Apocalipse Now (1979)

apocalipse-nowSão duas versões: uma de 1979 e outra, chamada “Redux”, que significa revisitado. Recomendo que vejam ambas, necessariamente nesta ordem. Filmado nas Filipinas, por um elenco estelar, encabeçado por Martin Sheen, Robert Duval e Marlon Brando, com uma “pontinha” de Harrison Ford e a mais jovem aparição de Laurence Fishburn (aos 14 anos) no cinema. O roteiro é simples, o capitão Willard (Martin) deve subir o Rio Nung –que desconheço – e eliminar o Coronel Kurtz, que aparentemente ficou louco.

Mas enquanto o cenário adentra nas entranhas da floresta do Vietnam até o Camboja, os personagens mergulham em si mesmos numa trip sem volta. De reflexão, questionamentos e experiências e vivências pra lá de surreais. Não é um filme sobre a Guerra Americana (assim que ela é chamada lá) e sim é a Guerra do Vietnam.

apocalypse-now_01Barulho de helicóptero, os famosos Huei, misturado com ventilador. Aquele suor preguento e constante de Saigon, agora chamada de Ho Chi Min, e o som do “The Doors” ao fundo. Somente esta cena, já vale o filme. Diz a lenda que Martin Sheen machucou de verdade, pois estava mesmo alcoolizado.

Você surfa? Coronel Bill Kilgore ataca uma vila somente para isso e nem consulta as marés… Sua frase totalmente incorreta politicamente: “- Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã.” O vento causado pela convecção do bombardeio inverte o sentido das ondas. Não há sentido algum no que ele faz.  Impressionante o laranja estourado da fotografia com os helicópteros em silhueta e com a música de Wagner (poderia ser outro?). Vale ressaltar que agente laranja é um desfolhante e napalm é um veículo incendiário composto por ácidos naftémico e palmítico, daí o nome, juntado com gasolina gelificada.

Martin-Sheen_Apocalypse-NowO barco sobe o rio, composto por um condutor bem militar, dois garotos (o negro e o surfista), um chefe de cozinha e o capitão. A cada crise, um surto. A presença do tigre é só uma metáfora. Assim como o inocente barco cheio de comida e a mocinha sentada em cima do barril, escondendo o seu filhotinho de cão. O odor acre da morte contamina à todos e se espalha, a loucura; é epidêmica.

Há tempo para cada personagem se desenvolver e deixar-nos. Enquanto isso se choca cada vez mais o espectador ao ver que o capitão admira o coronel, pelo menos na teoria. Vamos ver na prática. O diálogo com os franceses é tenso, e verdadeiro. Estudiosos da guerra, sabem disso. Um muito sobre nada em lugar nenhum.

Marlon-Brando_Apocalypse-NowFinalmente o encontro com o mítico coronel, interpretado pelo não menos espetacular Marlon Brando. Está nas sombras, careca e barrigudo. Mas não tem jeito, é magnético, esse ator. O desenrolar beira o sublime, o poético. Sair d’água daquele modo é antológico. Filme vai terminar, você já sabe. Os homens fazem as guerras e as mulheres e as crianças é que sofrem.

O que há de bom: elenco antológico, roteiro denso e profundo, lições complexas

O que há de ruim: necessário rever repetidas vezes

O que prestar atenção: as cenas das playmates revelam que antes de tudo, elas são tão ou mais solitárias do que os soldados

A cena do filme: helicópteros, sejam voando, em formação, parados, transmitindo e servindo de abrigo e motel.

Cotação: filme excelente (@@@@@)

Giovanni COBRA

Contágio (Contagion. 2011)

Tão logo eu soube do filme, e reforçado depois nas primeiras sinopses divulgadas de “Contágio“, me veio a ideia de que seria como uma releitura de “Epidemia“. Em trazer para a atualidade a temática da propagação de um tipo de vírus mortal. Afinal, de 1995 para cá até o Cinema mudou. Ficção e Realidade ganharam novas tecnologias. Logo, não teria porque não atualizarem também em contar uma estória com essa temática. E enquanto aguardava, surgiram outras reflexões que foram desvendadas assistindo o filme.

Se o “bicho-papão” disseminador do de 95 fora um país africano, ficava uma curiosidade de porque nesse de 2011 escolherem Hong Kong. Um tipo de retaliação de cunho financeiro-político? Para ficarem mais no campo da ficção, do frango qual seria o animal da vez? Também vale lembrar de que mesmo que o “mal” tenha saído de um Laboratório dentro do próprio território – vide Antrax -, ou eles abafam o caso, ou novamente o Tio Sam posa de salvador do planeta. De mais a mais, algo letal e altamente transmissível é a galinha dos ovos de ouro de dois grande poderio: indústria farmacêutica e indústria bélica. Que vai desde espalhar um vírus num país de 3º Mundo para venderem vacinas aos milhões, até as armas biológicas.

