Os Gigolôs (2006). Um Filme Moderno e Descartável.

Modernos E Descartáveis

Quem nunca viu um filme que certamente tenha se decepcionado, ou que se pudesse não teria assistido? Filmes que, com perdão da palavra, consideramos um lixo pelas péssimas atuações, direção, roteiro, edição de som ou imagem e outras coisas mais. Considere aqui ‘Moderno’ aquele que é atual, recém-lançado.

Os Gigolôs” é um filme do Reino Unido de 2006, dirigido por Richard Bracewell; um exemplo de péssimo! Ah, dizer que ‘ruim’ é  um elogio. O roteiro engana direitinho. Dinheiro mal investido. A sinopse até que chama a atenção: Em Londres, pessoas solitárias buscam encontros furtivos e, muitas vezes, profissionais, e marcam encontros em ambientes elegantes; Sacha (Sacha Tarter), é o gigolô preferido de senhoras ricas.

Mesmo não gostando de um filme faço questão de ver até o fim, pois sempre penso que pode melhorar ou, bem ou mal, trazer uma mensagem e se tirar proveito. O pior de tudo é que não nos desfazemos dele; é um contato para sempre, pessoal e intransferível com a memória.

Fica o registro.
Karenina Rostov.

A Guerra Está Declarada (La Guerre Est Déclarée. 2011)

Quando adolescente eu li o livro, mas numa edição condensada e gostei. Não sei se na época, lendo uma versão na íntegra, teria gostado tanto. Acho que só com mais idade iria saborear melhor a narração mais erudita. Ou mais elaborada de uma paixão com um destino trágico. Depois vi o filme de 1968 do Diretor Franco Zeffirelli com Olivia Hussey e Leonard Whiting, e amei. Mas não gostei muito da versão de 1996 com Leonardo DiCaprio e Claire Danes. Não sei se revendo agora, eu viria a gostar mais. Em entender a leitura do Diretor Baz Luhrmann trazendo para uma atualidade esse Clássico de William Shakespeare: Romeu e Julieta. Pois pensei nisso ao gostar da versão que a Diretora Valérie Donzelli deu para essa história.

Em “A Guerra Está Declarada” seria indo um pouco além na história do casal. Como se tivessem sido poupados pelos deuses. Ganhando mais um tempo na terra, quem sabe até longos anos, em viver esse amor. Mas tiveram um preço a ser pago. E que pagaram! Me adiantei. Voltando ao início do amor entre o Romeu e a Julieta dessa história.

Numa festa, o olhar de dois jovens se cruzam, e parecendo amor à primeira vista, eles se aproximam. O jovem então diz seu nome: Roméo (Jérémie Elkaïm). Ela se admira, e diz se chamar Juliette (Personagem da Diretora e Roteirista do Filme: Valérie Donzelli). Roméo brinca dizendo que há uma tragédia entre eles. Mas já era tarde demais: estavam apaixonados. E numa de “Que seja eterno enquanto dure!“, trocam o primeiro beijo selando aquele amor que se iniciava. Até aqui um doce início de romance, onde a saída dramática ficara mesmo com o namorado de Juliette.

Casaram-se! E com o nascimento do Adam veio a tragédia. Pulando de um médico para outro, vem o diagnóstico: Adam (Gabriel Elkaïm) tinha um tumor no cérebro. Então em vez de guerra entre famílias como na história de Shakespeare, eles declaram guerra contra o que o destino reservara ao pequeno Adam. Um bebê ainda. Mas que pelo início do filme, se vê que eles podem ter ganho essa batalha. Já que Adam aparece crescido. Ele está fazendo uma ressonância magnética, e enquanto aguarda, Juliette lembra de quando conheceu o pai dele. É por esses pensamentos que conhecemos toda essa história.

Preparem os lencinhos que há cenas onde ficou difícil segurar as lágrimas. Uma delas, é com Juliette dando a notícia a pequena família, e tendo como fundo musical “Inverno – de As Quatro Estações”, de Vivaldi.  É! O casal teria um longo inverno pela frente.

Aliás, a Trilha Sonora é um dos pontos fortes do filme. Escolha perfeita! Elevando as cenas de mais impacto. Tal como às vésperas da cirurgia, o casal levando o filho para conhecer o mar, e ao som de “Manhã de Carnaval”, de Luís Bonfá. Em outra cena, o casal canta e encanta o amor de um pelo outro. Também a cena onde o pequeno Adam é levado para a cirurgia emociona até pela performance dele. E outras mais onde a música se torna um grande coadjuvante.

Até aqui, tudo bem para esse filme: atores, trilha sonora, fotografia… Que eu até diria que a Valérie Donzelli está no caminho certo como Diretora. Mas algo se perdeu nessa história que deu tédio, como o casal perdeu o encanto. Se ainda fossem adolescentes, seria aceito tal comportamento. Explico, mas ai terá spoiler.

Como ela resolveu contar essa história colocando o casal como Romeu e Julieta, também se pode imaginar que haveria algum tipo de separação entre eles. Agora, como foi mostrado, não apenas entediou como levou a pensar que foram frívolos demais. E isso veio ao estender, e muito, a vida desse casal curtindo todas, sob as chancelas do governo, enquanto Adam estava internado passando por longos tratamentos. O desgaste veio pela vida sem compromisso que estavam levando, e com festas e mais festas. Onde o único termo assumido em conjunto fora estar com o filho ao anoitecer, mas até isso falharam por beberem demais.

