Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma. 2010)

Vários diretores já se trancaram em um único ambiente para dar vida a roteiros diversos,  o que significaria nenhuma novidade para este Julio Medem. No entanto, além da inovação do casal trancafiado no quarto em  Roma ser formado por duas mulheres (lindas, diga-se de passagem) o  ambiente único,  geralmente  claustrofóbico desta vez,  é arejado pela atuação convincente de Elena e poderosos auxílios como sensível fotografia, vigor da trilha sonora e  interação entre a vida naquele quarto com hora certa para se extinguir, influência da vida exterior e a presença desta através das incursões do garçom e produtos eletrônicos modernos.  Elena Anaya e Natasha Yarovenko dão vida a personagens muito interessantes e diferentemente do que imaginei, não é aventura do corpo que toca o coração, mas justamente o contrário.

Existe um crescendo na confiança que vai aos poucos se estabelecendo entre as duas mulheres. A célebre atitude de dar nomes inventados à ” paquera da hora”  que acabamos de conhecer, já mostra que havia se não o desejo ou  curiosidade, pelo menos uma certa intenção entre aquelas duas estranhas, por mais que a princípio a atmosfera romântica não prevalecesse.  Não mostrar quem são na vida lá fora, a derrubada dessas mentiras que visam proteção ou mesmo torná-la seres mais interessantes, fez-me pensar como é curioso o ser humano, que mesmo numa situação transitória e vivendo momentos com prazo definido para um final, não deixa a peteca cair. O corpo, o sexo é alvo de tanta teorização e no entanto estando duas mulheres nuas num quarto, escondem seus nomes e suas histórias como forma de protegerem suas vidas. É a potencialização do pensamento difundido por aí que entre quatro paredes tudo e válido desde que ali se mantenha.

Os diálogos tem muito de fábula e a fotografia é de grande  beleza plástica, onde ver duas mulheres fazendo sexo não choca e ainda estimula. Interessante perceber a co-atuação da tecnologia moderna interagindo e oferecendo informações sobre a vida extra-quarto das personagens, arejando o “Quarto de Roma”

Natasha (Natasha Yarovenko) moça heterossexual se  vê num quarto com Alba (Elena Anaya) moça homossexual e por aqueles motivos que não se explica se envolvem numa intensidade onde qualquer um poderia  enxergar a si próprio. Elas vão se revelando uma para a outra entre pequenas e grandes mentiras a respeito de si mesmas, os grandes dramas que cada uma carrega na vida real, em 12 horas vivem um relacionamento com densidade  infinitamente superior a muitas relações que sobrevivem do lado de  fora.

Por que carregam esses dramas em suas histórias, não consegui entender, confesso que sou inexperiente em Julio Medem e , não ouso afirmar que em suas histórias pessoas encucadas fazem sexo bem e se entregam à curiosidade até que ela se torne prazer e se vista de amor.  À pergunta que me surgiu durante a exibição:  será que uma pessoa sem fatos pesados na sua biografia, não se entregariam daquela forma ao amor ou a um sexo de uma forma fora do seu habitual ? Tentarei responder vendo outros de seus filmes.

O requinte de detalhes nos leva a ver a cena em que  Natasha, a mulher heterossexual  solicita um vibrador  ou algo que a penetre enquanto que a lésbica afirma não utilizar esse tipo de recurso, pode para alguns, confirmar a lenda que a penetração é indispensável ao prazer feminino como pode desmentir  a verdade que o falo acompanhado do corpo é inteiramente  dispensável em detrimento  de qualquer coisa em forma similar ou mesmo uma garrafa de vinho da Toscana…

Amigos que assistiram antes de mim comentaram sobre a falta de consistência dos diálogos do que discordo, entendo que deve ser complicado diálogos profundos e complexos estando-se em par num quarto de hotel, diante de um corpo atraente, perante alguém que admira e demonstra gostar do que vê, da mesma forma que ter atenção nos diálogos diante de cenas tórridas não deixa de ter certa porção desafio… Contudo, não é justificada a piadinha de que com aquelas moças nuas e suas ações na tela o filme seria apenas imagens a se observar… Esta reclamação, não tenho .

O filme mostra muito do que uma mulher  pode ser capaz quando tem sobre a pele o toque certo, o quanto falar de si pode ser importante no trajeto cama-chuveiro-banheira. Mostra a capacidade do ser humano de se envolver e encantar, vivendo um grande amor num espaço pequeno e  tempo reduzido, em que muitos sequer conseguiriam entrar no primeiro sonho. É grande a capacidade de amar das mulheres, ouvir a voz do corpo pode ser muito diverso de buscar a traição, no momento em que se está onde se está,  estaremos sempre fiéis a nós mesmos.

Se tivesse que dar uma nota no filme como um todo, incluindo os diálogos daria um honroso 8.

Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma)

Espanha, 2010

Gênero: Drama

Diretor: Julio Medem

Elenco:  Elena Anaya (Alba) Natasha Yarovenko (Natasha) Enrico Lo Verso (Max) Najwa Nimri (Durne)

À Moda da Casa (Fuera de Carta). 2008

Antes da falar do filme, quero falar do desenho que está ilustrando-o.
Com ele o ‘Cinema é a minha praia!’ está inaugurando um parceria a muito sonhada: ganhamos um Ilustrador.
Ele é o Tiago Nunes, do Blog Desenhando.
Vida longa a essa parceria!

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Agora, o filme…
O diferencial desse filme é trazer uma estória não tão rotineira na vida de um homossexual. E o porque de já estar ressaltando a sexualidade do protagonista, fica por dois pontos. Primeiro, porque é ainda um assunto carregado de preconceito, com isso quanto mais mostrarmos que são pessoas como todo mundo, menos reações de espanto veremos até numa troca de carinho em um local público. Uma simples troca de beijo ainda é visto como algo escandaloso.