Morre-se aos milhares de pessoas por dia, são estatísticas que só irá parar na grande mídia, se houver um interesse político, quer seja de um governo, ou de um gerenciamento de empresas. Mesmo assim, fica a interrogação de quando e porque ganha um interesse da parte deles? Segurança Pública é engolida pela Segurança de Estado. O proteger a nação como um todo vem em primeiro lugar. Mas mais parecendo acordos desencontrados. Algo como: a pesquisa em andamento no laboratório X não chega no andar de cima. As verbas sem justificativas não passam pelas burocracias das demais. Fica sempre a dúvida até onde vão as pesquisas a título de: encontrar uma cura depois. E sempre fica a interrogação também para saber como a OMS (Organização Mundial da Saúde) lida com uma estória como essa.

E nessa de atualizar, não podemos esquecer de um poder que já está amedrontando os governos atuais: a internet. Em como seria usado no roteiro desse filme. Para nós Blogueiros, diferente do filme “Intrigas de Estado” onde uma blogueira pensou mais no fato, em “Contágio” fez foi mostrar que também nessa mídia há uma imprensa marrom. Uma fala do filme já mostrava que seria por ai: “Blogging não é escrever, é pichação com pontuação“. O blogueiro em questão vai além ao resolver monetizar o fato. Farejou uma mina de ouro. Ele é Alan Krumwiede, personagem de Jude Law. Atuou tão bem que deu um pouquinho de raiva em vê-lo recebendo 2 milhões de acesso em busca de um milagre.

Contágio” começa no “segundo dia”. É quando a personagem de Gwyneth Paltrow, Beth Emhoff. Vinda de Hong Kong, adoece, vindo a falecer. Ela e mais três pessoas são as primeiras vítimas. Beth transmite a doença ao filho, mas o marido, Mitch (Personagem de Matt Damon), por alguma carga genética fica imune. Ele, e cada três pessoas de um total de quatro, não são contaminados. O tal vírus faz um tipo de seleção natural.

Se há vilões, o mocinho dessa estória fica a cargo de três personagens: Dr. Ellis Cheever (Laurence Fishburne), Dra. Erin Mears (Kate Winslet) e Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard). Ellis nos leva a ter esperança de que há abnegados entre os que se prestam mais a política. Sua ética profissional será pressionada também pelo seu lado pessoal. Já Erin será a voz e presença dele em meio ao campo de batalha. É a burocracia que não pode atrapalhar, mas sim funcionar diante de um quadro dantesco como esse: milhares de mortes. E Leonora irá montar as peças lá em Hong Kong. Tentar apurar o “primeiro dia”.

Contágio” conseguiu se sair bem nessa atualização do fato. Um roteiro enxuto que prende a atenção mais pela maneira de contar do que o suspense em si. Sem cair no drama, mostra de forma impessoal o que uma tsunami-viral afeta no dia-a-dia de cada um do planeta. Não dá aulas de higiene pessoal, até porque após o pânico, até esse tipo de cuidados vão aos poucos sendo deixados de lado. Basta lembrar o que ocorre com a Dengue no Brasil, a cada chegada de Verão, as Prefeituras se vêem as voltas com novas conscientização a população local.

A morte de muitos claro que entristece, ainda mais vendo que um simples gesto foi o propagador de tudo. Por outro lado, ao ver como Mitch realizou um desejo da filha, Jory (Anna Jacoby-Heron), também me comoveu. É! Vida que segue! É bom filme! Gostei! E pelo conjunto da obra dou Nota: 08.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Contágio (Contagion. 2011). EUA. Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns (O Ultimato Bourne). +Elenco. Gênero: Drama, Sci-Fi, Thriller. Duração: 106 minutos.

Apocalypse Now

”Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos… De novo
Você pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente… De alguma… Mão de estranho
Numa terra desesperada?”

The End, The Doors.

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O fim.
Como a Guerra transforma um homem? Porque ele se perde na ilusão de lutar por algo que ele nem ao menos está envolvido? Porque estar lá quando você não precisava estar? Porque estar lá quando você queria não estar lá? O começo da obra prima Apocalypse Now não é para ser assistida, é para ser sentida.

