O Leitor, A Dama do Cachorrinho e Tchekhov

Três histórias de paixão: paixão por Anton Tcheckov, paixão pelo filme O LEITOR e pelo filme OLHOS NEGROS ou  A DAMA DO CACHORRINHO, um dos mais célebres do já citado escritor russo.

A Dama do Cachorrinho é um dos contos mais populares da literatura russa. Tão popular que recentemente se teve a oportunidade de ouvir a história sendo contada pelo protagonista Michael no filme O LEITOR lançado em 2008, e anteriormente também nas telonas sob o título OLHOS NEGROS, em 1987 pelas mãos do cineasta Nikita Mikhalkov. Evidentemente que em 118 minutos de duração, perde-se muito, já que se tem o hábito de comparar alhos com bugalhos, não se pode esquecer que a obra literária e a cinematográfica são linguagens distintas, ficando mais ou menos assim a sinopse do dirigido pelo russo:

A bordo de um navio no final do século XIX, italiano de meia idade conta sua história de amor a um russo. Ao visitar um spa, o homem, ainda casado, conhece uma mulher russa por quem se apaixona. Ela é infeliz no casamento e os dois transam. Ao voltar para casa, o homem está resolvido a deixar a esposa e se casar com a russa.
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Essa história fala sobre desencontros e encontros da vida; casamento, sentimentos falidos, amor, traição, adultério, vergonha, culpa…

Viajando um pouco mais pela obra literária, transcrevo aqui o resumo do conto.

Dmítri Dmítrich Gurov, casado e com três filhos, entediado com a vida matrimonial, há algum tempo passara a trair sua esposa. Mantinha aventuras passageiras com suas amantes e, amargurado com suas fúteis experiências amorosas, passa a referir-se às mulheres com desprezo.

Dmítri morava em Moscou e estava em Ialta, já há duas semanas, para descansar. Lá comentavam sobre uma dama que aparecera à beiramar e andava em companhia de um cachorrinho, como não sabiam seu nome a chamavam simplesmente: A dama do cachorrinho. Interessado, Dimitri a vê em diversos lugares passeando com seu cãozinho, até que, certa noite, ambos jantam no mesmo local e ele tenta aproximação, atraindo o cachorrinho.

Ana Sierguéievna, a dama do cachorrinho, era natural de S. Petersburgo e morava na cidade de S. com seu marido. Também se sentia infeliz no casamento e como estava sozinha em Ialta, conversa com o estranho para diminuir sua solidão. Os dois passaram a se encontrar todos os dias e Dmítri sente-se muito atraído por aquela mulher, até que o marido manda uma carta a Ana pedindo que ela retorne, pois ele está doente. Eles se despedem com a promessa de não mais se verem.

Dmítri retorna a Moscou e não consegue esquecer Ana. Mudado já não trata as mulheres com arrogância e percebe que está apaixonado. Resolve então ir para a Cidade de S. para reencontrar Ana. Descobre onde ela mora, mas não a procura esperando um encontro casual. Vai à estreia de uma peça teatral e encontra Ana que, perturbada com a presença do amante, revela que também não o esquecera, mas pede que ele vá embora, temendo o flagrante do marido.

Ana promete ir a Moscou e cumpre com a palavra. Passa a viajar periodicamente para encontrar o amante. Amam-se com sentimento de culpa, mas se perdoam ao perceber que aquele amor os transformara. Juntos conversam sobre o desconforto do amor às escondidas, pensam começar uma vida nova, mas não sabem como recomeçar. Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
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E por último, a sinopse do filme O Leitor

