Lisa Azuelos. Elenco: Sophie Marceau (Anne), Christa Theret (Lola), Jérémy Kapone (Maël), Marion Chabassol (Charlotte), Lou Lesage (Stéphane), Émile Bertherat (Paul-Henri), Félix Moati (Arthur), Louis Sommer (Mehdi), Adéle Choubard (Provence), Jade-Rose Parker (Isabelle de Peyrefitte), Warren Guetta (David Lévy), Alexandre Astier (Alain), Jocelyn Quivrin (Lucas), Françoise Fabian (Mãe de Anne), Christiane Millet (Mãe de Charlotte), Liza Azuelos (Psiquiatra). Gênero: Comédia. Duração: 103 minutos.

O Porto (Le Havre, 2011). Ainda Tinham Brios Pelos Ideais da Bandeira

Era uma vez, num reino distante, o povo passava seus dias numa rotina meio doente por não ter mais os ideais do passado. Mas eis que num belo dia algo veio para mudar suas vidas. Reacendendo a chama para um novo presente. E quem sabe, uma nova história para o futuro…” E eu até poderia contar desse jeito a história desse filme. Que mescla História do Passado com algo ainda recorrente nos dias de hoje. Se as grandes migrações – espontâneas ou não -, no passado povoaram os continentes, atualmente elas se tornaram um problema para vários países. Questões não apenas de ordem social, como também política. Mas em vez de um amargo “Não temos vagas!” o Diretor Aki Kaurismäki, que também assina o Roteiro, traz esse tema numa leve Comédia Dramática, em “O Porto“.

É sempre válido manter essa questão em pauta: a do imigrante ilegal. Até por nos levar a refletir qual seria o nosso posicionamento. Até onde ir, ciente de que estaria burlando a lei ao ajudar uma pessoa nessas condições. Moral e ética tentando achar um meio termo. Na trama o grupo veio da África. Onde no mundo real, vão em busca não apenas de uma vida condigna, mas que muita das vezes estão fugindo da gana assassina de algum Ditador. No filme, por um deles ficamos ciente de também um outro fator, e bem recorrente também no contexto real. Enfim, dentro ou fora da tela sempre fica a busca pela terra prometida.

Temos no título original o nome da cidade francesa de onde se passa essa história: Le Havre. Pelo contexto histórico, como ela faz parte da Normandia, no passado pertencia ao Reino Unido. Que num passado mais recente, foi palco na ajuda para se livrarem do julgo nazista. Então ainda há um orgulho mesmo que quase adormecido em seus habitantes. Mas o filme não vem com nada didático, todo esse contexto é de um jeito en passant, nas conversas dos homens nos bares.

O filme se dá na zona portuária, tanto nas docas como no lado pobre da cidade. Seria os mais pobres os mais solidários? O lugar parece que parou no tempo. Onde a modernidade é vista numa antena parabólica numa das casas. Também num celular. Que põe em xeque se quem fez a delação também o fez por princípios ou não. No nome de um dos Café Bar onde os homens se encontram, o La Moderne. Mas também vem na manchete sensacionalista de um jornal. Com a foto do incidente fio condutor dessa história. E é por conta dessa matéria que o Chefe de Polícia local se vê obrigado a elucidar o “crime”: há um imigrante ilegal a solto pelas redondezas.

O bairrismo também se faz presente nesse filme, e de um modo divertido: entre os trabalhadores do porto com os da “capital”. Por conta de um erro burocrático, um conteiner ficara retido no lado francês do Canal da Mancha. Pela data, já deveria ter chegado em solo britânico. Por causa disso, um grupo de pessoas vindo da África, é descoberto. Grande aparato policial que acabou atraindo um foca. Registrando assim o incidente, como a fuga de um deles.

Acontece que o pé-no-calo do Inspetor Monet (Jean-Pierre Darroussin), o tal fugitivo, não passava de uma criança: o jovem Idrissa (Blondin Miguel). Monet tão acostumado a caçar bandidos se vê perdido para descascar esse abacaxi que o Prefeito lhe impôs. Até porque havia um contingente maior ajudando Idrissa. Algo que até surpreendeu aquele que primeiro tomou a iniciativa, o aposentado Marcel Marx (André Wilms). No geral, são gente simples, que sentem, pressentem que não estão tão velhos assim para mudarem o jeito que iam levando a vida. Ainda era tempo de lutar pelos ideais da Bandeira – Liberdade, Igualdade, Fraternidade -, mesmo que numa revolução silenciosa; sem armamentos.

Idrissa pelo jeito iria operar milagres naquela gente. Mas que ainda manteriam um jeito romântico de ser.

