Nina (2004)

Cinema Nacional Legendado.

Nina é nome de mulher e título de um filme nacional saído das páginas de uma novela russa, da obra máxima de Dostoievski – CRIME E CASTIGO. Dizer tratar-se de um nome feminino foi um pleonasmo proposital, já que Nina é a metamorfose da metamorfose da atormentada alma e personalidade do próprio autor, (a alma de Dostoievski é complexa, “como não ser ao mesmo tempo anjo e diabo?” um imenso labirinto) mais a personagem central ou principal dessa obra batizada de Raskolnikov. Autor e personagem fundem-se de tal forma que não se sabe onde começa um e termina o outro. Uma obra da grandiosidade de Crime e Castigo sendo transformada em um roteiro para filme é maravilhoso; mais maravilhoso ainda é saber que a idéia partiu de um cineasta nacional, um roteiro nacional, o que muito me orgulha e lisonjeia.

Raskolnikov foi transformado em Nina, isso me faz lembrar do filme Transamérica, cujo objetivo de vida da protagonista era mudança de sexo. Há muito o que se questionar em relação a isso, principalmente nos tempos atuais que praticamente quase tudo é possível: clonagem, barriga de aluguel, produção independente (basta pesquisar em um banco de sêmen e fazer a escolha), mudança de fenótipo, e por aí vai… (e isso seria assunto para outra história). Será possível fazer mudança de alma? Alma masculina e feminina são iguais? Há o paradoxo do manto diáfano, da tênue linha que separa ambas. Pólos divergentes. Distintas. E como. Mas voltando ao filme Nina. Nina / Raskolnikov / Dostoieviski são almas atormentadas.

Assisti ao filme e fiquei maravilhada. Há tempos não via um filme tão interessante que me motivasse e que me divertisse. Quem leu essa obra dostoievskiana sabe muito bem do que estou falando. É a mesma história para almas diferentes: alma feminina e alma masculina. O criador de Nina agiu como um cirurgião competente, retirando o excesso, fez uma lipo, colocou silicone onde precisava, botox e uma leve maquiagem. Mas há tanto que se falar dessa obra. Nomes de personagens das obras dostoievskianas são geralmente forjados; Ralkolnikov, por exemplo, vem do verbo rachar, dividir. Daí é só concluir a razão dessa escolha de palavra.

Retomando o que queria dizer sobre o filme NINA – personagem femininA, inteligente e sensível, porém solitária e abandonada à própria sorte da cidade grande, destino incerto, retrata a condição humana das pessoas e seus conflitos existenciais. Ela nada tem de valor material, vive de pequenos bicos e favores. Ela pouco tem de valor imaterial: a sensibilidade poética e artística, porém não a usa adequadamente. Nina (o filme) é ousado e sensível, num estilo meio sombrio, meio gótico, consegue desenvolver-se despertando o interesse das pessoas que o assistem (Mexeu comigo). Nina, meio pretensioso, meio envolvente, fazendo suas escolhas, desempregada, prostituir-se ou não para sobreviver? Ou os caminhos da vida ou da morte, pelo livre-arbítrio (matar ou morrer de inanição?) Há tanto o que se questionar…Coincidência ou não predestinado a ser desconstruído por todo roteirista que se preze, por ser tão significativo. Tenta levar o expectador à beira da loucura, insana e obediente, claro, transportando-nos aos eus mais profundos.

Nina tem seu valor – qual foi o seu crime? E qual será o seu castigo? A sua caridade e boa ação, em dinheiro roubado, dinheiro doado, a velha história de ladrão que rouba ladrão (na cena caliente de paixão em que rouba do cego, inversão de valores, e doa à prostituta que por sua vez paga a viagem de taxi) Que viagem! Nina (Guta Stresser) a garota sensível que via-se envolvida com seus desenhos em seu quarto, revelando um pouco de sua alma, é aquela que mata a bruxa, envolvida nos fantasmas do seu inconsciente, assim como Raskolnikov, um ser imortal pelo sopro de seu criador, envolvida no crime, vive angustiado pelo seu pecado ou pelos conflitos existenciais… assim é Nina-Raskolnikov, e punido será tendo como prisioneiro suas lembranças e a lâmina que fere… enfim… libertar-se, quem sabe…

Esse filme, com certeza, superou todas as expectativas. As cenas muito bem ilustradas com imagem metafóricas dos pintores de paredes (Selton Mello e Lázaro Ramos) que trabalhavam no apartamento ao lado onde Nina morava de aluguel, com a proprietária dona Eulália (Myriam Muniz) contrastando com as pinturas e desenhos de Nina. O diretor desse longa é Heitor Dhalia, que eu não conhecia, e a partir de então considero-o talentosíssimo. Adorei o filme! O cinema nacional está a cada dia mais maravilhoso. Há nesse filme a figura constante da antítese: fome material x fome espiritual; vida e morte, miséria x riqueza; matéria x alma; bem e mal; juventude e velhice. Uma vitória e tanto para o cinema brasileiro também no que se refere às interpretações e aos excelentes atores. Tudo no filme é envolvente, inclusive na escolha de cenário que dá aquele aspecto de antiguidade, de coisa velha e cheiro de mofo. Aliás, é um filme genial. Sinto um grande orgulho do cinema brasileiro. Nota 10!

Há muito filme nacional interessante, mas esse além de interessante é genial. E se esse é o primeiro longa do diretor Heitor Dhalia, já começo a imaginar os seguintes… E se você está se perguntando o porquê do título “Cinema Nacional Legendado”, assista ao filme e descubra entre os desenhos feitos nas paredes por Nina, que há palavras em russo não traduzidas, uma por exemplo, é a palavra “Saída”. Talvez seja uma forma de nos apontar um caminho, uma saída, uma escolha para nossa própria condição humana, nossa própria vida. Existe saída???? P.S.: Esse filme NINA participou do Festival de Cinema de Moscou e acabou ganhando um prêmio de crítica.

Por: Karenina Rostov. Blog Letras Revisitadas.

Nina. 2004. Brasil. Direção e Roteiro: Heitor Dhalia. Elenco: Guta Stresser, Renata Sorrah, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Myrian Muniz, Selton Mello. Gênero: Drama. Duração: 85 minutos. Censura: 16 anos.

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4 comentários em “Nina (2004)

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