Ensaio Sobre a Cegueira (2008): Uma Análise

Acabo de sair do cinema. Me encontro em estado de êxtase contemplativo. Estou pasmo, feliz e um tanto quanto emocionado. Um dos meus maiores temores já não tem razão de ser, pois Fernando Meirelles conseguiu a façanha inédita de adaptar com maestria a obra maior de José Saramago. Creio que as palavras que melhor descrevem o meu estado neste momento são estas duas: orgasmo mental.

José Saramago, em minha franca opinião, é o melhor escritor de literatura de todos os tempos. Me desculpem Dostoiévski, Tolstói, Hemingway, Kafka, Dante, Herman Hesse, Fernando Pessoa – também amo todos estes – mas Saramago, além de sua excepcional criatividade, tem uma maneira singular de contar histórias: ele sabe escolher as palavras certas e como encaixá-las no texto, graças a sabedoria popular adquirida durante toda uma vida levada com simplicidade. Sua narrativa é um espetáculo a parte e não posso simplesmente tentar explicar a sensação de ler um texto de Saramago justamente porque as palavras me limitam a fazer justiça à sua obra.

Li o livro Ensaio Sobre a Cegueira em Junho de 2001. Poucos dias se passaram entre o início e o fim, pois a história era tão instigante que não conseguia chegar à um ponto que me bastasse. Acabei por ficar tão envolvido com toda a magia do livro que não queria saber de mais nada, a não ser apreciar lentamente e com delicadeza página-por-página daquela história que nunca saiu de minha mente. Se tivesse que escolher apenas um livro para ler durante toda a minha vida, não hesitaria em escolher o Ensaio Sobre a Cegueira como principal candidato.

Este não é o único livro que li de Saramago. Ao contrário, faltam apenas alguns para que eu tome conhecimento de toda sua obra, porém o Ensaio chega a ser tão bom que ofusca outras histórias. Conforme estes meus comentários, vocês devem imaginar que eu sou uma espécie de fanático pelo autor português, então imaginem a minha preocupação e angústia ao saber que a melhor história de todos os tempos seria filmada?

A primeira coisa que veio em minha mente foi: como? Como uma obra considerada por mim e por muitos como intransponível para as telas poderia ser filmada? Coisa boa é que não poderia surgir de tamanha ousadia. Desta forma, será que os realizadores do filme não iriam assassinar o livro dourado escrito em nosso tempo? Como ficariam os diálogos ácidos de Saramago? Como eles poderiam ser traduzidos em imagens?

Não irei assistir! Pronto! Seria persistente em meu ponto-de-vista e valeria de minha teimosia para bater o pé e não ceder. Porém um vídeo no YouTube, me fez mudar de idéia.

Nele, temos Saramago, ao lado de Meirelles, em lágrimas dizendo que a emoção que estava sentindo era a mesma de quando ele havia terminado de escrever o livro. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça! O próprio autor dera o seu parecer, e de forma tão intensa que não havia como a adaptação ter ficado ruim. Enfim, fiquei ainda mais confuso e curioso. De certo, somente a decisão que iria, a qualquer custo, assistir a película no cinema.

Enfim, minha mente era um turbilhão de pensamentos. Eis que chega o grande dia. Quando entro no cinema entro também numa batalha contra todos os pré-conceitos formulados anteriormente. Tenho medo do resultado final. Desejo, com antecedência, que o filme seja ruim, pois então estaria vingado de todos os diretores que insistem em dizimar um autor consagrado ao tentar prostituir uma bela história nos cinemas hollywoodianos.

Deveria ter me recordado que do outro lado não estava qualquer diretor. Estava um que não insulta a mente do telespectador e que respeita a sua inteligência. O brasileiro Fernando Meirelles já provou que é um dos maiores nomes do cinema internacional. Em algumas entrevistas, ele disse que já foi convidado para dirigir grandes blockbusters, mas este não é o seu foco, mas sim fazer filmes tocantes. Foi assim anteriormente com “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”. Obviamente ele trataria com carinho o maior clássico de Saramago. Ele não entraria num projeto que considerasse inviável apenas para ganhar projeção. Meirelles, ao aceitar o desafio, teve coragem superior aos espartanos na batalha contra os persas. Era o seu nome e sua carreira que estava em jogo. E ele superou todas as minhas expectativas.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontece, então não leia o conteúdo abaixo.