O outro ponto, é que está no contexto da estória. E qual seria ela? Num resumo seria: o dono de um restaurante, endividado, homossexual assumido, se vê tendo que conquistar dois filhos e um vizinho. Com o desenrolar, somos levados numa torcida para que ele consiga resolver todos os seus problemas.

Ele é um ótimo Chef de Cozinha, de seu próprio restaurante em Madri. Exige perfeição no preparo de cada prato, porque sabe que um simples descuido pode por tudo a perder: sabor, textura, apresentação… Mas não conta muito com funcionários competentes. Daqueles que vestem a camisa do local de trabalho. Dois em especial fazem parte desse grupo. Pelo menos enquanto também levarem seus problemas pessoais para aquela cozinha contribuirão para aumentarem os de Maxi. Que precisa urgentemente que o seu restaurante ganhe uma Estrela no Guia Michelin. Que levaria o seu restaurante ser um ponto turístico, elevando a frequência. Com aumento do caixa.

Por conta da expectativa da visita de um crítico influente, seu mais desastrado garçom aumenta o seu estresse por conta da marca Michelin. O outro funcionário atrapalhado, é a Alex, a Maitre. Que vive a procura de um relacionamento sério, mas acaba mesmo é atraindo homens que só a querem para uma transa. Mesmo com funcionários relapsos, Maxi é um condescendente patrão.

Às vezes, o destino coloca vários acontecimentos juntos. Para Maxi também veio no embalo: um novo vizinho e a guarda dos filhos. Mesmo tendo se  enamorado do jogador, tenta ajudar Alex a conquistá-lo. Mas o jeito vulgar dela acaba não ajudando muito. Com os filhos, o drama também não é fácil.

Maxi chegou a ter um casamento com uma mulher. Vieram os filhos. Mas ele quis assumir a sua homossexualidade. A esposa o expulsou da sua vida e da dos filhos. Maxi não viu mais os filhos. Não se sentia um pai. Com a iminência da morte, ela o chama para lhe entregar os filhos. Então Maxi se vê perdido, não querendo se passar por hetero diante dos filhos. Quanto aos filhos, aquele pai era também um completo estranho. A conquista aqui teria que ser dos três: Maxi aprender amar seu casal de filhos, e os filhos amar esse pai.

‘À Moda da Casa’ além de abordar o preconceito dentro do núcleo familiar, também o traz em ambientes profissionais. Como se em certos meios o sair-do-armário seria algo inconcebível. O que dará chance ao expectador de refletir,  se também concorda com isso.

Muito mais pelo tema, é que eu deixo a sugestão para que vejam À Moda da Casa. Quanto mais o mundo se ver livre da homofobia, melhor. Como também por ser um bom filme. Que entrou para a minha lista de rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

À Moda da Casa (Fuera de Carta). 2008. Espanha. Direção: Nacho G. Velilla. Elenco: Javier Cámara (Maxi), Lola Dueñas (Alex), Fernando Tejero (Ramiro), Benjamín Vicuña (Horacio), Chus Lampreave (Celia), Luis Varela (Jaime), Cristina Marcos (Marta), Alexandra Jiménez (Paula), Junio Valverde (Edu), Alejandra Lorenzo (Alba). Gênero: Comédia, Romance. Duração: 111 minutos.

Uma Família Bem Diferente (Breakfast With Scot. 2007)

Não gostei desse título dado no Brasil: “Uma Família Bem Diferente”. Por acentuar, por enfatizar que há diferenças no tocante de uma relação casal com filhos formando de fato um Lar. Também porque assim continuam a propagar os preconceitos. Poderiam sim, terem traduzido literalmente o título original – Breakfast with Scot. Não apenas porque é parte do contexto da estória, e tem uma das cenas mais comoventes. Uma Família, no sentido de um Lar, primeiro não tem que vir de laços consanguíneos. Depois, não tem que ser como manda a tradição ocidental: um casal hetero com seus filhos de sangue.

Em “Uma Família Bem Diferente“, um menino, o Scot, perde a sua mãe de sangue. Como ela deixara como tutor seu namorado, Billy, que nem é o pai de Scot, ele é procurado. Enquanto o procuram, a juíza delega Sam, irmão de Billy, para cuidar do menino. A juíza merece aplausos por estar ciente da relação de Sam com Eric. Billy só se interessa pelo dinheiro deixado para Scot, por sua mãe.

Abro um parêntese para esse legado. É que, se a grana tem uma importância em quem ficará com Scot, ficou sem maiores detalhes. E Seguro, pelo o que eu sei, não é pago se quem o fez, morreu de overdose. Enfim…

Eric é pego de surpresa com essa decisão. Embora sabendo que não tem escolha, tenta argumentar com Sam. Fazendo um drama em terem uma criança em casa. Ele que primazia em manter uma conduta super discreta, com a chegada de Scot na vida deles, se verá tendo que enfrentar velhos fantasmas. Temores desde a infância, por bullyings sofrido por outras crianças. Sam já é mais desencanado.

Por conta disso, a estória do filme coloca Sam como o pai mantenedor, e que só intervém numa impor uma autoridade em meio ao caos. Embora Eric também trabalhe fora – comentarista de hóquei para um canal de tv -, ficará aos seus cuidados, levar e buscar Scot para a escola; comprar roupas; alimentá-lo… Enfim, seguindo uma tradição… será uma mãezona para o menino.

Como citei antes, pela postura discreta, Eric acreditava que em seu trabalho, só quem sabia da sua homossexualidade era uma amiga. Por Scot, irá se confrontar com seu chefe preconceituoso.

Para surpresa de Eric, Scot é totalmente desencanado da sua sexualidade. Deixando aflorar seu lado feminino, no vestir, no cuidado com a pele, gostando de se maquiar… Se antes de vê-lo, Eric já sofria por um futuro gavião-no-pedaço… ao conhecê-lo, ficou apavorado. Mais. Com Scot ao lado, para ele era também contar ao mundo que era gay. A grande questão, era que Eric não digeria bem o preconceito das pessoas.

