Postado por Karenina Rostov.
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Decálogo IV, de Kieslowski
Os Dez Mandamentos – Versão resumida – Velho Testamento – Êxodo 20.
1. Não terás outros deuses diante de mim.
2. Não farás para ti imagem de escultura, não te curvarás a elas, nem as servirás.
3. Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão.
4. Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás, mas o sétimo dia é o sábado do seu Senhor teu Deus, não farás nenhuma obra.
5. Honra o teu pai e tua mãe.
6. Não matarás.
7. Não adulterarás.
8. Não furtarás.
9. Não dirás falso testemunho, não mentirás.
10. Não cobiçarás a mulher do próximo, nem a sua casa e seus bens.
DEUS
“Ninguém pode viver nossa vida por nós.
Se há algo que eu quero é paz.”
Kieslowski
Decálogo IV - Kieslowski
Quem já não viu um filme que envolva carta? São tantos, não? De amor, de escárnio, de conteúdos diversos… é o fetiche máximo do melodrama. Em Lolita de Stanley Kubrick, carta de Charlotte endereçada ao amado; Ligações Perigosas de Stephen Frears a carta ocupa lugar privilegiado, como também em Nunca te vi… Sempre te Amei de David Hugh Jones; Disque M para Matar de Alfred Hitchcock; Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood; Rastros de Ódio de John Ford; em Casablanca é uma quase carta; na verdade trata-se de um bilhete de conteúdo significativo e como este último tornou-se um cult, achei interessante destacar o de Isa para Rick. E a finalidade quase sempre é a mesma: é usada como pretexto para o desenrolar das ações e dos diálogos.
“Richard, não posso te acompanhar ou te ver outra vez. Não pergunte o porquê. Apenas acredite que eu te amo. Vá, meu querido, e Deus te abençoe. Isa”.
Umas das histórias mais tocantes da telona que eu me lembro e que a protagonista é uma Carta é exatamente aquela que não vi. Como é possível? Parece loucura, mas é isso mesmo. Trata-se de um dos filmes do DECÁLOGO de Kieslowski que eu batizei de A CARTA. Vira e mexe, me lembro desse filme. A minha irmã foi que me contou, e sempre tive a sensação de tê-lo assistido, lembranças de algumas cenas de certos detalhes, as sutilezas nos gestos, olhares, e não sei por que, na época, ao ouvir tive uma sensação desagradável, que me deixou agoniada e triste.
Anos depois é que assisti ao belo filme, (em janeiro de 2010, no CCBB- Rio) e para minha surpresa, é como se estivesse revendo.
O Decálogo é uma adaptação livre de Os Dez Mandamentos do Antigo Testamento da Bíblia. Kieslowski realizou na década de oitenta para a televisão Polonesa e cada um deles com o tempo de 55 minutos, transformando, pouco depois os dois primeiros em longametragens: o Não Amarás e o Não Matarás.
São histórias dos tempos modernos, mostrando que desde que o mundo é mundo quase nada mudou, que o homem continua o mesmo: invejoso, ambicioso, mentiroso, egoísta e toda espécie de fragilidade no que tange “a moral e bons costumes’.
Os episódios são independentes, e foram realizados em Varsóvia, num conjunto habitacional – lugar-comum para todos eles. Há um personagem misterioso que entra mudo e sai calado, que aparece transitando em cada história apresentada. Se você ainda não assistiu, preste atenção para saber quem é ele. Se já assistiu é forçar a memória. Neste 4 episódio é o homem que carrega uma canoa nas costas e ao passar por Anka a encara quando ela tenta em uma das vezes abrir a carta, o que a faz desistir. Isso daria margem a um novo roteiro. Às vezes de uma frase se cria um conto, uma poesia, uma novela. Veio-me essa ideia… viajo… Kieslowski explica: Seria uma espécie de anjo. Parece querer dizer “Faça a coisa certa.”
A Carta como eu a denominei trata-se do DECÁLOGO 4 – HONRAR O NOME DO TEU PAI E DE TUA MÃE. Kieslowski é bem didático, deixando claro a intenção da mensagem que se quer passar, daquilo que a pessoa faz, independente de certo ou errado, sofrerá a devida consequência; é metódico, tratando cuidadosamente questões éticas, morais e religiosas a cada respectivo mandamento, à maneira dele de interpretar e de fazer a leitura do mundo.