Numa seqüência primorosa, Francis Ford Coppola não economiza em doses exageradas de tensão e medo, no olhar já cansado do Capitão Benjamin L.Wilard (Martin Sheen) que mesmo sendo um produto da guerra, está farto dela. Mesmo sabendo que vai se arrepender, ele aceita a missão de adentrar a floresta, encontrar o Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando – monstro máximo do cinema) e matá-lo. O pobre Coronel enlouqueceu dentro da floresta, e planeja o fim de tudo na surdina. É dever do Capitão Benjamim evitar o pior.

Num barco capenga, acompanhado de três jovens soldados (entre eles um magrelo e iniciante Laurence Fishburne, com apenas 14 anos de idade) que passam o tempo fumando seus baseados, ouvindo rock’n roll no rádio e sonhando com o doce regresso ao lar. Junto deles ele começa a ver a guerra de outra forma, e verdadeiramente se sentir um produto dela, tornando-se algo perturbador consigo mesmo.

A trajetória de loucura e horror dentro do Vietnã é o foco de um dos filmes mais arrebatadores da história.

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Os anos 70 definitivamente pertenceram à Francis Ford Coppola. Vindo de 3 grandes filmes (O Poderoso Chefão I e II, A Conversação), ele pode finalmente levar as telas a adaptação do livro Heart of Darkness. Ele queria ter levado a história para o cinema dez anos antes, mas só pode ter o voto de confiança que precisava após os magníficos dois episódios da saga dos Corleone.

Gravado nas Filipinas durante 16 meses (vários problemas na produção quase comprometeram o filme, como por exemplo furacões que destruíram cenários, um ataque cardíaco sofrido por Martin Sheen, investimentos do bolso do próprio Coppola entre outros empecilhos), o filme não se omite em nenhum momento. Marca maior do Coppola é a verdade que ele consegue passar para o espectador. Todas as imagens que ele pode nos proporcionar, ganha uma digestão diferente sempre. Impossível assistir esse filme sem sair chocado, se sair pessimista com o mundo, sem sair com aquela sensação de ”putz, que merda.”, e o principal: sem ser enganado.

Diferente de outros diretores que fizeram filmes sobre o Vietnã, ele não quer emocionar e mostrar um EUA que sempre vence. Ele na verdade mostra um exército que se engana, um exército que se diverte, um exército de cowboys que querem se sentir em casa e nem sabem o que estão realmente fazendo ali.

De grosso modo, Coppola apenas mostrou o seguinte: foi assim que eles perderam essa guerra.

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Com uma maestria e total domínio do psicológico tanto dos personagens quanto de seus espectadores (ele não mostra o que você quer ver, mas sim o que ele sabe que vai te chocar e te prender a narrativa), Coppola nos insere num drama claustrofóbico, que piora a cada instante, com diálogos ferrados sobre horror, sobre o medo, sobre a solidão, sobre o fim. A sinceridade do filme é o que mais chama atenção.

Diferente de filmes como Platoon (curioso que quem protagonizou esse filme foi o filho do protagonista de Apocalypse Now, Charlie Sheen ) ou o equivocado e açucarado Fomos Heróis, é que em nenhum momento ele aponta heróis ou vilões, em nenhum momento ele te enche de comentários esperançosos, de que a guerra leva a total soberania do seu país, em nenhum momento ele quer te fazer refletir sobre os danos, mas o que ele quer na verdade é expor corajosamente quão difícil e complicado é viver no meio de tiros e pressão freqüente.

Seja na versão original de cinema, com 155 minutos de duração, ou a versão Redux, com cenas estendidas e cenas novas e 200 minutos, fica claro a mensagem de anti-guerra do filme. Fica claro a subversão do diretor em defender que isso não leva nada a lugar nenhum.

Como num diálogo do filme, entre o Coronel Kurtz e o Capitão Willard:

- Você é um assassino?
– Sou um soldado.
– Não é nenhum dos dois. É apenas um mensageiro, enviado para coletar uma dívida.

O objetivo não é ser político, não é ser informativo tampouco entretenimento, é pra ser anti-guerra, e explicitando tudo de ruim que ela pode proporcionar, mostrando que para quem a vive plenamente (sejam soldados ou vítimas), a guerra é o fim, e o fim pra eles está sempre mais próximo a cada dia.

E vindo de Coppola, não se pode duvidar de que haverá uma qualidade técnica e artística tremenda. Que fotografia incrível! Que direção de arte magnífica! que figurinos fiéis e impecáveis! Que atuações muito acima de qualquer nível! Que direção histórica!

