Tão Forte e Tão Perto (Extremenly Loud and Incredibly Close, 2011)

ImagemEm junho passado, uma amiga minha do Brasil, veio me visitar, e ela muito me falou do escritor Jonathan Safran Foer, em especial do livro, “Extremely Loud, Incredibly Close.” Logo dei uma pesquisa, e fiquei a saber que o director de “The Hours (2002) Stephen Daldry estava dirigindo a versão do livro para o cinema.

Ela me encorajou a ler o livro, e até cheguei a ler algumas paginas, mas não me envolvi pela leitura, e resolvi esperar para ver o filme. O enredo é sobre um menino que busca por uma fechadura por toda cidade de Nova York. Ao achar uma chave nos pertences do pai, ele acredita que seu pai – que morreu nos ataques de 11 de setembro de 2001 – propositadamente lhe deixou o objeto. O enredo muito me fez lembrar de “Hugo” de Martin Scorsese, pois temos em “Extremely Loud, Incredibly Close”,  um menino inteligente e bonitinho, um pai falecido e um mistério.

ImagemUm ano depois dos ataques de 11 de setembro, Oskar Schell (Thomas Horn) ainda sofre com morte de seu pai, Thomas (Tom Hanks). Oskar e sua mãe, Linda (Sandra Bullock), ainda vivem em Nova York, em frente ao prédio onde vive a avó do menino.

ImagemPara quem perdeu um ente querido, sabe como é dificil largar os pertences do morto – é uma das coisas mais difíceis de fazer.  E por tal, é facil sofrer e sentir a dor de Oskar, principalmente quando ele fica escutando a voz do pai. Nada de errado em ser um filme emocionalmente devastador – drama tem que ser emocionante  e achei que Daldry sabesse conduzir isso, mas..-

Entre um choro aqui e ali, Oskar decide resolver o mistério deixado por seu pai, envolvendo a chave, os nova-iorquinos com sobrenomes Black (todos os 472 que vivem na cidade!), a voz do pai deixada na secretária eletrônica e um  pandeiro. Assim começa as aventuras de Oskar.

Três coisas que achei problematicas no filme:

1- Mesmo que Hanks tenha um tempo limitado no filme, ele desempenha um personagem tão idealizado como “o melhor pai que já viveu no mundo”, que me pareceu falso, enquanto a mãe de Bullock parece tão negligente que, quando a explicação plausível para a sua longa ausência é justificado, eu me perguntei: que tipo de mãe deixaria o seu filho de 11 anos sozinho numa cidade grande como Nova York, e ser também acompanhado por um idoso estranho?. Quando o filme me deu a resposta para a tal atitude da mãe, desejei que tivesse um pandeiro para jogar na cara dela!.

2- Apesar de Oskar achar que a chave vai trazê-lo para mais perto de seu falecido pai, nunca que se pode acreditar por um momento que a essência da trama fosse para uma aventura no estilo “ o que vale é jornada, e não o destino” que terá o menino. A estrutura do filme não me prendeu – a busca de Oskar por respostas- suas idas de um endereço para outro.

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3- Nem quero criticar o ator Thomas Horn, pois esse é seu primeiro filme, e ele mostra ter potencial para ser um bom ator, mas o seu personagem, me fez lembrar da Mattie (Hailee Steinfeld) de “True Grit” (2010). Horn decorou muito bem os dialogos que tinha que decorar. O menino é o narrador do filme, e se sabe dos seus pensamentos e decisões privadas antes de ocorrer ação, por examplo: ele mente muito! Mas o roteirista  Eric Roth e Daldry exagera ao fazer uso de voice- over, pois todas as vezes que Oskar mente, vem aquela  justificativa como se os outros personagens acreditassem na mentira deleCompreendo que Oskar é um menino assustado, chocado pela morte do pai, mas o seu comportamento, e atitudes de  superioridade chega a irritar. Que prazer alguem poderia ter em ter a companhia de um menino tão arrogante?. Quando ele é acompanhado pelo velho (Max von Sydow), ficamos a saber que o misterioso senhor é incapaz de falar – isso significa que o garoto vai falar ainda mais. Fala tanto que me deu vontade de gritar : “Shut the F* up” !.  Desde “True Grit” – com aquela menina falante e irritante, vivida pela gracinha da Steinfeld-, que eu não tinha visto um personagem tão chato quanto Oskar.