O filme também brinca com leves homenagens nos nomes dos personagens. Mas ai, sem uma confirmação por parte do Diretor, fica como um Quiz num brinde a mais do filme. Assim vejamos! O Monet seria a Claude Monet que passou a infância e adolescência em Le Havre. Idrissa, talvez ao Diretor Idrissa Ouedraogo com trabalhos premiados em Cannes, mas ainda um desconhecido internacionalmente. O de Marx seria a Karl Marx? Por ai! Sem pesar no contexto da trama do filme, mas sim como um tempero a mais ajudando no sabor da história.

Então é isso! Um filme para quem gosta de ouvir histórias. Essa é de acompanhar com brilho nos olhos, sorriso no rosto, e confesso que meus olhos marejaram no final. Um filme que eu voltaria a rever, para então saborear com mais tempo todas as referências até implícitas. Eu que só conhecia o ator Jean-Pierre Darroussin por sua ótima atuação em “Conversas com meu Jardineiro“, também gostei das performances dos demais. Temos em “O Porto” um ótimo filme.
Nota 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O PORTO (Le Havre, 2011). França/ Alemanha/ Finlândia. Direção e Roteiro: Aki Kaurismäki. Elenco: André Wilms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel, Elina Salo, Evelyne Didi, Quoc Dung Nguyen, Laïka, François Monnié, Roberto Piazza. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 93 minutos. Classificação: 12 anos.

L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância (2011)

A película “L’Apollonide – Souvenirs de la maison close” de Bertrand Bonello que se passa num prostíbulo francês de luxo na chegada do século XX não é definitivamente um filme para todos. Apesar da beleza plástica extraordinária sustentada por uma produção de arte incontestável, o roteiro, sem grandes surpresas ou reviravoltas, tem um ritmo lento e uma minuciosa construção de personagens que afastam os espectadores de hoje, ávidos por soluções rápidas e sequências vertiginosas de velocidade estonteante.

Com o olhar de quem aprecia uma obra de arte, o filme pode ser saboreado como uma peça rara recheada da nudez renascentista de mulheres aprisionadas num claustro erótico comandado pelo dinheiro e poder masculinos. No meio da rotina triste do estabelecimento há um punhado de cenas, que congeladas e impressas se transformariam rapidamente em pinturas memoráveis.

A melancolia que impregna o trabalho daquelas mulheres é sintetizada no sorriso rasgado à força e nas lágrimas de sêmen de uma das personagens num conjunto de imagens tão chocantes quanto comoventes e que dificilmente serão esquecidas.

Sob o olhar lânguido da pantera que visita o local, o sofrimento de doenças, violência e preconceito desta classe estigmatizada atinge os dias de hoje numa transição de tempo brilhantemente solucionada no desfecho deste filme singular.

Por Carlos Henry.

L’Apollonide – Os Amores Da Casa De Tolerância (L’Apollonide – Souvenirs de la Maison Close. 2011). França. Direção e Roteiro: Bertrand Bonello. Elenco: Hafsia Herzi (Samira), Céline Sallette (Clotilde), Jasmine Trinca (Julie), Adele Haenel (Léa), Alice Barnole (Madeleine), Iliana Zabeth (Pauline), Noémie Lvovsky (Marie-France), Xavier Beauvois, Louis-Do de Lencquesaing, Esther Garrel, Jacques Nolot. Gênero: Drama. Duração: 122 minutos. Censura: 16 anos.

As Mulheres do Sexto Andar (Les femmes du 6ème étage. 2010)

Quando o andar de cima interfere no andar debaixo. Mas aqui a conotação para isso muda, já que a classe social mais alta mora no andar debaixo. Enquanto que as serviçais ocupam quartinhos no último andar do prédio. Elas são mulheres que migraram da Espanha de Franco para trabalharem em Paris. São elas: Concepción Ramirez (Carmen Maura), Carmen (Lola Dueñas), Dolores Carbalan (Berta Ojea), Teresa (Nuria Solé), Pilar (Concha Galán). Ficando um sonho de um dia retornarem à terra natal e lá viverem condignamente. Só uma delas que tem a certeza de não querer voltar, pela tragédia que vivenciou lá: a Carmen. Aliás, mesmo com um passado triste, Lola Dueñas faz da personagem uma mulher divertida.

Passados alguns anos, é na Paris dos anos 60 que começa essa história. Elas continuam levando a vida como domésticas. Até que com a chegada da sobrinha de uma delas, a rotina começa a mudar. Ela é Maria Gonzalez (Natalie Verbeke) que pega a vaga na casa da família do andar dos mais abastados.

