O Livro de Eli

Num mundo pós-apocalipse, onde o sol é tão intenso que obriga as pessoas a cobrirem diversas partes do corpo, além de protegerem os seus olhos para não ficarem cego, Eli peregrina por entre becos e locais destruídos rumo ao Oeste, carregando consigo um livro a qual lê todos os dias. Em sua jornada, Eli se depara com inúmeras aventuras, em parte devido a um mundo habitado por homens desnudos de honra, ética e moral – em sua natureza mais selvagem, cujo objetivo de vida é apenas sobreviver ao término do dia.

No decorrer da história, sabemos que Eli carrega consigo o único exemplar do livro sagrado de Deus – a Bíblia - que sobrou após a destruição em massa de todas as outras edições, consequência de uma guerra que provavelmente deixou o mundo como nos é apresentado no filme: sem vida, acinzentado e caótico. A Bíblia, na visão de Eli, não representa somente a salvação do mundo através da propagação da fé, nem somente a ordem tão necessitada nestes dias tenebrosos, mas significa também o compromisso com a sua própria crença, afinal foi uma voz que lhe pediu para percorrer esta empreitada.

Eli, interpretado pelo excelente Denzel Washington, é um profeta de Deus. É o instrumento do divino para salvar uma vez mais a humanidade, assim como já fizeram tantos outros – segundo registros bíblicos. Eli é o grande herói de seu tempo, protegido pela alcunha do mestre dos mestres. A sua história representa o primeiro capítulo de uma espécie de novíssimo testamento, uma parte jamais escrita da Bíblia que relata as proezas divinas desta época. Até nisto o título do filme vem muito a calhar.

Através do título, muito interessante pela proposta que eu observei em particular percepção, entendo que os idealizadores trabalharam com a ideia que se trata de uma versão filmada de um livro bíblico jamais escrito, que viria logo após o apocalipse de João, que supostamente teria sido escrito há muitos anos e que retrata como Deus salvou a humanidade através de sua palavra, carregada pelo profeta Eli. O Livro de Eli, portanto, não é somente o título do filme, mas o título do que poderia ser um livro bíblico.

Imagine se a história do filme fosse escrita em papiro, com o devido estilo bíblico aplicado, e encontrado numa região remota, num local inusitado, daqui a 1000 anos. Qual seria o efeito da obra? Se tornaria um objeto de adoração global? Se tornaria um evangelho apócrifo? Não temos como saber, porém creio que, no mínimo, haveria pessoas que acreditariam na história, talvez a igreja católica – se existisse no ano 3010 – até canonizaria o Santo Eli. Talvez se tornasse uma história a ser contada nas igrejas, dos dias em que Satã habitou na Terra e como um homem tocado por Deus conseguiu expulsá-lo somente com a fé nas escrituras.

Em determinados versículos do Livro de Eli talvez houvesse sermões sobre como o conhecimento excessivo – típico da sociedade da informação – trouxe o mal ao homem, cuja ganância fez com quisesse ser Deus para controlar a humanidade, lição encontrada nas passagens sobre Carnegie. Material para que os líderes espirituais formulassem os seus sermões é o que mais encontrariam no Livro de Eli.

Mas será que o roteirista, ao escrever a história, queria passar uma mensagem religiosa, sobre a necessidade de redenção e sobre a necessidade de ter fé no Deus Uno para termos uma vida organizada e, principalmente, feliz? Será que o homem, por si só, não obteria os valores éticos e morais para organizar-se sem a necessidade de Deus dentro de si, e por isto mesmo este reencontro com o divino era totalmente necessário? Nos dias atuais cada vez mais dispensamos a fé para nos apegarmos às explicações materiais, seria o filme uma crítica a esta afirmação? Ultima questão: será que o filme realmente é uma espécie de pregação religiosa?

Eu, felizmente para alguns e infelizmente para outros, não veja desta forma. Sobre a minha ótica a mensagem pode ser ligada diretamente ao problema conhecido como a origem do mito. Da mesma maneira que o Livro de Eli foi escrito, outros livros épicos da Bíblia também, como a história de Noé, Moisés, Abraão, José, Jó e Jesus Cristo. Sabemos que o Livro de Eli não passa de ficção, portanto onde reside a credibilidade dos outros livros presentes na Bíblia? A credibilidade, obviamente, reside na fé. A mesma fé que levou Eli a crer que jamais poderia ser ferido em sua jornada – e quem assistiu ao filme sabe que ele foi gravemente ferido.

