Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things We Lost in the Fire. 2007)

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Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente“.

Assisti o filme por uma indicação, e gostei! Uma lida apenas na sinopse, talvez não o assistiria logo. Mas com o aval de quem me indicou foi que despertou a minha curiosidade de cinéfila. Até porque a tal sinopse não contava quase nada. Ou porque ao ver um nome por lá, me fez ficar desmotivada. Enfim, valeu mesmo ter assistido “Coisas que Perdemos pelo Caminho“! Só não sei se conseguirei omitir spoilers. Assim, se ainda não viu o filme, fica aqui a sugestão: Assista! O filme é muito bom! Depois então volte para uma troca de impressões.

Começo falando do título. De imediato, eu pensei em coisas que perdemos por displicência, por relapso… mas que sabemos que de uma hora para outra vai aparecer novamente. Mas assistindo o filme, claro que a perda principal fora por assassinato. Foi, e sem chances de voltar. Agora, com o desenrolar da história ficamos sabendo que há também a perda por… por preconceito!? Não! O termo seria outro. Por talvez criar uma barreira a aquilo que vai mexer com a rotina certinha da família. Ou dela própria. Uma atitude mais reacionária.

Entrando no filme. Um casal feliz, com um casal de filhos, voltam das férias ao lar doce lar. Antes da vida seguir a rotina normal – trabalho, escola… -, eis que o paizão, Brian (David Duchovny), sai para comprar sorvete para os filhos, à noite, e é baleado. Não por um assaltante, mas sim por um homem que batia violentamente numa mulher. Brian foi intervir. Parando para ajudar, para fazer um bem, terminou perdendo a vida. Então, em vez do maridão, Audrey (Halle Berry) recebe a polícia com a trágica notícia.

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Como citei no início, um nome não me motivava a assistir esse filme. O dessa atriz, Halle Berry. Até então, não gostava das suas interpretações. No que vi antes desse, “A Estranha Perfeita“, mais parecia uma cópia da Angelina Jolie. Para mim, faltava a ela uma performance visceral. Nesse ela está no caminho certo. Ela conseguiu passar dor, revolta, medo, frustração, raiva, comiseração, tristeza, desejo, serenidade… E por ela mesmo, sem me levar a pensar em outra atriz. Mais um ponto que me fez gostar desse filme.

Durante o velório lembra que tem que avisar alguém. Então seu irmão, Neal (Omar Benson Miller), vai buscar a tal pessoa. Ele é Jerry (Benicio Del Toro). Alguém muito especial para o Brian. Eram grandes amigos. Mas por ser um viciado seus encontros eram longe do seu sacrossanto lar. Na primeira fase do filme, paralelo ao velório e ao enterro, se tem os momentos que antecederam a morte do Brian. Ele teve tempo de comemorar o aniversário do Jerry. É quando vemos o carinho e a cumplicidade entre os dois. Algo que Audrey não entende. Até põe a culpa em Jerry pelo sumiço de um dinheiro dentro do carro do casal.

Ao descobrir o dinheiro caído entre os bancos do carro, a título de diminuir a sua culpa, o leva para morar num quarto ao lado da garagem. Agora, com o desenrolar da história, ela irá lidar com outros fantasmas seus. E Jerry será o seu saco de pancada.

Para o pequeno Harper (Alexis Llewellyn), a chegada de Brian fora uma benção, pois veio suprir a perda repentina do pai. Já para Dory (Micah Berry), já adolescente, há um misto de rejeição, receio de se apegar e haver uma nova perda, mas há um bem querer.

Durante o velório, o vizinho e amigo de Brian, Howard (John Carroll Lynch), primeiro se espanta em saber que Jerry também era amigo de Brian, por nunca tê-lo visto, nem tinha conhecimento dele. E mais um pouco ao saber que era um viciado. Mas o jeitão do Jerry, somado ao fato de ter sido especial para Brian, joga fora seus pensamentos, nascendo ali uma amizade. Muito embora, ambos não sabiam. Jerry apesar do vício, era uma pessoa cativante.

benicio-del-toro1Pausa para falar do Benicio Del Toro. Ele dá um um show de interpretação. E mais! Faz uma bela dobradinha com a Halle Berry. Não tira o brilho nem dela, nem dos demais com que contracena. Dá ao seu personagem um jeito meninão, mais de um modo que seduz a todos.