Menos ruim, mas não perfeito :

ImagemMax Von Sydow até poderia ter roubado o show para si, se a sua personagem tivesse sido bem desenvolvida e bem conduzida, pois as cenas mais interessantes do filme, são as que ele aparece. A química entre ele e Horn é bastante vaga, e quando Von Sydow sai de cena, a alma do filme vai junto!. Sou um grande admirador desse veterano ator, especialmente por causa de sua grande expressividade, e esforço, e fico triste que ele ganhe uma indicação ao Oscar por um papel tão superficial.

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Faz um tempinho que venho escutano a trilha que Alexandre Desplat escreveu para o filme. Particularmente achei esse o seu melhor trabalho entre as trilhas que ele escreveu para 5 filmes diferentes em 2011. Mas quando ouvi as suas musicas emoldurando a fotografia de Chris Mendes (com uso de edge blur em algumas cenas) senti que Nova York nunca pareceu um lugar tão monótono e nada maravilhoso. A trilha sonora  é linda, mas não achei que case com o filme!.

No geral, “Tão Forte e Tão Perto “ é decente tecnicamente, mas esperava algo mais emocionalmente envolvente e um pouco menos manipulador. Eu certamente não queria sair do cinema como sai depois de “United 93” (2006), totalmente devastado pelo ocorrido em 11 de setembro, mas pelo menos os produtores deveriam ter  - extremamente -,  se preocupado mais com o mundo de Oskar do que ter investido – incrivelmente-, em tudo, pensando no Oscar!.

Nota 5,0

P.S.: Para minha surpresa, “Tão Forte e Tão Perto “ foi indicado para melhor filme, e melhor coadjuvante para Von Sydow. Indigna consideração!.

O Sétimo Selo (Det sjunde inseglet. 1957)

O filme O Sétimo Selo é uma produção cinematográfica ambientada em um dos mais obscuros e apocalípticos períodos da história, assim é classificado a Idade Média (Período das Trevas, Apocalipse e Revelador), nos anos 1000 onde a expressão, de uma solidariedade ativa, firme, enfrentando tanto a miséria quanto a conseqüência das calamidades; solidariedade que não se restringia aos vivos e sim aos defuntos; na forma de oração, confissão penitência, pois as boas obras permitiam atenuar o temor ao inferno e prestar auxilio as almas do outro mundo. A matança de bruxas e judeus, a guerra dos cem anos e a peste negra afirma a idéia, pois o continente foi quase despovoado e tudo isto semeava a insegurança da sociedade que gemia e lamentava aperca de mais um “homem medroso”.

No século XIV, acumulavam grandes catástrofes, iniciando uma gigante e dramática caça as bruxas, não tardando a guerra dos cem anos, que fez afluir perseguições nas cidades; e em outros lugares a peste negra abateu “um terço do mundo”. As desgraças se multiplicavam e à peste desencadeando na Europa uma enorme angústia.

Segunda a escrita sagrada o “sete selo” implica num malefício sobre a humanidade, a sua abertura leva efetivamente ao fim dos tempos.

O filme pauta constantemente o medo da morte, um imaginário em volta da morte, até nas pinturas, um grande Lúcifer era representado como o grande causador dos problemas, pois ele provocava a fome, a doença, o medo e a morte dos indivíduos. O medo da morte é algo obcecador, e o homem com a sua convivência, passam a cultuar, promovendo ensaios rompendo com o “silêncio do medo”, uma relação direta da morte com grandes temores que ameaçavam o desaparecimento da raça humana.

No filme, todos os aspectos da religiosidade são questionados, porém nunca é dada nenhuma resposta sobre sua veracidade. Nem Deus nem o Diabo se manifestam para o cavaleiro (o personagem central do filme) durante todo o filme, no entanto aparecem falsos profetas que utilizam o dom da palavra para pregar, protagonizando um verdadeiro teatro, onde se puni em nome do sagrado.

Historicamente é visível que o satanás e os demônios eram assustador no imaginário medieval, mas também ridículos e engraçados; baseado na afirmação que “ainda não havia chegado à hora do grande pavor satânico…” (Jean Delumeau, 1923, p. 207); além disso, o poder da Igreja restringia a violência, sacralizando à função militar, preservando em cada homem a garantia da paz divina, alimentando o medo do outro, do normando, do judeu, do sarraceno em esporádica superação.

