Habemus Papam (2011). Esse Papa não usa Prada, mas é Pop!

Nanni Moretti + um Papa em crise de identidade + Comédia = Pronto! Estava carimbado meu passaporte para assistir “Habemus Papam“. Há, sim! Faltou dizer que eu adoro a sonoridade da língua italiana. Conferido! E…

Poder é para quem pode!

Mais do que querer, tem que estar preparado para ele. Às vezes é algo inato, o que complica abdicar. Noutras, vem por alguma hierarquia. No filme “A Rainha” tivemos um exemplo de como estar num poder muda, ou melhor, molda uma pessoa. Em “Habemus Papam” temos com a morte de um, a escolha de um novo Papa. Alguém que irá ocupar o trono. O poder mais alto da Igreja Católica. Tudo dentro dos ditames da Igreja.

No filme teremos também um raio-X desse rito. Outros filmes já mostraram isso, mas Nanni Moretti suavizou todo o ritual. Indo da comicidade que se pode tirar de um cerimonial como esse, a até ironizar todo o luxo que há dentro do Vaticano. O que já levou a algumas pessoas um afastamento da Igreja Católica após visitarem o Vaticano. Até porque não sentiram nenhuma espiritualidade ali dentro, mas sim um puro comércio. De minha parte não precisei atravessar um oceano, daqui mesmo do Brasil, eu constatei isso. Primeiro em criança, depois quando adolescente me dando outra chance, mas fora em vão. Com o tempo me desliguei de toda e qualquer Religião. Já o Diretor Nanni Moretti foi além: é um ateu convicto. O que por si só já o deixa livre para voar nessa história. Ele também assina o Roteiro.

Moretti primeiro dar o ar da graça já na ida dos Cardeais para a sala de votação. Onde eles caminham pedindo pelas graças de todos os Santos. Depois, já na sala secreta, dando asas aos pensamentos do colegiado, e outras coisitas mais. O que ficou hilário! Fora dessa cúpula do Vaticano, um repórter (Enrico Iannello) faz o contraponto com o povão que, na Praça São Pedro, aguarda primeiro pela “fumaça branca” (Que indica que um Papa foi eleito e que aceitou.), depois pela oficialização na varanda central da Basílica. Onde então um Cardeal anuncia o “Habemus Papam” (= Temos Papa). Então o novo Papa chega ao balcão, se apresenta (Com o nome que escolheu.) e dá sua primeira bênção Urbi et Orbi (À cidade, no caso Roma, e ao mundo.).

Bem, até o Habemus Papam do tal Cardeal tudo seguia nos conformes. Depois é que começou a confusão geral, e com o grito de desespero do novo Papa. Como não chegou a escolher um novo nome, ainda com seu nome próprio: Melville (Michel Piccoli). Abrindo um parêntese para falar que a escolha desse ator fora mais-que-perfeita! Michel Piccoli está brilhante! Nos levando a acompanhá-lo nesse seu calvário com brilhos nos olhos. Ora sorrindo, ora a torcer pelo seu personagem.

Com algo tão inusitado – esse ataque de pânico no Papa eleito -, decidem chamar o melhor Psicanalista de Roma: Professor Brezzi. Personagem de Nanni Moretti. Que só terá a dimensão do novo caso, já lá dentro. Ele até tenta clinicar Melville, mas fica completamente cerceado não apenas pela presença de todos os Cardeais, como também por ter que pedir autorização para o que pode ou não perguntar ao paciente: sexo, mãe, infância, sonhos… Quando Brezzi comenta sobre um tal de – déficit de dedicação -, ele acaba dando asas aos pensamentos de Melville.

E o Papa foge! Pois consegue dar volta no cerimonialista (Jerzy Stuhr) do evento, como também aos policiais. O personagem de Jerzy Stuhr (Ótima atuação!) corta um dobrado em não deixar vazar a notícia da fuga, inclusive para o colegiado, enquanto aguarda que achem o Papa. Já que tem que encenar que o Papa se recolheu aos seus aposentos. Brezzi, sem poder sair dali, tenta novos caminhos em trazer o Papa à razão, achando que o Papa está recluso, e o faz com as dezenas de Cardeais que também não podem sair daquela ala do Vaticano. Se tem Itália, tem esporte. Mas com mais de “onze”, Brezzi improvisa um campeonato de vôlei entre continentes. É hilário até a comemoração de um único pontinho de um dos times quando já perdia de 15. Merece também os créditos o da Guarda Suiça que se passou pelo Papa, o ator Gianluca Gobbi. Foi ótimo!

Paralelo a isso, o Papa perambula por Roma como um anônimo qualquer. E enquanto é alguém do povo faz um balanço da sua vida. Até chegar a hora de dizer ao Público sua decisão na varanda da Basílica. Dando um fim ao Cerimonial. Ou não!?

E assim como tudo muda, Que eu mude não seja estranho.” (Todo Cambia)

O Papa de Nanni Moretti não usa Prada, mas ele é pop. Gosta do Teatro de Tchekhov e da Música de Mercedes Sosa. Ele vivencia um breve dilema: ao mesmo tempo que aceita ser Papa, se vê impotente para tal missão. Simpático e carismático. Não nos deixa indiferente, ficando numa torcida por ele. Alguns, para que ele siga o seu coração. Outros, que ouça a voz da razão. Assistam a “Habemus Papam” e escolham a sua opção.