Maria vai trabalhar para o casal Jean-Louis Joubert (Fabrice Luchini) e Suzanne (Sandrine Kiberlain). Jean tem uma Corretora de Valores. Suzanne leva uma vida de dondoca. Numa rotina entre salão de beleza, chás, exposições, carteado… Nem com os filhos tem preocupação, já que estudam em colégio interno. Jean também é bem metódico. A rotina se quebra quando a esposa lhe pede para ajudar Maria a levar umas coisas para um dos quartinhos do 6º andar.

É quando Jean toma conhecimento da precariedade daquele lugar. De pronto, já toma uma providência que acaba conquistando a admiração das dosméticas: manda alguém desentupir o único vaso sanitário daquele andar. E depois vieram outras, e mais outras ajudas. Se a princípio o que motivou mesmo Jean, fora estar se apaixonando por Maria, depois foi por se contagiar pela alegria que exalava de todas elas. Mesmo com alguma tristeza em seus íntimos, elas tinham tesão pela vida.

E em ‘As Mulheres do 6º Andar‘ não temos uma luta de classes, mas sim uma interação entre elas. Indo mais além. Em se conhecer a cultura de um outro povo. Claro que se poderia comentar sobre a mão de obra advinda de outros países, mas elas estão tão bem resolvidas nesse propósito, que preferi focar nessa ligação de Jean com elas. Ele renasce!

Entao é isso! O filme é uma delícia de se ver! De acompanhar com brilhos nos olhos toda essa aventura nesse momento de vida de Jean. Por vezes, dando gostosas risadas. Uma Trilha Sonora que atua como coadjuvante. As atuações estão ótimas! Cenário, idem. Enfim, entrou para a minha lista de rever. Até porque eu sou fã do Fabrice Luchini, e ele continua ótimo!
Nota 10.

P.s: Essa música está na Trilha Sonora. A cena com ela é ótima! E a música nos traz também boas recordações.

As Mulheres do 6º Andar (Les femmes du 6ème étage. 2010). França. Direção e Roteiro: Philippe Le Guay. Gênero: Comédia. Duração: 104 minutos.

O Artista (The Artist. 2011)

Não é um filme, é uma viagem. Portanto, prepare-se!

Todos que já fizeram uma viagem algum dia, por mais simples que seja, sabem da necessdidade dos preparativos. Roupas, acessórios, utensílios, bagagem! Dicas, informações, roteiro, pesquisa prévia para que se possa aproveitar ao máximo uma estadia que poderá ser mínima. O prazer não é medido em tempo, mas em qualidade e essência. Assim, ao se decidir por assistir ao filme “O Artista”, prepare-se, pois é uma viagem, onde o trajeto não se dissocia da estadia.
Não sou uma pessoa do ramo, não sou crítica de cinema, não posso ser considerada uma cinéfila, sou uma consumidora habitual de cinema e propagadora das obras que assisto e gosto, posso dizer ainda que, qualquer ida a um cinema já é um prazer por si mesma fazendo com que qualquer ida a uma sala de projeção com filme que consideremos ruim, é melhor que não ir. Conferir com os próprios olhos, exercer a própria opinião, desfrutar dos prazeres adjacentes do passeio.

Surpresa potencializada:

Vivo no Rio de Janeiro, cidade que há 10 dias já respira confete e serpentina, batucadas, animação, excitação, com extensa programação musical onde confusão, ritmo, batucada e barulho dão o tom acelerado dos nossos dias. Vivemos um mundo tecnológico, plugado de imagens, sons e animação. Dados periféricos que podem ter influência neste filme que não se assiste, se degusta! Agregado a isso, não li uma única linha sequer de qualquer resenha sobre o filme, afinal nessas épocas sou uma criatura totalmente submersa no mundo da música. Ver o filme começando, foi como ser içada das profundezas do mundo sonoro e isto a princípio não foi confortável.  Ler no cartaz que o filme tem 10 indicações para o Oscar, emprestou-me uma animação que empalideceu, logo ao fim dos créditos iniciais na tela.

O Cinema:

O primeiro impacto, o rosto extremamente agradável do protagonista, sim ele é lindo! Mesmo caracterizado como astro dos anos 20. Fraque cartola, elegância, bigodinho fininho, cabelo engomadinho tudo impecavelmente asseado, bem passado, lustroso. Depois o contato com a maneira como se assistia filmes nessa época tão remota. Orquestra ao vivo, elenco atrás da cortina e sua aparição para saudar o público. Demorou um pouco pra ficha cair e entender esse cinema de época.