No entanto na trama tanto Deus como o Diabo apenas existem na voz dos charlatães, em nome de uma igreja decadente e profundamente caída. Dessa forma, vemos como clareza que o “sagrado” permanece mudo no desenrolar da produção cinematográfica.

Todavia, o único personagem que sempre aparece para falar em nome de Deus é o homem que roubava jóias dos mortos e que encabeça a procissão de flagelados, também foi aquele que convenceu o cavaleiro a partir para a cruzada, dez anos antes.

Gostei muito filme e como historiador afirmo que o mesmo deve ser considerado uma obra historiográfica que trabalha os fatos históricos de forma coerente e esclarecedor.

O filme retratar o tempo inteiro uma humanidade desesperada e medrosa, que vive a espreita implacável da morte, algo coletivo e universal, pois na Idade Média todos os seres humanos, independentes da idade, sexo, nível socioeconômico e religioso a temia.

A morte era algo que os espreitavam, os obrigando a usar mecanismos de defesa, os quais se expressam através de fantasias inconscientes sobre a morte. Tornando possível a abordagem com relação o homem e a morte em vários aspectos: o biológico, o jurídico, o econômico, o social e artístico.

Assim, podemos perceber que o homem viva constantemente cercado pelo medo, que vai além da vida, ou seja, o pós-morte é a principal preocupação dos indivíduos. A sua mentalidade foi construída e cerceada pela igreja que dogmatizou comportamentos sexuais e cotidianos.

Nesta jornada o homem, parte em busca de explicações, sendo conduzido pelo medo e consequentemente a sua mentalidade o atrai para o pior inimigo, a morte. Em suma, notaremos que o homem pode conseguir refrear todos os sentidos e paixões do mundo material, no entanto não poderá fugir da experiência de morrer seja ele um homem religioso ou pagão.

No desenvolver do filme podemos chegar à conclusão que a morte é uma certeza irrefutável, uma verdade universal, comum a toda a humanidade. O ciclo da existência acaba por igualar todos na morte, seja qual for o sexo, a condição social, o tempo histórico. O finito é irremediável para todos, como foi indispensável o próprio nascimento.

Afinal, em meio a tantos conflitos o diretor Ingmar Bergman apresenta-nos um final onde é possível ter esperanças mesmo quanto tudo parece mórbido; pois no final de uma tormentosa tempestade, onde as forças sombrias devoram a vida, o sol surge brilhante, abrindo um caminho de esperança no horizonte para os sobreviventes.

Por Dhiogo Caetano.

O Sétimo Selo. (Det sjunde inseglet. 1957). Suécia. Direção e Roteiro: Ingmar Bergman. Elenco: Max Von Sydow  (Antonius Block),  Gunnar Björnstrand (Jöns), Bengt Ekerot (Morte), Nils Poppe (Jof), Bibi Andersson (Mia), Inga Gill (Lisa), Maud Hansson (Bruxa), Inga Landgré (Esposa de Antonius Block), Gunnel Lindblom (Garota), Bertil Anderberg (Raval), Anders Ek (Monge), Gunnar Olsson (Pintor da igreja), Erik Strandmark (Jonas Skat). Gênero: Drama, Fantasia. Duração: 96 minutos. P&B.

ILHA DO MEDO: A Volta do Melhor Scorsese

Por: Roberto Souza.
Após uma série de obras decepcionantes ou insatisfatórias para um realizador do seu nível, Martin Scorsese salda uma dívida com seus admiradores no extraordinário thriller psicológico ILHA DO MEDO (Shutter Island), realizado em 2010.

Quarta associação do diretor com o astro Leonardo DiCaprio, a dupla acerta em cheio após os medianos GANGS DE NOVA YORK (2002), O AVIADOR (2004) e OS INFILTRADOS (2006), exemplos adequados de filmes de qualidade “onde falta alguma coisa”.

Não tive a oportunidade de assistir ao filme na telona, mas o recebi há dois dias em Blu-ray e, sem maiores expectativas prévias, senti o prazer de perceber um cineasta de volta à melhor forma, manipulando a expressão visual e os elementos autenticamente cinematográficos no seu caldeirão de poções mágicas, em doses precisas.

