Regressão e Onipotência em “O Homem Que Queria Ser Rei”

the-man-who-would-be-kingPor: Eduardo S. de Carvalho.
Todo bom filme sobre poder e conquista tem a possibilidade de mostrar algo muito além nas entrelinhas. Sob a aparência de mero filme de aventuras, ou até mesmo uma crítica sócio-política, podemos ver como o ser humano lida – mal – com suas fantasias infantis de controle sobre seus semelhantes.

Um  filme que ilustra muito bem o tema é O Homem Que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King), produção do início dos anos 70. Protagonizada por Sean Connery, Michael Caine e Christopher Plummer, a aventura dirigida por John Huston mostra dois desertores do exército britânico na Índia em meados do século XIX, abandonando suas funções para se embrenharem na desconhecida geografia local e “conquistarem” o longínquo Kafiristão.

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Planejado por Huston na década de 40 para Humphrey Bogart, a fita só foi rodada cerca de trinta anos depois. Dificilmente teria sido melhor do que com outra dupla principal. Caine interpreta Peachy Carnehan, um dos desertores e narrador da estória para o público e para um assombrado Rudyard Kipling (autor do conto original, vivido por Plummer), fazendo um perfeito contraponto com Daniel Dravot (grande papel de Connery, injustamente  ofuscado em sua carreira  por James Bond e o Jack Malone de Os Intocáveis ).

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A relação de ambos, marcada pela amizade e lealdade, mostra sutis diferenças entre os personagens. Aparentemente o mais afoito dos dois, Peachy mostra-se logo mais centrado do que seu amigo; ao conhecermos Dravot, vamos percebendo que a calvície e as longas costeletas de Connery escondem uma profunda e perigosa imaturidade do personagem no que diz respeito à autoridade.

Ao decidirem partir para o Kafiristão, a dupla simula uma situação na qual Dravot é um bruxo louco, e Peachy, o tradutor de suas esquisitices. É uma dica para o que se vê ao longo da fita: em outras situações – a nevasca na fronteira do Kafiristão, por exemplo –, vemos que Peachy funciona o tempo todo como um guia para seu parceiro.

A cada erro que Dravot comete ou irá cometer, Peachy está presente para orientá-lo, trazê-lo de volta à realidade. O interessante é que a psicologia de Dravot não é mostrada de forma estereotipada, e Sean Connery compõe o personagem com uma  destreza impressionante. Sua interpretação é tão eficaz, que é comum o espanto do espectador com Dravot quando este assume o papel divino que lhe é imposto. Se até este ponto Peachy é seu ego auxiliar, é aqui que seu amigo mostra claramente a infantilidade de que é constituída sua psique.

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Em retrospecto,  podemos observar que, quanto progressivamente mais se afastava de sua civilização e sua cultura, Dravot adentrava um mundo arcaico e obscuro. Tal viagem é a metáfora perfeita, construída por Kipling e Huston (co-autor do roteiro adaptado), de um retorno psíquico, de uma regressão a uma fase do desenvolvimento em que o sujeito em formação acredita-se o rei do mundo, um deus, em torno do qual todos os seres se movem e nele encontram sua razão de existir.

A crença de Dravot em se ver como sucessor natural de Sikander é formidável como exemplo dessa regressão. O sujeito que tudo deseja, sem reconhecer limites a tais desejos, está fixado a  um momento da infância no qual estava assimilando os impedimentos impostos pelas figuras parentais. Se tal sujeito não teve em sua formação alguém que cumprisse a chamada função paterna – estabelecer e fixar limites e normas, em especial a interdição edipiana, necessários a uma futura boa convivência social – , esse indivíduo terá a possibilidade de viver em permanente conflito entre suas fantasias de poder e a vida em comunidade.

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E quem de nós, em determinado momento de nossas vidas, nunca desejou realizar tal fantasia ? Quem jamais imaginou em subverter os papéis de comandante e comandado, tomando nas mãos o poder de um superior hierárquico, assumindo uma autoridade que por direito não era sua, pelo simples prazer de arrebatar-lhe o posto ? Ou, o que seria mais catastrófico, destituir qualquer indivíduo do direito de dirigir, de governar, não reconhecendo as instituições sociais e políticas constituídas para tais fins ?