O Filme:
Mostrar o contexto da exibição das obras, foi o gancho que me “içou”, trazendo a minha atenção para o que a telona mostrava, muito mais que as expressões exageradas, onde os gestos precisavam mostrar  aquilo que o cinema não oferecia: voz.
George Valentin (Jean Dujardin) é “o astro”, que leva milhares de fãs ao cinema, para ver filmes onde divide a cena com a sua esposa e o seu cão. Ele, George, é talentoso, bem humorado, vaidoso, autoconfiante, ególatra, orgulhoso, artista numa época em que os astros, se destacavam do restante da humanidade, ah, e tem as sombrancelhas mais expressivas do planeta! Conhece Peppy Miller (Bérénice Bejo), rende-se ao talento da moça e facilita-lhe a oportunidade. Quando o som começa a chegar ao cinema, ele é um dos que não acreditam na novidade.
A forma como o filme apresenta o paradigma de que uma artista de filme mudo não poderia adaptar-se à nova forma do cinema é sensível. A nova tecnologia convence ao próprio artista da sua incapacidade de se adaptar, de que ele faz parte de um passado que nem lembranças lhe deixaria.
A oposição entre novo e velho, a apresentação do artista como um utensílio descartável dessa forma de arte, baseada no comércio, na industrialização. É realmente o início da cultura onde os estúdios ditam aquilo que o público gostará de ver.
Peppy, deslancha, contratada pelo mesmo produtor de George, Al Zimmer (John Goodman). Ela tem a sorte de estar sempre no lugar certo, na hora certa. De ser tão nova quanto à novidade. Chega a ser poética a trajetória da estrela que sobe e do astro que decai. Peppy e George estão na mesma pista, em trajetórias opostas e não colidem, se encontram a a partir do respeito que jovem estrela tem para com o renomado astro. O filme tem personagens pungentes como o motorista, James Cromwell e o incrível cãozinho Uggie. Também tem humor e a decadência de George, nos toca  mas não prenuncia tragédia. George certo do seu talento e da inviabilidade dos filmes com voz, investe  pesado numa produção de contra ataque ao inimigo novo, é abandonado pela mulher  Dóris (Penelope Ann Miller) com ciúme exagerado na mesma medida que as representações da época, é surpreendido pelo Crack da bolsa que deu origem à Depressão de 1929. Mas para não sucumbirmos a esses  tantos dramas temos Uggie, o cão e a diversão da mulher de George em enfeiar suas fotos.

Mas como curtir um filme tão na contra-mão de tudo o que a indústria cinematográfica vem impondo como aquilo que queremos ver? Preparando-se para uma viagem no tempo, onde os sentimentos tem trilha sonora instrumental, poucas legendas e muita emoção, não a emoção dos filmes de ação, mas a ação das emoções. Ambientação perfeita e um andamento mais lento que mostra a perfeição nos cortes.  As cenas são límpidas e há recursos digitais nas cenas com o cãzinho, a tecnologia prestando o seu tributo à origem da arte que mais lhe “dá cartaz”  Tenha em mente que preto-e-branco também sem cores, porque o filme é de um colorido intenso, mas não para os olhos.

Quem é do tempo em que a global Sessão da Tarde valia a pena, vai ter a doce lembrança dos musicais em preto e branco com Fredie Staire sua simpatia, alegria e claro, sapateados. O filme traz muitas referências de priscas eras, e até mesmo de Cidadão Kane (a cena do café da manhã), que desembarcou nas telas muito depois da chegada do cinema falado,  nossa sensibilidade a um tempo que não volta.

Nota: 10,5 …

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O Artista (The Artist. 2011)

Pela primeira vez em muito tempo, há o risco de a estatueta mais concorrida do mundo do cinema ir parar em mãos realmente merecidas no quesito melhor filme.

O Artista” (The Artist) de Michel Hazanavicius é uma obra extraordinária. A começar pela escolha do astro principal Jean Dujardin para viver George Valentin, um ator da década de vinte que sofre com a chegada do cinema falado que elege novas estrelas como Peppy Miller (A não menos talentosa Bérénice Bejo). Jean tem um frescor inédito que oscila habilmente entre o charme irresistível e a pantomima divertida que o personagem exige em momentos de humor e melodrama divididos graciosamente com o esperto cãozinho Uggie. Este importante momento de transição já suscitou trabalhos históricos na sétima arte como “Singing in the Rain” e “Sunset Boulevard”. “O Artista” também deve se transformar num clássico inesquecível do mesmo porte.