Além disto, a fé é incondicional e indiscutível, afinal se trata de um sentimento relacionado com uma certeza que não sabemos de onde vem. É ela que nos guia quando não sabemos para onde ir. Ou seja, a fé é cega e Eli é cego. Desde o início do filme temos evidências para acreditar nisto, porém somente no final temos uma revelação conclusiva. A questão é: a cegueira de Eli é uma dádiva ou uma maldição para as pessoas que estão ao seu redor? Com Eli não tem diálogo, quem cruza o seu caminho e tenta lhe impedir acaba sendo morto impiedosamente – entretanto a culpa pelo assassinato nunca foi um sentimento presente e nem mesmo empecilho nos profetas de Deus. Estamos diante de uma crítica ao fanatismo religioso?

Talvez não, talvez isto seja apenas um delírio provocado por minha mente agnóstica, porém relembremos que no passado houve uma guerra devastadora, cujo se acreditava que todas as Bíblias haviam sido queimadas. Entretanto aqui temos uma importante e insolúvel questão: as Bíblias foram queimadas antes ou depois da guerra? O teor do filme sugere que o mundo ficou caótico por que as pessoas se afastaram e perderam a fé em Deus, porém esta é apenas uma sugestão. Numa outra leitura podemos dizer que a guerra foi tão destrutiva e tão cruel com as pessoas, a maioria delas provavelmente não tinham nada a ver com o conflito, que elas mesmos perderam a fé. Neste contexto, Deus não lhes protegeu, logo eles se rebelaram ou perceberam que era tudo uma farsa. Em paralelo Eli, que é cego (sua cegueira pode ser considerada uma metáfora para o que estou dizendo) continuou a acreditar.

Além disto, quando Eli chega ao término de sua jornada, ele entrega e traduz o livro, que está em braile, para uma pessoa que conserva outros livros, em tese, conserva o conhecimento. Ao fim, esta pessoa imprime diversos exemplares, o que poderia simbolizar a renovação da esperança, porém ao pegar uma destas edições e inserir entre dois outros importantes livros para a religiosidade, a Torá e o Alcorão, o roteirista abriu novas questões: se eles já tinham a Torá e o Alcorão em mãos, por que o mundo continuava imoral, visto que estes livros também trazem consigo mensagens do mesmo Deus (vide Pentateuco)? Será que apenas a Bíblia Cristã seria distribuída entre as pessoas?

Ou a Bíblia seria apenas mais um livro na prateleira? O que garante que a distribuição da Bíblia iria tornar aquele um mundo melhor? Se você achou o final do filme uma alternativa otimista para um filme que retrata uma realidade pessimista, saiba que este sentimento veio do tema-mor da história: a fé. A fé é mágica, fascinante e também elabora opiniões. Para aqueles que possuem fé no divino, a história trará uma excelente lição de moral, e ficará satisfeito com o resultado. Para os mais céticos, como eu, o filme trará uma série de dúvidas sobre o seu propósito, e este também ficará satisfeito. Já aqueles que não possuem fé nenhuma, o filme poderá ser lido como uma excelente ironia sobre como surgem os mitos e, assim como os outros, também estará satisfeito com o resultado final.

A possibilidade de múltiplas interpretações, sem precisar exigir muito do telespectador, cria um diálogo tão interessante entre sujeito (aquele que assiste – nós) e o objeto (aquele que é assistido – o filme), que não há como não inserir esta obra na minha lista de prediletas da sétima arte. Estamos diante de uma joia rara, daqueles que permitem uma série de debates. Há pessoas mesmo que ainda discutem se a personagem principal era mesmo cega, conforme insinuado ao término do filme.

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens)

Então quando você sentir que acabou a esperança, Olhe dentro de você e seja forte. E você finalmente verá a verdade, Que há um herói em você.

Somente o passado era previsível aos olhos dessa mãe. Nele, a crueldade de uma guerra religiosa e étnica, já lhe tirara quase toda a sua família. Ficara apenas ela e um único filho. Restara-lhe agora um dilema: mantê-lo junto a si, mas sem saber até quando, ou perdê-lo para o mundo, mas dando a ele a chance de ser alguém na vida. O momento dessa tomada de decisão se aproximava. A Operação Moisés era a oportunidade de dar um futuro digno ao seu filho, ainda um menino. Não seria fácil, pois precisaria de ajuda.