O destino trágico de Daniel Dravot anuncia o perigo da crença neste suposto heroísmo – um narcisismo infantil que persiste em muitos de nós, adultos – , onde o sujeito não vê os limites para suas ações e seus instintos, sendo engolido por eles. Pois o real destino do homem é conhecer suas qualidades e deficiências, a face santa e a face demoníaca, para, por fim, aprender a equilibrar-se entre o animal e o divino.

Alguns filmes mais recentes, como Um Dia de Fúria e Clube da Luta, podem ser vistos pelo prisma da satisfação imediata do instinto de agressividade, levando tal questão às últimas conseqüências. No entanto, O Homem Que Queria Ser Rei ainda demonstra, de uma maneira bela e marcante, as deficiências do homem que não consegue encontrar seu lugar no mundo civilizado.

Por fim, cabe o rascunho de uma outra visão. Abandonando suas terras para conquistar nações longínquas, subjugando povos para adaptá-los à sua cultura, Daniel Dravot sintetiza em sua figura toda a magna loucura de um império que se julgava indestrutível. A mesma loucura que move o líder de outro império, no limiar deste novo milênio, na tentativa de satisfazer a mesma eterna fantasia do homem imaturo, inadaptado a seu próprio mundo.

O Homem Que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King. 1975).  Reino Unido. Direção: John Huston. Elenco: Sean Connery, Michael Caine, Christopher Plummer. Gênero: Ação, Aventura, Drama. Duração: 129 minutos. Adaptado de um conto escrito por Rudyard Kipling.

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7 comentários em “Regressão e Onipotência em “O Homem Que Queria Ser Rei”

  1. Caramba, quando vi esse filme (numa madrugada por volta de 1990), fiquei embasbacado pela atuação Sean Connery e do Michael Caine. Pensei: “se eu pudesse escolher ser um ator, ficaria em dúvida entre os dois.”

    Fiquei tão marcado que, acompanhando a carreira de ambos, só tive mais certeza de que se eu fosse ator, eles seriam meus modelos. E cada vez mais, fui ficando em dúvida sobre qual dos dois eu seria, se pudesse me transformar.

    Depois de O Americano Tranqüilo, Filhos da Esperança, O Grande Truque e, acreditem, Batman(s), (e considerando os últimos trabalhos de Connery), digo que eu gostaria de ser o Michael Caine. Até porquê ambos hoje só fazem o que querem e não precisam provar nada para ninguém, mas além de ter mais charme, mesmo no mais sutil e menor dos papéis, Caine ainda transmite a energia artística que transmitiu em “O Homem que Queria Ser Rei”.

    E é isso.

    ‘braços

    Celso Bessa

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  2. Oi Celso,

    eu não vi esse filme. Mas seu comentário, veio reforçar o desejo de assistir 🙂

    E sim, esses dois tem uma excelente bagagem!

    Ah sim! Quando enviará um texto seu? 🙂

    Beijo grande,

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  3. Pois é! Eu deixei um post lá. Mas acho que dei um fora. É que achei que ela tinha indicado meu blog no Best Blogs Brasil. E vendo a atualização dos já indicados, só foi uma única vez. E essa indicação foi minha 🙂

    De qualquer forma, é sempre bom saber que tem quem goste daqui!

    Escreva sem pressa, pois assim será por prazer, e não por obrigação. Só não deixe de olhar no acervo para ver se o que escolheu, ainda não foi comentado aqui 😉

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  4. Pingback: O Homem Que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King) : tradutor

  5. Tremendo filme, vi na bandeirantes numa noite de domingo, muito antes das facilidades de downloads dos P2P atuais.
    “genero aventura” realmente, não a mediocridade da decada de 80 com os Rambo, Arnold e Norris.
    Em tempo, não dá para comparar os papeis de connery neste filme e em “os intocáveis”.

    Abrax!

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