Tal fato também acaba queimando-o-filme desse tipo de subsídio  – Casa de Apoio -, seja por parte do governo, seja por Ongs. Claro que é algo necessário para pais carentes de recursos ficarem próximos a filhos menores em tratamento hospitalar. Agora, eles poderiam ter feito algum tipo de trabalho. Até para ocuparem a mente. Com isso, o casal perdeu ponto para mim. Nem adiantou ajeitar esse período de “volta à época de solteiros” por uma das vozes em off que narravam a história. Por conta disso a comovente história desses dois quase foi toda para o ralo.

E falando desse recurso, em uma voz em off contar a história do filme deveria fazer parte do contexto. Nesse filme foram várias, mas sem uma identificação dela com os personagens. Então, elas soam como: “Vou explicar o que está subtendido.” O que é péssimo. Como a Julie Delpy fez em “2 Dias em Paris“, explicando tudo detalhadamente pela voz em off.

Então é isso! Mesmo com os pontos negativos, eu voltaria a rever. É um bom filme!
Nota 08.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Guerra Está Declarada (La Guerre Est Déclarée. 2011). França.

Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary. 2011)

Eles sabem o preço de tudo e o valor de nada.” (Oscar Wilde)

Primeiramente eu diria que se faz necessário buscar na memória as aulas de História sobre a década de 60 (Surgimento do Feminismo, dos Movimentos Civis em favor dos Negros e dos Homossexuais, a Contracultura, a Revolução Cubana com Fidel Castro, os Hippies, a Guerra Espacial, o assassinato de John F. Kennedy…), como também é válido lembrar das aulas de Geo-Política. Já que estamos falando de Porto Rico, que ainda se mantém ligado aos Estados Unidos como ‘Estado Livre Associado’, e cuja localização era um importante ponto econômico-militar no Caribe para o Tio Sam. Como também, pela beleza natural do Caribe, a especulação imobiliária é como achar uma arca de tesouros. Vimos essa parte, mas em outra “colônia” do Tio Sam em “Os Descendentes“. Digo isso que assim poderão absorver melhor o filme “Diário de um Jornalista Bêbado“.

Por se tratar de período e local dessa história. Onde entre uma golada e outra, o Roteiro do também Diretor do filme, Bruce Robinson, traz muita informação histórica. Claro que em pequenas doses. Mas que deixaram uma vontade de ler o livro, “The Rum Diary“, do jornalista Hunter S. Thompson, o qual o filme foi baseado. E que para entender um pouco mais do personagem principal, também se faz necessário algo da realidade de Thompson. É que ele foi um criador de um estilo denominado Jornalismo Gonzo: em seus artigos há uma total liberdade em narrar um fato, intercalando ficção e realidade, colocando seu parecer. Um jornalista cronista. Nada imparcial. No filme “O Solista” se tem uma ideia de que Thompson realmente fez escola!

Então, por conta disso a ida do personagem principal para Porto Rico caiu como uma luva para uns investidores do ramo hoteleiro. Ele é o jornalista Paul Kemp, vivido por Johnny Depp. Kemp abandonou a Big Apple. Queria Rum, Mulheres e liberdade para escrever do seu jeito as crônicas do dia a dia. Muito sagaz, em seus momentos sóbrios, por tudo aquilo que vê, quase prefere voltar a ficar ébrio por mais tempo. Ciente de que para levar a vida ao seu estilo, precisará de alguém que banque.

Kemp ao largar tudo em Nova Iorque, nem imagina o que vivenciará em Porto Rico. Na bagagem, levará o seu talento para escrever. Aceitando um emprego num jornal local, vai com a cara e a coragem, mas só toma ciência do cargo já estando na ilha, e na presença do Editor-Chefe Lotterman. Personagem do sempre ótimo Richard Jenkins! Coube a Kemp a Coluna de Horóscopo e a de Turistas. Sem outro jeito, ele aceita.

Na Redação ele conhece o Fotógrafo Sala. Papel muito bem interpretado por Michael Rispoli. Houve uma química ótima entre esses dois. Como também há uma cena que entra para a História do Cinema no quesito: dois no volante. É hilária! Como só ela já pagaria em assistir esse filme. Se Kemp realizou o sonho de morar em Porto Rico, Sala mantém o sonho de ir para o México. Mas sem a coragem de largar tudo, vai levando a vida como pode. Kemp e Sala tornam-se grandes amigos. Companheiros também na esbórnia. Mas que os deixa como ‘Dom Quixote e Sancho Pancha’ porque um consegue frear o outro quando se faz necessário.

Sala apresenta a sua Porto Rico para Kemp: lugares e habitantes. É quando Kemp conhece outro jornalista etílico: Moberg. Numa magistral interpretação do Giovanni Ribisi. Ele quase rouba todas as cenas, só não faz isso porque chama a todos para o pódio. Sem querer, Moberg fará com que Lotterman “promova” Kemp. E sem ter planejado, Kemp tem o seu talento também cobiçado por Sanderson. Personagem Aaron Eckhart, que não faz feio, mas pelo personagem poderia ter voado mais alto.

O Grupo de Sanderson quer construir um grande Hotel, aliás, dois. Um, para a Elite. E o outro para os Turistas de Classe Média. Esses, só ficam mesmo no perímetro do Hotel. Têm medo de saírem pelas ilhas, por acharem perigoso. Em parte é! Já que são vistos como os brancos colonizadores. Que lhes tomam o belíssimo litoral.