Nos anos de 1950, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o jovem Michael Berg adoece e passa a ser cuidado por uma bela e estranha mulher, Hanna, que tem o dobro de sua idade. Michael logo se recupera, mas Hanna foi embora. Ao encontrá-la, os dois têm um breve, mas intenso romance. Uma paixão cada vez maior, temperada com as leituras de obras clássicas que Hanna sempre pede para que o amado leia. Apesar disso, Hanna misteriosamente desaparece outra vez. Passados oito anos, Michael é agora um aluno de Direito que acompanha julgamentos de crimes de guerra cometidos pelos nazistas. É nesse momento que Hanna reaparece na vida do rapaz. Mas para a surpresa dele, a mulher está no banco dos réus do Tribunal. Enquanto o passado de Hanna é revelado, Michael descobre um segredo que poderá impactar na vida de ambos.
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O filme O Leitor é uma história bastante fiel ao livro e acaba abordando os mesmos sentimentos como em Olhos Negros: culpa, amor, vergonha, remorso pelo que não foi feito no momento oportuno. Define-se em uma única palavra: Romance. Uma singela história de amor.

A ficção e a realidade nas obras de Tchekhov (con)fundem-se de tal maneira que nos faz devanear tanto quanto o tocante filme O LEITOR, e este, por sua vez em inúmeras nuances de muitas outras histórias sensacionais brindando o expectador duas vezes pelo menos: 1º a obra cinematográfica, e 2º conhecendo histórias da literatura universal. Considerei super válido o diretor Stephen Daldry de uma sensibilidade  ter traduzido o romance do escritor alemão Bernard Schlink em outra linguagem artística, transformando-nos em protagonistas de sua obra, ou melhor, nos colocando na posição de Hanna -  a ouvinte – que se apaixona pelo adolescente Michael na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial e ambos começam uma aventura que marcará a vida do rapaz para sempre. Ela tem o dobro da idade dele o que não impede que daí nasça um sentimento de amor e desejo carnal. Há muitas outras diferenças entre o casal.  Em cada encontro, antes do sexo, ela pede que ele leia algo para ela, o que ele faz com prazer, lendo os clássicos da literatura: A Odisséia, Guerra e Paz etc, até chegar em A Dama do Cachorrinho. Ele é O LEITOR e nós somos OS OUVINTES, contracenando com a obra. Relembrei a história com saudosismo. Hanna as ouve com muita   atenção e só mais adiante que se entende o seu drama. É analfabeta. Sente vergonha dessa sua condição e em momento algum revela esse seu “segredo” ao amado.

Culpa dela e vergonha dele. Muito tempo depois quando já não estão juntos é que ele acaba descobrindo isso, por mero acaso esse segredo dela. Ela é julgada e condenada por crimes de guerra, e ele poderia salvá-la da condenação mas por vergonha decide se calar.

Culpa e vergonha são os ingredientes principais na tocante obra O LEITOR. Um filme riquíssimo em significados e interpretações que  levam a questionamentos perturbadores. É sem dúvida uma obra-prima.

A 4a paixão é que sou uma ótima ouvinte. Gosto que me contem histórias interessantes. É uma viagem indescritível. Explicar é impossível. Guardo boas recordações dos tempos de ouvinte. Acho que não tive infância…

Assista ao filme, leia o livro, não deixe de prestigiar. Aproveite para ver também MOSCOU de Eduardo Coutinho e conhecerá um pouco mais de Tcheckov. Deleitem-se! Afinal faz um  bem danado para a alma.

Karenina Rostov

Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

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Olá, pessoal. Hoje farei uma crítica que já planejo há um bom tempo, entretanto preferi esperar para que o filme estreasse nos cinemas brasileiros para que as pessoas que lessem tivessem a oportunidade de assistir. Quem leu meu post sobre Adaptações Cinematográficas de Livros deve lembrar que citei esse filme como sendo uma das adaptações mais diferentes que já assisti. Quando digo diferente não é no sentido de não haver fidelidade para com o livro, e sim do longa não ofender o romance, mas apresentar uma visão bastante particular da trama. Taxado como polêmico, assustador e surpreendente. “Precisamos Falar Sobre o Kevin está chocando o público, vocês devem estar perguntando o porquê disso. E é simplesmente por que tudo aquilo é algo bastante realista e não há nada mais assustador no cinema do que nós acreditarmos que aquilo mostrado nas telas pode acontecer na realidade. O relacionamento de amor e ódio de uma mãe com o filho, possivelmente, psicopata é algo que realmente instiga as pessoas. Numa das cenas geniais, Kevin comenta em tv aberta o fato do público televisivo dar tanta atenção aos psicopatas, afinal será mesmo que as pessoas não gostam de ouvir esse tipo de coisa? essa é uma das sugestões polêmicas que a história coloca.