Quem não se incomodar com o ritmo apropriadamente lento em vários momentos, a ausência de diálogos e cor e o superado formato três por quatro da tela, vai aproveitar um punhado de cenas geniais e antológicas como aquela em que Peppy brinca com o terno pendurado de George. De quebra, uma trilha sonora saborosa que embala uma atmosfera lúdica, ingênua e de puro deleite absolutamente adequada ao ritmo gentil de uma película totalmente desprovida do envolvimento frenético virtual dos dias de hoje. Na última parte, a sala de projeção traduz uma emocionante e explícita homenagem a Fred Astaire e Ginger Rogers numa sequência arrebatadora.

Desligue (completamente) o celular e mergulhe no mundo maravilhoso deste filme único e sedutor.

O Artista (The Artist. 2011)


Será que é pedir demais para o público apreciar um filme como “O Artista”?. Não sei não!. O enredo do filme em si não é exatamente novo– nem quero usar a palavra “original” aqui, porque hoje em dia, tudo se copia!.

Quando a estória começa, George Valentin (Jean Dujardin) é uma das principais estrelas da época, um astro arrogante do cinema mudo — do calibre de um Rudolph Valentino ou Erroll Flynn!. Valentin é um cara bem-humorado, apesar de uma vida doméstica fria ao lado de sua esposa (Penelope Ann Miller). Provavelmente, o estrelismo o fez esquecer da sua “amada”, embora o mesmo tenha uma grande devoção pelo seu cãozinho, que está com ele em tudo e qualquer lugar!.

Ai, surge uma fã de Valentin, Peppy Miller (Berenice Bejo) que se torna atriz — depois de vir de papéis inexpressivos em filmes mudos, Miller faz uma extraordinário transição ao cinema falado. Num estilo “Nasce uma Estrela” e “Cantando na Chuva”, vemos Miller se tornar uma estrela e Valentin cair no ostracismo no estilo bem Norma Desmond em “Sunset Blvd.”

O elenco é perfeito: me envolvi com a estrela Jean Dujardin – um ator de um seu sorriso largo, e irresistível!. Que presença magnética na tela!. Merece sim levar o Oscar de melhor ator do ano!!. Berenice Bejo, que tem um grande papel, e está perfeita, não deveria estar concorrendo ao Oscar de coadjuvante, mas sim de melhor atriz principal!. E, o John Goodman faz um “Louis B. Mayer” sublime!.

Lindos figurinos, e cenários de encher os olhos – as cenas externas em L.A são um espetáculo a parte!. A fotografia de Guillaume Schiffman, que fotografou o ousado “Anatomy of Hell”(2004), é simplesmente de cair o queixo!!. Creio que a trilha sonora de Ludovic Bource seja não apenas a alma, mas o que sustenta o filme em si, embora as melhores faixas sejam aquelas escritas por Bernard Hermann, tiradas do filme “Vertigo” de Hitchcock. Não sei que critério foi estabelecido para a sua candidatura ao Oscar, pois recordo que o trabalho de Clint Mansell em “Black Swan” (2010) foi menosprezado pela academia porque ele usou elementos da música de Tchaikovsky em “Swan Lake”, ou até mesmo a trilha de Jonny Greenwood para o filme “There will be Blood” ( 2007), foi preterida porque Greenwood usou material pre- existente de sua propria autoria!. Não será injusto se Bource vier a ganhar o seu Oscar, mas em mais de 10 minutos de imagem em o “Artista”, temos a música de Hermann na tela!. E, compreendo a frustração de Kim Novack ao declarar em público, que o “Artista” depende e muito da trilha de “Vertigo- ” isso é pura verdade!.

Co- editado pelo diretor Michel Hazanavicius, que também assina o roteiro, “O Artista” é  uma obra bastante criatividade e ousadia assim como Scorsese em “Hugo” (2011), o qual, foi a França para homenagear um dos pioneiros do cinema!. Contudo, o enredo de o “Artista” não tem nada assim de complexo– é apenas uma ousada e bela comédia-dramática. Bem, em termos comicos — as risadas que surgem a partir de situações familiares–, não achei tão engraçadas assim, exceto, as cenas que mostram Valentin com o seu tão adorável cãozinho!. Em termos dramáticos, o ritmo do filme diminui muito, ficando atolado num melodrama repetitivo. Sim a carreira de Valentin vai para o brejo, mas por que Hazanavicius precisou arrastar tanto o drama do seu astro para depois “jump” para a cena final?.

Particularmente, adoro cinema, e adoro assistir filmes na tela grande, mas quando um filme me faz bocejar é porque há algo errado!. Assistindo o “Artista”, me encontrei perguntando se eu estava entediado ou a platéia me fez entediado. Bem, a magia de estar em uma sala de cinema é o fato de que compartilhamos a alegria, a tristeza, o riso e o medo com estranhos. Várias vezes, eu me encontrei rindo, porque o riso do outro me contagiou. Assistindo o “Artista”, eu fiquei entediado pelos bocejos da platéia, os quais foram também contagiantes!. Se tivesse sido cortado 25 a 30 minutos do filme, não prejudicaria em quase nada!.