Kemp vai tentando levar os “dois patrões”, até porque ainda não conseguiu encontrar o tom certo em seu texto. Ele quer ouvir a sua voz interior. Mais uma vez, será Moberg que o levará a isso. Pelo jeito, naquela ilha encantada, entre vudus e muito rum, existe um anjo da guarda um tanto quanto torto. Mas com tanto imprevistos, Kemp não contava por um: o se apaixonar pela mulher de um dos seus patrões, o Sanderson. Ela é Chenault, personagem de Amber Heard. Loura e linda, será disputada por dois galos de brigas: Kemp versus Sanderson. E será uma briga feia! Por fim, a Voz é ouvida. Lhe dando munição para lutar contra os que fazem parte do Sistema, a quem Kemp chama de ‘Bastardos’.

O “Diário de um Jornalista Bêbado” está todo amarradinho. Conseguindo mostrar, e sem entediar, a passagem de Paul Kemp por Porto Rico. Para alguém que só trouxe como bagagem um talento ainda adormecido, ele cresce como pessoa e no campo profissional também. Johnny Depp está excelente! Seu Kemp é único. Muito bom quando um ator consegue diferenciar todos os personagens. Ainda mais que estando no Caribe poderia ter escorregado para o seu Jack Sparrow. Great!

Então é isso! Com um elenco afinado. Paisagem belíssimas. Trilha Sonora à altura da obra. O filme cumpre a sua missão, de entreter, e de querer rever!
Nota 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary. 2011). EUA. Direção e Roteiro: Bruce Robinson. Elenco: Johnny Depp, Richard Jenkins, Giovanni Ribisi, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Amber Heard, Amaury Nolasco, Karen Austin, Marshall Bell, Andy Umberger, Bill Smitrovich. Gênero: Aventura, Comédia, Drama, Romance. Duração: 110 minutos. Baseado no romance homônimo de Hunter S. Thompson.

Curiosidades:
» Bruce Robinson rodou o filme em 2009, em Porto Rico.

A Saga American Pie

Humor, sexo, juventude e curiosidades. Estes são os elementos que compõem a saga American Pie.

Amecian Pie é uma produção estadunidense que conta a história de adolescentes que de forma humorada buscam consumar a sua primeira vez. Começando, então, as investidas mais hilariantes em busca de sexo e principalmente, mulheres. Descrevendo com precisão os comportamentos e os problemas vividos pelos os adolescentes na fase de transição para a vida adulta.

A linguagem simples utilizada nos filmes American Pie fazem dos mesmos recordistas absolutos de bilheterias nos EUA, e é um sucesso indiscutível pelo mundo todo. Os diretores provaram que é possível trabalhar humor e sexualidade de forma clara e precisa.

Todos os filmes - American Pie: A Primeira Vez É Inesquecível (1999); American Pie 2: A Segunda Vez é Ainda Melhor (2001); American Pie 3: O Casamento (2003); American Pie 4: Tocando a Maior Zona (2005); American Pie 5: O Último Stifler Virgem (2006); American Pie 6: Caindo em Tentação (2007); American Pie 7: O Livro do Amor (2009); American Pie 8: O Reencontro (2012) -, nos apresentaram com humor os estágios de uma relação que parte do conhecimento do nosso próprio corpo, dos dilemas e curiosidades que vivenciamos na adolescência.

Em suma, American Pie é o resultado de uma “torta” picante que reúne de forma desastrada cenas hilárias, discursos eróticos e descrições que pauta na relação pornográfica entre um homem e uma mulher. Na minha opinião, o mesmo pode ser considerado a “pornô humorada” do século XXI.

A Franquia ‘American Pie’:
- American Pie: A Primeira Vez É Inesquecível (1999).
Sinopse: Às vésperas do baile de formatura, quatro amigos virgens – Jim (Jason Biggs), Kevin (Thomas Ian Nicholas), Oz (Chris Klein) e Finch (Eddie Kaye Thomas) – fazem um pacto para perder a virgindade, custe o que custar, nas 24 horas seguintes.

- American Pie 2: A Segunda Vez é Ainda Melhor (2001).
Sinopse: Ao término do primeiro ano da faculdade, Jim (Jason Biggs), Oz (Chris Klein), Kevin (Thomas Ian Nicholas), Stifler (Seann William Scott) e Finch (Eddie Kaye Thomas) mais uma vez se reencontram. Mas agora Nadia (Shannon Elizabeth) está prestes a vir visitar Jim, que ainda não se sente preparado sexualmente para encontrá-la e receberá a ajuda dos amigos.

- American Pie 3: O Casamento (American Wedding. 2003).
Sinopse: Após os eventos do colégio e da faculdade, os garotos estão enfim se tornando adultos. Jim (Jason Biggs) e Michelle (Alyson Hannigan) estão prestes a se casar, já que a avó de Jim adoece e diz que gostaria de vê-lo se casar antes de morrer. Os pais e amigos de Jim já planejam os preparativos para o grande casamento. Enquanto Stifler (Seann William Scott) organiza a despedida de solteiro de Jim, Finch (Eddie Kaye Thomas) prepara rituais hedonistas para o noivo. Porém a situação se complica de vez após Stifler se interessar Cadence (January Jones), a irmã caçula de Michelle que será dama de honra no casamento e não vê a hora de perder a virgindade, enquanto que Finch está decidido a protegê-la do amigo.

