Late Bloomers – O Amor não tem Fim (2011). Ou, Envelhecer é um Recomeçar

De dois universos tão distintos, ela vem conquistando um lugar num topo de ainda na quase totalidade ocupado por homens. Assim, sendo eu também uma mulher, começo citando a Diretora, e também Roteirista, Julie Gavras. À ela meus Parabéns por ambos seus filmes. No primeiro que eu vi, o “A Culpa é do Fidel” (2006), traz a mudança de uma menininha ao ver que seu mundinho crescera, entendendo que vivemos numa sociedade não tão perfeita, ou não como todos nós desejamos. Já nesse segundo que eu assisto, “Late Bloomers – O Amor não tem Fim“, Julie Gavras já traz um casal entrando na velhice, onde além de ainda não ser uma sociedade perfeita, agora está jovem demais “em produtos”, e meio que excluindo os bem mais velhos “naturalmentes”.

Não sei se vale como um consolo, como a lei da compensação. É que se chegamos nessa fase da vida: é por continuarmos vivos! Pelo fato de sobrevivermos a violência urbana, também. Mas a trama desse filme traz essa longevidade como pano de fundo, ora pela própria natureza, ora pelos avanços da ciência. Como também esse filme não nos mostra isso de forma didática. Muito embora seria até válido. É que como temos um casal de protagonistas, de uma união já na casa dos trinta, o plano central foca o que vem com essa fase. A vida sexual também mudará, e em que?

É nisso que o título internacional sugere: um florescer para esse novo tempo. Uma descoberta, mesmo que tardia, de que ainda tem muita coisa para se fazer, viver… É o sentido da vida: seguir em frente. Agregando novos valores, abdicando de outros. Olhando-se no espelho: dizendo um “Olá!” para essa pessoa a princípio estranha, mas que até por conta disso, está ciente de que ainda é capaz de surpreender também a si mesmo. Que ainda tem muita tesão pela vida. Ou, como no subtítulo dado no Brasil: que se tem amor, não terá um fim. Será um recomeço. Já o título no original em francês pontua que esses 60 anos teve 3 fases de 20. Para esse casal a dos 40 aos 60 ficara curta demais. Ou, nem fizeram planos para esses 20 que teriam à frente. Com o susto, tiveram que passar a limpo esses quase 60 anos. Com isso, teriam que fazer individualmente também.

Porque eu me imaginava mais forte. Porque fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente” (Clarice Lispector)

Mary (Isabella Rossellini) foi quem primeiro se deu conta da nova fase que chegara. Por conta de um lapso de memória: esquecera em como foi parar num quarto de motel com o marido. Ele, Adam (William Hurt), leva na esportiva a preocupação dela. Na verdade, ele nem se tocou. Mas fatos no transcorrer daquele dia, no seu trabalho, o fará repensar. Não em sua vida particular. Pois isso, na cabeça dele estava tudo indo bem. A questão era o impasse que a sua vida profissional se apresentava. Estava diante de uma encruzilhada. De um lado: aceitar um projeto que o sócio com dinheiro, Richard (Simon Callow, de “Quatro Casamentos E Um Funeral”, 1994.) queria muito que a Firma deles fizessem. Só que Adam, não apenas não queria aceitar, como tal projeto o faria pensar na velhice 24 horas por dia. Ele odiou até as novas mudanças que Mary fez na casa. Como as barras na banheira do quarto do casal. Só que sem perceber se apoiou numa para entrar na banheira. Não se trata de um spoiler porque a cena foi escolhida como cartaz do filme. O outro lado a escolher. Fora uma descoberta por acaso: ouviu sem querer a conversa de um grupo da Firma. E se o destino colocou na sua frente, não resistiria muito aquela tentação.

O projeto proposto por Richard, seria uma nova Flórida. Um Balneário para a turma da terceira idade, e rica, viverem, mas que atraísse também o desejo dos mais jovens. Com isso, ele teria que visitar asilos, conversar com muitos idosos… Mary até facilita um encontro desses. Leva um grupo do qual sua grande amiga Charlotte (Joanna Lumley) pertencia: Panteras Grises (Gris = de cabelos grisalhos. Uma entidade em defesa dos Direitos dos da Terceira Idade). Bem, o tiro saiu pela culatra. Por algo que uma delas falou sobre um Projeto do Adam. Fora um trabalho que lhe rendeu fama internacionalmente. Mas fez Adam perceber que ficou deitado nessa fama por muito tempo.