Best-Seller de Lionel Shriver

O livro de Lionel Shriver foi recusado por muitas editoras e quando finalmente foi aceito, virou sucesso. A trama acompanha a história de uma mãe, Eva (Tilda Swinton), que sofre as conseqüências dos atos de seu filho Kevin (Ezra Miller), já preso por cometer uma chacina na escola. Como se não bastasse ser julgada e perder todo o dinheiro no tribunal, acusada de negligência materna, Eva tem que suportar diariamente o preconceito nas ruas, as pessoas acreditam que a revolta do rapaz possa ter vindo de falhas maternas. Então ela faz uma recapitulação, narrando tudo para Franklin (John C. Reilly), seu marido que a deixou levando a filha pequena. A partir daí acompanhamos do nascimento de Kevin até a data do massacre, sempre alternando entre o presente e as memórias de Eva. Quando tudo começa, ficamos espantados com a relação entre os dois. Kevin não era uma criança fácil e sempre fez questão de expôr sua natureza fria utilizando a mãe como alvo. Eva também não fica muito atrás, seus pensamentos de raiva pelo menino nos deixam na dúvida se realmente seus atos influenciaram no que Kevin se tornou. E é aí que surgem nossas dúvidas. Por que Kevin fez aquilo? Será que sua monstruosidade é justificável pelo elo fraco com a mãe? Eva é ou não culpada? Kevin sempre foi psicopata? Eva estaria paranóica desde que a criança nasceu ou é verdade que o tempo todo notara as inclinações assassinas do filho?

Momentos tensos

As respostas para as perguntas acima são bastante relativas, o que faz com que cada pessoa saia da sala de cinema com um filme diferente na cabeça. Acredito que a monstruosidade do rapaz seja tamanha que ficará bastante constrangedor para alguém defendê-lo, no livro até o advogado se sente desconfortável pela reação de Eva. Ela tenta “permanecer de pé”, evita chorar na frente dos outros, o que faz com que a maioria pense que é uma mulher fria. Eva guarda a culpa para si mesma, o que torna tudo tão doloroso. Ela sente que precisa ser castigada pelo que seu filho fez, por isso não se zanga com a reação violenta das pessoas. Cabe a nós sabermos se ela realmente influenciou.  Quando chegamos ao final da trama, temos uma revelação que mudará todo o jogo. O assustador final é inevitável e alerto para que as pessoas estejam preparadas para a indignação.

Falando em indignação, estou profundamente decepcionado com a Academia do Oscar que não indicou Tilda Swinton como Melhor Atriz, mas indicou Rooney Mara. Não que a novata não mostre talento, mas quem assiste a “Precisamos Falar Sobre o Kevin” sabe muito bem que aquele talvez tenha sido o papel da vida de Tilda. Ela se entregou completamente para o papel, não assisti a nenhuma atuação tão surpreendente durante todo o ano. Logo é natural que a credibilidade do Oscar caia no meu conceito. John C. Reilly não tem quase nada a ver com a aparência do Franklin do livro. Apesar dele não ter muitos diálogos, só sua imagem é suficiente para o associarmos com um pai preocupado e que tenta simplesmente acreditar que seu filho é normal. Kevin se transforma na presença do pai, o que faz com que Eva sempre seja julgada como exagerada pelo marido.

A água como a vida aparentemente calma de Eva, até Kevin acabar com tudo com apenas um toque.

