Linha de Passe. 2008

Por: Giovanni COBRA.
linha-de-passe-01Existe uma ou mais maneiras de ascensão social para o pobre além do casamento, a herança ou o esporte? A figura masculina paterna é tão vital que na sua ausência os limites estão abertos? A mulher trabalhadora não tem o direito de ter sua vida particular, íntima, suas necessidades e vontades? Filmar fatos reais não intervém com a visão cor de rosa da sociedade?

São Paulo – periferia é o cenário. Antenas, asfalto, mãos. Umas gritam pelo time e outras por Deus. Futebol e religião se discutem.

linha-de-passe1Walter Salles nos apresenta Cleuza, uma dona de casa exemplar, mãe de quatro filhos, trabalhadeira e grávida do quinto. Não tem companheiro algum. Fuma, toma cervejinha, torce pelo Timão e ama os filhos. Ela é absolutamente normal. Igual a milhares no ponto de ônibus pela manhã bem cedo.

O primeiro filho é craque, mas não consegue passar nas “peneiras”, falta um toque. Seja dinheiro ou sorte; ou ambos. O segundo é frentista e religioso. Um devoto fiel. Mas bate punheta como todo mundo e dá porrada se necessário for. O terceiro é motoboy. Já é pai. Irá ele perpetuar o abandono que sofreu? Utilizando da mãe do seu filho apenas para coitos rápidos e perigosos como sua moto? O quarto é um menino. É negro, os outros não. É o mais esperto, bem articulado, mas sente o falta do pai como uma lacuna idêntica ao compressor dos ônibus que tanto ama. Tem um buraco no coração.

O filme é uma colcha de retalhos bem alinhavada. Cada momento é de um filho. E a câmera aproveita para mostrar a cara desses atores. Suada, cheia de espinhas, cabeludos, desarrumados, despenteados, dentes falhos. Além do vestuário gasto, lembre bem da chuteira (tanto como ele amarra, como quando ele ganha uma e ainda pergunta se a mãe do riquinho não vai ligar…).

A marginalidade é um pequeno passo para todos os quatro. Ela circunda-os.

Talvez o motoboy seja o mais exposto. E ele sucumbe. Cenas de moto espetaculares e o tombo idem. Quem já caiu, sabe. Os fatos vão se superpondo de maneira mais rápida, e até iminência do parto. Tenho a vívida impressão de que não iria acabar bem. Mas o diretor é muito hábil. Deixa tudo em aberto, as possibilidade, a segunda chance.

E o final é como o grito da torcida. Antes de tudo, um desabafo.

O que há de bom: utilizar o futebol como uma das âncoras da narrativa, mas sem ser demasiadamente forçado.
O que há de ruim: ninguém estuda, ninguém vê o conhecimento como possibilidade de crescimento.
O que prestar atenção: o ralo desentope, o menino tem sua oportunidade, o pastor recolhe a ovelha perdida, o neném vai nascer, há uma esperança…
A cena do filme: ela sentada, espremendo, sozinha… quantas já não se sentiram assim?

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por:  Giovanni Cobretti – COBRA.   Blog do C.O.B.R.A.

Linha de Passe. 2008. Brasil. Direção: Walter Salles, Daniela Thomas. Elenco: João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaique de Jesus Santos, Sandra Corveloni, Ana Carolina Dias. Gênero: Drama. Duração: 108 minutos.

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12 comentários em “Linha de Passe. 2008

