“…E o Vento Levou” (Gone With the Wind. 1939)


Acredito que tinha apenas cinco anos quando assisti o meu primeiro filme, e foi um experiência horrível!. O filme era “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), o qual eu nunca revi!– não que fora um filme ruim, mas não fora um “gênero” que logo assim gostasse. Antes de superar esse trauma, assisti “…E o Vento Levou”– a minha irmã mais velha era fascinada pela Scarlet O’Hara. Literalmente, não entendi muita coisa sobre o filme, mas me encantei com a beleza do filme, e a linda música!.

Ano a ano, era um ato quase religioso rever o filme no final do ano. Depois de ser já lançado em VHS, eu via, e revia o filme, e assim me apaixonei por “…E o Vento Levou.” Quando cheguei nos EUA, Atlanta foi o meu destino, e recordo do “hall” no aeroporto, onde se tinha e tem uma homenagem a “Guerra Civil”, e detalhes sobre o filme de Victor Fleming. Foi mágico porque estava  na cidade, onde celebrava a visão dos derrotados sulistas!.

Sempre fui fascinado pelo o filme, e logo quis ler o livro — apenas 1037 páginas!!. Passei um ano para terminar o romance de Margaret Mitchell, porque não queria apenas lê-lo, mas devorá-lo lentamente. A narrativa de Mitchell é tão bela quanto ao filme !.

Ontem à noite, tive a chance de assistir “…E o Vento Levou” no cinema– numa verdadeira tela de cinema!. O cinema estava totalmente lotado!. Tudo bem, “…E o Vento Levou” detem muitos títulos: filme mais popular de todos os tempos; maior exemplo de cinema clássico de Hollywood e  melhor filme de todos os tempos. Vê-lo no cinema foi como se o tivesse visto pela primeira vez– a energia dentro do cinema era inacreditável: todos riam, e vibravam com os personagens.

Vivien Leigh faz Scarlett uma das mais vívidas personagens da historia do cinema– e talvez, nos presenteou com o melhor desempenho de uma atriz premiado com o Oscar. Leigh comando o filme com seus olhos nervosos, o rosto ‘quase’ de mármore esculpido, e aquela levantadinha da sobrancelha direita, que é um charme!. Creio que  não deveriamos gostar de Scarlett–ela é uma mulher má, mimada, que viola todas as regras estabelecidas por uma sociedade agradável. Além disso é egoísta, mercenária, ladra de homens, mas não se pode deixar de amá-la. Uma figura forte, firme, que sabe que o mundo não vai fazê-la nenhum favor, então foda-se o mundo, e uma boa parte do ‘povinho’ que vive nele. Scarlet é uma mulher moderna, mas erra ao ser mimada demais e passa a vida querendo algo que ela não pode ter, o amor de  Ashley Wilkes, um homem tão inexpressivo, que nunca consegui entender o porque desse desespero dela por ele.

Gable tinha 37 anos quando fez Rhett Butler– eu jurava que ele tivesse o dobro dessa idade. O seu Rhett é um homem sábio, e admirado, não apenas pelo “boboca” do Ashley, mas por outros sulistas. Mas, diante do amor, mesmo consciente, se mostra bobo para ter Scarlet.  A cena que ele se sente culpado depois de desejar que Scarlet sofra um acidente– o que acontece, e ela perde o bebe–, é possivel sentir a dor dele.  A cena partiu meu coração como se nunca tivesse visto antes!. Que ator maravilhoso!.

E, talvez a atuação  mais subestimada seja de Olivia De Havilland como uma santa em forma de gente!. Melanie é bonizinha demais, compreensiva demais, e não julga a nada e a ninguém. Uma verdadeira cristã que encontra o bem em quase todos. Rhett Butler refere-se a ela como a única pessoa genuinamente boa que ele já conheceu. Depois de ver o filme tantas vezes, aprendi a gostar da Melanie, principalmente pelo modo que ela ama e admira Scarlet — no mesmo nivel que ama o marido.

A primeira parte do filme tem como pano de fundo a guerra, a destruição de Atlanta– como Rhett diz a Scarlet, “dê uma boa olhada, minha querida. É um momento histórico. Você pode contar aos seus netos como você viu o Velho Sul desaparecer em uma noite”–,  e do plantio dos O’Hara, Tara. As imagens são  gloriosas e  emocionalmente brilhantes em termos visuais. E, mais importante ainda, essa primeira parte mostra o desenvolvimento de Scarlett, de mimada a uma mulher endurecida– ainda jovem!–, e determinada. Seu relacionamento com Rhett está lá, mas é mantido no “fundo”. Há tristeza–Atlanta em chamas–, humor, e cenas lindas de tirar o fôlego como a da sillueta avermelhada de Scarlett, dizendo  ” como Deus é minha testemunha…. Eu vou viver tudo isso e quando tudo acabar, eu nunca mais sentirei fome novamente…. Se eu tiver que mentir, roubar, enganar ou matar. Como Deus é minha testemunha, eu  jamais sentirei fome novamente.” E a todos no cinema aplaudiram – algo que me deixou arrepiado!!!

Na segunda metade, Scarlet vai mentir, roubar, enganar, e matar assim como prometido, mas o filme se concentra no drama,  ela continua ‘louca’ por Ashley, e Rhett vai se tornando cada vez menos sucedido. A narrativa pode até ser digna de uma telenovela, mas o material é tão bem apresentado e atuado, que não se torna menos relevante do que a primeira parte. E na tela grande “…E o Vento Levou” é tão surpreendente que não da para pensar que o filme tenha 73 anos de idade. O enredo, enquanto “progressista” e “moderno” para os anos 30, raramente é ingênuo. O diálogo é, muitas vezes brilhante, e algumas das trocas entre Rhett / Scarlett são particularmente inteligentes. Tal como acontece com todos os casais, seus olhares e linguagem corporal diz tanto ou mais do que suas palavras!. O filme não é sentimental porque ele é temperado num enredo longo com uma variedade de seqüências animadas e bem-humoradas. Os personagens são fascinantes, tanto por conta própria e na sua interação com outros. Destaque  para Hattie McDaniel, cuja brilhante Mammy parece um ser humano real.

Bem, a experiencia em ver “…E o Vento Levou” numa verdadeira tela de cinema, me fez ter a certeza que o filme é um espetáculo, um evento. Mesmo que os nossos hábitos tenham mudado ao longo dos anos, é fácil ver por que esse filme ainda provoca  tamanha onda de louvor, pois a sala de cinema estava lotadissima.  Um filme clássico que pode ser chamado de lenda.

Apenas levou 8 Oscars das 13 indicaçõess que recebeu, e como perdeu nas categorias como melhor ator para Gable, melhor trilha sonora para Max Steiner, melhor efeito especial, e melhor som?!