Honrar o Nome do Teu Pai e de Tua mãe – É a história de Anka, uma jovem de vinte anos. A mãe morreu quando ela apenas tinha alguns dias de vida e passou a viver com o pai, Michel que a criou sozinho. Um dia ele viaja, e enquanto está fora a filha encontra em seu quarto um envelope escrito com a letra do pai: “Não abrir antes da minha morte”. Dentro, um outro envelope endereçado, com a letra de sua mãe, para ela. Anka é uma estudante de teatro, com um professor que marca em cima, só podia mesmo levar jeito para a coisa e ter talento de sobra para dar e vender. Como toda garota de sua idade, tem namorado, e confessa que já fizera um aborto (isso para justificar ao pai que toda mulher sabe que é mãe e quem é o pai; enquanto que e o homem nunca tem essa certeza).
Excelente atriz. Revela ao pai que encontrou a tal carta enquanto ele estava viajando e mentiu-lhe que leu. Imaginou o conteúdo, decorou e contou a ele que acreditou. Na verdade ela escreveu uma outra com tudo o que imaginara. Um devaneio. Vinte anos se passaram e nenhum dos dois leu a bendita Carta.
Envolve outros mistérios e segredos da alma. Amor velado e não revelado; sentimentos não vividos por medo. O que me deixou agoniada, na verdade foi não saber o conteúdo da mesma. Curiosidade mórbida essa do expectador, mas claro, fiquei intrigada. Não se tem acesso como os outros exemplos que citados no início. Lembra o filme russo O RETORNO – uma caixinha e o segredo de seu conteúdo revelado apenas ao fundo do mar.
A intenção era não revelar o mistério. Havia uma desconfiança de adultério no ar. E desde então a incerteza povoa a mente do viúvo: “É a minha filha ou não?” E de Anka que amava aquele homem não como pai: “É ou não meu pai?” Sem resposta, sem certeza, gostavam-se através de gestos e insinuações. Um pedaço de papel pode fazer um estrago enorme na vida das pessoas. Resolveram queimar. Um mistério que virou cinza.
Tudo poderia ser diferente se eles a tivessem lido. Mas aí não haveria roteiro, não teria filme, esta história não existiria…
São tantas coisas que se deixa para trás…cartas que não são lidas ou que não se escreve, palavras que não são ditas, sentimentos que não se vive, desculpas que não pedimos…Tem coisa que é melhor mesmo não se saber. Nunca.
Karenina Rostov
Igualdade é Branca

A Igualdade é Branca
Direção: Kieslowski
Gênero: Drama
Polônia – França – 1994
Observação MUITO importante: aqui toda a interpretação é minha (Suzana Fehu). Ou seja, podem ter várias interpretações coerentes a mais. A relação que faço com o Branco pode não se confirmar. A arte serve pra isso.
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“A Igualdade é Branca” rendeu para Kieslowski o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim, merecidamente tanto pela estória quanto pela arte.
A fotografia é de Edward Klosinski que em A Liberdade é Azul se preocupou em dar um tom azulado no filme, focando objetos e locais azuis sem overdose. Em A Igualdade é Branca, ele utilizou a neve da Polônia pra transmitir os sentidos do Branco do filme: frieza (sem cor), etnia (racial) e paz.
É brilhante a forma que Kieslowski junto com Klosinski brinca com esse branco que é tão valioso. Bem mais do que um detalhe, precisa ser notado em conjunto com a estória que amarra todo o contexto.
Ainda sobre a arte, perceba que Kieslowski valoriza muito a arte em si. Em Liberdade é Azul ele valoriza a música e composição (responsável pela trilha sonora é o mesmo que em Igualdade é Branca – Zbigniew Preisner). Preisner cria mais vida musical em Liberdade é Azul, pois em Igualdade é Branca ele foi mais discreto nesse aspecto, até porque a arte de Igualdade é a escultura. Em Fraternidade é Vermelha, Kieslowski deu atenção à fotografia, a arte das imagens.
A genialidade de Kieslowski, por vezes mal falado no mundo do cinema, é o de unir todos os significantes, nada sobra. A escultura em Igualdade, por exemplo, faz sombra à vida em construção de Karol.
A esposa de Karol (Karol na Polônia é homem rs) decide romper o casamento, pedir divórcio, e deixá-lo com o néctar pouco doce da rejeição. Moravam na França e o seu passaporte foi confiscado -aqui o aspecto do branco da cor, raça, diferença de países é posto como pano de fundo mesmo que França e Polônia “tenham” a mesma cor racial. Note a cena em que ele conversa com o Juiz no momento do divórcio. Ele questiona a língua francesa x polonesa.
Vale lembrar que Kieslowski é polonês que decide trabalhar na França. Não sei se é especulação de minha parte, mas fico tentada a pensar que Karol representou um pouco do que o Diretor deve ter passado em sua vida real, os franceses não são fáceis. Acho que esse “furo” não é à toa.
Ainda com relação ao Branco da raça, Karol voltou pra Polônia com apenas 2 francos no bolso, com a ajuda de seu amigo que o transportou na mala. Situação tacanha que nem preciso me estender nesse ponto, basta ver.