- American Pie 4: Tocando a Maior Zona (American Pie Presents Band Camp. 2005).
Sinopse: Matt Stifler (Tad Hilgenbrink), o irmão mais novo de Stifler, sonha em se igualar ao irmão quando envelhecer e também em produzir filmes de garotas nuas. Porém antes disto ele precisa se formar no colegial. Após se envolver em uma série de problemas, ele é enviado pelo conselheiro educacional de seu colégio para o Acampamento de Banda. É a chance que Matt esperava para iniciar a produção de seus vídeos.

- American Pie 5: O Último Stifler Virgem (American Pie Presents: The Naked Mile. 2006).
Sinopse: Erik Stifler (John White), primo de Matt e Steve, deseja perder a virgindade antes de concluir a faculdade. Desejando ajudá-lo, seus amigos decidem incentivá-lo a participar da “Milha Nua”, uma tradicional corrida em que as pessoas correm pelados pelo campus da faculdade.

- American Pie 6: Caindo em Tentação (American Pie Presents Beta House. 2007).
Sinopse: A fratenidade Beta é uma grande potência no que diz respeito a festas no campus, tudo graças ao árduo trabalho lendário de Dwight Stifler. A supremacia da irmandade é questionada por uma nova organização de nerds, que tenta de tudo para acabar com as festas. Assim, Dwight tem que traçar um plano para se manter no topo, contando com a ajuda de uma turma de calouros liderada por seu primo Erik.

- American Pie 7: O Livro do Amor (American Pie Presents: The Book of Love. 2009).
Sinopse: Rob, Nathan e Lube são três amigos que estão determinados a dar sequência à missão de conquistar as garotas dos seus sonhos. Depois de algumas tumultuadas tentativas, a maioria sem sucesso, eles acidentalmente descobrem uma verdadeira bíblia da sedução escondida na biblioteca da escola East Great Falls High. Só que o livro, além de estar em ruínas, possui informações incompletas, conduzindo os jovens a uma hilariante jornada rumo às descobertas sexuais.

- American Pie 8: O Reencontro (American Reunion. 2012).
Sinopse: Dez anos após os acontecimentos de American Pie – O Casamento, os protagonistas se reúnem para relembrar os velhos tempos. Michelle (Alyson Hannigan) e Jim (Jason Biggs) estão se habituando à vida de casados, enquanto cuidam de seu filho. Kevin (Thomas Ian Nicholas) e Vicky (Tara Reid) se separaram, Oz (Chris Klein) e Heather (Mena Suvari) estão se distanciando aos poucos, mas Finch (Eddie Kaye Thomas) continua louco pela mãe de Stifler (Sean William Scott).

Meu Primeiro Casamento (Mi Primera Boda. 2011)

O filme vem para mostrar que mentir é muito complicado. Que dá muito trabalho para manter essa mentira. Que terá que contar com ajuda de terceiros para mantê-la. E por ai vai. Mas pelo menos na ficção, se não fosse assim não haveria esse filme. Bem, esse filme em particular começou por omitir um fato. Depois que vieram uma chuva de mentiras. Agora, quando no filme é mostrado o motivo da mentira, de pronto me veio uma pergunta: se teria enredo bastante para sustentar uma Comédia em pouco mais de uma hora e meia. Eu digo que sim! A trama prende a atenção até o final.

Em “Meu Primeiro Casamento” temos o noivo contando o que aconteceu nesse dia. Em flashback vamos conhecendo o drama que viveu, que seria trágico se não fosse cômico. Ele é Adrian. Outra excelente atuação de Daniel Hendler; onde uma outra foi em “As Leis de Família“. Adrian é o típico cara com o dilema em querer fazer tudo certo. Porque normalmente, não consegue. A cobrança em si mesmo vem por querer mostrar que é o marido perfeito para principalmente a família da noiva. De tabela, para mostrar para os próprios pais que ele agora amadureceu. Mas também por achar que a noiva é “muita areia para o seu caminhão”.

Assim, no afã de fazer tudo certo, para um cara como Adrian é batata: algo vai dar muito errado. E deu! A poucas horas do início da cerimônia. Bem, o título do filme já entrega que houve o casamento. O que mostra que se a noiva o escolheu, no mínimo estaria querendo uma vida diferente. Sem cair no marasmo de uma rotina certinha demais. Mas após ter preparado por meses um cerimonial “dos sonhos” para esse dia tão importante, e ter passado o que passou, ela, Leonora (Natalia Oreiro), teria mesmo saúde para um dia-a-dia com Adrian? Bem, essa parte ela volta a pensar nela na cena entre os créditos finais. Porque até lá, ela também será tragada pelo turbilhão Adrian e seus amigos! Amigos esses, que também são um show à parte.

Com toda a extrapolação de Adrian, ganhamos nós o prazer em ver mais uma ótima comédia. É o Cinema Argentino ainda em alta. Great! Uma história simples, mas muito bem contada. Onde nas cenas com o Padre e o Rabino teria espaço para uma crítica mais apimentada. Mas enfim, preferiram algo mais light.

