As Horas (The Hours. 2002)

A fantasia, em todas as suas formas, só tem utilidade se servir como uma reflexão do que pode ser construído para o futuro.” (Kurt Vonnegut)

Muito embora o filme traga três personagens femininas é do lado feminino de ser que cada um de nós temos, homens e mulheres, que ele mostra. E esse olhar feminino vem pelo poeta, justamente por um personagem masculino. Um jeito romântico de ser e de olhar o mundo. Lindo!

Aí ficam perguntas! Tudo tem que ser tão certinho? Tudo tem que sempre ser encarado dentro da normalidade, daquilo que já está pré-estabelecido? A mola do mundo também é movimenta por algo fora dos padrões, fora do convencional. Sempre teremos tempo de subverter a engrenagem da vida? Ou não! Já que o tempo não para. As horas voam. Onde estaria, melhor, onde ficaria o sonho, o desejo, a vontade em traçar seu próprio destino? Pois levar uma vida dupla, onde a real é por pura obrigação, onde a de sonhos é escapismos, há de chegar uma hora que não aguentará mais. E ai…

Não li o livro do qual o filme foi baseado. Como também ainda não li o livro de Virgínia Woolf, “Mrs. Dalloway” que faz parte do filme. Esse me motivou mais a ler. Então focarei o filme. E sem entrar muito na patologia da escritora por não ser a minha praia. O filme mostra um dia ímpar na vida de algumas pessoas. Com ela, Virgínia Woolf, escrevendo os esboços de mais um livro. Que viria a ser seu último trabalho. Como também, anos depois (Em 1951 e em 2001; nos EUA.), vidas alteradas em alguns dos leitores desse mesmo livro. Um dia que ficará marcado para sempre.

O que me cativou de pronto foi o lance dela ficar buscando uma frase para então iniciar o texto. Sem nenhuma pretensão nessa comparação, lhes digo que eu era assim. Para qualquer texto que escrevia, mesmo para uma redação na escola, buscava por uma frase para iniciar. Após encontrá-la, o texto fluía naturalmente.

Nicole Kidman faz a Virgínia Woolf. Confesso a vocês que não a reconheci de imediato. Só fui mesmo notar quando outra pessoa comentou. Parabéns pela performance e pelo visual!

Virgínia após encontrar a frase “Eu adoro flores!” pensa no rumo que dará aos personagens. Sua intenção inicial era matar a protagonista. Sua inquietude também por conta de sua doença a faz parar por algumas horas e olhar o mundinho que a cerca. De onde se deprime por saber que está presa ao seu problema. Gostaria que mais do que drogarem-na que os médicos encontrassem uma solução. Durante esse correr do dia, constata que sua casa funciona sem ela, pois as criadas tomam as decisões que deveriam vir dela. Talvez, numa de punir, faz a empregada ir comprar gengibre em Londres.

Depois com a visita da irmã com os sobrinhos capta mais coisas. Visita essa que por terem chegado antes da hora irrita o marido (Stephen Dillane). A irmã (Miranda Richardson) lhe diz que é uma privilegiada, por poder viver duas vidas: a real e a dos livros. Mas Virgínia queria mesmo viver outra vida. Até da irmã, já seria bem-vinda. E por conta de um cerimonial junto com a sobrinha para um pássaro à beira da morte, reflete mais, mas agora também sobre a sua vida real.

Uma das passagens mais tocante é dela com o marido na estação de trem. (Algo sadio em qualquer relacionamento: o de discutir a relação.). O que cada um fala para o outro. Mas que deixou uma pergunta: “Será que ambos ouviram o que o outro dizia de fato?” Claro que eles tentaram. (Atualmente, eu diria que num caso semelhante precisariam da ajuda de um profissional.). Mas diante do quadro clínico dela e por Leonard ser meio avesso às mudanças repentinas, não houve o acesso até ela. Mesmo havendo amor entre eles, um não conseguia satisfazer o outro. Numa parte, quando ela diz estar entediada ali naquele lugar, ele lhe diz que ela sentia o mesmo na agitação da capital. Ele bem que tentou dentro do limite dele, do jeito dele, fez o que julgava estar certo e por amor a ela. Mais uma vez estava disposto a mudar a si próprio por ela. Mas não era isso que ela queria. Virgínia queria não apenas libertar-se, como também não manter ninguém preso a ela. E eles não se entenderam; não chegaram a um acordo em comum.

