Antecipando o meu comentário sobre este filme: Eu me diverti muito assistindo!
Bem realizado, ágil, tomadas ótimas, o filme Vip’s tem uma série de pontos positivos que de longe superam os aspectos negativos. Wagner Moura sobra nesta personagem emprestando-lhe, energia, carisma, carência, uma tremenda coerência na sua total incoerência.
É bem verdade que nos sentimos um pouco perdidos em algumas situações, como por exemplo nas aparições do pai de Marcelo quando não sabemos se ele é real ou um delírio, fato que só descobrimos ao longo do filme, mas devo confessar que na minha opinião como “público” de cinema e não “cinéfila”, quando assisto um filme quero justamente isso: surpreender-me, sentir-me envolvida à medida em que o filme se mostra e se desvenda. E foi isso que Wagner Moura me proporcionou ao me envolver absurdamente com o seu absurdo Marcelo! Com aquele rostinho que conversa com a câmera e voz gostosa de ouvir.
Marcelo a princípio apelidado de Bizarro, aquele colega adolescente que todos tivemos oportunidade de ter na nossa sala de aula, o esquisito, imitador que tumultua as aulas. Atenção! É a partir daí que vai se desdobrando a personalidade desequilibrada do rapaz, que tem um sonho e não opta pela maneira correta de realizá-lo.
Talvez a condução do filme, o tratamento do roteiro decepcione críticos e pessoas que o assistirem buscando as semelhanças com a personagem e os fatos da vida real, mas sinceramente um conselho para quem quiser: Vá para ver um filme, participar de uma história e sairá do cinema feliz ou muito satisfeito. Com cenas aéreas bem feitas, momentos ligeiros de suspense, o roteiro prioriza a aventura em detrimento do drama. Wagner e seu Marcelo que também é Carrera, que também é Dênis, que também é Henrique Constantino vai envolvendo e ficamos numa situação um pouco parecida com a da sua mãe: torcendo para que em algum momento ele “dê certo”, que deixe de ser “um ninguém”.
Gisele Fróes faz aquela mãe digna da composição de Chico Buarque, “o Meu Guri”, encarna com perfeição a cabeleireira de um salão de fundo de quintal, mãe de um filho doce e monstro sobre o qual ela não tem nenhum controle e para isso não se esforça, limitando-se a ser o seu porto-seguro, sua cidade, seu cais, o local para onde ele volta para se recuperar e entrar em gestação de nova personalidade. Embora essa personagem ou o tramento dado a ela possa ser fictício, não está longe da realidade de milhares de mulheres que investem na idéia de que “ser mãe é padecer no paraíso”, ainda que sem nenhum juízo.
Por assistir o filme no seu lançamento e por estar à sua espera desde o dia em que vi o cartaz, simplesmente não li nada a respeito antes, indo depois, em busca de informações e descobrindo que Marcelo Nascimento da Rocha é real, existe e é portador de uma extensa ficha criminal. Descobri que algumas passagens do filme são reais outras não. O roteiro de Bráulio Mantovani, e Thiago Dottori, é baseado no livro de Mariana Caltabiano, “VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso”. A antológica entrevista exibida por Amaury Jr (que participa do filme) com Marcelo fazendo-se passar por Henrique Constantino, filho do proprietário da Gol, aconteceu e dá um molho especial a esta obra que corre o risco de receber a culpa de mais fantasiosa que a realidade.
Os comentários que a personalidade real é criminosa e a personagem ficcional é louca, psicótica etc me parecem apenas uma questão de escolha da produção e direção, que se inspira num drama real para criar propostas de segmentos para as visões de cada espectador. Particularmente chei um mérito mostrar dessa forma evitando apologia à mente criminosa do inspirador da história que Wagner Moura não quis conhecer . Fico cada vez mais fã deste ator e muito feliz com essa personalidade que criada por ele.
Vi o Marcelo criado por Wagner como alguém verdadeiramente solitário e
desprovido de referências, incapaz de encarnar a si mesmo que por si, possui apenas cúmplices arregimentados pelo seu carisma, fascínio e enorme poder de persuasão. Imagino que deva ser complicado para alguém ser apenas filho sem pai, de mãe pobre e cabeleireira, depois de experimentar as deferências da alta sociedade e celebridades para com um VIP, uma vez que não se trata no filme de alguém mau, mas um caráter distorcido numa personalidade fragmentada numa pessoa sem paciência para se preparar para as oportunidades, alguém que precisa, que tem que se dar bem, carregando seus princípios duvidosos e valores contraditórios como: transportar drogas pode, transportar armas não pode.
Os apreciadores e adeptos da psicanálise certamente verão esse filme mais de uma vez. E confesso que, mais uma vez assistindo me divertirei como na primeira vez!
Fico por aqui na tentativa de evitar os “spoilers”. Largue esse blog, vá ver o filme e volte pra conversarmos!!! Continue lendo