Scot acaba trazendo uma revolução na vida de todos. O que levará a essência de cada um deles, demarcar um caminho a seguir. Como com o menino briguento, da casa vizinha, que sem o Scot, seria um forte candidato à prática do bullying. Scot, de um único “t” veio como uma criança frágil, mas mostrará uma grande força interior…

Breakfast With Scot” não é um filme para descobrir o final, mas sim para acompanhar todo o crescimento, ou não tão amadurecimento assim, dos personagens. Para refletir que enquanto se olhar com preconceito para aquele que quer assumir a sua homossexualidade, ficará intimidado. Tendo até quem sofra por isso. Por vezes,  a pressão é tanta, que vestir uma armadura não basta, se fazendo ver o em torno com lentes cor de rosa. E não é fuga, é se dar esse privilégio.

Eric, Sam e Scot vieram nos mostrar que também podem ser uma família mais que perfeita. Não percam! O filme é ótimo, para ver e rever! Até por ser mais um a mostrar que um casal homo também serão excelentes pais/mães, como o “De repente, Califórnia“.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Tudo Pode Dar Certo

Woody Allen no set de filmagem

Woody Allen envelheceu ou melhor, continua velho. Existem coisas que só o tempo pode nos dar. A idade nos permite certas regalias que na juventude são impensáveis. Woody Allen é assim, parece que nasceu velho e por isso critica com o desprendimento de quem não pertence a raça humana. É certo que aquela criatura rabugenta que descrê de Deus e de si mesmo é o próprio Woody. O filme  “Tudo pode Dar Certo” foi escrito há 30 anos, logo Woody há 3 décadas, já era “deus”, dono de uma rabugice bem humorada e não acreditava mais na humanidade. Ele ostenta um invejável currículo com 44 filmes, invejáveis elogios e também invejáveis críticas, afinal quem com a crítica fere, com ela será criticado. O que filme tem um título otimista de mais diante do original Whatever Works” é uma aula de deboches e sarcasmos de, boas atuações e ótimas piadas.

Dirigindo-se despudoradamente à platéia, no melhor estilo Machadiano, aBoris Yellnikoff (Larry David). Interpelando a platéia cinéfilapersonagem principal do filme , Boris  Yellnikoff (Larri David), recusa-se a enganar seu cérebro com remédios para depressão e pâncio, declara nos minutos iniciais do filme que “ este não é um filme alegrinho e se é isso que estamos procurando, devemos procurar uma massagem para os nossos pés e a cada tentativa de suicídio, encontramos motivos para rir. Ele  começa metralhando a humanidade que fez com que “suas melhores idéias como o socialismo e o cristinaismo fracassassem por “pressuporem a idoneidade moral, a decência dos homens”. Certamente que um judeu pode dizer ao mundo que “pais interessados na educação dos filhos, deveriam levá-los para passar as férias num campo de concentração”,  em contrapartida qualquer cidadão pode sugerir que a sua sogra faça um passeio no Museu do Holocausto…

“Tudo pode dar Certo”, configura  90 minutos de diversão, onde um velho ranzinza de QI elevadíssimo, quase indicado ao Prêmio Nobel, com ataques de pânico, crises de hipocondria e uma crônica descrença na humanidade e um medo da morte maior que tudo, se dirige a nós, esfregando-nos na cara onde exatamente estivemos errando nos últimos anos ou desde sempre…. “Visão global”, inteligência ou esquizofrenia? Jamais saberemos pois nos  filmes de Woody Allen, somos todos  loucos e também pagantes por uma arte que nos leva a rir do que não pode dar certo.

Boris, quando não está reclamando da vida e conclamando os amigos a entender que tudo está errado e que a vida não presta ou atormentando e torturando os seus alunos de xadrez, dá-se a chance de amar, uma criaturinha estúpida cuja beleza ele vai percebendo no dia-a-dia. No início do filme ele termina um casamento desgastado pelo excesso de possibilidades de dar certo, plausível então, tentar o relacionamento com aquela que teoricamente não oferece a menor possibilidade.

Relaxe, apure os ouvido, se o seu inglês não está lá essas coisas, privilegie as legendas. Assistido sem olhos críticos, o filme é uma deliciosa fábula do quanto podemos ser felizes, quando desenvolvemos a capacidade de nos desapegar dos conceitos que nos fazem infelizes por vivermos numa sociedade que o tempo todo nos pede satisfações sobre nossos atos mais íntimos. No zoológico humano de Wood Allen, tudo realmente dá certo: Tem sempre um jovem lindo e paciente (Henry Cavill) para a loira burra (Evan Rachel Wood) que simples e esforçada leva o gênio a descobrir com simplicidade a própria simplicidade sem modéstia alguma.

Tem a mulher interiorana (Patrícia Clarkson)  de meia-idade repressora e reprimida, exercitando os anos 70, que ao descobrir-se artista passa a viver de arte e conviver num casamento triplo. Tem a constatação que muitos são religiosos e membros do clube do rifle, no filme representados por (Ed Begley) por pura falta de coragem de buscar coisas melhores para fazer.

Sim, existe possibilidade de felicidade no mundo, numa grande cidade, o que não existe são cérebros inteligentes com funcionamento perfeito, pois isso é prerrogativa exclusiva do bom e velho Boris que ainda assim, ao final do filme questiona se ainda haveriam espectadores na platéia a assisti-lo. Sim, Boris ficamos aqui, afinal nunca a infidelidade, e morte, a dor e transtornos psíquicos foram tão divertidos.

Se eu tivesse que dar nota para este filme, daria 8 pelo conjunto da obra, mas pelos risos que me provocou, certamente  seria 10… É bom poder rir daquilo que jamais deveríamos ser.