O que aconteceria se as pessoas passassem, de súbito, a perder a visão – e não uma cegueira escura, mas branca, como uma luz cintilante e intensa? Este é o tema explorado por Saramago em seu livro de 1995. Por trás de uma idéia simples surge um leque tão grande de possibilidades que Saramago consegue explorar o que há de mais selvagem e humano nos homens e colocar-lhes em frente à um espelho: hora refletimos bestialidade, hora fragilidade.

Um homem, em meio ao trânsito, fica cego. Logo, outros vão ficando. Passa-se algumas semanas, e a proporção de cegos aumenta de forma que o governo e as forças armadas se vêem forçados a tomar medidas drásticas e colocar os infectados pela “maldição branca” em quarentena numa espécie de alojamento, de modo que acredita-se que o vírus seja contagioso. No começo apenas um casal fica encarcerado, mas em pouco tempo surgem dezenas e dezenas de pessoas, a maioria sem saber o que realmente está acontecendo. Quem está dentro desta prisão improvisada não tem contato algum com o mundo exterior.

Dentro desta situação, temos uma mulher que enxerga, que resolveu entrar em quarentena para ajudar o marido em sua cegueira. Porém ninguém, a não ser o próprio marido, sabe de sua condição. Logo, grupos irão se dividir, e eles entrarão em conflito por necessidades básicas. Depois são apenas os demônios presentes em cada ser que irão orientar o seu caminho, de modo que eles chegam a se tornar figuras selvagens de uma selva sem lei.

A primeira coisa a observar é o caráter existencialista da história: inesperadamente somos devastados com uma epidemia de cegueira. Em nenhum momento sabemos como ou porquê. Sendo os homens seres que entendem que são controladores de todas as situações, ao se deparar com tamanho absurdo entram em crise de identidade. Nestas situações extremas, a figura do homem real, sem influências e sem moderações, costuma aparecer de forma intensa e irracional. O homem tem a necessidade de explicar o início e o fim de todas as coisas, logo quando se depara com algo inexplicável, uma dor muito intensa toma conta de si, de modo que ele beira a falta de sanidade e passar a cometer atos inexplicáveis.

Ainda nesta linha existencialista, temos a figura de uma mulher que enxerga num universo de pessoas que só vêem branco a sua frente. No inicio ela acha que é questão de tempo até ficar cega, como todos os outros, porém logo ela entende que não irá perder a visão. Então porque ela? Como ela pode ser imune à algo que atinge a todos? São perguntas que não temos respostas em nenhum momento. O certo é que ela está sozinha. E a aparente vantagem que ela leva em relação ao resto se converge em sofrimento ao vislumbrar o que há de mais bárbaro nos atos dos homens. Como dizem no popular, as vezes é preferível não vermos do que vermos tantas coisas ruins. Esta é uma verdade.

O segundo ponto a ser observado é que a epidemia é de cegueira. Num mundo onde imagem é tudo, não acredito que Samarago inseriu a deficiência coletiva de forma desproposital. Ao contrário, ao retirar a visão das pessoas, o autor removeu toda a referência disponível para seres subordinados a apenas aquilo que vêem. Ele desnudou o homem e o colocou na frente do espelho para mostrar quem realmente é: o homem sem referência de imagens é um homem desesperado, pacato e covarde, que não se entende e não entende o que está ao seu redor. Imagens funcionam como signos de fé. Logo, acredito naquilo que eu vejo, pois o que eu vejo é evidência daquilo que realmente é. Porém com este raciocínio podemos concluir que quando não vemos não entendemos, logo, deixamos de existir.