Enquanto com a morte de Brian, Jerry tenta se livrar das drogas, Audrey põe para fora todos os sentimentos. E através de falas que põe o dedo na ferida. Algumas me levavam a exclamar um ‘PQP! Por que isso agora, mulher!?‘ Noutras ficava num simples ‘Putz!‘. É! Por essas falas ela descarregava nele toda a sua revolta por ter perdido o seu grande amor. Por ser ele um inútil, viciado em drogas. Por descobrir que ele sabia tanto de tudo o que tinha acontecido com a sua família, de coisas que nem ela sabia. Por ele estar tomando o espaço do pai para seus filhos. Por ele estar vivenciando momentos que seriam do Brian. Enfim, a raiva maior dela foi ter descoberto que perdeu momentos por ter sido tão reacionária.

Antes do desfecho final se o Jerry não fosse tão especial teriam os dois arruinados suas vidas. No caso dele, teria sido a ruína de vez. A cada frase dura, proferida a Jerry, a enfraquecia mais. Audrey, ora o jogava num inferno, ora o tirava de lá. Uma fera ferida. Num momento de lucidez Jerry viu que precisava fazer algo por aquela família, mas que não conseguiria sozinho.

E no final… Bem, eles souberam que enterraram mais que o Brian. Que na vida há perdas irreparáveis, como também que há aquelas que se faz necessário “perder” para então seguir em frente sem cargas inúteis. Há realmente coisas que se deve abandonar pelo caminho. Que há também aquelas que um dia voltam renovadas. Para eles dois, foram pelo bem querer que o Brian deixou a seus entes queridos.

É um filme que deixou uma vontade de revê-lo um dia. Mas não o chamaria de filmaço. Nem daria uma nota máxima. Dou um 9.

Por: Valeria Miguez (Lella).

Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things We Lost in the Fire). 2007.  Reino Unido. Direção: Susanne Bier. Elenco: Halle Berry, Benicio Del Toro, David Duchovny, Alexis Llewellyn, Micah Berry, Alison Lohman, John Carroll Lynch, Omar Benson Miller. Gênero: Drama. Duração: 118 minutos.

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7 comentários em “Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things We Lost in the Fire. 2007)

  1. Pingback: amizade » Blog Archive » Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things We Lost in the Fire)

  2. Adorei o seu blog. Ainda não tive tempo de ler muito, mas pelo pouco que li, gostei muito.
    Posso colocar uma referência a ele no meu blog? Eu escrevo também sobre filmes, mas também um pouco de tudo. Um pouco de mim em pequenas doses.
    Abraços e tudo de bom!

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  3. Oi Adilene!

    Grata! E fico honrada por linkar meu blog 🙂

    E já que também gosta de escrever sobre filmes, fica o convite caso queira compartilhar um texto seu. Ele só precisa ser inédito aqui. Vou lá no seu blog, assim fica conhecendo meu email por onde enviar texto(s) e foto(s).

    Beijo grande,

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  4. Lella,
    Já faz um tepinho que vi esse filme e talvez não esteja com o pensamento tão organizadinho, se é que algum dia tive alguma organização assim…
    Mas lembro que vi esse filme sempre na expectativa da cena seguinte desejando que as coisas mudassem, igualzinho na vida real, onde esperamos mudança e se ela não vem, ficamos com uma eperança boba, oca, sem razão de ser, no fundo não querendo acreditar no que aconteceu ou tentando desenhar pra entender…
    Porque será tão dificil assimilar que a mudança está em nossas mãos o tempo todo?
    É difícil se rever e perceber que vivemos errados e que vivedo ao lado de anjos, fomos pimenta em vez de manjar…