A grande pergunta que me faço: teria Woody Allen, algum dia lido Machado de Assis?

Título original: Whatever Works
Gênero: Comédia, Romance
Direção e Roteiro: Woody Allen
Elenco:Larry David (Boris Yellnikoff), Evan Rachel Wood (Melodie Celestine), Patricia  Clarkson (Marietta), Henry Cavill (Randy James)

Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate)

Notamos no filme “Morango e Chocolate“, a pura expressão de um país que sofreu grandes choques e mudanças que influenciou na sua economia, política e na sociedade. Um confronto entre comunista, republicanismo e socialista.

Fica explícito a realidade social do povo cubano em suas inúmeras facetas, visando apontar as contradições e a resistência de ações e modo culturais que são preservados até os dias atuais.

O autor Tomás Gutierrez faz uma breve reflexão da situação que se encontrava Cuba; mostrando pontos que nos leva a reprojetar a realidade atual do povo cubano.

As diversas fotografias e imagens, que em diversos momentos apareceram no filme, identificam os principais influenciadores do manifesto cubano, pessoas que eram consideradas mitos em meia a revolução como Lênin, Castro, Engels, Marx e Che Guevara, estes são que revolucionaram e mudaram a história do povo cubano.

Ideais que estavam presentes logo após a segunda Guerra Mundial, nos principais movimentos estudantis de protesto contra o governo populista, tentando derrubar o autoritarismo das classes privilegiadas; buscando a liberdade plena de seu povo.

Quando falamos em possibilidade didática, fica clara a sua presença ao longo do filme, porque o papel dele é transmitir a realidade a qual o povo de Cuba era e é submetido nos dias de hoje.

O filme se qualifica na arte e técnica de ensinar ou transmitir de forma direta as contradições de uma realidade diversa. Assim o autor do filme utiliza uma metodologia que nos instruí a refletir a história por completa de Cuba.

Na trama é visto com clareza a representação literária através da música, da arte, da fala que é representada nas imagens e estátuas Barrocas, que David coleciona em sua casa.

No entanto o conteúdo do filme da ênfase no autoritarismo do governo, a qual não permitia a liberdade de expressão. Diego faz um papel de um artista cubano que enfrenta o preconceito, em uma luta a qual são submetidos não só os homossexuais, mas as mulheres, as crianças e uma grande parcela que pertencia a classe baixa da sociedade, ficando nítido o preconceito, em meio a pessoas diferentes, mas com objetivos iguais.

Portanto o filme mostra uma realidade de ângulos diferentes, lados opostos; levando a conclusão que duas ou três realidades vividas por distintos indivíduos; assim representado pelos personagens David e Diego, nos esclarecem numa mesma história, a qual é vista por pontos diferentes, porém com sentimentos igualmente nacionalista.

Por: Dhiogo José Caetano – O Pensador. http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=68116 .

Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate). 1994. Cuba. Direção: Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío. Elenco: Jorge Perugorría (Diego), Vladimir Cruz (David), Mirta Ibarra (Nancy), Francisco Gattorno (Miguel), Joel Angelino (Alemão), Marilyn Solaya (Vivian), Andrés Cortina (Padre de Santeria), Antonio Carmona (Namorado). Gênero: Comédia, Drama. Duração: 108 minutos.

Curiosidade: Vencedor de inúmeros prêmios internacionais, sendo o primeiro filme cubano indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Morango e Chocolate é um dos grandes filmes da década de 90.

Sinopse: Cuba, 1979. David, um jovem universitário e militante comunista, conhece Diego, um professor homossexual. Entre os dois, nasce uma amizade que enfrentará os preconceitos da sociedade e do regime cubano.

Pecado da Carne

Através de uma comunidade muitíssimo ortodoxa ficamos de frente para a realidade de muitos aspectos que a nossa sociedade moderninha mantem…

Esse é o filme perigoso para se demonstrar opinião, pois que o mínimo que se revele poderá ser um inconveniente spoiler. O andamento é lento e torna-se tenso por nos deixar nas cenas iniciais em expectativas. Algumas vezes pensei: não isso não vai acontecer, não com ele, não com este… Não será agora… Ai, meu deus vai chegar alguém…
Então vou contar para vocês, assistindo a este filme de Haim Tabakman eu assisti 3 filmes: O filme propriamente dito mais o filme que a minha expectativa criou ; o inevitável filme que surge do insistente link filme x realidade: Vida numa locação distante x vida nossa de cada dia. Na minha ignorância quanto aos hábitos dos judeus ortodoxos, houve ainda o filme que não percebi.
Confesso que permaneci estática diante da constatação que criticamos todo um modo de viver e seus valores retrógrados e estamos convivendo com eles e muitas vezes alimentando-os.

Como é viver, uma vida que não se escolhe, abraçando realizações que se tivéssemos conhecimento de outras opções não abraçaríamos?

Como é descobrir de uma hora para outra que não somos o que pensamos que somos?

Como é descobrir que se viveu por algo que no fundo não era o que queríamos?

Como é depois de um fato que mostra uma vida nova, descobrir que se estava morto? E perceber que a nova vida é impraticável dentro de todos os valores que com sinceridade creditávamos?
Como será saber-se infeliz e incompetente para seguir o que nos faz feliz?
Pecados da carne, mostra que o pecado da carne está na alma, no sangue, no desejo. Podemos viver toda uma vida mergulhados em preconceitos sem que sejamos preconceituosos. A falta de horizonte nos levará a sobrevivermos mortos, com atitudes que não perceberemos jamais…
Aaron é um judeu que vive sossegadamente num bairro kosher de Jerusalém. Vive sua vidinha, tem uma esposa e 4 filhos. Herda o açougue do seu pai e quando tudo estaria na mais santa paz, surge Ezri. Um jovem bonito, também judeu cujo lado ortodoxo é apenas o lado de fora. Ezri, estudou e sabe desenhar. Aaron daria a vida para ter estudado. Se estamos num dia de sensibilidade aguçada, aí já perceberemos que Aaron sente coisas que não entende por falta de oportunidade, pelo estreitamento de horizontes que as tradições fabricam. Exatamente como qualquer um de nós.