O terceiro ponto inicial que gostaria de mencionar é a cegueira branca. No escuro, temos a tendência de ficarmos relaxados. Já no claro, ficamos mais agitados. O dia é para viver e a noite para dormir. Agora imagine que quando você fechasse os olhos, ao invés da escuridão, enxergasse um branco ofuscante como se tivesse olhando para o próprio sol? Como você iria conseguir dormir? Nesta linha, Saramago frisa que o homem começa, vagarosamente, uma jornada rumo a loucura. Sendo assim, cada dia que passa, mais próximos estamos de um colapso generalizado.

Somente com estes três pontos podemos apreciar a obra com um olhar mais crítico e contemplativo. Creio que Meirelles entendeu a sacada e se preocupou mais em trabalhar a trama e estes conceitos do que transpor os diálogos e a narrativa de Saramago no livro. E foi por isto que a adaptação foi estupenda. Justamente porque o filme não inibe o prazer de ler o livro mesmo após ter assistido o filme ou vice-versa.

A direção do filme é soberba e exemplar. É sombria, como deveria ser, e transita os nossos sentimentos entre o desespero e o alívio, a indignação e a resignação. A história não foi criada para ser bonita – ainda que seja – mas para dar um tapa em nossa cara e dizer: “Aí esta você! Acorde antes que seja tarde!”. Meirelles trabalha com o branco e o negro de forma mágica: tons desfocados são inseridos no canto da tela e ao fundo, as vezes temos sobreposições de imagens e efeitos fantasmas, quando então ele decide dilatar a pupila da câmera. Então somos arremessados num mar de leite, a tela fica branca, os diálogos são construídos sob a perspectiva das personagens e quase nos tornamos um deles.

Algumas cenas são perturbadoras e deixarão cicatrizes por anos em minha mente. Servirá para lembrar que para situações extremas podemos esperar atitudes extremas, ainda que sem justificativas. É o desencontro do homem. A fuga que ele necessita para acobertar suas atrocidades sem sentimento de culpa. No fim, jogamos a dignidade numa lata de lixo e o que nos sobra é este nada que representa o ser humano no contexto universal. Não um nada no sentido mais vazio, mas um nada quando comparado que ele não é a única força que rege o mundo e que a própria vida tem as suas regras que desconhecemos, sendo que todos estão sujeitos a sofrerem as conseqüências dela.

Na busca pela sobrevivência acabamos por nos encontrar novamente e vemos uma outra face no espelho. Ficamos envergonhados de certos atos ao fazer uma genealogia de nossa vida. É tempo de recomeçar e aceitar as coisas como elas são. Esta é a única maneira de recuperar a nossa dignidade e extrair alguma bonificação que a vida possa nos dar: aprendendo a conviver consigo mesmo, assim como entendendo suas limitações.

Belíssimo! Belíssimo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO  Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Ensaio sobre a Cegueira (Blindness). 2008. Brasil. Direção: Fernando Meirelles. Elenco: Julianne Moore, Danny Glover, Alice Braga, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Don McKellar, Maury Chaykin, Martha Burns. Gênero: Drama, Suspense. Duração: 124 minutos. Censura: 16 anos. Adaptação do livro de José Saramago.

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12 comentários em “Ensaio Sobre a Cegueira (2008): Uma Análise

  1. Evandro!

    Grata por compartilhar tão belo texto! O Meirelles ficaria também emocionado por suas palavras.

    Parabéns, moço! Seu texto emociona!

    Ainda não vi o filme. Após assistir, venho comentar, aqui e em seu Blog.

    Beijo grande,

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  2. Oi Lella,

    Não conheço essa comunidade, do que se trata?
    Ah, a foto não é minha, na verdade é uma imagem da revista Corpo a Corpo.

    Obrigada pela visita e saiba que visitava seu blog diariamente com a minha “FOME” de filmes :o)

    Beijos

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  3. Oi Viviane,

    a comunidade é como blog comunitário. Onde trocamos idéias sobre tudo. É é muito legal!