Coppola é um dos maiores nomes do cinema. Seus filmes estão sempre envolvidos de uma áurea inexplicável. Só de assisti-los e já nos sentimos presos a uma narração que certamente nos levará a ver as coisas de uma forma diferente. Primeiro ele nos convence de que bandido tem família e não a mistura com negócios, depois escancara para o mundo todo os horrores da guerra, depois fez viagens experimentais sobre a juventude e o cotidiano, definitivamente um diretor corajoso e completo. Os anos 70 realmente ficam marcados pelo que ele representou em seus filmes.

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Mas um de seus maiores legados, justamente está nos talentos que ele apresentou ao mundo. E em Apocalypse Now não é diferente. Harrison Ford, Laurence Fishburne entre outros, e claro, a consolidação de veteranos como Robert Duvall, Martin Sheen e do dinossauro Marlon Brando. Cada um deles tem seu momento no filme, e nenhum deles puxa o tapete um do outro.

Trilha sonora do fim do mundo, a Valsa das Valquírias eternizou uma seqüência de ação e entrou para a história. The End do The Doors marcou todas as intenções do diretor e a trilha de Carmine Coppola e do próprio diretor vai além daquelas músicas que te deixam mais vidrado na emoção, como é feito hoje em dia. São músicas vicerais, músicas que incomodam, mas acima de tudo, músicas que criam o clima perfeito para o que o filme vai mostrar.

O domínio técnico, aliado a uma boa história, e as mensagens que o diretor nos faz enxergar ao longo do filme, fecham um ciclo perfeito. Como disse anteriormente, Apocalypse Now não deve apenas ser assistido, mas sentido. Quem captar as mensagens que Coppola quer nos dizer, certamente, saberá quão ruim e desastroso pode uma guerra ser, na vida de quem a sente, na vida de quem diretamente participa, na vida de todos nós.

Obra de arte cinematográfica!

Nota: 10.

Apocalypse Now, 1979

Direção: Francis Ford Coppola.
Atores: Marlon Brando , Robert Duvall , Martin Sheen , Frederic Forrest , Albert Hall.
Duração: 02hs 35 min

Desmontando a Trilogia MATRIX

Matrix_poster

Por: Guilherme Cunha.

O livro Neuromancer. A HQ Os Invisíveis. Os filmes Tron, Equilibrium, Cidade das Sombras, Johnny Mnemonic – O Cyborg do Futuro e O Show de Truman. As animações Ninja Scroll e Ghost in the Shell. Todos eles podem ser considerados fortes influências para os irmãos Andy e Larry Wachowski criarem o fenômeno Matrix. Devido a isso choveram acusações de plágio que perderam força com o tempo. Afinal, por que nunca acusaram estas obras de se plagiarem entre si?

matrix_movieO filme original Matrix estreou em 1999 contando a história do hackear Neo (Keanu Reeves), que começa a receber recados no seu computador de um grupo de pessoas misteriosas que vestem couro preto e usam óculos escuros, encabeçadas por Trinity (Carrie Ann-Moss) e Morpheus (Lawrence Fishburne). Seu contato com elas é monitorado por autoridades igualmente misteriosas que vestem terno e gravata e também usam óculos escuros, lideradas pelo Agente Smith (Hugo Weaving), que aconselha Neo a se manter afastado do outro grupo, criando um dilema bem kafkiano para o personagem.

Matrix_Morpheus-red-or-blue-pillMas o protagonista segue sua natureza curiosa e vai encontrar Morpheus numa noite chuvosa. Dentro do quarto deste, Morpheus lhe fala sobre a Matrix. O problema é, como próprio diz, “Não se pode explicar o que é Matrix. Você tem que ver para crer.” Ele oferece a Neo a ingestão de duas pílulas, vermelha ou azul, que decidirão seu destino. Uma o fará esquecer do encontro pra sempre e a outra terá o mesmo efeito de Alice quando entrou no País das Maravilhas. Nem preciso dizer que ele seguiu o coelho branco.

Numa das reviravoltas mais chocantes do cinema o quarto ao redor de Neo se desfaz e ele acorda nu e sem cabelo num casulo gosmento, semelhante à nave alienígena do filme Fogo No Céu, e com um plug na cabeça. Resgatado pela nave Nabucodonosor, onde estão Morpheus, Trinity e os demais, e Neo surta ao se dar conta que passou toda sua vida num mundo de realidade virtual que mimetiza a Terra da nossa época criado pela Matrix, uma gigantesca inteligência artificial que dominou o mundo num futuro pós-apocalíptico escravizando os humanos e usando-os literalmente como pilhas, conforme Morpheus revela numa das cenas mais emblemáticas do longa. Os poucos humanos livres vivem numa cidade debaixo da terra se escondendo de máquinas gigantes que vêm caçá-los para alimentar a Matrix.