Ezra Miller parece que vem se preparando involuntariamente para Kevin através de outros papéis. Após interpretar um garoto com possíveis tendências psicopatas em outro filme de Cannes (Depois das Aulas), o jovem agora pode ser conhecido como o bad boy de Hollywood. A participação de Ezra como Kevin não é longa, porém marcante. Quem rouba a cena como Kevin é o ator mirim Jasper Newell, que provavelmente conseguiu a proeza de despertar a vontade de todas as mães, na platéia, de lhe dar uma bela surra.

Ela percebeu as tendências do filho desde o princípio

O defeito do filme é em alguns momentos deixar escapar a semelhança de Kevin com outros monstrinhos do cinema. É inevitável não lembrar de Damien de A Profecia. A diferença de Kevin para Damien é que o filho de Eva é praticamente uma abordagem nova sobre a psicopatia. Se em A Profecia, o menino não tinha um bom elo com a mãe por ser o anticristo, em Kevin a situação é explorada sem receio. A realidade é que muitas mães sofrem por não conseguirem ter uma boa ligação com seus filhos (exemplo disso é a depressão pós-parto), isso sempre foi visto de maneira assustadora pela sociedade, mas é algo que acontece. Em A Profecia, isso foi transformado numa fantasia onde a desculpa pela falta de vínculo materno ocorre pela criança não ser o filho verdadeiro do casal e, sim, do diabo. O que torna “Precisamos Falar Sobre o Kevin” tão assustador é justamente o fato de não haver fantasias. Kevin não é adotado e não é o anticristo. Eva teve muita dificuldade em gostar da criança no princípio, porque para ela aquele bebê significava a perda da independência. Nós sabemos que a criança sente quando isso acontece, o problema é a reação de Kevin. Quando a mãe tenta se aproximar dele, ele sempre recua e não deixa uma oportunidade de machucar a mãe passar em branco.

Eva imaginando o afogamento do filho

Há uma situação que talvez alguns não entendam completamente no filme, porém que fica bastante claro no livro. A cena em que Eva quebra o braço de Kevin num acesso de fúria pelo que o menino faz. O menino estava com um leve sorriso no rosto quando isso aconteceu. Kevin não contou para ninguém o feito da mãe. O que nos deixa intrigados é o porquê dele fazer isso. Ao mesmo tempo que Kevin mantém segredo, ele utiliza isso como arma para “aprontar” sem que a mãe o delate, senão ele conta sobre o braço. Mas, como todas as atitudes de Kevin têm dois lados da moeda. É possível também que ele não tenha contado para ninguém porque, como Eva cita no livro, aquele foi o único momento em que ele pôde se identificar com a mãe, pois se sua natureza era violenta ele buscava alguém com quem se identificar, e é terrível sua alegria quando a mãe demonstra raiva. Parece uma maneira de “atiçar” Eva como desculpa para também ver o lado obscuro de outra pessoa. Em uma das partes do livro, Kevin na escolinha convence uma menina com doença de pele a descascar a pele ruim (até sair sangue), como se desejasse libertá-la daquele incômodo ou fazê-la se machucar. Não há limites para as crueldades do menino até a adolescência, poucos notam sua verdadeira face, mas suas atitudes sempre possuem duas possibilidades. E o mesmo jamais demonstra culpa.

Kevin sente culpa?