Já o outro projeto seria além de trabalhar com um grupo de arquitetos bem jovens, em dar uma cara nova a algo velho: uma arquitetura nova para um grande Museu. Algo que chamasse mais a atenção do que a Pirâmide do Louvre. Pois é, mesmo que, a grosso modo, um museu seja lembrado por guardar coisas velhas, essa arquitetura futurista teria encabeçando o nome dele. E isso era tentador também. Como também por quem estava à frente do grupo: uma jovem e cheia de gás Maya (Arta Dobroshi).

Acontece que para esse projeto Adam teria que captar patrocínio e isso ele nunca soube fazer. Como também ficou ciente que só o seu nome não valia mais para os jovens à frente de outras empresas. Ficara mal acostumado até com os cuidados da esposa durante a vida de casados.

Então, acabei falando mais dele em primeiro lugar do que dos conflitos existenciais da Mary. Mas viram o porque: o acorda dele veio pelo o que ele conquistara até então. Com a Mary não. Ela que vivera até então pela e para a Família, se vê perdida. Se sente invísivel, ou sentia-se antes de conhecer Peter (Hugo Speer), o dono da academia onde fora nadar. Pois procurando por um médico, ele receitara ginástica e também fazer um trabalho voluntariado. Além, pasmem! De que um dos remédios que receitara anteriormente, trazia esse efeito colateral: lapso de memória.

Se de um lado a ciência ajuda na longevidade de muitos, por outro também pode causar, ou acelerar novos danos. É como um aviso a uma medicação em excesso. Mas o filme também nos mostra, o quanto ela, a ciência, pode ser uma boa companheira. Tanto para Richard. Como para a mãe de Mary, Nora (Doreen Mantle). Nora me fez lembrar de Elsa, do filme “Elsa e Fred – Um Amor de Paixão“, também pelo jeito de aproveitar a vida. Meio clichê, mas quando se chega numa fase da vida, pode ser vista como: o primeiro dia do resto da nossa vida. Então, o melhor é vivenciá-lo como sendo o primeiro, sempre.

O primeiro “Acorda!” que Nora dá, é em específico para Mary. Depois, subjetivamente, traz dois, mas ao casal. Numa sociedade atual, tão mais afeita com o status, com aquilo que se tem, essas cenas nos mostra os reais valores. Charlotte também, ao seu jeito, tentou mostrar um deles a Mary. Até Richard, de um jeito torto, levou Adam também descobrir um deles. Os três filhos do casal – Giulia (Kate Ashfield), James (Aidan McArdle) e Benjamin (Luke Treadaway) -, bem que teram ajudar nessa. Mas talvez por deixarem certos ressentimentos aflorarem, tal ajuda veio como coadjuvante da de Nora, a avó deles.

Entre coisas do passado e do presente… o filme traz um merchan daqueles que se diz: “Que Excelente Sacada!” O Red Bull aqui ficará memorável!

É um filme que se vê com brilhos nos olhos. Uma história, e com atores mostrando todas as marcas do tempo numa cara sem maquiagem, seria algo que não interessaria Hollywood. Nem muito menos ao público bem jovem. O que é uma pena! Já que as reflexões os levariam a não carregarem bagagens inúteis em suas vidas futuras. O filme é um aprendizado sim, mas como já citei o faz sem didatismo. Mostra um envelhecer com respeito, elegância, e cheio de charme. Isabella Rossellini continua belíssima em vésperas de também completar 60 anos na vida real, e William Hurt adquiriu uma beleza ímpar com o sabor do tempo. A Trilha sonora também veio a somar a esse excelente filme. A música tema do filme é contagiante! Dá vontade de sair dançando. Lembra uma Banda da Lousianna, Mississipi. Não achei um vídeo com ela, então deixo o trailer. Não deixem de ver também esse filme.

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Late Bloomers – O Amor não tem Fim (2011). França, Bélgica, Inglaterra. Direção e Roteiro: Julie Gravas. Gênero: Drama, Romance. Duração: 95 minutos.

Nova York, Eu Te Amo

O filme Nova York, Eu Te Amo é uma colcha de retalhos sobre o projeto “franquia” seguindo o modelo de Paris, Eu Te Amo de 2006. São várias situações, várias histórias de amor e de encontros sob diferentes prismas, algumas confusas, outras nem tanto.