Matrix_NeoUsando um sistema especial algumas dessas pessoas conseguem entrar e sair da simulação de realidade, mas são sempre caçados por agentes como Smith que agem tais como anti-corpos ao perceberem uma ameaça ao “organismo”. A razão para Neo ter sido libertado é porque, segundo uma profecia, ele seria o escolhido para livrar o povo e vencer a Matrix. A partir daí começa a verdadeira história e esse é um dos pontos fracos da obra dos Irmãos Wachowski. A concepção que eles imaginaram é mais interessante que o seu desenrolar.

O filme original segue com o treinamento que Morpheus dá a Neo, o que pelo menos pra mim já desemboca no primeiro absurdo conceitual da franquia.

Por que diabos alguém teria que aprender artes marciais pra enfrentar inimigos dentro de uma simulação da realidade? Por que, em vez de uma luta “corpo-a-corpo” eles não criam armas virtuais maiores do que as que estavam usando? Se se pode simular uma metralhadora porque não simular uma bomba atômica ou uma carta de antrax?

As lutas e mesmo os tiroteios são puro fetiche relacionado a videogames e soam muito estranhos.

Matrix_OracleTambém é apresentada uma personagem que vive dentro Matrix, a Oráculo, que aparenta ser uma doce velhinha que assa biscoitos, mas é uma espécie de sábia que dá as dicas paras os rebeldes enfrentarem a Matrix. É ela quem indica a Neo seu difícil destino, que é ligado ao de Trinity.

Matrix_CypherEnquanto isso, Cypher, um dos homens do grupo de Morpheus, faz um acordo com o Agente Smith e decide trair seus companheiros em troca de poder voltar para a Matrix. Esse é um dos pontos intrigantes da trama, pois questiona o fato de que a vida dentro da realidade virtual é melhor que a da realidade crua… afinal é uma vida de sonho. Porém, isso nos leva ao segundo grande absurdo do filme: por que, em vez do Cypher, esse questionamento não é do Neo? Porque simplesmente Neo não teve que sacrificar NADA ao deixar a Matrix! Ele era um homem solitário, não tinha amigos, família, nem mesmo grandes sonhos. Já do outro lado sua vida passou a fazer sentido, com um propósito, um mestre e até um grande amor. Tudo se encaixou bem até demais tornando o protagonista um personagem raso, que serve apenas ao ideal messiânico do contexto. Como Keanu Reeves é um ator carismático, ainda que limitado, acaba funcionando bem na proposta em tanto maniqueísta do longa, mas essa falta de humanidade inevitavelmente empobrece o filme.

Matrix_Agent SmithApós a traição de Cypher, que acaba morrendo por isso, Morpheus acaba capturado e Neo e Trinity vão resgatá-lo. A “vontade” de Smith em capturar Neo é tamanha que ele incorpora outros agentes, se tornando assim quase invencível, mas, durante o combate, Neo incorpora (ou mentaliza) uma natureza que lhe dá super poderes, com uma ajuda da Trinity que dá o beijo da bela adormecida no Neo na Nabucodonosor, enquanto sua versão virtual acaba derrotando Smith ao incorporá-lo e destrui-lo de dentro pra fora, para em seguida escapar da Matrix, a qual ele agora acredita poder derrubar num futuro não tão distante.

O filme fez sucesso especialmente com uma parcela em especial do público, hoje conhecida como geeks. Foram eles quem melhor sacaram os simbolismos e metáforas de um filme feito num tempo em que a internet ainda engatinhava e o computador doméstico ainda era um luxo, pelo menos no Brasil. Elementos como os personagens falando ao telefone discando um código pra sair da Matrix, o deja-vu de Neo com o gato que seria uma falha no sistema, Smith incorporando os agentes e Neo incorporando Smith, que nada mais seriam que ações de download, entre várias outras coisas, são na verdade símbolos de situações de rotina no mundo da informática. Agregado a isso a várias noções filosóficas, especificamente o Mito da Caverna de Platão, e religiosas, especialmente ligadas ao gnosticismo, incorporadas à trama.

Matrix_Bullet TimeInfelizmente para o público não-geek, no qual me incluo, já é dificílimo captar as nuances mais superficiais desse universo. Imagine então as mais complexas. Claro que o grande público terminou fisgado pelos espetaculares efeitos especiais, principalmente o imitadíssimo bullet- time (que durante um tempo era sinônimo de Matrix), que roubavam a cena da trama. O que nos leva ao terceiro grande absurdo sobre Matrix: Como é que uma obra cuja proposta é criticar a escravização do homem pela tecnologia moderna pode ser tão dependente do que há de mais moderno em tecnologia? Sim, pois sem os efeitos especiais, será que o roteiro se sustentaria da forma como é apresentado?