Então é isso! Um ótimo filme para casados e solteiros curtirem o dia do casamento sem sentirem o estresse próprio. Afinal, quem está se casando são outras pessoas.
Nota 8,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Meu Primeiro Casamento (Mi Primera Boda. 2011). Argentina.
Direção: Ariel Winograd.
IMDb: Mi Primera Boda .

Livro: O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, 1995.

Após o lançamento do Livro, “O Xangô de Baker Street“, o Jô passou, creio que por duas semanas, presenteando seus convidados em seu programa na tv. Até ai, nada demais. O programa sendo dele, seria um ótimo lugar para um merchan. Acontece ele que batia numa única tecla: “Livro bom é aquele que fica em pé!“. E fazia questão de colocar o livro sobre a mesa para que todos vissem que ele ficava em pé sozinho. Fez isso enquanto durou o seu presentear.

Bem, para mim livro bom depende da história. Fiquei imaginando que para ele seria ter muitas páginas. Algo assim. Para dar sustenção, literalmente falando, ao livro.

Quando peguei emprestado (Ainda bem que não comprei!) para ler, percebi que o papel usado era bem encorpado (Comparado a um livro comum, seria igual a três folhas.). Pensei: “Se fosse impresso como os outros – 2/3 somem fácil daqui! Mas calma! Em consideração, retire somente um 1/3!”. Mas ao notar o tamanho das letras, o outro 1/3 se foi embora. Logo, a tal propaganda do Jô era uma furada. Ficando então 1/3 do tamanho original para conferir a história do livro.

Comecei a ler para então voltar ao meu parecer – se a história teria conteúdo. Se era um bom livro ou não.

Que para mim ficaram essas impressões:
- lembrava aqueles livros, tanto dele como do Chico Anyzio, onde contavam piadas;
- nesse, pareceu-me que lhe deram um background completo daquela época: cenário, figurino, etc; com isso, as suas piadas “ganharam” (Presente das historiadoras???) um “fio-condutor”;
- a história seria mais para contar umas certas piadas (para ele: um ovo de colombo);
- mas quais seriam as piadas? como “surgiu” o nome caipirinha para a bebida, por ex?

O leitor gosta de também usar a imaginação. Mas o Jô não nos deixa fazer isso por detalhar tudo.

Quando eu fui ler o livro o filme já tinha sido lançado. Mas como não tinha visto o filme fiquei pensando se teria ficado melhor. É que também me ficou essa impressão do livro: de já ter sido pensando num Roteiro. E com tudo já detalhado demais para cada cena.

Vi o filme “O Xangô de Baker Street” depois. Passou na televisão. Confesso que tive de fazer força para não dormir de vez. Já que cochilei algumas vezes. Sendo assim, nem um bom roteiro o livro deu.

Sinopse do Livro:
Rio de Janeiro, 1886. A diva francesa Sarah Bernhardt pela primeira vez se apresenta no Brasil. O público se curva perante o talento de Sarah, incluindo o imperador Dom Pedro II, que lhe conta um segredo: um valioso violino Stradivarius, um presente seu à baronesa Maria Luíza, desaparecera misteriosamente.
Sarah então sugere que o imperador convide o famoso detetive Sherlock Holmes para investigar o caso. Dom Pedro II aceita o conselho e logo o detetive inglês concorda em viajar até o Brasil para desvendar este mistério.
Ao mesmo tempo, um assassinato choca a cidade e deixa em pânico o delegado Mello Pimenta. Uma prostituta fora assassinada e teve suas orelhas decepadas e uma corda de violino estrategicamente colocada em seu corpo pelo assassino. Enquanto o delegado busca pistas, Holmes e Watson desembarcam no Rio de Janeiro sem saber os perigos que os esperam: feijoadas, caipirinhas, vatapás, pais de santo e o poder de sedução das mulatas locais.
Nesta história, Sherlock Holmes, dr. Watson e o delegado Mello Pimenta vão percorrer as ruas da capital brasileira atrás de informações para descobrir o mistério do violino e encontrar o autor dos crimes que estão chocando a cidade.
A trama ressuscita um Rio de Janeiro de fins do século XIX governado pela monarquia, envolvendo uma nobreza bajuladora e uma turma de boêmios cariocas.
Nesta história o famoso detetive inglês tem suas faculdades analíticas e seu senso de observação afetados pelo calor dos trópicos e por circunstâncias inesperadas. Em uma perseguição ao misterioso assassino Sherlock tem de parar por causa de um vatapá o qual lhe gerou uma dor de barriga. Este e outros acontecimentos que se seguem tornam o mesmo mais propenso a erros, mais humano.”

O Xangô de Baker Street(Companhia das Letras, 1995, ISBN 8571644829)

Habemus Papam (2011). Esse Papa não usa Prada, mas é Pop!

Nanni Moretti + um Papa em crise de identidade + Comédia = Pronto! Estava carimbado meu passaporte para assistir “Habemus Papam“. Há, sim! Faltou dizer que eu adoro a sonoridade da língua italiana. Conferido! E…

Poder é para quem pode!

Mais do que querer, tem que estar preparado para ele. Às vezes é algo inato, o que complica abdicar. Noutras, vem por alguma hierarquia. No filme “A Rainha” tivemos um exemplo de como estar num poder muda, ou melhor, molda uma pessoa. Em “Habemus Papam” temos com a morte de um, a escolha de um novo Papa. Alguém que irá ocupar o trono. O poder mais alto da Igreja Católica. Tudo dentro dos ditames da Igreja.