Um resumo do que foi a Operação Moisés. Um fato histórico acontecido em 1984. Onde uma equipe do Mossad resgata judeus etíopes de um acampamento de refugiados no Sudão. Levando-os para Tel Aviv, Israel.

Agora, voltando a batalha invisível que então levaria seu filho para longe de si. Ele teria que se passar por judeu. Como convencê-lo a ir sem ela. E quem a ajudaria.

A essa mãe tão castigada pela vida, uma outra mãe que há poucas horas perdera seu filho, numa linguagem muda, dá a ela a certeza de que dali para frente seria com ela. Assim, o menino ganha um novo nome: Schlomo. E ele, de coração partido segue em frente para cumprir um pedido/ordem de sua mãe: “Vá, viva e se transforme“.

Uma pausa para voltar a falar da Operação Moisés. É que no início do filme, me peguei a pensar se atualmente outras nações também não faria o mesmo. Por ter sido um feito digno de aplausos. Mas com mais um pouco do filme, vi que nem mesmo Israel voltaria a fazê-lo. Como também ficou uma dúvida do porque fizeram. Até por terem se cercado de todo um aparato para receber esse povo. Muros, soldados… Parecia que estavam numa prisão. Com muito mais regalias, é claro. Mas ainda detidos para uma investigação mais detalhada se eram de fato judeus.

Schlomo perde ai, essa sua segunda mãe. Mas o destino ainda conspirava a seu favor. Lhe dando uma terceira e então definitiva mãe. Por sorte, ele fora adotado por uma família agnóstica, e de esquerda. Mas achando que ele de fato era judeu, o colocam para estudar o Torá.

Scholmo mesmo diante de tanta fartura em alimentos, recusa-se a comer, ficando apenas nos líquidos. Falando em líquidos, a cena do seu primeiro banho de chuveiro, arrepia. E quando ele conta o porque o traumatiza tanto, é de sentir raiva da estupidez, da selvageria dos homens num campo de batalha e com inocentes.

Voltando a essa terceira mãe, ela é incansável, tanto na educação, como em tentar cicatrizar as feridas desse coraçãozinho. Precisam ver o que ela faz para que Scholmo decida se alimentar. Entre broncas e carinhos, ela o faz seu filho, de fato e de direito. E lutando para que o respeitem como um deles. Mais que o preconceito religioso, a cor da pele será uma batalha que ambos irão enfrentar dali para frente.

Além dessas mães, uma outra mulher entrou na sua vida na fase da adolescência, e seguiu junto com ele. Ela teve que romper outras barreiras, teve que romper laços sagrados para ficar ao lado dele. Por ter quem não aceitava a relação de uma branca com um negro.

Em sua trajetória de vida, dois homens contribuíram e muito em sua formação. Diria que foram seus dois Mentores. Um, um patriarca de sua terra natal, que tal como ele, estava em exílio. Eram ambos dois sobreviventes. O outro, o avô da família que o adotou. Ambos ensinaram os verdadeiros valores, as verdadeiras bagagens que se deve levar ao longo da vida. A cena de uma sabatina final na leitura do Torá, é emocionante.

Não querendo comprar guerras, até por imposição do pai adotivo, que o queria lutando, ele vai estudar medicina em Paris. Ao se formar, acaba embarcando numa guerra que não era dele. E nela, por se vê impedindo de atender alguém, e por ambos os lados numa guerra estúpida, se descuida, e termina sendo ferido. Volta para a casa, e casa.

Acabou? Não, tem muito mais ainda. Eu apenas pincelei o que seria esse filme. Nele, a trajetória de um menino até a fase adulta. É um filme longo. Poderia ter sido mais enxuto? Sim, mas mesmo assim não cansa, e nem tira a atenção. O final do filme, arrepia! Agora, embora eu tenha gostado, revê-lo, talvez num remake mais curto.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens). 2005. França. Direção e Roteiro: Radu Mihaileanu. Elenco: Yaël Abecassis, Roschdy Zem, Moshe Abebe, Sirak M. Sabahat, Roni Hadar. Gênero: Drama. Duração: 140 minutos.