Nesse bairro, existe uma “patrulha da decência”, um grupo de jovens, que observam e vigiam a vida alheia e uma vez que esta não esteja de acordo com os valores do seu admirável mundo antigo, eles invadem casas, espancam pessoas com a finalidade de fazer valer sua moral e bons costumes. Assim, interferem no relacionamento de um casal com a mesma propriedade que interferem em qualquer outra coisa que não esteja em sintonia com as tradições. Ezri é um proscrito, um sem lar, sem família, sem teto, sem nadam mal falado e ainda abandonado pela pessoa que fora encontrar. Essa pessoa, um rapaz, a mim pareceu ser simplesmente a personificação do que pode se transformar alguém numa sociedade atrasada, sem respeito individual, onde um ser humano deveria se comportar assim como os bichinhos da “Marcha dos Pingüins”…

Quando encontramos algo que nos atrai e fascina é certo que iremos colorir com qualquer tinta a fim de se evitar a perda. O desejo tem o fascínio dos grandes abismos!

Foi assim com Aaron. O rabino na sinagoga diz que deus não quer que o homem sofra, por isso nada deve ser proibido. Aaron entende que o sacrifício é agradável aos olhos de Deus e quando ele se vê frente à uma nova realidade está certo de que tem os recursos necessários para vencer a tentação e transformá-la numa aquisição lícita – provavelmente uma forma que ele inconscientemente encontrou de não cumprir a norma ditada por sua “casta”. Mas repito e acredito: o pecado da carne está na alma e no coração também… Isso me lembra os jesuítas com a missão de levar as almas indígenas para Deus através da imposição religiosa o que muitas vezes resultou em abusos e índias grávidas; me faz recordar os cruzados defendendo o pensamento divino na ponta da espada … Até que ponto defendiam seus ideais? Até que ponto uniam o útil do cumprimento dos seus deveres vigentes, as regras de um pensamento num determinado contexto social com a oportunidade de alimentar seus latentes desejos?

Pecado da Carne” é um filme que mostra o lado frágil de quem encontra a sua verdade e não acha um meio termo conciliatório.

Desaconselhável para homofóbicos de qualquer idade. Os judeus já tem o seu “Broback Montain”, embora o diretor Eytan Fox (Bubble, Delicada Relação, Walk on Water) use sempre a homossexualidade como plano de fundo em seus filmes, O pecado da Carne é contundente por ir diretamente ao ponto: religião X homossexualidade

Não assista se as situações de injustiças lhe causam náuseas, pois entristece ver o que o pensamento externo pode fazer com o que se tem por dentro, mas certamente é um filme para ser assistidos por todos, embora muitos , se reconhecendo, não aceitarão, acostumados que estão a não aceitar o que por motivos diversos não vivem, certamente dirão que não é um bom filme, o que não é verdade.

Pecado da Carne . Einaym Pkunhot (título original) Eye wides Open (título internacional). Israel. 2009. Drama. Direção: Haim Tabackman. Roteiro: Merav Doster. Elenco:Zohar Shtrauss, Ran Danker, Tinkerbell, Tzahi Grad, Isaac Sharry, Avi Grainik.
Trilha Sonora: Nathaniel Mechaly

Direito de Amar (A Single Men. 2009)

Foi inevitável a confusão entre o belo drama “A Single Man” (Direito de Amar) estrelado por Colin Firth-, com “A Serious Man”- o drama de humor negro dos irmãos Coen. Além da semelhança dos títulos, ambas enredos se passam na década de 1960, e ambos contam a história de professores universitários. Tanto Firth e Michael Stuhlbarg dão um show nos seus respectivos papéis.

Em “Um Homen Sério,” os irmãos Coen ironicamente saciam o hábito de desafiar a inteligência de sua audiência com um enigma. O acessível “Direito de Amar”, Tom Ford bota toda a sua atenção sobre as pequenas coisas na vida: desde a alegria de uma crianca, a importancia de um filhote de cachorro, a uma oferta de amizade – e, todas elas provocam uma resposta emocional visível em George (Colin Firth) para superar o luto.

Baseado no romance de Christopher Isherwood (infelizmente, ainda não li!), narra a historia de George, que, cansado do luto pela morte repentina de seu parceiro de longa data, Jim (Matthew Goode). O personagem Jim aparece no filme através de flashbacks (sabemos da noite em que ele e George se conhecem numa festa, e da sua morte num acidente de carro. Mas a ausência dele é sentida através da dor de George (magistral atuação de Firth).

Nas primeiras cenas do filme, George diz em “voiceover”: “Pela primeira vez na minha vida, eu não posso ver o meu futuro. Cada dia que passa em uma neblina… Mas hoje, eu decidi, vai ser diferente.” Num tom de voz bastante otimista, a cena é seguida pela imagem de George colocando um revólver em sua pasta. Depois, ele leva a vida como num dia comum: vai ao trabalho, e nas suas palestras para os jovens alunos, ele acusa a sociedade americana sobre a manipulação do medo; mas tarde, ele compra balas para o seu revolver. Logo a seguir, George vai ao banco, e depois, tem um jantar com uma velha amiga, Charley (lindamente interpretada por Julianne Moore). Exteriormente, George parece “destruido”, mas ele insiste que está bem, mesmo quando dança alegremente com Charley ou flertando com um espanhol em um belo parque de estacionamento. Mas, as visões de Jim voltam para ele, lembrando-lhe o que ele perdeu. Mas, ainda fica no ar: Será que ele vai se matar, ou não?