No filme teremos também um raio-X desse rito. Outros filmes já mostraram isso, mas Nanni Moretti suavizou todo o ritual. Indo da comicidade que se pode tirar de um cerimonial como esse, a até ironizar todo o luxo que há dentro do Vaticano. O que já levou a algumas pessoas um afastamento da Igreja Católica após visitarem o Vaticano. Até porque não sentiram nenhuma espiritualidade ali dentro, mas sim um puro comércio. De minha parte não precisei atravessar um oceano, daqui mesmo do Brasil, eu constatei isso. Primeiro em criança, depois quando adolescente me dando outra chance, mas fora em vão. Com o tempo me desliguei de toda e qualquer Religião. Já o Diretor Nanni Moretti foi além: é um ateu convicto. O que por si só já o deixa livre para voar nessa história. Ele também assina o Roteiro.

Moretti primeiro dar o ar da graça já na ida dos Cardeais para a sala de votação. Onde eles caminham pedindo pelas graças de todos os Santos. Depois, já na sala secreta, dando asas aos pensamentos do colegiado, e outras coisitas mais. O que ficou hilário! Fora dessa cúpula do Vaticano, um repórter (Enrico Iannello) faz o contraponto com o povão que, na Praça São Pedro, aguarda primeiro pela “fumaça branca” (Que indica que um Papa foi eleito e que aceitou.), depois pela oficialização na varanda central da Basílica. Onde então um Cardeal anuncia o “Habemus Papam” (= Temos Papa). Então o novo Papa chega ao balcão, se apresenta (Com o nome que escolheu.) e dá sua primeira bênção Urbi et Orbi (À cidade, no caso Roma, e ao mundo.).

Bem, até o Habemus Papam do tal Cardeal tudo seguia nos conformes. Depois é que começou a confusão geral, e com o grito de desespero do novo Papa. Como não chegou a escolher um novo nome, ainda com seu nome próprio: Melville (Michel Piccoli). Abrindo um parêntese para falar que a escolha desse ator fora mais-que-perfeita! Michel Piccoli está brilhante! Nos levando a acompanhá-lo nesse seu calvário com brilhos nos olhos. Ora sorrindo, ora a torcer pelo seu personagem.

Com algo tão inusitado – esse ataque de pânico no Papa eleito -, decidem chamar o melhor Psicanalista de Roma: Professor Brezzi. Personagem de Nanni Moretti. Que só terá a dimensão do novo caso, já lá dentro. Ele até tenta clinicar Melville, mas fica completamente cerceado não apenas pela presença de todos os Cardeais, como também por ter que pedir autorização para o que pode ou não perguntar ao paciente: sexo, mãe, infância, sonhos… Quando Brezzi comenta sobre um tal de – déficit de dedicação -, ele acaba dando asas aos pensamentos de Melville.

E o Papa foge! Pois consegue dar volta no cerimonialista (Jerzy Stuhr) do evento, como também aos policiais. O personagem de Jerzy Stuhr (Ótima atuação!) corta um dobrado em não deixar vazar a notícia da fuga, inclusive para o colegiado, enquanto aguarda que achem o Papa. Já que tem que encenar que o Papa se recolheu aos seus aposentos. Brezzi, sem poder sair dali, tenta novos caminhos em trazer o Papa à razão, achando que o Papa está recluso, e o faz com as dezenas de Cardeais que também não podem sair daquela ala do Vaticano. Se tem Itália, tem esporte. Mas com mais de “onze”, Brezzi improvisa um campeonato de vôlei entre continentes. É hilário até a comemoração de um único pontinho de um dos times quando já perdia de 15. Merece também os créditos o da Guarda Suiça que se passou pelo Papa, o ator Gianluca Gobbi. Foi ótimo!

Paralelo a isso, o Papa perambula por Roma como um anônimo qualquer. E enquanto é alguém do povo faz um balanço da sua vida. Até chegar a hora de dizer ao Público sua decisão na varanda da Basílica. Dando um fim ao Cerimonial. Ou não!?

E assim como tudo muda, Que eu mude não seja estranho.” (Todo Cambia)

O Papa de Nanni Moretti não usa Prada, mas ele é pop. Gosta do Teatro de Tchekhov e da Música de Mercedes Sosa. Ele vivencia um breve dilema: ao mesmo tempo que aceita ser Papa, se vê impotente para tal missão. Simpático e carismático. Não nos deixa indiferente, ficando numa torcida por ele. Alguns, para que ele siga o seu coração. Outros, que ouça a voz da razão. Assistam a “Habemus Papam” e escolham a sua opção.

O filme é excelente! De querer rever. E eu diria até que é desaconselhável para católicos para lá de beatos.
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Habemus Papam (2011). Itália. Direção e Roteiro: Nanni Moretti. Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Margherita Buy, Franco Graziosi, Leonardo Della Bianca. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 102 minutos.

CURIOSIDADES:
- Do mesmo diretor de “O Quarto do Filho“.

- A canção”Todo cambia” é de 1982. Cantada por Mercedes Sosa. E de autoria de um dos músicos mais significativos do movimento da Nova Canção Chilena: Julio Numhauser. Fala do amor à Pátria e é considerado um hino de libertação e de cidadania.