Sobre o conteúdo, não é fácil para algumas pessoas ler os diálogos cruéis do livro. Por isso algumas coisas foram suavizadas no filme. Um exemplo são as visitas de Eva a Kevin, onde no romance há uma troca de farpas de deixar qualquer pessoa horrorizada com tamanha crueldade do filho e as respostas terríveis da mãe. No longa isso não aconteceu, deixando o silêncio tomar conta das cenas como uma forma de expressar a dificuldade que Eva possui ao ter de visitar o filho. No final da leitura e da projeção percebemos o porquê dela odiar o filho em tantos momentos. Mas não se assuste, você (leitor dessa crítica). Apesar do filme revelar que não há limites para a crueldade humana, também coloca a ausência de barreiras para o amor de uma mãe. Eva continua vendo Kevin porque ainda tem a esperança de que um filho que a ama esteja ali dentro. “Precisamos Falar Sobre o Kevin” prova isso da maneira mais realista possível. Enquanto assistimos a esse filme é importante ficar claro a quantidade de mulheres que estão passando por esse sofrimento de culpa ao presenciar a prisão do filho. A verdadeira pergunta que deixo aqui é: Será justo julgá-las sempre negativamente?

Tilda Swinton na cena mais emocionante, a da descoberta. Digna de Oscar.

As Canções (2011)

Assisti ao documentário “As Canções“, do diretor Eduardo Coutinho. Fui sem ler resenha alguma afinal, era um Eduardo Coutinho diretor do qual sou fã sem ser especialista, eu não tenho como ser especializada em nenhum autor devido a passionalidade que o ao meu olhar crítico possui, mas tenho cá as minhas “grifes”.De cara este filme remeteu-me ao anterior “Jogo de Cena”. Saí do cinema pensando se seria a resposta da música (arte de compor e cantar) à interpretação (arte de interpretar)… Mas se em Jogo de Cena tínhamos algumas atrizes famosas, em As Canções, famosas apenas as músicas e as histórias, por inusitadas que fossem, todas girando em torno do amor, da emoção de ter-se amado um dia ou de ter-se amado menos do que se podia, amado quem não devia, mas no fundo amores perdidos.

As pessoas entram num palco com cortinas escuras, cadeira escura, cantam suas canções, expõem suas penumbras e contam suas histórias ou vice-e-versa. Levantam-se e saem dali provavelmente diferente do que entraram – imagino – porque eu, senti-me diferente de quando entrei para ver o documentário. Mesmo as pessoas mais leves, “carregam” no peso de suas histórias. Mesmo aqueles que contam de maneira a provocar risos, falam de dramas de um pedaço que se foi e que a canção permanece a preencher.Pergunto-me qual o segredo de Coutinho para deixar pessoas tão à vontade contando particularidades. Sim, eu sei,  são  histórias vividas, passadas, já divididas, partilhadas nenhum segredo, talvez, já do conhecimento daqueles com quem convivem. Mas teriam sido as canções que fizeram do diretor alguém íntimo para que abrissem o coração antes de cantar a plenos pulmões?

O filho que dizia não ao pai, o homem que dizia não à esposa, a mulher que ouviu tantos nãos do seu afeto durante 30 anos de idas e vindas, o homem que mudou-se do interior depois de perder em curto período esposa e familiares. O coronel que hoje lava a louça e leva a esposa e sua culpa de carro ao médico. A mulher que perdeu o amante após ganhar centímetros na “cinturinha de pilão”, a jovem – agora uma senhora, expulsa de casa por ser mãe solteira que encontra o amor da sua vida no exato momento que partia para morrer-se e matar a própria filha. A cantora do programa do Ary Barroso aposentada. A cadeirante com a linda história do amor em “Dó-Ré-Mi”.

Histórias, emoções ainda que em torno do mesmo tema, tão diferentes umas das outras, geradas por um sentimento que todos tivemos um dia, de ter amado e ter perdido. De continuar amando mesmo depois de ter sido preterido.

Coutinho e seu método, penumbra, cadeira, depoimento, boca aberta, alma em exposição, vulnerabilidade,  poderia ser um dentista, é diretor, cineasta. Poderia ser dentista… Mas é que a dor do paciente fica com a gente…

Por Rozzi Brasil.

Curiosidade: Prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio 2011.

O Caçador de Pipas (The Kite Runner. 2007)

O filme O Caçador de Pipas é baseado no romance homônimo escrito pelo afegão Khaled Rosseini. O filme narra a história sobre a traição, redenção e provação vivida por Amir na infância e em sua vida adulta.