O filme é excelente! De querer rever. E eu diria até que é desaconselhável para católicos para lá de beatos.
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Habemus Papam (2011). Itália. Direção e Roteiro: Nanni Moretti. Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Margherita Buy, Franco Graziosi, Leonardo Della Bianca. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 102 minutos.

CURIOSIDADES:
- Do mesmo diretor de “O Quarto do Filho“.

- A canção”Todo cambia” é de 1982. Cantada por Mercedes Sosa. E de autoria de um dos músicos mais significativos do movimento da Nova Canção Chilena: Julio Numhauser. Fala do amor à Pátria e é considerado um hino de libertação e de cidadania.

A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes. 2011)

Fui ver “A Fonte das Mulheres” embalada pela expectativa de assistir a uma comédia, no entanto,  é  um filme com momentos de humor e que bom, a abordagem no estilo de fábula agregado ao humor permite que se apreenda a história da comodidade e do machismo humano sem revolta, liberando  nossa capacidade de observação.

 SOCIEDADE                                                                                                                                             A verdade de que a injustiça só é realmente injusta quando nos atinge. O tabu da obrigatoriedade da mulher satisfazer o homem, ainda que ela não tenha orgasmo. A mudança nos papéis sociais que chegam  em caráter de emergência e tornam-se tradições com o respaldo daqueles que passam a se beneficiar. A história leva o nosso olhar para a importância da educação num contexto onde a manutenção da ignorância  de uma parte do povo passa a ser o interesse pela parte dominante, sem que necessariamente  os dominadores deixem de ser ignorantes criando um sistema de  exploração institucionalizada do ser humano, um ciclo que somente a coragem aliada ao preparo,  ao estudo é capaz de romper.

HISTÓRIA

Então os homens iam às guerras para defender suas famílias, plantações e territórios e  as mulheres assumiram as funções das suas casas e aprenderam a viver sozinhas, executando trabalhos árduos.  Chega o dia em que não há mais inimigos para se combater e os homens cuidam das suas plantações e comércio, até que chega uma seca que se estende por anos, excluindo essas atividades masculinas da suas listas de tarefas, que são substituídas pelo ócio, fofoca, preguiça corrupção e suas necessidades de satisfação sexual.
Para se ter água na aldeia as mulheres sobem a uma distante fonte no alto de uma montanha, sob um sol de mata. Mesmo as grávidas são obrigadas a esta tarefa ainda que pesada, o que causa acidentes levando a ocorrência constante de abortos e claro, às mulheres que não conseguem ter seus filhos é atribuída a fama de incompetentes.  Por tantos afazeres importantes no grupo, é vedado às mulheres o direito de aprender a ler e escrever, elas nessa vida embrutecida com rotina dura, vão por acaso ter tempo de pensar nisso?
Além das atividades de rotina ainda compete a elas divertirem com seus cantos e danças os turistas que trazem divisas para sua cidade, divisas essas consumidas pela corrupção dos governantes que não cuidam da infra-estrutura das cidades para que o progresso não chegue, num raciocínio simples é explicado que tendo luz elétrica a mulher irá querer uma máquina de lavar, o que  acarretará uma conta alta par ao marido pagar e dará a ela tempo livre. Com o tempo livre, a mulher há de querer estudar se instruir e assim não será mais dócil e obediente. Simples assim. Algo de outro mundo? Não. 
FÁBULA:
Leila é estrangeira casada por amor com um professor e tem uma sogra digna das bruxas dos contos de fadas, perde um bebê por causa de um tombo a caminho da fonte e precisa conviver com a felicidade de outra mulher que acaba de dar à luz um filho homem. Diante de tanta opressão e trabalheira, restam a essas mulheres o único poder que lhes resta, o sexo e partem para uma greve de amor. E é de amor que nos fala esse filme, o amor, único instrumento capaz de mudar tradições  impostas justamente por  falta dele. Também fala do quanto mulheres podem ser insensíveis às parceiras de infortúnio, do tabu da virgindade, dos casamentos tratados pelas famílias, das interpretações convenientes dos dogmas religiosos, da influência das autoridades religiosas nas vidas das pessoas e na administração do Estado. Da ausência do poder de decisão das mulheres nas questões intrinsicamente femininas.
O FILME Rodado no Marrocos, representando uma aldeia  num ponto remoto do  Oriente Médio, é inspirado numa história real acontecida na Turquia em 2001 e faz alusão à peça “Lisístrata”, de Aristófanes  que por sua vez inspirou Chico Buarque e Augusto Boal a compor a canção  ”Mulheres de Atenas”.
Tem um elenco que mistura rostos de atores conhecidos com atores que não conhecemos,  falado em árabe fortalece a carga de drama e empresta textura às piadas nos Sá a sensação de que tudo isso foi há muito tempo, muito tempo num lugar muito distante de nós…
A Fonte das Mulheres vendeu meio milhão de ingressos na França em apenas um mês e foi indicado à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, tudo dentro  da trajetória  de sucessos  do diretor, judeu romeno Radu Mihaileanu: “O concerto” (2009) e  ”Trem da vida” (1998). É um filme com uma fotografia linda, belezas exóticas, uma trilha sonora usada como recurso a se admirar uma cultura da qual nos mostra aspectos críticos e performances excelentes. Ficha técnica:
A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes) – 135 min
Bélgica, Itália, França – 2011
Direção: Radu Mihaileanu
Roteiro: Alain-Michel Blanc 
Elenco: Leila Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Saleh Bakri, Sabrina Ouazani, Hiam Abbass, Mohamed Majd
Estreia: 20 de janeiro 

Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010)

“Nada se cria, tudo se copia.” Chacrinha

“Cópia Fiel” é um filme com roteiro instigante, do iraniano Abbas Kiarostami, diretor do ótimo e premiadíssimo Gosto de Cereja e de  “Dez”. Cópia Fiel é o seu primeiro longa rodado fora de seu país, sendo atores e ambientes de múltiplas nacionalidades, inclusive o tema abordado no qual não há fronteiras entre origens e línguas, sem dúvida, todos os povos se reconhecerão.

É a história do escritor inglês James Miller (William Shimell) que vai para uma cidade italiana lançar o seu livro sob o título de Cópia Fiel. Entre os convidados no momento do lançamento está Elle (Juliette Binoche) dona de uma galeria de arte que se senta na primeira fila ao lado do tradutor do livro e ambos mantêm um diálogo íntimo, ao pé do ouvido, transformando o célebre momento em conversas paralelas, ora mostrando o casal, ora o escritor em sua explanação e logo a seguir a entrada de um garoto (Adrian Moore) que a cumprimenta e depois vai se encostar em um dos cantos do salão e de lá começa um diálogo não-verbal com a sua mãe.

Elle deixa um cartão com o tradutor para que ele entregue ao escritor e se retira com seu filho bem antes do término desse evento.

Na verdade, o assunto instigante do filme é a própria idéia contida no livro recém-lançado, que vai tratar do valor da cópia em relação a um original. A partir daí tudo é uma viagem entre a obra cinematográfica e o expectador. O próprio Kiarostami deixa isso claro, justificando que a interpretação é livre. E o filme  transforma-se em um passeio entre o casal que na realidade parece se tratar de dois estranhos, e que podem ou não querer se conhecer.

Esse filme me conduziu a algumas viagens: lembrei-me do filme de Eduardo Coutinho o “Jogo de Cena” que já falei aqui em outra ocasião, quando o momento é mera encenação ou é fato, atores e anônimos transitando neste filme brasileiro declamando o mesmo texto, e ficamos sem saber quando é real e quando é apenas interpretação, como diz o próprio título ‘jogo de cena’. Lembrei-me também do polêmico diretor Orson Welles no maravilhoso filme “F for Fake” (aqui traduzido por Verdades e Mentiras). Cópia Fiel de Kiarostami e Verdades e Mentiras de Welles, são cópias fieis da ilusão, e ótima invenção. Na verdade o próprio cinema é pura invenção, o filme é imaginação onde nosso cérebro faz com que imagens paradas aparentem estar em movimento. O expectador faz parte desse jogo de cena que dura menos de duas horas.

O escritor diz que tudo é cópia da cópia e mesmo assim tem seu valor como o original. O homem é cópia da cópia do DNA dos pais dos pais de alguém. Andy Warhol deu nova roupagem ao produto Coca-Cola; repetimos frases e discursos que acreditamos ser nossos originais e que alguém já deve ter dito há milhares de anos antes.

O próprio filme que assistimos ou no cinema ou em casa é cópia fiel de um original. Orson Weles ficou famoso aos 23 anos de idade quando em 1938, transmitiu em cadeia de rádio nos EUA sua versão de Guerra dos Mundos e provocou pânico na população que achava se tratar de invasão alienígenas. Muitas obras de arte nos museus são cópias bem feitas de seus respectivos originais; muitos textos literários de autores anônimos passam tranquilamente dados como de grandes autores, Luiz Fernando Veríssimo que o diga; Elmir de Hory, famoso falsificador de quadros pintou telas que juramos ser da autoria de Van Gogh, Picasso, Matisse e muitos outros.

Já no desfecho deste filme Cópia Fiel, o escritor e Elle, passam tranquilamente a idéia de um casal que após 15 anos de casamento resolvem fazer uma segunda lua de mel. Quem não acreditaria nisso? Eu fiquei na dúvida. A obra de arte da sua essência à criação sempre foi reproduzível. Tudo o que fazemos pode ser imitado e copiado.

Mas de fato, existe Cópia Fiel? Uma foto é reprodução de outra foto, assim como irmãos gêmeos: olhe atentamente e diga se essas meras reproduções são cópias autênticas. Na segunda metade do filme o casal que parecia ser dois estranhos ganha intimidade, assumindo papel de marido e mulher, trazendo à tona muitas lembranças mútuas de sentimentos e emoções desgastados pelo tempo, por anos de matrimônio e vida em comum. Verdadeiro ou falso? Cópia ou original?