Continuando, a esposa de Karol, Dominique, além de deixá-lo ainda sacaneia com ele. É muito frio a maneira como ela o pune. Branco que significa sem cor. É notório o desejo dela por ele, e mais ainda a raiva que ela tem dele por ele não conseguir trepar com ela.
Esse ponto merece muito carinho por parte de quem vê o filme, pois é muito sutil esse elo entre cor e relação.
Karol, já na Polônia, remonta sua vida, reconstrói seus bens e a escultura branca do que ele passou. Isso para se vingar da ex esposa -> IGUALDADE. Não entrarei na estória para não perder a graça da trama (pra quem ainda não viu).
Aí vem o terceiro sentido do Branco: a paz. A paz interior finalmente chegou? Os pesadelos acabaram?
Onde fica a culpa desse fogo cruzado? Aqui eu ressalto pra ser mais do que notado a última cena, a dele de binóculo. Com perdão da expressão: puta que pariu. Lindo! O branco cai e continua lá, mas agora ele dá espaço pra outras cores.
Por: Suzana Fehu.
Trilogia das Cores: Liberdade é Azul

Trilogia das Cores:
Liberdade é Azul – Trois Couleurs – Bleu
Direção: Krzysztof Kieslowski
Gênero: Drama
França – 1993
Quando me deparei com os três filmes intitulados como parte da Trilogia das Cores, onde Liberdade é Azul, Fraternidade é Vermelha, Igualdade é Branca, percebi se tratar das cores da bandeira da França e do lema tão querido por todos nós pós-Revolução Francesa: Igualdade, Fraternidade, Liberdade.
Quis saber um pouco mais sobre esse diretor que ainda não tinha entrado em contato. Trata-se de um polonês que fez filme polonês e francês. Esses três fazem parte de um segundo momento de sua obra, totalmente produzida na França.
Pretendo falar sobre esses três filmes aqui no nosso Cinema, hoje arrisco umas linhas sobre Liberdade é Azul.
Eu fiquei muito contente em saber que cor ela tem, pois na verdade tenho pra mim que uma das impossibilidades humanas é ser livre. Entendo como ser livre não aquele que goza do direito de ir e vir, apenas; mas, aquele que de tão livre as palavras faltam por não conseguir apreender a totalidade do conceito.
Julie (Juliette Binoche) sofreu um acidente com sua família e foi a única sobrevivente. Tenta se matar mas não consegue. Viver, parece, é maior do que essa perda e dor. A dor dela é visível, é notória, mas sufocada. Completamente sufocada. Cada um com sua maneira de lidar com seus sentimentos.
Achei belíssimo a cena em que ela encontra sua empregada chorando e então lhe diz:
- Marie, por que você chora?
E Marie, experiente de cabelos brancos, responde:
- Choro porque a Senhora não chora.
Aquilo ali foi lindo… sem palavras! Elas se abraçam e Julie consola Marie não sei se como quem diz: “Passa” ou como quem diz: “É… não consigo chorar…”

Por mim, contemplaria esse diálogo por longas horas na companhia de um bom vinho, mas de tão bom que é o filme, sou convidada por mim mesma a continuar a escrever.
Julie, riquíssima, esposa de um excepcional compositor que toca as músicas que ela faz rsrsrs, abandona toda sua riqueza, toda a matéria que a cerca, para gozar de um anonimato e de uma liberdade que se pretende azul. Como ela diz, essas coisas todas são armadilhas…
Será?
Faz amizade, por acaso, com uma prostituta. Achei significativo o diretor colocar isso em cena e em pauta… Admira um flautista e se assume humana…
Será possível ser livre com o abandono da matéria? Os Budistas acreditam que sim, ainda que numa perspectiva outra.
Eu já penso diferente, embora não tenha apegos materiais. Penso que o que nos prende, além de um corpo limitado e limitante que todos nós temos (não sabemos voar), são os conceitos que formamos das coisas, as idéias. Isso não está na matéria, está em nós mesmos e tudo depende da forma como lidamos com a vida…
Indico, recomendo, esse filme pra ontem!
Por: Deusa Circe.
A Fraternidade É Vermelha (Trois couleurs: Rouge)
A Fraternidade é Vermelha. Uma singela homenagem à França que Kieslowski tanto amava…
A fraternidade é um conceito filosófico profundamente ligado às idéias de Liberdade e Igualdade e com os quais forma o tripé que caracterizou grande parte do pensamento revolucionário francês. Vale lembrar que dos três, foi o único que não esteve no lema Iluminista, que era “Liberdade, Igualdade, Progresso”.