  1. Roselma de Fátima Medeiros da Silva
    Boa Tarde!

    Faz muito tempo que quero escrever esse email, só que consegui um minutinho agora!
    Vocês devem lembrar da escola que cedeu o prédio para a filmagem da quadra e do refeitório no filme Linha de Passe. Eu sou a coordenadora pedagógica que estava junto com o Ivan, que os recebeu.
    Confesso que fiquei meio de canto, só observando e procurando ver qual era a de vocês antes de dar a minha opinião. Devo confessar que tenho um censo crítico aguçado e olha que legal…descobri hoje que a Daniela é filha do Ziraldo, que contribuiu muito para isso! Sou de uma geração que é bem “cria” desses escritores.
    Mas o propósito aqui é outro: Quando Walter Sales ficou por muito tempo filmando um muro da nossa quadra (cena que não saiu no filme) que tinha a frase ” O Senhor é o meu Pastor e nada me faltará!” , tive uma vontade enorme de chegar perto e falar: Olha lá hein? Vê se não fica o tempo todo criticando crente. Mas preferi ficar na minha e aguardar.
    Quando assisti o filme fiquei muito feliz com o resultado e ainda mais com a entrevista do ator que fez o filho evangélico.Sempre morei na periferia, tenho os meus pais biológicos comigo até hoje, mais quatro irmãos (todos formados no superior), mas desde que decidi por conta própria frequentar uma igreja evangélica da região, sempre convivi com homens que souberam completar a minha educação e me ouviram quando eu discordava. Considero indispensável esses “pais”em qualquer contexto e quero agradecer, pois apesar de alguns impostores, vocês souberam focar o lado positivo do Evangelho. Obrigada
    Roselma de Fátima Medeiros da Silva

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  2. Oi Roselma!

    Grata por compartilhar conosco essa sua vivências!
    Deveras emocionante! Mesmo eu não seguindo nenhuma religião, respeito quem as segue. E mais ainda quem não fica alienado nela.

    Volte sempre,
    Beijos,

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  3. Assisti recentemente a um documentário feito na Índia, próximo a Calcutá, chamado NASCIDOS EM BORDÉIS e achei muito interessante. Não soube onde postar esse comentário, por isso continuei nesse espaço. Enfim, o documentário mostra crianças nascidas na região chamada LUZ VERMELHA e que passam pela experiência de fotografar seu próprio cotidiano. O interessante é a dificuldade que a moça que faz esse trabalho com elas encontra na hora de tentar achar uma escola para essas crianças: o fato de serem filhas de prostitutas, a possibilidade de serem soro positivo e a falta de documentos dificultam algo que poderia ser um direito garantido para elas, uma possibilidade de sair daquela situação. O final é surpreendente, pois apesar da chance que se abre na vida dessas crianças, a família tem papel fundamental no que de fato acontece. Apesar de serem dois países tão distantes e duas realidades aparentemente tão diferentes, tanto na Índia como no Brasil as histórias se repetem, de forma bem parecida!

    Roselma de Fátima

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    • Oi Roselma!

      Seja bem-vinda! E fique a vontade, essa praia é nossa!

      Eu quis ver o filme, mas pelo horário que iria passar na tv, não puder ver. Teria um dia agitado no dia seguinte. Ficou foi uma torcida para que reprisem.

      Com seu comentário, vou torcer mesmo para que o reprisem.

      Volte mais vezes!

      Beijos,

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  4. No primeiro comentário que postei, citei o Ziraldo como uma referência a mais na minha infância e adolescência. Hoje estão surgindo dúvidas sobre a conduta administrativa dele em um evento e há a possibilidade dele responder por improbidade administrativa.
    Aqui é um espaço destinado ao cinema, mas livro influencia muito o cinema, inclusive há filmes com a obra do Ziraldo.
    Se há algo de verdadeiro nessas acusações sou forçada a lembrar uma música, cantada pela Elis:

    Hoje sei que quem me deu uma nova consciência e juventude está em casa guardado por deus contando o vil metal…

    É uma pena!

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  5. Obrigado Lella, fico muito feliz com o seu conselho. Mas talvez até por essa consciência de falhabilidade que eu ( ou melhor: Nós ) admitimos que a “carne” falha e mesmo pessoas com uma tremenda capacidade crítica, um tremendo estudo,etc podem se emaranhar em fatos duvidosos, até sem má intenção, ou muitas vezes, por que quer mesmo! Por isso eu coloco no mesmo patamar: Ziraldo, Elis Regina, os padres, freiras, os pastores que conhecemos ao longo da vida…Em primeiro lugar, mesmo enxergando a realidade, eu só tenho que agradecer, pois são sempre lideranças que trilharam caminhos antes de nós, que deixam seu exemplo e que podem, de fato, evitar que façamos o mesmo!
    Grande beijo Roselma

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