O essencial na arte e na vida é como fazer para incorporar aos anseios aquilo que será fiel ao nosso modo de sentir pensar e gostar, ao nosso relacionamento amoroso, a fidelidade no amor. Cópia Fiel toca em vários temas relevantes, principalmente sobre o que realmente é autêntico, relativo ou absoluto; real ou cópia.

E sempre o que se quer e se procura é ser fiel no amor, na vida, no sonho, no jeito de ser. Uma obra de arte única, original e exclusiva.

Vale a pena conferir este novo original de Kiarostami. Esse meu texto nada tem de original; é cópia da minha interpretação desse delicioso filme.

Recomendo. Veja cópia deste original de preferência num telão.
Karenina Rostov

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Copie Conforme

França / Itália , 2010 – 106 minutos

Drama

Direção: Abbas Kiarostami

Roteiro: Abbas Kiarostami

Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Adrian Moore

O Primeiro Que Disse (Mine Vaganti. 2010)

Mine Vaganti” de Ferzan Ozpetek conta o dilema de Tommaso (Ricardo Scamarcio), herdeiro de uma rica família italiana produtora de massas, que volta de Roma empenhado em contar aos pais sobre sua condição homossexual para se livrar dos encargos burocráticos da empresa e se dedicar a sua arte de escrever. Se depara com um inesperado acontecimento, uma “bala perdida” que muda o curso de seus planos na forma de outra revelação imprevista.

O filme é acusado de caricatura embalada em moralismo dissimulado. De fato, o filme lembra antigas comédias recheadas de clichês sobre gays. E o que há de errado nisso se a obra é realizada de forma impecável, com bons atores, música primorosa e momentos divertidíssimos? O lugar-comum de um grupo de rapazes que precisa disfarçar para convencer o severo chefe de família rende cenas hilariantes bem como o já batido recurso de desenvolver uma trama paralela à estória principal para convergirem num clímax comum conduz a um desfecho bacana e bem solucionado.

Apesar da falta de originalidade, O despretensioso “Mine Vaganti” é um filme digno que cumpre o básico propósito fundamental do cinema: Entreter sem maiores pretensões.

Carlos Henry

O Primeiro Que Disse (Mine Vaganti). 2010. Itália. Direção e Roteiro: Ferzan Ozpetek. +Elenco. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 110 minutos.

PS: A peça “Shirley Valentine” com Betty Faria e direção de Guilherme Leme é uma grata surpresa. Vale a pena conferir o momento de uma mulher que decide mudar o seu cotidiano a partir de uma viagem para Grécia. Humor, beleza e emoção no palco por apenas 10 reais no CCBB.

O Monstro (Il Mostro, 1994)

“Um serial killer está à solta e o paisagista e pintor de letreiros Loris, um caloteiro de primeira e artista de segunda que vive fugindo do proprietário de seu apartamento para não pagar o aluguel, é o principal suspeito. Isso graças a seu péssimo hábito de ser surpreendido em situações comprometedoras.

Jessica, uma policial à paisana, é incumbida pelo excêntrico psicanalista policial, Taccone, de seguir Loris e adquirir provas para efetuar sua prisão. Mas as coisas não saem como planejado… Você vai morrer de tanto rir.”

Esta é a sinopse de O Monstro, filme escrito, dirigido e protagonizado pelo cineasta italiano Roberto Benigni, que em 1997 ficaria internacionalmente conhecido pelo brilhante A Vida é Bela – vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Acompanhado de sua inseparável musa (a esposa Nicoletta Braschi) Benigni desenha, em minha opinião, um dos melhores filmes de comédias desde Charles Chaplin. Poucos filmes do gênero fazem parte de minha estante, e este é um deles.

Sua interpretação é impecável, marcante e inigualável. Benigni é uma espécie de Mr. Bean agregado com aquele exagero característico que é peculiar dos cidadãos italianos: articulados, sotaque cantarolado e descontraídos. De fato, os filmes de Benigni sempre ascendem a estes atributos, amplificando em níveis estratosféricos de modo que o humor seja imbatível.

Esta comédia não é aquela pastelona, nem se trata de besteirol, mas sim de um humor sútil e inteligente dado ao roteiro suave idealizado por Benigni, que cria situações cômicas no cotidiano comum de um malandro nato – que é personificado por Lori, nosso anti-herói que se envolve em tantas confusões que acaba se tornando o principal suspeito referente a um assassino em série que estava fazendo vítimas na redondeza.

Desde o princípio já sabemos que Lori não tem nada a ver com isto – simplesmente está sempre no local e na hora errada. Entretanto é esta fórmula que faz desta uma das grandes comédias: no ponto de vista das outras personagens, é quase impossível pensar que Lori não seja de fato o criminoso, afinal todas as situações levam os a esta conclusão. As cenas são hilárias, com diálogos excelentes, visto que as personagens são quase todas excêntricas e carismáticas.

