A Fraternidade É Vermelha (Trois couleurs: Rouge. 1994)

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A Fraternidade é Vermelha. Uma singela homenagem à França que Kieslowski tanto amava…

A fraternidade é um conceito filosófico profundamente ligado às idéias de Liberdade e Igualdade e com os quais forma o tripé que caracterizou grande parte do pensamento revolucionário francês. Vale lembrar que dos três, foi o único que não esteve no lema Iluminista, que era “Liberdade, Igualdade, Progresso”.

A idéia de fraternidade estabelece que o homem, enquanto animal político, fez uma escolha consciente pela vida em sociedade e para tal estabelece com seus semelhantes uma relação de igualdade, visto que em essência não há nada que hierarquicamente os diferencie: são como irmãos (fraternos). Este conceito é a peça-chave para a plena configuração da cidadania entre os homens, pois, por princípio, todos os homens são iguais. De uma certa forma, a fraternidade não é independente da liberdade e da igualdade, pois para que cada uma efetivamente se manifeste é preciso que as demais sejam válidas.

A fraternidade é expressa no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem quando ela afirma que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

A palavra é eventualmente confundida com a expressão caridade e solidariedade, embora elas tenham significados radicalmente diferentes. Enquanto a fraternidade expressa a dignidade de todos os homens, considerados iguais e assegura-lhes plenos direitos (sociais, políticos e individuais), a idéia de caridade cria a desigualdade entre os homens, na medida em que faz crer que alguns deles possuem mais direitos e são superiores e portanto são generosos quando os compartilham com os demais.

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A simbologia das cores da bandeira francesa representadas nos filmes por um lado simples de se entender, sob outra ótica, não. Muito além da retórica. A igualdade é branca. Realmente, já que o branco é a soma de todas as cores. A liberdade é azul. Gagarin, já dizia: a Terra é azul; contemplando daqui debaixo, dizemos: céu, o infinito é azul. A fraternidade é vermelha. Os laços sangüineos… a amizade fraternal que surge entre uma modelo e um juiz aposentado. Para Krzysztof Kieslowski este último seria uma premonição, os últimos acontecimentos da sua vida, ou simplesmente ROUGE.

Bem, brincadeira à parte. E até hoje costumo conversar com um amigo sobre um da trilogia. Quanto ao filme “A Fraternidade é Vermelha“, penso que ele todo tem enes interpretações do início ao fim, não apenas o final na tragédia com o navio.

Já percebeu que o Krzysztof Kieslowski e suas personagens sempre têm voyeurs? (vide “Não Amarás“) A arte imitando a vida, como nos tempos atuais; vivemos “fuçando” o orkut alheio. E cada um faz como pode e do seu jeito. O velho juiz, através da linha telefônica ouvia a conversa dos seus vizinhos; a própria filha de um deles ouvia a conversa do pai na extensão; o jovem juiz que aparece na trama paralela seria ele mesmo? Na juventude ele foi traído pela amada; no presente, ela, a modelo foi traída pelo namorado; enfim, duas histórias ou que se repetem, ou poderia ser a mesma.

Em uma das conversas do juiz com a modelo Valentine (não me lembro agora o nome da personagem) ele diz ter sonhado com ela com aproximadamente uns 50 anos de idade. Isso nos faz interpretar também se tratar de um sonho (real) dele com a sua amada do passado.

Fiquei meio curiosa com uma das cenas de ROUGE, mas não consigo me lembrar da cena tão citada “garrafa se quebrando”. Lembro-me do local onde Valentine um dia foi jogar boliche e sobre uma mesa estava um copo quebrado. E essa imagem durou um tempo considerável. Qual é o significado? Esse filme é cheio de linguagem metafórica não? Será que a personagem de Irène Jacob não teria saído direto de A Dupla Vida de Veronique para esse outro filme?

Por último, para não me alongar muito, o acidente que ela sofre, se não me engano, sobraram sete sobreviventes (o mesmo número de filhotes da cadela do juiz, também um número cabalístico); os sobreviventes são apresentados, um a um, e por último surge ela, a modelo, e essa aparição lembra uma das fotos que ela fez na qual deveria mostrar uma expressão de tristeza. Parecia tratar-se da mesma foto. Daí as interpretações realmente são inúmeras: ela poderia ter morrido, como também poderia ter sobrevivido, já que, ele dá um sorriso de felicidade; mas o filme acaba nessa foto, o da expressão triste. Uma premonição? Talvez ele tivesse tido mais sorte desta vez e ela não ter morrido, já que ele se apaixonou… Talvez tudo não tivesse passado de um sonho… a esperança nunca morre.

Por: Karenina Rostov.   Blog:  Letras Revisitadas.

A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge). 1994. Polônia. Direção e Roteiro: Krzysztof Kieslowski. Elenco: Irène Jacob (Valentine), Jean-Louis Trintignant (Juiz), Frédérique Feder (Karin), Jean-Pierre Lorit (Auguste), Samuel Le Bihen (Fotógrafo), Marion Stalens (Veterinário), Teco Celio (Barman), Jean Schlegel (Vizinho), Juliette Binoche (Julie), Julie Delpy (Dominique). Gênero: Drama. Duração: 100 minutos.

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2 comentários em “A Fraternidade É Vermelha (Trois couleurs: Rouge. 1994)

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