As Mulheres do Sexto Andar (Les femmes du 6ème étage. 2010)

Quando o andar de cima interfere no andar debaixo. Mas aqui a conotação para isso muda, já que a classe social mais alta mora no andar debaixo. Enquanto que as serviçais ocupam quartinhos no último andar do prédio. Elas são mulheres que migraram da Espanha de Franco para trabalharem em Paris. São elas: Concepción Ramirez (Carmen Maura), Carmen (Lola Dueñas), Dolores Carbalan (Berta Ojea), Teresa (Nuria Solé), Pilar (Concha Galán). Ficando um sonho de um dia retornarem à terra natal e lá viverem condignamente. Só uma delas que tem a certeza de não querer voltar, pela tragédia que vivenciou lá: a Carmen. Aliás, mesmo com um passado triste, Lola Dueñas faz da personagem uma mulher divertida.

Passados alguns anos, é na Paris dos anos 60 que começa essa história. Elas continuam levando a vida como domésticas. Até que com a chegada da sobrinha de uma delas, a rotina começa a mudar. Ela é Maria Gonzalez (Natalie Verbeke) que pega a vaga na casa da família do andar dos mais abastados.

Maria vai trabalhar para o casal Jean-Louis Joubert (Fabrice Luchini) e Suzanne (Sandrine Kiberlain). Jean tem uma Corretora de Valores. Suzanne leva uma vida de dondoca. Numa rotina entre salão de beleza, chás, exposições, carteado… Nem com os filhos tem preocupação, já que estudam em colégio interno. Jean também é bem metódico. A rotina se quebra quando a esposa lhe pede para ajudar Maria a levar umas coisas para um dos quartinhos do 6º andar.

É quando Jean toma conhecimento da precariedade daquele lugar. De pronto, já toma uma providência que acaba conquistando a admiração das dosméticas: manda alguém desentupir o único vaso sanitário daquele andar. E depois vieram outras, e mais outras ajudas. Se a princípio o que motivou mesmo Jean, fora estar se apaixonando por Maria, depois foi por se contagiar pela alegria que exalava de todas elas. Mesmo com alguma tristeza em seus íntimos, elas tinham tesão pela vida.

E em ‘As Mulheres do 6º Andar‘ não temos uma luta de classes, mas sim uma interação entre elas. Indo mais além. Em se conhecer a cultura de um outro povo. Claro que se poderia comentar sobre a mão de obra advinda de outros países, mas elas estão tão bem resolvidas nesse propósito, que preferi focar nessa ligação de Jean com elas. Ele renasce!

Entao é isso! O filme é uma delícia de se ver! De acompanhar com brilhos nos olhos toda essa aventura nesse momento de vida de Jean. Por vezes, dando gostosas risadas. Uma Trilha Sonora que atua como coadjuvante. As atuações estão ótimas! Cenário, idem. Enfim, entrou para a minha lista de rever. Até porque eu sou fã do Fabrice Luchini, e ele continua ótimo!
Nota 10.

P.s: Essa música está na Trilha Sonora. A cena com ela é ótima! E a música nos traz também boas recordações.

As Mulheres do 6º Andar (Les femmes du 6ème étage. 2010). França. Direção e Roteiro: Philippe Le Guay. Gênero: Comédia. Duração: 104 minutos.

O Artista (The Artist. 2011)

Não é um filme, é uma viagem. Portanto, prepare-se!

Todos que já fizeram uma viagem algum dia, por mais simples que seja, sabem da necessdidade dos preparativos. Roupas, acessórios, utensílios, bagagem! Dicas, informações, roteiro, pesquisa prévia para que se possa aproveitar ao máximo uma estadia que poderá ser mínima. O prazer não é medido em tempo, mas em qualidade e essência. Assim, ao se decidir por assistir ao filme “O Artista”, prepare-se, pois é uma viagem, onde o trajeto não se dissocia da estadia.
Não sou uma pessoa do ramo, não sou crítica de cinema, não posso ser considerada uma cinéfila, sou uma consumidora habitual de cinema e propagadora das obras que assisto e gosto, posso dizer ainda que, qualquer ida a um cinema já é um prazer por si mesma fazendo com que qualquer ida a uma sala de projeção com filme que consideremos ruim, é melhor que não ir. Conferir com os próprios olhos, exercer a própria opinião, desfrutar dos prazeres adjacentes do passeio.

Surpresa potencializada:

Vivo no Rio de Janeiro, cidade que há 10 dias já respira confete e serpentina, batucadas, animação, excitação, com extensa programação musical onde confusão, ritmo, batucada e barulho dão o tom acelerado dos nossos dias. Vivemos um mundo tecnológico, plugado de imagens, sons e animação. Dados periféricos que podem ter influência neste filme que não se assiste, se degusta! Agregado a isso, não li uma única linha sequer de qualquer resenha sobre o filme, afinal nessas épocas sou uma criatura totalmente submersa no mundo da música. Ver o filme começando, foi como ser içada das profundezas do mundo sonoro e isto a princípio não foi confortável.  Ler no cartaz que o filme tem 10 indicações para o Oscar, emprestou-me uma animação que empalideceu, logo ao fim dos créditos iniciais na tela.

O Cinema:

O primeiro impacto, o rosto extremamente agradável do protagonista, sim ele é lindo! Mesmo caracterizado como astro dos anos 20. Fraque cartola, elegância, bigodinho fininho, cabelo engomadinho tudo impecavelmente asseado, bem passado, lustroso. Depois o contato com a maneira como se assistia filmes nessa época tão remota. Orquestra ao vivo, elenco atrás da cortina e sua aparição para saudar o público. Demorou um pouco pra ficha cair e entender esse cinema de época.