Não acho que esse filme mereça o Oscar, embora o mesmo seja tecnicamente (ainda) um grande filme!. Mas levando em consideração o “Discurso do Rei” (2010) que foi agraçiado com a estatueta como melhor filme, eu não me surpreenderei com a decisão de premiar o “Artista”, que curiosamente é vendido como um filme francês, produzido pelo ator Thomas Langmann, filho do cineasta Claude Berri, mas com dinheiro americano– tanto o filme não foi escolhido pela França para ser o representante do país para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Nota 8,0 – pela criativa homenagem ao cinema!

O Artista (The Artist. 2011)

Seria cômico senão fosse patético! É que enquanto muitos Diretores chegam a basear seus filmes nos efeitos do 3D, para deleite nosso, de quando em vez, vem um e nos brinda com uma simplicidade ímpar ao contar uma história. Em 2009 tivemos os bonecos de massinhas meio toscos de Adam Elliot no seu “Mary e Max – Uma Amizade Diferente“. Agora, é a vez Michel Hazanavicius também remar contra o modismo e nos encantar com “O Artista“. Bravo!

Hazanavicius simplesmente conta a sua história como na época do Cinema Mudo. Como se tivesse filmado com o que hoje já seriam peças de museu. Mas não é apenas o pano de fundo, é a contextualização de uma época dentro da História do Cinema, e em especial, da de Hollywood. Pegando o início do fim de uma época: sai o Cinema Mudo e entra em cena o Cinema Falado. Já no finalzinho da década de 20, e início da de 30. E como um brutal coadjuvante também real: o Crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Hazanavicius também faz, traz belas homenagens, pontuando a trama. No início do filme, temos o protagonista ora homenageando o galã da época Rodolfo Valentino – na telona, com o seu filme -, para depois nos agradecimentos à plateia fazê-lo num jeito Carlitos de ser. Mesmo com uma beca impecável, é com um sorriso enorme que a memória nos traz esse grande personagem de Charles Chaplin, e do Cinema Mudo também. Até por estar sempre acompanhado pelo cachorrinho. Paulo Autran disse certa vez que trabalhar com criança ou um animal é um risco: porque eles podem roubar a cena. Em “O Artista” não deu outra: o cãozinho Uggie rouba todas as cenas. Merece aplausos pela performance! E ainda dentro das homenagens de Hazanavicius, uma outra também encantadora: ao casal Ginger Rogers e Fred Astaire.

A história é simples, mas nem por isso não é complexa. Conta a carreira de um ator que não se rendeu ao Cinema Falado: George Valentin, personagem de Jean Dujardin. Do estrelato ao ostracismo. Ficou por anos usando a expressão corporal, e que não acreditava que falas nas cenas trariam diferenças significativas. Calcando-se mesmo em “Uma Imagem vale mais que mil Palavras!“. Mas nem tanto ao mar, nem tanto ao céu. Um som faz sim um grande efeito. Tanto, que durante as próprias exibições dos filmes mudos havia uma certa trilha musical nas Salas onde eram exibidos. E ótima a atuação de Jean Dujardin!

Valentin ainda no auge da fama se esbarra a uma aspirante a atriz, Peppy Miller (Bérénice Bejo. Gostei de sua atuação!). Ela cai de amores por ele. Mas Peppy segue em frente: acompanha o novo Cinema que chega. Sua carreira sobe, enquanto que a dele termina. Anonimamente ela até que tentou ajudá-lo. Mas ele se entregou às bebidas. Até o seu fiel mordomo, Clifton (James Cromwell), cansou de motivá-lo.

Bem, além de Drama, “O Artista” também é uma Comédia Romântica. Logo com todos os itens desse Gênero. Se no início o que separa o casal – Valentin e Peppy -, é o fato dele estar casado com Doris (Penelope Ann Miller), depois foi por orgulho mesmo. E dele! Mas no final Peppy arruma um jeito dele voltar à cena, e sem ter que sentir-se que traiu seus próprios princípios. Bravo Peppy!

E a ideia de Peppy enche novamente os olhos do antigo Produtor de Valentim, Al Zimmer. Personagem de John Goodman. Que aliás também rouba todas as cenas! Seu personagem ficou incrivelmente a cara do Cinema Mudo. Perfeita atuação! Os demais coadjuvantes estão ótimos, mas para mim Goodman e Uggie estão excelentes!