Do ponto de vista de interpretação, este filme é uma aula de atuação. Para quem está iniciando sua carreira como ator, seja no teatro, seja no cinema, não deveria deixar de ver este filme por nada. De fato, ele é quase um laboratório para aquilo que veríamos três anos depois em A Vida é Bela. Os outros atores do filme também estão à altura do filme – não vou falar de Nicoletta Braschi, que interpreta a policial disfarçada que se aproxima de Lori para servir de isca numa operação, afinal seu papel propositalmente é não ofuscar o cintilante mestre.

Temos aí um filme completo, com começo, meio e fim, entretenimento de alto nível que, assim como certas séries, não cansamos de ver: uma, duas, três, quatro, cinco vezes, enfim, independente da quantidade de vezes que assistirmos, não tiramos a expressão de riso do rosto. Filme que eu recomendo para todos que eu conheço, logo não poderia deixar de recomendar neste blog.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

Io Sono L’amore (I Am Love. 2009)

Se leva um bom tempo para se entender o que vai “rolar” em “Io Sono L’amore” (2009). Tudo começa num jantar de aniversário para o patriarca da família Recchi, Edoardo (Gabriele Ferzetti). Todos os convidados estão formalmente e lindamente vestidos. O diretor de fotografia Yorick Le Saux solta a câmera para todos os cantos, registrando quase etnograficamente todos os convidados, corroborando para o que Bordwell diz que a câmera “nos diz a verdade contra a qual podemos medir os discursos“(18).

Edoardo está chegando ao fim de sua vida e decide passar adiante a empresa têxtil da família para seu filho, Tancredi (Pippo Delbono). O filho mais velho de Tancredi, Edoardo Jr. (Flavio Parenti), é atribuído o controle igual, mas seu irmão mais novo, Gianluca (Mattia Zaccaro), é deixado de fora do negócio. Depois, ficamos a saber que Tancredi planeja vender o negócio, o que perturba Edo Jr. que valoriza a tradição da família.

Durante a festa, Emma (Tilda Swinton)  é apresentada ao amigo de Edo, Antonio (Edoardo Gabbriellini). O jovem é um brilhante cozinheiro, e planeja com Edo abrir um restaurante. Antonio e Emma vão ter um caso. Emma é uma mulher frustrada e um tanto quanto deslocada. Russa de nascimento-, ela diz ( em voiceover) : “quando eu me mudei para Milão, deixei de ser Russa…e aprendi ser Italiana.” Ela tenta buscar algo significativo na vida, assim como a sua filha Elisabetta (Alba Rohrwacher, bem parecida com a Tilda ), que tem um namorado, mas descobre que é lesbica.

Visualmente, “Io Sono L’amore” é tão suntuoso, que nem me importei com os clichês da estória, e nem com a superficialidade existente nos diálogos. O diretor Luca Guadagnino  brinca com ângulos e colocar a câmara em posições incomuns. Com poucas cenas estáticas – a câmera de Yorick Le Saux, está quase sempre em movimento. A seqüência dos créditos de abertura, que mostra Milão coberto de neve, apresenta um contraste entre a neve e os objetos mais escuros, deixando tudo quase em preto-e-branco. Ah, a iluminação da cena da mesa de jantar e os ângulos escolhidos para focar esse jantar, é nada menos do que espetacular.

Numa outra cena, quando Emma vai a Sanremo visitar a filha, avista Antonio, e segue o rapaz secretamente. A cena é um requinte de detalhes que que vão do cabelo, ao vestido de Tilda, ao cenário, até o acompanhamento da música de John Adams, que nos leva para um clima de filme de espionagem.

Guadagnino traça o romance ilícito entre Emma e Antonio através dos alimentos, e não recorre ao clichê visto em filmes como Chocolate (2000). Numa cena, Antonio faz um prato de camarão, especialmente para Emma, e praticamente ela faz sexo oral com os crustáceos. Wow!. E, a cena de sexo entre eles, me deixou de olhos arregalados,- o casal está no mato, em meio a uma cacofonia de vozes de aves e incetos, e Guadagnino, nos presenta uma enxurrada de “close-ups”.

Swinton está maravilhosa, especialmente na segunda parte do filme. Ela é uma camaleoa, vai de sua aparência andrógina, até parecer sexy e sexualmente feroz. Sim, Swinton fala Italiano ( no início, ela pouco se expressa, mas depois, se mostra mais natural, principalmente com o uso de “voiceovera”)

Na verdade, queria muito ver o filme, porque sou um grande admirador da Marisa Berenson desde quando a vi em filmes como “Morte em Veneza” (1971), e “Barry Lyndon” (1975- esse é o meu filme preferido ao lado de “…E o Vento Levou” (1939), mas em “Io Sono L’amore”, ela não faz  nada mais do que a típica perua rica.

“Io Sono L’amore” é uma festa cinematográfica para quem gosta de um estilo visual diversificado e não se importa em acompanhar um filme de ritmo lento- e, com enredo clichê, também!. Minha admiração sobre esse filme é tão grande que me deixou com um gostinho de rever-lo.

Sem data de lançamento no Brasil.