O roteiro exemplar de Laeta Kalogridis adapta o magistral romance Paciente 67, de Dennis Lehane (autor, entre outros, de Sobre Meninos e Lobos). No enredo, sem dar maiores detalhes para não estragar as reviravoltas da narrativa, DiCaprio é Teddy Daniels, um agente federal que se dirige a uma afastada ilha, utilizada como clínica-presídio para criminosos com problemas mentais de gravidades diversas.

Sua missão, ao lado de outro investigador (Mark Ruffalo), é desvendar o paradeiro de uma paciente que parece ter se “evaporado” de sua cela, apesar de trancada a sete chaves. Porém logo surgem dificuldades com os diretores do estabelecimento (os veteranos Ben Kingsley e Max von Sydow), que não parecem muito dispostos a colaborar na investigação, parecendo querer controlá-la qual uma sessão terapêutica.

Por outro lado, a maior barreira à solução do enigma reside no próprio Teddy, que carrega consigo traumas emocionais oriundos de sua experiência na Segunda Guerra, além da repentina perda da esposa num recente incêndio doméstico. Em contrapartida, a atmosfera lúgubre da ilha é propícia para exacerbar seus problemas, trazendo-lhe dolorosas lembranças, agudas dores de cabeça e pesadelos recorrentes.

Não foi casualmente que Lehane situou seu romance no ano de 1954. Os EUA viviam ao máximo a insegurança da Guerra Fria com a União Soviética, do Macartismo que caçava comunistas por todos os lados ou do temor de um conflito nuclear devastador.

Assim, a paranóia individual do atormentado investigador anda de mãos dadas com a paranóia coletiva, moldada pelas injunções políticas e ideológicas do período. Ao revirar sua mente em busca de respostas, Teddy realiza uma descida ao inferno interior, percebendo o risco e a temeridade que assolam aqueles que buscam uma verdade, seja de qual tipo possa ser.

Nesse sentido, a direção de Scorsese é absolutamente perfeita, tornando o décor parte integrante do processo, quase um personagem vivo, como já ocorrera na maioria de seus melhores trabalhos (TAXI DRIVER, TOURO INDOMÁVEL, OS BONS COMPANHEIROS e A ÉPOCA DA INOCÊNCIA). Ao transformar o concreto dos muros inexpugnáveis em carne e a atmosfera pesada dos sombrios corredores em sangue, o público é induzido a enveredar numa espiral onde, na melhor tradição do gênero, nada parece ser o que aparenta.

Contudo, ao invés do esperado recurso da surpresa ou de espantosas revelações finais, Scorsese distribui na força de suas imagens a resposta dos mistérios propostos, a chave que abriria todos os cadeados, a ponto de mais tarde o espectador se perguntar: como eu não percebi isso na hora?

Acrescente ao caldeirão ecos da obra-prima literária O Som e a Fúria, de William Faulkner, ou do clássico filme B Vampiros de Almas, de Don Siegel, retratos díspares da incomunicabilidade e dos pavores coletivos, e você se verá diante de uma pura, obra de arte. Uma experiência que o fará enveredar por labirintos e becos sem saída, que lhe negará a luz do sol, numa estilização que conjuga o universo pessimista de Schopenhauer e o conceito fugaz de realidade de Edgar Allan Poe, constituindo um assustador buraco negro ao qual se é atraído indelevelmente.

Imperdível.

Por: Roberto Souza.
- Blog Cal&idoscópio.
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Ilha do Medo. “…que bom é o amor, que ninguém partilha…”

Ilha do Medo (Shutter Island. 2010) não é um tipo de filme que eu tenho interesse em assistir. Por exemplo, se fosse dirigido por M. Night Shyamalan, eu jamais iria ao cinema (esperaria para ver o filme quando saísse em DVD). Entretando, assinado por Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, tive que ir ao cinema logo na estréia aqui, nos Estados Unidos.

Sabia que o enredo tinha como pano de fundo a tal ilha do título, que funciona como uma instituição mental. Logo na primeira cena, DiCaprio está lavando o rosto, e já dá uma noção que o clima do filme vai ser pesado. De repente, nota-se que ele está indo para tal nebulosa ilha, a qual me fez lembrar Alcatraz e logo me veio a mente: “Um estranho no Ninho.” Quando o “ferryboard” vai chegando no local ao som altíssimo da musica “Fog Tropes”- pensei que barco iria afundar a lá Titanic.

