Crash – No Limite (2004). Você acha que se conhece?

Por: Eliude A. Santos.
Recentemente ganhei o DVD do filme Crash – No Limite. Esse filme se encaixa numa categoria especial para mim. Eu fui ver Crash no cinema sem grandes expectativas e o filme me surpreendeu… Fiquei impressionado com as histórias e os dilemas dos personagens e com a sensibilidade com que foram abordadas… Fiquei impressionado com o talento de Paul Haggis, roteirista e diretor, em encaixar temas tão nobres num roteiro tão bem amarrado: uma dona de casa e seu marido procurador de Justiça, uma família Persa dona de uma loja, dois detetives, um diretor de televisão e sua mulher, um chaveiro, dois ladrões de automóveis, dois policiais e um casal coreano, todos vivem em Los Angeles e durante um dia e meio entram em colisão uns com os outros das maneiras mais surpreendentes e reais.

O modo sensível como são contadas essas colisões pessoais já fica evidente na primeira frase que se ouve no filme: “É o sentido do tato… Numa cidade de verdade você anda, esbarra nas pessoas, elas topam com você. Em Los Angeles, ninguém toca em você. Estamos sempre atrás de metal e vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque que damos esbarrões uns nos outros só para sentirmos alguma coisa“, fala um personagem referindo-se a um acidente de carro que acaba de acontecer.

O tema central de Crash é o preconceito e a maneira como ele se manifesta das mais diferentes formas, mas não é um filme de denúncia. O preconceito é pano de fundo para o filme falar sobre relacionamentos e a teia de relações que existe entre pessoas. E, pelo modo como as histórias são contadas, você começa a desenvolver empatia pelas personagens que supostamente menos mereciam tal sentimento se víssemos somente parte de sua história. Isso nos ajuda a perceber que dificilmente conseguimos enxergar todas as ramificações de uma situação ou de uma personalidade para que nos coloquemos como juízes diante de qualquer fato, mesmo que a pessoa na tribuna esteja sendo julgada por si mesma, afinal o argumento do filme é “Você acha que se conhece? Você não tem a menor idéia!

O filme tem um argumento poético e utiliza-se dessa licença poética para conduzir a narrativa. O efeito da neve em Los Angeles (a exemplo da chuva de sapos em “Magnólia“, de Paul Thomas Anderson) não foi um erro. O filme é direcionado para americanos que sabem que não neva na Califórnia. Ele fala da frieza (gelo) de relações entre essa massa de americanos (de tantas partes do mundo) e de todo o preconceito que gira por trás dessas relações. Mostrando nos relacionamentos desses poucos personagens que todos estamos de certo modo conectados. Mas que a percepção dessa conexão é tão rara quanto seria nevar naquela cidade. Que normalmente sentimos essa ligação somente naquilo que reconhecemos, mas dificilmente o reconhecemos quando não  vemos essas ligações.

Com uma trilha sonora encantadora e um elenco talentosíssimo, Crash é um filme que nos faz parar e pensar, uma lição de vida que nos surpreende.

Por: Eliude A. Santos  Blog: Ode ao Ego.

Crash – No Limite (Crash). 2004. EUA. Direção e Roteiro: Paul Haggis. Elenco: Don Cheadle, Jennifer Esposito, Alexis Rhee, Shaun Toub, Marina Sirtis, Ludacris, Larenz Tate, Sandra Bullock, Brendan Fraser, Art Chudabala, Matt Dillon, Loretta Devine, Michael Peña, Ryan Phillippe, Terrence Howard, Thandie Newton, Ashlyn Sanchez, Beverly Todd, William Fichtner. Gênero: Crime, Drama. Duração: 113 minutos.

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8 comentários em “Crash – No Limite (2004). Você acha que se conhece?

  1. Oi Eliude!

    Grata! Também por compartilhar esse belíssimo texto!

    Esse filme é muito especial para mim! Me levou às lágrimas. Como também me levou a reavaliar minhas posturas… E isso é muito bom!

    Uma das cenas onde chorei muito, foi a que o cara resgata a moça em meio as chamas… Me fez lembrar de que se uma pessoa não tivesse feito o mesmo com alguém que muito estimo não estaria vivo – meu irmão mais velho. E esse senhor nem era policial. Ele passava pelo local na hora do acidente e parou não para olhar, mas para tentar ajudar. Como por um milagre passava um guincho do Exército na hora que puxou o carro que ficou debaixo de uma carreta que tinha atravessado de repente a outra pista levando três carros a baterem contra ela… O do meu irmão entrou por baixo dela… Segundos depois que resgataram o meu irmão o carro explodiu. Se ele tivesse seguido em frente meu irmão teria morrido. Foi um gesto nobre que o salvou!

    E sim! Esse filme vale sim muito a pena ver e rever!

    Ah! E o convite fica valendo para outros textos também!

    Beijo grande,

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  2. Recentemente, comentei no meu blog que Ensaio Sobre a Cegueira e Babel são os dois filmes mais urgentes dessa primeira década. O Crash só vi semana passada, e acho que fecha a trinca dos filmes definitivamente obrigatórios e urgente para refletirmos nossa condição como sociedade.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Celso!

    Eu ainda não vi “Babel”. Mas com certeza filmes que nos levam a não criar tantos ‘muros’, devem sim ser bastante divulgados.

    Se quiser escrever e compartilhar o sobre “Babel” 🙂 vou gostar muito! Se aceitar, é só enviar por email: texto e foto(s).

    Beijo grande,

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  4. Ops, se surgir uma boa idéia/forma para o texto, eu mando!

    Esse negócio de fazer uma lista de “os X isto que não sei o quê” é sempre incompleto. Sabe que pensando sobre essa coisa de filmes importantes, cheguei a conclusão de não só 3 filmes que são urgentes, eu acho – veja bem, é um acho – que seriam 4 e o quarto é até estranho junto aos 3 que citei anteriormente como obrigatórios e urgente: Extermínio (28 Days Later), que é muito menos direto e contemplativo, mas suas metáforas e suas situações a levam a reflexões interessantes.

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  5. Que legal! E também pode ser de um outro filme. Sendo que ainda não tenha sido trazido para cá. Para uma pesquisa mais rápida, na aba Acervo, tem a lista dos filmes (A qual estarei sempre atualizando.)

    E sobre filmes que merecem ser vistos, e com urgência, até por conta da violência urbana, dai nos levar a reflexões, e se possíveis a decisões… eu indico esse, também:

    https://lella.wordpress.com/2008/07/01/zona-do-crime-la-zona/

    Não vi ‘Extermínio’.

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  6. Ele fala da frieza (gelo) de relações entre essa massa de americanos (de tantas partes do mundo – e de todo o preconceito que gira por trás dessas relações) e mostra, nesses relacionamentos desses poucos personagens, que todos estamos de certo modo conectados. (mas que a percepção dessa conexão é tão rara quanto seria nevar naquela cidade)

    Perfeito!

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  7. Republicou isso em Cinema é a minha praia!e comentado:

    “Crash – No Limite”, um filme que vale muito ver e rever! Até por nos levar a reavaliar nossas posturas… Algo salutar de se fazer de vez em quando: eliminar “bagagens” inúteis… O Brasil atual está necessitando conhecer essa história! Não deveríamos estar “divididos”… Até fazendo uso das palavras do autor “o filme fala sobre relacionamentos e a teia de relações que existe entre pessoas”. Pois é! Somos todos uma grande aldeia global, onde “1%” quer continuar fazendo dos demais sua massa de manobra.
    Assistam e façam as suas considerações!
    Recomendadíssimo!

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