O sucesso da ficção científica motivou os Irmãos Wachowski a dirigirem mais dois filmes de uma vez, especialmente depois que O Senhor dos Anéis fez trilogias virarem moda em Hollywood. Muitos apontam as continuações como o grande mau que afligiu a franquia.

Matrix Reloaded Em Matrix Reloaded, de 2003, é mostrada Zion, a última cidade humana. Lá as pessoas se dividem entre os que acreditam que Neo será o seu salvador e os céticos. Infelizmente no começo do segundo filme, Neo já conheceu bem o lugar e não há como pôr o público no lugar dele e introduzir esse elemento de forma mais palatável. Com a entrada de outros personagens da resistência, Morpheus e Trinity vão se tornando cada vez menos relevantes, ainda que os Wachowski tenham buscado meios de desenvolvê-los mais.

Descuidaram-se, no entanto, ao cometerem um dos piores erros de edição da história do Cinema, NÃO mostrando um plug na nuca do Neo quando este chega em Zion, sendo que o plug não havia sido retirado quando ele foi libertado da Matrix no primeiro filme, nem de ninguém que era libertado. Aliás, logo depois o plug volta à aparecer na cabeça dele misteriosamente. Essa cena levantou um sem-fim de teorias sobre ele nunca ter deixado a Matrix ou o suposto mundo real dos filmes também ser a Matrix, mas aparentemente foi só um erro grosseiro dos realizadores mesmo.

Matrix Reloaded_RaveSeguido por outro grande erro, que foi a festa rave. Não tenho nada contra festas raves, mas é patético que o último resquício da civilização humana seja uma rave. Você não vê sequer uma feira-livre que seja em Zion, mas as raves resistiram. Pior que isso. É inconcebível que a festa seja realizada num futuro distante pós-apocalíptico exatamente como é nos dias de hoje, com o mesmo tipo de dança, as mesmas luzinhas… a cultura e a sociedade ao redor são brutalmente diferentes, mas o estilo das raves se mantiveram intactos. Impressionante.

Matrix Reloaded_PersephoneDentro da Matrix, os rebeldes seguem as instruções da Oráculo e vão atrás do Chaveiro, que como o nome indica tem a chave para os segredos da inteligência artificial, enfrentando pelo caminho diversos personagens que são versões de programas de computador com aparência humana, tais como o Chaveiro e a própria Oráculo. Pra alívio do público um deles, Perséfone, tem a cara e o corpo da Mônica Belucci, um bálsamo que descansa a nossa vista no meio de tanta poluição visual, pois o problema mais uma vez é que pra um público não-geek o máximo que se vê é ação com estética de videogame, e esses personagens nada mais seriam que os vilões da fase intermediária.

O rolo aumenta quando o Agente Smith volta, cada vez mais independente, para se vingar de Neo. Agora ele pode incorporar qualquer pessoa na Matrix, criando um exército de clones para enfrentar Neo, numa cena estupidamente exagerada nos efeitos especiais aonde podemos ver claramente quando Keanu Reeves e Hugo Weaving são substituídos por polígonos que parecem ter saído da lixeira de projetos descartados da Pixar. A verdade é que essa cena só existe porque Neo e Smith precisam lutar em todos os filmes.

Matrix Reloaded_TrinityNo correr das batalhas Trinity morre e é ressuscitada por Neo com seus poderes, numa sequência ainda mais clichê que o beijo que ela dá nele no primeiro filme. É quando Neo fica cara a cara com o Arquiteto, o mais importante programa-que-parece-humano-mas-não-é da Matrix, pois seria uma espécie de porta-voz da mesma. Numa cena em que os Wachowski claramente buscam o mesmo efeito da revelação de Morpheus no filme anterior (com duas portas no lugar das duas pílulas), o Arquiteto conta a Neo que ele não passa de uma anomalia do sistema, que aparece de tempos em tempos sempre com a cara do Keanu Reeves pra ajudar os humanos a se rebelarem contra a Matrix e sempre é derrotado por escolher salvar Trinity, a quem amava. Ou seja, no meu entender, mesmo tendo um corpo físico, Neo era da mesma natureza do Arquiteto, o Chaveiro e a Oráculo e daí vem seus poderes. Só uma programação diferenciada da média, mas que, ainda que não possa ser detida, é sempre controlada.