Na verdade, “Ilha do Medo” é um filme muito intenso, com algumas imagens muito preocupante, inclusive crianças afogadas, campos de concentração nazistas, pilhas de corpos, sangue, corredores escuros e bizarros da prisão, pesadelos e alucinações. Contém ainda forte, mas não generalizada, linguagem chula, e tabagismo. Com algumas surpresas e reviravoltas, nos lembra que as coisas podem se transformar drasticamente a qualquer momento.

Scorsese ainda adiciona personagens assustadores. DiCaprio, em outro excelente desempenho (e de vez, perdeu a cara de bebê, e parece um homem!), tenta resolver o caso do desaparecimento de um dos prisioneiros (paciente!) como é enfatizado pelo o médico chefe do hospital interpretado por Kingsley, enquanto é perseguido por seus próprios demônios horripilantes. O personagem tem momentos difíceis, mas DiCaprio habilmente carrega todas as dores nas costas. O resto do elenco também é muito bom, incluindo: Kingsley e Max von Sydow (a voz mais intensa do cinema mundial!), Ruffalo como o parceiro de compreensão suspeita, que concorda com tudo que o personagem de DiCaprio diz, e repete: “boss” a todo instante; Michelle Williams como a esposa maníaco-depressiva (em algumas cenas, não aguentei o olhar de “peixe morto”, que ela usou) e em breve, mas memorável aparições de Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Hayley e Ted Levine.

Martin Scorsese mexe com o cérebro do espectador – em todos os níveis. Ele não trata de resolver um mistério como em alguns instante, pensei que “Ilha do Medo” fosse um primo-irmão de “O Sexto Sentido” ou “ Os Outros.” Apenas no final, notei que o filme é mais sobre a resolução da loucura, mas também não é como “Um estranho no Ninho” (fazendo uma crítica sobre os maltratos dos pacientes nos hospitais psiquiátricos!). O horror do filme intriga sem enganos, sem sobressaltos, sustos, e tece uma leitura sobre o assombro da insanidade. Os ângulos que Scorsese ilustra o filme são maravilhosamente impactantes, que vão se encaixando nos detalhes no decorrer da narração. Cada quadro é bem articulado pela surpreendente fotografia de Robert Richardson e a edição sempre perfeita de Thelma Schoonmaker.

Quando saí da sala de cinema, fui perguntado por meu amigo: “o que achou do filme?” Tive que parar e pensar no que iria dizer, pois ainda estava na minha mente a pergunta feita por Teddy Daniels (Dicaprio), no final do filme, algo como: “É melhor para se viver e ser um monstro, ou morrer como um homem bom?.” Eu, em vez de responder sobre o que tinha achado do filme, repeti a pergunta do personagem de DiCaprio para o meu amigo. Ele disse: “esse filme é uma loucura, e pode ter certeza que vai ser um fracasso!.” Ele, norte americano, já foi logo justificando que o povo daqui (Estados Unidos) não vai apreciar um filme como “Ilha do Medo.” Apreciando ou não, o filme toca em feridas (acho que eles não vão nem prestar atenção), tais como as sugestões de vários medicamentos experimentais, e anti- depressivos. Um exemplo simples, pode ser visto nas escolas públicas do país, onde alunos, (já tão jovens, vivem na base de anti-depressivos). O transtorno bipolar aqui já é algo tão comum quanto ser de credo ou raça diferente. Ainda, não sei dizer o quanto gostei da “Ilha do Medo.” O filme me fez refletir em tantas coisas, principalmente pelo fato como as drogas (legais!) tem tomado conta do dia-a-dia das pessoas daqui.

Muitos elementos fortes são ilustrados por Scorsese ou pelo roteiro de Laeta Kalogridis. Por tanto, esse filme é não uma diversão para um final de semana! Não me importo em repetir que esse não é tipo de filme que gosto de ver. A primeira hora é tão perturbadora como qualquer filme de terror que evito assistir. No final, me senti perdido sem saber o porquê. Então ontem a noite, fui rever o filme querendo realmente saber se Teddy Daniels (DiCaprio) é vítima de uma conspiração elaborada, é esquizofrenico ou ele está apenas enganando os médicos e ao mesmo tempo, nos enganando. A loucura perturbadora illustrada neste filme me deixou a sensação, que ela é sim, contagiosa!.