A idéia de fraternidade estabelece que o homem, enquanto animal político, fez uma escolha consciente pela vida em sociedade e para tal estabelece com seus semelhantes uma relação de igualdade, visto que em essência não há nada que hierarquicamente os diferencie: são como irmãos (fraternos). Este conceito é a peça-chave para a plena configuração da cidadania entre os homens, pois, por princípio, todos os homens são iguais. De uma certa forma, a fraternidade não é independente da liberdade e da igualdade, pois para que cada uma efetivamente se manifeste é preciso que as demais sejam válidas.
A fraternidade é expressa no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem quando ela afirma que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
A palavra é eventualmente confundida com a expressão caridade e solidariedade, embora elas tenham significados radicalmente diferentes. Enquanto a fraternidade expressa a dignidade de todos os homens, considerados iguais e assegura-lhes plenos direitos (sociais, políticos e individuais), a idéia de caridade cria a desigualdade entre os homens, na medida em que faz crer que alguns deles possuem mais direitos e são superiores e portanto são generosos quando os compartilham com os demais.
A simbologia das cores da bandeira francesa representadas nos filmes por um lado simples de se entender, sob outra ótica, não. Muito além da retórica. A igualdade é branca. Realmente, já que o branco é a soma de todas as cores. A liberdade é azul. Gagarin, já dizia: a Terra é azul; contemplando daqui debaixo, dizemos: céu, o infinito é azul. A fraternidade é vermelha. Os laços sangüineos… a amizade fraternal que surge entre uma modelo e um juiz aposentado. Para Kieslowski este último seria uma premonição, os últimos acontecimentos da sua vida, ou simplesmente ROUGE.
Bem, brincadeira à parte. E até hoje costumo conversar com um amigo sobre um da trilogia. Quanto ao filme “A Fraternidade é Vermelha”, penso que ele todo tem enes interpretações do início ao fim, não apenas o final na tragédia com o navio.
Já percebeu que o Kieslowski e suas personagens sempre têm voyeurs? (vide “Não Amarás”) A arte imitando a vida, como nos tempos atuais; vivemos “fuçando” o orkut alheio. E cada um faz como pode e do seu jeito. O velho juiz, através da linha telefônica ouvia a conversa dos seus vizinhos; a própria filha de um deles ouvia a conversa do pai na extensão; o jovem juiz que aparece na trama paralela seria ele mesmo? Na juventude ele foi traído pela amada; no presente, ela, a modelo foi traída pelo namorado; enfim, duas histórias ou que se repetem, ou poderia ser a mesma.
Em uma das conversas do juiz com a modelo Valentine (não me lembro agora o nome da personagem) ele diz ter sonhado com ela com aproximadamente uns 50 anos de idade. Isso nos faz interpretar também se tratar de um sonho (real) dele com a sua amada do passado.
Fiquei meio curiosa com uma das cenas de ROUGE, mas não consigo me lembrar da cena tão citada “garrafa se quebrando”. Lembro-me do local onde Valentine um dia foi jogar boliche e sobre uma mesa estava um copo quebrado. E essa imagem durou um tempo considerável. Qual é o significado? Esse filme é cheio de linguagem metafórica não? Será que a personagem de Irene Jacob não teria saído direto de A Dupla Vida de Veronique para esse outro filme?
Por último, para não me alongar muito, o acidente que ela sofre, se não me engano, sobraram sete sobreviventes (o mesmo número de filhotes da cadela do juiz, também um número cabalístico); os sobreviventes são apresentados, um a um, e por último surge ela, a modelo, e essa aparição lembra uma das fotos que ela fez na qual deveria mostrar uma expressão de tristeza. Parecia tratar-se da mesma foto. Daí as interpretações realmente são inúmeras: ela poderia ter morrido, como também poderia ter sobrevivido, já que, ele dá um sorriso de felicidade; mas o filme acaba nessa foto, o da expressão triste. Uma premonição? Talvez ele tivesse tido mais sorte desta vez e ela não ter morrido, já que ele se apaixonou… Talvez tudo não tivesse passado de um sonho… a esperança nunca morre.
Por: Karenina Rostov. Blog: Letras Revisitadas.
A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge). 1994. Polônia. Direção e Roteiro: Krzysztof Kieslowski. Elenco: Irène Jacob (Valentine), Jean-Louis Trintignant (Juiz), Frédérique Feder (Karin), Jean-Pierre Lorit (Auguste), Samuel Le Bihen (Fotógrafo), Marion Stalens (Veterinário), Teco Celio (Barman), Jean Schlegel (Vizinho), Juliette Binoche (Julie), Julie Delpy (Dominique). Gênero: Drama. Duração: 100 minutos.