Matrix Reloaded_The Architect Mesmo sabendo de seus fracassos passados e seu provável fracasso futuro, ele insiste em tentar salvar os humanos de Zion, cada vez mais próxima de um ataque das máquinas. Se a cena da conversa com o Arquiteto já pode ser considerada a mais complicada da trilogia, imagine quando o filme termina com um gancho que mostra o Agente Smith SAINDO da Matrix pro mundo real usando o corpo de um humano da resistência? Então veio Matrix Revolutions, lançado também em 2003, meses depois do segundo filme.

Matrix RevolutionsEsse terceiro longa basicamente mostra Neo (que conseguiu fugir da Matrix no início desse terceiro filme) e cia. tentando desesperadamente deter a Matrix, enquanto as máquinas chegam cada vez mais perto de Zion. Ele conta a Morpheus que toda a profecia que ele acreditava não passava de mais um programa da Matrix numa cena que pra mim deixou muito a desejar, pois acho que o Morpheus desistiu cedo demais das suas convicções, principalmente depois de ter que ouvir muitos o tomando por louco em Zion por causa do Neo. De repente o próprio Neo de certa forma fala isso e ele acaba aceitando rápido demais. Na verdade eu acho que nem se o próprio Arquiteto mostrasse-lhe as imagens dos vários Neos que o visitaram no passado ele acreditaria tão fácil. Mas a essa altura os Wachowski já jogaram pro alto a preocupação com a subtrama de outros personagens e se concentram em carregar à trama pra um final.

Matrix Revolutions_machine-O Agente Smith, infiltrado no corpo de um dos rebeldes, ataca Neo e Trinity, deixando o herói cego. Aliás, as cenas em que se consegue “enxergar” Smith dentro de alguém lembram o clássico do terror Eles Vivem. Enquanto isso, Zion é atacado por robôs que parecem os braços do Dr. Octopus do Homem-Aranha e resiste com os humanos controlando uma espécie de transformers, mas que lembram até demais a armadura que Ripley usa pra vencer o alien no fim de Aliens 2 – O Resgate. Usando seus poderes no mundo real (Sim! Acertou quem achou que não há explicação decente pra isso!) Neo consegue afastar os “Octopus” e chegar até o que seria o coração, ou cérebro (ou umbigo já que tudo soa extremamente pretensioso mesmo), da Matrix, mas Trinity morre (de novo!) para que ele alcance seu objetivo. Neo então conversa com um monte de ferro-velho (o tal umbigo da Matrix que mais parece um ácaro gigante) e faz um trato: Zion seria poupada se ele detivesse o outro programa que saiu completamente ao controle e, de certa forma, se tornou tudo aquilo que se esperava de Neo, ou seja, a grande ameaça ao sistema: Smith. Muita gente detesta a idéia de parecer que o escolhido era Smith, mas essa foi uma das poucas saídas coerentes pro caminho que foi tomado.

Matrix Revolutions_Neo and SmithA anomalia Neo estava sob controle, mas ele teve um efeito colateral, que Jung classificaria como o arquétipo da Sombra e a Matrix se sentiu ameaçada por algo novo então. O que é sacanagem é você chamar de Revolutions (Revoluções) um filme em que no fim o protagonista faz um acordo diretamente com o sistema para deter alguém que seria uma real ameaça à ele, principalmente quando esse alguém era apresentado a princípio como maior representante desse sistema. Enfim… Neo e Smith, ambos super poderosos agora, tem uma batalha final em meio à uma grande tempestade!?… Vai ver a Matrix achou que seria mais emocionante uma luta na chuva, ainda que isso também não faça o menor sentido!

Neo termina subjugado por Smith que o incorpora, desejo que ele devia nutrir desde que o inverso aconteceu no primeiro filme. Porém, se Smith é a sombra e Neo é o seu oposto, este último é a luz e as trevas são sempre dissipadas pela presença da luz. Isto causa uma espécie de auto-destruição, ou melhor explosão, já que um arrebenta o outro de dentro pra fora, ou melhor ainda, implosão, já que os dois passam novamente a serem parte integrante da Matrix, pois o Neo havia entrado lá para lutar através da conexão direta com o tal umbigo. Uma leitura complementar seria de que Neo era um vírus e Smith estava tão poderoso que já não era um vírus, mas um sistema autônomo. Então a Matrix usa o vírus Neo para infectar o sistema Smith. Ou ainda a velha história do veneno de cobra, cuja vacina é feita a partir do próprio veneno.

Matrix Revolutions_NeoAssim, a vida em Zion e a vida na Matrix são salvas graças ao sacrifício de Neo, os octopus vão embora e o Arquiteto vai bater um papo com a Oráculo, que pra quem ainda não entendeu só que ajudar os humanos por também ser uma anomalia do sistema.