“Io Sono L’amore”( 2009). Itália Dirigido e Escrito por Luca Guadagnino. 114 m. Drama, Romance. Elenco: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini, Marisa Berenson, Pippo Delbono, Flavio Parenti, Gabriele Ferzetti, Alba Rohrwacher.

Cartas do Deserto (Letters From the Desert / Eulogy to Slowness. 2010)

Cartas do Deserto é um dos filmes que ‘garimpei’ no Festival do Rio 2010. Achei o roteiro original e é essa particularidade que sempre me chama a atenção. Os protagonistas dessa charmosa história são as cartas. Os espaços geográficos são o deserto Thar, no norte da Índia, alguns vilarejos e um casebre usado como ponto dos correios; o tempo cronológico marcado pelo relógio quebrou-se; o título original é Elogio à Lentidão, e neste caso, procede.

Cartas do Deserto conta a história de um agente dos correios que recebe e separa toda a correspondência da cidade, e o seu único amigo e colega de trabalho, é o carteiro Hari que faz a distribuição diária, atravessando dia após dia o deserto para essa missão que cumpre com paciência, amor e eficácia, batendo de porta em porta, conversando com os moradores, alguns já aguardando a correspondência cativa que tem data e hora para receber o aviso de pagamento, por exemplo, enfim, caminha longas distâncias, com seus sapatos rotos, o calor miserável batendo em suas costas, às vezes em sua bicicleta naquele canto do mundo, que a terra esqueceu.

Foram 20 longos anos nessa tarefa árdua e incansável que ele sempre tirou de letra, até que um belo dia, um grupo de trabalhadores ergue no meio do deserto a primeira torre de telefonia móvel, e Hari começa a perceber que o mundo ao seu redor começa a mudar. As correspondências começam a escassear, as encomendas diminuem e muita gente adquire novos hábitos, andando de um lado para o outro com um pequeno aparelho grudado ao ouvido falando/ ouvindo constantemente como se o objeto fosse uma extensão do seu corpo.

O primeiro sinal de modernidade chegou com um pouco de atraso na terra que o mundo esqueceu… mas chegou… Até que um dia Hari recebe pelos correios onde ele próprio trabalha um aparelho celular, presente de seu filho mais velho que foi para uma cidade grande para trabalhar. Começa assim a mudança de seus hábitos, passando agora a se comunicar com mais freqüência e mais fácil e rapidamente com o seu  filho por esse meio de comunicação que para todos da aldeia é a novidade do momento.

O tempo não para. As cartas que falavam de amor, vinham perfumadas, o papel que se usou, o pensamento, a organização de idéias, o assunto para escrevê-la, as lembranças, a ida ao correio para postá-la, a caneta, o papel, o selo, o carimbo, o atendente que te recebeu e pegou essa sua correspondência, o dinheiro e o tempo gasto para todo o trabalho que envolve esse meio de comunicação ficaram, assim, para trás, de repente…

Hari amava sua profissão. Às vezes lia pacientemente para o destinatário a carta do remetente. O carteiro comportava-se como um membro de cada família que visitava. E o tempo era o seu aliado, o seu melhor amigo. O tempo que aos poucos começa a cair no esquecimento para ser substituído pelo vento.

Tão importante quanto o ar que respiramos, o tempo não se deve desperdiçá-lo jamais: é pecado e a vida é muito breve para isso, valioso para se deixar esvair. Às vezes é bom se jogar conversa fora, contemplar a natureza, edificar a alma, fazendo o que se gosta sem se preocupar com o tempo. Sinto saudade desse tempo de romantismo das cartas via correios que não volta mais…

Um filme obrigatório para todo cinéfilo que se preze!

E por falar em cartas, correios, tempo etc, aqui no Brasil temos o dia do carteiro que se comemora no dia 25 /01 …
K.R.

Sinopse

Hari passou os últimos 20 anos de sua vida cruzando o deserto Thar, no norte da Índia, para entregar cartas em vilarejos distantes. Certo dia, seu filho mais velho, que vive na cidade grande, lhe envia um estranho presente: um aparelho celular. Incapaz de compreender a utilidade daquele apetrecho, ou o porquê de se estarem construindo tantas torres nas redondezas, Hari aos poucos começa a perceber o mundo mudar à sua volta. As encomendas diminuem e todos começam a telefonar uns aos outros. Ele decide então tentar usar seu aparelho pela primeira vez, para ouvir a voz de seu filho.

Ficha técnica

Título inglês: Letters from the Desert (eulogy to slowness)
Diretor: Michela Occhipinti
Elenco: Hari Ram Sharma, Chatur Singh
Ano de Produção: 2010
País: Itália / Índia
Duração: 88

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Baarìa – A Porta do Vento (2009)

Por: Isa, do Blog Temperos e Destemperos.
Assisti ontem (06/10/2010) este filme de Giuseppe Tornatore, muito criticado na Itália porque produzido pela Medusa, empresa de Berlusconi,  e também criticado no Brasil por pessoas superficiais, no meu entender, mas principalmente porque mal intencionadas. Leia aqui uma matéria que vale a pena, porque tem também a resposta de Tornatore às críticas.