Ah, tenho que admitir que a trilha sonora do filme é espetacular !. Não é um trabalho orIginal, mas Robbie Robertson selecionou um material extraordinário para o filme. No fim, temos a voz da Dinah Washington cantando “This Bitter Earth” “entrelaçada” com a linda música de Max Richter “On The Nature Of Daylight,” em que ela canta algo como:

…que bom é o amor
que ninguém partilha…
Senhor, esta terra amarga
Sim, ela pode ser tão fria
Hoje você é jovem
Em breve você é velho
Como minha vida fosse como um pó…

Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters)

Como consegue atuar se é insensível por dentro?

Essa indagação é dita pela a mãe de Hannah. Em meio a uma discussão entre os pais, onde ela fora chamada para apaziguar os ânimos dos dois. Um, de vários ao longo da sua vida. Das três filhas, e até mesmos dos pais, Hannah é a mais centrada. Ao longo do filme, percebemos o quanto isso lhe traz admiração como também exasperação daqueles que a cercam. Mesmo com toda a sua dedicação por eles, nessa doação, as suas constatações por alguns são tidas como algo do gênero: pensamento negativo. Acontece que ela põe tudo na balança: os prós e os contras. E esse último nem todos gostam de analisar.

Voltando a frase… O atuar não sendo uma profissão traz até um sentido pejorativo. Parecendo como alguém que está mentindo diante uma situação. Mas quando apenas omite um fato, vem como algo mais leve. Como contar uma verdade? Como digeri-la? Sendo para muitos mais fácil apontar os erros alheios. E se quem os aponta é alguém que se vê como o supra sumo da perfeição, aí complica.

Atuamos em diversas situações ao longo da vida. Até por conta de vivermos numa sociedade. Mesmo dentro de um núcleo menor como a família, há certas regras a seguir. O que nos impede de sermos 100% nós mesmos. Para uma boa convivência, algum lado nosso terá que ceder. Ou até fingir que não está vendo certas situações, tem sido uma boa política. Mas se há um único pilar nesse núcleo? Agradar a gregos e troianos é tarefa árdua. Sempre haverá a nau dos descontentes. Eu me vi em certas situações vividas por Hannah. É, em momentos assim, alguns nos vêem como sem coração.

Voltando ao filme… Mesmo agindo racionalmente, aparentando uma atitude fria, calculada, Hannah tem consciência das limitações das pessoas a sua volta. Ou do modo de ser de cada um. Para a irmã estouvada, Holly (Dianne West), Hannah serve mais para bancar seus sonhos. Os conselhos não são bem-vindos.

Lee (Barbara Hershey) vê a irmã mais como uma mãe. É quase 100% romântica. Talvez por admirar até a cultura da irmã, foi viver com um artista plástico muito mais velho. Tem ele mais como um Mestre. Além de refinar seus gostos, ele a tirou do mundo das bebidas. Acontece que o assédio do atual marido da irmã mexe com ela. A abstinência de alguns anos recai no prazer de uma aventura. O sentir-se sufocada é por estar sedenta.

Elliot (Michael Caine) se outrora amou o lado organizado de Hannah, já que sua vida era um caos, ainda se ressente. Ainda não trabalhou esse lado seu. Mas em vez de tentar canalizar isso no campo profissional, o faz pelo lado carnal. Se encantando por uma carne fresquinha: a jovem, bela e radiante Lee.

Por conta da frase, eu nem fiz uma apresentação desse filme: “Hannah and Suas Irmãs” (Hannah and Her Sisters). Uma história de 22 anos atrás. Mais com conflitos também atuais. Resumir numa única palavra, o filme traz como mote a infidelidade. Não apenas entre casais. Há o trair ou não seus próprios princípios. Como também ser infiel a religião. Muito embora a religião veio como herança de pais. O tempo do filme praticamente é pontuado entre duas reuniões no Feriado de Ações de Graça. E o que acontece nesse intervalo de tempo? Algumas histórias vêem com cenas em flashback. E peguei para rever motivada por ser mais um de Woody Allen. Pelo tempo, ficou um gosto de uma primeira vez.