Realmente, pra quem curte informática Matrix pode ser um programão. Por outro lado, o resto do público talvez crie uma identificação maior com outros filmes que falam de simulação de realidade como O Show de Truman ou Cidade das Sombras, que simbolizam respectivamente a Televisão e o Cinema da mesma forma que Matrix simboliza os computadores.

Uma última curiosidade pra ficar pra registro: há quem jure que o Google do nosso presente é a Skynet (da franquia Exterminador do Futuro) num futuro próximo… e que a Skynet é a Matrix num futuro remoto.

Por: Guilherme Cunha.  Blog: Panorama Imaginado.

Quebrando a Banca (21)

Também usávamos sinais manuais. Braços cruzados: a mesa está quente. Um toque no olho: precisamos conversar. E uma mão passando pelo cabelo, significava uma coisa: “Saia. Agora!!”.

Vê o nome de Kevin Spacey nos créditos, a mim já é um motivo para assistir o filme. Nesse, um outro fator também. O de ser baseado num fato real. Bem, tirando a longa duração do filme, até que gostei. Sem uma meia hora de filme, a história ficaria amarradinha, e até melhor.

Filmes com jovens superdotados, na maioria, caem em esteriótipos. Ganhando até um termo: nerds. Mas em ‘Quebrando a Banca‘, até que deixa algo do tipo: a vingança dos nerds. E por conta de que? Além de terem escolhidos jovens que não seria rotulados assim, à primeira vista. Também por eles curtirem a vida fora da sala de aula. Além de que tiraram proveito prático das suas genialidades. Great!

A longa duração do filme nada mais é que um tremendo merchan dos Cassinos e Hotéis de Las Vegas. São um deslumbre, mas não precisavam exagerar.

Antes de entrar na história do filme, mas por conta do jogo de cartas… Lembro que em criança, tinha colegas que os pais não permitiam baralho em casa. Mas em vez de proibirem, deveriam ter usado o jogo como um aliado para um gosto pela matemática. Pois foi o que meu pai fez. Foi ele quem nos ensinou, a mim e meus irmãos. E nenhum de nós ficamos ‘viciados’ em baralho. Era sempre uma diversão. Um tempinho atrás, confesso que gostei de ver o netinho de uns tios jogando o 21. Por vê-lo fazendo as contas… É um jeito lúdico de ensinar a Tabuada.

Em relação a Cassinos, dica de um livro. Para que a sua ida seja uma diversão e só! Separe a quantia que daria si mesmo como um presente. Coloque-a no bolso direito da calça, por exemplo. Fique por lá até essa quantia terminar. Se ganhou algum dinheiro, coloque-o no bolso esquerdo. Não use essa parte. Porque já não estaria mais se distraindo.

Agora sim, a história do filme… Ben (Jim Sturgess) sonha cursar medicina em Harvard. Mas precisaria de pelo menos uns US$ 300 mil para isso. Estudante do MIT, durante uma certa aula de matemática, sem querer, ou melhor, sem saber, é notado por um certo clubinho.

Pausa para registrar isso: Prestem atenção a essa aula. Só ela já vale a pena rever o filme.

Voltando… O tal Clubinho tem como Mentor o professor de Matemática Micky Rosa (Kevin Spacey). E os já membros: Jill Taylor (Kate Bosworth), Kianna (Liza Lapira), Choi (Aaron Yoo) e Jimmy Fisher (Jacob Pitts). Ali, aprendem como usar a técnica de contar as cartas nas mesas do 21, o Blackjack. Sem se deixarem pegar. Trabalho em equipe. Cientes de que têm que obedecer as regras do Micky. Nem se deixarem seduzir por aquele mundo.

A princípio, Ben não aceita. Mas depois deixa-se seduzir, entrando no jogo. Assim, os cinco mais o Micky, passam os finais de semana em Las Vegas. O que ganham, é divido entre eles. Cabendo uma parte maior ao professor. Acontece que nem tudo são flores, pois um tipo de capataz da firma de vigilância, por estarem perdendo clientes (Cassinos), decide mostrar serviço. Ele é Cole Williams (Laurence Fishburne), que fica na cola deles. É onde o filme fica com mais ação.

Enfim, se pensarem que esse filme traz como um bônus um – Conheça Las Vegas! -, terão um bom sessão pipoca!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Quebrando a Banca (21). 2008. EUA. Direção: Robert Luketic. Elenco: Jim Sturgess, Kevin Spacey, Kate Bosworth, Aaron Yoo, Liza Lapira, Jacob Pitts, Laurence Fishburne. Gênero: Drama. Duração: 123 minutos. Inspirado no livro: “Bringing Down the House: The Inside Story of Six M.I.T. Students Who Took Vegas for Millions”.