As outras duas histórias mesmo passadas em anos diferentes irão se unir de fato nesse único dia. Não! Não se trata de nenhuma viagem no tempo. Vendo o filme irão entender melhor. Por hora vou tentar contar sem estragar a surpresa de quem ainda não viu esse filme.

Laura Brown (Julianne Moore) leva a vida de uma dona de casa padrão. Casada. Mãe de um menino e encontra-se grávida de outro. No dia do aniversário do seu marido, Dan (John C. Reilly), algo acontece que a faz mudar radicalmente a sua vida. Pontua essa decisão não apenas a história do livro, mas a conversa com a amiga Kitty (Toni Collette). Essa, por estar na iminência de não mais poder gerar um filho considera a amiga uma privilegiada. Mas essa não é a vida que Laura queria levar. Ela queria libertar-se. Mas como sair daquela engrenagem? O que seria do seu garotinho? Certo ou errado, Laura segiu com a sua decisão.

Passados mais alguns anos, conhecemos Clarissa Vaughan (Meryl Streep) que como na manhã da história do livro sai para comprar flores. Também irá dar uma festa. Seu grande e inestimável amigo Richard (Ed Harris) ganhara um prêmio. Prêmio esse que o colocava na lista dos grandes poetas. Mas que para ele viera mesmo por ele se declarar aidético. Clarissa já incorporara em seu dia-a-dia ir cuidar dele. Mas isso o deprime, achando ser um fardo para ela. Tal qual Virgínia com o marido, ele também se desgosta em precisar desses cuidados. Richard a ama demais para mantê-la presa a ele. Ela tem uma filha (Claire Daines), ela tem Sally (Allison Janney) como companheira. Tem também a sua própria vida.

Assim, ao final de um único dia, após fazerem um mergulho profundo dentro de si mesmo, após reverem seus fantasmas – “Ou seria seus piores pesadelos?” -, dormem o sono dos justos. Para alguns, um novo amanhecer surgirar. E por conta disso, mesmo sendo um clichezão, repito: “Enquanto há vida, há esperança!” Eu fico triste quando vejo um final com o fim de certos personagens. Triste, mas respeitando a decisão.

Esse entrou para a minha lista de que vale a pena rever, sempre! Filmaço! Nota máxima!

Por: Valéria Miguez.

As Horas (The Hours). 2002. EUA. Direção: Stephen Daldry. Elenco: Nicole Kdman, Meryl Streep, Julianne Moore, Ed Harris, John C. Relly, Claire Danes, Toni Collette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Stephen Dillane. Gênero: Drama. Duração: 114 minutos. Baseado no livro de Michael Cunningham.

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5 comentários em “As Horas (The Hours. 2002)

  1. Valeria, eu tb adorei este filme, me identifiquei muito com ele e com seus personagens, pois acho que neles tem um pouco ou muito de cada um. Mas como assisti o filme em japones, e nao domino completamente a lingua, fiquei na duvida, a personagem da Julianne Moore abandona a familia por querer viver com outra mulher? Ou por simplesmente nao querer mais viver aquela situacao (marido, filho, rotina)? Mas gostei muito no final quando ela diz que escolheu viver. Belissimo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Oi Geny!

    Grata, também pela visita!

    A personagem da Julianne Moore não abandonou por uma outra pessoa. E sim para assumir a sua identidade, muito mais que a sua sexualidade. Tinha tudo reprimido. Ela estava como vivendo uma vida/história que não era dela naquele casamento.

    O filme é belíssimo sim!

    Beijo grande,

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  3. Pingback: O LEITOR (The Reader) « Cinema é a minha (nossa) praia!

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