    E não quer compartilhar conosco um texto seu? 🙂
    Se aceitar, me avise.

    Beijo grande,

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  4. Estranho… Você comenta que acha “Ensaio…” intransponível para as telas. Como? O livro é substancialmente cinematográfico, assim como praticamente todas as obras de Saramago. Todas as cenas estão lá, no livro e no filme. Estão lá, com cortes ou acréscimos. O livro tem tudo… cheiro, cor, desenhor, personagens que dialogam… Difícil é transpor Machado de Assis para as telas, tanto é que pouca gente se arriscou. Um livro como “Memórias póstumas de Brás Cubas”, um monólogo gigantesco, é que é uma calo no pé de quem tenta transpor para o cinema. E mesmo assim conseguiram…
    O meu sonho é que alguém venha transpor “Ensaio sobre a Lucidez”, também substancialmente cinematográfico…

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  5. Olá, Evandro

    Tudo bem?
    Quem me indicou você foi a Valéria Miguez. Eu e ela somos amigas “orkutianas”. Então… eu faço um jornal para um grupo de cinema de São Paulo. É um jornalzinho quinzenal, mas desta vez, não estamos conseguindo artigos para publicar no jornal. Eu pedi à Valéria um artigo sobre o filme Ensaio sobre a cegueira. Ela disse que não tinha feito, mas citou o teu artigo. Gostaria de pedir para você, autorização para colocar o teu artigo em nosso jornal. Ele vai para mais de 400 pessoas, inclusive fora do Brasil. Claro que você não é obrigado a aceitar.
    O grupo tem um site: http://www.grupocinemaparadiso.com.br/. Neste site você pode ver os jornais anteriores e outras coisas. Você pode até escrever no próprio site.
    Se você autorizar, fique tranquilo que colocaremos a fonte e tudo o que for necessário. É possível que publiquemos mais a segunda parte, na qual você fala mais do filme, pois temos limite de tamanho para os artigos se encaixarem no jornal.
    Pense no assunto, e se você autoriza, por favor, me mande um email para janetepalma@gmail.com. Vou esperar até sexta-feira que é o prazo máximo para fechar o jornal.
    Abraços

    Janete Palma

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  6. Olá Marivone! Obrigado por seu comentário!

    Enfim, acredito ser difícil filmar qualquer obra do Saramago não pela falta de descrição de cenas ou de personagens, mas por perder a sua deliciosa forma de narrativa.

    É por isto mesmo que tanta gente levantou a bandeira do contra – inclusive eu, inicialmente – quando ficou sabendo que a obra seria filmada.

    E a verdade é que no filme nós acabamos por perder esta experiência única, porém ganhamos uma outra nas mãos de Meirelles, e no final o resultado valeu a pena!

    * Ensaio Sobre a Lucidez também é muito bom! Mas qual dos livros do português não é? Difícil seria escolher uma nova obra para filmar… Confesso que em minha mente me vem duas: o Memorial do Convento e A Caverna.

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  7. Olá Janete! Fico extremamente honrado em participar do teu projeto, portanto, você está livre para pegar qualquer um dos meus textos que achar conveniente, assim como formatá-los da forma que melhor se enquadrar no teu espaço.

    * Só de uma olhada na parte gramatical, pois geralmente não faço revisão de meus textos e sempre fica alguma coisinha!

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  8. Olá, Evandro.
    Recebeu meu email de agradecimento?
    Acho que o mundo está contra mim hoje. Parece que está dando tudo errado no meu computador, a começar pelo meu teclado que está falhando. Não sei o que fiz no GMAIL, que perdi teu email e não sei como te dar noticias. Por favor, me mande um email novamente.
    É o seguinte: eu gostaria de uns dados teus para colocar no jornal como fonte. Teu nome eu já sei, mas de qual cidade você é, e o que você faz. É comum colocar esses dados no jornal, para que o leitor tenha uma referência. Inclusive posso colocar o endereço do site do teu blog, ok? Pode ser?
    Obrigada!

    Janete

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