Trânsito caótico, pessoas brigando pelo mesmo táxi; a eterna questão do preconceito racial, a calma e a paz que a convivência na terceira idade traz; na passarela pessoas conhecidas no meio de anônimas. A selva de pedra, a Estátua da Liberdade imponente, um convite ao mundo para ela conhecer.

A miscigenação começa pelos onze contadores dos curtas-metragens; a maioria de nacionalidade não-americana. Há cineastas de origem indiana, japonesa, árabe, chinesa etc; pode-se constatar no final, nos créditos a pluralidade de países representados, exceto Brasil, ficou de fora desta vez como foi em Paris, Te Amo, representado por Walter Salles e faltando também de origem hispânica  para criar esse fantástico mosaico que a cidade representa.

Cada qual narrando uma história de amor, à sua versão para a mesma cidade; contando o encontro de todos os povos num só lugar. Uma das historias achei um tanto incompreensível, meio surrealista sobre uma diva que depois de anos volta a se hospedar no mesmo hotel e relembra de cenas que não se sabe exatamente o propósito.

O charme da burguesia e da 5ª Avenida; A ponte do Brooklyn e o centro financeiro de Manhattan; o revoar dos pássaros, diretores mostram os elementos que ligam aqueles que trabalham e circulam pelas ruas e avenidas, através de costumes, religiões, diversos sotaques, sinais fechados, pedestres, turistas…

O novo trabalho é assinado por diretores que foram escolhidos justamente por representarem o elemento de liga entre todos aqueles que circulam pelas ruas de Nova York à revelia de sobrenomes, raças, credos, nações e sotaques. O filme é arrumado e editado de tal forma que quase não se nota nessa versão nova-iorquina o limite entre um filme e outro, onde uma história termina e outra começa; não está evidente, e um personagem acaba transitando pelo espaço da próxima história.

Curtas para todos os gostos. Gostei da história do músico interpretado por Orlando Broom e por Christina Ricci; ela fazendo uma leitora assídua dos escritores russos, em especial Dostoievski, e o casal só se conhecia por telefone, até que um dia ela toma coragem e bate à sua porta.

Nova York, Eu te Amo é um filme de sentimentos e relacionamentos casuais ou não.

O próximo projeto está previsto para 2010, e será sobre uma cidade brasileira, ou melhor Rio, Eu Te Amo!

Sim, Rio, Eu te Amo! Uma declaração de amor.

Karenina Rostov

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Sinopse:

Na cidade que nunca dorme, o amor está sempre presente. Conexões humanas espontâneas, surpreendentes e eletrizantes criam um caleidoscópio que bombeia o coração da cidade. De Tribeca ao Brooklyn, passando pelo Central Park, pequenos contos dirigidos por dez realizadores de todas as partes do mundo exploram os cinco cantos de Nova York, compondo um retrato complexo e apaixonante de seu rico universo urbano.

Cast.

Biografia do diretor:

- Jiang Wen nasceu em 1963, na China.

- Mira Nair nasceu em 1957, na Índia.

- Shunji Iwai nasceu em 1963, no Japão.

- Yvan Attal nasceu em 1965, em Israel, mas cresceu na França.

- Brett Ratner nasceu em 1969, nos EUA.

- Allen Hughes nasceu em 1972, nos EUA.

- Shekhar Khapur nasceu em 1945, na Índia.

- Natalie Portman nasceu em 1981, em Israel, mas cresceu nos EUA.

- Fatih Akin nasceu em 1973, na Alemanha.

- Joshua Marston nasceu em 1968, nos EUA.

- Randall Balsmeyer nasceu nos EUA.

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Nova York, Eu Te Amo faz parte do projeto concebido pelos produtores franceses Emmanuel Benbihy e Marina Grasic. A ideia é convidar vários cineastas a fim de dirigirem histórias que se passam numa cidade. Paris, Eu Te Amo (2006) foi o primeiro filme da série e o próximo, Rio, Eu Te Amo será filmado na cidade brasileira, com estreia prevista para 2011.

Os produtores propuseram aos cineastas convidados que filmassem em 24 horas, editassem em uma semana e mostrassem as características marcantes de cada local da cidade onde filmaram. Por isso, Nova York, Eu Te Amo tem muitas cenas rodadas nas particulares ruas de Nova York. Diferentemente de Paris, Eu Te Amo, que tinha segmentos bem distintos, preservando de uma forma bem clara a identidade de cada diretor, este segundo filme do projeto soa mais como um longa sobre pessoas que vivem em Nova York do que uma união de curtas-metragens, como ocorria na produção sobre a cidade francesa.