A obra é considerada um dos maiores sucessos da literatura mundial dos últimos tempos. Este romance conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem no Afeganistão na década de 1970, mas habitam “mundos diferentes”.

O “ponto sublime” da trama nos leva para o reino das indagações e problematizações dos fatos; isto ocorre quando a amizade entre Amir e Hassan é colocada em xeque. Hassan, diante de um grupo de garotos de etnia “inimiga” da sua, resiste em dar uma pipa que havia capturado e prometido como presente ao amado amigo Amir; resultando em uma cena macabra de estupro que é assistida de longe por Amir. Diante de tal fato Amir busca fugir da realidade, construindo um “mundo altista” para ganhar forças para firmasse na ideia que nada havia acontecido, no entanto é condenado aos tormentos dos sentimentos de culpa, impotência, fragilidade e omissão da realidade.

A partir desta cena classificamos Amir como “covarde”, pois nada fez para defender o amigo; no entanto não podemos esquecer que ele se comportou como qualquer outra criança da mesma idade, que se depara com uma cena de estupro.

A produção cinematográfica promove a tentativa frustrante em dramatizar o que não é drama, pois a obra de Rosseini busca descrever a “história dos homens”, deixando claro que a mesma também passa pelo crive da literatura, poematizando os sentimentos, momentos; promovendo a universalização da “história total”.

Um ponto marcante do filme, embora eu não possa dizer se o mesmo ocorre no livro, é a tentativa de mostrar a cultura afegã com veracidade, mas pragmaticamente se enquadrando nos moldes ocidentais.

Na minha concepção o filme deixou um pouco a desejar, não trabalhando a essência real que Rosseini nos transmite em sua belíssima obra.

Em meio à linguagem criativa do autor, nos deparamos com uma complexidade que envolve sentimento, ritual, região, história, etnias e consciência; uma expressão que é livre para caminhar despreocupada entre os reinos das fantasias, dos sonhos e daquilo que chamamos de “realidade ou uma cópia quase perfeita da mesma”.

Afinal, o grande sucesso do filme se dá graças à vasta leitura da obra que inspira o mesmo; afirmando que as pessoas ainda se fundamenta em pensamentos românticos, platônicos, cristãos e etnocêntricos.

Sexo por Compaixão (Sexo por Compasión)

A justiça julga por atos, não por intenções. E mesmo assim ela comete injustiças…

Nossa! Por mais cuca-fresca que eu seja, a história desse filme me pareceu surreal demais. Mas sendo um filme, a tudo é permitido. E como nos créditos, a Diretora, e também Roteirista, dedicou o filme a sua mãe… Merece ser visto. Como também, comentado.

O lugarejo parece saído do Velho Oeste. Mas mais para um tempo num passado recente. Um lugar onde apenas se vivem, ou sobrevivem. Não há cor, não há alegrias, não há motivações.

Em meio a todos, destaca-se Dolores (Elisabeth Margoni). Alguém que usam e abusam dela por conta da sua generosidade. Por não saber dizer não a ninguém, divide seu tempo prestando pequenas ajudas. Como por exemplos: cuidar de uma idosa paralítica; ler história para a única criança do vilarejo, que ficou muda após presenciar algo. Assim, Dolores é como uma santa do local. O que provoca ciumeira no Padre. Por ele, ela deveria cometer um único pecado que seja.

Porém Dolores acaba perdendo seu marido. Ele, tal como o pároco, também não suporta tanta bondade. Vai embora, mas antes lhe deixa um pedido, que cometesse um único pecado para que ele não apenas tivesse algo para perdoar, como também para que vivesse ao lado de uma pessoa normal, não ao lado de uma santa mulher. Mas para alguém como Dolores, o que seria pecar? Pelo o que o padre lhe falou, no dia que o cometesse, ela saberia que o fizera.