O Filme:
Mostrar o contexto da exibição das obras, foi o gancho que me “içou”, trazendo a minha atenção para o que a telona mostrava, muito mais que as expressões exageradas, onde os gestos precisavam mostrar  aquilo que o cinema não oferecia: voz.
George Valentin (Jean Dujardin) é “o astro”, que leva milhares de fãs ao cinema, para ver filmes onde divide a cena com a sua esposa e o seu cão. Ele, George, é talentoso, bem humorado, vaidoso, autoconfiante, ególatra, orgulhoso, artista numa época em que os astros, se destacavam do restante da humanidade, ah, e tem as sombrancelhas mais expressivas do planeta! Conhece Peppy Miller (Bérénice Bejo), rende-se ao talento da moça e facilita-lhe a oportunidade. Quando o som começa a chegar ao cinema, ele é um dos que não acreditam na novidade.
A forma como o filme apresenta o paradigma de que uma artista de filme mudo não poderia adaptar-se à nova forma do cinema é sensível. A nova tecnologia convence ao próprio artista da sua incapacidade de se adaptar, de que ele faz parte de um passado que nem lembranças lhe deixaria.
A oposição entre novo e velho, a apresentação do artista como um utensílio descartável dessa forma de arte, baseada no comércio, na industrialização. É realmente o início da cultura onde os estúdios ditam aquilo que o público gostará de ver.
Peppy, deslancha, contratada pelo mesmo produtor de George, Al Zimmer (John Goodman). Ela tem a sorte de estar sempre no lugar certo, na hora certa. De ser tão nova quanto à novidade. Chega a ser poética a trajetória da estrela que sobe e do astro que decai. Peppy e George estão na mesma pista, em trajetórias opostas e não colidem, se encontram a a partir do respeito que jovem estrela tem para com o renomado astro. O filme tem personagens pungentes como o motorista, James Cromwell e o incrível cãozinho Uggie. Também tem humor e a decadência de George, nos toca  mas não prenuncia tragédia. George certo do seu talento e da inviabilidade dos filmes com voz, investe  pesado numa produção de contra ataque ao inimigo novo, é abandonado pela mulher  Dóris (Penelope Ann Miller) com ciúme exagerado na mesma medida que as representações da época, é surpreendido pelo Crack da bolsa que deu origem à Depressão de 1929. Mas para não sucumbirmos a esses  tantos dramas temos Uggie, o cão e a diversão da mulher de George em enfeiar suas fotos.

Mas como curtir um filme tão na contra-mão de tudo o que a indústria cinematográfica vem impondo como aquilo que queremos ver? Preparando-se para uma viagem no tempo, onde os sentimentos tem trilha sonora instrumental, poucas legendas e muita emoção, não a emoção dos filmes de ação, mas a ação das emoções. Ambientação perfeita e um andamento mais lento que mostra a perfeição nos cortes.  As cenas são límpidas e há recursos digitais nas cenas com o cãzinho, a tecnologia prestando o seu tributo à origem da arte que mais lhe “dá cartaz”  Tenha em mente que preto-e-branco também sem cores, porque o filme é de um colorido intenso, mas não para os olhos.

Quem é do tempo em que a global Sessão da Tarde valia a pena, vai ter a doce lembrança dos musicais em preto e branco com Fredie Staire sua simpatia, alegria e claro, sapateados. O filme traz muitas referências de priscas eras, e até mesmo de Cidadão Kane (a cena do café da manhã), que desembarcou nas telas muito depois da chegada do cinema falado,  nossa sensibilidade a um tempo que não volta.

Nota: 10,5 …

Continue lendo

O Artista (The Artist. 2011)

Pela primeira vez em muito tempo, há o risco de a estatueta mais concorrida do mundo do cinema ir parar em mãos realmente merecidas no quesito melhor filme.

O Artista” (The Artist) de Michel Hazanavicius é uma obra extraordinária. A começar pela escolha do astro principal Jean Dujardin para viver George Valentin, um ator da década de vinte que sofre com a chegada do cinema falado que elege novas estrelas como Peppy Miller (A não menos talentosa Bérénice Bejo). Jean tem um frescor inédito que oscila habilmente entre o charme irresistível e a pantomima divertida que o personagem exige em momentos de humor e melodrama divididos graciosamente com o esperto cãozinho Uggie. Este importante momento de transição já suscitou trabalhos históricos na sétima arte como “Singing in the Rain” e “Sunset Boulevard”. “O Artista” também deve se transformar num clássico inesquecível do mesmo porte.

Quem não se incomodar com o ritmo apropriadamente lento em vários momentos, a ausência de diálogos e cor e o superado formato três por quatro da tela, vai aproveitar um punhado de cenas geniais e antológicas como aquela em que Peppy brinca com o terno pendurado de George. De quebra, uma trilha sonora saborosa que embala uma atmosfera lúdica, ingênua e de puro deleite absolutamente adequada ao ritmo gentil de uma película totalmente desprovida do envolvimento frenético virtual dos dias de hoje. Na última parte, a sala de projeção traduz uma emocionante e explícita homenagem a Fred Astaire e Ginger Rogers numa sequência arrebatadora.

Desligue (completamente) o celular e mergulhe no mundo maravilhoso deste filme único e sedutor.