Lamentável que éramos somente 10 pessoas na sala de exibição, mas convenhamos, o ingresso é muito caro! O filme é para quem lê, para quem conhece a história italiana, porque em pouco mais de duas horas e meia passam na tela 40 anos da história italiana versada no Sul e especialmente em uma pequena cidade, período de muitos eventos e experiências diversas. Tem muita informação neste drama classificado como comédia e assistirei novamente, com certeza.

Se não gosta de história, de política, de gente simples do interior e de italianos, não perca seu tempo.

O filme retrata quatro décadas de história na pequena cidade siciliana que se chama Bagheria, mas em dialeto siciliano é chamada de Baarìa, e foi nesta cidade que nasceu Giuseppe Tornatore!

O filme é claro, retrata um contexto histórico, que não é exemplo para ninguém, ao contrário, é uma aula sobre  o drama das escolhas de cada um e o fracasso de ideais. E para bom entendedor, meia palavra basta. Ali, na história da Itália, se entende o porquê do comunismo, e é possível enxergar como funciona/funcionou.

Por não conhecermos a história européia, muito menos a do Brasil, é que aqui as criaturas votam em massa nos comunistas brasileiros, que hoje estão abraçados na máfia brasileira.

Na Itália o comunismo era uma reação contra a máfia, aqui o comunismo está de braços dados com a máfia política e predatória, e todos fingem que ela não existe, que não está comprando votos, pagando jornalistas, magistrados e convencendo a opinião pública que aqui é o paraíso na terra.

Por: Isa, do Blog Temperos e Destemperos.

Baarìa – A Porta do Vento (Baarìa. 2009). Itália / França. Direção e Roteiro: Giuseppe Tornatore. Elenco. Gênero: Comédia, Drama, História. Guerra. Duração: 150 minutos.

Parente… É Serpente (Parenti Serpenti. 1992)

Então… é Natal! Época de reuniões de família, trocas de presentes e… E esse filme mostra o que pode também acontecer nesse singelo encontro. É, mais de um jeito que mete o dedo na ferida. É o Cinema Italiano com o seu jeito peculiar de nos colocar dentro de um Lar. Desvendando tudo sem o menor pudor.

E o que temos de tempero especial nessa Ceia de Natal?

A Nonna comunica que ela e o marido irão morar com um dos filhos. Cabendo a eles, filhos, decidirem quem os receberá para sempre. Cansados pela idade, e também pela saúde do Nonno, não querem mais ficar sozinhos. Já que atualmente só se reúnem em datas bem sociais, como as Festas de Final de Ano. E o filho que resolver ficar com os pais será o único a herdar o apartamento e tudo mais que eles possuem.

Assim, o que antes do comunicado corria como uma divertida confraternização em família, já que cada um dos irmãos morava em locais distantes, mal se viam por meses, com a notícia, é deflagrada não apenas um jogo de empurra-empurra, mas passando por disputas pelo mobiliário, pontuando em trocas de farpas e altas revelações. É, o molho dessa ceia desanda feio.

Bem, se há um problema, há de se haver uma solução. Eles encontram. Agora, só não contavam com o fato que criança sabe somar que 2+2=4, o que elas podem não saber é a aplicação disso. Ah! A doce e santa ingenuidade da infância!

Em resumo: uma divertidíssima e tenebrosa comédia para se ver e rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Parente… É Serpente (Parenti Serpenti. 1992). Itália. Direção: Mario Monicelli. Com: Tommaso Bianco, Monica Scattini, Renato Cecchetto, Marina Confalone, Roberto Corbiletto, Paolo Panelli, Alessandro Haber. Gênero: Comédia. Duração: 105 minutos.

Beleza Roubada

beleza

Por acaso você se lembra do primeiro beijo? Você lembra-se da sua primeira vez? De quantas vezes suspirou por alguém? Lembra-se de ter se apaixonado, mas se apaixonado como nunca antes? Seria o amor um sentimento ou algo que atiça as mais loucas vontades? O que é amor?

Acho que tudo pode ser respondido em cenas desse filme. Um resumo bem grande desse sentimento louco que nos confunde e às vezes engana. Há o amor entre família, entre casais, entre amigos, entre a arte, amor à vida. As personagens dissertando sobre sexo esquecendo-se do amor só mostram quão ocas as pessoas são em relação a esse tema. E o mais irônico é que o dono da casa esculpe em madeira pessoas. Sua arte é bem mais recheada de sentimento e vida que muita gente.

Um sentimento forte é sentido pelas belas imagens feitas da Itália. E que Itália linda o diretor conseguiu captar. A bela fotografia faz a luz tornar-se intensa, e esse brilho a mais desperta em quem assiste o clima perfeito para acompanhar a história de Lucy (Liv Tyler). Ela com seus 19 anos parte para a Itália com a aparente vontade de reencontrar uns amigos. Mas lá chegando, percebemos que na verdade procura por duas coisas: seu pai e um sentido na vida, já que perdera a mãe, que se suicidou.

E revendo a todos que não via há 4 anos, começa a perceber naquelas pessoas que demonstram uma falta de pudor e exalam sensualidade, aproveitando o que de melhor há na vida, que o que ela procura realmente está ali: seu pai e um sentido na vida. E começa a procura por ambos.