O retrato cru e honesto de Firth ajuda um pouco a inconvencional fotografia de Eduard Grau, que sutilmente vai modificando a saturação da cor do filme em momentos-chaves para transformar George de pálido e deprimido a quente e brilhante (confirmando que George é um homem que controla seus sentimentos). É um toque maravilhoso e emocionante, e um exemplo perfeito da sensibilidade que Tom Ford traz para o seu filme. O mis-en-scène passa o realismo, em que me vez sentir nos anos 60: as roupas e carros, o cabelo e maquiagem dos personagens, e a mobilia das casas. Mas, ao mesmo tempo, ficou a impressão que não existia gente feia nos anos 60, principalmente através dos olhos de George. A todos que ele dá um ‘close’, não são menos que perfeitos: desde a estudante que parece uma copia da Brigitte Bardot, o miche, o estudante interessado em George, até aos dois homens jogando tenis, e assim vai. Também, achei que Ford exagerou nos “close ups” e o uso de “slow-motion” me pareceu sem sentido, as vezes!

O filme faz uma meditação melancólica sobre o amor, a morte e a vida.

No final da última noite da vida de George, ele se depara com Kenny, (Nicholas Hoult) – o aluno impetuoso e sedutor. A presença desse personagem tem um valor forte para o conjunto do filme como um todo. Ele, jovem e lindo, mas mesmo assim triste, rebate ao experiente George. Na verdade, é na dor de Kenny que George encontra a alegria na vida. E, isso me fez ver o valor do ser humana encontrar paz na dor aparentemente insuperáveis e tragédias. Tudo parece não ser como antes, mas o filme mostra que enquanto o mundo à nossa volta continua a girar, há sempre uma esperança.

A trilha sonora de Abel Korzeniowski é espetacular. Ele emprega variações melódicas e transições suaves de tons para criar um mundo de emoções que complementam o diálogo e a expressão facial de George. A trilha adciona musicas de Shigeru Umebayashi, compositor de Wong Kar-wai. As musicas nesse filme falam quando devem e mantém o silêncio quando o silêncio é mais necessário. Surpreendente(!), e que muito me fez lembrar dos trabalhos de Philip Glass.

Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos)

Não se incomode com o fato de não haver novidades no mais recente filme de Pedro Almodóvar: Abraços Partidos.

Lá está um emaranhado de situações confusas, dramáticas, engraçadas e curiosas que vão convergendo no final; um diretor de cinema problemático que é seu alter ego; uma atriz radiante e glamorosa, no caso, a excelente Penélope Cruz e muitas citações de arte como filmes importantes (Ascensor para o Cadafalso, do Louis Malle) e pinturas famosas (Les amants, de Magritte).

Na verdade, tudo é motivo para as cenas resplandecerem na tela grande e fixarem-se na memória quando Almodóvar está dirigindo. Do quadro banal de uma lágrima no tomate ou da aplicação de um cílio postiço até o impressionismo impresso na granulação planejada de um beijo filmado pouco antes da morte.

O diretor acertou em repetir a sua velha receita. Saiu tudo perfeito como um bolo simples de fim de tarde.

Carlos Henry.

Do Começo ao Fim

Fui assistir, não nego, com muitas expectativas. Quase todas frustradas, talvez por termos expectativas dentro daquilo que conhecemos ou sabemos que existe. Li por aí que esse filme viria para chocar, mas o que vi na telona foi um filme que veio pra agradar aos olhos dos expectadores com bom gosto estético, apreciadores de corpos masculinos jovens e lindos. Do Começo ao Fim é um conto de fadas ou um conto de elfos, maldito, mas ainda assim um conto de fadas (elfos)

Dois meio-irmãos (apenas por parte de mãe) são tão unidos que se tornam íntimos e de tão íntimos se tornam amantes. A mãe (Júlia Lemmertz) cedo percebe e mediante a dúvida de estar maculando a grande afinidade infantil dos irmãos ou mesmo despertar a “maldade” neles, deixa a cargo do filho mais velho a responsabilidade lhe contar caso venha a perceber algo ‘diferente’ nos seus sentimentos em relação ao irmão. Seu ex-marido e pai do filho mais velho, percebe e conversa com a ex-esposa que lhe diz que isso é coisa de criança, afinal eles são muito novinhos.

A platéia convive-se com os dois irmãos ainda meninos por um período tão longo do filme e eles se transformam em adultos de uma forma tão repentina, que possivelmente não se enxergue ali, os dois irmãos e sim dois amantes, de forma que o choque prometido ficaria por conta de héteros homofóbicos que porventura estivessem na sala de projeção (o que felizmente, não foi o caso da sessão que assisti, afinal, é mais do que desagradável encontrar homofobia em qualquer lugar que seja).

Para pessoas acostumadas ou curiosas em ver beijo entre iguais, propagandas de creme de barbear, notebooks iMac, ondas e praias ou quem sente saudades do bom e velho fusca conversível e para aqueles que não tenham muita pretensão que não a de se deleitar com a beleza física dos atores, o filme é o calmante certo para uma noite de sono tranqüila.

Para os gays que desejem desestressar, esquecer as durezas da vida, descansar do preconceito e dos amores impossíveis é a história perfeita! Imagine um mundo onde você possa buscar o grande amor da sua vida na maternidade.  Que possa conviver com ele desde sempre, numa vida confortável, numa casa de luxo com toda a privacidade. Imaginou? É o paraíso “Do Começo ao Fim”.

Bem, para não parecer a história de Adão e Adão no paraíso: Pedro (JEAN PIERRE NOHER) é ex-marido de Julieta (Júlia Lemmertz) e ambos são pais de Francisco (JOÃO GABRIEL VASCONCELLOS). Pedro foi namorado de Rosa (Louise Cardoso) e Rosa mora na casa de Julieta, que agora casada com Alexandre (FÁBIO ASSUNÇÃO) tem o segundo filho, Thomás (RAFAEL Cardoso). Thomás é narrador em off do filme e começa contando que nasceu e demorou duas semanas para abrir os olhos fato que sua mãe não se importou, por pensar que quando ele estivesse pronto abriria. O bebê Thomás por sua vez só abriu os olhos quando viu o meio-irmão mais velho. Eis aí uma história, pois de predestinação!