O filme cai um pouco de ritmo ao se estender no drama do Valentim. Se Hazanavicius tivesse acompanhado também o tempo de duração dos filmes daquela época, enxugando um pouco, até me deixaria uma vontade de rever, mas não deixou. Agora, vale sim, e muito, ser visto! Até pelo final memorável!

Então é isso! E também pelo Figurino, Fotografia, Trilha Sonora, Cenário, inclusive pelas falas-legendas tal qual do Cinema Mudo, “O Artista” é um filme excelente! Não deixem de assistir!

Nota 9,5

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Artista (The Artist. 2011). EUA. Direção e Roteiro: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch. Gênero: Romance, Comédia, Drama. Duração: 100 minutos.

Curiosidades: Uggie, o cãozinho do filme irá se aposentar. Leiam na matéria de Priscilla Merlino: Uggie, a estrela canina do filme O Artista, vai se aposentar.

Late Bloomers – O Amor não tem Fim (2011). Ou, Envelhecer é um Recomeçar

De dois universos tão distintos, ela vem conquistando um lugar num topo de ainda na quase totalidade ocupado por homens. Assim, sendo eu também uma mulher, começo citando a Diretora, e também Roteirista, Julie Gavras. À ela meus Parabéns por ambos seus filmes. No primeiro que eu vi, o “A Culpa é do Fidel” (2006), traz a mudança de uma menininha ao ver que seu mundinho crescera, entendendo que vivemos numa sociedade não tão perfeita, ou não como todos nós desejamos. Já nesse segundo que eu assisto, “Late Bloomers – O Amor não tem Fim“, Julie Gavras já traz um casal entrando na velhice, onde além de ainda não ser uma sociedade perfeita, agora está jovem demais “em produtos”, e meio que excluindo os bem mais velhos “naturalmentes”.

Não sei se vale como um consolo, como a lei da compensação. É que se chegamos nessa fase da vida: é por continuarmos vivos! Pelo fato de sobrevivermos a violência urbana, também. Mas a trama desse filme traz essa longevidade como pano de fundo, ora pela própria natureza, ora pelos avanços da ciência. Como também esse filme não nos mostra isso de forma didática. Muito embora seria até válido. É que como temos um casal de protagonistas, de uma união já na casa dos trinta, o plano central foca o que vem com essa fase. A vida sexual também mudará, e em que?

É nisso que o título internacional sugere: um florescer para esse novo tempo. Uma descoberta, mesmo que tardia, de que ainda tem muita coisa para se fazer, viver… É o sentido da vida: seguir em frente. Agregando novos valores, abdicando de outros. Olhando-se no espelho: dizendo um “Olá!” para essa pessoa a princípio estranha, mas que até por conta disso, está ciente de que ainda é capaz de surpreender também a si mesmo. Que ainda tem muita tesão pela vida. Ou, como no subtítulo dado no Brasil: que se tem amor, não terá um fim. Será um recomeço. Já o título no original em francês pontua que esses 60 anos teve 3 fases de 20. Para esse casal a dos 40 aos 60 ficara curta demais. Ou, nem fizeram planos para esses 20 que teriam à frente. Com o susto, tiveram que passar a limpo esses quase 60 anos. Com isso, teriam que fazer individualmente também.

Porque eu me imaginava mais forte. Porque fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente” (Clarice Lispector)

Mary (Isabella Rossellini) foi quem primeiro se deu conta da nova fase que chegara. Por conta de um lapso de memória: esquecera em como foi parar num quarto de motel com o marido. Ele, Adam (William Hurt), leva na esportiva a preocupação dela. Na verdade, ele nem se tocou. Mas fatos no transcorrer daquele dia, no seu trabalho, o fará repensar. Não em sua vida particular. Pois isso, na cabeça dele estava tudo indo bem. A questão era o impasse que a sua vida profissional se apresentava. Estava diante de uma encruzilhada. De um lado: aceitar um projeto que o sócio com dinheiro, Richard (Simon Callow, de “Quatro Casamentos E Um Funeral”, 1994.) queria muito que a Firma deles fizessem. Só que Adam, não apenas não queria aceitar, como tal projeto o faria pensar na velhice 24 horas por dia. Ele odiou até as novas mudanças que Mary fez na casa. Como as barras na banheira do quarto do casal. Só que sem perceber se apoiou numa para entrar na banheira. Não se trata de um spoiler porque a cena foi escolhida como cartaz do filme. O outro lado a escolher. Fora uma descoberta por acaso: ouviu sem querer a conversa de um grupo da Firma. E se o destino colocou na sua frente, não resistiria muito aquela tentação.