E entre desilusões amorosas, encontros e desencontros, vai mostrar a todos que amor é mais que uma palavra ou um incentivo para incendeio de paixões, amor é sentimento.

Filmado pelas lentes de Bernardo Bertolucci, mestre na arte de falar sobre esse tema sem ser apelativo ou gratuito. O que se vê é a composição perfeita do que é se apaixonar, do que é se conhecer, do que é encontrar seu motivo para continuar. E com precisão e firmeza, sente-se vendo o filme o que é realmente o que ele quer falar. E isso flui de forma tão fantástica, que é impossível não se envolver com o filme.

O passos de Lucy filmados com delicadeza e sentimento. Ela, interpretada pela linda Liv Tyler, que mesmo herdando a bocarra do pai, se mostra perfeita para a personagem. E ela atua direitinho, mandou bem realmente. Sabe transmitir suas inquietações, insegurança, medo. Mas no fundo disso tudo, há coragem, já verdade, há virtudes. Mas claro, isso é inibido, uma vez que, ela, no auge de sua timidez e jeito de menina, está na casa de pessoas tão desinibidas, sem pudor, mas que entendem porque sentem o sentimento. Ou acham que sentem.

E Lucy está nesse lugar para justamente mostrar o que ainda não viram com relação a isso. O casal de meia idade passando pela crise sexual, o casal fogueira que na verdade se mostra de amantes, o velho poeta sem inspiração, o antigo paquera que se mostra um belo mulherengo e seu irmão que a ama, a mulher vivida e um jovem que se interessa por ela, e todos envolvidos pelo que Lucy trás.

E no momento mais memorável do filme, ela os faz ver isso. A cena é linda. É sexy. É amor exalado em frames. Isso é sentido. Mas o sentimento quando sentido, pode produzir outros.

roubada

Seja ele de bem estar, como o casal de meia idade, seja ele de ódio, mas regado à saudade , o que também gera o amor, como o casal fogueira, ou a nostalgia do poeta perto de morrer.

E as descobertas que ela vai fazendo ao longo do caminho, moldam o seu perfil. E quando ela mesmo descobre seu amor, o amor por si ao se entregar finalmente e descobrir aquilo que estava procurando, o filme chega ao seu ápice. Ela encontrando seu pai e sua primeira vez são sublimes. Filmados com uma sensibilidade maravilhosa. E em cada uma, podemos entender sobre as facetas desse louco sentimento que é o amor, e que o diretor está trabalhando ao longo do filme.

Acho que o único defeito está no fato de pouco explorar seus personagens e às vezes inserir outros que de quase nada ajudam no desenvolvimento da trama. Mas isso é perdoável, uma vez que nos brinda com cenas maravilhosas de Lucy escrevendo belas e poéticas palavras que a definam, e logo depois se desfazendo do que escreveu. Tem coisa mais humana? Se desfazer do que ainda não conhece e desacredita. E tenho certeza que ela não mais fará isso, uma vez que descobre aquilo que vinha procurando, e aquilo que vinha apagando.

E o desenrolar da história, misturando a sensualidade e o frescor da Itália com as atitudes e anseios humanos é belo. E essa, creio eu, é a assinatura do diretor. Bem como fez com o eterno O Último Tango em paris ou Os Sonhadores, aqui ele dissertou de forma séria e sem ser repetitivo ou piegas, o que torna seu cinema diferente dos que tentam fazer romance hoje em dia. Sem implorar ao espectador que se envolva ou debulhe em lágrimas, como o lamentável Um Amor Pra Recordar.

E Bertolucci faz do romance um estudo quase patológico de como o corpo e a mente reagem a esse sentimento.
Sem moralismos, sem ser didático, as vezes alfinetando (como numa cena em que uma mulher seduz um homem e logo mostra uma dança onde um está preso aos pés do outro, meio que grudado e inseparável) e sempre eficiente na proposta de falar sobre o amor, suas implicações nos relacionamentos das pessoas e como age. E claro, sempre atinge.

Beleza Roubada é considerado por muitos como uma obra menor do diretor. Mas vejo aqui quase todas as qualidades que fizeram o nome Bertolucci ser tão forte no cinema. É um filme sensível e que fala sobre um tema tão complicado utilizando todos os artifícios ao seu favor. Uma narrativa envolvente, trilha sonora bem encaixada, atuações fortes e marcantes (adorei as cenas de Liv Tyler e Jeremy Irons e todas as aparições de Rachel Weiz), fotografia maravilhosa do iraniano Darius Khondji (que consegue um efeito maravilhoso nos planos abertos e usa a luz de forma linda e sensual) e uma montagem ousada de Pietro Scalia. Tudo funciona. E isso é bem sentido no filme.

Uma bela declaração de amor ao amor.

Nota: 9,5
Cotação: *****.

Stealing Beauty, EUA (1996)

Direção: Bernardo Bertolucci.
Atores: Liv Tyler , Carlo Cecchi , Sinéad Cusack , Joseph Fiennes , Jason Flemyng.
Duração: 114 minutos.