Gente! O personagem do Woody Allen é quase um outro filme. Ele é um Produtor de Tv. Suas aparições, são engraçadíssimas! Para quem já conhece o perfil hipocondríaco de seus personagens e gosta, não irá se decepcionar com esse. Ou por saber de suas preferências musicais, já dá para imaginar onde o levaram e ele nos brinda com algo assim: “Irão fazer reféns após o show!“. Ou até quando em crise, sai em busca da existência de Deus em algumas religiões. Ah! A ligação dele com a Hannah é que foram casados e têm filhos, mas adotivos. Por conta de algo muito peculiar dele.

Citam uma frase de Tolstoy que a vida não tem sentido. Mas tem sim e é seguir em frente. Com erros e acertos, mas continuando dentro dela. E se no final os que compareceram ao almoço estão de fato rendendo graças a esse porto seguro ou não. A comandante… Bem, sua tripulação aprendera a lição. Agora, e ela, também omitira desconhecer a traição? Escolhendo conscientemente? Fora essa a sua melhor interpretação?

Filmaço! Dos que vale a pena ver e rever!

Por: Valéria Miguez.

Hannah e suas Irmãs (Hannah and her Sisters). 1986. EUA. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Mia Farrow, Barbara Hershey, Dianne West, Woody Allen, Carrie Fisher, Michael Caine, Max von Sydon, John Turturro, Sam Waterston, Daniel Stern, Maureen O’Sullivan. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 102 minutos.

O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon. 2007)

Vida é mais que um corpo em movimento…

Ao terminar de assistir esse filme, O Escafandro e a Borboleta, me peguei a pensar do porque eu não chorei tanto. Pois uma lida numa sinopse achei que iria me debulhar em lágrimas. Algo que ocorreu assistindo “Mar Adentro“. Ambos os filmes foram baseados em fatos reais. Mas são histórias diferentes…

Um pouco do drama real: Em 1995, num acidente vascular cerebral (AVC) o jornalista e editor da Revista Elle Jean-Dominique Bauby, aos 43 anos de idade, foi acometido de uma doença rara – locked-in syndrome – que apesar de lúcido, tem os movimentos do corpo todo paralisado, sobrando-lhe apenas o movimento do olho esquerdo.

Ai, para quem não viu o filme pode se perguntar: “Mas como é que continua essa história? Foi imaginado pelo Roteirista?” Eu respondo que não. Ele próprio, Bauby, conseguiu um jeito de nos contar a sua história. E de um jeito que, acreditem, tem horas que nos pegamos rindo com ele. Apesar dos pesares, ele manteve um bom humor.

Claro que há momentos que emocionam. Uma delas quando descobrimos o porque desse título: “O Escafandro e a Borboleta“. Contar, lhes tirariam o prazer dessa emoção. Nossa! Fiquei com vontade de aplaudir de pé também a sua decisão.

A história nos é contada quando ele desperta do coma. E somos levados a ver, a vivenciar seu drama, naquilo que o olho dele ver. Como uma única câmera e embutida em seu olhar. Aos poucos, ele vai se inteirando do que lhe aconteceu. Nada é escondido dele. Até porque ele precisa ajudar para que eles possam lhe ajudar a encontrar um jeito de estabelecer um contato.

Depois, ele nos conta um pouco de antes desse fatídico dia. O que nos leva a nos emocionar juntos com o filho e o pai dele. Com esse, por sinal, nossos olhos ficam marejados. Mas também não quero tirar essa emoção de vocês.

Ainda com os personagens, destaco mais duas. Uma, é a logopedista. Ela foi incansável! E a outra, foi quem transcreveu toda essa história, todo esse exemplo de vida. A história que o Bauby deixou num livro. Na homenagem dele a ela as minhas lágrimas desceram…

Enfim, é um belo filme! Com atuações brilhante! Paisagens deslumbrantes! Música que já no iniciar com “La Mer” nos levar a navegar com esse coração que ainda pulsa pela vida. A descortinar com ele um horizonte. Num longo passeio… Bravo, Bauby! Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Escafandro e a Borboleta (The Diving bell and the Butterfly / Le Scaphandre et le Papillon). 2007. França. Direção: Julian Schnabel. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Max von Sidow, Patrick Chesnais, Niels Arestrup, Olatz López Garmendia. Gênero: Drama. Duração: 112 minutos. Classificação: 16 anos.