O projeto proposto por Richard, seria uma nova Flórida. Um Balneário para a turma da terceira idade, e rica, viverem, mas que atraísse também o desejo dos mais jovens. Com isso, ele teria que visitar asilos, conversar com muitos idosos… Mary até facilita um encontro desses. Leva um grupo do qual sua grande amiga Charlotte (Joanna Lumley) pertencia: Panteras Grises (Gris = de cabelos grisalhos. Uma entidade em defesa dos Direitos dos da Terceira Idade). Bem, o tiro saiu pela culatra. Por algo que uma delas falou sobre um Projeto do Adam. Fora um trabalho que lhe rendeu fama internacionalmente. Mas fez Adam perceber que ficou deitado nessa fama por muito tempo.

Já o outro projeto seria além de trabalhar com um grupo de arquitetos bem jovens, em dar uma cara nova a algo velho: uma arquitetura nova para um grande Museu. Algo que chamasse mais a atenção do que a Pirâmide do Louvre. Pois é, mesmo que, a grosso modo, um museu seja lembrado por guardar coisas velhas, essa arquitetura futurista teria encabeçando o nome dele. E isso era tentador também. Como também por quem estava à frente do grupo: uma jovem e cheia de gás Maya (Arta Dobroshi).

Acontece que para esse projeto Adam teria que captar patrocínio e isso ele nunca soube fazer. Como também ficou ciente que só o seu nome não valia mais para os jovens à frente de outras empresas. Ficara mal acostumado até com os cuidados da esposa durante a vida de casados.

Então, acabei falando mais dele em primeiro lugar do que dos conflitos existenciais da Mary. Mas viram o porque: o acorda dele veio pelo o que ele conquistara até então. Com a Mary não. Ela que vivera até então pela e para a Família, se vê perdida. Se sente invísivel, ou sentia-se antes de conhecer Peter (Hugo Speer), o dono da academia onde fora nadar. Pois procurando por um médico, ele receitara ginástica e também fazer um trabalho voluntariado. Além, pasmem! De que um dos remédios que receitara anteriormente, trazia esse efeito colateral: lapso de memória.

Se de um lado a ciência ajuda na longevidade de muitos, por outro também pode causar, ou acelerar novos danos. É como um aviso a uma medicação em excesso. Mas o filme também nos mostra, o quanto ela, a ciência, pode ser uma boa companheira. Tanto para Richard. Como para a mãe de Mary, Nora (Doreen Mantle). Nora me fez lembrar de Elsa, do filme “Elsa e Fred – Um Amor de Paixão“, também pelo jeito de aproveitar a vida. Meio clichê, mas quando se chega numa fase da vida, pode ser vista como: o primeiro dia do resto da nossa vida. Então, o melhor é vivenciá-lo como sendo o primeiro, sempre.

O primeiro “Acorda!” que Nora dá, é em específico para Mary. Depois, subjetivamente, traz dois, mas ao casal. Numa sociedade atual, tão mais afeita com o status, com aquilo que se tem, essas cenas nos mostra os reais valores. Charlotte também, ao seu jeito, tentou mostrar um deles a Mary. Até Richard, de um jeito torto, levou Adam também descobrir um deles. Os três filhos do casal – Giulia (Kate Ashfield), James (Aidan McArdle) e Benjamin (Luke Treadaway) -, bem que teram ajudar nessa. Mas talvez por deixarem certos ressentimentos aflorarem, tal ajuda veio como coadjuvante da de Nora, a avó deles.

Entre coisas do passado e do presente… o filme traz um merchan daqueles que se diz: “Que Excelente Sacada!” O Red Bull aqui ficará memorável!

É um filme que se vê com brilhos nos olhos. Uma história, e com atores mostrando todas as marcas do tempo numa cara sem maquiagem, seria algo que não interessaria Hollywood. Nem muito menos ao público bem jovem. O que é uma pena! Já que as reflexões os levariam a não carregarem bagagens inúteis em suas vidas futuras. O filme é um aprendizado sim, mas como já citei o faz sem didatismo. Mostra um envelhecer com respeito, elegância, e cheio de charme. Isabella Rossellini continua belíssima em vésperas de também completar 60 anos na vida real, e William Hurt adquiriu uma beleza ímpar com o sabor do tempo. A Trilha sonora também veio a somar a esse excelente filme. A música tema do filme é contagiante! Dá vontade de sair dançando. Lembra uma Banda da Lousianna, Mississipi. Não achei um vídeo com ela, então deixo o trailer. Não deixem de ver também esse filme.

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Late Bloomers – O Amor não tem Fim (2011). França, Bélgica, Inglaterra. Direção e Roteiro: Julie Gravas. Gênero: Drama, Romance. Duração: 95 minutos.