    Tenho este filme na memória como um filme de grandes atuações. A ex-pior-mulher gato que o mundo já viu, se redime sim e me irritou profundamente, por esta personagem comum e, por comum que era, evocar muito do que temos por dentro e soterramos.
    Nítido o julgamento que ela fazia do porque de um drogado imprestável sobeviver, enquanto alguém com tanto a acrescentar se vai…
    A nossa capacidade de generalizar sem base alguma, se era drogado, porque não ladrão?
    A sua incapacidade de amar alguém que não tivesse em si resquício dela mesma.
    O medo da perda do objeto do nosso amor que põe a perder.
    Um Jerry bom, que nos faz refletir no paradigma que pessoas boas fazem coisas ruins, principalmente a si mesmas e a dor que atinge os que estão em volta é somente uma consequencia. O mal como o bem é uma pedra o lago…

    Sim, não é um filmaço! Algo que fale tão de perto da vida e trace um perfil tão dubiamente delineado, não poderia sê-lo. Mas é para ser revisto em fases diferentes da vida e pressinto que doeria em todas elas.
    Não fomos feitos para perder, nem para sofrer, mas só por este caminho que descobrimos um reverso muito parecido com a felicidade.
    Eu vou rever o filme no domingo e retorno com um comentário menos viajante na segunda, ok?

    bj e agradeço, por ter a minha indicação furado a fila! Não te deixaria sem um post num caso como este.

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  5. Linda!
    Tendo outras sugestões assim, é só dizer! Eu amei!

    Será um filme bom de rever por não mais ficar atenta a cena seguinte. Nem da que me assustou por ela querer aquela sensação inicial que teria com a heroína, mas como permanente. Seria uma fuga cruel até porque poderia perder nisso seus filhos.

    Esse lance de uma certa faxina em querer eliminar os que estão a margem da sociedade assusta. E é algo que eu já ouvi várias vezes.

    Como também de colocarem a casa numa redoma de vidro.

    O Jerry me fez pensar em algumas pessoas. Por elas não nasceram para o topo. Mas pelas cobranças acabam se entregando ao vício. É preciso ter um Brian na vida delas para não se destruírem de vez.

    A Audrey da Halle me surpreendeu! Nossa! Foi muito bom ver esse filme também por isso.

    Por eu ter gostado muito, acho que fiquei exigente demais. E por algo que não gosto: o de não saber dizer o que faltou nele para ser um filmaço. Pode ser que ao rever eu até mude idéia, ou descubra o que faltou.

    Pois foi somente na segunda leitura, e montando uma árvore genealógica do personagem, que eu me encantei e fui as lágrimas no final, com o livro “Cem Anos de Solidão”.

    Por eu me dar outra chance, foi que vislumbrei coisas não vistas antes.

    Seu texto foi é muito lúcido! Como sempre!
    Sou sua fã!

    Deixa para rever o filme outro dia. Até porque domingo será o dia que nos conheceremos – olhos nos olhos. Estou em contagem regressiva 🙂 Poderia escolher um que ainda não tem aqui no blog. Pidona eu 😀

    Beijão!!

    Beijão,

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  6. Vi esse filme já tem um tempinho…Tudo o que falaram do filme foi ótimo e muito próprio…Mas tem uma parte que eu considerei muito importante…A questão do apego trabalhada na lista das coisas que eles haviam perdido no fogo, qdo tiveram o incêndio na garagem…Ela lamentando a perda das coisas e ele (o falecido marido) ressaltando que o que era realmente importante não havia sido perdido…No momento daquela lembrança é que parece que ela realmente se dá conta do que perdeu de fato…E a Halle Berry faz bonito demais nessa cena, em fração de segundos a gente vê o que se passa na cabeça dela…Foi demais!!!Adorei esse filme e para mim ele é um filmaço…Benício Del Toro só esteve melhor em 21 Gramas…
    Valéria…Para tirar de vez sua vírgula com a Halle veja ‘Aos Olhos de Deus”…Essa moça, qdo. quer faz direitinho…rsrs…
    bj.

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  7. Oi Silvania!

    Que bom que conseguiu postar 🙂

    Quando eu rever o filme, prestarei mais atenção na tal lista que ela pegou no escritório do marido. E sim, o fogo está até no título.

    Vou ver se acho o “Aos Olhos de Deus”. E caso queiras escrever sobre ele e compartilhar 🙂 está feito o convite.

    Beijão,

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