Se por um lado temos a mãe que percebe o excesso de intimidade entre os irmãos e prefere fechar os olhos para isso, por outro, temos o pai que não sabemos exatamente o quanto enxerga desta situação. O roteiro tem uma maneira muito prática de eliminar as supostas dificuldades da vida conjugal dos meninos representadas pelas pessoas mais próximas. As que permanecem, se suspeitam não comentam. As que poderiam comentar ou gerar qualquer entrave, não existem. O pai,se percebe prefere amá-los à distância de modo a deixar espaço e privacidade para que desfrutem em plenitude o amor que sentem um pelo outro que chega às vias de fato com a doce libertação causada pelo desaparecimento da mãe.

Que mundo feliz!

Esses meninos não tiveram crise de adolescência, dúvidas angústias nem mesmo incertezas e inseguranças inerentes à sexualidade adolescente em ebulição face ao desejo por uma pessoa do mesmo sexo.

Que maravilha!

A primeira transa é desencanada, repleta de decisão quase um jogo que apesar de plasticamente viável e interessante, vem na sequência de uma cena que a faz ficar pouco provável. Por fim, o drama que chega com possibilidade de separação dos meio-irmãos-amantes, abre um pequeno leque de novas oportunidades que não empolgam.

Então ficamos assim:

Não faço idéia do que fazer com a informação que Louise Cardoso foi a namorada mais velha do atual marido da Júlia Lemmertz, mas aprendi que dois irmãos podem se amar e se entregar  com tranqüilidade a esse amor. Dois rapazes bonitos e saudáveis chegam virgens aos 21 e 27 anos, aguardando o melhor momento para efetivarem sua maturidade sexual. Pai e mãe podem olhar esse amor com plena naturalidade e pessoas ao redor não terão a menor curiosidade e sequer tecerão comentários a respeito. É possível beijar alguém com o rosto repleto de creme de barbear. Neste filme ainda participamos de  um teste de averiguação do nosso nível de canalhice, a partir da nossa imaginação conforme o que nos sugerem algumas cenas.

Este filme é o paraíso “Do começo Ao Fim”. A perfeição a serviço da imperfeição num mundo perfeito e improvável.

Interessante são as sessões lotadas com uma antecedência de dar inveja aos lançamentos de superproduções americanas. O Arteplex no domingo, sessão das 22:00 parecia Odeon às 21:00 na última sexta do mês!

Finalmente o público Gay vai ganhando seu mercado, conquistando seu espaço, mas seria realmente preciso lançar mão de um incesto pra falar de amor homossexual?

Por: Rozzi Brasil.  Blog Eh-Ventos do Bem.

Do Começo ao Fim. 2009. Brasil. Direção e Roteiro: Aluisio Abranches. Elenco: JULIA LEMMERTZ – Julieta; FÁBIO ASSUNÇÃO – Alexandre; LOUISE CARDOSO – Rosa; JOÃO GABRIEL VASCONCELLOS – Francisco; RAFAEL CARDOSO – Thomás; GABRIEL KAUFMMAN – Thomás (criança); LUCAS COTRIM – Francisco (criança); JEAN PIERRE NOHER – Pedro; MAUSI MARTINEZ – Lucrécia. Gênero: Drama, Romance. Duração: 90 minutos.

A Emoção Reprimida em O Segredo de Brokeback Mountain

Neste texto busca-se analisar o filme ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a partir da reflexão do ‘lugar’ da emoção tanto na ciência como na sociedade. Sabendo-se tratar de um tema fundamental para o indivíduo que é obscurecido pela vida social, a emoção passa a ser uma das temáticas mais recorrentes na Arte – como no cinema. Ela (Arte) expõe e desenvolve temas importantes, e inconvenientes, sem a obrigatoriedade de ampliação de questionamento e busca de solução – já que o que é exposto pode ou não ser tomado para si, podendo-se pensar na Arte como importante instrumento dessa significação no mundo.

Porém, especialmente no cinema, é na própria maneira de se apresentar ao espectador que a obra impacta emocionalmente e mostra sua força comunicativa. Em ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a emoção é trabalhada e tratada de maneira refinada. Trata-se basicamente de um filme de amor – romance como convém à classificação do cinema – porém a dificuldade da própria sociedade em absorver um romance homossexual o faz ser classificado como drama – talvez o grande drama esteja na própria constatação desse amor pelo público e na obrigatoriedade em aceitar aquilo que ali é posto.

Essa questão poderia, inclusive, ser alvo de maiores investigações, já que a emoção é construção (ou constitutivo) social e, neste caso, o medo existente em lidar com determinadas emoções pode ser relevante para a compreensão de quais emoções são valorizadas para o homem do nosso tempo.

Este romance expõe a história de amor entre dois típicos cowboys do interior dos Estados Unidos. A tomada inicial do filme nos apresenta uma paisagem erma e desoladora, tamanha a potência natural e a pequenez do homem e de sua ocupação. Todas as imagens causam um grande impacto na ‘subjetividade’ do espectador, atingindo suas necessidades cognitivas (de leitura de imagem) e provocando suas emoções.

As paisagens naturais são recorrentes durante todo o filme, estão presentes como cenário dos momentos românticos ou de conflito do casal central, já que seus encontros são sempre escondidos entre as montanhas de Brokeback. Esse cenário tornasse incrivelmente versátil, o que inicialmente nos provoca uma leitura de solidão total, ao longo do desenvolvimento da história passa a nos provocar emoções variadas como aconchego, paz, esperança, como se fosse o único local no mundo a possibilitar a realização de necessidades fundamentais à existência, onde se pode ser o que é – assim como aos protagonistas.