Então, já morando na despensa do Bar, a convite da Dona, ao ouvir a conversa de uns caminhoneiros, acha que encontrou um jeito de cometer um pecado e com isso ter seu marido de volta. Mas… Tem sempre um mais. Pela alegria que trouxe nesse seu primeiro ato, não se viu uma pecadora. E mais, sua transformação faz irradiar alegria, o prazer de viver aos demais. A vila ganha cor, pulsão.

Em sua nova prestação de serviço, o que o título do filme já diz… ela escolhe o nome de Lolita. Tudo corria quase bem… quase por conta do padre continuar irado com ela. Não, a ira é com ele próprio, só achou mais fácil escolher a ela, para Cristo. Como também pela mais jovem das mulheres casadas não entender o motivo das mais velhas fazerem vista grossa ao que está acontecendo. Até que o marido de Dolores retorna. Surpreso com a mudança do local, como também da receptividade. Fica feliz! Até a hora que descobre o que aconteceu em sua ausência. E ai…

Assistam! Veja no que essa história irá dar. É bom filme! Até por confrontar dogmas da religião e da sociedade. São valores reais em discussão. Enfim… “prosseguir e gritar no ouvido da tal de dona moral, pois uma mulher pode nunca é deixar ser, fazer e acontecer.

Por: Valéria Miguez.

Sexo Por Compaixão (Sexo Por Compasión). 2000. México. Direção e Roteiro: Laura Mañá. Elenco: Elizabeth Margoni, Álex Angulo, Pilar Bardem, Juan Carlos Colombo, Mariola Fuentes, José Sancho, Leticia Huijara. Gênero: Drama. Duração: 109 minutos.

A Família Savage (The Savages)

Num resumo, diria que é a história de dois irmãos à procura do sentimento Família. É, é todo o significado que essa palavra traz. Onde por vezes, a ruina acarreta traumas. Mesmo que inconsciente, leva-se esse sentimento de perda para suas vidas futuras. Por não conseguirem construir uma família. Num ciclo viciante…

Entrando no filme… Pegos de surpresa, os irmãos, Wendy (Laura Linney) e Jon (Philip Seymour Hoffman), recebem a notícia que o pai (Philip Bosco) está senil; fora pego escrevendo recados malcriados na parede do banheiro com a própria merda. E mais, sua companheira de 20 anos, morrera.

Então, os irmãos, separados até geograficamente, se encontram onde o pai residia, no deserto do Arizona. Assim, são levados a rever o passado. Onde nem a figura de uma mãe existia, já que os abandonara. E eles aguentaram o autoritarismo do pai, até poderem caminhar por si mesmos.

A entrada, ou melhor, a volta desse pai, que agora quase uma criança, em suas vidas… Mais que um resgate, mais que despertar velhos fantasmas, vão percebendo que eles ainda são uma família. Triste, como o Jimmy (Gbenga Akinnagbe) achou a história contada por ela… Mas eles são os Savages, eles são uma família. Meio que: “Oras! Triste ou não, é a história da minha família. E ainda somos, ainda estamos como protagonistas dela.

Bem, se não compararmos com outros filmes, onde adultos ressentidos por não terem recebidos carinho dos pais, é um filme bom. É que não tem nada de tão incomum. É um drama comum. O diferencial, estaria no sentimento de culpa na busca por asilos. Mais ainda, no “acorda” que o Jon dá em Wendy nessa busca.

Os quatro personagens citados, estão ótimos! A trilha musical traz velhos e gostosos hits! Mesmo tendo gostado do filme, não entrou para a minha lista de rever. Nota: 7,5.

Por: Valéria Miguez.

A Família Savage (The Savages). 2007. EUA. Direção: Tamara Jenkins. Elenco: Laura Linney, Philip Seymour Hoffman, Philip Bosco, Gbenga Akinnagbe, Peter Friedman, David Zayas, Cara Seymour. Gênero: Drama. Duração: 114 minutos. Classificação: 12 anos.