Após a primeira tomada que nos torna pequenos diante do que está por vir, os protagonistas (Jack e Ennis) se encontram em uma procura por serviço, ambos se olham disfarçadamente, mas não se cumprimentam. Somente na saída, após o empregador (Aguirre) confirmar o trabalho para ambos cuidando de um rebanho de ovelhas em Brokeback Mountain, Jack toma iniciativa e se apresenta a Ennis que, sem muita energia, diz seu nome e retribui o aperto de mão.

Podemos observar já na vestimenta e na postura dos dois cowboys diferenças relevantes, Jack tem uma aparência mais sofisticada, combinando suas roupas e procurando reforçar um estilo de peão de rodeio, cheio de iniciativa e élan se expressa com maior desenvoltura. Ennis é mais simples no seu vestir, humilde e tímido mantém seu olhar sempre baixo e não toma iniciativa.

Pensemos então no corpo como vitrine da identidade, confunde e carrega o sujeito de preconceitos e conceitos de si mesmo. Sendo o corpo e a alma partes indistintas de mesma matéria é no corpo que estarão materializados as emoções do sujeito.

Portanto, as diferenças (entre eles) que aparece ao longo de todo o filme, como características de personalidade influenciarão na sua maneira de lidar com os sentimentos e com as situações apresentadas pela vida. É em Brokeback Mountain, durante a execução do trabalho que os dois passam a se conhecer. Após uma grande emoção de medo e de perda, imposta por um urso, Ennis recusa violentamente os cuidados de Jack, mas passa a falar mais sobre si.

Outro momento marcante é quando resolvem mudar de posto, pois um sempre tinha que passar a noite no alto das montanhas junto às ovelhas enquanto o outro permanecia no pé da montanha cuidando do acampamento e da alimentação, e Ennis passa a noite sozinho. O isolamento faz Ennis tomar uma postura mais falante ao retornar; Jack até exclama que ele nunca havia falado tanto, Ennis responde: “Falei mais agora do que em todo o último ano.”. O carinho, admiração, consideração de um pelo outro já atingira grandes proporções, sempre havendo, de ambas as partes, uma certa ansiedade pelo encontro.

Naquela noite Ennis não volta para o alto da Montanha, apesar do frio insiste em ficar fora da barraca de Jack, este acorda durante a noite e ouve os gemidos de frio do companheiro, o chama para dentro, este vem correndo cai no colchonete e dorme. Jack acorda novamente durante a noite, pega a mão de Ennis e tenta masturbar-se. Ennis se afasta violentamente, Jack tenta fazer carinhos no rosto de Ennis, colando seus rostos e permanecendo assim. Com respirações ofegantes e se contendo em emoção pura, Jack tira sua calça e Ennis o vira de costas, eles transam violentamente, essa cena lembra mais uma luta – a luta interna de Ennis frente a emoção que se escancarava naquela situação.

No dia seguinte, Ennis olha ao redor, sai da barraca e monta em seu cavalo, não se dirige a Jack, ninguém saberá o que houve entre eles. Mas, ele viu, ouviu e sentiu, tem a certeza de que nunca mais será o mesmo. O seu julgamento interno e possível julgamento social é maravilhosamente representada por Ang Lee: Ennis sobe até a Montanha e encontra uma ovelha morta, dilacerada, com suas víceras reviradas, é assim que Ennis se sente?

Jack está olhando a paisagem, Ennis chega e senta em sua frente, não se encaram, o único comentário a ser feito: não são “veados”, e o que ocorreu só foi vivido ali e permanecerá ali em Brokeback Mountain.

A partir desse momento os dois se permitem viver o grande amor de suas vidas apenas naquele cenário. Os momentos que seriam os mais valiosos e verdadeiros de sua existência se passam ali, por 20 anos. Ambos constroem famílias, Ennis casa-se com Alma (como planejava antes de encontrar com Jack) uma mulher carinhosa, tímida, ‘caipira’, simples e com sonhos pequenos. Jack casa-se com Lureen, uma mulher forte, poderosa e cheia de iniciativa.

É interessante perceber como esses homens encontram mulheres que representam tão bem a sua própria personalidade, elas são seus alteregos mais perfeitos. Quando aparecem em sua vida cotidiana de homens casados, trabalhadores estão sempre infelizes, sozinhos – mesmo quando cercados de pessoas. Sempre aparecendo em ambientes fechados a solidão dos protagonistas é mais evidente e a pequenez de sua existência se faz mais clara do que na imensidão da montanha.

Desde o início Jack propõe a Ennis uma vida feliz em um rancho na montanha, porém o medo e a repressão social em Ennis são tão fortes que ele não vê esta vida como possível. Tornando a sua vida e a de Jack uma eterna espera por Brokeback Mountain. Os encontros são sempre curtos e inesquecíveis por sua potência.

Acreditando na ideia de que o bom é relativo ao sujeito – já que está ligado ao que é desejado e capaz de aumentar nossa potência de ação –, o único julgamento que caberia à sociedade é o do aproveitamento da potência de ser (ou do ser) e não o julgamento moral baseado em valores menores ligados ao medo do desconhecido e do diferente que atinja o conhecimento religioso vigente. Mas, no filme, é o medo do julgamento social que paralisa Ennis e o impede de ser e fazer feliz, sendo neste caso um mau sentimento, pois diminui a atuação do indivíduo e gera tristeza.

A questão central de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, que serve como questionamento até aos mais conservadores, é a dificuldade em expressar a emoção. Essa é uma questão essencial e, até agora, sem resposta já que a manifestação emocional é uma construção social e, em cada cultura, a possibilidade expressiva é diferente. Parte daqui, então, uma abertura para reflexões independentemente da compreensão e identificação com a história do filme. Ou seja, esta história não se finda com o aparecimento dos créditos finais.

Por: Carol Marola.